Epistemologia nas Ciências Sociais
Epistemologia nas Ciências Sociais
O problema estudado pela gnoseologia consiste no que é importante estudar antes de qualquer outra
ciência, debruçando-se assim no mundo tal como ele é.
Quando misturamos a realidade com as nossas crenças, a mesma é distorcida, ou seja, adquirimos
conhecimento sobre o objeto, se não existir conhecimento, nem experiência, o objeto pode ser
alterado pelas crenças.
Elementos do conhecimento
Sujeito: aquele que conhece (e.g., a nossa consciência e mente).
Objeto: o que é conhecido, exterior ao sujeito (e.g., realidade, mundo, fenómenos).
Conhecimento
Segundo Aristóteles procuramos conhecer naturalmente. Santo Agostinho acreditava que o homem
habita a verdade. Já Tomas de Aquino acreditava que a verdade é a adequação da coisa e do
entendimento (aquilo que acredito e quero acreditar).
📌 Realismo antropológico (ou seja, o intelecto humano alcança a verdade das coisas reais).
Formas de ceticismo:
Dogmatismo
Dogma é aceite como verdade/realidade absoluta e inquestionável. Na religião, corresponde ao conjunto
de dogmas (e.g., virgem maria, engravidou teve um filho e mantém-se virgem). Na filosofia, oposto ao
ceticismo, contesta-se o conhecimento total da verdade.
Pode ser entendido por:
Parte do realismo: atitude ingénua que admite conhecer as coisas em toda a sua verdade;
Confiança absoluta: numa certa fonte de conhecimento, sendo que essa fonte na maioria das
vezes é a Razão;
📌 Ingénuo: aceitar como existente aquilo que o rodeia e de acreditar que conhece tal como é (já
conhece tudo).
Idealismo
Nega a existência do real, por isso os objetos só existem enquanto representações do social (e.g.,
decidiu-se que um determinado objeto tinha aquele nome) e tem origem em Descartes. O idealista
pensa, desenvolve teorias, afirma a razão subjetiva, ou seja, a razão em relação aos sentimentos.
Categorias de idealismo:
Objetivo: o único objeto que se pode conhecer é aquele que existe no pensamento do sujeito.
Natureza do conhecimento
Criticismo
Para termos a verdade temos de criticar a razão não é possível fazer uma crítica sem ter fundamentos e
bases para a realizar. É uma doutrina epistemológica que estabelece os limites do conhecimento através
de uma investigação sistemática (Kant).
Pragmatismo
Acreditam no que vêm e no que é útil e eficaz para a vida humana, aproxima-se do ceticismo porque
relativiza o conhecimento.
William James: acreditava que todas as teorias são apenas aproximações da realidade;
Charles Sanders Pierce: foi o pai do pragmatismo, acreditava que a verdade é imutável e a infinitude é
real (a verdade não se pode mexer, não existe finito por isso não se procura o fim);
John Dewey: é influenciador da educação moderna, principais objetivos é educar, estudar e analisar a
criança na totalidade, o que importa é o seu crescimento físico, emocional e intelectual.
Consequências:
Mercantilização das atividades humanas (atividades não são lúdicas, é necessário ganhar
dinheiro para sobreviver, mesmo que a moral e a ética sejam sobrepostas para realizar as minhas
atividades);
Racionalismo
Descartes: foi fundador do Racionalismo Moderno, tinha como missão legitimar a ciência, demonstrando
que o Homem tem que conhecer o mundo real, para tal tem de duvidar de tudo até chegar a uma certeza
inquestionável, fez uma ponte entre o pensamento subjetivo e a realidade objetiva — dentro de uma
realidade objetivo (e.g., existência de deus) temos uma realidade subjetiva (que não dá para explicar).
Fases da filosofia:
Dúvida Metódica: para atingir um conhecimento absoluto, tem que eliminar tudo o que seja
suscetível.
Primeira Evidência: única coisa que resiste à própria dúvida é a Razão (se eu tanto questiono existo).
Argumento dos sonhos (não sabemos distinguir o que está na mente e na realidade);
Génio maligno (um demónio interior que nos quer levar para o caminho contrário).
Foi a partir das ideias inatas que Descartes fundamentou a prova da existência de Deus: a ideia de
Deus como uma entidade perfeita, mas o Homem por si só não seria capaz de chegar à clara e distinta
ideia de perfeição. Descartes como filósofo bebia da água do rio de esquecimento, nascia com ideias
inatas, uma delas é da existência de Deus, logo não necessitava de comprovar que este existia, mas não
conseguia comprovar que Deus não existia. Logo, se deus existe, então o mundo existe e foi Deus que o
criou.
📌 Cogito: algo próprio, o pensamento (consciência) é algo mais certo que a própria matéria
corporal, valorização do sujeito (o que ele conhece) em relação ao sujeito (e.g., de um por
diferente) — Idealismo.
📌 Ideias inatas: já nascem com o sujeito, não são adquiridas pela experiência.
Empirismo
Experiência é a fonte de todo o conhecimento, mas também é seu o limite (subjetivo). O conhecimento
não é à 'priori', é obtido através dos sentidos, onde o objeto é mais importante que o sujeito. Adquirimos
conhecimento através da experiência (se não for experienciado não existe), assim não existe o
conhecimento universal, nem as ideias inatas.
John Locke: defendeu que o ser humano nasce como uma tábua rasa — o conhecimento vai do
particular para o geral (das sensações para a razão).
David Hume: crítico de Descartes, as ideias não nascem comigo porque são o resultado das minhas
experiências a experiência sensível é o fundamento e o limite dos nossos conhecimentos. O nosso
conhecimento dos factos restringe-se às impressões atuais e às recordações de impressões passadas
(todas as ideias derivam das impressões).
Conceção sobre a origem do conhecimento:
Associação (se existe ou não semelhança entre o que eu achava que era e o que é);
Criticismo Kantiano
Kant acreditava que tanto os sentidos quanto a razão eram importantes para a nossa experiência de
mundo, no entanto, não acreditava na tábua-rasa. As impressões dos sentidos são a base do
conhecimento, mas é preciso perceber que as coisas acontecem, sem ser preciso estar sempre a repeti-
las. Conhecimento tem início com a experiência, mas as ideias não são à 'posteriori', porque o
conhecimento após justificado é universal (é possível passar o conhecimento).
Ceticismo para Kant: doutrina fundamental para educar a Razão e a fazer evoluir para o criticismo.
Kant concorda com Leibniz: o espaço e o tempo são realidades relativas (fenoménicas), são a
condição que torna possível a perceção e permite estruturá-la num todo lógico.
Os objetivos do criticismo são mediar entre:
Racionalismo dogmático: caí em contradições quando é possível comprovar com rigor lógico coisas
contraditórias — porque há uma coisa que não é palpável, mas sei que existe (e.g., liberdade). Além
disso, caí também em argumentações falsas de teorias que aparentam ser corretas.
📌 Ciência: associada à capacidade de enunciar respostas aos problemas (do ponto de vista
material) e à procura sistemática de conhecimento (baseando-se na explicação e domínio da
natureza).
Senso comum e o conhecimento: surgem da necessidade de obter respostas aos nossos problemas,
ambos procuravam uma ordem (com objetivo de compreender o mundo tendo como finalidade uma
forma melhor de viver/sobreviver).
Caráter religioso/metafisico: foi substituído pela ciência experimental (objetiva), sendo assim o
interesse pelo conhecimento subjetivo entre as pessoas. Mostrando assim que os métodos eram errados
e que é necessário experimentar até achegar a algum resultado.
Filosofia da ciência: diferencia-se das outras áreas, apresenta problemas subjetivos que se tentam
aproximar da objetividade (nascendo assim as correntes de pensamento positivistas).
Positivismo
Surge no início do séc. XIX, através dos princípios de Bacon, conceções de Descartes e das descobertas
de Galileu, como oposição ao espírito teológico e metafísico. Acredita que a ciência depende de
demonstrações falsificações e comprovações.
Positivismo Lógico
Defensores de modelos experimentais nas ciências sociais (preferiam modelos experimentais com teste
de hipóteses, tendo como objetivo a formulação de teorias explicativas de relações causais).
Rejeitam a metafísica (considera que o conhecimento metafísico deva ser rejeitado porque as suas
proposições precisam de significado).
Círculo de Viena
A ciência tinha de superar a metafísica (subjetividade), criar uma filosofia objetiva. Era necessário
determinar as proposições, mantiveram assim uma distinção entre as científicas e metafisica, sendo
estas ultima consideradas impossíveis de observar dado que não é possível observar nem adquirir um
raciocino lógico., por não terem valor cognitivo.
1. A ciência pode ser unificada na linguagem e nos factos (o que é aqui é em todo o lado), todo o
conhecimento científico vem da experiência e do caráter tautológico do pensamento.
2. A filosofia quer seja ou não considerada, ou não verdadeira ciência tem que estar ligada a uma
explicação de experiências, tem de haver uma filosofia das ciências (em que ponho de lado a
subjetividade dando lugar à objetividade).
Objetivo: desenvolver a filosofia de cariz rigoroso, com linguagem lógica, com rigor cientifico, dedicava-
se ao estudo da filosofia da ciência como uma epistemologia geral canalizando a cooperação intelectual
voltada para conclusões válidas para diversos campos de estudo e do conhecimento.
Atributos:
O Círculo de Viena vai criticar a metafísica de Kant e negava aos enunciados metafísicos o direito de
serem chamados de proposições, apelidando-os de pseudo-proposições.
Regra do Neopositivismo: libertar a ciência senão pudessem ser comprovados pela experiência.
Real; Abstrato;
Empírico; Dogmático;
Físico; Metafísico;
Filosofia; Teologia;
Meio; Fim;
Indução. Dedução.
📜 Karl Popper
Círculo de Viena
Embora nunca tenha sido convidado para colaborar nele, partilha com positivistas lógicos o interesse
pela distinção entre ciência e outras atividades (e.g., metafísica), mas rejeita a possibilidade de a ciência
Método hipotético-dedutivo
Sustenta que a investigação parte de um facto-problema e que as hipóteses não são sugeridas pela
observação, mas sim por criações do espírito humano.
Pressupostos:
2. O estudo da forma lógica da teoria para averiguar se se trata de uma teoria empírica ou científica;
O processo de conjeturas e refutações visa consegui uma aproximação da verdade, porém procurar a
verdade equivale a procurar os nossos erros e criticá-los racionalmente.
Elogio do erro: reconhecimento da existência do erro, sendo-lhe atribuído um valor positivo, devido à
procura humana pela verdade coincidir com a procura do erro humano, o reconhecimento do erro implica
o reconhecimento desse fundo contra o qual o erro se manifesta, a verdade objetiva.
Problema da demarcação (que determine qual enunciado é ou não cientifico):
1. Critério de verificabilidade;
2. Critério de confirmabilidade;
Popper era realista, isto significava que o mundo existe e que essa existência é de alguma forma
independente de nós. O objetivo da ciência era situar essa realidade. Defende a ideia que a metafísica
guia a formulação de grandes hipóteses que serão posteriormente submetidas a testes empíricos,
qualquer hipótese tem de ser falsificável.
Problema da indução
O problema não é a imprecisão das impressões iniciais, mas a sua generalização — mil factos podem
comprovar uma teoria, mas apenas um já é suficiente para falsificá-la. Assim Popper refere que existem
dois enunciados:
2. Enunciados universais: classifica todas as instâncias de algo (e.g., "todos os cisnes são
brancos" — independente de quantos cisnes brancos são observados, esse número nunca será
suficiente para podermos concluir absolutamente).
Assim este método é inválido, dado que pode existir um cisne que não seja branco e que por algum
motivo não tenha sido observado.
Os positivistas só admitem como científicos os conceitos que eram derivados da experiência sensorial →
para Popper é errado ao demarcar a metafísica (que aqui tem o sentido de racionalismo e não o sentido
aristotélico) da ciência empírica.
Para o neopositivismo a teoria só poderia ser cientifica se fosse passível de comprovar ser verdadeira
(e.g., as teorias de Newton eram tomadas como verdadeiras, mas com o avanço tecnológico e com o
aumento de poder de análise cientifico, foram substituídas pela teoria quântica e a teoria da Relatividade
Geral).
As teorias são refutadas quando surgem outras para as substituir vão dominar até o momento que serão
refutadas. Um determinado saber, permanece válido por um fenómeno chamado de provisão enquanto
dispor de suficiente “provisão de verdade" para se manter como aceite e atual no campo intelectual e
científico.
Popper contesta as teorias marxistas e da psicanálise - tudo poderia ser delimitado nas suas respetivas
teorias (e.g., “Sempre que um marxista abre um jornal, encontra evidências de que existe uma luta de
classes” e “Sempre que um freudiano recebe um paciente na sua clínica, encontra evidências que
corroboram sua teoria”).
Metafísica
Para Popper a metafísica não consegue a excelência da ciência, dado que é mais vaga e inferior em
aspetos como a testabilidade. Todavia, sempre a encarou como importante, utilizando algumas vezes de
mofo arbitrário, os termos ‘metafísica’ e ‘filosofia’.
Popper distingue 3 conceções do termo ‘metafísica’:
Combateu-a não porque acreditasse que a metafísica pudesse ser verificada, mas não
acreditava também que a ciência o pudesse ser;
As teorias que implicam conceitos científicos que não podem ser observados, não devem, por
isso, ser consideradas metafísicas, desde que tenham consequências observáveis.
2. As teses e teorias que não podem ser testadas (aceção de, Popper): propôs esta conceção,
apresentando um critério de demarcação entre as teorias científicas (testáveis) e as outras
teorias.
3. As teses e teorias gerais acerca da natureza do mundo (aceção tradicional): reteve esta
conceção, porque as teses e teorias gerais acerca da natureza do mundo não são testáveis.
Popper refere a existência de proposições que pretendem ser verificáveis, mas que não são proposições
metafísicas, no entanto, pertencem à pseudociência. As pseudociências querem ser ciências, mas
baseiam-se na falsa ideia de científico como algo verificável. Ao contrário da falsificabilidade típica da
ciência, as pseudociências apoiam as suas teorias na enumeração de casos que pretensamente as
‘verificam’, na acumulação de exemplos favoráveis à sustentação das suas ideias. As teorias e as
proposições metafísicas, são dotadas de sentido e dotadas de interesse, tal como as teorias e
proposições científicas, mas ao contrário das científicas, não são testáveis. Logo, não são falsificáveis.
Popper acredita que tanto a ciência como a metafísica partilham o mesmo objetivo → compreender o
mundo. Refere também que na metafísica, não há lugar para o dogmatismo (para a fuga à crítica).
A hostilidade inicial de Popper em relação à metafísica baseava-se na sua visão da ciência como sendo
distinta e independente daquela, ainda que admitindo o valor heurístico da metafísica, no entanto,
Popper irá reconhecer cada vez mais que este critério de distinção entre ciência e metafísica não pode
ser rigoroso. Popper acredita que teorias metafísicas como o atomismo, a teoria corpuscular da luz e a
teoria do movimento terrestre, prestaram um grande serviço à ciência. Tornaram-se científicas quando
acabaram por ser apresentadas sob uma forma falsificável, o que significa que foi possível escolher
empiricamente entre elas e teorias rivais.
O critério da testabilidade de Popper entre ciência (testável) e não-ciência
(não-testável) levou-o à conclusão de que a ciência incorpora elementos
que não são testáveis e de que a metafísica pode tornar-se testável. Popper defende que a metafísica é
parte consubstancial do pensamento científico. Afirma a existência de programas metafísicos de
investigação na história da ciência, consistiu no reconhecimento da presença de ideias metafísicas que
constituem um quadro de pressuposições e assunções da investigação científica.
Os críticos de Popper, sobretudo Kuhn salientaram que:
A metodologia de Popper não pode ser seguida pelos cientistas: em Ciência é racional aceitar as
hipóteses prováveis;
O seu trabalho está direcionado apenas para a ciência extraordinária, não havendo da sua parte
preocupação com a ciência normal.
Critério Falsificacionista
A experiência cientifica deverá servir para falsificar as hipóteses.
Uma teoria será tanto mais válida quanto mais resistir à falsificação.
📜 Gaston Bachelard
O seu trabalho mostra a quebra do empirismo, uma vez que o objeto de estudo dependia agora do
referencial, e assim não podia ser considerado absoluto e passar pelo método empírico único. É um
racionalista comprometido empiricamente, e uma crítico dos empiristas que tomam a ciência como uma
atividade observacional.
As vertentes mais divergentes das ciências tinham como fio condutor a unidade do conhecimento
com base na experiência.
2. Apresentada por Descartes: pretendia unificar todos os conhecimentos iluminados por certezas
racionais. Descartes considerava que embora a ciência fosse constituída por universalidade esta
poderia ser pensada apenas por um único indivíduo, dado que todos são dotados natural e
igualmente de RAZÃO.
A crítica de Bachelard a Descartes recaí sobre o essencialismo racionalista cartesiano. Este diz que
Descartes tem uma negligência filosófica (faz da ingenuidade um método científico).
A crítica de Bachelard a Bacon recaí sobre o empirismo do mesmo, referindo-se à experiência do próprio
pensador, que revela uma perceção pessoal da realidade. Bacon considera que o Homem se torna
interprete da natureza e só conhece através da interpretação dos factos (fenómenos) conjuntamente com
o trabalho da mente, nem um, nem outro, se podem conhecer isoladamente = somente conjuntamente
(indução). A este modelo empirista de Bacon, Bachelard entende que se deve compreender que toda
uma primeira experiência é repleta de imagens, fechada, concreta, isto é, existe uma rutura entre a
observação e a experimentação e ao generalizarem-se as primeiras observações, generalizasse o que é
possivelmente falso. Consequentemente Bachelard considerou importante abandonar o empirismo poder
analisar o fenómeno sob outro ponto de vista. Aludindo às duas vertentes de pensamento (Descartes e
Bacon) Bachelard afirmou que ambas confluem no culto à própria singularidade.
Novo espirito cientifico: ocorreu devido à teoria da relatividade e inspirou Bachelard a conseguir
romper com as epistemologias anteriores.
Filosofia da desilusão
Defende que precisamos de errar em ciência, pois o conhecimento científico só se constrói pela
retificação destes erros. Quanto mais eu quero saber mais percebo que não sei e mais percebo o que
tenho de aprimorar — ciência é construída com a retificação do erro). Ciência é o treino da mente, não é
um dado adquirido. A mente científica é resultado de um amadurecimento.
Filosofia do não
É uma atitude de conciliação, não de recusa das teorias científicas - coloca a razão num processo de
revolução permanente.
Teoria de Bachelard
Novo Espírito Científico — rompe com a ideia de que a ciência é a continuação mais aprofundada do
senso comum, tornando-se uma ciência mais livre de influências externas vindas do senso comum.
Obstáculos epistemológicos
Fatores de resistência mental a novas ideias que resultam da cultura e da experiência quotidiana,
infetando as observações e as teorias dos cientistas, são uma forma de resistência do próprio
pensamento ao pensamento. A nível psicológico estes obstáculos são os sonhos primitivos, as
convicções pessoais e os interesses afetivos, isto tratasse de uma metafísica pouco elaborada e
questionada. A noção de progresso da ciência deve ser confrontada com os obstáculos epistemológicos
do ato de conhecer, isto é a ciência ao avançar encontra o erro ligado ao erro epistemológico. Pergunta
traz hipóteses para resolver o problema. Se no caminho da investigação se levantar uma pergunta que já
sabemos a resposta não é ciência, o que motiva o espírito científico são as perguntas e não as
respostas.
Conhecimento geral
A ausência da explicação correta faz com que haja uma generalização. As mesmas respostas são dadas
a todas as questões. São generalizações pré-científicas, que podem tornar-se num conhecimento vago.
Obstáculo verbal
Neste obstáculo há uma tendência de se associar uma palavra concreta a uma abstrata o mau uso
destes recursos pode dificultar e criar obstáculos. Por isso, devem ser um auxílio e não o foco principal.
Substancialista
Implica a noção de que as ideias substancialistas podem ser ilustradas por uma continência. Falta-lhe o
percurso teórico que obriga o espírito científico a criticar a sensação.
Senso comum
As opiniões, preconceitos, bagagem cultural, acabam por influenciar na procura da verdade científica a
partir do conhecimento teórico.
Realismo
Este obstáculo ocorre quando se propõe uma investigação científica no concreto, sem evoluir para o
abstrato.
Animismo
Vê a objetividade do cientista individual como critério de cientificidade= objetividade alicerçada no
comportamento e controle do outro, mas também aberta tanto à crítica quanto à autocrítica, de forma a
expurgar o dogmatismo. A reflexão do conhecimento resista à primeira reflexão, lutando-se contra
crenças enraizadas e a subjetividade no ato de conhecer. Não existe conhecimento nem verdade sem
erro retificado, temos que aceitar para a epistemologia o postulado de que o objeto não pode ser
designado com um objetivo imediato.
📜 Thomas Kuhn
Dedicou-se à história de ciência, criticava o positivismo e o pragmatismo.
Até ao século XIX existiu um modelo de racionalidade, que assentava no determinismo -
crença/convicção de que existem relações fixas e necessárias entre fenómenos naturais, ou seja, o que
acontece não poderia deixar de acontecer devido a causas anteriores. No entanto, com o
reconhecimento no século XX de que existem fenómenos que não obedecem ao determinismo, ocorreu
uma revolução epistemológica que alterou o modelo de racionalidade.
Kuhn defende que todas as disciplinas cientificamente amadurecidas organizam-se por paradigmas,
contudo antes de este estar devidamente constituído não existe ciência - encontrando-se num período de
pré-ciência.
Pré-ciência: atividade desorganizada que marca o período antecedente a formação da ciência - termina
quando a comunidade cientifica adere a um paradigma.
Defende um contexto de descoberta, esta não acontece sem aspetos psicológicos sociológicos e
históricos, sendo estes fundamentais para a evolução da ciência. Sendo esta vista de duas perspetivas:
Historicista: atividade concreta que se dá ao longo do temo e que em cada época histórica
apresenta singularidades próprias.
Estabelecer um paradigma
Quando temos leis científicas e pressupostos teóricos fundamentais de como uma teoria
cientifica deve ser (e.g., o paradigma coperniciano centra-se na tese heliocêntrica, e o paradigma
newtoniano nas leis do movimento e na lei da gravitação universal de Newton);
Classificou como paradigmáticas as realizações cientificas que geram modelos que orientam o
desenvolvimento posterior das investigações, exclusivamente na procura da solução para os
problemas por elas suscitados.
2. Regras para aplicar as leis à realidade: mostra como lidar com objetos e situações concretas a
partir de leis (e.g., o paradigma newtoniano inclui regras para aplicar as leis de Newton a objetos
como planetas, pêndulos e bolas de bilhar).
3. Regras para usar instrumentos científicos: que instrumentos usar e como (e.g., o astrónomo
dinamarquês Tycho Brahe desenvolveu instrumentos para o paradigma coperniciano que permitiram
formular as leis do movimento dos planetas).
A ciência normal
Período durante o qual se desenvolve uma atividade cientifica baseada num paradigma (esta fase ocupa
a maior parte da comunidade científica, que nesta altura trabalha para mostrar ou pôr à prova a
consistência do paradigma no qual se baseia). Investigam fenómenos ainda não explicados com o
objetivo de os enquadrar na teoria dominante e resolver pequenas ambiguidades teóricas.
O paradigma é estabelecido após uma atividade desorganizada que tenta fundamenta ou explicar os
fenómenos ainda em estágio mítico/racional (apelidado por Kuhn) - pré-ciência.
Impera o acordo geral e a investigação desenvolve-se no interior do paradigma. Quando um facto coloca
um problema insubmisso, que resiste ao enquadramento na teoria em vigor é, geralmente, afastado
como "anomalia", para não ameaçar o consenso no interior da comunidade científica. Tais regras da
ciência normal não são apresentadas no sentido de um conjunto de métodos que estabelecerão a
investigação científica, mas como práticas convencionais que serão adotadas e condicionadas por
fatores sociológicos e culturais.
Anomalias e crise do paradigma
O paradigma é constantemente testado dado que nem sempre pode resolver todos os problemas, sendo
sempre posto em prova para ver se continua a ser o mais adequado para a resolução de problemas, ou
se deve ser abandonado - sendo estabelecida uma crise.
Quanto maiores forem o rigor e o alcance de um paradigma, mais sensível será como demostrador de
anomalias - altura de mudar o paradigma. Sendo o aparecimento de novas teorias o início de um período
de intranquilidade profissional, dado que exige a destruição do paradigma e provoca grandes alterações
nos problemas e nas técnicas da ciência normal
Exemplos dados por Kuhn de crise e emergência de um novo paradigma:
1. Finais séc. XVI: fracasso do paradigma ptolemaico (modelo geocêntrico) e advento do paradigma
coperniciano (modelo heliocêntrico)
2. Finais séc. XVIII: substituição do paradigma flogístico (Teoria do Flogisto) pelo paradigma de
Lavoisier (teoria sobre a combustão do oxigênio)
3. Início séc. XX: fracasso do paradigma newtoniano (mecânica clássica) e advento do paradigma
relativístico (Teoria da Relatividade).
A nova teoria apareceu apenas depois (uma ou duas décadas) do fracasso caraterizado na atividade
normal de resolução de problemas e a solução para cada um desses exemplos foi antecipada num
período no qual a ciência correspondente não estava em crise - tais antecipações foram ignoradas,
justamente, por não haver crise.
Na psicologia do desenvolvimento, a evolução da crise pode ser benéfica ou maléfica, dependendo dos
fatores externos ou internos, dado que toda a crise leva a um aumento de vulnerabilidade, mas nem toda
é um momento de risco. Pode evoluir negativamente quando os recursos pessoais estão diminuídos e a
intensidade do stress vivenciado pela pessoa ultrapassa a sua capacidade de adaptação e de reação. É
também vista como um momento de crescimento, levando à criação de novos equilíbrios, ao reforço da
pessoa e da sua capacidade de reação a situações menos agradáveis. Assim a crise evolui no sentido
da regressão, quando a pessoa não a consegue ultrapassar, no sentido do desenvolvimento quando a
crise é favoravelmente vivida.
2. Consistência: consistência lógica interna, ou seja, compatibilidade com as outras teorias aceites e
com aplicações reconhecidas a fenómenos e afins;
4. Simplicidade: parcimónia das suas explicações, isto é, tanto mais parcimoniosa quanto menor é o
número de leis a que apela para explicar os fenómenos observáveis e também quanto maior é o
número de fenómenos dispares que consegue explicar;
A de ser a ocasião em que, pela primeira vez, a metafísica pressuposta no paradigma se torna
explícita e alvo de debate entre os seus seguidores;
Durante a ciência normal, devido à fraca abertura à novidade, à satisfação gerada pelo paradigma, à
dedicação a problemas “esotéricos”, as teorias diferentes são ignoradas (e.g., a teoria de Aristarco foi
ignorada até à crise gerada por Copérnico).
Instalada a crise, o consenso e o conservadorismo dominantes durante os períodos de ciência normal
dão lugar a debates de teor filosófico, uma vez que são os pressupostos metafísicos antes implícitos que
se encontram agora sob escrutínio além de ser parte integrante de cada paradigma e orientar a
investigação científica, a metafísica está presente de forma explícita, durante os tempos de crise e de
‘ciência extraordinária’. O debate filosófico em ciência é um sinal de crise porque “em geral, os cientistas
não precisam e nem sequer desejam ser filósofos.”
Num período de crise os cientistas são obrigados a filosofar porque sabem que é na filosofia que poderá
estar a solução para os novos problemas. Só uma mudança de teor filosófico pode resolver o que a
ciência normal não resolve. Isto acontece porque, na perspetiva de Kuhn, uma ciência é uma aplicação
de um paradigma e de um paradigma faz parte uma filosofia, mais especificamente, uma metafísica.
📜 Michel Foucault
Devido às suas constantes tentativas de suicídio aproximou-se da Psicologia e a Psiquiatria e
desenvolveu a perceção do eu.
Estudou o biopoder e a sociedade disciplinas.
Biopoder - bio = mais do que um, vários poderes (como poder soberano).
Não analisa a ciência como Kuhn, mas olha para a ciência com um conhecimento histórico-cultural
(factos históricos são vistos com os olhos da época). Porque acredita piamente que quem faz ciência tem
uma bictomia (do saber ligado ao poder - pode manipular culturas).
O que hoje é verdade pode não ser verdade amanhã, porque olhamos para as coisas com novas formas
de conhecimento e novas éticas - Não existe uma verdade imutável.
3 Técnicas independentes, mas incorporadas umas nas outras: do Discurso, do Poder e da
Subjetividade.
Ele acreditava ser possível em termos discursivos contrariar padrões comportamentais, mas não é
possível libertar-se das relações do poder, este não reprimem apenas, pode trazer consequências
benéficas (criar disciplina).
Micropoder: poder que não é do estado, um poder mais pequeno que vai pertencendo aos vários papéis
da sociedade.
Foucalt não apresentou uma Teoria do Poder, mas apontou caminhos para identificar de que forma os
sujeitos atuam sobre outros sujeitos (ninguém vive sem poder, sem um sujeito que atua sobre o outro
sujeito).
O poder, o direito e a verdade são os vértices de um triângulo (poder surge num direito - um rei tem
súbditos).
Ética (para trabalhar o conhecimento do tenho de ter questões éticas porque se não consigo fazer o
estudo do sujeito).
O saber, o poder e a ética corresponde às noções de Episteme
Episteme: É o paradigma com múltiplos saberes durante um período onde se trabalha a parte filosófica
e técnica (tudo). Estrutura do conhecimento de tudo o que aconteceu nessa altura.
Na Episteme Moderna o Homem procura os factos históricos, porque nos trazem novos saberes e
novos conhecimentos.
Ciclo Arqueológico: objetivo é estabelecer a relação entre os saberes (fez vir à tona o que foi
efetivamente dito em determinado momento histórico sobre determinado tema).
Ao desenterrar trabalha a sociedade, toda a parte institucional mas também o homem enquanto animal
político (possibilita a abertura de um novo caminho para as análises históricas, descobrindo as condições
desse conhecimento e as questões institucionais e políticas)
Nas suas obras "A História da Loucura", "Nascimento da Clínica" e "As Palavras e as Coisas" comprova
a utilização dos instrumentos metodológicos da arqueologia, acaba por trazer uma mudança para a
sociedade.
Descobre que é muito complicado fazer juizos de valor à sociedade.
Recusa considerar os métodos morais da modernidade como um progresso (todos os saberes, todos os
conhecimentos são daquela altura. os métodos atuais não são evolução).
Ciclo Genealógico: Objetivo é responder ao porquê do aparecimento dos saberes - escreve dois livros
"Vigiar e Punir" e "A Vontade do Saber".
Nas 2 obras há o desenvolvimento e a proliferação das várias categorias de anomalias no interior do
corpo social (numa sociedade que tudo é linear a certa altura existe uma anomalia).
Passa do conceito de Episteme para o de dispositivo.
O poder não pode ser procurado numa batalha nem num acordo, mas no modo de ação que é o governo.
A fase ética em Foucault refere-se à subjetividade, isto é, à constituição dos sujeitos.
A arte de governar inclui o estudo do governo de si (ética), o governo dos outros (formas políticas de
governamentalidade) e as relações entre o governo de si e dos outros.
A governamentalidade visade conhecimento a população como saber mais relevante a economia como
mecanismo básico de atuação os "dispositivos de segurança". (traz uma visão sobre o poder como uma
relação entre a construção do sujeito e a formação do Estado, limitando a diferença entre poder e
dominação, avançando teoricamente em relação à proposta de Nietzsche).
O paradigma dominante (episteme) vai trazer várias crises epistemológicas profunda e irreversível que
nos fazem questionar o conhecimento = a produção de conhecimento crítico movimenta-se entre a
interpretação da crise (ontologia) e a crise da interpretação (epistemologia).
Kuhn e Foucault
Kuhn desenvolve a teoria sobre a ciência, compreendendo-a como uma sucessão de períodos ligados à
tradição, com períodos não lineares, mas por ruturas, a passagem de um paradigma para outro chama-
se revolução científica e influência na mudança e conceção de mundo.
Kuhn utilizou o conceito de paradigma em dois sentidos: