Lógica na Aplicação das Normas Jurídicas
Lógica na Aplicação das Normas Jurídicas
RESUMO: O presente artigo tem por objetivo examinar o processo de aplicação das normas
jurídicas, identificando, em linhas gerais, as operações lógicas nele envolvidos. Recorrer-se-á, para
isso, à teoria geral do direito, sobretudo à teoria da norma, bem como à lógica propriamente dita, a
fim de apartar os aspectos lógicos e extralógicos que a aplicação das normas jurídicas envolve,
descrevendo-se as inferências lógicas de que se servem os argumentos e raciocínios jurídicos para
efetuação da incidência normativa. O método adotado é o dedutivo, e o procedimento é o de
pesquisa bibliográfica.
ABSTRACT: The present paper aims to examine the process by which legal norms are applied,
identifying, in general terms, the logical operations involved. A resort to general theory of law,
mainly to the theory of norms will be, thus, required, as well as to logic itself, in order to set apart
the logical and non-logical aspects that the application of legal norms involve, in order to describe
the logical inferences used in juridical arguments and reasoning. The method of approach chosen is
deductive, and the procedure is that of bibliographical research.
INTRODUÇÃO
"Todo ato criador de Direito deve ser um ato aplicador de Direito, quer dizer: deve
ser a aplicação de uma norma jurídica preexistente ao ato, para poder valer como ato da
comunidade jurídica".2 Essa consideração de Kelsen expõe de modo sintético como o autor
compreende os atos de produção e aplicação do direito: são atos que invariavelmente
procedem a partir de normas de escalão superior, seja quando estas apenas fixam a
competência para a realização do ato, seja quando delimitam materialmente o conteúdo
deste.
No caso das decisões judiciais, há, ainda de acordo com Kelsen, a criação de normas
individuais cujo conteúdo é determinado pelo conteúdo das normas gerais e abstratas
previstas no ordenamento jurídico.3 Assim, o que comumente se denomina "aplicação do
direito", considerada enquanto subsunção dos fatos singulares às normas gerais, para delas
1 Mestrando em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Núcleo de Direito Constitucional,
linha de pesquisa: Efetividade do Direito Público e Limitações da Intervenção Estatal). Bacharel em Direito
pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo
- UNIFESP
2 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. Tradução João Baptista Machado. − 8ª ed. − São Paulo: Editora
inferir a solução apropriada a uma demanda, nada mais é do que a inferência de uma
norma individual e concreta que toma a norma geral e abstrata e o fato jurídico
concretamente verificado como premissas.4 Esse procedimento é possível graças à forma
hipotética que, desde Korkunov, se reconhece às normas jurídicas. Com efeito, para o
referido autor as normas jurídicas devem ser entendidas enquanto comandos condicionais
compostos de dois elementos essenciais: hipótese e disposição. 5 Kelsen segue de perto essa
orientação, chegando a afirmar que todas as normas gerais positivas de uma ordem social
qualquer só podem prescrever comportamentos sob condições específicas.6
No caso das normas jurídicas, o mencionado autor austríaco enfatiza a diferença
que se pode observar entre as normas gerais e individuais: enquanto aquelas são sempre
condicionais, sujeitas, portanto, a circunstâncias mais ou menos determinadas, estas
podem ser incondicionais, como ocorre, por exemplo, quando se impõe a aplicação de uma
sanção penal ao final de um processo.7 Em havendo, dessa maneira, uma norma geral
formulada sob a forma de um juízo hipotético que fixa as condições de aplicação para uma
determinada prescrição, o raciocínio jurídico a que se chama de aplicação da norma
procederia dedutivamente do geral/abstrato para o individual/concreto: da norma geral
prevista no ordenamento jurídico, obtém-se uma norma individual que resolve o litígio. A
norma individual resultante desse processo insere-se no quadro ou moldura representado
pela norma geral, isto é, a decisão judicial produz uma norma individual que "se contém
dentro da moldura ou quadro que a lei representa", o que "não significa que ela é a norma
individual, mas apenas que é uma das normas individuais que podem ser produzidas
dentro da moldura da norma geral" (itálicos do original).8 As normas gerais possuem,
assim, campos de irradiação semântica com variados graus de amplitude, admitindo a
inferência de normas individuais que se insiram no interior desses campos.
4 Veja-se o que anota Kelsen: "Do ponto de vista de uma consideração centrada sobre a dinâmica do Direito,
o estabelecimento da norma individual pelo tribunal representa um estado intermediário do processo que
começa com a elaboração da Constituição e segue, através da legislação e do costume, até a decisão judicial e
desta até a execução da sanção. Este processo, no qual o Direito como que se recria em cada momento, parte
do geral (ou abstrato) para o individual (ou concreto). É um processo de individualização ou concretização
sempre crescente. Para individuar a norma geral por ele aplicada, o tribunal tem de verificar se, no caso que
se lhe apresenta, existem in concreto os pressupostos de uma consequência do ilícito determinados in
abstracto por uma norma geral" (2009, p. 263-264).
5 KORKUNOV, Nikolai Mikhailovich. General Theory of Law. Tradução W.G. Hastings. Brookline (MS):
9 TOMÉ, Fabiana Del Padre. A estrutura lógica das normas jurídicas. In: CARVALHO, Paulo de
Barros. [et al.]. Lógica e direito. São Paulo: Noeses, 2016. p. 299.
10 CARVALHO, Paulo de Barros. Direito tributário: linguagem e método. São Paulo: Noeses, 2015. p.
143-144.
11 VILANOVA, Lourival. Causalidade e Relação no direito. 4. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais. p. 103.
12 Ibid. p. 105.
13 OLEINIK, Rosana. Teoria da norma jurídica e a regra-matriz de incidência como técnica de
interpretação do direito. In: CARVALHO, Paulo de Barros. [et al.]. Construtivismo lógico-
semântico vol. I. São Paulo: Noeses, 2014. p. 314.
14 CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso de teoria geral do direito: o constructivismo lógico-
Barros. [et al.]. Lógica e direito. São Paulo: Noeses, 2016. p. 302.
16 CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso de teoria geral do direito: o constructivismo lógico-
detalhada para formalizar a norma jurídica, qual seja: "D [H → R(S', S'')]", "onde D é o
functor-de-functor; H é a hipótese; → é o functor implicacional; R é o relacional deôntico;
S' e S'' são sujeitos de direito"17 que correspondem aos sujeitos ativo e passivo da relação
jurídica. Há mais a acrescentar. A estrutura acima analisada dá conta apenas da chamada
"norma primária", isto é, da norma que prescreve um dever acaso sobrevenha um fato que
satisfaça as notas características da hipótese. Entretanto, as normas jurídicas também
prescrevem sanções para a hipótese de inobservância dos deveres estabelecidos nas
normas primárias.
Essa segunda parte da estrutura corresponde à denominada "norma secundária". As
estruturas das normas primária e secundária podem ambas ser reduzidas à forma "D (H →
C)", mas há, como assinalado, diferenças fundamentais no que concerne aos antecedentes
e consequentes normativos: na norma secundária o antecedente é necessariamente um
comportamento violador do dever previsto na norma primária, e o consequente prescreve
também uma relação, mas que tem como termos, de um lado o mesmo sujeito ativo da
relação presente na norma primária e, de outro, o Estado, na qualidade de sujeito
passivo.18 Assim, a forma da norma secundária é: "D [~R' (S', S'') → R''(S', S''')]", na qual
"~R'(S',S'')" corresponde à inobservância da relação prescrita na norma primária, e
"R''(S',S''')" corresponde à relação entre sujeito ativo e o Estado, isto é, à possibilidade de o
sujeito ativo reclamar do Estado a aplicação de uma sanção.
Essas considerações permitem alcançar a estrutura da norma jurídica completa, que
se constitui a partir da integração das normas primária e secundária. Para tanto, Lourival
Vilanova considera como adequados os conectivos interproposicionais equivalentes à
conjunção ("˄"), à disjunção inclusiva ("˅"), e ao condicional ("→").19 Optaremos, assim,
pela utilização do operador conjuntivo, obtendo, por conseguinte, uma estrutura formal
muito mais detalhada, cuja simbolização é: "D {[H → R'(S', S'')] ˄ [~R' (S', S'') → R''(S',
S''')]}".
20 Ibid. p. 278.
21Ibid. p. 279.
22 VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência. Tradução Tércio Sampaio Ferraz Júnior. Brasília:
afastada de um sistema real, porque está presente no seu começo e na sua interpretação, a
não ser quando se pode ter um sistema completamente abstrato, como a matemática".23
Isso significa que a apreensão dos termos e expressões que compõem o discurso jurídico
não se esgota no plano sintático, da relação dos signos do sistema uns com os outros, e tão
pouco opera no interior de um sistema semântico fechado, com um catálogo fixo e bem
definido de regras de formação, de verdade e de designação.24
Um exemplo pode aclarar esse ponto: considere-se um sistema axiomático, tal como
o apresenta Alfred Tarski,25 composto por um conjunto limitado de termos primitivos (ou
indefinidos) e axiomas, e construído com base num catálogo rígido e também limitado de
regras de formação (que definem como construir enunciados significativos nesse sistema),
regras de definição (que estabelecem como definir termos novos a partir de termos
primitivos ou já definidos anteriormente) e regras de inferência (que estabelecem as
transformações passíveis de serem efetuadas em enunciados previamente estabelecidos
para derivar outros enunciados). No interior desse sistema, cada termo é definido
exclusivamente a partir dos termos do próprio sistema (com exceção dos primitivos,
evidentemente), e cada enunciado é derivado a partir de enunciados também pertencentes
ao sistema (exceção feita aos axiomas, por evidente). A análise de todos os termos não
primitivos e de todos os teoremas (isto é, dos enunciados derivados) do sistema axiomático
seria efetuada, assim, por meio de recurso a um cálculo, aplicando-se as regras de
inferência e de definição admitidas. Tratar-se-ia, portanto, de uma análise esgotada
dentro do âmbito da sintaxe.
Acaso o Direito Positivo se apresentasse como um sistema dessa índole, o único
ponto de infiltração da tópica residiria, como assinalado, no começo desse sistema, é dizer,
na fixação de seus termos indefinidos e axiomas. Todo o restante poderia ser resolvido por
operações lógicas, deduzindo-se enunciados a partir dos axiomas ou teoremas já provados,
ou reduzindo-se enunciados novos àqueles elementos primários, para assim demonstrar
sua compatibilidade com o sistema axiomático. A interpretação do discurso jurídico, que
engloba o próprio direito positivo, não pode, entretanto, dar-se nesses termos. Com efeito,
a compreensão dos conceitos jurídicos exige do intérprete uma constante apreciação da
realidade social presente, cujo fluxo pode, como frequentemente ocorre, alterar a maneira
como se compreendem certas expressões.
A título exemplificativo, é possível aludir à chamada "mutação constitucional", que
pode ser definida como o "processo informal de mudança da Constituição, que ocorre
quando surgem modificações significativas nos valores sociais ou no quadro empírico
subjacente ao texto constitucional, que provocam a necessidade de uma nova leitura da
Constituição".26 Especificamente, pode-se referir também à noção de "direito à
privacidade", cuja origem remonta a um direito de proteção diante do Estado, em reação
ao modelo absolutista, mas que, no contexto atual de uma sociedade altamente
informatizada na qual o tratamento de dados pessoais é efetuado por diversos sujeitos
privados, possui abrangência muito mais ampla, contemplando diversas esferas de
proteção.27
O que fica claro por esses exemplos é que a interpretação jurídica não prescinde do
estabelecimento de pontos de contato com a realidade histórica e social para a qual o
Direito está direcionado. O contexto do qual o Direito Positivo emerge e ao qual ele é
aplicado exerce inegável influência na conformação do sentido atribuído aos termos e aos
enunciados que compõem o discurso jurídico. Este, com efeito, possui uma permeabilidade
aos fatos e transformações sociais que lhe confere uma dinamicidade própria. Se isso tudo
é verdadeiro, então a interpretação normativa efetuada não apenas pelo aplicador, mas por
todo operador do direito, nunca poderá ser inteiramente reduzida a um cálculo lógico. E
isso porque não há um inventário fixo de noções primárias às quais a totalidade do sistema
jurídico seja redutível por operações lógicas, porquanto o sentido dos termos e expressões
se deixa penetrar por novos conteúdos fáticos e axiológicos.
A razão de ser dessa permeabilidade do Direito parece residir no fato de que o
raciocínio jurídico move-se a partir de problemas, os quais não deixam de surgir sempre
renovados pelo incessante fluxo das transformações sociais, políticas, históricas, etc. Com
efeito, a "constante vinculação ao problema impede o tranquilo raciocínio lógico para trás e
para diante, quer dizer, a redução e a dedução. Vemo-nos continuamente perturbados pelo
128-147.
problema".28 Essa vinculação aos problemas demanda dos conceitos jurídicos um grau de
elasticidade que impede que estes sejam rigorosamente definidos e delimitados no interior
de um único sistema dedutivo, isto é, sem o auxílio de uma interpretação capaz de adaptar
esses conceitos às novas realidades. Essa abertura é, ainda, uma característica essencial da
linguagem natural, por meio da qual o Direito se exprime.29 Além disso, e aqui há uma
clara aproximação entre os pensamentos de Lourival Vilanova e Theodor Viehweg, a
própria qualificação jurídica dos fatos envolve aspectos extralógicos. Deveras, a seleção das
facetas mais relevantes que habilitam a inserção dos dados-de-fato numa determinada
qualificação jurídica opera não apenas descritivamente, mas por meio de juízos de valor.
Os conteúdos fáticos e axiológicos que interferem nesse processo estão além do alcance da
lógica.30 Viehweg, quanto a esse ponto, assinala:
Tal perspectiva parece coincidir com o que Lourival Vilanova chama de um "ir e vir
dialético entre hipóteses e fatos",32 que acaba por culminar na fixação das premissas que
fundam a aplicação da norma. De se sublinhar, ademais, que os fatos que penetram o
universo jurídico estão necessariamente vertidos em linguagem. Distinguem-se, pois, os
fatos enquanto relatos em linguagem sobre estados de coisas determinados, dos puros
eventos, os quais, irrelevantes ao direito, simplesmente se esvaem no espaço e no tempo.33
Se, por um lado, a linguagem converte os acontecimentos em fatos, para que estes se
convertam em fatos jurídicos é necessário um elemento adicional: precisam estar
revestidos na linguagem específica a que o próprio sistema jurídico outorga competência
para relatá-los:
28 VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência. Trad. de Tércio Sampaio Ferraz Júnior. Brasília:
Departamento de Imprensa Nacional, 1979. p. 39.
29 Ibid. p. 82.
30 VILANOVA. Lourival. As estruturas lógicas e o sistema de direito positivo. 4. ed. São Paulo:
CARVALHO, Paulo de Barros. [et. al.]. Construtivismo lógico-semântico. vol. II. São Paulo: Noeses,
2018. p. 278.
É a linguagem competente das provas admitidas pelo Direito, portanto, que habilita
os fatos à conversão em fatos jurídicos. E é o ato de valoração do aplicador da norma, por
sua vez, que opera essa conversão: valoram-se os fatos narrados em linguagem competente
e, mediante um recorte dos seus elementos distintivos, isto é, das suas notas essenciais e
definidoras, busca-se um enquadramento no antecedente normativo de uma norma
jurídica, segundo um ato interpretativo prévio que define o sentido da norma a se aplicar.
Interpretação definidora do sentido e alcance das normas, a partir de uma compreensão
tanto denotativa quanto conotativa de seus termos, e valoração e enquadramento dos fatos
sociais: eis as tarefas que a lógica não pode desempenhar pelo aplicador do direito.
Somente depois de completadas essas etapas é que se estará em posse das premissas que
permitem um raciocínio jurídico pautado em critérios estritamente lógicos de inferência.
Id. O direito e a inevitabilidade do cerco da linguagem. In: CARVALHO, Paulo de Barros. [et. al.].
34
35 CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso de teoria geral do direito: o constructivismo lógico-
semântico. São Paulo: Noeses, 2014. p. 446.
36 MORTARI, Cesar A. Introdução à lógica. São Paulo: Editora Unesp, 2001. p. 70-71.
37 HEGENBERG, Leônidas. Lógica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015. p. 201.
"predicado puro" (isto é, sem sujeito), quanto uma sentença completa. Poder-se-ia, assim,
interpretar o consequente em linguagem natural como um enunciado do gênero "ocorre a
consequência normativa", ou outro que o equivalha. Essa opção foi feita apenas para
tornar mais simples a fórmula empregada, haja vista que o que se pretende mostrar é tão
somente o caráter lógico da inferência que procede da norma hipotética geral para a
particular, sendo a formalização completa da norma jurídica com uso de quantificadores
tarefa que mereceria um estudo à parte.
Ao descrever o procedimento tratado acima, Autora Tomazini de Carvalho anota
que o aplicador da norma verifica "por meio da linguagem de provas, a ocorrência de um
evento (E), no plano do ser (PS), que se enquadra na delimitação imaginária projetada pela
hipótese normativa", e assim "o relata para o direito [...] como antecedente de uma norma
individual e concreta".38 Pode-se, desse modo, entender que em seu estado de
abstração/generalidade, a norma se projeta sobre todos os fatos (descritos em linguagem
competente) que encerram os elementos característicos da hipótese normativa. Ao inferir a
norma individual da geral, efetua-se um procedimento lógico, como a lógica de predicados
permitiu mostrar.
Com esses pontos esclarecidos, pode-se atentar para o passo seguinte, que é a
dedução da relação jurídica em sentido estrito a partir da norma individual e do fato
jurídico. É neste momento que o modus ponens referido alhures de fato se efetua: tendo-se
uma norma individual que declara a implicação de uma relação jurídica pelo fato
individual em questão, e, estando esse fato igualmente afirmado, pode-se efetuar a
inferência do consequente normativo: uma relação jurídica entre sujeitos ativo e passivo.
Em outros termos, o aplicador da norma, "denotando o conceito da hipótese, constitui o
fato jurídico (FJ) e a ele imputa (→) a relação jurídica [...] correspondente, instituída com
base nos critérios do consequente da norma geral e abstrata".39
Há, portanto, dois passos fundamentais: da norma hipotética geral e abstrata,
infere-se a norma hipotética individual, e desta, em conjunção com a afirmação do fato
jurídico antecedente, infere-se o consequente normativo, na forma de uma prescrição
individualizada.40 No mais, a inobservância do dever prestacional inserto na relação
38 CARVALHO, Aurora Tomazini de. Curso de teoria geral do direito: o constructivismo lógico-
semântico. São Paulo: Noeses, 2014. p. 446.
39 Ibid. p. 446.
40 Caso se queira, é possível reduzir toda a etapa lógica da aplicação normativa por meio do método de
dedução natural. A norma jurídica geral ("∀x (Hx →C)") e o fato individual relatado em linguagem
CONSIDERAÇÕES FINAIS
normativos. Essas operações lógicas não prescindem, entretanto, de uma etapa anterior e
extralógica de busca das premissas que servirão de base à argumentação. Antes de se
conjugar fatos e normas e buscar deles extrair uma conclusão, é indispensável selecionar
quais as normas relevantes a aplicar, a partir de um ato de valoração das notas distintivas
dos fatos em análise. Trata-se, portanto, de uma fase tópica, que envolve atos de
interpretação das normas e dos fatos, os quais se repercutem mutuamente: "Partindo de
uma compreensão provisória do conjunto do direito, forma-se a compreensão dos fatos,
que por sua vez repercute de novo sobre a compreensão do direito".43
O intérprete deve, portanto, proceder a um tratamento prévio dos fatos relatados e
do direito positivo em análise, socorrendo-se, por vezes, a técnicas de interpretação
jurídica que permitam o ajuste das normas a serem aplicadas à realidade para a qual elas
se direcionam. Essas normas, como se assinalou, bem como a totalidade dos termos que
integram o Direito Positivo, não têm o seu sentido definido com base em noções primárias
submetidas a transformações lógicas, mas demandam um constante estabelecimento de
pontos de contato com a realidade, deixando-se penetrar por novos conteúdos fáticos e
axiológicos, em conformidade com as mudanças contextuais operadas no plano do
universo social em que o Direito se insere.
Também a valoração dos fato desempenha um papel fundamental nesse momento,
pois é a partir dela que o intérprete selecionará o feixe de disposições normativas ou
subsistema que melhor corresponde ao problema, bem como a norma jurídica que lhe
oferece a correta solução. Somente depois de ultrapassada essa etapa é que o aplicador da
norma se verá diante de um fato juridicamente qualificado, e um instrumental normativo a
ele ajustado. Neste momento, entram em ação as inferências propriamente lógicas:
primeiro, partindo-se da norma geral e abstrata para obtenção de uma norma hipotética
individual e concreta. Tal inferência justifica-se pela validade lógica da dedução do
particular a partir do universal, que, na lógica de predicados, pode ser devidamente
traduzida em fórmulas de caráter tautológico. Em seguida, em posse de uma norma
condicional individual e de um enunciado que afirma o seu antecedente, o aplicador do
direito pode inferir logicamente o consequente, aplicando modus ponens.
Esse mesmo procedimento serve tanto para inferir o consequente normativo da
norma primária, quanto para inferir o consequente normativo da norma secundária,
43VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência. Trad. de Tércio Sampaio Ferraz Júnior. Brasília:
Departamento de Imprensa Nacional, 1979. p. 83.
divergindo, tão somente, no conteúdo semântico dos termos que ocupam as posições
sintáticas antecedente e consequente dessas proposições normativas: as normas primárias
têm como antecedente o fato jurídico, entendido enquanto evento relatado em linguagem
competente e valorado pelo aplicador da norma. O consequente, inferido ao final, é a
relação envolvendo pelos menos dois sujeitos de direito. Já as normas secundárias têm
como antecedente a inobservância do previsto no consequente das normas primárias, e
como consequente uma relação envolvendo o sujeito ativo e o Estado-Juiz.
A análise empreendida mostra como essas proposições consequentes, ou teses,
podem ser inferidas pelo aplicador da norma, de modo a se conferir concreção ao conteúdo
prescritivo das normas jurídicas, realizando-se, assim, aquilo que elas determinam. Fica
evidenciado, ademais, como a dedução desses conteúdos prescritivos é antecedida por uma
fase extralógica, tópica, da argumentação jurídica, que primeiro tateia em busca das
premissas argumentativas e, só depois de estar em posse destas, procede mediante
operações logicamente válidas de inferência, que são, essencialmente, duas: da norma
geral para a particular, e do antecedente para o consequente, uma vez afirmadas a
proposição condicional e o fato que é seu pressuposto.
REFERÊNCIAS
IVO, Gabriel. Teorias sobre a incidência: a incidência como operação linguística. In:
CARVALHO, Paulo de Barros. [et. al.]. Construtivismo lógico-semântico. vol. II. São Paulo:
Noeses, 2018.
KELSEN, Hans. General theory of norms. Tradução Michael Hartney. Nova York (EUA):
Oxford University Press, 1991.
___________. General theory of state and law. New Brunswick (EUA): Transaction
Publishers, 2006.
___________. Pure theory of law. Tradução Max Knight. Clark (EUA): The Lawbook
Exchange, 2005.
___________. Teoria Pura do Direito. tradução João Baptista Machado. − 8ª ed. − São
Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.
TOMÉ, Fabiana Del Padre. A estrutura lógica das normas jurídicas. In: CARVALHO,
Paulo de Barros. [et al.]. Lógica e direito. São Paulo: Noeses, 2016.
VILANOVA, Lourival. Causalidade e Relação no direito. 4. ed. rev. atual. e ampl. São
Paulo: Editora Revista dos Tribunais.