Quarta Lista de Preparação para a XXVIII Olimpı́ada de Matemática do Cone Sul e
VII Olimpı́ada de Matemática dos Paı́ses de Lı́ngua Portuguesa
Prazo: 08/04/2017, 23:55 de Brası́lia
Álgebra e Teoria dos Números
x PROBLEMA 1
Determine todos os números naturais n maiores que 1 tais que as representações decimais de n1 e n+1 1
possuam
um número finito de algarismos, isto é, as frações devem representar decimais exatos.
1
Solução: Para que uma fração da forma m , com m inteiro positivo, seja um decimal exato, m deve ser da
a b
forma 2 ·5 , onde a e b são inteiros não negativos. Como n e n+1 são primos entre si, há dois casos a considerar:
Caso 1: n = 2a e n + 1 = 5b , a e b inteiros positivos.
Neste caso, 5b − 2a = 1. Para a = 2, temos b = 1, o que nos dá n = 4. Se a ≥ 3, analisando módulo 8,
0 0 0 0
temos 5b ≡ 1(mod 8) e então b é par. Fazendo b = 2b0 , temos (5b + 1)(5b − 1) = 2a . Logo 5b + 1 e 5b − 1 são
0
potências de 2. As únicas potências de 2 cuja diferença é igual a 2 são 4 e 2 e então 5b = 3, o que não nos dá
soluções. Logo, neste caso temos apenas n = 4.
Caso 2: n = 5c e n + 1 = 2d , c e d inteiros positivos.
Neste caso, 2d − 5c = 1. Para d = 1, não há soluções e se d ≥ 2, olhando módulo 4, terı́amos −1 ≡ 1(mod 4), o
que é absurdo. Assim, a resposta do problema é apenas n = 4.
x PROBLEMA 2
Dizemos que um inteiro positivo é bacana se seus três últimos algarismos são iguais a 133. Demonstre que todo
número bacana possui um divisor primo maior do que 7.
Solução: Suponha que todos os divisores primos são menores ou iguais do que 7. Inicialmente, veja que como
o número termina em 3, seus fatores primos só poderão ser 3 ou 7 e portanto o número é da forma 3a · 7c .
Analisando módulo 100, temos que 3a pode ser:
1, 3, 9, 27, 81, 43, 29, 87, 61, 83, 49, 47, 41, 23, 69, 7, 21, 63, 89, 67.
Analisando também módulo 100, 7b pode ser 1, 7, 49, 43.
Se 7b ≡ 1(mod 100), 3a ≡ 33(mod 100), absurdo.
Se 7b ≡ 7(mod 100), 3a ≡ 19(mod 100), absurdo.
Se 7b ≡ 49(mod 100), 3a ≡ 17(mod 100), absurdo.
Se 7b ≡ 43(mod 100), 3a ≡ 31(mod 100), absurdo.
Desta maneira, é impossı́vel que o número termine em 33 e, portanto, é impossı́vel que o número termine em
133. Concluı́mos então que um número bacana deve possuir um divisor primo maior do que 7.
x PROBLEMA 3
Considere as seguintes somas:
1 1 1
S= + + ... + ,
1·2 3·4 99 · 100
1 1 1 1
T = + + ... + + .
51 · 100 52 · 99 99 · 52 100 · 51
Determine o valor de TS .
Solução: Reescreva
1 1 1 1 1
S =1−
+ − + ... + − ⇒
2 3 4 99 100
1 1 1 1 1 1 1 1
S = 1 + + + + ... + + − + + ... + ⇒
2 3 4 99 100 2 4 100
1 1 1 1
S= + + ... + + .
51 52 99 100
Logo
1 1 1 1 1 1 1 1
2S = + + + + ... + + + + ,
51 100 52 99 99 52 100 101
S 151
o que nos dá 2S = 151T e então T = 2 .
Combinatória
x PROBLEMA 4
Em cada casinha de um tabuleiro 1 × 2007, escreve-se 0 ou 1 de forma que a soma dos números em quaisquer 90
casinhas consecutivas seja sempre igual a 65. Determine os possı́veis valores da soma dos 2007 números escritos
no tabuleiro.
Solução: Seja ai o número na casinha de posição i no tabuleiro. Como a1 +a2 +. . .+a90 = a2 +a3 +. . .+a91 =
65, obtemos a1 = a91 e em geral obtemos que ai = ai+90 para 1 ≤ i ≤ 1917. A soma dos números nas primeiras
22 · 90 = 1980 casinhas é igual a 22 · 65 = 1430, enquanto que os números nas últimas 27 casinhas são iguais aos
números nas primeiras 27 casinhas. Como dentre os 90 primeiros números, há 25 zeros, entre os 27 primeiros
números, há pelo menos 2 uns e assim a soma total varia de 1430 + 2 = 1432 até 1430 + 27 = 1457. Por outro
lado, é fácil construir exemplos onde as somas são os números naturais de 1432 até 1437.
x PROBLEMA 5
Em um torneio onde cada dois participantes se enfrentam exatamente uma vez, podem ocorrer 3-ciclos, isto é,
conjuntos {a, b, c} de três times onde a ganha de b, b ganha de c e c ganha de a. Se 23 times disputam este
torneio e não há empates, qual é o maior número de 3-ciclos que pode ocorrer?
Solução: Seja vi o número de vitórias do time i e di o número de derrotas do time i. Vamos contar inicialmente
o número de conjuntos {a, b, c} que não são 3-ciclos. Veja que um tal conjunto não é um 3-ciclo se, e somente se,
existe um time que ganhou dos outros dois. Veja também que um tal conjunto não é um 3-ciclo se, e somente se,
existe um time que perdeu dos outros dois. Desta forma, sendo M o número de conjuntos que não são 3-ciclos,
temos:
23 23 23
X vi X di 1X vi di
M= = = + .
i=1
2 i=1
2 2 i=1 2 2
Para cada i,
1 (vi + di )2
vi di 1 2
+ = (vi + d2i ) − (vi + di ) ≥ − (vi + di ) ,
2 2 2 2 2
por MQ ≥ MA. Como vi + di = 22, segue que
vi di 242 − 22
+ ≥ = 110.
2 2 2
Assim, 2M ≥ 23 · 110 e então M ≥ 1265. Com isso, o número de 3-ciclos é menor ou igual a
23
− 1265 = 506.
3
Para que ocorra a igualdade, devemos ter vi = di = 10 para todo 1 ≤ i ≤ 23. Para construir um torneio com
estas propriedades, basta organizar os 23 times em uma mesa circular e fazer com que cada time ganhe dos 11
seguintes a ele, no sentido horário. Então o número máximo de 3-ciclos é de fato 506.
x PROBLEMA 6
Em uma festa, há 2n + 1 pessoas. Sabe-se que para qualquer grupo X de n pessoas, existe uma pessoa (que
não está em X) que conhece todas as pessoas de X. Prove que existe uma pessoa que conhece todas as outras
da festa.
Solução: Inicialmente, veja que pela condição do problema, há duas pessoas que se conhecem, digamos
A1 e A2 . Considere agora um grupo X1 formado por A1 , A2 e outras n − 2 pessoas. Por hipótese, há uma
pessoa, digamos A3 , que conhece todas as pessoas de X1 . Em particular, temos que A1 , A2 e A3 formam um
3-clique. Considere agora um grupo X2 formado por A1 , A2 , A3 e outras n − 3 pessoas. Por hipótese, há uma
pessoa, digamos A4 , que conhece todas as pessoas de X2 . Em particular, temos que A1 , A2 , A3 e A4 formam
um 4-clique. Continuando este processo, indutivamente, conseguimos um n + 1-clique, formado pelas pessoas
A1 , A2 , . . . , An+1 . Considere agora o grupo formado pelas outras n pessoas da festa. Por hipótese, existe Ai
que conhece estas n pessoas. Como Ai conhece Aj para i 6= j, segue que Ai conhece todas as pessoas da festa,
como querı́amos.
Geometria
x PROBLEMA 7
Determine todos os ângulos de um quadrilátero convexo ABCD tal que ∠ABD = 29◦ , ∠ADB = 41◦ , ∠ACB =
82◦ e ∠ACD = 58◦ .
Solução: O fato de que ∠ACD = 2∠ABD e ∠ACB = 2∠ADB nos lembra bastante as propriedades angulares
do circuncentro de um triângulo obtusângulo e com isso podemos conjecturar que C é o circuncentro do triângulo
ABD. Vamos então provar esta conjectura.
Para isto, basta usar o conceito de arco capaz: considere o arco capaz de 58◦ relativo a AD que se encontra do
mesmo lado que C com relação à reta AD; considere também o arco capaz de 82◦ relativo a AB que se encontra
do mesmo lado que C com relação à reta AB. Estes dois arcos capazes se intersectam nos pontos A e C. Por
outro lado, se O é o circuncentro do triângulo ABD, sabemos pelas propriedades angulares do circuncentro que
O está nestes dois arcos capazes. Com isso, O = A ou O = C e a primeira possibilidade é descartada, pois o
triângulo ABD é obtusângulo, demonstrando então a conjectura.
◦ ◦ ◦ ◦
Feito isto, fica fácil terminar o problema: ∠D = 180 2−58 = 61◦ (pois CA = CD), ∠B = 180 2−82 = 49◦ (pois
CA = CB), ∠C = 58◦ + 82◦ = 140◦ e ∠A = 180◦ − 41◦ − 29◦ = 110◦ .
x PROBLEMA 8
Em um quadrilátero convexo ABCD, os ângulos ∠A e ∠C possuem a mesma medida e a bissetriz de ∠B passa
AB
pelo ponto médio do lado CD. Se CD = 3AD, determine a razão BC .
Solução: Seja M o ponto médio de CD e seja P o ponto de interseção de BM com CD. Como ∠ABP =
∠M BC e ∠BAP = ∠BCM , os triângulos BCM e BAP são semelhantes. Além disso, ∠CM B = ∠DM P =
∠DP M e então DP = DM . Sejam AD = 2x e CM = M D = DP = 3x. Da semelhança entre BCM e BAP ,
temos:
AB AP 5x 5
= = = .
BC CM 3x 3
x PROBLEMA 9
Seja ABC um triângulo. Construa triângulos isósceles BCD, CAE e ABF externamente a ABC de bases
BC, CA e AB, respectivamente. Prove que as retas que passam por A, B e C e são perpendiculares a EF, F D
e DE, respectivamente, são concorrentes.
Solução: Sejam Γ1 a circunferência de centro D e raio DB = DC, Γ2 a circunferência de centro E e raio
EA = EC e Γ3 a circunferência de centro F e raio F A = F B. A reta por A perpendicular a EF é o eixo radical
de Γ2 e Γ3 , a reta por B perpendicular a F D é o eixo radical de Γ1 e Γ3 , enquanto a reta por C perpendicular
a DE é o eixo radical de Γ1 e Γ2 . Desta maneira, as três retas dadas são concorrentes no centro radical das três
circunferências construı́das.
Problemas gerais
x PROBLEMA 10
Existe um inteiro positivo divisı́vel pelo produto de seus algarismos e tal que este produto seja maior que 102017 ?
Solução: Usaremos o seguinte fato conhecido, que pode ser provado facilmente com indução: para todo inteiro
positivo n, existe um inteiro de n algarismos, formado apenas por algarismos 1’s e 2’s, que é divisı́vel por 2n .
Seja então M tal que 2M > 102017 . Através do fato citado, construa um inteiro com M algarismos, todos 1’s
ou 2’s, que é divisı́vel por 2M . Digamos que neste inteiro há x algarismos iguais a 1 e M − x algarismos iguais
a 2. Feito isso, basta colocar na frente deste inteiro x algarismos iguais a 2. O novo inteiro terá produto dos
algarismos 2M > 102017 e será divisı́vel por 2M .
x PROBLEMA 11
Encontre todos os números reais a, b, c tais que
2 2 2
a + b + c = 26
a+b=5
b + c ≥ 7.
Solução: Substitua na primeira equação a = 5 − b e c = 7 − b + k, com k ≥ 0:
(5 − b)2 + b2 + (7 − b + k)2 = 26 ⇒
3b2 − 24b + 48 + k 2 + 2(7 − b)k = 0 ⇒
3b2 − (2k + 24)b + k 2 + 14k + 48 = 0.
Olhando esta última equação como uma equação do segundo grau em b, temos que seu discriminante é ∆ =
−8k(k + 9). Como k ≥ 0, obtemos que ∆ ≤ 0 e portanto devemos ter ∆ = 0, o que nos dá k = 0. Assim,
3b2 − 24b + 48 = 0 e então b = 4, a = 1 e c = 3.
x PROBLEMA 12
Alex e Bibi disputam o seguinte jogo: Alex escolhe inicialmente um inteiro positivo k menor ou igual a 1000.
Em seguida, Bibi escolhe uma coleção B que contém mais de k números inteiros maiores ou iguais a 0 e menores
ou iguais a 1001. Agora, Alex pode efetuar seguidas vezes a seguinte operação em B: ele escolhe k números de
B e os troca da seguinte maneira: para cada número escolhido b, Alex o troca por b + 1, se b é menor do que
1000 e o troca por 0, se b = 1000. Alex ganha se, através de um número finito de operações, consegue fazer com
que todos os números de B sejam iguais a 0; caso contrário, Bibi ganha. Determine todos os valores de k que
garantem a Alex a vitória, independentemente da coleção B que Bibi escolha.
Solução: Se k não é primo entre si com 1001, Bibi pode ganhar tomando 1002 vezes o número 1. Inicialmente,
perceba que podemos pensar nas operações de Alex módulo 1001. Sendo d > 1 o máximo divisor comum entre
k e 1001, temos que a soma inicial deixa resto 1 na divisão por d e que a cada operação de Alex, a soma é
invariante módulo d. Para que Alex ganhasse, a soma final deveria ser 0 módulo d e então terı́amos 1 ≡ 0(modd),
o que é absurdo.
Provaremos agora que se k é primo entre si com 1001, Alex pode ganhar. Sejam a1 , a2 , . . . , aB os números
escolhidos por Bibi. Inicialmente, Alex escolherá os k − 1 primeiros números e aB , e efetuará a operação até
que aB = 0. Feito isso, Alex repetirá o processo até que todos os números depois de ak+1 sejam nulos e assim
basta resolvermos o problema para o caso em que Bibi escolhe apenas k + 1 números. Podemos ver agora a
operação de Alex como somar 1 em cada um dos k + 1 números e escolher um deles para subtrair 1. Desta
maneira, após um número finito de passos, conseguimos que todos os números deixem o mesmo resto na divisão
por 1001 (mas não necessariamente resto 0). Veremos agora como chegar a restos 0 a partir deste momento.
Ao fazermos k + 1 operações, deixando de cada vez um termo de fora, somamos k a cada número módulo 1001.
Como k é primo entre si com 1001, sabemos que a + bk percorre todos os restos 1001 ao variarmos b e assim
eventualmente teremos que todos os números são iguais a 0, mostrando então que Alex ganha neste caso.
x PROBLEMA 13
Sejam O o circuncentro e H o ortocentro de um triângulo acutângulo ABC com BC > CA. Seja F o pé da
altura relativa a C deste triângulo. A reta perpendicular a OF pelo ponto F intersecta a reta AC no ponto P .
Prove que ∠F HP = ∠BAC.
Solução: Seja H 0 o simétrico de H com relação a AB. Sabemos que H 0 pertence ao circuncı́rculo de ABC.
Sejam X e Y as interseções de P F com o circuncı́rculo e seja P 0 a interseção de H 0 B com XY . Como OF é
perpendicular a XY , F é ponto médio de XY e pelo teorema da Borboleta, temos que F é ponto médio de
P P 0 . Desta maneira, os triângulos F HP e F H 0 P são congruentes, o que nos dá ∠F HP = ∠F HP 0 = ∠BAC,
como querı́amos.