existir a antinomia presença/ausência de identidade en-
tre o signo e o objeto, a fim de que se possa evitar a
morte da "consciência da realidade", sugere o modo
pelo qual Jakobson procura vincular a poeticidade à
articulação dos espaços real e poético que estruturam
o poema.
Estava, deste modo, preparado o caminho para
que, em "Linguistics and Poetics", fosse rastreada uma
definição da função poética da linguagem que não so-
mente vinculasse fatores (emissor, destinatário, men-
sagem, contexto, código e contacto) e funções da co-
municação verbal (respectivamente, emotiva, apelativa,
poética, referencial, metalingüística e fática), como ain-
da se fizesse dependente do próprio modo de vincula-
ção. Por isso mesmo, no ensaio mais recente, o de
sempenho da linguagem é apreendido em termos de
orientação, repercutindo o conceito husserliano de in-
tencionalidade62, sem que, no processo global de co-
municação, seja excluída qualquer uma das funções
possíveis.
Assim sendo, a função poética, isto é, aquela em
que a comunicação é orientada para a própria mensa-
gem, para que possa atuar na definição estrutural de
um poema, deve ser estabelecida levando-se em conta
a relação entre ela e as outras funções predominantes
no processo de comunicação verbal.
Ora, além de possibilitar uma reflexão renovada
acerca de uma tipologia dos textos poéticos a partir
de uma base lingüística, como propõe Jakobson sobre-
tudo no que se refere ao Épico e ao Lírico, o ensaio
sugere ainda a viabilidade de uma discussão acerca da-
queles textos em que a construção seja assentada numa
reflexão sobre o próprio código utilizado pelo criador.
Neste sentido, ao categorizar lingüisticamente a função
metalingüística e ao propor o seu modo de relaciona-
mento com a função poética, o ensaio de Jakobson dá
uma pista fértil para o estudo do poema moderno. Na
verdade, embora o texto não leve adiante uma discussão
a respeito, restringindo-se à anotação da função meta-
lingüística em termos especificamente lingüísticos, isto
(62) Para uma excelente aproximação ao conceito aplicado à leitura
de textos, ver E. D. HIRSCH, op. cit., pp. 218-224, onde intenção, de
acordo com Husserl, é definida como "a relação entre um ato de apreen-
são e seu objeto" (p. 218).
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