UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de História
Prof. Dr. Rodrigo Goyena Soares
e-mail: [Link]@[Link]
1º semestre 2025 – FLH0341
H ISTÓRIA DO BRASIL IMPÉRIO
HISTORY OF THE B RAZILIAN EMPIRE
Unidade I – A formação do Brasil Independente
4. A reação liberal à formação centralizadora do Império (1826-1836)
CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem. A elite política imperial.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. Capítulo 1: “Elites políticas e
construção do Estado” ; Capítulo 2: “A elite política nacional: definições”.
BASILE, Marcello. “O laboratório da nação: a era regencial (1831-1840)”. In:
GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil Imperial, 1830-1870. Vol II. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
Atividades econômicas no século XVIII
Fonte: THERY, Hervé e APARECIDA DE MELLO, Neli, Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território, 2a
edição, São Paulo: EdUSP, 2008, pp. 39
1
I] A influência das ideais liberais e sua recepção no Brasil
o 1815: Reino lusitano foi elevado à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e
Algarves.
Brasil não poderia mais ser taxado mais de colônia.
o Congresso de Viena (1815) e seus efeitos no Reino Unido:
Para portugueses europeus, não havia necessidade em manter a sede da
Coroa no Rio de Janeiro, pois guerras napoleônicas haviam findado.
Para portugueses americanos, as emancipações espanholas recordavam
ao rei quão delicada era a situação na América.
Fratura brasileira:
Centralização no Rio de Janeiro.
o Capitanias do Norte mais ligadas a Lisboa do
que ao Rio de Janeiro.
o Crise pernambucana:
1817: Motim de militares ordenou aprisionamento de representantes da Coroa.
Abolição de impostos que deveriam ser escoados para o Rio de Janeiro.
Esboço de uma Constituição, quando Alagoas, Paraíba e Rio Grande do
Norte aderiram ao motim.
Composição dos revoltosos:
Militares.
Proprietários rurais.
Juízes.
Representantes do clero (Revolta dos Padres?)
Comerciantes locais, em concorrência com varejistas portugueses.
Artesãos, boticários, cirurgiões (Revolta Popular?).
Interesses dos insurretos:
Antilusitanismo.
Reivindicação de igualdade, entre camadas baixas.
Reivindicação de autonomismo, para classes dirigentes
pernambucanas.
o Momento de queda no preço internacional do açúcar.
Resultados:
O poder coercitivo do Rio de Janeiro:
Envio de tropas reais.
Pernambucanos tentam convencer Washington e Londres, para fornecer
apoio bélico.
Sem resposta!
Elaboram plano de intervenção em Santa Helena,
para libertar Napoleão, que, em troca, deveria
auxiliar rebeldes em suas ações militares.
Debate historiográfico
o Revolução Pernambucana foi antessala da Independência?
Ideias autonomistas e liberais.
Reformismo, republicanismo e federalismo.
Evaldo Cabral de Mello:
2
o Imaginário de resistência pernambucano:
Invasões holandesas do século XVII.
Consolidação de uma nobreza da terra pernambucana.
Seca de 1816 agrava as tensões.
Ideário ligado, ainda, à Revolta dos Mascates (1710-
1711).
Lúcia Bastos Pereira das Neves:
o O Seminário de Olinda, constituído em 1800, teria fornecido
instrução maçônica aos clérigos: iluminismo.
Do outro lado do Atlântico, em Portugal, tampouco havia clima política pacífico:
1816: Falece Maria I.
o Dom João VI é coroado no Brasil!
1817: Revolta de Gomes Freire.
3. O constitucionalismo português
O Vintismo, levante constitucionalista no Porto, assume duas faces:
Face liberal: limitação do poder real.
Convocação das Cortes para deliberar sobre projeto constitucional que
deveria pôr fim ao absolutismo português.
Face conservadora: restringir autonomia do Brasil e desfazer os
tratados com a Inglaterra.
Exige-se o regresso do Dom João VI.
No Brasil, novas cisões:
o Bahia e Pará: a favor do Vintismo.
o Províncias do Sudeste e Sul: contra o Vintismo.
Resultado:
o Constituição vem à tona em Portugal.
Dom João VI regressa a Lisboa em 3 de julho de 1821.
o Pedro de Alcântara fica no Brasil: “antes para ti, meu filho,
do que para um aventureiro”.
o 1821: eleições paras as Cortes de Lisboa.
Pedro associa-se a facções brasileiras conservadoras:
o Defesa do Império luso-brasileiro.
o Manter unidade bipolar do reino.
9 de janeiro de 1822: Dia do Fico.
Visões historiográficas clássicas
o Oliveira Lima (década de 1900):
É fetichismo historiográfico associar independência brasileira à
emancipação espanhola.
Desquite amigável.
Grito de Ipiranga somente consolidaria situação latente.
Independência começa em 1808.
o José Honório Rodrigues (década de 1970):
3
Revolução e contrarrevolução:
Tendência histórica, desde a colônia, à conciliação.
o Seria modus operandi das elites brasileiras, para evitar
choques de interesses e conflitos violentos e abertos
com o povo.
o Resultado dessa tendência foi impedimento do povo
como protagonista da história brasileira.
o Mas! Isso não quer dizer que história foi pacífica:
Há conflitos que não se arranjaram pela
conciliação.
o Ainda assim, nunca teria havida revolução vitoriosa no
Brasil.
Independência:
Houve movimento popular inicial,
jacobino e nacionalista, embasado em
sentimentos nacionais brasileiros pré-
existentes, contrário a Portugal e
sustentado pelas forças armadas; mas
logo sufocado por uma
contrarrevolução elitista, que, vitoriosa,
significou o triunfo da conservação.
Independência não foi desquite
amigável.
Houve ruptura em 1822, porque Cortes
tinham objetivo de recolonizar o Brasil.
o Maria Odila Leite Dias (década de 1970):
Independência é processo, e não ruptura.
Continuidade das elites dirigentes antes e depois da Independência.
Formação coimbrã.
“As elites coloniais viveram mais em conivência com as autoridades
portuguesas do que em conflito. É o que torna sui generis o processo
de separação de Portugal, que se deu quase a contragosto”.
Causas aparentes da Independência:
o Janeiro de 1822: Dom Pedro forma Conselho Ministerial, presidido por José
Bonifácio de Andrada e Silva, membro da facção conservadora brasileira, para
aproximar o Rio de Janeiro às demais províncias.
o Gonçalves Ledo denuncia excessos das Cortes portuguesas:
Revérbero Constitucional Fluminense.
o Maio de 1822: “Cumpra-se”.
o Junho de 1822: convocação de assembleia de deliberação, para evitar
fragmentação do Brasil em provinciais rivais.
o Agosto de 1822: Dom Pedro proclama inimigas as tropas portuguesas que
alcançassem o Brasil sem consentimento do regente.
o Ainda em agosto de 1822: irrompe, em São Paulo, revolta popular.
Nega-se condição do Brasil como província autônoma de Portugal.
Apoio a Dom Pedro.
o Dom Pedro vai para São Paulo.
Lisboa envia tropas ao Rio de Janeiro.
o Setembro de 1822: Proclamação da Independência.
4
o Outubro de 1822: Câmaras Municipais aderem à Independência.
Pedro é aclamado rei e defensor perpétuo do Brasil em festividade
popular.
o 10 de dezembro de 1822, há exatos 182 anos da ruptura da União Ibérica,
Pedro de Alcântara é proclamada Pedro I do Brasil.
Coroação de d. Pedro I – Jean-Baptiste Debret
II] O Primeiro Reinado (1822-1831)
A Assembleia Constituinte de 1823
Formação do novo ministério: José Bonifácio de Andrada e Silva
País fraturado: 11 mil tropas portuguesas contra 13 mil brasileiras.
o Por que dar uma Constituição ao novo Império?
Garantir unidade territorial.
Integrar preceitos liberais.
Fazer o povo brasileiro.
3 de junho de 1823: convocação da Constituinte.
o Dom Pedro I somente juraria à nova Constituição se a julgasse digna dele.
Contornar possíveis excessos liberais.
o Formação de duas alas:
Deputados coimbrãos.
Modelo constitucional da França de Louis XVIII.
Deputados radicais.
Modelo constitucional britânico, com novidades:
o Impossibilidade de o Imperador dissolver assembleia
e de vetar legislação da assembleia.
5
Contra nomeação dos presidentes de província pelo
Imperador.
o Mediador: José Bonifácio de Andrada e Silva
Conciliação sem alterações à ordem centralizadora e à
unidade nacional.
Oposição ao grande latifúndio e à escravidão, mas
conivência inevitável?
Ética da responsabilidade / ética da convicção.
Projeto que vem à tona é de autoria liberal:
o Rígida separação de poderes.
o Liberalismo econômico.
Mas!
Silêncio quanto à escravidão e ao latifúndio.
o Um artigo altera o equilíbrio: voto seria censitário e indireto, mas o critério de
renda era baixo: comprovação mínima de 150 alqueires de farinha de
mandioca.
Constituição da mandioca!
11 de novembro de 1823: Pedro I dissolve a Assembleia Constituinte.
o Inspiração no movimento português da Vilafrancada: 3 de junho de 1823,
pôs-se fim à experiência liberal das Cortes.
Restauração do poder absolutista de Dom João VI.
o No Brasil, a Vilafrancada tornou-se “A Noite de Agonia”.
Exílio dos irmãos Andrada.
Juras de Pedro I, contudo: daria uma constituição duplamente mais
liberal.
A Carta de 1824
Aspectos liberais
o Não era radicalmente diferente do anteprojeto de 1823:
Poder executivo: Imperador e Ministros (nomeados pelo Imperador)
Poder legislativo bicameral: Câmara de Deputados e Senado vitalício.
O conjunto chamava-se a Assembleia Geral do Império.
Poder judiciário: Corte Suprema.
o Garantia de direitos individuais e políticos: novidade em escala mundial.
Cidadão? Homem e livre.
Alforriados não votavam, a menos que nascidos no Brasil.
Menores de 25 anos não votam, excetos casados e bacharéis em direito.
Não se exige alfabetização para votar.
Voto censitário masculino: renda de 100 mil réis para votar e de 200 mil
réis para ser votado.
Participação política alta!
Artigo 179: gratuidade da instrução pública.
o Religião católica oficial, mas tolerância com outras matrizes.
Padroado mantido.
Poder de beneplácito.
6
Aspectos conservadores
o Centralização.
Conselho Geral Provincial para cada província: representação
popular, mas sem função legislativa.
o Poder Moderador.
Benjamin Constant.
Dissolver Câmara de Deputados.
Sancionar decretos e resoluções legislativas.
Condução da política externa.
Irresponsabilidade do Imperador.
o Conselho de Estado: dez ministros, nomeados pelo Imperador.
Conselheiros deveriam ser ouvidos em todos os negócios graves
(guerra, ruptura diplomática etc.), mas o Imperador não estava
obrigado a seguir as recomendações dos conselheiros.
Quatro seções: Justiça e Estrangeiros, Império, Fazenda e
Marinha e Guerra.
A Confederação do Equador (1824)
o Insatisfações em relação à dissolução da Constituinte e à instituição do
Poder Moderador:
O Poder Moderador da nova invenção maquiavélica é a chave
mestra da opressão da nação brasileira e o garrote mais forte da
liberdade dos povos, Frei Caneca.
o Pernambuco é epicentro: imaginário de 1817.
Somaram-se Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
o Em julho de 1824, forma-se a Confederação do Equador.
Ideais republicanas e federalistas contra portugueses, vistos como
monárquicos e centralizadores.
Instituir Constituição nos moldes liberais e federativos
daquela de Cúcuta, na Colômbia, de 1821.
Dom Pedro I era brasileiro?
Manuel de Carvalho solicita a intervenção do State
Department contra a possível ingerência de embarcações
inglesas e francesas ancoradas a poucos milhas de Recife.
o Doutrina Monroe!
o Os insurretos eram urbanos, de camadas populares.
Participaram também comerciantes e proprietários rurais.
o Tropas reais debelam movimento.
Frei Caneca é fuzilado.