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Evolução da Indústria Têxtil no Brasil

O artigo analisa a evolução da indústria têxtil no Brasil em uma perspectiva global, destacando sua importância para o processo de industrialização. Embora a indústria têxtil brasileira tenha sido bem estudada, faltam comparações com o desenvolvimento de outras regiões do mundo. O objetivo é entender a trajetória da indústria têxtil no Brasil desde o início da industrialização na Europa até seu auge no século XX e a subsequente perda de relevância.

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Evolução da Indústria Têxtil no Brasil

O artigo analisa a evolução da indústria têxtil no Brasil em uma perspectiva global, destacando sua importância para o processo de industrialização. Embora a indústria têxtil brasileira tenha sido bem estudada, faltam comparações com o desenvolvimento de outras regiões do mundo. O objetivo é entender a trajetória da indústria têxtil no Brasil desde o início da industrialização na Europa até seu auge no século XX e a subsequente perda de relevância.

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e de longo prazo

Michel Deliberali Marson


páginas / año 16 – n° 41 Mayo-Agosto/ ISSN 1851-992X/ 2024
[Link]
DOI: 10.35305/rp.v16i41.878

As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma


perspectiva global e de longo prazo

The Brazilian textile industry: a global and long-term perspective

Michel Deliberali Marson


Instituto Tecnológico de Aeronáutica,
División de Ciencias Fundamentales (Brasil)
michelmdm@[Link]
[Link]

Resumo
A indústria têxtil foi de extrema importância para o processo de industrialização no mundo.
Esse ramo industrial foi o primeiro a se mecanizar em regiões da Europa, promovendo um
impulso de ganhos de produtividade que alterou a perspectiva de produção e consumo antes
conhecida, e para alguns, possibilitou a ruptura necessária para o desenvolvimento
econômico. A indústria têxtil no Brasil, devido a sua importância para o processo de
industrialização, foi relativamente bem estudada. No entanto, faltam trabalhos que a
coloquem em perspectiva global, comparando com o desenvolvimento de outras regiões do
mundo. O objetivo do artigo é promover uma análise da indústria têxtil no Brasil em
perspectiva comparativa mundial, desde o início do processo de industrialização em regiões
da Europa até meados do século XX, quando a indústria têxtil no Brasil atingiu o seu apogeu
em importância para o processo de industrialização.

Palavras-chave: Indústria; têxtil; Brasil; global; longo prazo.

Abstract
The textile industry was extremely important for the industrialization process in the world.
The textile industry was the first to mechanize in regions of Europe, promoting a boost in
productivity gains that changed the perspective of production and consumption previously
known, and led to economic development. The textile industry in Brazil, due to its importance
to the industrialization process, has been relatively well studied. However, there is a lack of
studies that place it in a global perspective, comparing it with the development of other
regions of the world. The objective of the article is to promote an analysis of the textile
industry in Brazil in a world-wide comparative perspective, from the beginning of the
industrialization process in regions of Europe until the mid-twentieth century, when the
textile industry in Brazil reached its peak in importance for the process of industrialization.

Keywords: Industry; textile; Brazil; global; long-term.

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Creative Commons. [Link]
Michel Deliberali Marson

Introdução
A indústria têxtil foi de extrema importância para o processo de industrialização no
mundo. Esse ramo industrial foi o primeiro a se mecanizar em regiões da Europa,
promovendo um impulso de ganhos de produtividade que alterou a perspectiva de
produção e consumo antes conhecida, e para alguns, possibilitou a ruptura necessária
para o desenvolvimento econômico1. Apesar da produção de fios e tecidos ser milenar 2,
foi na Inglaterra que teve início, no final do século XVIII, a produção em grande escala,
por meio de novas máquinas e pelo sistema de fábricas, que tornaram o processo mais
eficiente, expandindo para a Europa e América do Norte posteriormente,
principalmente no século XIX. Por esse motivo, até a segunda década do século XX, a
indústria de tecidos de algodão era o maior setor manufatureiro do mundo3.
As consequências desse processo de mecanização da indústria têxtil foram sentidas ao
redor do mundo, com o barateamento dos produtos produzidos e o domínio desses
países pioneiros, principalmente da Inglaterra, sobre o comércio de fios e tecidos de
algodão ao longo do século XIX. A produção de tecidos no Brasil teve início no período
colonial, mas sua produção manufatureira desenvolveu, principalmente, a partir do
final do século XIX. O que explica esse atraso relativo do desenvolvimento industrial
têxtil no Brasil? Esse fenômeno explica ou é explicado, ao menos em parte, pelo atraso
econômico relativo do país ao longo do século XIX? No Brasil, como nos países
desenvolvidos, o ramo têxtil foi o primeiro a se mecanizar, sendo o responsável pela
maior contribuição para o processo de industrialização no final do século XIX e início
do século XX.
A indústria têxtil no Brasil, devido a sua importância para o processo de
industrialização, foi relativamente bem estudada4. No entanto, faltam trabalhos que a
coloquem em perspectiva global, comparando com o desenvolvimento de outras
regiões do mundo. Também, uma boa parte dos trabalhos foca em períodos específicos,
deixando uma lacuna para entender a sua evolução no longo prazo.
O objetivo do artigo é promover uma análise da indústria têxtil no Brasil em perspectiva
comparativa mundial, entre o início do processo de industrialização em regiões da

1 A literatura sobre o assunto é extensa. Para um resumo ver Mark Koyama e Jared Rubin (2022).
2 Ver Wayland Barber (1993) apud St Clair (2018, p. 6).
3 Gregory Clark (2007, p. 315) estimou o valor da produção mundial de tecidos de algodão em US$ 1,6

bilhões correntes em 1910, permanecendo como o maior setor manufatureiro do mundo até 1918. Para
efeito de comparação, o setor automobilístico dos Estados Unidos torna-se o mais importante da
indústria do país em valor adicionado e exportações em meados dos anos 1920 (Valdaliso; López, 2008,
p. 315). Em 1917, o valor de produção de automóveis nos Estados Unidos é estimado em US$ 996,7
milhões (Yáñezr; Badia-Miró, 2011, p. 324), que produziam três vezes mais automóveis (estimativa de
US$ 330 milhões) do que o resto do mundo em 1916, já que a Europa não adere a era do automóvel antes
da década de 1920 (Frieden, 2008, p. 78). Assim, as estimativas de produção de tecidos de algodão (US$
1,6 bilhões) em 1910 são superiores as estimativas de produção de automóveis (US$ 1,3 bilhões) em
1917.
4 Ver Stein (1979), Versiani (1979), Haber (1997), Libby (1997), Suzigan (2000) e Delson (2016).

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

Europa e meados do século XX, quando a indústria têxtil no Brasil atingiu o seu apogeu
em importância para o processo de industrialização e sua perda de importância até o
início do século XXI. As questões específicas sobre o tema serão a importância da
difusão tecnológica, política de comércio exterior e demais políticas econômicas. Para
tanto, a literatura sobre o assunto será revisitada, colocando em perspectiva de
contribuição ao longo dos vários períodos importantes para a indústria têxtil no Brasil.
A próxima seção examina a evolução dos manufaturados têxteis no período colonial. A
terceira seção apresenta as razões e dificuldades do desenvolvimento da indústria têxtil
no Brasil, após a independência até o final do século XIX, diante da concorrência dos
importados britânicos. A quarta seção é a principal contribuição empírica para a
literatura sobre a indústria têxtil no Brasil. Apresenta uma estimativa da indústria têxtil
no Brasil em relação ao mundo e discute fatores relevantes para sua expansão no final
do século XIX e sua perda de importância nas últimas décadas do século XX e início do
século XXI. A última seção resume as principais conclusões do artigo.

O desenvolvimento dos manufaturados têxteis no Brasil Colônia


A literatura clássica sobre indústria têxtil no Brasil é categórica em afirmar a existência,
mesmo que incipiente, de uma produção de tecidos para satisfazer as necessidades de
subsistência no Brasil Colônia. Essa historiografia afirma ainda que diante das políticas
mercantilistas do período, o alvará de 17855 afetou a manufatura de tecidos, com
exceção de tecidos lisos e grosseiros de algodão, direcionando mão-de-obra para a
mineração e agricultura, economias de exportação (Stein, 1979, p. 20), mas a literatura
mais aceita acredita que o alvará foi um exagero para um problema pouco importante
em decorrência da pequena produção de tecidos no Brasil (Novais, 1979, p. 272-274;
Maxwell, 1973, p. 107).
Douglas Libby (1997, p. 98-99) afirmou que há indícios de que a produção têxtil (fios e
tecidos), por meio de uma indústria doméstica, era disseminada por boa parte do Brasil
no final do século XVIII. Mais ainda, a produção de panos caseiros era comum no
período colonial, já que várias tribos indígenas haviam praticado a fiação e tecelagem
com a fibra do algodão originário do Brasil. Sobre o Alvará de 1785, Libby apresenta
evidências que ele afetou pouco a produção de fios e panos, porque, em sua maioria, os
tecidos produzidos eram os grosseiros de algodão, para ensacar e para uso de escravos,
justamente os isentos das proibições. Utilizando relatos de viajantes e o Inventário de
Teares existentes na Capitania de Minas Gerais de 1786, Libby (1997, p. 122) concluiu
que a incipiente indústria têxtil doméstica de Minas no século XVIII se assemelhava à
proto-industrialização têxtil da Europa pré-fabril, apesar de algumas peculiaridades.

5O Alvará de 1785 proibia o desenvolvimento das manufaturas têxteis nas Capitanias do Brasil colonial,
com exceção de tecidos grossos de algodão para vestuário de negros e enfardamento de demais produtos.
A justificativa do alvará é que o desenvolvimento das fábricas e manufaturas têxteis desviava a escassa
oferta de trabalho da lavoura e da mineração.

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Michel Deliberali Marson

Uma literatura mais recente questiona a característica pré-industrial da indústria têxtil


no século XVIII e afirma que a colônia possuía fatores necessários para fabricação de
tecidos, como matéria-prima, mão-de-obra escrava ou indígena, os primeiros a
produzir têxteis no período pré-colonial. Entre 1550 e 1700, os colonos portugueses
começaram a fiar e tecer de forma doméstica e diversificada, principalmente para
atender a subsistência e não ao comércio. Havia uma crescente demanda por roupas
baratas para vestir os escravos africanos e a população pobre livre, já que o tecido
importado mais caro era para atender a população rica do Brasil (Delson, 2016, p. 77-
80). Segundo Delson (2016, p. 80-84), no século XVIII ocorreu uma mudança
significativa no desenvolvimento da indústria têxtil, com o aparecimento de fábricas
têxteis em novos centros no norte, no extremo oeste do Brasil e centros costeiros
antigos, para atender a expansão do comércio dentro do Brasil e um comércio paralelo
no exterior.
No final do século XVIII, a indústria têxtil brasileira apresentava duas características
diferentes, a produção caseira para uso de subsistência com produção pré-industrial,
que permanecia desde séculos anteriores, e a produção fabril proto-industrial, apoiada
pelo governo português, que produzia tecidos no norte (exemplos em Belém do Pará) e
interior (Albuquerque, Mato Grosso) do país para atender a produção de um comércio
interno e uniformes militares, mas em alguns casos, como na capitania do Pará,
aparentemente atenderam um comércio para exportação para a metrópole. A principal
diferença desses dois tipos de produção era a tecnologia utilizada, sendo que a
produção doméstica continuou a depender de rocas e teares simples e as fábricas
operadas pelo governo utilizavam máquinas mais modernas e eficientes,
predominantemente importadas, com um aparato análogo às fábricas estrangeiras. A
maior eficiência se dava pela utilização de aparelhos de fiação provavelmente
importados diretamente da Inglaterra ou enviados de Portugal, mas também na forma
de beneficiamento da matéria prima, com uma variante de um descaroçador de algodão
movido manualmente, em contraste com a forma de limpar manualmente na produção
caseira. A única semelhança dos equipamentos das duas formas de produção era na
tecelagem, em que ambas as formas de produzir utilizavam o tear nativo manual
vertical, já que não foram encontrados no Brasil, mesmo nas fábricas do norte e interior,
teares horizontais atualizados, utilizados em Portugal e importados da Inglaterra
(Delson, 2016, p. 84-87).
Para entender o contexto do alvará de 1785, depois a abertura dos portos em 1808 e os
impactos da Independência do Brasil sobre a produção têxtil nacional é necessário
examinar a evolução da manufatura portuguesa a partir de meados do século XVIII e
início do século XIX. A produção de manufatura têxtil, a fiação e tecelagem de lã e linho
eram praticadas em zonas rurais do norte e sul de Portugal, muitas vezes para atender
ao mercado local e de longa distância. A produção de tecidos de linho da região do
Minho, com trabalho artesanal doméstico, caseiro e rural, estava atrelada à circulação

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

mercantil para atender o mercado interno e também o Brasil com forte crescimento da
produção no final do século XVIII e início do século XIX. Com importação de matéria
prima do Báltico, já que com o crescimento da produção o linho produzido em Portugal
não era suficiente para a indústria artesanal, sua principal presença era notada no
distrito de Viana do Castelo e no Porto em meados de 1800. Apesar da concentração na
região Noroeste, há presença da indústria do linho também na Estremadura, Trás-os-
Montes, Alentejo e na Beira. A produção de lã no século XVIII em Portugal remontava a
uma tradição de produção artesanal desde o século XV, com concentração na Beira,
especialmente em Covilhã, que atuava como coordenadora da indústria caseira das
zonas rurais, e no Alentejo, especialmente Portalegre e vila de Redondo, com
polarização da capacidade de trabalho local por parte das oficinas urbanas. A produção
de lã, estamparia de algodão e seda se desenvolveu também na região de Lisboa (Real
Fábrica do Rato). A produção de seda se desenvolveu na Comarca de Moncorvo, Cachim
e de Freixo de Espada à Cintra e também em Bragança. Essas regiões produziam
veludos, tafetás e cetins para o Brasil e outras regiões (Costa; Lains e Miranda, 2014, p.
239-240, 244).
Ao longo do século XVIII Portugal promoveu políticas de estímulo à produção
industrial. Apesar do balanço da historiografia sobre os estímulos estatais no período
de D. João V (no caso dos têxteis com a construção da Real Fábrica das Sedas do Rato,
em Lisboa, em meados de 1730 e depois reformada) ser inconclusivo, a promoção da
substituição de importações e a introdução de técnicas inovadoras e, em geral,
dominadas por investidores estrangeiros é evidente com as políticas do conde de
Oeiras, futuro marquês de Pombal (1755-1777). No caso dos têxteis ocorreu a fundação
de lanifícios em Portalegre e Cascais, com a participação de técnicos franceses, a Real
Fábrica de Panos de Covilhã e a Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre (Costa; Lains e
Miranda, 2014, p. 240-242).
Não se deve subestimar a indústria, especialmente de linho, estamparia de algodão, lã,
seda, de Portugal entre o final do século XVIII e início do século XIX e o contexto do
comércio ultramarino, principalmente o colonial com o Brasil, para a sua manutenção6.
Nas estatísticas das Balanças de Comércio de Portugal, as suas exportações de
manufaturados “produtos de fábricas do Reino”, incluindo tecidos manufaturados em
Portugal, para o Brasil era maior do que a reexportação (de outras localidades) por
Portugal de tecidos (linho, lã e seda7) entre 1796 a 1831 (com exceção de 1806 a 1808).

6 Entre 1796-1806, as manufaturas correspondiam a 35,6% do total das exportações de Portugal, sendo
mais de 90% das exportações de manufaturas para o Brasil. Os produtos exportados incluíam
estamparias de algodão e panos de linho, chapéus e ferragens. Depois da Independência do Brasil, as
manufaturas de Portugal representavam entre 1825-1831 apenas 16,8% do total das exportações e 4%
do total das exportações em 1850 (Costa; Lains e Miranda, 2014, p. 297-298).
7 As importações de tecidos de algodão estrangeiros eram proibidas em Portugal até o Tratado de

Comércio com a Inglaterra em 1810. A partir de 1811, Portugal reexportou manufaturados de algodão
ingleses, mas em uma proporção média pouco significante (6%) dos tecidos de linho, próxima aos tecidos

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Como é possível verificar pelo Gráfico 1, depois de um pico em entre 1798 e 1799,
ambas as variáveis voltam para a sua média anterior até cerca de 1805, para as
exportações de produtos manufaturados e em 1807, para os tecidos reexportados.
Com o bloqueio continental realizado por Napoleão em 1806 e os eventos que forçaram
a partida da corte portuguesa para o Brasil e a abertura dos portos em 1808 ocorreu
um impacto significativo para as exportações (e reexportações) portuguesas para o
Brasil. É interessante notar os detalhes do comércio exterior do período. Para os tecidos
reexportados de Portugal para o Brasil, foi o linho que sustentou a manutenção dos
valores até 1807, e depois ensaiou uma recuperação até 1818. Os tecidos de lã e seda
nunca voltaram a representar significativas reexportações de Portugal para o Brasil
depois de 1806. Possivelmente, com a abertura dos portos e o fim do exclusivo colonial,
a demanda por tecidos de lã seria atendida diretamente pela Inglaterra (e outros
países), e também responsável pela queda das reexportações de linho por Portugal
devido à concorrência dos tecidos de algodão e também linho no final da década de
1810 e início de 1820.

Gráfico 1: Exportações (e reexportação) de Portugal para o Brasil– produtos manufaturados


(“produtos de fábricas do Reino”, com retificação) exportados e tecidos (lanifícios, linifícios e
seda) reexportados, em contos de réis correntes, 1796-1831

Fonte: Alexandre (1986, p. 44), Weber (2008, p. 520-521). Nota: Os dados de tecidos
reexportados são a soma de lanifícios, linifícios e seda e foram retirados de Weber (2008, p.
520-521) que transcreve a Balança de Comércio de Portugal entre 1796 a 1831. Os dados de
produtos manufaturados para o Brasil são de Alexandre (1986, p. 44). A retificação inclui entre
os “produtos das fábricas do Reino”, produtos industrializados que estavam discriminados em
outras categorias, como “lanifícios”, “linifícios”, “sedas”, “metais” e “vários gêneros”.

de seda e um pouco acima dos tecidos de lã entre 1811 e 1831.

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

Para os produtos industriais de fábricas portuguesas exportados para o Brasil os


detalhes são mais importantes (ver Gráfico 2).
Como já indicado, depois de um pico de exportações de produtos manufaturados de
Portugal para o Brasil entre 1798 e 1799, os valores voltam para a média anterior (de
1796 e 1797) entre 1800 e 1805, com queda significativa entre 1806 e 1807. Depois da
crise de 1808 ocorreu uma recuperação significativa até 1818 (chegando aos valores
de 1806) com uma tendência de queda nos anos 1820 (com algumas recuperações),
mas chegando, no final da década de 1820 e início de 1830, a valores próximos aos da
crise de 1807. A tendência específica e a representatividade dos tecidos manufaturados
(que correspondiam a mais de 50% das exportações de manufaturados) em Portugal e
exportados para o Brasil também apresentam detalhes interessantes.

Gráfico 2: Exportações de Portugal para o Brasil– produtos manufaturados (“produtos de


fábricas do Reino”, com retificação) e a composição dos tecidos (linho, algodão, lã e seda), em
contos de réis correntes, 1796-1831

Fonte: Alexandre (1986, p.12-20, 31-38, 44); Pedreira (1987, p. 577,579,580); Pedreira
(2000, p. 847).

Os tecidos de linho e de algodão foram os principais têxteis portugueses exportados


para o Brasil entre 1796 a 1831, com os tecidos de lã e seda com importância

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secundária. Os tecidos de linho apresentaram uma recuperação mais rápida do que os


de algodão a partir de 1809. Essa característica é explicada pelo fato de que os tecidos
de algodão tinham proteção tanto no mercado português como no brasileiro (proibição
de entrada de produtos estrangeiros8) e sofreram com a concorrência britânica após
1808-1810, apesar de certa recuperação até 1818 (mas com apenas 1/3 dos valores do
período anterior a 1808). Os tecidos de lã produzidos em Portugal também sofreram
com a concorrência britânica, praticamente desaparecendo das exportações para o
Brasil após 1809. A crise nas exportações de tecidos de linho ocorrerá apenas após o
início dos anos 1820, com as crises da Independência. Para o período todo, os tecidos
perdem participação relativa nos produtos manufaturados portugueses exportados
para o Brasil entre 1796-1807 e 1809-1831, com perda significativa de importância dos
tecidos de lã e algodão (Alexandre, 1986, p. 12-20, 31-38).
Qual o impacto da produção de tecidos estrangeiros e dos movimentos de comércio
exterior na produção manufatureira de têxteis do Brasil no período colonial? Primeiro,
é inegável o crescimento da produção têxtil de Portugal no final do século XVIII alinhado
com o comércio desses tecidos para o Brasil, principalmente de tecidos de linho e lã. Os
tecidos de algodão serão importantes na produção europeia após a Revolução
Industrial, com impactos continentais apenas no início do século XIX. Os tecidos de
algodão manufaturados em Portugal estavam protegidos de concorrência até 1808-
1810, mas geralmente a transformação realizada naquele país era de tinturaria e
estamparia, com panos crus vindos da Ásia ou da Grã-Bretanha. Segundo, é também
perceptível que no início do século XIX começa uma transição na produção de têxteis
com perda da importância das exportações de Portugal e crescimento da Grã-Bretanha
no fornecimento de tecidos para o Brasil. Os momentos para cada tipo de tecido variou
conforme os eventos. As mudanças mais significativas nos tecidos de lã e algodão
ocorrem a partir de 1807-1808, mas nos tecidos de linho, apesar da perda do exclusivo
colonial, vai ocorrer apenas no início dos anos 1820. Assim, políticas comerciais, de
evolução na técnica (e produtividade) da produção de tecidos e preço da matéria prima
principalmente de tecidos de algodão, podem explicar essas alterações na composição
do mercado de cada produto.
Roberta Marx Delson (2016) reconhece as políticas de Portugal a partir de meados do
século XVIII (e especialmente na discussão do tratado de 1785) como um reforço do
colonialismo, assim como a historiografia portuguesa, mas com substituição de
importações em ambos os lados do Atlântico. Com relação à produção brasileira, havia
um ceticismo no início e depois um alarme, já que antes do tratado de proibição de

8 O Tratado de Methuen (1703), que estabeleceu livre entrada de produtos ingleses em Portugal,
desfavorecendo a indústria têxtil, principalmente de lã (já que a produção de tecidos de algodão não era
importante na Europa no período), em troca da paridade tarifária do vinho português com o francês no
mercado inglês. Com Pombal, em meados do século XVIII, ocorreu uma reação ao sistema com a
substituição de importações de produtos têxteis tanto na metrópole como na colônia.

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

produção de manufaturas no Brasil houve uma tentativa mal sucedida, sob Pombal, em
1766, de reduzir a produção têxtil brasileira, já vista como uma ameaça à produção
industrial metropolitana. No entanto, Delson (2016) afirma que a legislação de 1785
não destruiu a manufatura têxtil brasileira, já que os dados disponíveis após 1785
mostram que a produção e comércio de têxteis continuaram inabaláveis na maior parte
da colônia. Outro assunto importante discutido é se o aumento das exportações de
algodão bruto para a Inglaterra, em decorrência da Revolução Industrial, no final do
século XVIII, teria limitado o desenvolvimento da manufatura têxtil de algodão
brasileira pela falta de algodão para atender as duas partes do mercado ao mesmo
tempo. Delson (2016) afirma que o aumento das exportações de algodão bruto não
parece ter ameaçado a produção brasileira (Delson, 2016, p. 90-92).
Apesar de ser difícil responder com exatidão quais foram os efeitos na produção
brasileira de manufaturados têxteis no período colonial, parece que as alterações nas
políticas de comércio e relações técnicas tiveram impacto na evolução da manufatura
têxtil nacional. As mudanças possivelmente limitaram o desenvolvimento da
manufatura de têxteis brasileira, diante dos principais produtos que produzia e do tipo
de mercado que atendia, conforme veremos na próxima seção.

Continuidade ou ruptura na produção da manufatura têxtil no Brasil?:1820-1880


O desenvolvimento da indústria da manufatura têxtil no Brasil no longo prazo, mesmo
que incipiente, foi possível devido a alguns fatores favoráveis, que se intensificaram em
meados do século XIX, como produzir a matéria prima, no caso o algodão; já ter uma
história com a produção de fios e tecidos, mesmo que artesanal; ter capital, que em
parte foi transferido para o setor com o fim do tráfico de escravos em 1850; ter a
possibilidade de acessar a difusão tecnológica por meio das máquinas importadas,
assim como conhecimento técnico de artesãos e mecânicos a partir dos anos 1820 e
18409; e a formação de um estado moderno a partir da Independência, que deve ser
relativizada no caso do Brasil pela troca de dependência econômica e diplomática de
Portugal pela Inglaterra10.

9 Os artesãos britânicos foram autorizados a trabalhar fora do país apenas em 1825 e as exportações de
máquinas foram desregulamentadas em 1842 (Clark, 2007, p. 303), mas antes disso era importante o
contrabando de máquinas e a imigração, mesmo não autorizada de artesãos (ver Landes, 2005, p. 152-
153, nota 35).
10 Para Beckert (2014, p. 142-154, 161) a formação do mapa da expansão da mecanização do algodão

manufaturado ao redor do mundo ao longo do século XIX é decorrente de uma história prévia com a
manufatura têxtil, disponibilidade de capital, máquinas e tecnologia e capacidade do estado de criar uma
estrutura para o desenvolvimento do empreendimento na região. Sobre a importância de produzir a
matéria prima, ver Suzigan (2000, p. 129-130), que reforça ainda outros fatores importantes para o
desenvolvimento da indústria a partir de meados do século XIX como a demanda crescente por vestuário
e sacaria para os produtos de exportação, mão de obra barata, apesar de não treinada e proteção da
concorrência estrangeira, inicialmente com elevados impostos de importação e no final do século XIX
com também desvalorização cambial. Sobre a transferência de capital com o fim do tráfico de escravos

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Michel Deliberali Marson

Com relação ao mercado e capacidade de produção de manufaturas de algodão no


mundo e seu impacto para a economia britânica (e mundial) é possível afirmar que
entre o final do século XVIII e ao longo do século XIX o crescimento da indústria têxtil
de forma significativa a partir de 1770 resultou em um desenvolvimento, ou seja, em
um crescimento sustentado de longo prazo, efeito nunca notado anteriormente, que
moldou a economia moderna e que é sentido até os nossos dias. A taxa de crescimento
da indústria têxtil algodoeira da Grã-Bretanha passou de 1,37% ao ano entre 1700-
1760 para 6,2% entre 1770-1780, 12,76% entre 1780-1790, 6,73% entre 1790-1801,
4,49% entre 1801-1811, 5,59% entre 1811-1821, impactando em uma taxa de
crescimento da economia como um todo do dobro da média entre 1740 e 1800 para
1800 e 1860 (Freeman; Soete, 2008, p. 67-68). Especificamente sobre a concentração e
estrutura da indústria, em 1800 havia 3,4 milhões (97% do mundo) de fusos de algodão
no Reino Unido e apenas 100 mil no resto do mundo (Farnie, 2003, p. 724). Em 1840, o
Reino Unido possuía 64% dos fusos de algodão do mundo (Farnie, 1990, p. 151) e ainda
mais da metade até a década de 1880 (ver Tabela A.1, no anexo).
Existe uma discussão na literatura sobre os efeitos das importações britânicas de
tecidos de algodão sobre a manufatura artesanal e a indústria doméstica brasileira
(pelo menos para a primeira metade do século XIX)11. Platt (1972, p. 11) argumenta que
existiam mercados na costa do Brasil e no Rio da Prata abertos para os produtos de
algodão britânico e que a queda nos custos de produção ampliou esses mercados nos
anos posteriores a 1820. No entanto, no interior, os importadores achavam difícil
competir com os produtos mais fortes, duráveis e familiares da indústria artesanal
local, devido aos custos de transporte, tributação local e comissões comerciais. A
explicação de Platt é que a concorrência dos tecidos de algodão britânicos limitou a
produção de fábrica local, mas não a produção caseira e artesanal, principalmente no
interior, que continuou a satisfazer grande parte da demanda local (Platt, 1972, p. 11-
22).
Essa indústria têxtil doméstica para o Brasil é apresentada por Libby (2002) e Martins
(2018), que relataram o caso de Minas Gerais, no final do século XVIII e ao longo do
século XIX. Os panos de Minas eram baratos e próprios para a escravatura e a sua
produção de 7,4 milhões de metros em 1828 representava quase 20% da média anual
das importações brasileiras de tecidos de algodão britânicos no período de 1827-1831,
valor esse quase o dobro de toda a produção das fábricas têxteis brasileiras quarenta
anos depois (1866) (Martins, 2018, p. 233). A produção têxtil artesanal em Minas Gerais
teria sofrido com a concorrência de produtos britânicos nas décadas de 1820 a 1840,
quando ocorreu uma recuperação temporária do “pano mineiro” devido a sua
qualidade, mas revertida com a queda das exportações para outras regiões do Brasil

ver Lobo (1978, p. 171) e Soares (2002, p.302), Stein (1979, p. 23) e Suzigan (2000, p. 137).
11 Para uma abordagem recente sobre o comércio entre Brasil e Grã-Bretanha e os efeitos da proteção

tarifária na primeira metade do século XIX ver Pereira (2021).

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de longo prazo

nos anos iniciais da década de 1870 até 1890, devido à predominância dos tecidos
importados. O desenvolvimento da produção têxtil artesanal até meados do século XIX
não resultou em um processo de industrialização, já que a produção das fábricas do
final do século XIX parece ser menor do que no início do século, com a indústria
doméstica (Libby, 2002, p. 274-280). Apesar da queda da indústria têxtil doméstica
devido à concorrência dos importados ingleses baratos e fábricas brasileiras a partir da
década de 1860, a sua produção parece ter sobrevivido até a Primeira Guerra Mundial
(Martins, 2018, p. 234-237).
Já para Stein (1979) a expansão do comércio, especialmente com a Grã-Bretanha,
favorecida por acordos preferenciais até 1843, prejudicou tanto a indústria artesanal
como a manufatureira no Brasil, sendo que o pequeno desenvolvimento de empresas
no início do século XIX teve fim por volta de 1830, com o aumento de manufaturas
importadas. Apesar de ter sobrevivido até o final do século, a produção caseira teve
queda na produção a partir de 1850, em consequência do progresso industrial europeu,
com a melhora das máquinas e eficiência de produção refletindo na queda do custo,
tornando a produção caseira de tecidos de algodão não lucrativa. Com relação às
fábricas de tecidos de algodão, em 1861 foi possível verificar a existência de apenas
nove empresas, sendo as principais a Todos os Santos, na Bahia e a Santo Aleixo, no Rio
de Janeiro, fundadas na década de 1840 (Stein, 1979, p. 22; 28).
Assim, a grande dificuldade para o desenvolvimento da indústria têxtil, em termos
modernos, com fábricas e máquinas, em uma região como o Brasil ao longo do século
XIX teria sido a concorrência com a potência industrial e diplomática britânica. Apesar
do incipiente tamanho do mercado consumidor, a demanda não parece ter sido um
limitador do desenvolvimento industrial têxtil no Brasil 12. Essa característica fica clara
quando é verificada a pauta de importações do Brasil ao longo do século XIX. As
manufaturas de algodão representavam cerca de um terço (média de 30%) de todas as
importações do país entre 1841 e 1873, caindo para 9,4% em 1901 (Abreu et al, 2022,
p.160). Havia, assim, demanda para os produtos manufaturados de algodão, refletida
na grande proporção que esses produtos representavam nas importações brasileiras,
sendo o principal problema concorrer com as importações estrangeiras
(principalmente britânicas) baratas.
Em 1837, Raimundo José da Cunha Matos, analisando as manufaturas em Minas Gerais,
no interior do Brasil, afirmou que,

12 Sobre o argumento de falta de demanda para o desenvolvimento industrial no Brasil ver Prado (1991).
Outro argumento parecido, é que a baixa renda per capita atrasou o desenvolvimento industrial no Brasil
(ver Bulmer-Thomas, 2014, p. 145-146). Nesta mesma linha, para uma abordagem geral para o pequeno
mercado da América Latina (e o Brasil) para o comércio britânico na primeira metade do século XIX (ver
Platt, 1972, cap. 1).

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“não obstante os estorvos postos pelo antigo governo ao desenvolvimento das


fábricas e manufaturas, havia na província, antes de 1808, (em que se abriram os
portos aos estrangeiros), muito maiores estabelecimentos fabris do que agora se
encontram. Todos eles foram suplantados pelos gêneros ingleses, franceses, etc., de
maneira que hoje apenas resta uma ligeira sombra do corpo que outrora ia
tomando um brilhante crescimento e prometia uma certa prosperidade” (Cunha
Matos, 1981, vol.2, p. 105).

Apesar do possível exagero da descrição contemporânea acima sobre os


estabelecimentos fabris no início do século XIX, a situação econômica da manufatura no
interior do Brasil parece ter piorado com a abertura dos portos em 1808 até as
primeiras décadas da Independência, decorrente da concorrência dos produtos
estrangeiros, principalmente britânicos, sugerindo inclusive um retrocesso na
manufatura.
O aumento da concorrência se deu pela queda dos preços dos produtos importados 13,
que para atingir o interior do Brasil demora mais tempo devido ao alto custo do
transporte no início do século XIX. A evolução dos preços médios das exportações de
tecidos de algodão da Grã-Bretanha para o Brasil e para o Cone Sul (Argentina, Chile e
Uruguai) ao longo do século XIX pode ser observada no Gráfico 3.
O período de queda mais acelerada nos preços dos tecidos de algodão exportados do
Reino Unido foi o de 1815 a meados dos anos 1830, com especial importância na década
de 1820. Para Platt (1972, p. 10) os tecidos de algodão britânicos estavam ainda
relativamente caros no início da década de 1820. Os preços dos manufaturados de
algodão exportados para o Brasil nas primeiras décadas do século eram ligeiramente
inferiores aos do Cone Sul, mas com tendência muito próxima e praticamente igualando
a partir de meados do século XIX. Os preços dos tecidos de algodão do Reino Unido para
o Brasil caem pela metade (0,064 para 0,031 libras esterlinas por jardas) entre 1815 e
1828, reduzindo pela metade novamente (de 0,031 para 0,015 libras esterlinas por
jardas) entre 1828 e 1851. Depois de uma alta entre 1860 e 1865 (chegando a 0,024
libras por jardas em 1865), volta à tendência de queda até o final do século XIX
(atingindo 0,011 libras por jardas em 1895). A consequência da queda nos preços de
tecidos de algodão foi o aumento das importações (em quantidade) pelo Brasil que
quadruplicaram (de 15.855.937 para 62.824.889 jardas) entre 1815 e 1828. Entre 1828
e 1851 o Brasil mais do que dobrou (de 62.824.889 para 134.420.924 jardas) a

13A queda dos preços dos produtos de algodão ocorreu devido ao rápido crescimento da produtividade,
já que as primeiras máquinas de fiação aumentaram a produção por hora de trabalho em
aproximadamente 400 vezes entre 1750 e 1825. Na Índia, para fiar cem libras de algodão cru eram
necessárias 50.000 horas de trabalho em 1750. Na Inglaterra, utilizando a spindle mule em 1790, para o
mesmo montante de produção eram necessárias 1.000 horas de trabalho. Com o aperfeiçoamento das
máquinas, em 1825, eram necessárias apenas 135 horas de trabalho. A queda no preço é explicada pelo
aperfeiçoamento dos equipamentos, mas também pelo aumento da quantidade de trabalho (média de
horas de trabalho de 2.760 em 1750 para 3.115 em 1800 e 3.366 em 1830) e um menor salário, pelo
menos até 1850 (Acemoglu; Johnson, 2023, p. 180-181).

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de longo prazo

importação de tecidos de algodão do Reino Unido, mais do que dobrando novamente e


chegando a um pico de 278.898.500 jardas em 1892 (Reino Unido, 1856-1895).

Gráfico 3: Preço médio (libras esterlinas por jardas) das exportações de tecidos de algodão do
Reino Unido para o Brasil, 1815-1828; 1851-1895 e Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai),
1815-1875.

Fonte: Reino Unido (1812-1828). Ledgers of exports of British merchandise under countries.
Londres: The National Archives; Reino Unido (1856-1895). Annual Statement of the Trade of the
United Kingdom with Foreign Countries and British Possessions. UK. Parliamentary Papers.
Londres: H.M.S.O.; Llorca-Jaña (2014), p. 312-313; 317-318.

Com relação ao mercado consumidor, em 1850, mais da metade dos tecidos de algodão
produzidos no Reino Unido foi exportado. Entre 1820 e 1850, Ásia e América Latina
constituíram os mercados de exportação com o mais rápido crescimento (Beckert,
2014, p. 165). O Brasil representou em média 7,4% de todas as exportações de tecidos
de algodão do Reino Unido entre 1815 e 1879, um mercado considerável, já que o Cone
Sul (Argentina, Chile e Uruguai) apresentou média de 4,3% e o México 1,3%. Na
América, o Reino Unido exportou mais tecidos de algodão apenas para os Estados
Unidos, que tiveram uma participação média de 10,2% entre 1815-1879. No entanto,
ao longo desses anos o Brasil tornou-se o maior mercado das Américas em alguns
períodos específicos, como no final dos anos 1830 até meados dos anos 1840 e na
segunda metade dos anos 1870 (Llorca-Jaña, 2014, p. 318-320). A evolução das
exportações de manufaturas de algodão do Reino Unido para o Brasil entre 1815 e 1879
pode ser examinada no Gráfico 4. Houve uma evolução crescente das exportações de
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manufaturas de algodão do Reino Unido para o Brasil, com crescimento rápido a partir
de meados do século XIX14.
Assim, tudo indica que, até o terceiro quarto do século XIX, a manufatura e indústria
brasileira de algodão teve muita dificuldade para se desenvolver devido à concorrência
com os produtos ingleses importados. O Brasil teria falhado em desenvolver a sua
própria indústria mecanizada de tecido de algodão. A industrialização dos produtos de
tecidos de algodão teve que esperar até os anos 1880 (Beckert, 2014, p. 170).

Gráfico 4: Exportações do Reino Unido - manufaturas de algodão (excluindo linhas) para o


Brasil, valores declarados (mil libras constantes de 1879), 1815-1879

Fonte: Llorca-Jaña (2014, p. 318-320). Nota: os valores em libra esterlina foram deflacionados
pelo índice de preços por atacado do Reino Unido.

O motivo do atraso da produção industrial de tecidos, em termos modernos, do Brasil


pode ser encontrado em um exame das exportações do Reino Unido (proporção de
tecidos de algodão em relação as exportações totais) para o Brasil ao longo do século
XIX (Gráfico 5) e de forma detalhada (exportações por produto) na segunda metade do
século XIX (Tabela 1)15.
O Gráfico 5 apresenta a participação relativa dos tecidos de algodão em relação ao total
exportado do Reino Unido para o Brasil entre 1815 e 1879. Como é possível notar, as

14 Para uma abordagem detalhada entre 1815 e 1860 ver Pereira (2021, p. 324-331, especialmente Figura

4).
15 Os valores para manufatura de algodão no Gráfico 5 e da Tabela 1 apesar de serem de fontes diferentes

são compatíveis e compráveis. As fontes primárias dos valores de 1815-1879 (Gráfico 5) são os Ledgers
of exports of British merchandise under countries, e de 1851-1895 (Tabela 1) são os Annual Statement of
the Trade of the United Kingdom with Foreign Countries and British Possessions.

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

manufaturas de algodão representam em média 53,6% de todas as exportações do


Reino Unido para o Brasil entre 1815 e 1879. Apesar da variação dos valores entre os
anos, a tendência é de queda da proporção de manufaturas de tecidos em relação às
exportações totais do Reino Unido para o Brasil ao longo do século XIX, mas de forma
extremamente lenta até 1850 (média das manufaturas de algodão nas exportações
totais de 55,4% entre 1815-1850) e lenta até 1879 (média de 51,5% entre 1851-1879).
Apenas a partir do último quarto do século XIX é que haverá uma diversificação mais
significativa nos produtos exportados do Reino Unido para o Brasil.

Gráfico 5: Exportações do Reino Unido - manufaturas de algodão (excluindo linhas), % das


exportações totais para o Brasil,1815-1879

Fonte: Llorca-Jaña (2014, p. 314-316; 318-320).

A Tabela 1 apresenta de forma detalhada a participação relativa por tipo de produto


exportado do Reino Unido para o Brasil entre 1851 e 1895.
Como é possível verificar pela tabela, 79% das exportações do Reino Unido para o
Brasil eram de manufaturas têxteis (57,3 % de algodão, 12,7% de lã, 8,4% de linho e
0,7% de seda) em 1851. A concentração nos produtos (tecidos, principalmente de
algodão) exportados pelo Reino Unido para o Brasil começa a diminuir apenas a partir
de 1870, quando os têxteis representam 65,1% (51,9% de algodão) das exportações do
Reino Unido para o Brasil. Em 1895, os têxteis representavam ainda 47,7% (37,4% de
algodão) das exportações, mas as máquinas tinham aumentado para 8,5% e metais para
10,9%.

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Essas informações mostram o atraso da economia brasileira em meados do século XIX,


já que as máquinas representavam apenas 0,7% das exportações do Reino Unido para
o Brasil, mas também mostram que o problema limitador da industrialização brasileira
não deve ser explicado pelo lado da demanda, ou seja, o mercado consumidor. Mesmo
com uma demanda restrita pela baixa renda per capita do país, mais de três quartos de
tudo o que o Brasil importava da principal região industrial do mundo era de produtos
têxteis. Ou seja, havia demanda para os têxteis, principalmente de algodão, mas era
difícil, em geral, concorrer com os produtos britânicos. Uma estimativa comparativa do
preço médio (libra esterlina por metro) do tecido de algodão produzido no Brasil com
o importado do Reino Unido para os anos de 1866 e 1867 (anos que temos dados
passíveis de comparação) mostra que o tecido produzido no Brasil tinha um preço, em
média, 2,8 vezes maior (0,059 libras esterlinas por metro contra 0,021 libras por
metro) do que o importado britânico16.

Tabela 1: Exportações do Reino Unido para o Brasil, por tipo de produto, em valor real
declarado, em %, 1851-1895

Produto 1851 1855 1860 1865 1870 1875 1882 1885 1890 1895
Manufatura de
algodão 57,3 51,8 53,1 50,1 51,9 50,9 47,7 46,3 39,9 37,4
Manufatura de lã 12,7 9,6 5,8 8,1 7,8 7,1 4,8 5,6 4,6 5,3
Manufatura de linho 8,4 6,4 4,8 7,0 4,2 3,0 1,7 1,8 1,6 1,5
Manufatura de seda 0,7 1,0 0,7 0,2 0,3 0,5 0,0 0,0 0,2 0,3
Manufatura de juta 0,0 0,0 0,0 0,0 0,8 1,1 2,5 2,7 1,6 3,2
Máquinas 0,7 1,3 2,1 1,3 2,8 3,0 6,1 7,9 8,6 8,5
Ferramentas 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,5 1,1 1,1 2,0
Ferragens e
cutelarias 3,1 4,2 2,8 4,5 4,4 4,1 3,9 2,6 1,8 1,7
Carruagens, ferrovias 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,5 1,0 1,4
Metais 4,0 7,3 9,5 5,9 7,4 8,5 12,5 9,8 15,6 10,9
Carvão e direvados 0,7 1,2 2,0 2,3 2,9 4,3 3,0 4,8 6,6 6,5
Nafta, petróleo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,1
Cervejas e destilados 0,7 0,8 1,6 1,7 1,3 1,0 0,8 0,4 0,2 0,6
Alimentos 2,8 4,0 3,4 2,3 2,7 0,9 1,3 1,4 1,6 1,6
Couro e selarias 0,3 0,5 1,1 2,9 1,3 2,4 2,9 3,1 3,8 3,4
Total 91,4 88,1 86,9 86,3 87,8 86,9 88,3 87,9 88,3 84,6

Fonte: Reino Unido (1856-1895). Annual Statement of the Trade of the United Kingdom with
Foreign Countries and British Possessions. UK. Parliamentary Papers. Londres: H.M.S.O.,
1856-1895.

16 Osdados de produção são de Stein (1979, p.191). Os valores da produção (2.116.000) mil de réis foram
convertidos em (213.824) libras pela taxa de câmbio de Abreu et al (2022, p. 261) e dividido pelos metros
(3.586.000) produzidos, resultando em um preço de 0,059 libras por metro em 1866. Os dados de
importação são do Reino Unido (1856-1895). Os valores de importação (2.888.091) libras foram
divididos pelos metros (135.491.537) transformados de jardas (148.240.194) originais das importações,
resultando em um preço de 0,021 libras por metro em 1867.

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

Assim, parece correta, em parte, a afirmação de Bulmer-Thomas (2014, p. 154) de que


mesmo com alta taxa de proteção industrial para a América Latina, a proteção foi menor
do que a necessária para desenvolver uma produção industrial persistente, não apenas
devido ao baixo nível de renda per capita e tamanho da população, já que a demanda
por produtos têxteis no Brasil foi crescente ao longo do século XIX, mas principalmente
por causa da concorrência com o produto importado britânico muito mais barato 17.
Apenas entre 1870 e 1890 que o Brasil começou a alterar a pauta de importações da
principal economia industrial do mundo, substituindo importações de têxteis do Reino
Unido pela produção interna e modernizando a economia com a importação de bens de
capital (máquinas, equipamentos, entre outros) e expansão do investimento industrial.
Na próxima seção tentamos explicar como no final do século XIX e início do século XX
foi o período de anos dourados para a indústria têxtil no Brasil e também o seu
desenvolvimento após os anos 1930.

Os anos dourados da indústria têxtil no Brasil (1880-1930) e o crescimento


relativo com perda de importância no processo de industrialização (1930-2016)
Os anos finais do século XIX, principalmente a partir da década de 1880, até o início da
Crise de 1929 foram os melhores anos para o crescimento da produção e investimento
da indústria têxtil no Brasil. O número de fusos18 da indústria têxtil de fiação brasileira
passou de 42 mil (apenas 0,1% do total mundial e 14,4% do total da América Latina)
em 1882 para 2 milhões e 775 mil fusos (1,7% do total mundial e 77,2% do total da
América Latina) em 1930, crescimento impressionante de 65 vezes (Ver Tabela 2 e
Anexo).
Para alguns autores, é nesse período que tem início o processo de industrialização do
Brasil, com significativa produção organizada por meio de fábricas e utilização de
máquinas, sendo a indústria têxtil, pioneira da industrialização em países
desenvolvidos, central nesse processo. O que explica a mudança? Quais os fatores que
levaram o Brasil a iniciar o processo de industrialização de tecidos em escala mais
significativa?

17 Para um exercício empírico com estimativas e conclusões semelhantes ver Pereira (2021, p. 331-335).
18A literatura utiliza a quantidade de fusos como medida de capacidade da indústria de produtos têxteis
de algodão, já que os fusos são os insumos de capital mais importante para a sua produção (Haber, 2002,
p.64).

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Tabela 2: Total de fusos de algodão nos principais países do mundo e na América Latina, em
quantidade, % por regiões, 1788-1930

1877-
Regiões 1788 1800 1821 1834 1852 1861 1867 1882 1913 1920 1930
Est. Unidos e Canadá 0,0 0,2 1,7 7,6 16,9 20,5 14,0 13,6 22,1 24,3 21,9
Europa 100,0 99,8 92,0 85,8 82,7 77,4 80,9 78,3 63,4 61,6 58,9
Grã-Bretanha 100,0 99,1 89,1 54,0 55,3 55,4 59,3 56,5 39,1 38,4 34,2
Ásia 0,0 0,0 0,0 3,8 0,0 1,8 4,4 7,8 12,9 12,6 17,0
África 0,0 0,0 0,0 2,2 0,0 0,0 0,5 0,0 0,0 0,0 0,0
América Latina 0,0 0,0 0,0 0,7 0,4 0,3 0,3 0,4 1,6 1,5 2,2
Argentina/ AL 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,6 1,4
Brasil/ AL 0,0 0,0 0,0 0,0 3,6 9,7 8,9 14,4 65,7 67,5 77,2
Brasil/ mundo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 1,1 1,0 1,7
México/ AL 0,0 0,0 0,0 100,0 96,4 90,3 91,1 85,6 33,0 31,9 21,3

Fonte: Tabela A.1, no Anexo.

Além das explicações mais tradicionais de consciência de uma classe de industriais com
crescente força política no final do Império e início da República para conseguir
proteção para a indústria nascente (Luz, 1978 e Stein, 1979), novas interpretações
complementam argumentos de ordem econômica, como a queda dos termos de troca
da América Latina (e Brasil) na última década do século XIX (Williamson, 2011, p. 32-
39). O termo de troca do Reino Unido caiu e da periferia pobre subiu ao longo do século
XIX até 1894, barateando os produtos manufaturados do Reino Unido e desestimulando
a produção industrial (em alguns casos promovendo a desindustrialização) em países
da periferia pobre, já que os seus produtos primários de exportação estavam
valorizados no mercado internacional19. Assim, entre 1826 e 1894, houve um
desestímulo das forças de mercado (termos de troca) para o processo de
industrialização da periferia pobre (inclusive do Brasil), devido a ampliação do
comércio, principalmente com a Inglaterra, principal produtor e exportador de fios e
tecidos de algodão do mundo no período. Para o Brasil ocorreu a reversão dos termos
de troca na última década do século XIX (Williamson, 2011, p. 35 e cap. 3, 12).
Outro ponto econômico, ligado à questão política, que merece destaque é a questão da
proteção tarifária. Há um crescimento gradual das tarifas entre 1860 e 1879, que
tornará atrativo o investimento na indústria têxtil, apesar da proteção tornar-se efetiva

19Uma explicação complementar é a própria Revolução Industrial ter início na Grã-Bretanha no século
XVIII em decorrência dos incentivos de substituir altos salários por energia e capital baratos. Segundo
Allen (2011, p.373-374), no século XVIII os altos salários relativos da economia britânica incentivaram o
investimento em máquinas que poupavam trabalho, direcionando a mudança tecnológica. Com o
aperfeiçoamento das máquinas da indústria do algodão no início do século XIX para poupar também
capital, passou a ser rentável instalar essa indústria na Europa Continental. No final do século XIX já havia
incentivo (e rentabilidade) para transferir essa indústria para o resto do mundo.

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

apenas na década de 1880 (Stein, 1979, p. 31). Na verdade, parece ser com a tarifa
Belisario (Francisco Belisario Soares de Souza, Ministro da Fazenda) de 1887 que
ocorrerá a maior mudança significativa na proteção tarifária. Por exemplo, o percentual
de razão dos tecidos sobe de 30% em 1882 para 48% em 1887 (chegará a 60% entre
1897 e 1914) e o dos fios de algodão sobe de 30% para 48% entre 1882 e 1887,
chegando a 50% entre 1897 e 1920 (Brasil. Tarifas das Alfandegas, 1860-1920;
Versiani, 1979, p. v, Tabela A-1). A tarifa média sobre manufaturas no Brasil era a mais
alta do mundo em 1913 (Williamson, 2011, p. 219) e a incidência de impostos sobre
tecidos e fios de algodão no Brasil continuará a mais alta da América Latina, muito
acima da média da Europa nos anos 1952 e 1962 (Macário, 1964, anexo III, p.96-102).
Assim, um conjunto de fatores, como consciência e força política da classe industrial,
proteção tarifária, mudança nos termos de troca e na taxa de câmbio parecem explicar
o processo de industrialização, com crescimento significativo na produção e no
investimento da indústria têxtil no final do século XIX. Além disso, o fim da escravidão
e, principalmente, a imigração em massa de europeus, decorrente dela, vai aos poucos
ampliar o mercado consumidor para produtos manufaturados, a oferta de operários,
com menor custo para a remuneração do trabalho e também empreendedores no ramo
industrial (Dean, 1971).
O período de maior crescimento da indústria brasileira de produtos de algodão foi entre
meados da década de 1880 e meados da década de 1890, quando 47 novas fábricas
foram instaladas, com número médio maior de fusos e teares que as anteriores e
algumas existentes foram expandidas, além de darem início produtos mais elaborados,
em cores, com estamparias (Suzigan, 2000, p. 147). Esse desenvolvimento da indústria
têxtil brasileira teria fim apenas com a crise de 1929. A produção anual de tecidos de
algodão do Brasil passou de 20,5 milhões de metros em 1885 para 500 milhões de
metros em 1929, atingindo esse patamar já em 1917 (Stein, 1979, p. 107, 109).
Em 1910, as estimativas mostram que o Reino Unido era o maior exportador líquido de
fios e tecidos de algodão com 81% de todas as exportações desses produtos no mundo,
muito a frente dos seguintes competidores20, como o Japão, Itália, França e Alemanha.
Os maiores importadores de fios e tecidos de algodão eram regiões da Ásia,
principalmente Índia e China, mas também da América Latina, como a Argentina, o
terceiro maior importador líquido e o Brasil, o oitavo maior importador do mundo
(Clark, 2007, p. 316).
Para o Brasil, apesar do avanço da indústria têxtil entre o final do século XIX e as
primeiras décadas do século XX, ainda havia espaço para crescer e atender a crescente
demanda do mercado interno. Uma estimativa da participação da produção interna e

20Talvez uma das questões mais interessantes sobre o desenvolvimento da indústria têxtil seja a
predominância da indústria britânica por tão longo tempo, mesmo sobrecarregada com altos custos de
produção e competindo contra competidores com baixos salários (Clark, 1987, p. 144).

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importações na oferta total entre 1866 e 1919 revela que a indústria têxtil de algodão
nacional parte de apenas 4,8% da oferta total desses produtos (produção interna e
importações) em 1866 para 86,3% em 191921. Na década de 1960, o Brasil, já era
autossuficiente (produção maior que consumo) em produtos têxteis (Cepal, 1966, p. 92;
Cepal, 1968, p. 40).
Para entender esse processo em um contexto global é necessário olhar para comércio
mundial de produtos industrializados em uma perspectiva de transferência de
tecnologia entre países. Em 1899, 40,6% do comércio mundial de produtos industriais
eram de têxteis e vestuários (9% de fios, 23,2% de tecidos e 8,4% de produtos
acabados). Em 1959, esses mesmos produtos representavam apenas 11,1% (2% de fios,
6,1% de tecidos e 3% de produtos acabados) do comércio mundial de produtos
industriais. A característica mais visível dessa mudança é explicada pela
industrialização por substituição de importações de países atrasados por meio da
difusão da tecnologia têxtil ocidental para o mundo, já que a queda do comércio de
produtos têxteis foi compensada pelo aumento de outros produtos manufaturados,
principalmente outros bens de consumo e bens de capital, devido ao aumento da renda
mundial ao longo do século XX. Assim, em 1899, a maquinaria e os equipamentos de
transportes representavam 11,8% (8% de maquinaria e 3,8% de equipamentos de
transportes) de todo o comércio mundial de produtos manufaturados, passando para
41,3% em 1959 (Rosenberg, 2006, p. 391-393).
A industrialização no Brasil, no sentido de utilização de técnicas modernas de produção
com fábricas e máquinas, avançou de forma mais significativa nos produtos têxteis,
como é comumente afirmado, que eram mais fáceis de serem produzidos por esses
métodos, mas principalmente devido à grande proporção que esses produtos
representavam na demanda (e renda) dos habitantes. Interessante que o aumento da
renda derivado do próprio processo de industrialização, limitava o crescimento dos
produtos têxteis devido à baixa elasticidade renda da demanda. De forma inversa, os
bens de capitais tinham a sua produção concentrada (80% em 1913 e 70% em 1959)
nas três maiores economias do mundo (Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha) até
meados do século XX. Esses países maiores e com industrialização mais avançada
conseguiam produzir máquinas e equipamentos em grande escala, para exportação,
sendo que outros países desenvolvidos (como Suíça e Suécia) e menos desenvolvidos
(como o Brasil) conseguiam exportar apenas máquinas e equipamentos especializados.
Isso ocorreu devido à grande diversidade dos equipamentos no setor de bens de capital
e a característica do desenvolvimento dos ramos de máquinas e equipamentos ao longo

21 Aestimativa de 1866 é baseada em dados de produção da indústria têxtil algodoeira do Brasil de Stein
(1979, p. 191) e importação de manufaturas de algodão (excluindo linhas) do Reino Unido para o Brasil
de Llorca-Jaña (2014, p. 318-320). Os valores de produção em contos de réis foram convertidos em libras
com dados da taxa de câmbio de Abreu et al (2022, p. 261). A estimativa de 1919 é baseada em Fishlow
(1977, p. 20).

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

do século XIX e XX mais adaptável à tecnologia de produção com especialização flexível


e não à produção em massa (Rosenberg, 2006, p. 390-397; Valdaliso e López, 2008, p.
146-153, 244-260, 282-289; Marson, 2017).
O Brasil ganhou participação relativa na indústria têxtil mundial até pelo menos o
terceiro quarto do século XX (passando de 1,7% em 1930 para 2,8% em 1970 do total
de fusos mundial), apesar de perda de participação relativa na América Latina a partir
de 1930, (de 77,2% para 37,3% do total de fusos da América Latina entre 1930 e 1970),
em decorrência do crescimento das indústrias da Argentina, Colômbia, Chile e Peru (ver
Tabela 3 e Anexo).

Tabela 3: Total de fusos de algodão nos principais países do mundo e da América Latina, em
quantidade, % por regiões, 1930-1970

Regiões 1930 1940 1950 1960 1970


Estados Unidos e Canadá 21,9 17,4 20,0 17,0 15,7
Europa 58,9 54,8 50,4 31,9 21,5
Grã-Bretanha 34,2 28,3 24,6 7,9 2,7
Ásia 17,0 24,9 24,3 43,5 53,6
África 0,0 0,0 0,5 1,1 1,7
América Latina 2,2 2,9 4,8 6,4 7,4
Argentina/ AL 1,4 7,7 9,3 13,0 11,1
Brasil/ AL 77,2 63,8 57,5 48,9 37,3
Brasil/ mundo 1,7 1,9 2,7 3,1 2,8
México/ AL 21,3 20,1 17,2 18,0 28,1

Fonte: Tabela A.1, no Anexo

O crescimento da indústria têxtil de algodão ao longo do século XX ocorreu com


concentração da sua produção na Ásia, que teve sua participação relativa de fusos do
mundo aumentada de 17% em 1930 para 54% em 1970, principalmente na Índia, China
e Japão. Depois de mais de dois séculos do início da Revolução Industrial dos tecidos de
algodão na Inglaterra, que iria deixar para trás a região onde a indústria teve origem,
em 2014, a Ásia concentra 82,2% (43% na China) de todo o algodão manufaturado do
mundo, sendo que apenas a China possui a metade dos fusos e teares do mundo
(Beckert, 2014, p. 382, 431).
Apesar do crescimento da indústria no contexto global, no cenário interno, a partir dos
anos 1930, o setor têxtil começou a perder participação relativa dentro da indústria
nacional, acompanhando a lógica do crescimento e da tecnologia industrial mundial,
que com o crescimento da produção industrial e da renda nacional, tendia a diminuir a
importância de setores, como os têxteis, menos sensíveis a esse crescimento. Esse
processo pode ser observado detalhadamente na Tabela 4, que mostra a evolução da
estrutura setorial industrial do Brasil entre 1920 e 2016.

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Como é possível observar na tabela, o valor da produção da indústria têxtil e confecções


(vestuário) no total da indústria de transformação passou de 35,9% em 1920 para 3,3%
em 2016. O período de maior perda de participação relativa da indústria têxtil brasileira
na indústria nacional ocorreu nos 50 anos entre 1920 e 1970 (de 35,9% para 12,7%),
permanecendo estável (12,7% a 10,6%) entre 1970 e 1990, caindo bruscamente
novamente entre 1990 e 2007 (de 10,6% para 3,7%), mas agora com importância
relativa bem menor, assim permanecendo na segunda década do século XXI.
Além do movimento natural de evolução do processo de industrialização para setores
mais complexos, outros fatores explicam a perda de importância relativa da indústria
têxtil do Brasil em meados do século XX. Em 1962 a CEPAL elaborou um extenso estudo
sobre a indústria têxtil brasileira. Um dos principais resultados foi que a indústria têxtil
representava significativa importância para a geração de renda e emprego
manufatureiro e atendia praticamente a totalidade do consumo brasileiro, sendo de
grande importância para a economia do país como um todo, mas já identificava a
relativa baixa produtividade comparada a outros países, inclusive da América Latina,
como um dos principais problemas do setor, refletindo em crescimento abaixo da
indústria de transformação, com perda de participação relativa (Cepal, 1962).

Tabela 4: Brasil - estrutura setorial da indústria de transformação, % do valor da produção,


1920-2016
Ramos 1920 1939 1949 1959 1970 1975 1980 1990 1995 2007 2016
Alimentos, bebidas e tabaco 40,2 35,7 36,5 27,6 23,0 18,2 15,5 16,5 20,3 18,7 26,9
Têxtil e confecções 35,9 27,7 23,0 16,0 12,7 10,2 10,3 10,6 7,2 3,7 3,3
Construção 0,9
Móveis 1,3 1,6 1,7 1,8 1,8 1,5 1,5 0,9 0,9 1,1 1,1
Artefatos e ornamentos 0,3
Madeira 3,8 2,8 3,4 2,6 2,3 2,2 2,0 0,7 0,7 1,2 0,9
Papel e celulose 1,8 2,0 3,0 2,4 2,3 2,7 3,3 4,2 3,3 3,4
Imprensa e publicações 2,6 2,8 2,3 2,5 2,2 1,6 1,6 2,6 0,7 0,7
Produtos químicos e farmaceuticos 7,9 9,5 8,8 12,4 14,4 17,9 21,2 20,3 20,0 11,7 12,3
Derivados de petróleo (plástico) 0,2 0,7 1,7 1,8 2,0 2,2 2,2 10,2 8,8
Borracha 0,6 1,6 2,5 1,7 1,6 1,5 1,4 1,3 3,7 3,8
Couro 2,1 1,9 1,5 1,1 0,7 0,5 0,5 0,6 0,4
Minerais não metálicos 2,4 3,7 4,5 4,5 4,2 4,0 4,2 3,1 3,2 2,8 3,0
Metalurgia 3,5 6,3 7,6 10,5 12,5 13,3 13,7 13,2 10,5 8,6 6,0
Equipamentos de transporte 1,7 3,0 2,3 6,8 8,2 9,0 7,8 9,2 12,4 13,4 9,6
Mecânica e aparelhos elétricos 2,0 3,0 6,8 10,4 13,0 12,8 14,4 12,4 7,8 6,5
Produtos de metal, eletrônicos 7,8 6,9
Outros ramos 0,1 0,9 1,2 1,3 1,6 2,3 2,7 1,9 1,6 5,3 6,9
Total 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100 100
Fonte: IBGE (1990). Estatísticas Históricas do Brasil: séries econômicas, demográficas e sociais 1550-
1988, p. 385 (Tabela 7.7) p.386 (Tabela 7.8) p. 388 (Tabela 7.12); IBGE (2007). Estatísticas do século

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

XX (para os anos de 1970 a 1995): [Link]


setoriais/[Link].; IBGE (2007-2016). Pesquisa Industrial Anual Empresa. (para os anos de
2007-2016):
[Link]
producao-industrial-segundo-secoes

A baixa eficiência da indústria tinha como consequência os preços relativamente altos


do produto, que anulavam qualquer possibilidade de competir no mercado externo,
mesmo com matéria prima e mão de obra a um custo relativamente baixo. A explicação
para a baixa produtividade da indústria brasileira de fiação e tecelagem nos anos 1960
apesar de ser múltipla, enfatizava a maquinaria antiga e desatualizada, a mão de obra
com insuficiente treinamento e a organização do trabalho e administrativa interna
deficiente (Cepal, 1962).
O tema da baixa produtividade da indústria têxtil brasileira em meados do século XX
merece um estudo específico e detalhado. No entanto, algumas observações podem ser
elaboradas. Consideramos um estudo do custo manufatureiro da indústria têxtil ao
redor do mundo no início do século XX (Clark, 1987, p. 146) e estimamos
preliminarmente com a mesma metodologia, o custo para a indústria têxtil brasileira.
As informações podem ser observadas na Tabela 5 22.
Apesar dos resultados não serem conclusivos sobre os custos do setor manufatureiro
têxtil brasileiro em 1910, dada a diversidade de informações de salários e a falta de
índices de preços, o Brasil não conseguiria atingir a eficiência da indústria têxtil da Ásia
(Tabela 5), particularmente Japão, Índia e China, países que tiveram crescimento no
início do século e principalmente depois da Segunda Guerra Mundial.

Tabela 5: Estimativa do custo da indústria têxtil ao redor do mundo, 1910, em dólares


correntes

carvão Custo manufatureiro


Região salário/semana capital/fuso (ton). (Inglaterra=100)
Nova Inglaterra 8,8 17,4 3,8 163
Estados Unidos (Sul) 6,5 17,4 3,8 133
Inglaterra 5,0 12,7 2,5 100
Alemanha 3,8 18,5 4,9 101
França 3,7 16,5 4,7 95
Suiça 3,7 24,8 6,6 118
Austro-Hungria 2,8 16,4 5,8 83
Espanha 2,7 19,3 6,5 90
México 2,6 19,3 10,0 91
Brasil 2,8 20,8 5,4 95
Rússia 2,4 20,7 7,2 90

22Os resultados da tabela devem ser observados com ressalvas. Por exemplo, apesar dos salários altos
nos Estados Unidos, as fábricas americanas empregavam duas a três vezes menos operários do que as
brasileiras (Stein, 1979, p. 228, nota 69).

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Italia 2,4 16,0 7,3 78


Portugal 1,7 17,5 7,0 73
Japão 0,8 24,6 2,6 76
Índia 0,8 17,6 5,0 60
China 0,5 16,3 3,3 52

Fonte: Adaptado de Clark (1987, p. 146).


Nota: 1- Informações e fontes para o Brasil:
a) os salários médios são das fábricas têxteis do Rio de Janeiro em 1920 (5,6 mil réis por
dia) de Versiani (1993, p. 88), deflacionado pelo custo de vida entre 1910-1920 pelo índice
de Lobo et al (1971), resultando no valor de 1,5 mil réis (US$ 0,5) por dia ou US$ 2,8 por
semana (55 horas), a preços de 1910. Os valores de salários nas fábricas têxteis do Brasil
variavam entre as regiões. Stein (1979, p. 228, nota 70) encontrou salários diários de 0,8
mil réis a 3 mil réis (entre US$ 0,27 e US$ 1) em Pernambuco e 1 mil réis a 6 mil réis (entre
US$ 0,34 e US$ 2) em fábricas do Rio em 1910.
b) consideramos o custo do capital a depreciação de 25% do montante de capital (plantas
e equipamentos) por fuso do Brasil, com dados de Stein (1979, p. 191), conforme Clark,
1987, p.147, calculou para os outros países.
c) na falta de um custo para o carvão, calculamos o custo para o Brasil como a média dos
demais países.
2- O custo manufatureiro (última coluna) foi calculado utilizando a metodologia de Clark
(1987, p.146, Tabela 1), com a seguinte proporção: (custo do salário*0,618)+(custo do
capital*0,124)+(custo do combustível*0,034), ou seja, a proporção dos custos na
Inglaterra.

Os indicadores de produtividade física (metros de tecidos produzidos por trabalhador)


da indústria têxtil brasileira desaceleram a partir de 1915, diante de 1910. A
produtividade até 1960 não atingirá o patamar de 191023. Parece que os choques
adversos das Guerras Mundiais e crise de 1929 e Grande Depressão dos anos 1930
pioraram os indicadores de produtividade geral da indústria têxtil brasileira. A
volatilidade externa no período direcionou o crescimento para o mercado interno, mas
esse fechamento da economia alterou fatores econômicos relativos que não
contribuíram para a eficiência econômica. Nos anos 1930, o setor têxtil começou a
perder participação relativa dentro da indústria brasileira (Tabela 4). Depois dos anos
1960 o custo da baixa eficiência da indústria têxtil brasileira é evidente (Cepal, 1962) e
o Brasil começou a perder participação relativa na América Latina e no mundo (Tabela
3 e A.1, no Anexo), principalmente diante de competidores da Ásia.

23A produtividade foi calculada com base nos dados de Stein (1979, p. 191) e Cepal (1962, p. 15). Em
1910, um trabalhador da indústria têxtil brasileira produzia em média 6,9 mil metros de tecidos. Em
1960 produzia 6,5 mil metros em média. Os piores anos, para os quais temos dados, foram 1926 (3,1 mil
metros por trabalhador) e 1929 (3,9 mil metros).

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As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e
de longo prazo

Conclusões
Ao longo do trabalho tentamos apresentar as origens e evolução da indústria têxtil no
Brasil, demonstrando o seu atraso relativo até o final do século XIX e depois o seu
desenvolvimento. O que parece explicar esse atraso no período colonial é a própria
característica de uma economia extrativa, com pequena população localizada em partes
específicas do território. Em alguns lugares desenvolveu-se uma produção artesanal e
depois manufatureira. Os interesses de Portugal naturalmente eram atendidos diante
do contexto colonial, no qual o desenvolvimento da produção têxtil tinha um limite, com
o comércio de bens produzidos na Metrópole. É interessante notar que muitas vezes os
bens produzidos no Brasil não eram concorrentes com os estrangeiros, dado a sua
finalidade e qualidade, sendo que a produção local conviveu relativamente de forma
harmoniosa com o comércio de importação pelo menos até meados do século XIX.
Essa característica parece que é intensificada com a abertura dos portos em 1808.
Nesse período a Inglaterra já dominava a produção fabril de fios e tecidos de algodão e,
com a sua crescente produtividade econômica e política externa, iria dominar o
comércio de têxteis mundial ao longo de todo o século XIX e início do século XX. O Brasil
foi peça nessa engrenagem econômica, sendo ainda um dos principais importadores de
produtos têxteis de algodão no início do século XX. Ao longo do século XIX há uma
continuidade na dependência de produtos importados têxteis para atender a demanda
nacional, principalmente dos produtos mais elaborados, devido à grande
competividade e ao preço dos produtos britânicos. A indústria local se desenvolveu de
forma esparsa e não necessariamente contínua, em algumas localidades e momentos
em que essa competividade era bloqueada, devido à dificuldade com transportes,
proteção tarifária indireta e demandas específicas.
No final do século XIX um conjunto de fatores favoreceu o arranque da indústria têxtil
brasileira, como a formação de uma classe de industriais, aumento na proteção tarifária,
mudança nos termos de troca e desvalorização da taxa de câmbio, aumento do mercado
consumidor e oferta de mão de obra com a imigração entre outros fatores. Entre o final
do século XIX e o início do século XX a indústria têxtil cresceu em importância no
contexto global e latino americano, mas já na década de 1930 dava sinais de
desaceleração, em decorrência da baixa produtividade em comparação global,
evidenciado com certeza nos anos 1960, pelo aumento da competitividade de outras
regiões da América Latina e especialmente da Ásia, a última região inclusive superando
a produção têxtil dos Estados Unidos e Europa, sobretudo da Grã-Bretanha.

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Michel Deliberali Marson

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Recibido: 15/09/2023
Evaluado: 15/11/2023
Versión Final: 13/01/2024

páginas / año 16 – n° 41/ ISSN 1851-992X /2024


As origens e evolução da indústria têxtil no Brasil: uma perspectiva global e de longo prazo
Michel Deliberali Marson
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DOI: 10.35305/rp.v16i41.878

Tabela A.1 - Estimativa - total de fusos de algodão nos principais países do mundo e da América Latina, em milhares, 1788-1970
1788 1800 1821 1834 1852 1861 1867 1877-1882 1913 1920 1930 1940 1950 1960 1970

Grã-Bretanha 1.941 3.400 7.000 10.000 18.000 31.000 34.000 44.207 55.576 58.692 55.207 42.100 29.580 9.710 3.486
EstadosUnidos 8 130 1.400 5.500 11.500 8.000 10.600 30.579 35.834 34.025 24.750 22.995 19.956 19.559
Canadá 855 1.200 1.277 1.159 1.121 817 755
França n.d. n.d. 500 2.500 4.500 5.500 6.800 5.000 7.400 9.400 10.250 9.783 8.148 5.802 3.588
Alemanha n.d. 22 224 626 900 2.235 2.000 4.700 10.920 9.400 11.070 10.236 6.535 7.059 5.937
Suíça n.d. 580 900 1.350 1.000 1.854 1.389 1.536 1.446 1.269 1.156 1.169 941
Bélgica n.d. 200 400 612 625 800 1.469 1.572 2.172 2.004 1.802 1.493 985
Austro-Hungria n.d. 800 1.400 1.800 1.500 1.558 4.864 1.140 817 1.093 546 576 415
Espanha n.d. 1.200 807 800 1.865 2.200 1.800 1.875 2.039 2.210 2.589 2.210
Holanda n.d 40 250 487 598 1.167 1.305 1.170 1.020 563
Itália n.d 450 880 4.580 4.515 5.342 5.483 5.566 4.611 4.121
Suécia 530 584
Portugal 110 480 482 503 469 536 1.101 1.357
Dinamarca n.d. 84
Noruega 74
Polônia 1.400 1.554 1.693 1.067 2.001 2.108
Checoslováquia 3.584 3.636 3.445 2.331 1.950 2.095
Rússia/UniãoSoviética n.d. 700 1.000 2.500 4.400 8.800 7.200 7.624 10.050 9.483 10.800 14.694
Turquia 276 793 1.545
Síria 27 128 167
Israel 45 166 308
Irã 160 561 900
Paquistão 169 1.941 3.130
Índia 1.610 6.195 6.871 8.907 9.876 10.534 13.864 17.876
China 44 964 1.400 3.829 5.071 4.000 9.600 13.900
Hong Kong 82 490 894
Taiwan 400 1.400
Indonésia 127 557
Filipinas 410 847
Tailândia 18 60 430
Coréia do Sul 305 475 902
Japão 5 8 2.414 3.814 7.045 11.880 3.906 13.218 11.632
Austrália 114 234 237 223
Egito n.d 400 280 507 1.185 1.730
África do Sul 120 198 504
Brasil 4 14 15 42 1.493 1.521 2.775 2.765 3.291 3.840 3.588
México 125 122 130 152 249 750 720 767 869 986 1.416 2.704
Argentina 9 14 52 332 531 1.019 1.070
Colômbia 20 200 358 560 649
Chile 33 175 219 403
Perú 118 148 215 265
Uruguai 93 135 180
Venezuela 60 132 287
Equador 49 88 116
El Salvador 14 32 73 127
Cuba 163 237
Total da amostra dos países 1.941 3.430 7.854 18.531 32.533 55.981 57.327 78.177 142.132 152.693 161.340 148.734 120.352 122.367 129.385
Estimativamundial 3.500 142.132 149.471 130.113

Fonte: Landes (2005), p. 224, 476; Mitchell (1992), p. 496-498; Mitchell (1983), p. 475-477; Mitchell (1998), p. 438-442; Harber (1997), p. 162-
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Nota: n.d.= não há dados, mas há informações de já possuírem fusos operando (Beckert, 2014, p. 139; Clark (2007), p. 304; Clark (1987), p. 142).
Os dados acima devem ser vistos como um esforço de estimativa. Há várias lacunas e muitas vezes os dados não são exatos e há pequenas
divergências entre as fontes. No entanto, acreditamos ser uma boa aproximação da evolução da quantidade de fusos da indústria têxtil de algodão
ao redor do mundo por quase dois séculos.

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