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Surrealismo Cotidiano na Rua do Meio-Dia

Na Rua do Meio-Dia, a rotina é marcada por elementos surreais, como uma geladeira que canta ópera e uma padaria que vende sonhos em potes. Os moradores convivem com cartas que choram e remédios que vêm com poesias, enquanto o tempo e os preços mudam de forma inesperada. A vida ali é uma mistura de absurdo e beleza, onde cada esquina pode revelar algo extraordinário.
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Surrealismo Cotidiano na Rua do Meio-Dia

Na Rua do Meio-Dia, a rotina é marcada por elementos surreais, como uma geladeira que canta ópera e uma padaria que vende sonhos em potes. Os moradores convivem com cartas que choram e remédios que vêm com poesias, enquanto o tempo e os preços mudam de forma inesperada. A vida ali é uma mistura de absurdo e beleza, onde cada esquina pode revelar algo extraordinário.
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Na Rua do Meio-Dia, onde o sol para exatamente às 12h e se recusa a se mover por pelo

menos duas horas, a rotina começa sempre com o barulho de uma geladeira que canta
ópera. Ninguém sabe de onde vem a melodia — talvez da quitinete 103, onde mora o
Sr. Olavo e seu gato invisível, ou talvez da lanchonete que serve sanduíches que mudam
de sabor conforme o humor do cliente.

Na padaria da esquina, Dona Rita vende sonhos — não os doces, os reais. Estão
embalados em potes de vidro, com etiquetas escritas à mão: "Sonho de voltar no
tempo", "Sonho de voar sem cair", "Sonho que não lembro, mas me fez sorrir". Os
fregueses escolhem com cuidado. Um por dia, como recomenda o aviso colado no
caixa: “Excesso de sonhos pode causar lapsos de realidade.”

Na mesma rua, o carteiro chega sempre atrasado, mas suas cartas são pontuais. Ele anda
devagar, puxando um carrinho que chia, onde guarda correspondências que às vezes
choram, às vezes riem, às vezes explodem em confetes. Já entregou uma carta que virou
passarinho ao ser aberta, outra que falava latim fluente. “Não é minha culpa”, diz ele,
com um sorriso cansado, “as palavras escolhem suas próprias formas aqui.”

Na farmácia, os remédios não vêm com bula, mas com poesias curativas. “Contra a
ansiedade, tome este haicai antes de dormir”, diz o farmacêutico, entregando um frasco
que sussurra versos quando aberto. Há comprimidos que dissolvem culpas antigas,
xaropes que adoçam lembranças amargas, e um creme que alivia o peso dos
arrependimentos. “Tudo depende de como você lê”, explica ele. “A cura está nas
entrelinhas.”

Às terças-feiras, chove para cima. As poças se formam no céu, refletindo a cidade de


cabeça para baixo. Crianças saem com guarda-chuvas invertidos, tentando capturar as
nuvens pingadas. Os adultos fingem normalidade, como sempre. “É só o tempo testando
a gravidade”, diz alguém na fila do banco, onde os relógios andam mais rápido que o
resto do mundo e os gerentes se comunicam por interfone com o futuro.

No supermercado, as etiquetas mudam de preço se você hesita demais. Um litro de leite


pode custar R$ 4,50 às 14h, R$ 8,00 às 14h02, e estar em promoção se você sorrir
sinceramente. Os caixas leem pensamentos em vez de códigos de barras, e às vezes
oferecem desconto se a sua memória estiver muito pesada naquele dia.

E há o ônibus 39, que nunca tem horário fixo e só para se você estiver atrasado para
algo importante — quanto mais desesperado você estiver, mais certo é que ele aparece.
Mas cuidado: ele não leva para onde você quer ir, e sim para onde você precisa ir,
mesmo que não saiba disso ainda. Muitos descem em pontos que não constam no
itinerário, como “Esquina da Segunda Chance” ou “Rua do Perdão Silencioso”.

Às noites de quinta, a praça central vira palco para um espetáculo que ninguém
organiza. Bancas aparecem do nada, vendendo memórias alheias em potes de vidro,
plantas que dançam com jazz e sucos que provocam déjà-vu. Um violinista de olhos
fechados toca músicas que cada pessoa ouve de maneira diferente. Para alguns é
nostalgia. Para outros, libertação.

Os moradores da Rua do Meio-Dia já não se espantam com essas coisas. A surrealidade


faz parte do cotidiano como o cheiro de pão quente ou o barulho da chuva que conversa
com os telhados. Há beleza no absurdo, dizem, e conforto no caos poético de cada dia
que não segue roteiro.

No fim das contas, viver ali é como caminhar dentro de um sonho que respeita o
formato das calçadas. Você ainda paga contas, ainda se preocupa com o futuro, mas de
vez em quando, ao dobrar uma esquina qualquer, pode dar de cara com um amigo que
você não vê desde a infância, um espelho que mostra quem você será daqui a dez anos,
ou um banco de praça que sussurra conselhos se você sentar nele em silêncio.

E se alguém perguntar se tudo isso é real, a resposta é simples: é cotidiano demais


para ser mentira, e estranho demais para ser verdade.

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