Relação Sustentável na Amazônia
Relação Sustentável na Amazônia
9 /Julio-diciembre 2016/ 15
Artículo de investigación
Resumo Resumen
5
Doutor em Ciências Socioambientais - NAEA\UFPA; Mestre em Comunicação e Linguagens - UTP\PR; Especialista em
Comunicação Empresarial - PUC\PR. Professor da Universidade de Belém Pará, Brasil. E-mail: mdmacedos@[Link]
6 Doutorado em Antropologia pela City University of New York e pós-doutorado nessa mesma Universidade. É Professora Associada
IV, Regime: Dedicação exclusiva, da Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil; junto ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos
(NAEA). Email: simonianl@[Link]
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Macedo, M., Lopes, L. / Revista Amazonia Investiga. Vol. 5 Núm. 9: 15- 28 / Julio-diciembre 2016 16
Abstract
In this article, walk through sustainability and consumption relations between human and nature from the
reproductive capacity of ecosystems, in which each action, a part of the ecosystem, generates changes in
other parts, you can, in turn, start new changes. The methodology was qualitative, made with the
application of the method of bibliographical research, documentary. Las empleadas techniques for la
recolección de los datos were safety information field y de investigación y producción de imágenes,
photographs. For the analysis of information is used the technique of content analysis and analysis of the
same understanding. The results of a discussion on historical context, consumer economics and culture,
with the presentation and analysis of the relationship human being and nature on Amazonian reality and
world, too, with emphasis on the prospect that this relationship is, first of all, the relationship of the human
being himself. The findings reveal that, emphasizing the cultivation of Acai, extractive activities can
contribute to the development of the region and strengthening a sustainable production chain with
vocation.
1962), somente quando a poluição, a extinção de quantidade suficiente e apropriada para satisfazer
inúmeras espécies animais e vegetais, o as necessidades do ser humano por meio de seu
esgotamento de recursos naturais e o trabalho.
aquecimento global já se tornavam situações
preocupantes. Nas sociedades consideradas Entretanto, o desejo do ser humano de
primitivas, a natureza nem sequer era exercer seu poder, subjugando plantas, animais,
reconhecida como algo distinto dos seres elementos naturais e até mesmo outros homens
humanos e de seus espaços de vida. Se as à sua vontade, vem acarretando diversas
relações sociais não tivessem historicamente complicações ao longo da história. Os problemas
conduzido a uma ruptura entre o mundo natural socioambientais atuais são resultado de um
e o mundo social, ainda hoje, talvez, o ser humano processo longo, que teve início a partir do
se enxergasse como parte da natureza. momento em que, de acordo com Mendonça
(2005, p. 48), “[...] alguns seres humanos se
Compram-se carros modernos, aparelhos de sentiram em condições de subjugar as florestas e
DVD de última tecnologia e computadores os povos que as habitavam e fazer prevalecer
portáteis sem uma consciência ecológica de que seus modos de ser e fazer a vida”. E
cada pequeno detalhe que constitui esses concordando com Albuquerque (2007), “[Pode-
produtos teve de ser construído com matéria e se] até mesmo dizer que a desigualdade social e
energia retiradas da natureza. As teorias a crise sócio-ambiental são causadas, em sua raiz
econômicas também refletem essa alienação, mais profunda, pelo desejo do ser humano de ser
como se a economia estivesse acima da natureza superior e exercer sua vontade sobre o meio
e, de acordo com Pádua e Lago (2004): ambiente e sobre os outros” (p. 25).
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É razoável pensar que sempre houve e também sobre os contextos de uma economia
exclusão, guerras e injustiça e que, portanto, de consumo e da cultura. Depois, apresenta-se e
essas são características inerentes ao ser humano analisa-se a relação ser humano e natureza nos
de qualquer época, sendo impossível uma contextos amazônico e mundial. Por fim, têm-se,
sociedade viver sem tais conflitos. Contudo, ainda que suscintamente, as conclusões as quais
segundo Albuquerque (2007), “[...] na pré- revelam que, dando ênfase à cultura do açaí, as
história, os povos de cultura matriarcal atividades extrativas podem contribuir com o
mantinham uma relação equilibrada e desenvolvimento da região e fortalecimento de
harmoniosa com a natureza e com seus uma cadeia produtiva com vocação sustentável.
companheiros, repartindo o alimento que
conseguiam e ajudando-se mutuamente” (p. 32). Aspectos Teóricos sobre a Relação Ser
No entanto, isso não significa que as sociedades Humano E Natureza
pré-históricas não conhecessem as dificuldades e
os conflitos existentes entre grupos de regiões As raízes de nossas crises globais atuais
diversas e disputas internas quando havia remontam a algumas mudanças grandes que
escassez de alimento ou moradia. foram ocorrendo gradativamente na passagem
do período pré-histórico para o período
Abordagem metodológica histórico. A análise da historiadora Eisler (1989)
sugere que o problema não se encontra na
Do ponto de metodológico, trabalhou-se com tecnologia em si, mas na ênfase dada a seu uso, o
uma abordagem qualitativa, o que envolveu que amplia os horizontes e abre a mente para
pesquisa bibliográfica, documental e também possibilidades novas, visto que o
observações feitas em campo e pesquisa e a desenvolvimento de tecnologias, como o das
imagética de produção fotográfica. Como artes, é expressão fundamental da natureza
método de análise usou-se a ‘análise de humana. Antes, o modo de pensamento era
conteúdo’ e a partir do entendimento de Bardin coletivo e participativo e permitia entender a
(2006), que propõe a análise das mensagens – em comunhão das pessoas com os rebanhos, as
termos de conteúdo e expressão desse pastagens e os outros animais, enfim, com a
conteúdo – e, inclusive, permitindo inferências. natureza.
Mas seus limites hão de ser ressaltados, como os
propostos entre outros por Flick (2009), ao Na separação entre sujeito (ser humano) e
afirmar que “[...] a interpretação de dados é a objeto (natureza), está a gênese dos problemas
essência da pesquisa qualitativa, embora sua ambientais, pois acabou provocando uma falsa
importância seja vista de forma diferenciada nas impressão de que, se o ser humano não faz parte
diversas abordagens” (p. 276). da natureza, interferir nela não trará
conseqüências para ele, tornando-se um simples
A utilização de fotografias e de figuras ressalta objetode exploração. A relação ser
a importância da imagética ou visualidades, as humano/natureza é, antes de tudo, uma relação
quais são essenciais para a compreensão da do ser humano com ele mesmo, que age na
relação natureza e ser humano. Vejam-se natureza a partir de sua vontade e de seus planos.
Malinowski (Samain, 1995) e Simonian (2007) Embora a natureza tenha uma dinâmica própria
sobre a centralidade desses materiais na de transformação, o ser humano também causa
produção científica. Ainda, elas revelam problemas ambientais que ameaçam extinguir a
conteúdos ou mensagens, o que é essencial para espécie humana.
a construção dessa relação e para as suas
implicações teóricas e sociais.
Mesmo com o consumo intenso dos recursos A Era Contemporânea teve início com a
naturais nos últimos anos, a natureza possui uma Revolução Francesa, em 1789, e permanece até
reserva de recursos que, por algum tempo, pode hoje. O capitalismo do mundo contemporâneo é
ser usufruída pela humanidade. Assim, os um sistema econômico baseado na propriedade
excessos praticados pelo ser humano passam privada dos meios de produção e na propriedade
despercebidos ante a adaptação humana aos intelectual, que tem como objetivo a obtenção
problemas: por exemplo, se a camada de ozônio de lucro através do risco do investimento. Nas
é danificada, usa-se mais bloqueador solar, se palavras de Albuquerque (2007), “A sociedadede
falta água aqui, busca-se em outro lugar etc. Esse consumo atual é caracterizada por profundas
overshoot enfraquece como se depreende de crises sócio-ambientais e sócio-econômicas,
Cidin e Silva (2003, s. p.), as reservas da natureza resultantes do ideal do progresso e do
7Physis vem do verbo phyomai, que significa emergir, nascer, originária criadora de todos os seres, responsável pelo
crescer: processo de nascimento. Designa tudo aquilo que surgimento, transformação e degeneração deles (Chauí,
brota, cresce, surge, vem a ser. É tudo o que é vivo, é a força 1994).
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determinante de aprofundamento da integração regidas pelo tempo da natureza, o rio” (p. 1).
política, econômica, social, cultural – resulta do Nesse sentido, é necessário entender essa
crescimento acentuado das trocas de realidade amazônica diferenciada para se poder
mercadorias, da intensificação dos movimentos compreendê-la, a partir do entendimento
de capitais, da circulação de pessoas, do necessário de que muitos dos modos de vida da
conhecimento, da informação e de contradições região ocorrem por meio de uma relação
resistentes. histórica com o meio ambiente mais natural.
Ainda conforme assinala Mucelin e Bellini O olhar estrangeiro imagina-os pessoas que
(2008), “O modelo econômico atual traz consigo vivem na beira do rio, com uma economia fraca
o desenvolvimento tecnológico, criado e gerado sustentada por uma pesca rudimentar, limitada
para o conforto e o bem-estar do indivíduo, criação de animais e uma pequena agricultura
levando à intensificação do uso de materiais familiar de subsistência. Para Santos, Salgado e
descartáveis, ocasionando, por conseguinte, um Pimentel (2012), “[...] sendo herdeiros dos
aumento da quantidade de resíduos gerados e conhecimentos de antepassados indígenas e
não utilizados pelo indivíduo” (p. 112). Essa tantos que se aventuraram no meio da região
possibilidade de esgotamento dos recursos amazônica, [os ribeirinhos] usufruem da natureza
naturais, bem como as demais preocupações de maneira responsável, pois é dela que provêm
levantadas pelos ambientalistas precede uma [...] também o sustento” ( p. 4). Assim, interessa
captura das ideias de preservação ambiental observar o modo como esse grupo contribui
pelos mercados com vistas a sua própria para a implantação de uma política nova de
sobrevivência. acesso e uso de recursos naturais na Amazônia,
mesmo que destituído de força econômica e de
Isso porque, de acordo com Capra (2006), poder político.
“[...] a desigualdade social e a degradação
ambiental começam a aparecer – junto com o Mas esses povos desenvolveram um modus
desenvolvimento da globalização – como fatores vivendi centrado na biodiversidade e na
que geram certo ressentimento da sociedade, sustentabilidade (Simonian, 2005), isso ao longo
em vista das consequências negativas de milênios ou mesmo de centenas de anos. E,
ocasionadas” (p. 167). Nesse sentido, tais desde então, por certo muitas contradições vêm
consequências do uso desmedido dos recursos permeando tais trajetórias. Precisamente, para
naturais lançam luz à Amazônia. Essa é região de Fraxe, Witkoski e Miguez (2009):
maior e mais rica biosociodiversidade do planeta,
com as suas possibilidades variadas de economias [...] é preciso entender que os povos da
sustentáveis. Amazônia não vivem isolados no tempo e
no espaço, pelo contrário, sempre
estabeleceram — e continuam a
Resultados. estabelecer — relações de trocas
materiais e simbólicas entre si, com as
Seres Humanos e Natureza na Amazônia. A comunidades vizinhas e com os agentes
Amazônia não é homogênea, ao contrário, é uma mediadores da cultura, entre o mundo
região complexa e diversificada, que contrasta rural e o urbano e a vida em escala global.
com a visão externa à região, homogeneizadora (p. 30)
e que a vê como floresta, como atrasada, como
A ideia de que esses povos sustentam um modo
reserva de recursos, como fundo do Brasil. Tal
de vida estritamente tradicional não pode ser
visão é construída, de acordo com Santos,
reificada, tal como se vivessem de modo estático
Salgado e Pimentel (2012), “[...] principalmente
e congelado.
pelas populações citadinas, por sobreviverem a
Por sua vez, as populações tradicionais
partir da pesca, extrativismo vegetal e pequenas
apresentam uma relação menos impactante para
plantações de subsistência, com vida e dinâmicas
o meio ambiente, isso porque existe uma relação
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Sul (Venezuela, Colômbia, Equador, Suriname e (Figuras 5 e 6). Dentre outros aspectos, as
Guiana) e América Central (Panamá). propriedades medicinais e o “sabor amazônico”
passaram a ser conhecidos e ganharam destaque
Como posto recentemente por Simonian mundial:
(2014), “A exploração dos açaizais e a utilização
do vinho de açaí em Belém do Pará e mesmo na
Pan-Amazônia remontam a tempos passados e
míticos e às primeiras ocupações humanas da
região” (p. 8). A relação íntima que os povos
ribeirinhos desenvolvem com o açaí tem origem
em sua ancestralidade vinculada aos povos
indígenas, cuja história mostra que a utilidade do
açaizeiro é integral. Hoje, uma bebida e cultura
alimentar da floresta foi trasformada em produto
de exportação para locais distantes e consumidas
Figura 5. Chá de açaí, proposto para
por pessoas que nada ou pouco sabem da sua
emagrecimento.
origem.
Fonte: Imagens Google.
Como relata Homma (2006), “Como sinal de
luxo, reluzentes máquinas de beneficiar açaí,
movidas a gerador, enfeitam o interior de
diversas moradias, deixando para trás a
trabalhosa tarefa de amassar com as próprias
mãos” (p. 9). As casinhas antigas com alguns pés
de açaizeiros de outrora, semelhantes às
paisagens idílicas de Paul Gauguin (1848-1903)
sofreram grandes transformações. Assim, o
extrativismo do açaizeiro no estuário amazônico
constitui-se, seja via coleta dos frutos para
produção da polpa, seja pelo corte da palmeira
para a extração do palmito, em um processo
econômico, social e cultural.
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