Anatomia e Semiologia Neurológica
Anatomia e Semiologia Neurológica
V I C T O R F I O R I N I
A N ATO M I A , F I S I O LO G I A E
S E M I O LO G I A N E U R O LÓ G I CA
APRESENTAÇÃO:
PROF.
VICTOR FIORINI
+Fala, Estrategista! A neurologia está cada vez mais
presente nas provas de Residência. Isso ocorre por causa do
envelhecimento da população. Quanto mais tempo a gente
vive, mais vulnerável fica nosso sistema nervoso e mais doenças
neurológicas podem surgir.
Se você quer entender neurologia, vai precisar falar o
idioma da especialidade. Existem algumas terminologias que são
usadas e que podem gerar confusão. Além disso, o raciocínio
diagnóstico na neurologia é diferente e depende muito do
conhecimento de anatomia e fisiologia.
Quando atendemos um doente com problemas
neurológicos, devemos estabelecer inicialmente os diagnósticos
sindrômicos. Síndrome é um conjunto de sinais e sintomas que
pode ser causado por diversas etiologias. Em outras palavras,
algumas doenças diferentes podem causar sintomas e sinais iguais
e gerar confusão quanto ao diagnóstico. Para estabelecermos
esse diagnóstico sindrômico, devemos obter corretamente os
dados por meio da anamnese e do exame neurológico. E é aí que
entra a semiologia. Ela permite-nos encontrar os sinais clínicos
para chegarmos a esse nível de diagnóstico.
Estratégia
MED
O próximo passo seria em relação ao diagnóstico topográfico. Nesse momento, entra o conhecimento anatômico. Você precisa
saber onde se localizam determinadas áreas e trajetos de vias para entender por que uma lesão em um local causa sinais e sintomas de
funções nervosas diferentes ao mesmo tempo. Um exemplo é a hemiparesia direita associada à afasia. O paciente tem uma lesão cortical
no lobo frontal esquerdo que afeta tanto os neurônios da motricidade do lado direito do corpo quanto os da linguagem, porque as
estruturas relacionadas estão muito perto uma da outra.
A última parte tem a ver com a etiologia. Quando a gente restringe as possibilidades sindrômicas e anatômicas, o número de doenças
possíveis de causar aquele quadro fica menor. E, dessa forma, a chance de acertarmos o diagnóstico aumenta. Com o diagnóstico correto,
forneceremos o tratamento mais adequado ao nosso paciente. Muitas questões apresentam o quadro clínico e cobram o tratamento, o
que significa que temos de formular nosso diagnóstico antes de decidirmos sobre a terapêutica.
Nas próximas páginas, mostraremos, de forma direcionada para as questões de Residência, como essas ferramentas importantes
em neurologia são cobradas. Leia com atenção, pare, releia quando não entender e resolva muitas questões sobre o tema. Este capítulo
foi escrito com base em mais de 100 questões comentadas das provas de Residência Médica e Revalida dos últimos anos, de instituições
de todo o Brasil. Confira nas estatísticas os assuntos mais prevalentes:
2%
14%
15%
Avaliação sensiva
Avaliação cogniva
10%
Neuroanatomia
Ótimos estudos!
Estratégia MED
@estrategiamed @estrategiamed
Estratégia
MED
[Link]/estrategiamed /estrategiamed
SUMÁRIO
1.0 NEUROANATOMIA 6
1 .1 DIVISÕES DO SISTEMA NERVOSO 6
2.0 NEUROFISIOLOGIA 10
2 .1 NEUROTRANSMISSORES 10
2 .2 METABOLISMO CEREBRAL 11
3 .3 SÍNDROMES CEREBELARES 21
3 .4 SÍNDROMES SENSITIVAS 21
3 .6 NERVOS CRANIANOS 26
3.6.7 ATAXIAS 40
CAPÍTULO
1.0 NEUROANATOMIA
O sistema nervoso é dividido em central e periférico. Os componentes do sistema nervoso são mostrados no quadro 1:
Parassimpático Simpático
O encéfalo é formado por toda a massa de neurônios que se encontra no interior do crânio. Ele é formado pelos hemisférios cerebrais,
diencéfalo, tronco encefálico e cerebelo (figura 1).
Figura 1: encéfalo – visão lateral - A ínsula localiza-se profundamente nos lobos frontal e temporal. (Fonte: Shutterstock).
A medula espinhal é uma estrutura tubular que se estende do forame magno até a altura da transição entre a primeira e segunda
vértebra lombar.
O sistema nervoso periférico é composto pelos gânglios, pelas raízes nervosas, nervos espinhais, plexos, nervos periféricos e pela
junção neuromuscular.
Figura 3: divisões do tronco encefálico e origem dos núcleos dos nervos cranianos
III a XII.
O cerebelo está na fossa posterior do crânio. Ele cuida do equilíbrio, da marcha e dos movimentos coordenados dos membros. Algumas
vias cerebelares são duplamente cruzadas: parte delas sofre uma decussação (troca de lado no plano horizontal) e, mais adiante, retornam
ao lado de origem. Por isso, lesões do hemisfério cerebelar direito podem causar incoordenação do lado direito do corpo.
A medula espinhal é uma estrutura tubular, alongada, que se situa dentro do canal vertebral. Ela comunica o encéfalo aos nervos
periféricos, levando informações eferentes e recebendo aferências dos principais tratos (motricidade, sensibilidade, sistema nervoso
autônomo). No plano axial, observamos a substância branca e cinzenta (figura 4) e, no plano longitudinal, fazemos uma divisão em segmentos
cervicais, torácicos, lombares, sacrais e coccígeos. A figura 5 mostra a posição dos principais tratos medulares, e a tabela 1 descreve os
principais componentes de cada porção medular.
A medula espinhal comunica-se com o sistema nervoso periférico através das raízes nervosas. Cada porção da medula (cervical,
torácica, lombar, sacral e coccígea) possui segmentos (ou níveis) que se relacionam com determinadas raízes nervosas.
Cada segmento (nível) medular é responsável por informações sensitivas de uma área específica da pele (dermátomo) e por um
determinado grupo muscular (miótomo). Isso é importante para a localização de lesões medulares com base nos achados do exame
neurológico.
O sistema nervoso periférico possui três funções distintas: aferência, eferência e reflexa.
Aferência recebe uma informação do meio externo ou interno e deve enviá-la ao sistema nervoso central para que seja
processada.
Eferência é uma via que transmite informações neurais para uma resposta, como movimento, postura ou mesmo a secreção
por uma glândula.
Os componentes do sistema nervoso periférico são, do proximal para o distal: raízes, plexos (braquial e lombossacro), nervos e suas
extremidades. Nas vias aferentes, a extremidade distal é formada pelos receptores. Nas eferentes, temos a junção neuromuscular, na qual o
neurônio motor faz uma sinapse com a célula muscular estriada esquelética.
O sistema nervoso periférico eferente visceral é chamado de sistema nervoso autônomo. Ele é composto por duas divisões: simpático e
parassimpático. O sistema nervoso simpático prepara-nos para situações de luta ou fuga, causando dilatação pupilar, dilatação dos brônquios,
elevação da pressão arterial e da frequência cardíaca. O parassimpático atua nos momentos de digestão e repouso, causando redução da
pressão arterial e da frequência cardíaca, constrição dos brônquios e miose pupilar.
CAPÍTULO
2.0 NEUROFISIOLOGIA
Os temas mais frequentes em neurofisiologia são neurotransmissores e metabolismo cerebral.
2.1 NEUROTRANSMISSORES
O neurotransmissor excitatório mais abundante no sistema nervoso é o glutamato. O neurotransmissor inibitório mais importante é o
GABA.
Um dos neurotransmissores mais comentados nas provas de Residência é a acetilcolina. Ela age em receptores nicotínicos e muscarínicos
e é degradada pela enzima acetilcolinesterase. A inibição dessa enzima é alvo importante de vários tratamentos neurológicos, como no caso
da doença de Alzheimer e na miastenia gravis, que veremos em outros capítulos. Suas principais ações estão enumeradas na tabela: 2.
Local Função
Simpático: gânglio
Sistema nervoso autônomo
Parassimpático: gânglio e efetor
Outro neurotransmissor importante em neurologia e psiquiatria é a dopamina. A dopamina atua em quatro vias neurais principais:
mesolímbica, mesocortical, nigroestriatal e tuberoinfundibular. Na substância negra do mesencéfalo, inicia-se a via nigroestriatal, que será
vista com detalhes no capítulo de Distúrbios do Movimento.
Para que a quantidade de ATP chegue adequadamente aos neurônios, é preciso que o fluxo sanguíneo cerebral seja de, pelo
menos, 60 mL de sangue/100g de tecido/minuto.
O fluxo é gerado por uma pressão de perfusão cerebral (PPC), calculada pela fórmula PPC = PAM – PIC, sendo “PAM” a pressão arterial
média, e “PIC”, a pressão intracraniana. Valores de PPC inferiores a 60 mmHg são insuficientes para suprir a demanda metabólica cerebral e
podem gerar isquemia, levando à necrose das células nervosas. Portanto, a PPC dependerá de um equilíbrio entre a PAM e a PIC.
A redução da perfusão cerebral pode ocorrer por falha da bomba cardíaca, redução da pressão arterial ou ainda por aumento
da pressão intracraniana, que gera um obstáculo à chegada do sangue arterial ao crânio. A PIC pode elevar-se por lesões expansivas
ou edema do parênquima, hidrocefalias, sangramentos ou trombose venosa.
Existem vários fatores envolvidos nesses mecanismos de autorregulação do fluxo sanguíneo cerebral. A hipóxia causa aumento no fluxo
sanguíneo cerebral. Hipercapnia (elevação do CO2) causa vasodilatação cerebral. Hipocapnia (redução do CO2) gera vasoconstrição.
CAPÍTULO
3.1 AFASIAS
Lesões do córtex cerebral nas áreas relacionadas à linguagem podem causar afasia e ajudam no diagnóstico topográfico. A afasia é, sem
dúvida, uma das disfunções cognitivas mais importantes. É um distúrbio adquirido da linguagem. O exame da linguagem é feito por meio de
testes que avaliam nomeação, repetição, compreensão e fluência verbal. O déficit mais comum nas afasias é de nomeação.
A depender do déficit encontrado, temos tipos diferentes de afasia, como mostrado na figura 6.
As áreas cerebrais relacionadas à linguagem ficam no córtex do hemisfério esquerdo em 99% dos destros e em 70% dos canhotos.
Merecem atenção especial duas áreas: a de Broca (frontal) e a de Wernicke (temporal). A área de Broca está relacionada com a expressão
da linguagem, e a de Wernicke com a compreensão. Lesões nas áreas de Broca e de Wernicke causam respectivamente afasia motora (ou de
Broca – lembre-se da “broca do motor do dentista”) e sensitiva (ou de Wernicke).
A afasia de Broca é infinitamente mais comum e é a que cai mais em prova. Os pacientes apresentam apenas a compreensão
preservada. Você vai encontrar questões mencionando que o “paciente obedece a comandos”, mas não nomeia e não repete.
Estrategista, agora é uma hora importantíssima do nosso estudo! Nem tente ler daqui para a frente se sua mente não estiver bem
descansada. Como nós vamos falar muito de coisas que cruzam de um lado para o outro, se sua atenção não estiver 100%, seu aproveitamento
vai ser ruim. E não é isso que a gente quer, certo? Então, quando estiver mais descansado, volte e siga com a leitura.
O trato corticoespinhal (figura 7) é composto pelo neurônio motor superior e neurônio motor inferior. O corpo celular do neurônio
motor superior está no córtex do giro pré-central. O neurônio motor inferior, ou segundo neurônio motor, tem seu corpo celular no corno
anterior da medula espinhal.
A lesão de um hemisfério cerebral causa diminuição de força contralateral. Isso ocorre porque as fibras nervosas oriundas da
área motora cruzarão para o outro lado do corpo, na decussação das pirâmides (bulbo). Em seguida, deixarão o encéfalo para fazer
sinapse com o neurônio motor inferior na medula.
A estrutura formada pelo corpo celular do neurônio motor inferior, seu prolongamento (formando raiz, plexo e nervo), a junção
neuromuscular e as fibras musculares inervadas por esse neurônio recebem o nome de unidade motora.
Quando levamos em conta o comprometimento motor de membros, podemos ter as seguintes situações (figura 8):
Os reflexos profundos são testados com o martelinho estimulando a via da sensibilidade profunda, por meio do estiramento de um
tendão. Ocorre integração na medula e uma resposta pelo neurônio motor inferior. Essa resposta é inibida pelo neurônio motor superior.
Dependendo da lesão no sistema nervoso, podemos ter diferentes consequências nos reflexos (figura 9).
Figura 9: localização das lesões e repercussão nos reflexos. Lesões do neurônio motor superior, acima do centro de integração medular dos reflexos, causam exaltação
dos reflexos. Lesões medulares, do neurônio sensitivo e/ou do neurônio motor inferior causam abolição do reflexo. Lesões medulares abaixo do nível de integração do
reflexo não o alteram.
Os reflexos superficiais são divididos em cutâneos e mucosos. O reflexo superficial mais importante é o cutâneo-plantar. Ele é testado
por meio de um estímulo na planta do pé e, após os 18 meses de vida, a resposta esperada é a flexão dos artelhos. Nas lesões do neurônio
motor superior, ocorre EXTENSÃO DO HÁLUX e abertura dos dedos, caracterizando o sinal de Babinski. Veja na figura 10 e não se esqueça
jamais, porque esse assunto é muito presente nas provas!
A hipertonia espástica é vista após a fase aguda da síndrome do neurônio motor superior. O paciente apresenta uma rigidez
muscular inicial à movimentação passiva realizada pelo examinador (espasticidade). Ao final desse movimento, o músculo relaxa
tanto que o movimento até se torna mais fácil do que o normal. Esse fenômeno é conhecido como o sinal do canivete.
A hipertonia plástica (sinal da roda denteada) é observada Com relação ao trofismo, podemos encontrar aumento
nas síndromes parkinsonianas (veja no capítulo de Distúrbios do do volume muscular (hipertrofia) ou redução (atrofia). Nos
Movimento). pacientes com lesão do corno anterior da medula, podem aparecer
Quando o paciente apresenta diminuição do tônus miofasciculações, pequenas contrações de fibras musculares,
(hipotonia), devemos suspeitar de uma lesão no neurônio motor incapazes de gerar um movimento no membro, mas que podem
inferior. Essa lesão causa fraqueza com atonia muscular, também ser visíveis sob a pele.
conhecida como paralisia flácida.
Agora, vamos discutir um ponto que cai muito nas provas. Fique ligado e não durma no ponto!
O quadro comparativo entre os achados da síndrome do neurônio motor superior e inferior está na tabela 5 e deve ser memorizado,
pois é muito questionado nas provas de Residência.
As lesões do neurônio motor superior podem ocorrer em qualquer ponto do trajeto que vai do córtex motor primário até a medula
espinhal. O comprometimento de cada uma dessas regiões vai gerar uma manifestação típica. O segredo é lembrar-se de quem passa perto
da via nas diferentes topografias, porque o mais comum é que uma lesão de uma determinada parte afete também o que estiver por perto:
• Hemiparesia desproporcionada (força do membro superior é diferente daquela do membro inferior); lesão do córtex motor
(homúnculo de Penfield – figura 11):
• Hemiparesia proporcionada (força no membro superior é igual à do membro inferior):
◦ cápsula interna: pode ocorrer pura ou associada a alterações da sensibilidade nos membros com fraqueza;
◦ tronco encefálico: pode afetar núcleos de nervos cranianos, gerando uma síndrome alterna (hemiplegia contralateral e
síndrome de nervos cranianos ipsilateral);
◦ medula espinhal cervical unilateral: hemiparesia ipsilateral à lesão (afeta fibras que já cruzaram a linha média).
Figura 11: correlação entre os territórios das artérias cerebrais anterior e média com o homúnculo de Penfield. Temos um homúnculo motor no lobo frontal (giro
O resumo das lesões que afetam o neurônio motor superior e de suas características mais importantes é mostrado na figura 12.
Figura 12: características das lesões que afetam o neurônio motor superior no encéfalo e na medula espinhal.
• Tetraparesia simétrica:
◦ corno anterior da medula espinhal (ELA): associada a fasciculações. Pode ter início assimétrico nas fases iniciais;
◦ doença da junção neuromuscular: predomínio proximal, associada a fatigabilidade;
◦ polineuropatia: distribuição distal e simétrica (em “bota e luva”).
• Monoparesia:
◦ radiculopatia: fraqueza correspondente apenas àquele miótomo da raiz acometida, associada a dor irradiada para o
membro respectivo (dor radicular);
◦ plexopatia: fraqueza em mais de um miótomo;
◦ mononeuropatia: apenas um nervo acometido. Exemplos: radial (“mão caída”), mediano (déficit na oponência do polegar),
ulnar (fraqueza dos interósseos) e fibular comum (“pé caído”).
• Mononeuropatia múltipla: dois ou mais nervos afetados simultaneamente e de forma assimétrica em membros diferentes.
O cerebelo é dividido em cerebelo axial e cerebelo apendicular. Ao exame neurológico, podemos encontrar ataxia (incoordenação)
cerebelar axial, apendicular ou global. Nas ataxias axiais, encontraremos, principalmente, nistagmo, fala escandida e alterações do equilíbrio
(ortostase com pés afastados e marcha ebriosa). Nas ataxias cerebelares apendiculares, encontraremos alterações ipsilateralmente nos
testes de index-nariz-index do examinador e calcanhar-joelhos (dismetria e decomposição), disdiadococinesia e tremor de intenção.
A sensibilidade superficial é aquela relacionada a estímulos realizados na pele, sendo transmitida ao cérebro pelos tratos
espinotalâmicos. Essas vias sofrem decussação na medula espinhal e são formadas por três neurônios (figura 13):
Os receptores de sensibilidade profunda informam sobre a presença de estiramento muscular, sensação de posição e vibração aos
neurônios específicos. As fibras entram na medula e ascendem pelo funículo posterior, cruzando para o outro lado apenas no bulbo (figura
14):
Figura 14: via da sensibilidade profunda (coluna dorsal-lemnisco medial) e do tato discriminativo (epicrítico).
Tanto a sensibilidade superficial quanto a profunda têm suas vias chegando à medula em níveis específicos. A sensibilidade superficial
de determinada área da pele é representada pelo mapa dos dermátomos. Um dos dermátomos mais famosos é o T4, correspondente à área
dos mamilos. A figura 15 mostra o mapa dos dermátomos.
Figura 15: mapa dos dermátomos do corpo humano. Em verde, os dermátomos cervicais; em azul, os torácicos; em vermelho, os lombares; e em amarelo, os sacrais.
SINAL DE ROMBERG
1. Uma das alterações mais importantes decorrentes da perda da sensibilidade profunda é a ataxia sensitiva.
2. O paciente com ataxia sensitiva tem um desempenho muito pior dos movimentos quando fica de olhos fechados.
Esse assunto é um clássico das provas de Residência, e você jamais pode dar bobeira numa questão dessas!
3. Quando o paciente é colocado em ortostase, com os pés juntos, pede-se que ele feche os olhos. Caso haja ataxia
sensitiva, o paciente apresentará queda, que obviamente deverá ser evitada pelo examinador.
4. A queda quando se fecha os olhos recebe o nome de sinal de Romberg e indica comprometimento da sensibilidade
profunda.
Sabe-se lá o porquê de muitos acharem de forma equivocada que o sinal seja decorrente de uma alteração
cerebelar. Definitivamente, o sinal de Romberg NÃO É UMA ALTERAÇÃO CEREBELAR! Caso não tenha sido
claro, repetirei: O SINAL DE ROMBERG OCORRE EM DÉFICITS DA SENSIBILIDADE PROFUNDA!
• Plexopatia: acometimento de mais de um dermátomo em um membro, geralmente associado a uma síndrome do neurônio
motor inferior no mesmo membro.
• Radiculopatia: dor a partir do segmento da coluna vertebral acometido irradiada no trajeto de um dermátomo. Na região
cervical, chama-se cervicobraquialgia. Quando ocorre nas raízes lombossacras, é denominada lombociatalgia.
Os padrões de comprometimento sensitivo mais importantes nas síndromes centrais são os seguintes:
• Lesão encefálica: alteração sensitiva contralateral no membro inferior, superior, tronco e cabeça.
Síndrome de Wallenberg: lesão encefálica abaixo do núcleo do nervo trigêmeo (geralmente, ocorre no bulbo). É uma síndrome
alterna (alteração sensitiva facial ipsilateral e nos membros/tronco contralaterais). A causa mais comum desse achado é um AVC da
artéria vertebral causando isquemia na fosseta lateral do bulbo.
• Lesão medular: é caracterizada pela presença do nível sensitivo. Do dermátomo correspondente para baixo, o paciente é
incapaz de sentir os estímulos unilaterais (se a lesão for uma hemissecção) ou bilaterais (em caso de secção transversal completa).
Estudaremos com mais profundidade a combinação entre os achados das síndromes sensitivas e motoras nas lesões medulares no
capítulo de Mielopatias.
Os sinais de irritação meningorradicular aparecem em pacientes com meningites e/ou lesões de raízes nervosas, como compressão
por hérnia discal ou osteoartrose de coluna (veja no capítulo de Hérnias discais, no livro de Ortopedia). Os principais sinais são mostrados na
figura 16:
Vamos falar sobre os temidos nervos cranianos? Acredite, nem é tão difícil assim, mas você precisa estar com a cabeça descansada para
começar a leitura a partir daqui. Nem tente continuar se estiver cansado. Lembre-se: você está falando com um neurologista! A gente sabe
como as coisas funcionam em relação ao aprendizado! Então, “bora lá”!
Possuímos 12 pares de nervos cranianos. Os tratados de neuroanatomia ensinam a origem, o trajeto e a função dos nervos cranianos.
Alguns desses conhecimentos são cobrados nos concursos de Residência. Abordaremos, aqui, apenas o que foi mais cobrado em provas, de
modo a aperfeiçoar o estudo e evitar perda de tempo com dados desnecessários.
Os nervos cranianos, sua numeração e suas funções principais são descritos na figura 17:
toracoabdominais
Figura 17: representação esquemática dos 12 pares de nervos cranianos, indicando sua posição e função.
A figura 17 mostra de forma esquemática o trajeto da via e suas principais lesões. Chamo a atenção para a lesão do quiasma, geralmente
causada por um adenoma hipofisário e que causa perda dos campos visuais laterais de ambos os olhos (hemianopsia bitemporal).
Figura 19: representação esquemática das estruturas que estão no trajeto da inervação pupilar.
Podemos avaliar as pupilas por meio do exame neurológico, medindo seu diâmetro e pesquisando o reflexo fotomotor. Pupilas mióticas
significam lesão do sistema nervoso simpático ou hiperatividade do parassimpático (intoxicação por organofosforados, por exemplo). Pupilas
midriáticas ocorrem por comprometimento do parassimpático (III NC) ou por hiperatividade simpática (uso de cocaína, por exemplo).
O reflexo fotomotor é a constrição pupilar em resposta à luz. A aferência é pelo nervo óptico (II NC); a eferência, pelo oculomotor
(III NC); e a integração ocorre no mesencéfalo. Decore isso que você acabou de ler, pois vai salvar você em várias provas!
Na figura 20, vemos de forma esquemática as vias que participam do reflexo fotomotor.
As lesões que alteram mais frequentemente o reflexo fotomotor são do nervo óptico (II NC) e do oculomotor (III NC). Os achados em
cada caso são mostrados na figura 21.
Figura 21: alterações encontradas no reflexo fotomotor. Na lesão do II NC, o estímulo do lado esquerdo não gera resposta, porque o nervo óptico
esquerdo (linha azul pontilhada, representando lesão) não transmite o estímulo recebido. A contração pupilar ocorre bilateralmente quando o nervo
óptico direito é estimulado pela luz. A lesão do nervo oculomotor esquerdo (linha vermelha pontilhada) promove uma midríase fixa do lado afetado,
independentemente do olho a ser examinado. A pupila desse olho fica maior do que a do outro olho (anisocoria).
Devido a seu longo trajeto intra e extracraniano, a via simpática para a pupila pode ser comprometida em vários locais distintos. A lesão
dessa via causa a clássica síndrome de Horner.
A síndrome de Horner (ou de Claude-Bernard-Horner) é caracterizada pela presença de miose, ptose e anidrose (figura 22).
A síndrome de Pancoast é decorrente de um tumor apical de pulmão (figura 23), localizado no sulco superior do tórax.
Essas manifestações são decorrentes da invasão tumoral de estruturas neurais que passam próximas ao sulco pulmonar superior:
• Plexo braquial (contendo raízes para a inervação sensitiva do ombro e motora da mão, entre C8-T1).
• Sistema nervoso simpático.
A motricidade ocular extrínseca é um dos temas mais clássicos da Neurologia em provas de Residência. O candidato precisa ter domínio
dos seguintes conhecimentos:
• Quais são os nervos envolvidos?
• Quais são os músculos inervados por cada nervo?
• Quais são os padrões de lesão em cada caso?
Respondendo à primeira pergunta, temos três nervos envolvidos com o controle dos músculos oculares extrínsecos: oculomotor (III
NC), troclear (IV NC) e abducente (VI NC). A figura 24 mostra o esquema dos músculos e sua inervação.
Figura 24: inervação da musculatura ocular extrínseca pelos nervos III, IV e VI.
A regra mnemônica “OS4-RELA6-REST3” ajuda a memorizar o que cada nervo comanda: o oblíquo superior
é inervado pelo IV NC, o reto lateral é inervado pelo VI NC e o resto dos músculos é inervado pelo III NC.
O nervo oculomotor é o que apresenta maior participação na motricidade ocular extrínseca, pois é responsável pelo controle de
quatro dos seis músculos: reto superior, reto inferior, reto medial e oblíquo inferior. Sua lesão pode causar diplopia, ptose palpebral e/ou
anisocoria (assimetria do diâmetro das pupilas, com midríase do lado afetado). Isso dependerá da natureza da lesão responsável. A figura
25 representa os achados encontrados na lesão do nervo oculomotor.
Quando ocorre lesão do nervo abducente, o paciente não consegue realizar a abdução do olho acometido,
mas faz a adução do outro olho. Esse desalinhamento horizontal causa diplopia, já que as retinas recebem a
projeção da mesma imagem em locais diferentes de cada lado.
A figura 26 mostra um paciente com paralisia do músculo reto lateral por lesão do VI NC.
Figura 26: paralisia do nervo abducente à esquerda. Note que apenas o olho direito consegue olhar para a esquerda, enquanto o olho direito fica na posição primária
do olhar (centralizado).
Na hipertensão intracraniana, o nervo craniano mais frequentemente afetado é o VI NC, devido a sua
menor espessura.
Dessa forma, na trombose do seio cavernoso, encontraremos paralisia dos nervos III, IV, VI, e dos ramos V1 e V2. O paciente, então,
apresentará paralisia do olhar desse lado (olhar congelado) e anestesia no território das divisões V1 e V2 do V NC (andar superior da face e
região maxilar). A representação esquemática do seio cavernoso e das estruturas em seu interior está na figura 27.
Via visual
Quiasma (tumor de
Hemianopsia bitemporal Fotomotor preservado
hipófise)
Compressão extrínseca
Midríase ipsilateral Reflexo fotomotor: anisocoria
(parcial)
Inervação
Síndrome de Horner: miose, Reflexo fotomotor presente,
simpática da Lesão da via simpática
semiptose e anidrose ipsilateral anisocoria aumenta no escuro
pupila
Lesão do tro- Lesão do núcleo ou do Diplopia pior ao olhar para baixo e Melhora com tilt head
clear (IV NC) nervo dificuldade de inciclodução contralateral
Lesão do
Diplopia horizontal pior para o lado
abducente (VI Lesão do núcleo ou nervo
da lesão
NC)
Quando a lesão ocorre no núcleo do nervo facial ou após a emergência de suas fibras, em que se inicia
o nervo facial, teremos uma paralisia facial periférica. O paciente exibirá um quadro de paralisia de toda
a hemiface ipsilateral (andar superior e andar inferior). No andar superior, ele apresentará dificuldade ou
incapacidade ipsilateral para franzir a testa e fechar os olhos. A rima palpebral poderá ficar exposta (lagoftalmo)
e, ao tentar fechar os olhos, ocorrerá a elevação visível do globo ocular (sinal de Bell). No andar inferior, como
na paralisia facial central, notar-se-á desvio da rima para o lado contralateral e apagamento do sulco nasolabial
ipsilateral (figura 29).
Figura 29: representação esquemática das alterações encontradas na paralisia facial central e na paralisia facial periférica.
O nervo vestibulococlear é um nervo aferente que transmite estímulos elétricos provenientes de receptores especializados em
informações sobre o equilíbrio e a audição.
A avaliação da audição deverá levar em conta se o déficit é uni ou bilateral e se é de condução ou neurossensorial. Os testes à beira do
leito podem ser feitos com o auxílio do diapasão: Rinne, Weber e Schwabach (veja no livro de Otoneurologia).
Uma disfunção do sistema vestibular pode causar ataxia vestibular. Nesse caso, o paciente apresenta lateralização dos sintomas, com
desvio da marcha e dos membros para o lado de menor tônus vestibular.
3.6.7 ATAXIAS
Lesões cerebelares, sensitivas profundas e vestibulares podem causar uma dificuldade na coordenação dos movimentos, quadro
conhecido como ataxia. No entanto, algumas questões cobram o diagnóstico diferencial dessas ataxias, motivo pelo qual resolvemos colocá-
las juntas, comparativamente, num item próprio.
Todos esses dados comparativos estão organizados na tabela 9.
Piora com
Nistagmo Presente Ausente
lateralização
Disdiadococinesia e
Presente Ausente Ausente
decomposição
[Link]
CAPÍTULO
CAPÍTULO