Evolução da Indústria Têxtil no Brasil
Evolução da Indústria Têxtil no Brasil
Resumo
A indústria têxtil foi de extrema importância para o processo de industrialização no mundo.
Esse ramo industrial foi o primeiro a se mecanizar em regiões da Europa, promovendo um
impulso de ganhos de produtividade que alterou a perspectiva de produção e consumo antes
conhecida, e para alguns, possibilitou a ruptura necessária para o desenvolvimento
econômico. A indústria têxtil no Brasil, devido a sua importância para o processo de
industrialização, foi relativamente bem estudada. No entanto, faltam trabalhos que a
coloquem em perspectiva global, comparando com o desenvolvimento de outras regiões do
mundo. O objetivo do artigo é promover uma análise da indústria têxtil no Brasil em
perspectiva comparativa mundial, desde o início do processo de industrialização em regiões
da Europa até meados do século XX, quando a indústria têxtil no Brasil atingiu o seu apogeu
em importância para o processo de industrialização.
Abstract
The textile industry was extremely important for the industrialization process in the world.
The textile industry was the first to mechanize in regions of Europe, promoting a boost in
productivity gains that changed the perspective of production and consumption previously
known, and led to economic development. The textile industry in Brazil, due to its importance
to the industrialization process, has been relatively well studied. However, there is a lack of
studies that place it in a global perspective, comparing it with the development of other
regions of the world. The objective of the article is to promote an analysis of the textile
industry in Brazil in a world-wide comparative perspective, from the beginning of the
industrialization process in regions of Europe until the mid-twentieth century, when the
textile industry in Brazil reached its peak in importance for the process of industrialization.
Introdução
A indústria têxtil foi de extrema importância para o processo de industrialização no
mundo. Esse ramo industrial foi o primeiro a se mecanizar em regiões da Europa,
promovendo um impulso de ganhos de produtividade que alterou a perspectiva de
produção e consumo antes conhecida, e para alguns, possibilitou a ruptura necessária
para o desenvolvimento econômico1. Apesar da produção de fios e tecidos ser milenar 2,
foi na Inglaterra que teve início, no final do século XVIII, a produção em grande escala,
por meio de novas máquinas e pelo sistema de fábricas, que tornaram o processo mais
eficiente, expandindo para a Europa e América do Norte posteriormente,
principalmente no século XIX. Por esse motivo, até a segunda década do século XX, a
indústria de tecidos de algodão era o maior setor manufatureiro do mundo3.
As consequências desse processo de mecanização da indústria têxtil foram sentidas ao
redor do mundo, com o barateamento dos produtos produzidos e o domínio desses
países pioneiros, principalmente da Inglaterra, sobre o comércio de fios e tecidos de
algodão ao longo do século XIX. A produção de tecidos no Brasil teve início no período
colonial, mas sua produção manufatureira desenvolveu, principalmente, a partir do
final do século XIX. O que explica esse atraso relativo do desenvolvimento industrial
têxtil no Brasil? Esse fenômeno explica ou é explicado, ao menos em parte, pelo atraso
econômico relativo do país ao longo do século XIX? No Brasil, como nos países
desenvolvidos, o ramo têxtil foi o primeiro a se mecanizar, sendo o responsável pela
maior contribuição para o processo de industrialização no final do século XIX e início
do século XX.
A indústria têxtil no Brasil, devido a sua importância para o processo de
industrialização, foi relativamente bem estudada4. No entanto, faltam trabalhos que a
coloquem em perspectiva global, comparando com o desenvolvimento de outras
regiões do mundo. Também, uma boa parte dos trabalhos foca em períodos específicos,
deixando uma lacuna para entender a sua evolução no longo prazo.
O objetivo do artigo é promover uma análise da indústria têxtil no Brasil em perspectiva
comparativa mundial, entre o início do processo de industrialização em regiões da
1 A literatura sobre o assunto é extensa. Para um resumo ver Mark Koyama e Jared Rubin (2022).
2 Ver Wayland Barber (1993) apud St Clair (2018, p. 6).
3 Gregory Clark (2007, p. 315) estimou o valor da produção mundial de tecidos de algodão em US$ 1,6
bilhões correntes em 1910, permanecendo como o maior setor manufatureiro do mundo até 1918. Para
efeito de comparação, o setor automobilístico dos Estados Unidos torna-se o mais importante da
indústria do país em valor adicionado e exportações em meados dos anos 1920 (Valdaliso; López, 2008,
p. 315). Em 1917, o valor de produção de automóveis nos Estados Unidos é estimado em US$ 996,7
milhões (Yáñezr; Badia-Miró, 2011, p. 324), que produziam três vezes mais automóveis (estimativa de
US$ 330 milhões) do que o resto do mundo em 1916, já que a Europa não adere a era do automóvel antes
da década de 1920 (Frieden, 2008, p. 78). Assim, as estimativas de produção de tecidos de algodão (US$
1,6 bilhões) em 1910 são superiores as estimativas de produção de automóveis (US$ 1,3 bilhões) em
1917.
4 Ver Stein (1979), Versiani (1979), Haber (1997), Libby (1997), Suzigan (2000) e Delson (2016).
Europa e meados do século XX, quando a indústria têxtil no Brasil atingiu o seu apogeu
em importância para o processo de industrialização e sua perda de importância até o
início do século XXI. As questões específicas sobre o tema serão a importância da
difusão tecnológica, política de comércio exterior e demais políticas econômicas. Para
tanto, a literatura sobre o assunto será revisitada, colocando em perspectiva de
contribuição ao longo dos vários períodos importantes para a indústria têxtil no Brasil.
A próxima seção examina a evolução dos manufaturados têxteis no período colonial. A
terceira seção apresenta as razões e dificuldades do desenvolvimento da indústria têxtil
no Brasil, após a independência até o final do século XIX, diante da concorrência dos
importados britânicos. A quarta seção é a principal contribuição empírica para a
literatura sobre a indústria têxtil no Brasil. Apresenta uma estimativa da indústria têxtil
no Brasil em relação ao mundo e discute fatores relevantes para sua expansão no final
do século XIX e sua perda de importância nas últimas décadas do século XX e início do
século XXI. A última seção resume as principais conclusões do artigo.
5O Alvará de 1785 proibia o desenvolvimento das manufaturas têxteis nas Capitanias do Brasil colonial,
com exceção de tecidos grossos de algodão para vestuário de negros e enfardamento de demais produtos.
A justificativa do alvará é que o desenvolvimento das fábricas e manufaturas têxteis desviava a escassa
oferta de trabalho da lavoura e da mineração.
mercantil para atender o mercado interno e também o Brasil com forte crescimento da
produção no final do século XVIII e início do século XIX. Com importação de matéria
prima do Báltico, já que com o crescimento da produção o linho produzido em Portugal
não era suficiente para a indústria artesanal, sua principal presença era notada no
distrito de Viana do Castelo e no Porto em meados de 1800. Apesar da concentração na
região Noroeste, há presença da indústria do linho também na Estremadura, Trás-os-
Montes, Alentejo e na Beira. A produção de lã no século XVIII em Portugal remontava a
uma tradição de produção artesanal desde o século XV, com concentração na Beira,
especialmente em Covilhã, que atuava como coordenadora da indústria caseira das
zonas rurais, e no Alentejo, especialmente Portalegre e vila de Redondo, com
polarização da capacidade de trabalho local por parte das oficinas urbanas. A produção
de lã, estamparia de algodão e seda se desenvolveu também na região de Lisboa (Real
Fábrica do Rato). A produção de seda se desenvolveu na Comarca de Moncorvo, Cachim
e de Freixo de Espada à Cintra e também em Bragança. Essas regiões produziam
veludos, tafetás e cetins para o Brasil e outras regiões (Costa; Lains e Miranda, 2014, p.
239-240, 244).
Ao longo do século XVIII Portugal promoveu políticas de estímulo à produção
industrial. Apesar do balanço da historiografia sobre os estímulos estatais no período
de D. João V (no caso dos têxteis com a construção da Real Fábrica das Sedas do Rato,
em Lisboa, em meados de 1730 e depois reformada) ser inconclusivo, a promoção da
substituição de importações e a introdução de técnicas inovadoras e, em geral,
dominadas por investidores estrangeiros é evidente com as políticas do conde de
Oeiras, futuro marquês de Pombal (1755-1777). No caso dos têxteis ocorreu a fundação
de lanifícios em Portalegre e Cascais, com a participação de técnicos franceses, a Real
Fábrica de Panos de Covilhã e a Real Fábrica de Lanifícios de Portalegre (Costa; Lains e
Miranda, 2014, p. 240-242).
Não se deve subestimar a indústria, especialmente de linho, estamparia de algodão, lã,
seda, de Portugal entre o final do século XVIII e início do século XIX e o contexto do
comércio ultramarino, principalmente o colonial com o Brasil, para a sua manutenção6.
Nas estatísticas das Balanças de Comércio de Portugal, as suas exportações de
manufaturados “produtos de fábricas do Reino”, incluindo tecidos manufaturados em
Portugal, para o Brasil era maior do que a reexportação (de outras localidades) por
Portugal de tecidos (linho, lã e seda7) entre 1796 a 1831 (com exceção de 1806 a 1808).
6 Entre 1796-1806, as manufaturas correspondiam a 35,6% do total das exportações de Portugal, sendo
mais de 90% das exportações de manufaturas para o Brasil. Os produtos exportados incluíam
estamparias de algodão e panos de linho, chapéus e ferragens. Depois da Independência do Brasil, as
manufaturas de Portugal representavam entre 1825-1831 apenas 16,8% do total das exportações e 4%
do total das exportações em 1850 (Costa; Lains e Miranda, 2014, p. 297-298).
7 As importações de tecidos de algodão estrangeiros eram proibidas em Portugal até o Tratado de
Comércio com a Inglaterra em 1810. A partir de 1811, Portugal reexportou manufaturados de algodão
ingleses, mas em uma proporção média pouco significante (6%) dos tecidos de linho, próxima aos tecidos
Como é possível verificar pelo Gráfico 1, depois de um pico em entre 1798 e 1799,
ambas as variáveis voltam para a sua média anterior até cerca de 1805, para as
exportações de produtos manufaturados e em 1807, para os tecidos reexportados.
Com o bloqueio continental realizado por Napoleão em 1806 e os eventos que forçaram
a partida da corte portuguesa para o Brasil e a abertura dos portos em 1808 ocorreu
um impacto significativo para as exportações (e reexportações) portuguesas para o
Brasil. É interessante notar os detalhes do comércio exterior do período. Para os tecidos
reexportados de Portugal para o Brasil, foi o linho que sustentou a manutenção dos
valores até 1807, e depois ensaiou uma recuperação até 1818. Os tecidos de lã e seda
nunca voltaram a representar significativas reexportações de Portugal para o Brasil
depois de 1806. Possivelmente, com a abertura dos portos e o fim do exclusivo colonial,
a demanda por tecidos de lã seria atendida diretamente pela Inglaterra (e outros
países), e também responsável pela queda das reexportações de linho por Portugal
devido à concorrência dos tecidos de algodão e também linho no final da década de
1810 e início de 1820.
Fonte: Alexandre (1986, p. 44), Weber (2008, p. 520-521). Nota: Os dados de tecidos
reexportados são a soma de lanifícios, linifícios e seda e foram retirados de Weber (2008, p.
520-521) que transcreve a Balança de Comércio de Portugal entre 1796 a 1831. Os dados de
produtos manufaturados para o Brasil são de Alexandre (1986, p. 44). A retificação inclui entre
os “produtos das fábricas do Reino”, produtos industrializados que estavam discriminados em
outras categorias, como “lanifícios”, “linifícios”, “sedas”, “metais” e “vários gêneros”.
Fonte: Alexandre (1986, p.12-20, 31-38, 44); Pedreira (1987, p. 577,579,580); Pedreira
(2000, p. 847).
8 O Tratado de Methuen (1703), que estabeleceu livre entrada de produtos ingleses em Portugal,
desfavorecendo a indústria têxtil, principalmente de lã (já que a produção de tecidos de algodão não era
importante na Europa no período), em troca da paridade tarifária do vinho português com o francês no
mercado inglês. Com Pombal, em meados do século XVIII, ocorreu uma reação ao sistema com a
substituição de importações de produtos têxteis tanto na metrópole como na colônia.
produção de manufaturas no Brasil houve uma tentativa mal sucedida, sob Pombal, em
1766, de reduzir a produção têxtil brasileira, já vista como uma ameaça à produção
industrial metropolitana. No entanto, Delson (2016) afirma que a legislação de 1785
não destruiu a manufatura têxtil brasileira, já que os dados disponíveis após 1785
mostram que a produção e comércio de têxteis continuaram inabaláveis na maior parte
da colônia. Outro assunto importante discutido é se o aumento das exportações de
algodão bruto para a Inglaterra, em decorrência da Revolução Industrial, no final do
século XVIII, teria limitado o desenvolvimento da manufatura têxtil de algodão
brasileira pela falta de algodão para atender as duas partes do mercado ao mesmo
tempo. Delson (2016) afirma que o aumento das exportações de algodão bruto não
parece ter ameaçado a produção brasileira (Delson, 2016, p. 90-92).
Apesar de ser difícil responder com exatidão quais foram os efeitos na produção
brasileira de manufaturados têxteis no período colonial, parece que as alterações nas
políticas de comércio e relações técnicas tiveram impacto na evolução da manufatura
têxtil nacional. As mudanças possivelmente limitaram o desenvolvimento da
manufatura de têxteis brasileira, diante dos principais produtos que produzia e do tipo
de mercado que atendia, conforme veremos na próxima seção.
9 Os artesãos britânicos foram autorizados a trabalhar fora do país apenas em 1825 e as exportações de
máquinas foram desregulamentadas em 1842 (Clark, 2007, p. 303), mas antes disso era importante o
contrabando de máquinas e a imigração, mesmo não autorizada de artesãos (ver Landes, 2005, p. 152-
153, nota 35).
10 Para Beckert (2014, p. 142-154, 161) a formação do mapa da expansão da mecanização do algodão
manufaturado ao redor do mundo ao longo do século XIX é decorrente de uma história prévia com a
manufatura têxtil, disponibilidade de capital, máquinas e tecnologia e capacidade do estado de criar uma
estrutura para o desenvolvimento do empreendimento na região. Sobre a importância de produzir a
matéria prima, ver Suzigan (2000, p. 129-130), que reforça ainda outros fatores importantes para o
desenvolvimento da indústria a partir de meados do século XIX como a demanda crescente por vestuário
e sacaria para os produtos de exportação, mão de obra barata, apesar de não treinada e proteção da
concorrência estrangeira, inicialmente com elevados impostos de importação e no final do século XIX
com também desvalorização cambial. Sobre a transferência de capital com o fim do tráfico de escravos
ver Lobo (1978, p. 171) e Soares (2002, p.302), Stein (1979, p. 23) e Suzigan (2000, p. 137).
11 Para uma abordagem recente sobre o comércio entre Brasil e Grã-Bretanha e os efeitos da proteção
nos anos iniciais da década de 1870 até 1890, devido à predominância dos tecidos
importados. O desenvolvimento da produção têxtil artesanal até meados do século XIX
não resultou em um processo de industrialização, já que a produção das fábricas do
final do século XIX parece ser menor do que no início do século, com a indústria
doméstica (Libby, 2002, p. 274-280). Apesar da queda da indústria têxtil doméstica
devido à concorrência dos importados ingleses baratos e fábricas brasileiras a partir da
década de 1860, a sua produção parece ter sobrevivido até a Primeira Guerra Mundial
(Martins, 2018, p. 234-237).
Já para Stein (1979) a expansão do comércio, especialmente com a Grã-Bretanha,
favorecida por acordos preferenciais até 1843, prejudicou tanto a indústria artesanal
como a manufatureira no Brasil, sendo que o pequeno desenvolvimento de empresas
no início do século XIX teve fim por volta de 1830, com o aumento de manufaturas
importadas. Apesar de ter sobrevivido até o final do século, a produção caseira teve
queda na produção a partir de 1850, em consequência do progresso industrial europeu,
com a melhora das máquinas e eficiência de produção refletindo na queda do custo,
tornando a produção caseira de tecidos de algodão não lucrativa. Com relação às
fábricas de tecidos de algodão, em 1861 foi possível verificar a existência de apenas
nove empresas, sendo as principais a Todos os Santos, na Bahia e a Santo Aleixo, no Rio
de Janeiro, fundadas na década de 1840 (Stein, 1979, p. 22; 28).
Assim, a grande dificuldade para o desenvolvimento da indústria têxtil, em termos
modernos, com fábricas e máquinas, em uma região como o Brasil ao longo do século
XIX teria sido a concorrência com a potência industrial e diplomática britânica. Apesar
do incipiente tamanho do mercado consumidor, a demanda não parece ter sido um
limitador do desenvolvimento industrial têxtil no Brasil 12. Essa característica fica clara
quando é verificada a pauta de importações do Brasil ao longo do século XIX. As
manufaturas de algodão representavam cerca de um terço (média de 30%) de todas as
importações do país entre 1841 e 1873, caindo para 9,4% em 1901 (Abreu et al, 2022,
p.160). Havia, assim, demanda para os produtos manufaturados de algodão, refletida
na grande proporção que esses produtos representavam nas importações brasileiras,
sendo o principal problema concorrer com as importações estrangeiras
(principalmente britânicas) baratas.
Em 1837, Raimundo José da Cunha Matos, analisando as manufaturas em Minas Gerais,
no interior do Brasil, afirmou que,
12 Sobre o argumento de falta de demanda para o desenvolvimento industrial no Brasil ver Prado (1991).
Outro argumento parecido, é que a baixa renda per capita atrasou o desenvolvimento industrial no Brasil
(ver Bulmer-Thomas, 2014, p. 145-146). Nesta mesma linha, para uma abordagem geral para o pequeno
mercado da América Latina (e o Brasil) para o comércio britânico na primeira metade do século XIX (ver
Platt, 1972, cap. 1).
13A queda dos preços dos produtos de algodão ocorreu devido ao rápido crescimento da produtividade,
já que as primeiras máquinas de fiação aumentaram a produção por hora de trabalho em
aproximadamente 400 vezes entre 1750 e 1825. Na Índia, para fiar cem libras de algodão cru eram
necessárias 50.000 horas de trabalho em 1750. Na Inglaterra, utilizando a spindle mule em 1790, para o
mesmo montante de produção eram necessárias 1.000 horas de trabalho. Com o aperfeiçoamento das
máquinas, em 1825, eram necessárias apenas 135 horas de trabalho. A queda no preço é explicada pelo
aperfeiçoamento dos equipamentos, mas também pelo aumento da quantidade de trabalho (média de
horas de trabalho de 2.760 em 1750 para 3.115 em 1800 e 3.366 em 1830) e um menor salário, pelo
menos até 1850 (Acemoglu; Johnson, 2023, p. 180-181).
Gráfico 3: Preço médio (libras esterlinas por jardas) das exportações de tecidos de algodão do
Reino Unido para o Brasil, 1815-1828; 1851-1895 e Cone Sul (Argentina, Chile e Uruguai),
1815-1875.
Fonte: Reino Unido (1812-1828). Ledgers of exports of British merchandise under countries.
Londres: The National Archives; Reino Unido (1856-1895). Annual Statement of the Trade of the
United Kingdom with Foreign Countries and British Possessions. UK. Parliamentary Papers.
Londres: H.M.S.O.; Llorca-Jaña (2014), p. 312-313; 317-318.
Com relação ao mercado consumidor, em 1850, mais da metade dos tecidos de algodão
produzidos no Reino Unido foi exportado. Entre 1820 e 1850, Ásia e América Latina
constituíram os mercados de exportação com o mais rápido crescimento (Beckert,
2014, p. 165). O Brasil representou em média 7,4% de todas as exportações de tecidos
de algodão do Reino Unido entre 1815 e 1879, um mercado considerável, já que o Cone
Sul (Argentina, Chile e Uruguai) apresentou média de 4,3% e o México 1,3%. Na
América, o Reino Unido exportou mais tecidos de algodão apenas para os Estados
Unidos, que tiveram uma participação média de 10,2% entre 1815-1879. No entanto,
ao longo desses anos o Brasil tornou-se o maior mercado das Américas em alguns
períodos específicos, como no final dos anos 1830 até meados dos anos 1840 e na
segunda metade dos anos 1870 (Llorca-Jaña, 2014, p. 318-320). A evolução das
exportações de manufaturas de algodão do Reino Unido para o Brasil entre 1815 e 1879
pode ser examinada no Gráfico 4. Houve uma evolução crescente das exportações de
páginas / año 16 – n° 41/ ISSN 1851-992X /2024
Michel Deliberali Marson
manufaturas de algodão do Reino Unido para o Brasil, com crescimento rápido a partir
de meados do século XIX14.
Assim, tudo indica que, até o terceiro quarto do século XIX, a manufatura e indústria
brasileira de algodão teve muita dificuldade para se desenvolver devido à concorrência
com os produtos ingleses importados. O Brasil teria falhado em desenvolver a sua
própria indústria mecanizada de tecido de algodão. A industrialização dos produtos de
tecidos de algodão teve que esperar até os anos 1880 (Beckert, 2014, p. 170).
Fonte: Llorca-Jaña (2014, p. 318-320). Nota: os valores em libra esterlina foram deflacionados
pelo índice de preços por atacado do Reino Unido.
14 Para uma abordagem detalhada entre 1815 e 1860 ver Pereira (2021, p. 324-331, especialmente Figura
4).
15 Os valores para manufatura de algodão no Gráfico 5 e da Tabela 1 apesar de serem de fontes diferentes
são compatíveis e compráveis. As fontes primárias dos valores de 1815-1879 (Gráfico 5) são os Ledgers
of exports of British merchandise under countries, e de 1851-1895 (Tabela 1) são os Annual Statement of
the Trade of the United Kingdom with Foreign Countries and British Possessions.
Tabela 1: Exportações do Reino Unido para o Brasil, por tipo de produto, em valor real
declarado, em %, 1851-1895
Produto 1851 1855 1860 1865 1870 1875 1882 1885 1890 1895
Manufatura de
algodão 57,3 51,8 53,1 50,1 51,9 50,9 47,7 46,3 39,9 37,4
Manufatura de lã 12,7 9,6 5,8 8,1 7,8 7,1 4,8 5,6 4,6 5,3
Manufatura de linho 8,4 6,4 4,8 7,0 4,2 3,0 1,7 1,8 1,6 1,5
Manufatura de seda 0,7 1,0 0,7 0,2 0,3 0,5 0,0 0,0 0,2 0,3
Manufatura de juta 0,0 0,0 0,0 0,0 0,8 1,1 2,5 2,7 1,6 3,2
Máquinas 0,7 1,3 2,1 1,3 2,8 3,0 6,1 7,9 8,6 8,5
Ferramentas 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,5 1,1 1,1 2,0
Ferragens e
cutelarias 3,1 4,2 2,8 4,5 4,4 4,1 3,9 2,6 1,8 1,7
Carruagens, ferrovias 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,5 1,0 1,4
Metais 4,0 7,3 9,5 5,9 7,4 8,5 12,5 9,8 15,6 10,9
Carvão e direvados 0,7 1,2 2,0 2,3 2,9 4,3 3,0 4,8 6,6 6,5
Nafta, petróleo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,1
Cervejas e destilados 0,7 0,8 1,6 1,7 1,3 1,0 0,8 0,4 0,2 0,6
Alimentos 2,8 4,0 3,4 2,3 2,7 0,9 1,3 1,4 1,6 1,6
Couro e selarias 0,3 0,5 1,1 2,9 1,3 2,4 2,9 3,1 3,8 3,4
Total 91,4 88,1 86,9 86,3 87,8 86,9 88,3 87,9 88,3 84,6
Fonte: Reino Unido (1856-1895). Annual Statement of the Trade of the United Kingdom with
Foreign Countries and British Possessions. UK. Parliamentary Papers. Londres: H.M.S.O.,
1856-1895.
16 Osdados de produção são de Stein (1979, p.191). Os valores da produção (2.116.000) mil de réis foram
convertidos em (213.824) libras pela taxa de câmbio de Abreu et al (2022, p. 261) e dividido pelos metros
(3.586.000) produzidos, resultando em um preço de 0,059 libras por metro em 1866. Os dados de
importação são do Reino Unido (1856-1895). Os valores de importação (2.888.091) libras foram
divididos pelos metros (135.491.537) transformados de jardas (148.240.194) originais das importações,
resultando em um preço de 0,021 libras por metro em 1867.
17 Para um exercício empírico com estimativas e conclusões semelhantes ver Pereira (2021, p. 331-335).
18A literatura utiliza a quantidade de fusos como medida de capacidade da indústria de produtos têxteis
de algodão, já que os fusos são os insumos de capital mais importante para a sua produção (Haber, 2002,
p.64).
Tabela 2: Total de fusos de algodão nos principais países do mundo e na América Latina, em
quantidade, % por regiões, 1788-1930
1877-
Regiões 1788 1800 1821 1834 1852 1861 1867 1882 1913 1920 1930
Est. Unidos e Canadá 0,0 0,2 1,7 7,6 16,9 20,5 14,0 13,6 22,1 24,3 21,9
Europa 100,0 99,8 92,0 85,8 82,7 77,4 80,9 78,3 63,4 61,6 58,9
Grã-Bretanha 100,0 99,1 89,1 54,0 55,3 55,4 59,3 56,5 39,1 38,4 34,2
Ásia 0,0 0,0 0,0 3,8 0,0 1,8 4,4 7,8 12,9 12,6 17,0
África 0,0 0,0 0,0 2,2 0,0 0,0 0,5 0,0 0,0 0,0 0,0
América Latina 0,0 0,0 0,0 0,7 0,4 0,3 0,3 0,4 1,6 1,5 2,2
Argentina/ AL 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,6 1,4
Brasil/ AL 0,0 0,0 0,0 0,0 3,6 9,7 8,9 14,4 65,7 67,5 77,2
Brasil/ mundo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 1,1 1,0 1,7
México/ AL 0,0 0,0 0,0 100,0 96,4 90,3 91,1 85,6 33,0 31,9 21,3
Além das explicações mais tradicionais de consciência de uma classe de industriais com
crescente força política no final do Império e início da República para conseguir
proteção para a indústria nascente (Luz, 1978 e Stein, 1979), novas interpretações
complementam argumentos de ordem econômica, como a queda dos termos de troca
da América Latina (e Brasil) na última década do século XIX (Williamson, 2011, p. 32-
39). O termo de troca do Reino Unido caiu e da periferia pobre subiu ao longo do século
XIX até 1894, barateando os produtos manufaturados do Reino Unido e desestimulando
a produção industrial (em alguns casos promovendo a desindustrialização) em países
da periferia pobre, já que os seus produtos primários de exportação estavam
valorizados no mercado internacional19. Assim, entre 1826 e 1894, houve um
desestímulo das forças de mercado (termos de troca) para o processo de
industrialização da periferia pobre (inclusive do Brasil), devido a ampliação do
comércio, principalmente com a Inglaterra, principal produtor e exportador de fios e
tecidos de algodão do mundo no período. Para o Brasil ocorreu a reversão dos termos
de troca na última década do século XIX (Williamson, 2011, p. 35 e cap. 3, 12).
Outro ponto econômico, ligado à questão política, que merece destaque é a questão da
proteção tarifária. Há um crescimento gradual das tarifas entre 1860 e 1879, que
tornará atrativo o investimento na indústria têxtil, apesar da proteção tornar-se efetiva
19Uma explicação complementar é a própria Revolução Industrial ter início na Grã-Bretanha no século
XVIII em decorrência dos incentivos de substituir altos salários por energia e capital baratos. Segundo
Allen (2011, p.373-374), no século XVIII os altos salários relativos da economia britânica incentivaram o
investimento em máquinas que poupavam trabalho, direcionando a mudança tecnológica. Com o
aperfeiçoamento das máquinas da indústria do algodão no início do século XIX para poupar também
capital, passou a ser rentável instalar essa indústria na Europa Continental. No final do século XIX já havia
incentivo (e rentabilidade) para transferir essa indústria para o resto do mundo.
apenas na década de 1880 (Stein, 1979, p. 31). Na verdade, parece ser com a tarifa
Belisario (Francisco Belisario Soares de Souza, Ministro da Fazenda) de 1887 que
ocorrerá a maior mudança significativa na proteção tarifária. Por exemplo, o percentual
de razão dos tecidos sobe de 30% em 1882 para 48% em 1887 (chegará a 60% entre
1897 e 1914) e o dos fios de algodão sobe de 30% para 48% entre 1882 e 1887,
chegando a 50% entre 1897 e 1920 (Brasil. Tarifas das Alfandegas, 1860-1920;
Versiani, 1979, p. v, Tabela A-1). A tarifa média sobre manufaturas no Brasil era a mais
alta do mundo em 1913 (Williamson, 2011, p. 219) e a incidência de impostos sobre
tecidos e fios de algodão no Brasil continuará a mais alta da América Latina, muito
acima da média da Europa nos anos 1952 e 1962 (Macário, 1964, anexo III, p.96-102).
Assim, um conjunto de fatores, como consciência e força política da classe industrial,
proteção tarifária, mudança nos termos de troca e na taxa de câmbio parecem explicar
o processo de industrialização, com crescimento significativo na produção e no
investimento da indústria têxtil no final do século XIX. Além disso, o fim da escravidão
e, principalmente, a imigração em massa de europeus, decorrente dela, vai aos poucos
ampliar o mercado consumidor para produtos manufaturados, a oferta de operários,
com menor custo para a remuneração do trabalho e também empreendedores no ramo
industrial (Dean, 1971).
O período de maior crescimento da indústria brasileira de produtos de algodão foi entre
meados da década de 1880 e meados da década de 1890, quando 47 novas fábricas
foram instaladas, com número médio maior de fusos e teares que as anteriores e
algumas existentes foram expandidas, além de darem início produtos mais elaborados,
em cores, com estamparias (Suzigan, 2000, p. 147). Esse desenvolvimento da indústria
têxtil brasileira teria fim apenas com a crise de 1929. A produção anual de tecidos de
algodão do Brasil passou de 20,5 milhões de metros em 1885 para 500 milhões de
metros em 1929, atingindo esse patamar já em 1917 (Stein, 1979, p. 107, 109).
Em 1910, as estimativas mostram que o Reino Unido era o maior exportador líquido de
fios e tecidos de algodão com 81% de todas as exportações desses produtos no mundo,
muito a frente dos seguintes competidores20, como o Japão, Itália, França e Alemanha.
Os maiores importadores de fios e tecidos de algodão eram regiões da Ásia,
principalmente Índia e China, mas também da América Latina, como a Argentina, o
terceiro maior importador líquido e o Brasil, o oitavo maior importador do mundo
(Clark, 2007, p. 316).
Para o Brasil, apesar do avanço da indústria têxtil entre o final do século XIX e as
primeiras décadas do século XX, ainda havia espaço para crescer e atender a crescente
demanda do mercado interno. Uma estimativa da participação da produção interna e
20Talvez uma das questões mais interessantes sobre o desenvolvimento da indústria têxtil seja a
predominância da indústria britânica por tão longo tempo, mesmo sobrecarregada com altos custos de
produção e competindo contra competidores com baixos salários (Clark, 1987, p. 144).
importações na oferta total entre 1866 e 1919 revela que a indústria têxtil de algodão
nacional parte de apenas 4,8% da oferta total desses produtos (produção interna e
importações) em 1866 para 86,3% em 191921. Na década de 1960, o Brasil, já era
autossuficiente (produção maior que consumo) em produtos têxteis (Cepal, 1966, p. 92;
Cepal, 1968, p. 40).
Para entender esse processo em um contexto global é necessário olhar para comércio
mundial de produtos industrializados em uma perspectiva de transferência de
tecnologia entre países. Em 1899, 40,6% do comércio mundial de produtos industriais
eram de têxteis e vestuários (9% de fios, 23,2% de tecidos e 8,4% de produtos
acabados). Em 1959, esses mesmos produtos representavam apenas 11,1% (2% de fios,
6,1% de tecidos e 3% de produtos acabados) do comércio mundial de produtos
industriais. A característica mais visível dessa mudança é explicada pela
industrialização por substituição de importações de países atrasados por meio da
difusão da tecnologia têxtil ocidental para o mundo, já que a queda do comércio de
produtos têxteis foi compensada pelo aumento de outros produtos manufaturados,
principalmente outros bens de consumo e bens de capital, devido ao aumento da renda
mundial ao longo do século XX. Assim, em 1899, a maquinaria e os equipamentos de
transportes representavam 11,8% (8% de maquinaria e 3,8% de equipamentos de
transportes) de todo o comércio mundial de produtos manufaturados, passando para
41,3% em 1959 (Rosenberg, 2006, p. 391-393).
A industrialização no Brasil, no sentido de utilização de técnicas modernas de produção
com fábricas e máquinas, avançou de forma mais significativa nos produtos têxteis,
como é comumente afirmado, que eram mais fáceis de serem produzidos por esses
métodos, mas principalmente devido à grande proporção que esses produtos
representavam na demanda (e renda) dos habitantes. Interessante que o aumento da
renda derivado do próprio processo de industrialização, limitava o crescimento dos
produtos têxteis devido à baixa elasticidade renda da demanda. De forma inversa, os
bens de capitais tinham a sua produção concentrada (80% em 1913 e 70% em 1959)
nas três maiores economias do mundo (Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha) até
meados do século XX. Esses países maiores e com industrialização mais avançada
conseguiam produzir máquinas e equipamentos em grande escala, para exportação,
sendo que outros países desenvolvidos (como Suíça e Suécia) e menos desenvolvidos
(como o Brasil) conseguiam exportar apenas máquinas e equipamentos especializados.
Isso ocorreu devido à grande diversidade dos equipamentos no setor de bens de capital
e a característica do desenvolvimento dos ramos de máquinas e equipamentos ao longo
21 Aestimativa de 1866 é baseada em dados de produção da indústria têxtil algodoeira do Brasil de Stein
(1979, p. 191) e importação de manufaturas de algodão (excluindo linhas) do Reino Unido para o Brasil
de Llorca-Jaña (2014, p. 318-320). Os valores de produção em contos de réis foram convertidos em libras
com dados da taxa de câmbio de Abreu et al (2022, p. 261). A estimativa de 1919 é baseada em Fishlow
(1977, p. 20).
Tabela 3: Total de fusos de algodão nos principais países do mundo e da América Latina, em
quantidade, % por regiões, 1930-1970
22Os resultados da tabela devem ser observados com ressalvas. Por exemplo, apesar dos salários altos
nos Estados Unidos, as fábricas americanas empregavam duas a três vezes menos operários do que as
brasileiras (Stein, 1979, p. 228, nota 69).
23A produtividade foi calculada com base nos dados de Stein (1979, p. 191) e Cepal (1962, p. 15). Em
1910, um trabalhador da indústria têxtil brasileira produzia em média 6,9 mil metros de tecidos. Em
1960 produzia 6,5 mil metros em média. Os piores anos, para os quais temos dados, foram 1926 (3,1 mil
metros por trabalhador) e 1929 (3,9 mil metros).
Conclusões
Ao longo do trabalho tentamos apresentar as origens e evolução da indústria têxtil no
Brasil, demonstrando o seu atraso relativo até o final do século XIX e depois o seu
desenvolvimento. O que parece explicar esse atraso no período colonial é a própria
característica de uma economia extrativa, com pequena população localizada em partes
específicas do território. Em alguns lugares desenvolveu-se uma produção artesanal e
depois manufatureira. Os interesses de Portugal naturalmente eram atendidos diante
do contexto colonial, no qual o desenvolvimento da produção têxtil tinha um limite, com
o comércio de bens produzidos na Metrópole. É interessante notar que muitas vezes os
bens produzidos no Brasil não eram concorrentes com os estrangeiros, dado a sua
finalidade e qualidade, sendo que a produção local conviveu relativamente de forma
harmoniosa com o comércio de importação pelo menos até meados do século XIX.
Essa característica parece que é intensificada com a abertura dos portos em 1808.
Nesse período a Inglaterra já dominava a produção fabril de fios e tecidos de algodão e,
com a sua crescente produtividade econômica e política externa, iria dominar o
comércio de têxteis mundial ao longo de todo o século XIX e início do século XX. O Brasil
foi peça nessa engrenagem econômica, sendo ainda um dos principais importadores de
produtos têxteis de algodão no início do século XX. Ao longo do século XIX há uma
continuidade na dependência de produtos importados têxteis para atender a demanda
nacional, principalmente dos produtos mais elaborados, devido à grande
competividade e ao preço dos produtos britânicos. A indústria local se desenvolveu de
forma esparsa e não necessariamente contínua, em algumas localidades e momentos
em que essa competividade era bloqueada, devido à dificuldade com transportes,
proteção tarifária indireta e demandas específicas.
No final do século XIX um conjunto de fatores favoreceu o arranque da indústria têxtil
brasileira, como a formação de uma classe de industriais, aumento na proteção tarifária,
mudança nos termos de troca e desvalorização da taxa de câmbio, aumento do mercado
consumidor e oferta de mão de obra com a imigração entre outros fatores. Entre o final
do século XIX e o início do século XX a indústria têxtil cresceu em importância no
contexto global e latino americano, mas já na década de 1930 dava sinais de
desaceleração, em decorrência da baixa produtividade em comparação global,
evidenciado com certeza nos anos 1960, pelo aumento da competitividade de outras
regiões da América Latina e especialmente da Ásia, a última região inclusive superando
a produção têxtil dos Estados Unidos e Europa, sobretudo da Grã-Bretanha.
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Recibido: 15/09/2023
Evaluado: 15/11/2023
Versión Final: 13/01/2024
Tabela A.1 - Estimativa - total de fusos de algodão nos principais países do mundo e da América Latina, em milhares, 1788-1970
1788 1800 1821 1834 1852 1861 1867 1877-1882 1913 1920 1930 1940 1950 1960 1970
Grã-Bretanha 1.941 3.400 7.000 10.000 18.000 31.000 34.000 44.207 55.576 58.692 55.207 42.100 29.580 9.710 3.486
EstadosUnidos 8 130 1.400 5.500 11.500 8.000 10.600 30.579 35.834 34.025 24.750 22.995 19.956 19.559
Canadá 855 1.200 1.277 1.159 1.121 817 755
França n.d. n.d. 500 2.500 4.500 5.500 6.800 5.000 7.400 9.400 10.250 9.783 8.148 5.802 3.588
Alemanha n.d. 22 224 626 900 2.235 2.000 4.700 10.920 9.400 11.070 10.236 6.535 7.059 5.937
Suíça n.d. 580 900 1.350 1.000 1.854 1.389 1.536 1.446 1.269 1.156 1.169 941
Bélgica n.d. 200 400 612 625 800 1.469 1.572 2.172 2.004 1.802 1.493 985
Austro-Hungria n.d. 800 1.400 1.800 1.500 1.558 4.864 1.140 817 1.093 546 576 415
Espanha n.d. 1.200 807 800 1.865 2.200 1.800 1.875 2.039 2.210 2.589 2.210
Holanda n.d 40 250 487 598 1.167 1.305 1.170 1.020 563
Itália n.d 450 880 4.580 4.515 5.342 5.483 5.566 4.611 4.121
Suécia 530 584
Portugal 110 480 482 503 469 536 1.101 1.357
Dinamarca n.d. 84
Noruega 74
Polônia 1.400 1.554 1.693 1.067 2.001 2.108
Checoslováquia 3.584 3.636 3.445 2.331 1.950 2.095
Rússia/UniãoSoviética n.d. 700 1.000 2.500 4.400 8.800 7.200 7.624 10.050 9.483 10.800 14.694
Turquia 276 793 1.545
Síria 27 128 167
Israel 45 166 308
Irã 160 561 900
Paquistão 169 1.941 3.130
Índia 1.610 6.195 6.871 8.907 9.876 10.534 13.864 17.876
China 44 964 1.400 3.829 5.071 4.000 9.600 13.900
Hong Kong 82 490 894
Taiwan 400 1.400
Indonésia 127 557
Filipinas 410 847
Tailândia 18 60 430
Coréia do Sul 305 475 902
Japão 5 8 2.414 3.814 7.045 11.880 3.906 13.218 11.632
Austrália 114 234 237 223
Egito n.d 400 280 507 1.185 1.730
África do Sul 120 198 504
Brasil 4 14 15 42 1.493 1.521 2.775 2.765 3.291 3.840 3.588
México 125 122 130 152 249 750 720 767 869 986 1.416 2.704
Argentina 9 14 52 332 531 1.019 1.070
Colômbia 20 200 358 560 649
Chile 33 175 219 403
Perú 118 148 215 265
Uruguai 93 135 180
Venezuela 60 132 287
Equador 49 88 116
El Salvador 14 32 73 127
Cuba 163 237
Total da amostra dos países 1.941 3.430 7.854 18.531 32.533 55.981 57.327 78.177 142.132 152.693 161.340 148.734 120.352 122.367 129.385
Estimativamundial 3.500 142.132 149.471 130.113
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Nota: n.d.= não há dados, mas há informações de já possuírem fusos operando (Beckert, 2014, p. 139; Clark (2007), p. 304; Clark (1987), p. 142).
Os dados acima devem ser vistos como um esforço de estimativa. Há várias lacunas e muitas vezes os dados não são exatos e há pequenas
divergências entre as fontes. No entanto, acreditamos ser uma boa aproximação da evolução da quantidade de fusos da indústria têxtil de algodão
ao redor do mundo por quase dois séculos.
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