Distância focal (3):
A imagem primária forma-se sempre no plano focal ?
Guilherme de Almeida
Este é o terceiro artigo de uma série de quatro dedicada ao conceito de distância focal, às suas implicações e ao modo
de a modificar.
A posição da imagem primária
Para os astrónomos, "os telescópios são para observar os astros e esses, à escala do telescópio, podem considerar-se
infinitamente afastados". Eis uma frase mais que óbvia, que, apesar disso, nos vai ser útil.
Ao testar o telescópio em distâncias mais curtas, evitando longos trajectos da luz no ar, ou ao observar uma estrela
artificial de modo a investigar a qualidade do instrumento de observação, sem os efeitos perniciosos da atmosfera, são
situações que se colocam. Aí as distâncias deixam de ser astronómicas.
Dado um objecto muito afastado do telescópio, a imagem desse objecto forma-se no foco do telescópio", é o que
muitas vezes se diz". No entanto, é necessário concretizar melhor essa e outras afirmações. Vejamos seguidamente alguns
aspectos importantes.
1. O que é uma distância suficientemente grande ? Será que 50 m é "uma distância suficientemente grande ? E o que
dizer de 200 m ? E de 1000 m ?
2. O foco é um ponto. É, concretamente, o ponto onde se de cruzariam os raios luminosos que chegam à objectiva
paralelos ao eixo principal do sistema óptico do telescópio (passariam todos pelo foco se o telescópio fosse perfeito).
O foco que se encontra no eixo óptico principal é o "foco principal" (o eixo óptico principal é o eixo de simetria do
sistema e também o eixo de revolução das suas superfícies ópticas) e quando se fala em "foco", apenas, é ao foco
principal que nos referimos. No entanto, a imagem de um objecto extenso não se reduz a um ponto.
3. Podemos considerar tantos eixos ópticos secundários quanto queiramos, inclinados em relação ao principal, e para
cada um deles há um foco (foco secundário). A fig. 1 ilustra este conceito para o caso de um refractor, por razões de
simplicidade, embora as conclusões sejam aplicáveis a telescópios de qualquer configuração óptica. O conjunto se
focos, o principal e o secundário, desenha uma superfície que nas vizinhança do foco principal se pode considerar
plana: é o plano focal; considerando uma região mais extensa do plano focal veremos que se encurva, geralmente com
a concavidade voltada para a objectiva: é a curvatura de campo, mais pronunciada nos instrumentos de relação focal
mais curta (nota-se mais num f/5 que num f/10).
OBJECTIVA Foco principal
Eixo principal
Eixo principal
Eixo secundário
Exemplo de um foco
Fig. 1 secundário "Plano" focal
Deslocação da imagem em relação ao plano focal, para diferentes distâncias do objecto observado
Ao fazer observações e fotografias terrestres, a imagem forma-se mais atrás, isto é, a uma distância da objectiva ( p' )
superior à distância focal (Fig. 2). Quanto mais próximo o objecto se encontrar do telescópio maior será a diferença p' – f .
Isto é válido em qualquer tipo de telescópio. Para focar a imagem, o observador vai actuar de diferentes modos:
a) Nos telescópios de distância focal fixa (reflectores de Newton, refractores), o observador actua na cremalheira ou
outro sistema de focagem, de modo a recuar a ocular (em relação À posição da ocular nas observações astronómicas.
Esse recuo vale p' – f e é tanto maior quanto mais próximo o objecto estiver. Nos telescópios catadióptricos em que a
focagem não se faça movendo um dos espelhos, a situação é precisamente a mesma.
b) Nos telescópios catadióptricos que fazem a focagem movendo o primário — solução adoptada pela maior parte dos
fabricantes — a posição da ocular é fixa. O observador terá, assim de mover o primário, deslocando-o para trás
(afastando-o ligeiramente do secundário), de modo a trazer a imagem nítida para o campo da ocular. Ao fazer isso, a
distância focal efectiva do sistema diminui. Após a focagem, a imagem primária situa-se um pouco para além do
plano focal por outras palavras, p' > f . Se a focagem se fizer movendo o secundário (solução pouco adoptada), ao
refocar a imagem também diminui a distância focal efectiva do sistema.
Determinação do recuo da imagem relativamente ao plano focal
É fácil determinar o recuo da imagem quando o objecto está relativamente próximo do telescópio. Justificaremos os
cálculos utilizados, mas os leitores que não queiram seguir todos os passos podem utilizar a fórmula final ou a tabela
incluída.
Plano focal-imagem
Objectiva
OBJECTO Foco-imagem
"NO
INFINITO"
Imagem
primária
Raios luminosos
incidentes
f
p' A
Plano focal-imagem
Foco-imagem
OBJECTO
"PRÓXIMO"
Imagem
primária
Objectiva
p' – f
f
p=nf B
p'
Fig. 2 – Distância da imagem à objectiva, para diferentes distâncias do objecto. A – objecto infinitamente afastado; B – objecto
relativamente próximo (situação muito exagerada para maior clareza).
Para o cálculo, começamos por recorrer à conhecida equação de Gauss dos pontos conjugados,
1 1 1
= + [ equação n.º1 ],
f p p'
onde f é a distância focal da objectiva, p a distância do objecto à objectiva e p' a distância entre a imagem
produzida e a objectiva (Fig. 2). Com estas indicações a equação aplica-se directamente aos refractores e aos
reflectores. No caso dos catadióptricos, para não cometer erros grosseiros f é a distância focal equivalente, a
distância p' mede-se até ao plano principal-imagem e p pode ser considerada, com razoável aproximação, entre
o objecto e a lente correctora. Na prática pode ter maior interesse conhecer p'–f (quanto é que o plano da
imagem nítida recua, para o lado do observador, em relação à posição do foco), do que conhecer o próprio p.'
Consideremos que a distância do objecto ao telescópio é medida em distâncias focais, ou seja, tomando a distância
focal do telescópio como unidade. Nestas condições podemos escrever
p=nf [ equaçãon.º 2 ], ou seja, estamos a considerar que a distância p mede n distâncias focais com valores de n
geralmente grandes. Substituindo, em seguida, a segunda equação na primeira obtém-se facilmente
1 n −1 nf
= , e consequentemente p' = [ equação n.º 3 ] .
p' nf n −1
Portanto, a imagem forma-se a uma distância da objectiva que excede a distância focal em
nf f
p'− f = − f = [ equação n.º 4 ] .
n −1 n −1
Os valores da tabela seguinte contêm alguns caso de interesse, calculados de acordo com as equações 3 e 4.
Valores de p' e de p'–f para diversos valores de p
p 10f 20f 50f 100f 200f 500f 1000f 2000f 5000f
p' 1,1111f 1,0526f 1,0204f 1,0101f 1,0050f 1,0020f 1,0010f 1,0005f 1,0002f
p'–f 0,1111f 0,0526f 0,0204f 0,0101f 0,0050f 0,0020f 0,0010f 0,0005f 0,0002f
Exemplo de consulta: num refractor de 1000 mm (1metro) de distância focal, um objecto a 200 m da objectiva produzirá uma
imagem a 1005 mm do plano principal-imagem da objectiva, ou seja 5 mm mais longe desta do que se o objecto se encontrasse
infinitamente afastado.
Guilherme de Almeida
(CTT da APAA)