que, por não ser possível atingir o objetivo da poésie
pure, haveria o poeta de render-se ao domínio da “im-
pureza" de conteúdo. Entretanto, se se pensa mesmo
em termos de "consciência de linguagem”, não é pre-
ciso fugir do campo da reflexão formal para que se
tenha, em grande parte, explicada a vinculação ao "im-
puro" que limita a linguagem do poeta. Na verdade,
sendo o próprio ato de apreensão da linguagem tanto
histórico, coletivo, quanto individual, desde o início,
portanto, o instrumento com que conta o poeta está
impregnado de "impureza": não fosse assim, não teria
sentido a frase de Mallarmé que está em sua apreensão
de Edgar Poe já mencionada. Seja como for, “dar um
sentido a frase de Mallarmé que está em sua apreensão
mente reinventar a partir de uma coletividade, de uma
tribo. E o que o verdadeiro poeta inventa, e por isso
ele é inventor, é um novo tecido de relações até ele
inexistente. Que esta nova tessitura venha a constituir-
se numa nova gramática da poesia, como sempre tem
ocorrido com os novos tecidos que resultam de um
aprofundamento dos limites da linguagem da época em
que se inscreve o criador, em grande parte se explica,
para usar da terminologia de Roman Jakobson, pelos
elementos que configuram uma poesia da gramática44.
Por isso mesmo, torna-se difícil, e arriscado, como o
trecho de Eliot comprova, refletir acerca da auto-refe-
rencialidade incrustada no poema moderno sem pensar
em termos de linguagem, ou melhor ainda, de função
poética da linguagem, como está em Mukarovsky, em
Jakobson ou, mais recentemente, em Bierwisch. De
fato, conceitos como o de denotação, conotação, am-
bigüidade etc., ainda fundamentais para uma defini-
ção do poema, e não apenas do poema moderno, são
melhor repensados desde que insertos numa perspecti-
va de relacionamento das funções da linguagem. Assim,
por exemplo, Mukarovsky, no ensaio pioneiro em que
procurou estabelecer relações e diferenças entre a lin-
guagem-padrão e a linguagem poética, chega a afirmar
a dependência interna do subject matter em função de
um conceito do texto poético como "uma estrutura di-
(44) A expressão, que intitula o último volume de suas obras edita-
das pela Mouton, tem o valor de insistir na interdependência entre poesia
e linguagem, où melhor, entre a liberdade do poema e sua vinculação
ao código de uma dada língua.
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