UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de História
Prof. Dr. Rodrigo Goyena Soares
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1º semestre 2024 – FLH0341
H ISTÓRIA DO BRASIL INDEPENDENTE I
HISTORY OF THE B RAZILIAN EMPIRE
Objetivo
Tomando como balizas temporais, por um lado, a transmigração da Coroa portuguesa
em 1808 e, por outro, a afirmação do modelo oligárquico-republicano em 1898, a disciplina
analisa as principais dinâmicas históricas que formaram o Estado brasileiro. Combinando
história política e social à econômica, é dada especial ênfase: 1. à constituição das estruturas
administrativas que moldaram as classes politicamente dirigentes e economicamente
dominantes e, reciprocamente, que por elas foram moldadas; 2. à formação de uma política
nacional da escravidão; 3. ao desenvolvimento dos mercados de trabalho, de terras e de capitais;
4. à composição do sistema bancário nacional; 5. às intervenções do Brasil na bacia do Prata; e
6. às contradições socioeconômicas que caracterizaram a crise do Império. A disciplina também
discute o tipo de inserção internacional do Brasil no século XIX, delimitando a formação política
e econômica do país a partir das permissividades e dos tolhimentos globais. Assim, a disciplina
trata igualmente da história diplomática do Brasil Império.
Método
a. Aulas expositivas.
b. Análise de fontes primárias e secundárias.
Avaliação
a. Prova escrita no final do semestre - 50% da nota.
b. Fichamento de livro – 35% da nota.
c. Fichamento de texto obrigatório - 15% da nota.
Os textos obrigatórios serão disponibilizados com antecedência na plataforma e-disciplinas.
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1. Apresentação do curso: as principais tendências historiográficas acerca do Brasil
Império.
SALLES, Ricardo. Nostalgia imperial. Escravidão e formação da identidade nacional
no Brasil do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Ponteio, 2013. Capítulos: “Introdução”
e “A planta exótica: o projeto político imperial”.
I] O debate Miliband-Poulantzas acerca da teoria do Estado
Ralph Miliband, The State in Capitalist Society (1969)
O que é o Estado?
Um agrupamento de instituições que, juntas e em relação,
constituem sua realidade.
O aparelho governamental.
Executivo, legislativo e demais autoridades
que moldam as políticas públicas.
O aparelho administrativo.
Burocracia, bancos centrais, comissões
regulatórias, empresas públicas.
O aparelho coercitivo.
Militares, polícia, agências de inteligência.
O aparelho judicial.
Cortes, demais tribunais e prisões.
O governo subcentral.
Províncias, estados, municípios, localidades.
O governo e o Estado
O controle do aparelho governamental não assegura o
controle do Estado.
A classe capitalista controla o Estado?
A colonização do Estado, e não do governo.
Material e ideológica.
Nicos Poulantzas, Poder político e classes sociais (1968)
É o modo de produção que determina o desenvolvimento
institucional do Estado, em suas esferas político-econômicas, sociais,
culturais ou ideológicas.
Todas estas esferas são estruturas, com permanências
mais longas que os acontecimentos governamentais.
Autonomia relativa.
São elas que sustentam o próprio modo de produção.
São elas realizam as práticas de classe.
Que, no entanto, determinam as contradições
próprias ao modo de produção.
Problema epistemológico fundamental de Miliband teria sido tomar a
agência como epicentro da realização do Estado capitalista, quando a
agência é limitada pelo modo de produção.
Constituídos em suas práticas de classe, indivíduos são
tão somente personificações das esferas estruturais
determinantes.
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II] A historiografia sobre a formação do Estado Imperial
Interpretações de matriz weberiana
o Os donos do poder – Raimundo Faoro (1958)
Estado instrumentalizado por interesses particulares de um estamento.
Que atua consoante interesses subjetivos distantes de uma
racionalidade de mercado.
Estamento imperial não tem alma capitalista.
Clivagem fundamental:
o O estamento político – os donos do poder – vs. o restante da
sociedade.
Império seria obra de um estamento de acesso restrito, porque
caracterizado preponderantemente pelo status político e social, e
não pelo poder econômico.
Estamento não é elite:
o Elite pressupõe organização política heterônoma:
Concentrada, mas aberta à renovação intra-elite.
o O Minotauro Imperial – Fernando Uricoechea (1978)
Labirinto do Império é a contradição entre a extensão do poder privado e a
centralização administrativa.
o Extensão do poder privado é a prova da natureza quase
feudal do Brasil, pelo menos em seus momentos iniciais.
Para Uricoechea, o Minotauro, que detém a chave do labirinto, é a Guarda
Nacional:
Metade pública, metade privada, a Guarda Nacional é o vínculo
privilegiado entre poder público e poder privado.
Desenvolvimento do Estado imperial não respondeu a apelos
tipicamente burgueses, baseados na representação classista de
interesses capitalistas.
o Para Uricoechea, houve compromisso entre a burocracia
estatal e o poder latifundiário, para que este ampliasse o
acesso ao Estado.
Ordem não poderia ser estamental, mas tampouco
de classes sociais abertas ao credo liberal.
o A construção da ordem – José Murilo de Carvalho (1980)
Relativiza o estamento fechado de Faoro.
Longevidade da elite imperial deveu-se, mormente, à constituição
de uma estrutura de poder menos rígida do que a estamental.
o Há mecanismos de homogeneização.
Mas também houve mecanismos de cooptar
inimigos potenciais e de fazer concessões a grupos
economicamente dominantes.
o Autonomia do projeto da elite política imperial frente aos
grandes proprietários rurais.
Reconhece, no entanto, uma dialética da
ambiguidade:
Tão logo a elite imperial terminasse seu
acúmulo primitivo de poder, ela conduziria
a nave do Estado à erradicação do
cativeiro.
o Dialética da ambiguidade é esse
jogo de espera e destruição.
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Reform-mongering:
Fazer reformas antes que a revolução seja
feita.
Interpretações de matriz marxista
o Caio Prado Jr., Evolução Política do Brasil (1933):
Grupos politicamente dirigentes não estariam desvinculados dos
economicamente dominantes.
Aburguesamento da classe senhorial.
Tornando-se menos autárquica e encastelada em pretéritas
instituições patrimonialistas.
o Controle político do Estado não seria decorrência de uma pluralidade de atores que
competiriam pelo poder em posições relativamente iguais.
Mas o resultado da imposição dos interesses uma classe econômica.
o Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema (1987)
Constituição do Estado imperial examinada à luz da formação da classe
senhorial.
Intervenção deliberada sobre os rumos imperiais.
o Ação no mundo das relações de produção e naquele que
estabelece mecanismos para reproduzir essas relações de
produção.
Classe senhorial:
o Formação histórica particular que teve seus
comportamentos e valores moldados na escravidão, em
particular naquela praticada no Vale do Paraíba, e em
íntima conexão com a construção do Estado e ordem
imperial.
o Classe senhorial não se formava apenas em seu fazer
econômico, mas no seu modo de vida, habitus, formas de
ser, sentir e agir.
III] Derivações na agenda historiográfica sobre a escravidão
Corrente agencial-escravista (a partir da década de 1980)
o Contra docilização alegada por Gilberto Freyre (1933) e contra coisificação de
FHC (1962):
Repensar conceito de violência:
Admitindo espaço de negociação entre escravo e senhor.
o Estratégias de sobrevivência.
o João José Reis e Eduardo Silva.
Há conflito, mas há negociação também: é
acordo sistêmico.
Escravo ator de sua história
Sidney Chalhoub:
o Recusa a coisificação e vê agência escrava, que incide
na política.
Corrente estrutural-globalista (a partir da década de 1990):
o Dale Tomich, Pelo prisma da escravidão (2004):
Segunda escravidão:
Escravidão em interação com a construção de Estados
nacionais e com a expansão internacional do mercado
capitalista.
Segunda escravidão se expande no momento da crise da
escravidão colonial, com a Revolução Haitiana.
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Segunda escravidão não seria o inverso histórico do
capitalismo.
o Pressupõe, ao contrário, a existência da escravidão
como condição para a reprodução capitalista.
o Duas bifurcações:
Ricardo Salles, E o vale era o escravo (2008)
Bacia do Paraíba – e além –, organizada em torno da escravidão,
grande propriedade e exportação do café, foram centrais na
conformação socioeconômica, política e cultural do Império.
o Especificidades nacionais.
Rafael Marquese (a partir de 2010)
Concorda com Salles, desde que a escravidão nacional seja
pensada em consonância com a reabilitação global do cativeiro.
o Especificidades internacionais.