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Tragédia na Fazenda Aroeira: Joca e Sávio

O conto narra a história de Joca, que após uma discussão com Sávio, um trabalhador negro, acaba sendo encontrado morto. O velho Quincas, pai de Joca, descobre a morte do filho e, sem demonstrar emoção, toma a decisão de vingar-se de Sávio, ligando o corpo do trabalhador ao cadáver do filho. A narrativa explora temas de violência, justiça e a relação entre os personagens em um ambiente rural.
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Tragédia na Fazenda Aroeira: Joca e Sávio

O conto narra a história de Joca, que após uma discussão com Sávio, um trabalhador negro, acaba sendo encontrado morto. O velho Quincas, pai de Joca, descobre a morte do filho e, sem demonstrar emoção, toma a decisão de vingar-se de Sávio, ligando o corpo do trabalhador ao cadáver do filho. A narrativa explora temas de violência, justiça e a relação entre os personagens em um ambiente rural.
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RAVINA

José Condé

No meio da discussão, Joca falou assim:


– Olha aqui, negro, arruma teus troços e vai embora. Se algum dia botares os pés aqui, mando te dar
uma pisa dos diabos!
Deu meia-volta e foi cuidar do resto do serviço. Havia um garrote para castrar, uma cerca de
avelozes que precisava ser consertada. Por volta de meio-dia, quando o sol tostava a ravina, o rapaz enxugou
o suor do rosto com o lenço vermelho, e caminhou para casa.
O pai descansava na rede do alpendre. Era um homem de mais de oitenta anos, de fala mansa, olhos
pequenos que pareciam estar sempre sorrindo, não havia vaqueiro que não gostasse de estar a seu serviço,
pois o velho Quincas era de cara franca: viúvo havia muitos anos, abrira os quartos da casa aos vaqueiros;
comiam todos sob a mesma cumeeira. Suja e velha, a moradia era um ninho de ratos e aranhas, até cobras
caíam do teto sobre as redes em que dormiam os homens. Quincas não consentia que as matassem. Para
quê? Atirassem com elas num valado, e pronto. Deus as botara no mundo; tinham tanto direito à vida quanto
os bois do curral, as palmatórias do campo, os homens que de sol a sol cuidavam da fazenda. A “Aroeira”
– era esse o nome da propriedade – possuía fama de generosidade. Em tempo de seca, quando os retirante
vinham do sertão afugentados pela fome, batava dirigirem-se ao velho Quincas para encontrarem
acolhimento. “É casa de pobre” – dizia o fazendeiro – “mas é casa de Deus. E eu não nego uma munheca
de farinha e um naco de ceará a quem é de paz...”
– Eu tive uma discussão com o negro Sávio e mandei ele embora – disse Joca ao pai.
O velho, de olhos fechados, balançando-se na rede, respondeu:
– Sávio trabalha com a gente há bem dois anos, Joca, meu filho. Ele tem mulher, dois meninos e
uma menina, e eu gosto tanto dele que dei aquela tapera do ribeirinho para ele e sua gente morar. Mas se
você dispensou os serviços do negro é porque o negro fez alguma. O feito tá feito.
– Sávio se meteu a valentão comigo, pai.
– O feito tá feito, Joca, meu filho.

***

No outro dia, Joca selou o cavalo antes do sol nascer. O velho estava no alpendre, balançando-se na
rede.
– Vou a Santa Rita, pai. Sua bênção.
Sol ardente, com a poeira se levantando sob os cascos do animal. O rapaz tinha o corpo leve, o
espírito aberto à paisagem que o envolvia no suave mistério da manhã de dezembro. Aqui nasci e me criei.
Gosto da casa, velha como está, pois meu avô nasceu sob o seu teto, meu avô e meu pai, e eu também. Cada
pedaço de caibro ou cada telha tem um pouco de mim mesmo. Gosto das reses e dos cavalos; dos
passarinhos que fazem ninho nas biqueiras. Gosto da chuva que faz nascer o pasto; não maldigo a seca,
porque Deus sabe o que faz quando deixa o mato murchar, os bichos morrerem e o coração da gente ficar
triste.
Joca passou o lenço vermelho no rosto. O cavalo bufava. Uma seriema flechou sobre a estrada.
Grande nuvem escura ameaçava o poente. Se chovesse aquele mês, a Senhora Sant’Ana mandaria inverno
grosso, os barreiros se encheriam, farto seria o pasto, o gado engordaria tanto que olhá-lo seria um prazer.
De fato, no fim dessa tarde a chuva caiu forte e braba feito bicho selvagem. Espalhou-se pela terra,
lavou a estrada velha, molhou as telhas rubras da “Aroeira”. Mas os olhos de Joca não viram a chuva; suas
narinas não aspiraram o cheiro da chuva de Deus. Aconteceu o seu cavalo voltar sozinho para a fazenda.
O velho Quincas estava no alpendre quando viu o animal aproximar-se, de cabeça pendida,
mordiscando aqui e ali algum talo de mato. Meteu o focinho numa poça d’água cavada pela chuva, depois
ergueu a cabeça e olhou a casa. Quincas pôs-se de pé. Com os diabos, que teria sucedido a Joca? Reuniu os
vaqueiros.
– Sele também meu cavalo, Inocêncio.
Na noite escura, cheia do vozerio dos sapos, os homens rumavam pela estrada velha. O corpo de
Joca foi encontrado num valado, com a cabeça arrebentada por uma bala. Haviam-lhe desaparecido o lenço
vermelho e a carteira de dinheiro. O velho Quincas não teve um gesto que demonstrasse emoção ou espanto.
Disse, apenas:
– Foi o negro Sávio. Eu quero ele antes do dia amanhecer.

***

Antes do dia amanhecer trouxeram o negro Sávio.


– Reviste o homem, Inocêncio.
O vaqueiro abriu o gibão do negro e entre o cinto e a barriga encontrou o lenço vermelho e a carteira.
– Agora vá buscar dois couros de bois – ordenou o velho.
Os couros vieram, curtidos de pouco, ainda fedendo a carniça. No rastro de Inocêncio veio também
uma chusma de moscas atraídas pelo cheiro. O sol batia nos couros e nas cabeças dos homens., ali defronte
da casa. Um cachorro surgiu ninguém sabia de onde e começou a fuçar. Espreguiçou-se, depois, no chão,
o rabo e as orelhas abanando.
– Vá buscar o cadáver, Inocêncio.
Quando veio o cadáver, botaram-no em cima do primeiro couro, de rosto para cima. Quincas
mandou que metessem o lenço vermelho dentro da boca de Sávio.
– Agora amarrem o negro ao cadáver, de frente, mãos nas mãos, pernas nas pernas. Pronto? Botem
o outro couro em cima. Trouxe a agulha, Inocêncio?
– Tá aqui, seu Quincas.
– Então costure os dois couros. Bem costurados. Pronto? Pois peguem os cavalos e carregue com
os dois para o lugar onde Joca, meu filho, foi morto.
Quando os cavalos partiram, patinando na lama negra, pegajosa, o velho Quincas atravessou o
terreiro, subiu os degraus que iam dar no alpendre e deitou-se na rede. Daí a pouco se balançava
devagarinho, como era seu costume.

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