O que é Filosofia?
Podemos definir a filosofia por meio da conceituação de Bertrand Russel (filósofo e matemático
inglês que viveu entre os anos 1872 e 1970): “A filosofia é a terra de ninguém entre a ciência e a
teologia, exposta a ataques dos dois lados.” (DUROZOI; RUSSEL, 1993, p. 190)
Essa afirmação demonstra que os estudos da disciplina de filosofia não se pautam em teorias
fechadas, mas em um campo de incertezas existentes entre a ciência (ao não seguir a metodologia
científica de experimentos e demonstrações) e a teologia (disciplina cujo objeto de estudo é Deus).
A mais famosa conceituação desse tema afirma que a Filosofia é o exercício da razão, geralmente
atribuída a Pitágoras de Samos, que diz que a palavra filosofia é composta por outras duas, do
grego filo (philia, que significa amizade) e sofia (sophia, sabedoria). Dessa forma, o autor atribuiu a
filosofia o significado de amizade a sabedoria.
Ainda em busca do significado da filosofia, observe o trecho extraído da obra Dicionário da Filosofia:
[...] sistema de reflexões críticas sobre as questões referentes ao conhecimento e à ação. Nessa
ótica, a filosofia pode voltar ao que cada ciência apreende diretamente (por exemplo: filosofia da
história). [...] É caracterizada em geral por sua atitude interrogativa e não dogmática, inaugurada por
Sócrates: mas pode-se observar que, ao evocar-se “a filosofia” desse autor, visa-se, contudo, um
conjunto de afirmações ou de teses. O que significa constatar que, para ser apreendida em toda a
sua extensão, a filosofia deve ser entendida como além de cada filósofo que lhe atualiza
momentaneamente uma certa ‘morte’. Assim, a filosofia é inseparável [...] de sua história.
(DUROZOI; ROUSSEL, 1998, p. 190)
Dentre as inúmeras definições sobre o tema filosofia, adotamos a da autora Chauí (2012) exposta no
infográfico a seguir.
Além disso, podemos também tentar compreender esse tema compreendendo aquilo que não é
filosofia, nesse sentido, Chauí (2012, p. 28) afirma:
A filosofia não é ciência: é uma reflexão sobre os fundamentos da ciência, isto é, sobre
procedimentos e conceitos científicos. Não é religião, é uma reflexão sobre os fundamentos da
religião, isto é, sobre as causas, origens e formas das crenças religiosas. Não é arte, é uma reflexão
sobre os fundamentos da arte, isto é, sobre os conteúdos, as formas, as significações das obras de
arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica
dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação,
compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder e suas mudanças. Não é
história, mas reflexão sobre o sentido dos acontecimentos enquanto inseridos no tempo e
compreensão do que seja o próprio tempo.
Em comum, todas essas definições apresentam como essência o aspecto interrogativo acerca do
mundo físico e humano, a reflexão como método e o mesmo objetivo: ensinar a viver em sociedade.
Filosofia Grega: Os Pré-Socráticos
O decúbito de tempo que conhecemos como Grécia Antiga possui uma divisão temporal, sendo que
o desenvolvimento da filosofia da Grécia também se submete à uma divisão. Em regra, separa-se a
filosofia em antes e depois de Sócrates, tendo essa divisão a demarcação do enfoque da reflexão,
qual seja a compreensão da natureza (antes) e do homem (depois).
Apesar da paternidade da filosofia ser atribuída a Sócrates, não podemos desconsiderar seus
predecessores, os pré-socráticos, autores que identificaram o mundo com espanto e curiosidade,
características tais que foram se perdendo após os escritos de Platão e, principalmente, as
sistematizações de Aristóteles.
No que tange às teorias filosóficas elaboradas, elas tinham por objeto explicar o mundo como um
todo, partindo-se da física e alcançaram inúmeros discípulos até a atualidade.
Os Sofistas
Nos textos de Platão, os Sofistas eram apontados como impostores, mentirosos, charlatões e
demagogos, essa classificação advém do que Sócrates pensava sobre eles.
Porém, estudos atuais têm apontado os sofistas como os “fundadores da pedagogia democrática”,
sendo mestres na arte de educar os cidadãos. Eles não se apresentavam como filósofos, mas como
professores de técnicas. Dessa forma, eles ensinavam técnicas diversas, e todo sofista era perito
em uma ou mais técnicas.
Em uma sociedade em que a defesa dos direitos pessoais de cada cidadão era feita pessoalmente
(os advogados só surgiriam com o Direito Romano), e a política ocorria de maneira direta e
participativa, o domínio da arte da palavra e a capacidade de persuasão era primordial. Assim, as
conferências realizadas pelos sofistas eram muito concorridas, atraindo multidões.
Sócrates
Conhecido comumente como o pai da filosofia, passaremos a estudar os principais aspectos da
teoria de Sócrates. Segundo Gottlieb (1999, p. 7):
Sócrates é o santo e o mártir da filosofia. Nenhum outro grande filósofo foi tão obcecado com o viver
corretamente. Como muitos mártires, Sócrates escolheu não tentar salvar a própria vida, quando
provavelmente o poderia ter feito mudando suas atitudes. Segundo Platão, que estava presente na
época, Sócrates, em seu julgamento, disse aos juízes: “estais enganados, se achais que um homem
que tem algum valor deva gastar seu tempo pesando as perspectivas de vida e morte. Só há uma
coisa a considerar quando se faz uma ação – saber se se está agindo correta ou erradamente.
Nesse sentido, um importante aspecto da vida de Sócrates é sua relação com o Oráculo de
Delfos, palácio construído para abrir a pitonisa, intérprete de Apolo, pois um sofista o questionou
sobre quem seria o homem mais sábio de toda a Grécia e a resposta que ele recebeu foi a de que
esse homem era Sócrates. Inconformado com a resposta, o autor emite sua mais célebre frase: “Só
sei que nada sei”.
Figura 1A morte de SócratesFonte:Jacques-Louis David / Wikimedia Commons
Filho de um marceneiro e uma parteira, Sócrates comparava seu modo de filosofar ao trabalho da
mãe: ela fazia o parto de corpos, enquanto ele, das almas. Sócrates serviu ao exército ateniense em
três situações durante a Guerra do Peloponeso, e essas teriam sido as únicas vezes em que ele
saiu da cidade de Atenas em seus setenta anos de vida.
O mais enigmático e misterioso filósofo grego nunca escreveu nada. Ele preferia abordar suas ideias
em debates e ensinamentos públicos. Mas, mesmo sem registros originais, o seu pensamento
vingou, exercendo forte influência sobre as obras de seus sucessores, em especial Platão e
Aristóteles.
Todavia, é importante ressaltar a dificuldade em examinar de maneira mais rigorosa o seu sistema
filosófico, pois não há obras escritas por ele para utilizarmos como referência. Dependemos,
portanto, de fontes secundárias: a mais citada é Platão, seu mais brilhante aluno – e que
abordaremos em breve – além de Xenofonte, outro brilhante discípulo socrático, Aristófanes
(contemporâneo de Sócrates, suas peças de teatro traduzem um pouco da sociedade e do
pensamento atenienses da época) e Aristóteles.
Esses são relatos sobre a época que Sócrates somente se dedicou a filosofia, após visitar o templo
onde era cultuado o Deus Apolo, conhecido como Oráculo de Delfos e ler uma inscrição na porta do
templo – “Conhece-te a ti mesmo”, diz ter ouvido uma voz interior (daímon) que lhe transmitiu uma
mensagem de Apolo: “Sócrates é o homem mais sábio entre os homens”. Não acreditando no que
lhe foi reportado, o filósofo procurou todos aqueles que julgava sábios, como políticos e poetas,
perguntando-lhes o que é sabedoria. Então, ele descobriu que eles nada sabiam. Só então ele
compreendeu a mensagem, pois nenhum homem sabe verdadeiramente nada, mas é
verdadeiramente sábio aquele que reconhece isso. Assim, o início da sabedoria estaria contido na
frase: “sei que nada sei”.
A compreensão da frase do templo de Apolo fez com que Sócrates a tomasse como uma missão.
Assim, ele abandonou as atividades práticas e passou a levar uma vida pobre com sua mulher
Xantipa e seus filhos.
Sócrates foi descrito por todos os outros que o conheceram como alguém dedicado ao
conhecimento de si e que provocava nos outros perguntas sobre si próprios, conversando na praça
do mercado, nas reuniões de amigos e nas ruas...(CHAUÍ, 2004, p. 177).
Para Aristóteles, a pergunta central da filosofia socrática reside em “o que é...?”. Ao questionar o que
julgamos conhecer, ele mostrava que, na verdade, nada sabemos. “O que é beleza?”, “o que é
virtude?”, “o que é coragem?”, “o que é certo?”.
Nesse sentido, o objetivo central da teoria Socrática é a busca pela essência do conhecimento. Para
ele, só era possível ter conhecimento se primeiro buscássemos a virtude, se primeiro fossemos
pessoas merecedoras, ou seja, pessoas virtuosas.
Ao alcance das virtudes, o filósofo desenvolveu um método baseado em diálogos, ou discussões.
Para ele, o exercício da filosofia se daria através da conversa, com quem se dispusesse a filosofar
com ele.
Assim, o método Socrático de alcance do conhecimento começava a partir da ignorância. Dessa
forma, tentava-se desmistificar “falsas verdades” e procurava atingir as verdadeiras. Logo, na
filosofia socrática o conhecimento verdadeiro inicia-se com o reconhecimento da própria ignorância:
“Sei que nada sei”.
Na fase posterior, ocorria uma espécie de debate de discussão em que Sócrates desafiava seu
interlocutor a ir além das respostas baseadas em sua opinião e no senso comum.
E, por último, tornava-se possível a maiêutica, o parto das ideias, quando se alcançava uma verdade
tão profunda que somente poderia ter sido encontrada na alma.
A verdade era importante, pois dela dependia a conduta justa e adequada de cada sujeito dentro da
vida social e política. Como desejava uma Atenas renovada e moralmente sadia, dedicava-se à
educação da juventude, utilizando-se desse método (a maiêutica). Com isso foi, em primeiro plano,
um moralista, pois ditava que os descaminhos eram frutos da ignorância e das falsas verdades.
Virtude e conhecimento eram tidos como a mesma coisa, pois conhecer a verdade era viver
virtuosamente. A virtude podia ser aprendia, e consistia em conhecer e fazer o bem (LUCKESI;
PASSOS, 1992, p. 96).
Portanto, a proposta de Sócrates não era a de elaborar teorias, mas de ajudar a desabrochar o
conhecimento, que, para ele, estava adormecido na alma humana. Logo, conhecer era trazer à tona
as verdades que estavam no interior dos indivíduos.
Anterior
Platão
Nascido no que podemos considerar um “berço de ouro”, pois compunha uma família da aristocracia
de Atenas. Arístocles, conhecido por sua desproporcional testa como Platão, viveu entre os anos de
427-347 a.C.
Figura 2PlatãoFonte:Marie-Lan Nguyen / Wikimedia Commons
Por ser de família nobre, a educação de Platão foi a melhor possível. Além da educação tradicional,
que visava ao “guerreiro belo” (ginásio) e o “guerreiro bom” (música e poesia), Platão teve contado
com os sofistas, pois seus pais, poderosos nas sociedades, buscavam proporcionar ao filho o
aprendizado da teórica a fim de que ele se destacasse na política.
Em torno de seus 20 anos, Platão conheceu Sócrates, sendo que após a morte de seu mestre, nove
anos mais tarde, Platão se tornou seu discípulo de maior destaque.
Com a morte de seu mestre, o filósofo desenvolveu sua teoria política, que dispõe que os regimes
jurídicos apresentam diferenças entre si, dessa forma, eles se diferenciam pelas quantidades de
chefes exercentes dos poderes, haveria um caminho de ascensão e degradação política para todas
as sociedades.
Nesse sentido, o filósofo propõe que os governos iniciariam por meio do governo de um, a
monarquia, e que, dependendo da honra de seu governante, o segundo momento do governo seria
a aristocracia, o governo de alguns, da elite. Portanto, se eles valorizassem como principal qualidade
à educação, logo passaríamos a viver a democracia.
Todavia, havendo a degradação, tem-se que a democracia se tornaria uma anarquia, a aristocracia,
por sua vez, uma oligarquia e a monarquia uma tirania.
Diferentemente de Sócrates, Platão era um exímio escritor e em sua principal obra denominada de A
República, o autor narra uma discussão entre Sócrates e outras pessoas, filósofos, falando sobre a
melhor forma do governante (“rei-filósofo”) conseguir criar uma sociedade perfeita.
Entretanto, para a filosofia a mais importante teoria de Platão é o dualismo, ou seja, que existem
dois mundos: o mundo sensível e o mundo inteligível. O primeiro é o mundo concreto, no qual
vivemos. O segundo é ligado ao universo das percepções, de tudo que toca os sentidos. Esse último
está em constante transformação, enquanto o primeiro é imutável. Para Platão, o mundo era
composto de formas (uma casa, um animal etc.) e ideias (como a virtude e a igualdade). As formas
são eternas, imutáveis, predeterminadas – diferente das ideias. A contemplação das formas
constituía o que Platão entendia por conhecimento (que, na Grécia antiga, era sinônimo de virtude).
Essa é a chamada Teoria das Ideias ou Teoria das Formas.
Saiba mais!
Grécia Antiga
O contexto histórico vivenciado pelos filósofos é de suma importância para a compreensão do tema,
por isso, para sabermos mais sobre a Grécia antiga e, principalmente, sobre a filosofia grega,
acesse o link a seguir.
Fonte: elaborado pelos autores.
Procurando ilustrar a dualidade de sua teoria, Platão criou uma alegoria, presente em sua principal
obra, A República, livro VII, que ficou conhecida como “o mito da caverna”, como relata o filósofo
Nigel Warburton (2012, p. 15):
Para defender isso, Platão descreve uma caverna. Nessa caverna imaginária, há pessoas
acorrentadas viradas para uma parede. Diante delas, as pessoas veem sombras trêmulas que
acreditam corresponder às coisas reais. Mas não são. O que veem são sombras projetadas por
objetos conduzidos na frente de uma fogueira que fica lá atrás. Essas pessoas passaram a vida toda
pensando que as sombras projetadas na parede são o mundo real. Até que um dos sujeitos se
liberta das correntes e segue em direção ao fogo. Seus olhos ficam turvos a princípio, mas depois
ele começa a ver onde está. Caminha aos tropeços para fora da caverna e, por fim, consegue olhar
para o sol. Quando ele volta para a caverna, ninguém acredita no que ele diz sobre o mundo lá fora.
O homem que se liberta é como o filósofo: ele vê além das aparências. As pessoas comuns não têm
muita noção da realidade porque se contentam em olhar o que está diante delas em vez de refletir
profundamente sobre as coisas. Contudo, as aparências são enganadoras. O que veem são
sombras, não a realidade.
Nesse sentido, podemos dar ênfase a outra proposta platônica, exposta nas brilhantes palavras de
Chauí (2012, p. 224): “Os três primeiros são os meios de adquirir conhecimento e o quarto é o
conhecimento propriamente dito. O primeiro é o nome, o segundo, a definição, o terceiro é a imagem
e o quarto é o conhecimento ou ciência”.
Platão, como o principal herdeiro do pensamento socrático, trabalha a questão do conhecimento das
essências como fundamental. Sócrates buscava a formação dos conceitos universais, Platão diz que
estes existem no mundo das essências e que a alma já os vivenciou. É preciso recordá-los
(reminiscência é o método platônico) e viver segundo eles. Em ambos, as verdades são descobertas
da alma, porém em Sócrates elas se dão na alma e em Platão elas estão na alma, porque esta já
existiu no mundo das essências, já tendo sido vivenciadas. Para o primeiro, a sua descoberta é um
“parto”, para o segundo, uma “reminiscência”. (LUCKESI; PASSOS, 1992, p. 97)
Embora a maioria das pessoas o interprete erroneamente, um dos conceitos elaborados por Platão
que tiveram maior popularidade foi o de amor. O amor platônico, filosoficamente falando, não
significa que os relacionamentos não devam ter atração física, mas que os impulsos, os desejos
sexuais, devem ser contidos em nome do bem maior.
Aristóteles
O período aristotélico pode ser encarado como o apogeu da filosofia grega, como aponta o filósofo
espanhol Julián Marias (1959, p. 76):
Com Aristóteles, a filosofia grega atinge a sua plena maturidade; a tal ponto que, desde então,
começará a sua decadência, e não tornará a alcançar uma altura semelhante. A própria Grécia nem
sequer chega a ser capaz de conservar a metafísica aristotélica, faltando-lhe a compreensão para os
problemas filosóficos que tão profundamente Aristóteles havia posto. [...] Aristóteles é – com Platão
–, a figura maior da filosofia grega, e mesmo talvez de toda a filosofia. Determinou em maior medida
que qualquer outro pensador os caminhos que depois dele a filosofia havia de percorrer. Foi o
descobridor de um fundo estrato das questões metafísicas, o forjador de muitos dos mais
importantes conceitos que o intelecto humano maneja há largos séculos para pensar o ser das
coisas. [...] O homem, em suma, que possui todo o saber de seu tempo. Onde pôs a mão, deixou
sinais de sua genialidade. Por estas razões, Aristóteles gravitou de uma forma inimaginável por toda
a filosofia.
Após realizar sua realização na academia platônica, Aristóteles viajou a Macedônia para encarregar-
se da educação de Alexandre, que posteriormente conheceremos como Alexandre, o Grande.
Voltando dessa missão e por divergir de Platão em alguns aspectos de ensinamento ao retomar a
Atenas, o filósofo fundou sua própria escola, o Liceu.
Figura 3Escola de AristótelesFonte:Charles Laplante / Wikimedia Commons
Em sua escola, ele explicava temas mais “acessíveis”, como a retórica, a política ou a sofística. Mas
não era só isso, como acrescenta Warburton (2012, p. 10):
Depois de estudar com Platão, viajar e trabalhar como tutor de Alexandre, o Grande, ele fundou a
própria escola em Atenas, chamada Liceu. Trata-se de um dos mais famosos centros de ensino do
mundo antigo, algo parecido com as universidades modernas. De lá, ele enviava para fora
pesquisadores que voltavam com novas informações sobre todos os assuntos, de sociedade política
a biologia. Ele também fundou uma importante biblioteca.
Reconhecido por frases famosas como: “todos os homens desejam por natureza saber”, Aristóteles
aponta que o homem sente prazer no conhecimento. Outra de suas mais famosas frases – embora
erroneamente atribuída a William Shakespeare – está em Ética a Nicômaco: “Uma andorinha só não
faz verão”. A frase cunhada há quase 24 séculos, ainda continua sendo utilizada para os mais
diversos fins.
Aristóteles, foi o criador da Lógica, a qual podemos resumir ao silogismo, raciocínio que parte de
duas premissas para se chegar a uma conclusão. Por exemplo: Sócrates é um homem (premissa 1).
Todos os homens são mortais (premissa 2). Logo, Sócrates é mortal (conclusão).
Embora seja o principal discípulo de Platão, Aristóteles discordou dele em vários pontos. Ao analisar
a Metafísica aristotélica, o historiador da filosofia Martyn Oliver (1998, p. 20-1) observa:
À diferença de Sócrates e Platão, Aristóteles não era motivado por uma paixão pela busca da justiça
no saber absoluto da filosofia. Para Platão, o conhecimento e a justiça são inseparáveis, enquanto
para Aristóteles, são apenas interligados. [...]
A Metafísica de Aristóteles (compreensão filosófica da realidade) é, em essência, uma modificação
da teoria das ideias, de Platão. Grande parte dessa obra parece uma tentativa de moderar as muitas
extravagâncias de Platão. Seus dois principais aspectos mais importantes são a distinção entre o
“universal” e a mera “substância” ou “forma particular” e a distinção entre as três substâncias que
formam a realidade, cada uma com sua essência fundamental. São elas: 1) o que é sensível e
perecível (os animais e as plantas); 2) o que é sensível, mas não-perecível (o homem, pois tem uma
alma racional); 3) o que não é sensível nem perecível (Deus). Apesar de assimilada de muitas
formas pelo mundo moderno, essa divisão é grega. Trata-se, em parte, de uma racionalização da
moralidade grega convencional expressa em estruturas sociais e políticas.
Ainda sobre a divergência do pensamento aristotélico com o de seu mestre Platão, Luckesi e
Passos (1992, p. 98) afirmam:
Do ponto de vista do conhecimento, Aristóteles divergiu de seu mestre Platão. Enquanto este
defendia que os conceitos universais já existiam na alma, aquele diz que os conceitos são formados
por um processo de abstração que se inicia pela percepção dos objetos produzidos pelo sentido,
chegando aos conceitos universais e abstratos.
Além disso, Aristóteles é mundialmente reconhecido por sua frase, “o homem é um animal político
por natureza”, ou seja, esse homem necessita da sociedade e do Estado.
O Estado é o “resultado natural” da experiência política humana. Como Platão, ele defende que
existem três formas de Estado: a monarquia, a aristocracia e a democracia. Embora aceitasse a
monarquia sob condições especiais, era um defensor do regime democrático. Ele era, também, um
defensor do ócio para os políticos – ou cidadãos. Livres das preocupações do dia a dia, eles
poderiam se dedicar inteiramente à política, sem obstáculos à sua capacidade de pensar e agir de
forma mais racional.
Aristóteles aprendeu com Platão, que aprendeu com Sócrates, formando uma “corrente”, embora
haja grandes diferenças entre o pensamento dos três (Sócrates, Platão e Aristóteles), e, por isso, a
filosofia anterior a ele merecia destaque. Parte considerável do que conhecemos sobre o
pensamento de Sócrates, dos pré-socráticos e mesmo de Platão, são originários dos estudos
aristotélicos.
Assim como Sócrates e Platão, Aristóteles se perguntava “como devemos viver?”. Seria a procura da
resposta a essa pergunta que, em muitos casos, levaria as pessoas à filosofia pela primeira vez.
Mas, enquanto Platão e Sócrates acreditavam em uma vida virtuosa, Aristóteles respondia que
devemos viver buscando a felicidade.
Mas, o que seria “buscar a felicidade”? Não se tratava, para Aristóteles, de momentos efêmeros, de
felicidade passageira. Não seriam “momentos felizes”, ou não apenas isso. Aristóteles afirmava que
o que diferenciava os homens dos animais era sua capacidade de raciocinar. Por isso, o melhor jeito
de viver seria usando a razão. Nesse sentido, o filósofo concordava que deveríamos procurar uma
vida virtuosa. Mas a virtude, para ele, encontra-se a meio termo entre dois extremos. Isso foi
chamado de justo meio. Como aponta Warburton (2012, p. 13):
Pense na virtude da coragem durante a guerra. Talvez um soldado precise colocar a própria vida em
risco para salvar alguns cidadãos do ataque de um exército. O temerário não se preocupa com a
própria segurança. Ele também poderia entrar numa situação perigosa, talvez até quando não
precisasse, mas isso não é a verdadeira coragem, e sim a ação imprudente de correr riscos. No
outro extremo, o soldado covarde não consegue superar seu medo o suficiente para agir de maneira
apropriada e ficará paralisado diante do terror no momento exato em que mais se precisa dele. O
sujeito valente ou corajoso, no entanto, também sente medo nessa situação, mas é capaz de
dominá-lo e agir. Aqui, a coragem está na metade do caminho entre a temeridade e a covardia. Isso
costuma ser chamado na doutrina de Aristóteles de justo meio.
Sua genialidade era tamanha que, por vezes, bastava citar uma fala de Aristóteles para encerrar um
assunto como se aquilo comprovasse sua ideia. Isso, claramente, contradiz a tradição filosófica
iniciada com Sócrates. Claro que isso gerou efeitos colaterais, pois há mais de dois mil anos, e com
uma obra tão vasta e abrangente, obviamente há erros em algumas de suas conclusões. Assim,
durante toda a Idade Média, se Aristóteles havia escrito algo, então aquilo estava certo e não seria
necessária uma comprovação.
Como Platão, o legado de Aristóteles é gigantesco, e sua influência ainda se faz sentir. Considerado
por muitos o maior sábio da Antiguidade, o pensamento aristotélico moldou parte do pensamento
humano e da maneira como vivemos.
Atenção!
Mito da Caverna
O renomado cartunista brasileiro, Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, de forma bem-
humorada, reviveu a alegoria platônica o Mito da Caverna por meio de seu personagem Pré-
Histórico, Piteco. No quadrinho, o autor faz uma interessante analogia com o mundo moderno onde,
ao invés de nos colocarmos em uma caverna vendo sombras, sentamo-nos em frente à TV vendo as
imagens ali projetadas.
Fonte: elaborado pelos autores.
Filósofos Cristãos
A partir do Século IV, ocorreu de forma célebre o avanço do cristianismo na Europa, ensejou
pensadores que objetivaram aproximar a filosofia da teologia e, para tanto, seus trabalhos foram
fundados em adaptações de clássicos gregos, sobretudo de Platão e Aristóteles. Mas as suas obras
não se resumiram à ideologia cristã, contribuindo substancialmente para o progresso das
investigações filosóficas.
Por reviverem os textos gregos clássicos, os cristãos, em destaque Santo Agostinho e São Tomás
de Aquino, auxiliaram, involuntariamente, com a preservação e divulgação da filosofia clássica.
Santo Agostinho
Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste. Ficou conhecido após sua canonização como Santo
Agostinho e foi um dos mais importantes pensadores cristãos. Ele viveu em um período de intensas
transformações sociais e políticas, em meio à desintegração crescente do Império Romano. Seu
pensamento influenciou a doutrina cristã por mil anos, como observa Olyver (1998, p. 46):
A teologia de Santo Agostinho tornou-se fonte doutrinária fundamental para a Europa cristã durante
os mil anos seguintes, pois alimentou o cristianismo de um sistema de crenças coerentes que o
Velho Testamento por si só não fornecia.
Nesse sentido, sua obra tem por objetivo explicar a existência de Deus e de suas obras de forma
profunda.
Figura 4Cenas da Vida de Santo AgostinhoFonte:GualdimG / Wikimedia Commons
Assim, ele busca uma justificativa filosófica para o cristianismo, adaptando e modificando a filosofia
de Platão.
O dilema a ser superado por Sto. Agostinho foi sobre a origem da bondade de Deus. A resposta do
filósofo, segundo Warburton (2012, p. 36-37), afirma que:
Em uma idade mais avançada, Agostinho rejeitou a abordagem maniqueísta. Ele não conseguia
entender por que a luta entre o bem e o mal seria interminável. Por que Deus não vencia a batalha?
Não era certo que as forças do bem eram mais fortes que a do mal? Por mais que os cristãos
aceitassem a possível existência de forças do mal, elas nunca são tão grandes quanto a força de
Deus. Mas se Deus era verdadeiramente todo-poderoso, como Agostinho passou a acreditar, os
problemas do mal permaneceriam. Por que Deus permitia o mal? Por que havia tanto mal? A
solução não é nada fácil. Agostinho pensou exaustivamente sobre esses problemas, e sua principal
solução baseou-se na existência do livre-arbítrio: a capacidade humana de decidir o que fazer. Esse
argumento costuma ser chamado de defesa do livre-arbítrio e trata-se de uma teodiceia – a tentativa
de explicar e defender a ideia de como um Deus bom permitia o sofrimento.
Diante dessa afirmação, temos ainda na teoria agostiniana a defesa do livre arbítrio como algo
positivo, que concede uma chance de a pessoa viver uma vida boa moralmente.
A filosofia Medieval
No extenso decorrer de tempo o qual denominamos de Idade Média, o mundo estava
convulsionando-se (e, por mundo, entende-se a Europa) com o fim do Império Romano do Ocidente
e a desintegração dos reinos bárbaros. Da mistura desses dois elementos culturais (bárbaros e
romanos) surgirá algo novo, enquanto a cultura antiga parecia desaparecer. Os intelectuais desse
período de quatro séculos (séculos V a IX) têm como tarefa primordial “salvar o que restou”. Como
observa Marías (1959, p. 137-8):
Em primeiro lugar, há uma grande lacuna de quatro séculos, do século V ao século XV, em que
propriamente não há filosofia. [...] salvar o que se encontra, salvar os restos da cultura que está
naufragando. Essa é a missão dos intelectuais desses quatro séculos. O seu labor não é, nem pode
ser criador; apenas compilador. Em Espanha, em França, na Alemanha, na Inglaterra, alguns
homens, por idêntico processo, vão recolhendo com cuidado o que se sabe da Antiguidade, reunindo
tudo em livros do tipo enciclopédico, nada originais, puros repertórios do saber greco-latino. Esses
homens salvarão a continuidade da história ocidental e encherão com labor paciente o vazio desses
séculos de fermentação histórica, para que possa surgir mais tarde a comunidade europeia.
Todavia, o conhecimento conservado sem rigor intelectual e assistemático, essa etapa de
acumulação e a compilação de conhecimento serve como norte ao conhecimento especulativo da
época.
No século XIII, o continente europeu viveu uma revolução cultural, em razão da criação das
universidades. Com o crescimento do esclarecimento proveniente das ciências, a população passa a
perder a fé e as teorias de Santo Agostinho passam a ser questionadas.
São Tomás de Aquino
Tomás de Aquino fazia uma clara distinção entre teologia e ciência, essa que visa estudar a relação
dos homens para com a revelação divina e ainda e ciência que se fundamenta no exercício da razão
humana. Enquanto a filosofia é obra humana, a teologia não é feita pelo homem, mas por Deus, ao
revelar-se.
Figura 5São Tomás de AquinoFonte:Gentile da Fabriano / Wikimedia Commons
Na tentativa de provar a existência de Deus, Tomás de Aquino expõe, em sua obra Suma
teológica, a tese da Causa primeira, que foi baseada no em um pensamento aristotélico. Parte dessa
ideia consiste que tudo que existe surgiu de uma relação de causa e efeito.
Nos termos da própria Summa Theologica:
A primeira e mais clara se funda no movimento. É inegável, e consta pelo testemunho dos sentidos,
que no mundo há coisas que se movem. Pois bem, tudo o que se move é movido por outro, já que
nada se move mais que enquanto está em potência a respeito daquilo para o qual se move. Mas,
mover requer estar em ato, já que mover não é outra coisa que fazer passar o que está em ato, à
maneira como o quente em ato, por exemplo, o fogo faz que uma lenha, que está quente em
potência, passe a estar quente em ato. Muito bem: não é possível que uma mesma coisa esteja, ao
mesmo tempo, em ato e potência a respeito do mesmo, senão a respeito de coisas diversas, o que,
por exemplo, é quente em ato, não pode ser quente em potência, e sim, que, em potência, é, ao
mesmo tempo, frio. É, pois, impossível que uma coisa seja, por isso é da mesma maneira, motor e
móvel, como também o é o que se move a si mesma. Por conseguinte, tudo o que se move é
movido por outro. Mas, se o que move a outro é, por sua vez, movido, é necessário que o mova um
terceiro, e, a este, outro. Não se pode porém seguir indefinidamente, porque assim não haveria um
primeiro motor e, por conseguinte, não haveria motor nenhum, pois os motores intermédios, não
movem mais que em virtude do movimento que recebem do primeiro, da mesma forma que um
bastão nada move a não ser que o impulsione a mão. Por conseguinte, é necessário chegar a um
primeiro motor, que não seja movido por ninguém, e este é o que todos entendem por Deus.
(AQUINO, 2011, p. 127-128)
Essa teoria é a segunda das chamadas cinco vias, ou as cinco maneiras de provar a existência de
Deus. Nesse sentido, Marías sintetiza as afirmações, constantes da Summa Theologica I, q. 2, que
tratam desse tema da seguinte maneira:
São Tomás, que repele a prova ontológica de Santo Anselmo, demonstra a existência de Deus, de
cinco maneiras, que são as famosas cinco vias:
1ª - Pelo movimento: existe o movimento; tudo o que se move é movido por outro motor; se um
motor se move, precisará de outro para o fazer mover, e assim até o infinito. Isso seria impossível
porque não haveria nenhum motor se não houvesse um motor primeiro, e este motor primeiro é
Deus.
2ª - Pela causa eficiente: há uma série de causas eficientes: tem de haver uma primeira causa,
porque se não houvesse, não haveria nenhum efeito, e essa causa primeira é Deus.
3ª - Pelo possível e pelo necessário: a geração ou corrupção mostram que há entes que podem ser
ou não ser; esses entes, houve um tempo em que não foram, e terá havido um tempo em que não
houvesse nada, e nada havia chegado a ser. Tem de haver um ente necessário por si mesmo, e este
ente chama-se Deus.
4ª - Pelos graus de perfeição: há diversos graus de todas as perfeições, que se aproximam mais ou
menos das perfeições absolutas, e por isso são graus dessas coisas absolutas; há, pois, um ente
que é sumamente perfeito, que é o ente supremo; este ente é a causa de toda a perfeição e de todo
o ser e chama-se Deus.
5ª - Pelo governo do mundo: os entes inteligentes tendem para uma ordem, não por acaso, mas pela
inteligência que os dirige; há um ente inteligente que ordena a natureza e a impele para o seu fim.
Esse ente é Deus.
Estas são, em suma, as cinco vias. A ideia fundamental que as anima é Deus, invisível e infinito,
demonstrável pelos seus efeitos visíveis e finitos. (MARÍAS, 1959, p. 177-8)
Com o final da Idade Média, as teorias religiosas perdem sua força e possibilitam a chegada da
Idade Moderna através do Renascimento.
Renascimento e Filosofia
O Renascimento se situa, aproximadamente, entre os séculos XIV e XVI, ou seja, nos fins da Idade
Média e início da Idade Moderna, período de intensas transformações em praticamente todas as
áreas da vida humana. Porém, o termo é comumente utilizado para designar as transformações
ocorridas nas artes, ciências e filosofia.
Assim, destacam-se três importantes fatos ocorridos no Renascimento: o primeiro, a Peste Negra,
uma das mais violentas epidemias já vivenciadas pela humanidade, que dizimou quase metade da
população europeia. O segundo, entre o fim do século XV e início do XVI, é a descoberta do Novo
Mundo – Colombo chega à América em 1492. E o terceiro, que terá início na Alemanha em 1517, é a
Reforma Protestante (cujos expoentes foram Lutero e Calvino) e sua resposta católica, a
Contrarreforma.
O marco do período renascentista é a valorização do homem, que se contrapõem ao período
medieval em que a valorização era de Deus, a esse movimento chamamos de antropocentrismo.
Esse movimento altera os métodos de pesquisas que passam a ser pautadas em empirismo e na
razão humana, ou seja, na ciência, e não num Deus. Nesse período, a filosofia renascentista nos
proporcionou importantes nomes e teorias, a que passaremos a dispor é a Contratualista.
Outro movimento comumente associado ao Renascimento é o humanismo. O termo, todavia, não
era usual à época, tornando-se comum somente no século XIX. Bastante heterogêneo, podemos
dizer que o humanismo valorizava as artes e ciências humanas.
Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem”
Hobbes, no desenvolvimento de sua teoria política, pautou sua obra no estudo da relação entre o
Estado e os indivíduos. Seu principal livro, O Leviatã, tem como objeto a demonstração de que o
Estado deveria ser composto por um monstro mitológico que habita os mares, pois somente um
Estado autoritário e literalmente monstruoso daria conta de acalmar o ímpeto da sociedade.
O filósofo defendia que o homem é um animal ruim, devido a sua natureza egoísta regida por suas
paixões, crê o político que a verdadeira natureza humana não possui razão, justiça e moral, somente
desejos e necessidades, em seu estado de natureza.
Figura 6Thomas HobbesFonte:John Michael Wright / Wikimedia Commons
No estado de natureza descrito por Hobbes, o homem vivia sob a constante ameaça de morte, pois
sem leis o homem somente luta por sobrevivência em uma constante manutenção da lei de talião,
pois o homem é descrito como sendo o lobo do próprio homem.
Os pactos com os quais concordam todos os homens reunidos para a instituição de uma república,
se redigidos sem que se exija um poder de coerção, não oferecem segurança razoável para nenhum
deles que assim pactua, nem devem ser chamados leis, e deixam ainda os homens no seu estado
de hostilidade natural. Pois visto que a vontade da maioria dos homens é governada apenas pelo
medo, e que onde não há poder de coerção não há medo, segue-se que a vontade da maioria dos
homens servirá a suas paixões de cobiça, luxúria, ira, entre outras, e esses pactos serão violado;
com isso, também os demais, que de outro modo celebrariam tais pactos, ficam liberados e não
possuem nenhuma lei senão a que provém deles mesmos. (HOBBES, 2010, p. 108)
O filósofo destaca que três razões principais dos problemas dos homens: a discórdia, a
desconfiança e a ganância. Para ele, somente um estado forte, o Leviatã, poderia acabar com a
barbárie, no entanto, para que isso ocorra, as pessoas necessitam abrir mão de suas liberdades.
“Os indivíduos no estado de natureza teriam de entrar em um ‘contrato social’, um acordo para abrir
mão de suas perigosas liberdades em nome da segurança. Sem o que ele chamou de ‘soberano’ [...]
o ‘soberano’, ao qual se refere Hobbes, pode ser um rei, imperador ou mesmo o parlamento a vida
seria um inferno.” (WARBURTON, 2011, p. 59)
Essa ideia de contrato social permeia nossa sociedade até hoje. Em uma época de governos
absolutistas, sua teoria foi utilizada para justificar o poder total dos governantes. Assim, o contrato
entre os indivíduos e seus governantes acarretava um alto preço a ser pago: o poder absoluto,
ilimitado, do Estado sobre seus indivíduos. Logo, por esse motivo seus detratores o acusaram de
defender o autoritarismo.
Assim, para Hobbes (2010), a justificativa para a existência do Estado era a dicotomia entre
anarquia e ordem, inerente ao ser humano. Sem o controle de uma força maior, “soberana”,
estaríamos condenados à barbárie. O homem é o lobo do homem.
Atenção!
Quatro etapas: como realizar um estudo científico
O estudo científico poderá ser realizado através da superação das seguintes etapas:
Verificar: buscar evidências reais ou indubitáveis sobre seu objeto de estudo.
Analisar: devemos dividir as coisas ao máximo possível, tornando-as mais simples de serem
estudadas.
Sintetizar: unir novamente as partes divididas na etapa anterior, de modo a constituir,
novamente, um todo.
Enumerar: organizar todas as conclusões e princípios, organizando o pensamento.
Fonte: elaborado pelos autores.
John Locke
Locke nasceu em uma família de classe média que compunha a burguesia, assim, ele cresceu
nesse ambiente e sua formação foi influenciada por esse contexto. Mas as suas ideias também
influenciaram, e muito, essa luta.
De fato, embora o capitalismo estivesse em via de consolidação e o poderio econômico da
burguesia fosse inconteste, em toda parte o regime político permanecia monárquico e, com isso, o
poderio político da realeza e o prestígio social da nobreza também. Para que o poderio econômico
da burguesia pudesse enfrentar o poder político dos reis e das nobrezas a burguesia precisava de
uma teoria que lhe desse uma legitimidade tão grande ou maior do que o sangue e a
hereditariedade davam à realeza e à nobreza. Em outras palavras, assim como sangue e
hereditariedade davam à realeza e à nobreza um fundamento natural para o poder e o prestígio, a
burguesia precisava de uma teoria que desse ao seu poder econômico também um fundamento
natural, capaz de rivalizar com o poder político da realeza e o prestígio social da nobreza, e até
mesmo suplantá-la. Essa teoria será a da propriedade privada como direito natural e sua primeira
formulação coerente será feita pelo filósofo inglês John Locke, no final do século XVII e início do
século XVIII. [...]
O Estado existe a partir do contrato social. Tem as funções que Hobbes lhe atribui, mas sua principal
finalidade é garantir o direito natural de propriedade. (CHAUÍ, 2012, p. 466-7)
O filósofo foi o expoente do Empirismo e em sua principal obra, Ensaio sobre o Entendimento
Humano, expõe sua teoria:
Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos que a mente é, como dissemos, um
papel branco, desprovida de todos os caracteres, sem quaisquer ideias; como ela será suprida? [...]
De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra,
da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o
próprio conhecimento. (LOCKE, 1973, p. 165)
Assim, para Locke (1973), o poder deveria ser conferido ao governante por meio de um contrato
social, um acordo firmado por ele com a sociedade. Ou melhor, a sociedade lhe impõe esse contrato
social, em busca de um terceiro imparcial que resolva seus problemas contratuais, e ainda em busca
da defesa da propriedade privada. Não é o povo que deve servir ao Estado, mas o Estado que deve
servir ao povo. O cidadão tem, sob determinadas circunstâncias, o direito de refutar a autoridade do
Estado.
Figura 7John LockeFonte:Godfrey Kneller / Wikimedia Commons
Para Locke (1973), o Estado tem a obrigação de preservar e garantir esses direitos a todos os
indivíduos. Essa seria a justificativa para a existência do Estado, ou seja, a existência do Estado se
justifica na garantia dos direitos para a humanidade. Caso o governante não cumpra essa tarefa,
cabe ao indivíduo se rebelar contra ele, contestando sua autoridade – nesse ponto, Locke diverge
frontalmente de Thomas Hobbes.
É certo que estamos aventando aqui uma proposição que, se não é verdadeira, é pelo menos muito
inteligível, ao afirmarmos que, após a conjunção constante de dois objetos - calor e chama, por
exemplo, ou peso e solidez -, é exclusivamente o hábito que nos faz esperar um deles a partir do
aparecimento do outro. (HUME, 2004, p. 75)
Assim, a moralidade era uma construção da natureza humana. A concepção de moralidade, opõe-se
a Hobbes e aproxima-se de Locke, pois recusa o argumento de Hobbes de que o homem é uma
criatura egoísta, violenta e solitária em seu estado de natureza.
Jean-Jacques Rousseau
Nascido em Genebra, Rousseau viajou por diversos países, viveu na Itália, tornou-se católico e
posteriormente se mudou definitivamente para Lyon, em Paris, sustentando-se através do
magistério, o filósofo lecionou música.
Figura 8Jean-Jacques RousseauFonte:Maurice Quentin de La Tour / Wikimedia Commons
Mas, somente após redigir um ensaio em resposta à questão: “O renascimento das artes e das
ciências ajudou a corromper ou purificar a moral?”, ele deu sua polêmica e surpreendente resposta:
“corromper”. Enquanto todos esperavam um elogio às ciências e às artes, Rousseau se posicionou
de forma contrária.
Em 1749, Rousseau faz algumas visitas a Diderot que estava preso num castelo devido à publicação
da obra Carta sobre os cegos. Em uma dessas visitas, Rousseau lê num jornal a questão proposta
pela Academia de Dijon para o prêmio do ano seguinte. É assim que surge ocasião da redação
do Discurso sobre as ciências e as artes. Rousseau ganha o prêmio e a fama da noite para o dia.
Após a redação de suas críticas às ciências e às artes, Rousseau compõe uma ópera chamada
o Adivinho da Aldeia, representada em 1752 perante o rei Luís XV. Em 1753, também a partir de
uma questão proposta pela Academia de Dijon, Rousseau redige o Discurso sobre a Origem e os
fundamentos da desigualdade entre os homens. Desta vez, Rousseau não ganha o prêmio, apesar
de ter elaborado uma obra mais profunda e rigorosa que a primeira. (BRANDÃO, 2009, p. 566)
Assim como Hobbes e Locke, em um primeiro momento de sua teoria, Rousseau destaca que o
homem, em seu estado de natureza, isolado e convivendo pouco com a natureza era bom.
Entretanto, ao passar a conviver mais intensamente em sociedade os homens, apesar de um
principiar de paz e auxílio mútuo, as desavenças se iniciam. Nesse sentido, ocorrem problemas
vinculados a ausência de um terceiro imparcial e, principalmente, os conflitos relacionados à
propriedade privada e as disputas sobre ela.
Para Rousseau, a única maneira de se atingir a liberdade seria por meio da imposição da vontade
geral, ou seja, da soberania popular. Esse pensamento é a base das democracias modernas e do
sufrágio universal, pois a vontade geral é a vontade da maioria. Logo, até mesmo os discrepantes
devem atender a essa vontade.
Essas ideias influenciaram determinantemente os revolucionários franceses. Por isso, Rousseau é
considerado por muitos como o filósofo que estabeleceu as bases intelectuais da Revolução
Francesa.
Perseguido na Europa continental por suas ideias, ele se refugia na Inglaterra, inicialmente auxiliado
por David Hume. No entanto, eles brigam tempos depois. Assim, Rousseau retorna à França em
1767 utilizando um pseudônimo, só voltando a usar seu nome três anos depois, pois ele dizia haver
um complô dos demais filósofos contra ele.
Em 2 de julho de 1778, na pequena cidade francesa de Ermenonville, falecia Jean-Jacques
Rousseau, cujas ideias iriam, onze anos mais tarde, sob as mãos dos revolucionários franceses,
começar uma revolução que mudaria o mundo.