Análise Real
Aula 3 - Sequências reais
Giovana Alves
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Matemática Licenciatura
Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão
Imperatriz - 2024
Corpo
Seja K um conjunto munido de duas operações binárias
chamadas adição (+) e multiplicação (·). Dizemos que o terno
(K, +, ·) e um corpo se valem as seguintes propriedades.
1 x + y = y + x, e x · y = y · x, ∀x, y ∈ K.
2 (x + y ) + z = x + (y + z), e (x · y ) · z = x · (y · z),
∀x, y , z ∈ K.
3 ∃!x ∈ K, tal que x + y = y (o elemento neutro aditivo é
denotado por 0).
4 ∀x ∈ K, ∃!y ∈ K, tal que x + y = 0 (o elemento oposto de
x é denotado por −x).
5 ∃!x ∈ K − (0), tal que x · y = y , ∀y ∈ K (o elemento neutro
multiplicativo é denotado por 1).
6 ∀x ∈ K − (0), ∃!y ∈ K, tal que x · y = 1 (o elemento
inverso de x é denotado por x −1 ).
7 x · (y + z) = (x · y ) + (x · z).
Exemplo 1
(Q, +, ·), onde + e · são as operações usuais de adição e
multiplicação de números racionais é um corpo
Exemplo 2
(Z, +, ·), onde + e · são as operações usuais de adição e
multiplicação de números inteiros não é um corpo.
Exemplo 3
(R, +, ·), onde + e · são as operações usuais de adição e
multiplicação de números reais é um corpo
Exemplo 4
(C, +, ·), onde + e · são as operações usuais de adição e
multiplicação de números complexos é um corpo
Relação de ordem
No corpo ordenado R escrevemos x < y e diremos que x é
menor que y quando y − x ∈ R+ .
A relação de ordem “<" possui as seguintes propriedades:
se x < y , e y < z, então x < z;
∀x, y ∈ R, temos que x < y , ou y < x, ou x = y ;
se x < y , então x + z < y + z, ∀z ∈ R;
se x < y , então x · z < y · z, se 0 < z, e
y · z < x · z, se z < 0.
☞ Analogamente, poderíamos considerar a relação de ordem
“≤", alterando o item 2 para as propriedades de
reflexividade e antissimetria.
Valor Absoluto
A relação de ordem nos permite definir o valor absoluto (ou
módulo) de um número real x ∈ R:
x, se 0 < x
|x| = −x, se x < 0
0, se x = 0.
Desigualdade triangular
Teorema 6
Se x, y ∈ R, então |x + y | ≤ |x| + |y |, e |x · y | = |x| · |y |.
Sequências Numéricas
Definição 5 (Sequência)
Uma sequência é uma função a : N → R, que associa a cada
número natural n um número real a(n) := an .
Observação 1
O valor numérico an é o termo de ordem n (ou n-ésimo
termo) da sequência.
Notações: {an }, {an }∞
n=1 , (an ), ou (an )n∈N .
O domínio de uma sequência é o conjunto Dom(a) = N e a
imagem da sequência é o conjunto
Im(a) = {a1 , a2 , a3 , . . .}.
O gráfico de uma sequência é formado por uma coleção
discreta de pontos no plano cartesiano.
Exemplos
Exemplo 5
Sequência identidade a : N → R definida por a(n) = n
(1, 2, 3, 4, · · · , n, · · · ).
Exemplo 6
Sequência constante a : N → R definida, por exemplo, por
a(n) = 3.
(3, 3, 3, 3, · · · , 3, · · · ).
Exemplo 7
Sequência alternada a : N → R definida por a(n) = (−1)n an .
(−a1 , a2 , −a3 , a4 , −a5 , a6 , · · · ) .
Exemplo 8
Sequência aritmética a : N → R definida por
a(n) = a1 + (n − 1)r
(a1 , a1 + r , a1 + 2r , . . . , a1 + (n − 1)r , . . .) .
Exemplo 9
Sequência geométrica a : N → R definida por: a(n) = a1 q n−1
a1 , a1 q, a1 q 2 , . . . , a1 q n−1 , . . . .
Exemplo 10
Sequência de Fibonacci
A sequência de Fibonacci é definida de maneira recursiva,
considerando a1 = 1, a2 = 1 e an = an−2 + an−1 para n ≥ 3, i.e.
a3 = a1 + a2 = 1+1=2
a4 = a2 + a3 = 1+2=3
a5 = a3 + a4 = 2+3=5
a6 = a4 + a5 = 3+5=8
.. ..
. = .
Logo,
(1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, · · · )
Termo Geral
Podemos definir uma sequência apresentando uma fórmula
para o termo geral.
Exemplo 11
1 1 1 1 1
= 1, , , , , · · · .
n 2 3 4 5
Exemplo 12
((−1)n n) = (−1, 2, −3, 4, −5, 6, · · · ).
Exemplo 13
√ √ √
(− n) = (−1, − 2, − 3, · · · ), .
Em alguma situações, porém, não é fácil ou possível
determinar uma fórmula para o termo geral.
Exemplo 14
A sequência (an ) cujo termo an é obtido considerando o
truncamento da n-ésima casa decimal do número
π ≈ 3, 141592
(3, 3.1, 3.14, 3.141, 3.1415, · · · ).
Embora bem definida, não temos uma fórmula para o termo
geral dessa sequência.
Classificação das Sequências -
Limitação
Uma sequência (an ) é limitada superiormente se existir
um número M, tal que
an ≤ M, para todo n ∈ N
Uma sequência (an ) é limitada inferiormente se existir
um número m, tal que
m ≤ an , para todo n ∈ N
Dizemos que uma sequência (an ) é limitada se for
limitada superiormente e inferiormente.
Exemplos
Exemplo 15
As sequências dos Exemplos 5 e 10 e são limitadas
inferiormente.
Exemplo 16
A sequência do Exemplo 13 é limitada superiormente.
Exemplo 17
As sequências dos Exemplos 6, 11 e 14 e são limitadas.
Exemplo 18
A sequência do Exemplo 12 não é limitada.
Exercício
Exercício 1
O que podemos concluir a respeito da limitação de uma PA e
de uma PG?
Classificação das Sequências -
Monotonicidade
A sequência (an ) é não decrescente se
an ≤ an+1 , para todon ∈ N
A sequência (an ) é não crescente se
an ≥ an+1 , para todon ∈ N
Exemplos
Exemplo 19
As sequências dos Exemplos 5, 10 e 14 são não decrescentes.
Exemplo 20
A sequência constante do Exemplo 6 é não crescente e não
decrescente.
Exemplo 21
As sequências dos Exemplos 11 e 13 são não crescentes.
Exemplo 22
As sequências dos Exemplo 7 e 12 não são monótonas.
Exercício
Exercício 2
O que podemos concluir a respeito da monotonicidade de uma
PA e de uma PG?
Convergência
Definição 6 (Sequência convergente)
Uma sequência tem limite L, e escrevemos
lim an = L ou an → L, quando n → ∞,
n→∞
se, para cada ε > 0, existe n0 ∈ N, tal que
n > n0 =⇒ |an − L| < ε.
Dizemos que a sequência (an ) converge, ou que ela é
convergente, se lim an existir.
n→∞
Caso contrário, dizemos que a sequência diverge, ou que ela
é divergente.
Cultura Matemática
Note que a sequência do Exemplo 14 é formada apenas
por números racionais, contudo ela converge para π ∈
/ Q.
Além dessa, podemos encontrar uma infinidade de
sequências convergentes (an ), formada por números
racionais an ∈ Q, cujo limite an → L não é um número
racional L ∈
/ Q.
Por isso, dizemos que o conjunto dos números racionais é
imcompleto.
O conjunto dos números reais R é obtido “completando” o
conjunto Q com todos os números L, que são limites de
sequêcias (an ) cujos termos são racionais an ∈ Q.
O conjunto (R, +, ·, <) é um corpo ordenado completo.
A definição de limite de uma sequência é semelhante ao
conceito de limite para funções. Com efeito, temos
Teorema 7
Se lim f (x) = L e f (n) = an , para todo n ∈ N, então
x→∞
lim an = L.
n→∞
Teorema 8 (Unicidade do limite)
Se uma sequência (an ) converge para um limite L, este limite é
único.
Corolário 4
Se lim |an | = 0, então lim an = 0.
n→∞ n→∞
Teorema 9 (Confronto)
Se (an ), (bn ) e (cn ) são sequências reais, tais que
an ≤ bn ≤ cn , para n ≥ n0 e lim an = lim cn = L, então
n→∞ n→∞
lim bn = L.
n→∞
Proposição 2
Toda sequência monótona e limitada é convergente.
Exemplos
Exemplo 23
Como lim n = ∞, a sequência com termo geral an = n é
n→∞
divergente.
Exemplo 24
Como lim 3 = 3, a sequência constante (3, 3, 3, 3, · · · )
n→∞
converge para 3.
Exemplo 25
A sequência de Fibonacci é divergente.
Exemplo 26
1 1
Como lim = 0, a sequência é convergente.
n→∞ n n
Exemplo 27
A sequência an = (−1)n oscila entre −1 e 1. Portanto, ela não
aproxima de nenhum número e é divergente.
Exemplo 28
(−1)n
Verifique se a sequência com termo geral an = é
n
convergente ou divergente.
Resposta: Como
1
lim |an | = lim = 0,
n→∞ n→∞ n
pelo Corolário 4, concluímos que
(−1)n
lim = 0,
n→∞ n
e, portanto, an → 0.
Propriedades
Se lim an = A, lim bn = B e c ∈ R é uma constante, então:
n→∞ n→∞
1 lim (an + bn ) = A + B e lim (an − bn ) = A − B
n→∞ n→∞
2 lim (c · an ) = c · A;
n→∞
3 lim |an | = |A|;
n→∞
4 lim (an · bn ) = A · B;
n→∞
an A
5 lim = , se B ̸= 0.
n→∞ bn B
Exercícios
Exercício 3
n
Verifique se a sequência é convergente ou
n+1
divergente.
Exercício 4
n
Verifique se a sequência com termo geral an = é
log(n)
convergente ou divergente.
Exercício 5
n
1
Verifique se a sequência com termo geral an = é
2
convergente ou divergente.
Exercício 6
Verifique quando uma PA com termo geral an = a1 + (n − 1)r
será convergente e divergente.
Exercício 7
Verifique quando uma PG com termo geral an = a1 · q n−1 será
convergente e divergente.
Soma parcial
Definição 7
A soma dos n primeiros termos de uma sequência (an )
n
X
Sn = a1 + a2 + a3 + · · · + an = ak .
k =1
é chamada soma parcial.
Séries
Definição 8
Uma série infinita, ou simplesmente série, é obtida somando
todos os termos de uma sequência (an ). Denotamos a série
a1 + a2 + a3 + a4 + . . . + an + . . .
por
∞
X X
ak ou ak .
k =1
Convergência
Definição 9 (Série convergênte)
P
Se existir o limite lim Sn , dizemos que a série ak é
n→∞
convergente e a soma
+∞
X
S = lim Sn = ak
n→∞
k =1
será chamado a soma das séries. P
Se o limite não existir, diremos que ak é divergente.
Exemplo 29
Algumas séries de números reais são:
∞
X 1
1
k!
k =0
∞
X 1
2
5k
k =0
X∞
3 k
k =0
X∞
4 c, c ∈ R é uma constante.
k =0
Exemplo 30
A soma dos n primeiros termos de uma sequência aritmética é
dada por
Sn = a1 + a2 + · · · + an−1 + an . (1)
Note que esta soma pode ser reescrita como:
Sn = an + an−1 + · · · + a2 + a1 . (2)
Somando as expressões (1) e (2), obtenos que
2Sn = (a1 + an ) + (a2 + an−1 ) + · · · + (an−1 + a2 ) + (an + a1 ).
Segue das propriedades da sequência aritmética que a soma
dos termos simétricos é
ak + an+1−k = a1 + (k − 1)r + a1 + (n + 1 − k − 1)r
= a1 + a1 + (n − 1)r
= a1 + an .
Logo, podemos escrever
2Sn = (a1 + an ) + (a1 + an ) + · · · + (a1 + an ) + (a1 + an )
= (n + 1)(a1 + an ),
e, deste modo,
(n + 1)(a1 + an )
Sn = .
2
P
Se n → ∞, então (Sn ) diverge e, portanto, ak diverge.
Exemplo 31
Considere a série geométrica, de termo geral an = q n−1 .
Temos que
Sn = 1 + q + q 2 + · · · + q n−1 .
Se q = 1, então é imediato
P que Sn = n. Segue que (Sn )
diverge e, portanto, ak diverge.
Suponhamos q ̸= 1. Multiplicando por Sn por q obtemos
qSn = q + q 2 + q 3 + · · · + q n
= 1 + q + q 2 + q 3 + · · · + q n−1 + q n − 1
= Sn + q n − 1.
qn − 1 P
Assim, Sn = . Portanto, ak converge se, e somente
q−1
se, |q| < 1 e, neste caso,
+∞
X 1
ak = .
1−q
k =1
Sequências numéricas -
Ensino de Matemática
As sequências possibilitam o estudo de padrões e
regularidades;
São utilizadas no estudo de progressões (PA, PG);
As fórmulas de juros simples e juros compostos são
aplicações de sequências (PA e PG).
☞ A fórmula dos juros simples é uma PA, com
a1 = C + C · i e r = C · i
M(n) = C + C · i · n.
☞ A fórmula dos juros compostos é uma PG, em que
a1 = C(1 + i) e q = 1 + i.
M(n) = C(1 + i)n .
Cultura Matemática -
Número de Euler
Podemos definir o número de Euler e por meio
do limite
da
1 n
sequência cujo termo geral é dado por an = 1 +
n
n
1
e = lim 1+ .
n→∞ n
Este número também pode ser obtido pela uma série
infinita
∞
X 1
e= .
k!
k =1
Cultura Matemática -
Sequência de Fibonacci
A razão entre termos consecutivos tende à razão áurea:
√
Fn+1 1+ 5
lim = = φ ≈ 1,61803.
n→∞ Fn 2
Aplicação na natureza
Padrões em flores;
Espirais em conchas e pinhas;
Crescimento de galhos e folhas.
Aplicação na arte e arquitetura
Retângulo áureo em obras clássicas;
Proporções em pinturas e construções (Leonardo da Vinci,
Parthenon).
Aplicação em padrões de beleza
Estudos contemporâneos indicam que rostos considerados
“mais atraentes” tendem a apresentar proporções próximas
de φ entre: largura e altura do rosto; distância entre olhos,
nariz e boca.