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Poderes e Deveres Administrativos

O documento aborda os poderes administrativos, definindo-os como prerrogativas conferidas aos agentes administrativos para alcançar os fins do Estado, e detalha os tipos de poderes, como vinculado, discricionário, hierárquico, disciplinar, regulamentar e de polícia. Também discute o conceito de abuso de poder e deveres administrativos, como o dever de agir, eficiência, probidade e prestar contas. Por fim, explora aspectos mais profundos sobre os poderes administrativos e suas limitações, incluindo controle judicial e diferenças entre poder disciplinar e punitivo.

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Poderes e Deveres Administrativos

O documento aborda os poderes administrativos, definindo-os como prerrogativas conferidas aos agentes administrativos para alcançar os fins do Estado, e detalha os tipos de poderes, como vinculado, discricionário, hierárquico, disciplinar, regulamentar e de polícia. Também discute o conceito de abuso de poder e deveres administrativos, como o dever de agir, eficiência, probidade e prestar contas. Por fim, explora aspectos mais profundos sobre os poderes administrativos e suas limitações, incluindo controle judicial e diferenças entre poder disciplinar e punitivo.

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Tulio Lages

Aula 07

PODERES ADMINISTRATIVOS
Sumário

Roteiro de revisão e pontos do assunto que merecem destaque ................................................... 1

Questões estratégicas .................................................................................................................. 15

Questionário de revisão e aperfeiçoamento ................................................................................. 21

Perguntas .................................................................................................................................. 21

Perguntas com respostas .......................................................................................................... 23

Lista de Questões Estratégicas ..................................................................................................... 33

Gabarito .................................................................................................................................... 34

Referências Bibliográficas ............................................................................................................. 35

ROTEIRO DE REVISÃO E PONTOS DO ASSUNTO QUE


MERECEM DESTAQUE

A ideia desta seção é apresentar um roteiro para que você realize uma revisão completa do
assunto e, ao mesmo tempo, destacar aspectos do conteúdo que merecem atenção.

Para revisar e ficar bem preparado no assunto, você precisa, basicamente, seguir os passos a
seguir:

1. Compreender bem a ideia do que são poderes administrativos.

Poderes Administrativos

São o conjunto de prerrogativas de direito público que a ordem jurídica confere aos agentes
administrativos para o fim de permitir que o Estado alcance seus fins 1.

Derivam precipuamente do postulado da supremacia do interesse público.

1
Carvalho Filho, 2016, p. 53.

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São considerados poderes instrumentais, porque são meios (“instrumentos”) à disposição da


Administração Pública para que atinja seus objetivos, cumpra suas finalidades.

Não são considerados, portanto, poderes estruturais (que são os poderes políticos – Executivo,
Legislativo e Judiciário), que formam a estrutura do Estado.

2. Compreender bem o conceito básico de cada um dos poderes administrativos, de modo a


conseguir distingui-los bem uns dos outros.

Poder Vinculado

É o poder que habilita e, ao mesmo tempo, obriga o agente público a executar os atos
vinculados, na estrita conformidade como os parâmetros legais.

Além disso, o poder vinculado fundamenta a prática de atos discricionários no que diz respeito
aos seus aspectos vinculados: competência, forma e finalidade.

Poder Discricionário

É o poder que confere à Administração a prerrogativa de praticar e revogar atos discricionários,


segundo a valoração dos critérios de conveniência e oportunidade.

Poder Hierárquico

É o poder que dispõe o Executivo (e a Administração dos demais poderes – ou seja, está
presente no âmbito da função administrativa, mas não nas funções próprias do Poder Legislativo
e do Poder Judiciário) para distribuir e escalonar as funções de seus órgãos, ordenar e rever a
atuação de seus agentes, estabelecendo a relação de hierarquia.

Diz respeito a atividades estritamente internas da Administração Pública (não invade a esfera de
particulares sem qualquer vínculo com a Administração).

Poder Disciplinar

É a prerrogativa de a Administração (de qualquer dos poderes) aplicar sanções aos seus
servidores, em decorrência de infrações funcionais por eles cometidas, bem como aos
particulares a ela ligados mediante vínculo jurídico específico (via contrato, convênio etc.) que
eventualmente venham a cometer infrações administrativas.

Guarda correlação, mas não se confunde, com o poder hierárquico: assim como este último
poder, o poder disciplinar diz respeito a atividades estritamente internas da Administração
Pública (não invade a esfera de particulares sem qualquer vínculo com a Administração).

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Poder Regulamentar

É a prerrogativa do chefe do Poder Executivo de editar privativamente certos atos


administrativos normativos, sendo materializada mediante decretos e regulamentos de execução
e decretos autônomos.

É espécie do gênero poder normativo da Administração Pública, prerrogativa que fundamenta a


edição de atos administrativos normativos (resoluções, portarias, deliberações instruções,
regimentos etc.) por outras autoridades administrativas além dos Chefes do Poder Executivo.

Assim, ao editar atos fundados no poder regulamentar, o Chefe do Poder Executivo também
está exercendo o poder normativo. Por outro lado, quando autoridade administrativa diversa
edita ato com base no poder normativo, não exerce o poder regulamentar, já que este é
exclusivo do Chefe do Poder Executivo.

Mesmo assim, fique atento: não raro as bancas de concurso empregam “poder regulamentar” e
“poder normativo” como sinônimos, cabendo ao aluno realizar essa ponderação no momento de
responder às questões.

Poder de Polícia

Consiste na prerrogativa de a Administração condicionar ou restringir a liberdade e a


propriedade (ou seja, o uso de bens, o exercício de direitos e a prática de atividades privadas,
ou, simplesmente, a autonomia privada), com o objetivo de ajustá-los ao interesse geral da
coletividade (interesse público), pautada nos princípios da legalidade e da proporcionalidade.

3. Compreender bem o conceito de abuso de poder e suas espécies.

Abuso de Poder: conceito e espécies

É o exercício, comissivo ou omissivo, dos poderes e prerrogativas conferidas à Administração


fora dos limites impostos pelo ordenamento jurídico.

As espécies de abuso de poder são o excesso de poder e o desvio de poder.

O excesso de poder ocorre quando o agente atua fora dos limites das suas competências (vício
do elemento competência) ou também quando o agente, embora possua a competência para
agir, atua a de forma desproporcional (atuação desproporcional).

O desvio de poder (ou desvio de finalidade) ocorre quando o agente pratica ato contrário à
finalidade explícita ou implícita na lei que respalda sua atuação (vício do elemento finalidade).

4. Compreender bem a ideia do que são deveres administrativos.

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Deveres administrativos

São deveres impostos pela lei ao administrador público para assegurar que a atuação deste
esteja alinhada ao interesse público.

Derivam, notadamente, do postulado da indisponibilidade do interesse público (enquanto os


poderes administrativos surgem precipuamente a partir do postulado da supremacia do
interesse público).

5. Compreender bem o conceito básico de cada um dos deveres administrativos, de modo a


conseguir distingui-los bem uns dos outros.

Poder-dever de Agir

Consiste no dever do agente público de exercer efetivamente os poderes administrativos a ele


conferidos, vedando-lhe a inércia em situações que exigem sua atuação, o que poderá
caracterizar abuso de poder e ensejar sua responsabilização nas esferas cível, penal e
administrativa, bem como responsabilidade civil da Administração Pública pelos danos
eventualmente causados pela omissão ilegal.

Dever de Eficiência

Consiste no dever do agente público de atuar com celeridade, perfeição técnica, rendimento
funcional, se valendo da boa administração.

Devido a sua importância, o dever de eficiência foi elevado a princípio constitucional (art. 37,
caput da CF/88).

Dever de Probidade

Consiste no dever do agente público de atuar com legitimidade, honestidade, ética, boa-fé, não
sendo suficiente observar a lei formal, mas também se pautar pela moralidade e sempre com
vistas ao atendimento da finalidade pública.

Inclusive, a Lei 8.429/1992 tipifica e sanciona os atos de improbidade administrativa,


regulamentando o art. 37, § 4º da CF/88, que assim dispõe:

Art. 37, § 4º - Os atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos


direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o
ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação
penal cabível.

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Dever de Prestar Contas

Decorrente do princípio da indisponibilidade do interesse público, o dever de prestar contas


consiste na necessidade de transparência dos atos estatais e da aplicação dos recursos públicos
– inclusive quando feita por particulares, conforme dispõe o art. 70, parágrafo único da CF/88:

Art. 70, parágrafo único. Prestará contas qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou
privada, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e
valores públicos ou pelos quais a União responda, ou que, em nome desta, assuma
obrigações de natureza pecuniária.

6. Aprofundar um pouco em determinados aspectos que envolvem os poderes administrativos.

Poder Discricionário: limites

O poder discricionário não dispensa que a Administração observe os limites impostos pela lei e
respeite os princípios administrativos, notadamente os da razoabilidade e da proporcionalidade,
sob pena de a conduta ser considerada ilegal, sendo, por conseguinte, passível de anulação pela
própria Administração ou pelo Poder Judiciário.

Poder Discricionário: controle judicial

No controle judicial dos atos discricionários, a atuação do Poder Judiciário deve se restringir aos
aspectos vinculados do ato e se furtar de avaliar os critérios de conveniência e oportunidade,
respeitando a discricionariedade administrativa nos limites em que ela é assegurada à
Administração Pública pela lei.

Poder Hierárquico: objetivos e prerrogativas

O poder hierárquico tem por objetivo ordenar, coordenar, controlar e corrigir as atividades
administrativas, conferindo ao superior hierárquico, em relação a seus subordinados, a
prerrogativa de dar ordens, fiscalizar, controlar, aplicar sanções, bem como delegar e avocar
competências, independentemente de que haja sua previsão expressa em lei, uma vez que
possui caráter irrestrito, permanente e automático, por ser inerente à organização administrativa
hierárquica, presente não somente no Poder Executivo, mas em todos os poderes (só não há
hierarquia no Judiciário e no Legislativo no que tange às suas funções próprias – no primeiro
prevalece o princípio da livre convicção do juiz e, no segundo, vigora o princípio da partilha das
competências constitucionais).

Com relação especificamente à prerrogativa de o superior hierárquico dar ordens aos seus
subordinados, cabe a estes, por outro lado, o dever de obediência, exceto quando a ordem for
manifestamente ilegal. Isso, porque a CF/88 estipula que “ninguém será obrigado a fazer ou
deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (art. 5º, inciso II) – ou seja, o subordinado

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não é obrigado a fazer algo que desobedeça a lei. Além disso, no que tange aos servidores
públicos federais, há previsão expressa nesse sentido no inciso IV do art. 116 da Lei 8.112/90:

Art. 116. São deveres do servidor:

(...)

IV - cumprir as ordens superiores, exceto quando manifestamente ilegais;

Com relação especificamente ao poder de fiscalizar, destacamos que se trata, na verdade, de um


verdadeiro poder-dever, já que o superior deve acompanhar de modo permanente a atuação de
seus subordinados.

Por sua vez, a prerrogativa de controlar (poder de controle) permite ao superior hierárquico, de
ofício ou por provocação, adotar medidas concretas sobre a atividade de seus subordinados,
compreendendo a possibilidade de manter, convalidar, anular e até mesmo revogar atos por
eles praticados, a depender do caso concreto. Perceba, portanto, que o controle hierárquico
pode incidir sobre todos os aspectos dos atos praticados pelos subordinados, adentrando
inclusive no mérito, não somente em questões de legalidade.

A prerrogativa de aplicar sanções decorrente do poder hierárquico diz respeito somente às


sanções disciplinares, aplicadas sobre servidores públicos que eventualmente venham a cometer
infrações funcionais, não se confundindo, portanto, com as sanções aplicadas a particulares por
parte da Administração, que decorrem do poder disciplinar ou do poder de polícia (a depender
da situação), já que não há hierarquia entre a Administração e os administrados.

Por sua vez, o poder de delegar competências é a prerrogativa do agente público transferir, de
forma discricionária, revogável a qualquer tempo e nos limites estipulados pela lei, o exercício
de parcela de suas atribuições a um outro agente ou órgão (mesmo que não subordinado), por
motivos de natureza técnica, econômica, jurídica ou territorial, permanecendo a titularidade da
competência com a autoridade delegante.

É preciso destacar que há competências indelegáveis, como os atos políticos e as funções típicas
de cada Poder (salvo nos casos expressamente previstos na CF/88, como, por exemplo, o caso
das leis delegadas, bem como na legislação).

Por fim, o poder de avocar é prerrogativa do superior hierárquico tomar para si, de forma
discricionária e excepcional, o exercício temporário de determinada competência de um
subordinado.

Poder Disciplinar: diferença entre poder disciplinar e poder punitivo do Estado

O poder punitivo do Estado é exercido pelo Poder Judiciário sobre qualquer pessoa, em razão
de afronta à legislação penal (crimes, contravenções e infrações penais) e cível.

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Por sua vez, no poder disciplinar, a sanção, de natureza administrativa-funcional, pode ser
aplicada somente àqueles que possuem vínculo jurídico específico com a Administração, como
os servidores e empregados públicos (que possuem vínculo funcional), as empresas contratadas
para prestar algum serviço (vínculo contratual) etc.

Poder Regulamentar: decretos de execução e decretos autônomos

Os decretos de execução ou regulamentares são atos normativos secundários (porque derivam


da lei), editados com fulcro no inciso IV do art. 84 da CF/88, para possibilitar a execução fiel de
leis que envolvam a Administração Pública – ou seja, i) não podem inovar no ordenamento
jurídico e ii) não podem regulamentar leis que não envolvam a Adm. Pública –, sendo uma
competência privativa do chefe do Poder Executivo e não passível de delegação, conforme
parágrafo único do mesmo art. 84 da CF/88.

Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:

(...)

IV - sancionar, promulgar e fazer publicar as leis, bem como expedir decretos e


regulamentos para sua fiel execução;

(...)

Parágrafo único. O Presidente da República poderá delegar as atribuições


mencionadas nos incisos VI, XII e XXV, primeira parte, aos Ministros de Estado, ao
Procurador-Geral da República ou ao Advogado-Geral da União, que observarão os
limites traçados nas respectivas delegações.

[perceba que o inciso IV não se encontra no rol de atribuições delegáveis]

Por sua vez, os decretos autônomos são atos normativos primários (porque derivam diretamente
da Constituição) que se prestam a normatizar as matérias expressamente elencadas nas alíneas
“a” e “b” do inciso VI do art. 84 da CF/88, sendo uma competência privativa do chefe do Poder
Executivo, passível de delegação às autoridades previstas no parágrafo único do mesmo art. 84
da CF/88.

Vejamos as matérias que podem ser tratadas por decretos autônomos:

Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República:

(...)

VI – dispor, mediante decreto, sobre:

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a) organização e funcionamento da administração federal, quando não implicar


aumento de despesa nem criação ou extinção de órgãos públicos;

b) extinção de funções ou cargos públicos, quando vagos;

Poder normativo: regulamentos autorizados

Os regulamentos autorizados são atos normativos que complementam a lei, especialmente em


matérias de natureza técnica, não se limitando apenas a regulamentá-la, a lhe dar fiel execução.

Dependem de prévia autorização legal para que sejam editados.

Como exemplo desse ato normativo, mencionamos os regulamentos de natureza estritamente


técnica expedidos pelas agências reguladoras.

Ao contrário dos decretos de execução e regulamentares, bem como dos decretos autônomos,
que derivam do poder regulamentar da Administração, os regulamentos autorizados são uma
manifestação do poder normativo.

Cumpre destacar, por fim, que essa possibilidade de se transferir do Poder Legislativo, mediante
autorização legislativa, a função normativa de determinadas matérias específicas para a
Administração, consiste no instituto da deslegalização 2. Nessa situação, o próprio legislador
retira certas matérias do domínio da lei 3.

Poder normativo: instruções expedidas pelos Ministros de Estado

Uma importante competência constitucional atribuída aos Ministros de Estado que reflete o
exercício do poder normativo é a prerrogativa de expedição de instruções para a execução das
leis, decretos e regulamentos, consoante art. 87, II da CF/88:

Art. 87, parágrafo único. Compete ao Ministro de Estado, além de outras atribuições
estabelecidas nesta Constituição e na lei:

(...)

II - expedir instruções para a execução das leis, decretos e regulamentos;

2
Gostaríamos de destacar, também, para fins de fixação da ideia de deslegalização, o conceito da lavra de
Marçal Justen Filho (2014): “transferência, por meio de lei, de competência normativa primária para a
Administração Pública”.
3
LIMA, 2013, p. 182.

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Poder Regulamentar: exercício de controle por parte do Poder Legislativo sobre o poder
regulamentar do Poder Executivo

O Congresso Nacional poderá sustar os atos normativos do Poder Executivo que exorbitem do
poder regulamentar, conforme inciso V do art. 49 da CF/88:

Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:

(...)

V - sustar os atos normativos do Poder Executivo que exorbitem do poder


regulamentar ou dos limites de delegação legislativa;

Poder de Polícia: distribuição de competência entre os entes federados

Se não houver regra específica, a competência para exercer o poder de polícia é do ente ao qual
a CF/88 conferiu o poder de regulamentar a matéria.

Nesse sentido, considerando a repartição constitucional de matérias pelo princípio da


predominância do interesse, temos:

a) os assuntos de interesse nacional, que envolvem eventos que transcendem os limites de um


único estado-membro, ficam sujeitos à regulamentação e à polícia administrativa exercida
pela União;

b) as matérias de interesse regional, que envolvem eventos que ultrapassam os limites de um


município, sujeitam-se às normas e à polícia administrativa exercida pelo estado;

c) e os assuntos de interesse local, que envolvem eventos cuja repercussão se limite ao âmbito
do município, subordinam-se à regulamentação e poder de polícia exercido pelo município.

Por outro lado, vale lembrar que nas hipóteses de competência concorrente, o exercício do
poder de polícia será realizado de forma conjunta por entes federados diversos. Nesse cenário, é
possível que os entes se valham da execução cooperada do poder de polícia, em regime de
gestão associada, conforme art. 241 da CF/88:

Art. 241. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios disciplinarão por


meio de lei os consórcios públicos e os convênios de cooperação entre os entes
federados, autorizando a gestão associada de serviços públicos, bem como a
transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à
continuidade dos serviços transferidos.

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Poder de Polícia: competência do exercício do poder de polícia na fiscalização da


segurança viária

Especificamente no que toca à segurança viária, compete aos estados-membros, Distrito Federal
e municípios, por meio de seus órgãos ou entidades executivos e seus agentes de trânsito,
conforme inciso II do § 10 do art. 144 da CF/88:

Art. 144, § 10. A segurança viária, exercida para a preservação da ordem pública e da
incolumidade das pessoas e do seu patrimônio nas vias públicas:

(...)

II - compete, no âmbito dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, aos


respectivos órgãos ou entidades executivos e seus agentes de trânsito, estruturados
em Carreira, na forma da lei.

Poder de Polícia: diferença entre poder de polícia e poder disciplinar, quanto ao


destinatário da sanção

No poder disciplinar, a sanção pode ser aplicada somente àqueles que possuem vínculo jurídico
específico com a Administração, como os servidores e empregados públicos (que possuem
vínculo funcional), as empresas contratadas para prestar algum serviço (vínculo contratual) etc.

Por sua vez, no poder de polícia, a sanção pode ser aplicada a quaisquer pessoas que exerçam
atividade que possa vir a acarretar risco ou transtorno à sociedade (por isso diz-se que tais
pessoas possuem vínculo geral com a Administração).

Poder de Polícia: modalidades

O poder de polícia pode ser preventivo ou repressivo.

O poder de polícia preventivo ocorre quando o particular necessita de anuência prévia


(formalizada por uma licença ou uma autorização, por exemplo) da Administração para exercer
determinada atividade.

Já no poder de polícia repressivo, ocorre a aplicação de sanções administrativas a particulares


em razão de infrações a normas de ordem pública (ex: multas administrativas, interdição de
estabelecimentos comerciais, apreensão de mercadorias piratas etc.).

Poder de Polícia: formalização

O poder de polícia é formalizado, basicamente, por meio de atos normativos (genéricos,


abstratos e impessoais), como decretos, regulamentos, portarias etc., em que são impostas
restrições aos particulares, bem como de atos concretos (direcionados a certos indivíduos), tanto
de natureza sancionatória (ex: multa), quanto de consentimento (ex: licenças e autorizações).

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Nesse cenário, cumpre destacar que a licença é um ato vinculado e, como regra, definitivo. Já a
autorização é um ato discricionário e precário.

Por sua vez, o alvará é um instrumento que geralmente formaliza as licenças e as autorizações
(lembrar que esses últimos são verdadeiros atos administrativos em si). Assim temos o “alvará de
licença” e o “alvará de autorização”.

É possível que as licenças e as autorizações sejam formalizadas, também, por carteiras,


declarações, certificados etc.

Poder de Polícia: ciclo de polícia

O ciclo de polícia compreende a sequência de atividades que integram o exercício do poder de


polícia. As atividades são i) legislação, ii) consentimento, iii) fiscalização e iv) sanção.

A legislação (ou ordem de polícia) é a fase inicial que institui os limites ao exercício de atividades
privadas e ao uso de bens, dependendo de previsão em lei em razão do princípio da legalidade.

O consentimento de polícia diz respeito à anuência prévia da Administração (formalizada


geralmente por meio de licenças e autorizações) para a realização de determinadas atividades
ou fruição de determinados direitos. Tal anuência também deve estar prevista em lei para ser
exigida.

A fiscalização de polícia é a verificação, por parte da Administração, quanto o cumprimento,


pelo particular, das regras e condições da ordem de polícia (legislação) e, se for o caso, da
licença/autorização (consentimento).

Por fim, a sanção de polícia decorre da constatação de infração às regras e condições da ordem
de polícia ou da licença/autorização, resultando na aplicação de alguma medida repressiva ao
particular (como uma multa ou outra sanção prevista na lei de regência).

Perceba que as fases de legislação e de fiscalização estão sempre presentes, já que a fase de
consentimento ocorre somente se a lei estipular a necessidade de licença/autorização para a
realização de determinadas atividades ou uso de bens, e a fase de sanção ocorre somente se
alguma irregularidade é encontrada no caso concreto, o que nem sempre pode ocorrer.

Assim, é perfeitamente possível que um ciclo de polícia se complete apenas com as fases de
legislação e fiscalização.

Poder de Polícia Originário x Derivado

O poder de polícia originário é o exercício pela Administração Direta, enquanto o poder de


polícia delegado é o exercido pelas entidades pertencentes à Administração Indireta, que
recebem tal poder por meio de lei (sempre).

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Atualmente, admite-se a delegação (sempre por lei) de poder de polícia às entidades da


administração pública indireta da seguinte forma:

a) entidades de direito público (autarquias e fundações públicas de direito público) – podem


ser delegadas todas as fases de polícia (obviamente, por não deterem prerrogativa de legislar,
a fase de ordem de polícia está limitada à esfera normativa);

b) entidades de direito privado, no geral: podem ser delegadas apenas as fases de


consentimento e de fiscalização4;

c) entidades de direito privado de capital social majoritariamente público que prestem


exclusivamente serviço público de atuação própria do Estado e em regime não concorrencial
– podem ser delegadas todas as fases, menos a fase de ordem de polícia, consoante a
seguinte tese de repercussão geral fixada recentemente pelo STF:

"É constitucional a delegação do poder de polícia, por meio de lei, a pessoas jurídicas
de direito privado integrantes da Administração Pública indireta de capital social
majoritariamente público que prestem exclusivamente serviço público de atuação
própria do Estado e em regime não concorrencial"5.

[Obs: de acordo com o voto do Relator, não entra nessa possibilidade de delegação a
fase de ordem de polícia]

Com relação à possibilidade de delegação do poder de polícia a pessoas privadas não


integrantes da Administração Pública (formal), tanto a doutrina majoritária quanto o STF 6
entendem que não é possível, mesmo que a delegação seja realizada por meio de lei.

Entretanto, isso não impede o Poder Público de contratar com particulares o desempenho de
atividades de apoio, acessórias ao exercício do poder de polícia, como a operacionalização de
máquinas e equipamentos em atividades de fiscalização (o que não caracteriza delegação do
poder de polícia).

Assim, resumindo o entendimento que se deve levar à prova quanto à possibilidade de


delegação do poder de polícia, temos o seguinte:

Possibilidade de delegação do poder de polícia


Destinatário da delegação O poder público pode delegar?

4
STJ – REsp 817.534/MG.
5
STF – RE 633782.
6
ADI 1.717-DF.

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Regime jurídico de
Pode delegar.
direito público

Pode delegar, da seguinte forma:

a) entidades de direito privado, em geral: apenas as


fases de consentimento e de fiscalização.

[aplicação do entendimento do STJ (REsp 817.534) no sentido


de que as fases de consentimento e de fiscalização podem ser
Administração delegadas às entidades de direito privado integrantes da
Pública Indireta administração pública]
Regime jurídico de
direito privado
b) pessoas jurídicas de direito privado integrantes da
Administração Pública indireta de capital social
majoritariamente público que prestem exclusivamente
serviço público de atuação própria do Estado e em
regime não concorrencial: todas as fases, menos a de
ordem de polícia.

[aplicação do recente entendimento do STF proferido no RE


6337822]

Não pode delegar (mesmo por lei).

Particulares Pode apenas contratar com particulares o desempenho


de atividades de apoio ao exercício do poder de
polícia.

Poder de Polícia: atributos

Discricionariedade, autoexecutoriedade e coercibilidade.

Discricionariedade: a Administração possui certa liberdade de atuação, podendo determinar


quais atividades irá fiscalizar e quais sanções serão aplicadas, bem como sua gradação,
observando sempre os limites legalmente impostos. É importante frisar, por outro lado, que a
existência do atributo da discricionariedade não impede que a lei vincule a prática de
determinados atos de polícia administrativa.

Autoexecutoriedade: possibilita que certos atos administrativos (não todos) praticados no


exercício do poder de polícia sejam executados de forma imediata e direta pela Administração,
sem necessidade de prévia autorização judicial.

Coercibilidade: possibilidade de imposição coativa, inclusive mediante o emprego da força, das


medidas adotadas no exercício do poder de polícia.

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Convém destacar, por fim, que nem todos os atos de polícia administrativa são dotados dos
atributos da autoexecutoriedade e da coercibilidade, como a concessão de licenças e a cobrança
de multa não paga espontaneamente pelo particular.

Poder de Polícia: tributo relacionado

Os entes federativos poderão instituir taxas em razão do exercício do poder de polícia,


consoante inciso II do art. 145 da CF/88:

Art. 145. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão instituir os


seguintes tributos:

(...)

II - taxas, em razão do exercício do poder de polícia ou pela utilização, efetiva ou


potencial, de serviços públicos específicos e divisíveis, prestados ao contribuinte ou
postos a sua disposição;

Poder de Polícia: diferença entre Poder de Polícia e prestação de serviços públicos

A polícia administrativa é uma considerada atividade negativa (porque restringe direitos) e


integra o rol das atividades jurídicas do Estado (porque se funda no poder de império), já a
prestação de serviços públicos é uma considerada atividade positiva (oferece comodidades e
utilidades aos seus usuários) e integra as atividades sociais do Estado (incrementam o bem-estar
social, não decorrendo do poder de império).

Além disso, ao contrário dos serviços públicos, o poder de polícia é indelegável a particulares.

Poder de Polícia: diferença entre polícia administrativa e polícia judiciária

A polícia administrativa diz respeito a infrações de natureza administrativa, é exercida por órgãos
administrativos integrantes dos mais diversos setores de toda a Administração Pública,
geralmente sobre atividades, bens e direitos, tendo caráter notadamente preventivo – atua antes
da ocorrência do ilícito, buscando sua prevenção (embora medidas repressivas possam ser
adotadas).

Por sua vez, a polícia judiciária diz respeito à apuração de ilícitos de natureza penal, é exercida
por corporações especializadas (Polícia Civil, Polícia Federal e Polícia Militar – esta última
também desempenha atividade de polícia administrativa) diretamente sobre pessoas, tendo
caráter notadamente repressivo – geralmente intervém quando o ilícito já foi praticado, se
prestando a realizar sua apuração.

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Tulio Lages
Aula 07

Convém mencionar que a atuação das duas polícias não é excludente 7.

Poder de Polícia: técnicas de atuação do poder de polícia para ordenar as atividades


privadas

Técnicas de informação, de condicionamento e sancionatória.

As técnicas de informação são aquelas que exigem dos cidadãos a prestação de informação
sobre a própria existência das pessoas físicas e jurídicas e sobre atividades por ela
desenvolvidas, incluindo a comunicação de ocorrência de determinados fatos (ex: dever imposto
aos médicos de comunicar a ocorrência de certas doenças contagiosas).

Já as técnicas de condicionamento são aquelas que impõem aos particulares o cumprimento de


exigências (ou requisitos) para que desempenhem determinadas atividades (ex: autorizações).

Por fim, as técnicas sancionatórias estão consubstanciadas na imposição de sanções aos


particulares que violem regras necessárias ao desempenho de certas atividades privadas (ex:
multas de trânsito).

Poder de Polícia: prescrição da ação punitiva

O prazo de prescrição da ação punitiva da Administração Pública Federal no exercício do Poder


de Polícia é de cinco anos, contados da data contados da data da prática do ato ou, no caso de
infração permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado, consoante caput do art. 1º da
Lei 9.873/1999:

Art. 1º Prescreve em cinco anos a ação punitiva da Administração Pública Federal,


direta e indireta, no exercício do poder de polícia, objetivando apurar infração à
legislação em vigor, contados da data da prática do ato ou, no caso de infração
permanente ou continuada, do dia em que tiver cessado.

QUESTÕES ESTRATÉGICAS

1. (IBFC/2018/Pref Divinópolis/Advogado da Assistência Social) Poder discricionário é aquele:

7
Furtado, 2016, p. 582.

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