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Eficácia da Lei de Violência Doméstica em Chimoio

O documento analisa a efetividade da Lei n.º 4/2014 sobre violência doméstica em Moçambique, focando na cidade de Chimoio. A pesquisa investiga os desafios culturais e institucionais que dificultam a aplicação da lei e o acesso à justiça para as vítimas, destacando a necessidade de uma implementação mais eficaz. O estudo busca avaliar o impacto da legislação na proteção das vítimas e na redução da violência doméstica entre 2014 e 2024.
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Eficácia da Lei de Violência Doméstica em Chimoio

O documento analisa a efetividade da Lei n.º 4/2014 sobre violência doméstica em Moçambique, focando na cidade de Chimoio. A pesquisa investiga os desafios culturais e institucionais que dificultam a aplicação da lei e o acesso à justiça para as vítimas, destacando a necessidade de uma implementação mais eficaz. O estudo busca avaliar o impacto da legislação na proteção das vítimas e na redução da violência doméstica entre 2014 e 2024.
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UNIVERSIDADE PÚNGUÈ

Faculdade de Letras, Ciências Sociais e Humanidades

A Efectividade da Lei no 4/2014, De 22 de Fevereiro, sobre a Violência Doméstica em


Moçambique. Caso de Estudo da Cidade de Chimoio

Licenciatura em Direito

Projecto de Pesquisa

Jacó Marcelino Fazenda

Chimoio

Julho, 2025
Jacó Marcelino Fazenda

A Efectividade da Lei no 4/2014, De 22 de Fevereiro, sobre a Violência Doméstica em


Moçambique. Caso de Estudo da Cidade de Chimoio

Projecto de pesquisa a ser apresentado


Faculdade de Letras, Ciências Sociais e
Humanidades, cadeira de MEIC sob
orientações de Docente:

MSc. Mário Biriate

Chimoio

Julho, 2025
Índice
[Link]ção......................................................................................................................4

1.1 Tema-Problema.....................................................................................................................5

1.2 Delimitação do Tema............................................................................................................5

1.3 Justificativa...........................................................................................................................6

1.4 Problema da pesquisa............................................................................................................7

1.5 Hipóteses...............................................................................................................................8

2.1 Revisão da Literatura..........................................................................................................10

2.1.1 Estudos sobre a violência doméstica em Moçambique....................................................10

2.1.2 As contribuições dos Estudos violência doméstica no país.............................................10

2.1.3 Desafios............................................................................................................................11

2.2 Quadro Teórico / Teoria de Base........................................................................................12

3. Metodologia..........................................................................................................................14

3.1 Método de Abordagem da Pesquisa....................................................................................14

3.2 Técnicas de Coleta de Dados..............................................................................................14

3.3 Universo e Amostra............................................................................................................16

3.4 Análise de Dados................................................................................................................16

4. Cronograma das Actividades................................................................................................17

5. Orçamento.............................................................................................................................17

[Link]ências bibliográficas......................................................................................................19
4

[Link]ção
A violência doméstica constitui um dos maiores desafios sociais contemporâneos em
Moçambique, atingindo níveis preocupantes e refletindo profundas desigualdades de género,
culturais e estruturais. No intuito de enfrentar esse problema, o legislador moçambicano
aprovou a Lei n.º 4/2014, de 22 de fevereiro, que tem como objetivo primordial estabelecer
medidas de combate, prevenção e punição dos atos de violência doméstica, bem como
oferecer proteção e assistência às vítimas desse fenómeno.

Essa legislação pretende alinhar o país com os compromissos internacionais


assumidos, demonstrando o reconhecimento estatal da gravidade do fenômeno e da sua
transversalidade: a violência doméstica não apenas atinge mulheres—vítimas mais frequentes
—mas também crianças, idosos e outros membros vulneráveis da família. Como ressalta
Guambe (2023), o texto legal enfatiza a necessidade de criar instrumentos eficazes para
eliminar a impunidade dos agressores e garantir um ambiente doméstico livre de violência,
em consonância com o princípio constitucional de igualdade e proteção de direitos.

A pesquisa de Come (2019) destaca que, diante do quadro alarmante de violência


doméstica em Moçambique, a aprovação da referida lei representa um marco importante na
proteção das vítimas e responsabilização dos agressores. Salienta-se, entretanto, que o simples
reconhecimento formal da violência como crime público não basta para erradicar o problema.
É indispensável a operacionalização eficaz dos mecanismos previstos, integrando diferentes
setores do Estado—judiciário, saúde, polícia e assistência social—como afirmam Arthur
(2009), Samuel (2013) e Nhampoca (2013).

Apesar dos avanços proporcionados pela Lei n.º 4/2014, estudos apontam para uma
série de desafios na sua efetividade concreta, decorrentes principalmente de barreiras
culturais, insuficiência de meios institucionais e limitações na implementação prática das suas
disposições. Segundo Meque e Maloa (2021), muitos casos continuam a ser resolvidos no
âmbito informal, e persistem dificuldades no acesso à justiça, sobretudo para mulheres em
áreas rurais, onde o patriarcado e os estereótipos de género reforçam a tolerância à violência
conjugal.

Por outro lado, a legislação contribuiu para maior visibilidade do problema e para
mudanças na perceção social, reconhecem Papadakis e Nzira de Deus (apud DW, 2019), ao
estimular um debate público mais aberto acerca dos papéis sociais de homens e mulheres e
redefinir as fronteiras entre o público e o privado dentro do espaço doméstico. O texto legal
5

também promove a responsabilização dos órgãos do Estado na proteção das vítimas e facilita
o acesso a serviços especializados.

1.1 Tema-Problema
A violência doméstica em Moçambique, apesar dos avanços legais promovidos pela
Lei nº 4/2014, de 22 de fevereiro, continua a ser um grave problema social, especialmente em
contextos locais como a cidade de Chimoio, província de Manica, onde persistem dificuldades
significativas na efetiva prevenção, proteção e repressão dos atos violentos no âmbito
familiar. O tema-problema centra-se em investigar a efetividade dessa legislação diante dos
desafios culturais, institucionais e sociais que dificultam o acesso das vítimas à justiça e a
transformação das mentalidades que naturalizam a violência domésticas.

1.2 Delimitação do Tema


A delimitação do tema de estudo situa-se na linha de pesquisa voltada para Direitos
Humanos, Gênero e Justiça Social, abordando questões relacionadas à promoção da igualdade
de gênero, à proteção dos direitos das mulheres e ao combate à violência doméstica. O tema
central concentra-se na efetividade da Lei n.º 4/2014, de 22 de fevereiro, na prevenção e
repressão da violência doméstica na cidade de Chimoio, capital da província de Manica,
analisando as dinâmicas socioculturais e institucionais locais, bem como os desafios
enfrentados na concretização dos direitos nela previstos.

O objeto de estudo contempla os mecanismos institucionais de proteção, prevenção e


combate à violência doméstica existentes em Chimoio, envolvendo a atuação policial, os
tribunais, os serviços de saúde e as organizações da sociedade civil. Além disso, inclui as
experiências e perceções das vítimas, dos operadores de justiça e dos líderes comunitários
acerca da aplicabilidade e impacto da Lei n.º 4/2014, bem como a interação entre práticas
tradicionais locais e os mecanismos formais do Estado na abordagem da violência
intrafamiliar.

A investigação foca os conteúdos jurídico, social, institucional e cultural relacionados


à temática. Sob o ponto de vista jurídico, analisa-se as principais disposições da lei, os
objetivos declarados, as modalidades de violência abrangidas e os direitos assegurados às
vítimas. No que tange ao conteúdo social e institucional, o estudo examina estratégias de
divulgação da lei, sua implementação prática, o acesso à justiça, o acolhimento e a assistência
multidisciplinar às vítimas, salientando os desafios identificados pelos agentes que atuam
diretamente no combate à violência doméstica em Chimoio. Quanto ao aspecto cultural,
6

avalia-se a influência das barreiras culturais na sociedade local que moldam as relações de
gênero, a percepção da violência doméstica e a preferência por mecanismos informais ou
tradicionais de resolução de conflitos, muitas vezes em prejuízo das vias institucionais
previstas na legislação.

O espaço do estudo restringe-se à cidade de Chimoio, sede da província de Manica,


região central de Moçambique, destacada por sua diversidade étnica, crescimento urbano e
pelas redes comunitárias e institucionais que atendem à violência doméstica. A escolha deste
local justifica-se pela representatividade populacional, pela incidência relevante de casos e
pelos esforços locais no enfrentamento do problema. Quanto ao recorte temporal, a pesquisa
cobre o período entre 2014 e 2024, compreendendo uma década desde a promulgação da Lei
n.º 4/2014. Essa delimitação permite observar transformações sociais, institucionais e
normativas decorrentes da entrada em vigor da legislação, além de acompanhar as tendências
recentes quanto à incidência dos casos, elaboração de políticas públicas e a experiência
acumulada pelos órgãos responsáveis pela proteção dos direitos humanos e pelas redes de
apoio.

1.3 Justificativa
A escolha do tema "A efetividade da Lei n.º 4/2014, de 22 de fevereiro, sobre a
violência doméstica em Moçambique" justifica-se pela urgente necessidade de aprofundar o
conhecimento e avaliar o impacto real dessa legislação no combate a um problema social
persistente e que afeta milhares de pessoas em todo o país, especialmente mulheres. Embora a
promulgação da referida lei tenha representado um avanço significativo no ordenamento
jurídico moçambicano, ao estabelecer mecanismos jurídicos de proteção e punição dos
agressores, ainda existem dúvidas e desafios quanto à sua aplicação efetiva, sobretudo em
contextos específicos, como o da cidade de Chimoio, na província de Manica.

Este tema é relevante porque a violência doméstica permanece como um fenómeno


estruturante das relações sociais em Moçambique, frequentemente relacionada a padrões
culturais patriarcais e desigualdades de gênero historicamente enraizadas, que dificultam a
denúncia e o combate ao problema (Muendane, 2012; Osório, 2001; 2004). A simples
existência da lei não garante a sua efetividade, pois também é necessário avaliar se os órgãos
competentes dispõem de recursos e capacitação suficientes para implementar as normas, além
de investigar as barreiras sociais e culturais que persistem no espaço local. Nesse sentido, a
7

pesquisa é fundamental para compreender as reais dificuldades enfrentadas pelas vítimas e


pelos atores institucionais envolvidos no enfrentamento da violência doméstica em Chimoio.

Além disso, há uma carência de estudos que abordem especificamente a efetividade


dessa legislação na província de Manica, especialmente na sua capital, onde as dinâmicas
sociais e culturais podem diferir de outras regiões urbanas ou rurais do país. A análise
regionalizada permite identificar especificidades e definir estratégias mais adequadas para
fortalecer a implementação da lei em diferentes contextos. Essa necessidade é reforçada pela
lacuna identificada em pesquisas prévias, que destacam a desarticulação entre as políticas
públicas nacionais e as realidades locais, destacando a importância de investigações que
considerem o ambiente sociocultural onde a lei opera (Come, 2019; Papadakis & Nzira de
Deus, 2019).

Outro aspecto que motiva a escolha do tema é a vontade de contribuir para a melhoria
dos mecanismos legais e institucionais de proteção das vítimas de violência doméstica,
especialmente mulheres, crianças e outros grupos vulneráveis. A pesquisa visa não apenas
avaliar a aplicação da lei, mas também fornecer informações que possam apoiar políticas
públicas mais eficazes e integradas, promovendo o acesso à justiça, atendimento social e
psicológico e mudança das percepções sociais que naturalizam a violência no ambiente
doméstico. Conforme destacado por estudiosos na área, a efetividade das leis depende da
articulação entre o sistema jurídico e as práticas sociais, o que exige investigação contínua e
contextualizada (Arthur, 2009; Samuel, 2013).

1.4 Problema da pesquisa


Considerando a pesquisa sobre a efetividade da Lei n.º 4/2014, de 22 de fevereiro, no
combate à violência doméstica em Moçambique, especialmente na cidade de Chimoio, a
formulação das hipóteses parte do pressuposto que existem múltiplos fatores que interferem
na sua implementação e eficácia. A hipótese alternativa (H1) propõe que a Lei n.º 4/2014 tem
sido efetiva na prevenção, proteção e repressão da violência doméstica em Chimoio,
refletindo melhorias concretas no acesso das vítimas à justiça, no apoio institucional e na
redução dos índices de violência no período de 2014 a 2024. Essa hipótese se fundamenta em
relatos de maior divulgação da lei, maior conhecimento dos direitos existentes e na criação de
mecanismos institucionais para assistência e punição dos agressores, conforme observações
feitas por Meque e Maloa (2022) e outros estudiosos que destacam o avanço jurídico e social
decorrente da aprovação da legislação.
8

Por outro lado, a hipótese nula (H0) sustenta que a Lei n.º 4/2014 não tem sido efetiva
no contexto local de Chimoio, devido à persistência de barreiras culturais, sociais e
institucionais que limitam sua aplicação prática e a proteção às vítimas. Nesse cenário, apesar
da existência da lei, a violência doméstica permanece prevalente, com índices altos de
subnotificação, dificuldades no acesso à justiça, falta de capacitação e recursos adequados
para os agentes públicos, além da influência de normas sociais e tradições patriarcais que
enfraquecem a implementação das medidas legais. Essa perspectiva encontra respaldo nos
estudos de Meque e Maloa (2022), que apontam limitações na implementação da lei,
incluindo sua pouca divulgação em áreas periféricas, e no conceito de “pretensa moralidade
familiar” que impede a denúncia e o enfrentamento efetivo da violência. Ainda, pesquisa
realizada por Come (2019) destaca os constrangimentos institucionais e culturais como
obstáculos para a aplicação integral da legislação.

Assim, a investigação buscará verificar empiricamente qual dessas hipóteses está mais
próxima da realidade vivenciada em Chimoio, identificando os fatores facilitadores e
dificultadores da efetividade da legislação. O problema de pesquisa central pode ser
sintetizado na questão:

Qual é a efetividade da Lei n.º 4/2014 na prevenção, proteção e repressão à


violência doméstica na cidade de Chimoio entre 2014 e 2024?

1.5 Hipóteses
Hipótese alternativa (H1): propõe que a Lei n.º 4/2014 tem sido efetiva na prevenção,
proteção e repressão da violência doméstica em Chimoio.

Hipótese nula (H0): provavelmente a Lei n.º 4/2014 não tem sido efetiva no contexto local
de Chimoio, devido à persistência de barreiras culturais, sociais e institucionais que limitam
sua aplicação prática e a proteção às vítimas

1.6. Objectivos

1.6.1 Objetivo Geral

 Avaliar a efetividade da Lei nº 4/2014, de 22 de fevereiro, sobre a prevenção, proteção


e repressão da violência doméstica na cidade de Chimoio, entre os anos de 2014 e
2024.

1.5.2 Objetivos Específicos


9

 Analisar o grau de conhecimento e aplicação da Lei nº 4/2014 pelos operadores do


sistema judicial, policiais, serviços de saúde e organizações da sociedade civil em
Chimoio.
 Identificar as principais barreiras socioculturais e institucionais que dificultam o
acesso das vítimas aos mecanismos de proteção previstos na legislação.
 Verificar os impactos da Lei nº 4/2014 na proteção das vítimas e na redução dos casos
de violência doméstica na cidade, destacando avanços e lacunas na sua
implementação.
10

2.1 Revisão da Literatura

2.1.1 Estudos sobre a violência doméstica em Moçambique


A violência doméstica contra a mulher no país é um tema que tem sido objeto de
estudos acadêmicos, análises jurídicas e pesquisas sociais ao longo dos últimos anos. Segundo
Zaza (2024), a legislação moçambicana, em particular a Lei nº 29/2009 e a Lei nº 4/2014, é
foco recorrente de investigação devido à sua relevância na proteção das vítimas. O trabalho de
Teresa Justino Come (2019), por exemplo, realizou uma análise situacional da violência
doméstica contra mulheres no país, destacando as dificuldades de aplicação da lei e o contexto
sociocultural que permeia esse fenômeno. Outros pesquisadores, como Andrade (2009) e
Muendane (2012), abordam o caráter estruturante da violência doméstica ligada às relações
desiguais de gênero historicamente construídas na sociedade moçambicana. Ainda, estudos
institucionais como o relatório da Medicus Mundi (2023) situam a violência baseada no
gênero (VBG) como um problema prioritário para o Estado e seus parceiros, detalhando o
papel das políticas públicas implementadas.

2.1.2 As contribuições dos Estudos violência doméstica no país


A contribuição dos estudos anteriores revela um avanço importante no
reconhecimento da violência doméstica como uma questão não apenas social, mas jurídica e
de direitos humanos, com impacto profundo sobre o desenvolvimento da sociedade
moçambicana. Por meio da análise da Lei nº 29/2009, Zaza (2024) destaca a tentativa do
estado moçambicano de desprivatizar a violência doméstica, passando a considerá-la um
crime público, o que deveria garantir maior proteção às vítimas. A pesquisa de Come (2019)
evidencia como a violência se manifesta no cotidiano das mulheres, articulando fatores
emocionais, culturais e econômicos que dificultam a denúncia e o acesso à justiça, o que
engloba os desafios institucionais presentes. Andrade (2009) fornece uma visão histórica das
desigualdades de poder entre homens e mulheres que sustentam esse tipo de violência,
enquanto Mahagaja (2024) destaca as limitações operacionais dos serviços públicos
destinados ao atendimento das vítimas, apontando para a necessidade de melhor capacitação e
articulação institucional.

A literatura também contribui para a compreensão do papel das normas culturais e


sociais na manutenção do ciclo da violência. Osório (2001) e Silva (2003) ressaltam que as
mentalidades patriarcais e os estereótipos de submissão feminina formam barreiras culturais
profundas que retardam a transformação social, mesmo com o avanço legal. Taela (2006)
11

elabora sobre estratégias de mobilização comunitária e comunicação para a mudança de


comportamento social, enfatizando que a mudança cultural é essencial para que a legislação
tenha impacto efetivo. Ademais, Papadakis e Nzira de Deus (2019) discutem a importância da
sensibilização social e institucional para garantir que a lei alcance as vítimas e transforme
práticas sociais.

2.1.3 Desafios
Apesar dos avanços na legislação e do esforço da academia, persistem lacunas
importantes que motivam a continuidade das pesquisas. Uma escassez de estudos empíricos
que avaliem a efetividade real da Lei nº 4/2014 no contexto local, a exemplo da cidade de
Chimoio, ainda é percebida. Conforme indica o diagnóstico da Medicus Mundi (2023), a
divulgação e implementação da legislação permanecem aquém do desejado, especialmente em
áreas que sofrem com limites institucionais e pouca capacitação dos profissionais da justiça e
da saúde. Além disso, há uma lacuna significativa na análise da influência das dinâmicas
culturais locais sobre a aplicação da lei e o acesso das vítimas à proteção formal. Souza e
Silva (2024) destacam que, sem o enfrentamento das normas culturais patriarcais e das
práticas tradicionais que naturalizam a violência, os esforços legais perdem força.

Outro aspecto que carece de aprofundamento é o impacto concreto das políticas


públicas integradas, como os Centros de Atendimento Integrado às Vítimas (CAIVs), em
diversas cidades moçambicanas, incluindo as capitais provinciais, como Chimoio. A literatura
aponta uma fragmentação e falta de articulação entre os setores de segurança, saúde e justiça,
o que compromete a qualidade do atendimento e o acompanhamento às vítimas (Mahagaja,
2024). Além disso, embora haja propostas e planos estratégicos a nível nacional, poucos
estudos detalham sua operacionalização e avaliação local. Essa lacuna torna difícil mensurar
avanços e identificar boas práticas replicáveis.

Finalmente, há uma necessidade clara de ampliar as análises multidisciplinares que


unem as perspectivas jurídica, sociológica e psicológica para uma compreensão mais
completa do problema, pois o fenômeno da violência doméstica se enraíza numa
complexidade de fatores que transcendem o âmbito puramente legal. Os estudos atuais
enfatizam que a mera existência da legislação não é suficiente para garantir sua efetividade,
reforçando o papel da educação, mobilização comunitária e mudança cultural como
complementos essenciais à aplicação da lei (Zaza, 2024; Taela, 2006).
12

2.2 Quadro Teórico / Teoria de Base


A fundamentação teórica que sustenta a análise da violência doméstica em
Moçambique está amplamente ancorada na teoria feminista, que oferece um entendimento
crítico sobre as relações de poder entre os gêneros e a estrutura patriarcal que legitima a
dominação masculina dentro do espaço doméstico. Conforme expõe Zaza (2024), a teoria
feminista explica a violência doméstica como uma expressão das desigualdades estruturais,
que se manifestam historicamente por meio da submissão das mulheres e da naturalização da
violência. Essa perspectiva enfatiza a necessidade de desnaturalizar essas relações e promover
políticas públicas que transformem o status quo. A teoria da aprendizagem social, também
utilizada na análise legal de Zaza, complementa essa visão ao argumentar que a violência é
aprendida e reproduzida socialmente, sendo possível, portanto, sua desconstrução por meio de
intervenções educativas e sociais.

Além da teoria feminista, encontram relevância as abordagens sociológicas que


consideram os fatores culturais, tradicionais e comunitários que influenciam as práticas de
violência doméstica. Silva (2003) chama atenção para a importância de compreender as
normas sociais que legitimam a violência como um comportamento aceitável dentro da
família, exigindo, para sua superação, mudanças profundas no padrão de socialização. Em
termos institucionais, a teoria do sistema de justiça e dos direitos humanos sustenta que a
proteção das vítimas requer não só a existência de normas, mas também a efetiva articulação
entre órgãos públicos e sociedade civil para garantir acesso à justiça, proteção e reparação
(Mahagaja, 2024).

O modelo integrado de enfrentamento à violência contra a mulher, previsto nos


instrumentos nacionais e internacionais, inspira a necessidade de políticas públicas
multissetoriais que unem saúde, segurança, assistência social e justiça para garantir respostas
holísticas. Essa linha teórica enfatiza que a eficácia da legislação depende diretamente da
coordenação dessas áreas, adequação dos recursos e do empoderamento das vítimas,
propondo uma abordagem que ultrapasse a dimensão apenas penal e jurídica da violência
doméstica (Medic Mundi, 2023; Papadakis & Nzira de Deus, 2019).

Em síntese, a revisão da literatura evidencia que o problema da violência doméstica


tem sido amplamente estudado em Moçambique, encontrando diversas contribuições teóricas
e empíricas, mas que permanece um campo desafiador para a academia e as instituições
governamentais. As lacunas apontadas reforçam a importância de estudos de aprofundamento
13

localizados como o proposto, que possam integrar as dimensões legais, culturais e


institucionais para melhor compreender a efetividade da Lei nº 4/2014 no contexto específico
da cidade de Chimoio.
14

3. Metodologia

3.1 Método de Abordagem da Pesquisa

Para a efetivação do trabalho e o cumprimento dos objetivos, será privilegiada a abordagem


qualitativa. O uso dessa abordagem propicia o aprofundamento da investigação das questões
relacionadas ao fenômeno em estudo e das suas relações, mediante a máxima valorização do
contato direto com a situação estudada, buscando-se o que é comum, mas permanecendo,
entretanto, aberta para perceber as individualidades e os múltiplos significados sobre a
efetividade da Lei n.º 4/2014, de 2 de fevereiro, na prevenção e combate à violência
doméstica em Chimoio.

3.1.1 Quanto à Natureza da Pesquisa

A pesquisa é de natureza básica, pois permite estudar as questões com profundidade e detalhe.
A pesquisa básica tem como objetivo principal o avanço do conhecimento científico, sem
nenhuma preocupação com a aplicabilidade imediata dos resultados a serem colhidos. Neste
estudo, o foco será em compreender os mecanismos de aplicação e a percepção sobre a
efetividade da lei, contribuindo para o conhecimento sobre o tema da violência doméstica em
Moçambique.

3.1.2 Quanto aos Objetivos da Pesquisa

Quanto aos objetivos, a pesquisa é explicativa, porque tem a preocupação central de


identificar os fatores que determinam ou contribuem para a efetividade, ou a falta dela, na
aplicação da Lei n.º 4/2014. Neste caso, o objetivo é explicar como a legislação impacta,
positiva ou negativamente, a prevenção, denúncia e punição dos casos de violência doméstica
na cidade de Chimoio.

3.2 Técnicas de Coleta de Dados

Para a coleta de dados, serão utilizadas as seguintes técnicas:


15

3.2.1 Entrevista

A entrevista, compreendida como um encontro entre duas pessoas com o objetivo de uma
delas obter informações sobre um determinado assunto através de uma conversação de
natureza profissional, será uma técnica fundamental. Neste trabalho, as entrevistas serão
realizadas com:

 Vítimas de violência doméstica que tiveram contato com o sistema de justiça ou redes
de apoio.
 Agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM), em particular os das
esquadras de Chimoio, com foco nos responsáveis pelo atendimento a casos de
violência doméstica.
 Profissionais de saúde que atuam em unidades de saúde na cidade de Chimoio e que
assistem vítimas de violência doméstica.
 Representantes de organizações da sociedade civil que trabalham na área de direitos
humanos e combate à violência doméstica em Chimoio.
 Magistrados (juízes e procuradores) envolvidos em processos relacionados à violência
doméstica na Comarca de Chimoio.

Será utilizada a entrevista semiestruturada, que permite flexibilidade e aprofundamento das


questões, indo além de um roteiro programado, para capturar a percepção e os sentimentos
dos entrevistados sobre a aplicação da lei e seus desafios.

3.2.2 Análise Documental

A análise documental será utilizada para complementar as informações obtidas nas entrevistas
e oferecer um panorama mais abrangente sobre a efetividade da lei. Serão analisados:

Relatórios e estatísticas de instituições governamentais (Ministério Público, Polícia,


Ministério da Justiça) sobre casos de violência doméstica na província de Manica e,
especificamente, na cidade de [Link]ças e despachos judiciais de casos de violência
doméstica julgados na Comarca de Chimoio, para analisar a aplicação da lei, as penas
aplicadas e os desafios no [Link] produzidos por organizações da sociedade
civil (relatórios, estudos, pareceres) sobre a violência doméstica em Moçambique e em
Chimoio. A própria Lei n.º 4/2014, de 2 de fevereiro, e demais legislação complementar que
regule a matéria.
16

3.3 Universo e Amostra

A pesquisa será desenvolvida com base numa amostragem por conveniência. Devido à
dificuldade de acesso a todos os intervenientes e à natureza sensível do tema, selecionaremos
os elementos aos quais temos acesso e que podem, de certo modo, representar o universo.
Esse tipo de amostragem não observa o rigor estatístico, pois o que se pretende é extrair
informações inerentes à pesquisa a partir do grupo de indivíduos escolhidos pelo pesquisador.

Como será utilizada a técnica não probabilística para selecionar a amostra, não será necessária
a aplicação de fórmulas estatísticas, visto que essa técnica não faz uso de formas aleatórias
para seleção da amostragem, não sendo, portanto, objeto de tratamento estatístico.

Assim sendo, a amostra será constituída por um grupo representativo de aproximadamente 20


a 30 pessoas, incluindo:

 Vítimas de violência doméstica.


 Agentes da Polícia da República de Moçambique.
 Profissionais de saúde.
 Representantes de organizações da sociedade civil.
 Magistrados (juízes e procuradores).

3.4 Análise de Dados

Os dados coletados através das entrevistas e da análise documental serão analisados por meio
da análise de conteúdo, buscando identificar temas recorrentes, padrões, lacunas e categorias
significativas relacionadas à efetividade da Lei n.º 4/2014 na cidade de Chimoio.

Para a organização e sistematização dos dados textuais, poderá ser utilizado o programa
NVivo ou a organização manual em tabelas, facilitando a codificação e categorização das
informações. No entanto, dado o caráter predominantemente qualitativo da pesquisa, a ênfase
estará na interpretação e compreensão aprofundada dos relatos, percepções e conteúdos dos
documentos, visando construir uma narrativa consistente sobre o tema.
17

4. Cronograma das Actividades


Face ao desenvolvimento do presente projecto de pesquisa, abaixo o cronograma das
actividades que serve de alerta no controlo do tempo e das acções a desenvolver.
Tabela 1-Cronograma das actividades

Ano Ord MESES


J F MA MJ J A S O N D
1 Pesquisa bibliográfica X X X X X X X X X X X X
2 Pesquisa documental X X X X X X X X X X X
3 Elaboração do projecto de pesquisa X X X X
4 Submissão do projecto de pesquisa X
5 Trabalho do campo (questionário, X X X
entrevista e observação)
2025

6 Colecta de dados (trabalho do campo) X X X


7 Construção da monografia (relatório do X X
projecto de pesquisa)
8 Análise e interpretação de dados X X
9 Construção da conclusão da monografia X X
10 Revisão da monografia X X
11 Submissão da versão final X

Fonte: Autor (2025)

5. Orçamento
Tabela 2-Orçamento das actividades

Ord. Material necessário Quantidade Valor unitário Valor total


1 Caderno capa grossa, 1 80mt 80mt
tamanho A4
2 Caneta azul 1 10mt 10mt
3 Lápis a carvão 1 10mt 10mt
4 Papeis A4 100 2mt 200mt
5 Transporte 10 vezes 80 800mt
Total 1.100,00mt
18

Fonte: Autor (2025)


19

[Link]ências bibliográficas

Appolinário, F. (2011). Dicionário de metodologia científica: um guia para a produção do


conhecimento científico (2ª ed.). São Paulo: Atlas.

Creswell, J. W., & Creswell, J. D. (2017). Fundamentos e Práticas da Pesquisa Exploratória


em Cenários Limitados.

Come, T. J. C. (2019). Violência doméstica contra mulheres: análise situacional em


Moçambique (Tese de mestrado). Universidade Eduardo Mondlane. Disponível

Guambe, É. F. (2023). A convivência das mulheres com o agressor e o ciclo da


violência doméstica em Moçambique (Monografia). Universidade Eduardo Mondlane.

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21

Guião de Entrevista

Tema da Pesquisa: A efetividade da Lei n.º 4/2014, de 2 de fevereiro, sobre a violência


doméstica em Moçambique: Caso de estudo na cidade de Chimoio.

Data da Entrevista: ___ / ___ / ____

Hora de Início: ___:___ Hora de Término: ___:___

Local da Entrevista:
___________________________________________________________________________
____________________________________

Nome do Entrevistado (Opcional/Pseudónimo):


___________________________________________________________________________
____________________________________

Função/Contexto do Entrevistado (Ex: Vítima, Agente da PRM, Profissional de Saúde,


OSC, Magistrado):
___________________________________________________________________________
____________________________________

Género do Entrevistado: [ ] Feminino [ ] Masculino [ ] Outro

Idade do Entrevistado: _______ anos

Perguntas da Entrevista:

1. Poderia descrever, na sua perspetiva, qual tem sido o impacto da Lei n.º 4/2014, de 2
de fevereiro, na cidade de Chimoio, desde a sua implementação, no que diz respeito à
prevenção e combate à violência doméstica?
2. Quais são os principais desafios ou obstáculos que o(a) senhor(a) identifica na
aplicação prática da Lei n.º 4/2014, seja no âmbito da denúncia, investigação, proteção
das vítimas ou punição dos agressores?
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3. Na sua experiência, como a comunidade e as instituições locais (polícia, hospitais,


tribunais, organizações da sociedade civil) têm colaborado ou poderiam colaborar de
forma mais eficaz para garantir a efetividade da lei?
4. Em relação ao apoio e proteção às vítimas de violência doméstica, quais são os
recursos existentes em Chimoio e como o(a) senhor(a) avalia a sua acessibilidade e
adequação às necessidades das vítimas?
5. Que sugestões ou recomendações o(a) senhor(a) faria para melhorar a efetividade da
Lei n.º 4/2014 e fortalecer a resposta à violência doméstica na cidade de Chimoio?

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