0% acharam este documento útil (0 voto)
7 visualizações34 páginas

Análise de Casos Práticos de DIP

O documento apresenta uma série de casos práticos relacionados ao Direito Internacional Público (DIP), abordando questões como a aplicação de convenções, conflitos entre normas, e a formação de costumes. Cada caso explora diferentes cenários jurídicos, como a validade de tratados, obrigações decorrentes de convenções e a relação entre normas consuetudinárias e convencionais. As resoluções discutem a obrigatoriedade das regras e a responsabilidade dos Estados em cumprir acordos internacionais, mesmo diante de mudanças políticas ou interpretações divergentes.

Enviado por

Jessica Silva
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
7 visualizações34 páginas

Análise de Casos Práticos de DIP

O documento apresenta uma série de casos práticos relacionados ao Direito Internacional Público (DIP), abordando questões como a aplicação de convenções, conflitos entre normas, e a formação de costumes. Cada caso explora diferentes cenários jurídicos, como a validade de tratados, obrigações decorrentes de convenções e a relação entre normas consuetudinárias e convencionais. As resoluções discutem a obrigatoriedade das regras e a responsabilidade dos Estados em cumprir acordos internacionais, mesmo diante de mudanças políticas ou interpretações divergentes.

Enviado por

Jessica Silva
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

DIP – casos práticos

Caso nº1
Suponha que os estados A, B, C, D e E assinaram em 31 de janeiro de 2012 uma
convenção que codificava e completava o regime consuetudinário relativo ao rio X que
atravessava o território de todos eles.
A convenção determinava a sua entrada em vigor com o depósito do instrumento
de ratificação do 4º Estado (D) mas previa a aplicação imediata das partes III e IV
relativas ao controlo do cumprimento e a resolução de conflitos.
Em março de 2012, o Estado B deposita o seu instrumento de ratificação e
imediatamente solicita que sejam controladas as descargas de poluentes efetuadas pelo
estado D.
O Estado D recusa que esse controlo seja efetuado alegando que ainda não
estava vinculado á convenção. Acrescenta que, por outro lado, a sua ordem jurídica
assumidamente dualista não reconhece a vigência do direito internacional.
O Estado A protesta contra a posição do Estado D, recordando a expressa
previsão da aplicação imediata das regras convencionais relativas ao controlo do
cumprimento e chamando ainda á atenção de o facto de o regime relativo às descargas
ser mera codificação do costume existente na matéria.

Quid iuris?

3 questões jurídicas distintas:


1. Aplicação provisória das regras convencionais, importando conferir se obriga o
estado D mesmo antes da sua vinculação à convenção.

2. Caráter dualista da ordem jurídica do Estado D que não reconhecia a vigência do


direito internacional tornando necessário se obrigavam o estado D.

3. As regras relativas às descargas pré-existiam como regras consuetudinárias -


obriga a que se condene a diferença entre as fontes e a respetiva vigência.

Resolução:
1ª questão
® Nos termos do 24º CV69 – as cláusulas finais, que são a parte do dispositivo em
que se regula a entrada em vigor das convenções, entram em vigor com a
assinatura;
® Assim, a aplicação imediata das partes 3 e 4 da convenção – constitui uma
situação de aplicação provisoria regulada pelo 25º/1 CV69;
® Ao contrário do pretendido por D, este estava obrigado ao regime – sendo certo
que o caráter provisório e voluntário faz com que qualquer estado possa ainda
decidir não se vincular;
® Enquanto D pretender prosseguir o processo da sua vinculação, nada
comunicando em contrário, está vinculado.

Gabriela Pinto
2ª questão
® O Estado D refere que a sua ordem jurídica, assumidamente dualista, não
reconhecia a vigência do DI;
® A doutrina reconhece desde a 1ª metade do século XX um regime de
convergência que reconhece aos estados a liberdade de determinarem
constitucionalmente o regime relativo à aplicação do DI – mas isso não afasta a
obrigação de conformarem a sua ordem interna com os princípios do DI (27º
CV69);
® Ainda que a ordem constitucional do Estado D não reconhecesse a vigência do
DI – teria de cumprir as obrigações dele decorrentes, podendo (se assim o
entendesse) transformar as regras convencionais em atos de direito interno.

3ª questão
® O Estado A refere que o regime relativo às descargas era mara codificação do
costume já existente na altura (costume local);
® A ser verdade, as regras aplicar-se-iam independentemente da sua codificação
na convenção – impondo-se ao Estado D;

Conclusão
® Embora D ainda não se tivesse vinculado à convenção, estava obrigado a cumprir
as regras relativas às descargas (que se impunham enquanto regras
consuetudinárias) + a admitir o controlo de cumprimento que se lhe impunha,
embora as regras serem de aplicação provisória.

Caso nº2

Os Estados A, B e C celebraram uma convenção (tratado, ata, conferência –


diversificação da palavra) que garantia a livre circulação de pessoas entre os respetivos
Estados, abolindo assim os controlos aduaneiros.
2 anos mais tarde os Estados C, D e E celebraram uma convenção relativa à luta contra
o terrorismo, na qual todos se obrigavam a registar e lançar numa base de dados comum
todos os movimentos dos cidadãos não nacionais.
Os Estados A e B ao tomarem conhecimento desta nova convenção, protestaram junto
do Estado C alegando que o cumprimento por este acordado na 2ª convenção implicaria
a introdução de um obstáculo à liberdade de circulação de pessoas, já que impunha o
controlo de todos os movimentos. Como não obtiveram do estado C uma resposta
satisfatória, decidiram por fim à convenção no que tocava a este estado.
Quid Iuris?

Resolução:
® Problema central – conflito de regras convencionais;
® Cada Estado deve cumprir as obrigações assumidas com os outros Estados, nos
termos convencionados;

Gabriela Pinto
® Havendo incompatibilidade destas, se os Estados forem partes em ambas as
convenções, prevalece a mais recente – por se presumir a vontade de alterar ou
revogar a anterior;
® Não havendo identidade das partes, o Estado que seja parte em ambas deve dar
prevalência à primeira – sendo que em qualquer caso o Estado parte de qualquer
das convenções em relação à qual não sejam cumpridas as obrigações, pode
socorrer-se do regime do art. 30º CV69:
o Suscitar a modificação, cessação ou suspensão da sua vigência – 60º
CV69 – e responsabilizar internacionalmente o Estado C que violou as
suas obrigações.
® Neste caso importa saber se A ou B poderiam pôr fim à convenção?
o Parece que não – só poderiam reagir na medida em que C não cumprisse
as suas obrigações, já que perante a incompatibilidade C podia preferir
não cumprir com D e E.

Lex posteriori derrogat lex anteriori

Caso nº3

Suponha que ao longo dos anos 70, os Estados com tecnologia espacial, começaram
progressivamente a utilizar peças dos satélites abandonados na órbita geoestacionária,
nas operações de reparação dos satélites activos.

O governo chinês veio, no entanto, a protestar com veemência contra essa prática, por
forma a impedir o acesso à tecnologia por si desenvolvida. A questão gerou um extenso
debate, a vários níveis, incluindo a Assembleia Geral e o Conselho de Segurança das
Nações Unidas, do que resultaria uma convergência muito ampla favorecendo a prática
que vinha sido desenvolvida. Os estados, continuaram por isso a fazer uso dos satélites
abandonados, respeitando, todavia, a oposição chinesa, por forma a não criar atritos
com esta potência.

Já durante os anos 90, a Ucrânia veio protestar também contra esta prática, opondo-se
a que os seus satélites, depois de desactivados, pudessem ser utilizados para qualquer
finalidade (sem o seu acordo, o que sempre implicaria uma compensação). Apesar de
alguns estados insistirem haver um costume na matéria, a Ucrânia manteve a sua
posição, alegando nomeadamente que:

a) nunca havia aceitado tal prática como legítima;

b) trata-se, em todo o caso de mera tolerância da parte de alguns estados (sem que
existisse convicção da sua obrigatoriedade);

Gabriela Pinto
c) em qualquer caso, a oposição chinesa sempre teria impedido a formação de uma
regra consuetudinária; d) o decurso de tempo da prática nunca poderia ser considerado
suficiente para a formação de um costume.

Quid Iuris?

Caso nº4

Suponha que na WHO/OMS (Org. Mundial de Saúde) é aprovada em 2015 uma


resolução (185 votos favoráveis e 12 abstenções) reconhecendo que o uso pelas
autoridades de saúde dos Estados de princípios farmacêuticos objecto de patente em
situações de surto epidémico grave obriga o Estado ao pagamento das royalties apenas
na medida das suas capacidades económicas devendo as O.I. contribuir sempre que
existissem riscos de disseminação.

Em 2016 o Estado A, na sequência de longos anos de guerra civil e com uma economia
depauperada, colocado perante um surto galopante de uma estirpe virulenta de gripe,
decide efectuar vacinações generalizadas de um produto farmacêutico inovador.

O Estado B, em cujo território tem sede a farmacêutica que inventou e registou o


produto, veio em apoio desta exigindo o pagamento integral das doses ao preço
estabelecido no mercado.

A OMS e o Estado A invocam a resolução do ano anterior, afirmando ter formado um


costume.

B responde negando a existência de tal regra por se tratar de mera declaração de um


O.I., por não terem decorrido mais de 6 meses (o que impediria a formação de um
costume) e ainda por se ter abstido, aquando da vocação – o que era suficiente para
demonstrar não haver, da sua parte, consentimento.

Quid Iuris?

Caso nº5

Em 2010 é concluída no quadro das Nações Unidas uma convenção que estabelecia o
alargamento do mar territorial das 12 para as 15 milhas marítimas.

Aquando da negociação os Estados A e B manifestaram a sua total oposição ao


alargamento, votando contra e recusando posteriormente a sua vinculação.

Em 2014 o Estado X pretendendo evitar o envolvimento num conflito regional impede a


passagem de navios militares de A e D na faixa entre as 12 e as 15 milhas marítimas,
invocando o costume formado nessa matéria a partir da regra convencional.

Gabriela Pinto
Ambos os Estados protestam
a) Por entenderem haver uma confusão entre regras convencionais e
consuetudinárias;
b) Por, em qualquer caso, não se considerem vinculados a qualquer regra
consuetudinária eventualmente formada já que A sempre se opusera à mesma e D
(que acedera à independência em 2012) não havia dado o seu consentimento.

Quid Iuris?

Caso nº6

Em 2015 foi aprovada, por unanimidade e aclamação, na Assembleia do Conselho da


Europa, uma resolução que solenemente declarava banida a pena de morte no
continente.

Desde essa data nunca mais foi aplicada a dita sanção.

No corrente ano as autoridades húngaras pretendem a aplicação da pena de morte (que


continua prevista na lei por não ter ocorrido qualquer alteração formal) num caso de
grande impacto público.

A defesa do cidadão em causa invocou a resolução de 2015 para evitar tal condenação,
mas o governo húngaro - cujo partido de apoio prometeu no debate eleitoral de 2016,
voltar a aplicar da pena de morte – impôs ao Ministério Público que, nesse sentido,
solicitasse essa aplicação, naquele caso.

Em duas sentenças anteriores (de 2015 e 2016) os tribunais húngaros haviam


considerado que a Resolução de 2015 formara costume impedindo, por isso, a aplicação
da pena de morte prevista na lei.

Quid Iuris?

Caso nº7

A linha que estabelece a fronteira entre os Estados A, B e C é atravessada em diversos


pontos por um desfiladeiro que historicamente era utilizado pelas populações locais
como via de atravessamento do maciço montanhoso.

Em anos mais recentes, depois de A, B e C terem acedido à independência, surgiram


diversos conflitos fronteiriços durante os quais o atravessamento do desfiladeiro ficou
reduzido a pessoas e comércio (sendo, portanto, vedado o uso para veículos ou forças
militares).

Gabriela Pinto
A dada altura B pretende reforçar definitivamente as suas fronteiras limitando o uso do
desfiladeiro à circulação sujeita ao controlo fronteiriço que funcionava irregularmente,
era muito demorado e impunha o pagamento de taxas de acesso.

A e C protestam, lembrando a prática histórica e insistindo mesmo no reconhecimento


também histórico da sua obrigatoriedade – o qual era patente em diversa
documentação e diferentes actos das autoridades coloniais que exerceram o poder
naquele território.

B responde entender não haver qualquer prática consistente (face nomeadamente às


alterações ocorridas nos conflitos recentes) nem lhe ser oponível a eventual convicção
da obrigatoriedade da potência colonial. Acrescentava ainda que em qualquer caso, o
costume nunca lhe seria aplicável já que a sua ordem constitucional soberana não
reconhece tal fonte de direito.

Quid Iuris?

Caso nº8

O Estado C, dispondo de importantes recursos minerais inexplorados, estabeleceu com


o Estado D e as empresas X e Y, um acordo nos termos do qual estas realizariam os
avultados investimentos necessários à exploração dos referidos recursos e assegurariam
ainda a sua colocação no mercado internacional. Em contrapartida, C expressava a
garantia formal de que os bens das empresas em causa não seriam objecto de
nacionalização e era ainda garantida toda a liberdade no eventual repatriamento dos
lucros.

Entretanto, ocorre um golpe de estado em C e o novo governo decreta a nacionalização


de todos os bens das indústrias extractivas, incluindo, portanto, os das empresas X e Y.
Estas protestaram invocando o acordo estabelecido, mas C contra-argumentou
lembrando que, tratando-se de um mero contrato, nada impedia este estado soberano
de alterar livremente as regras aplicáveis. Recordava ainda que tendo ambas as
empresas sido adquiridas por uma multinacional americana, haviam perdido a
nacionalidade de D, não se lhes aplicando por isso, de qualquer modo, o acordo
estabelecido.

Quid Iuris?

Caso nº 9

O Estado Z, recentemente chegado à independência e não dispondo dos meios


necessários para a exploração dos seus importantes recursos marinhos, estabeleceu
com o Estado U um memorando de entendimento nos termos do qual o Ministério das

Gabriela Pinto
pescas deste estado, organizaria e acompanharia um processo de criação de empresas
mistas que deveriam desenvolver o sector.

Algum tempo depois, o governo de Z entende ser desadequado o apoio prestado por U
e comunica a este a sua intenção de reorganizar o sector directamente, pelo que
dispensava o seu apoio.

O governo de U opôs-se à decisão, por considerar que não poderia Z unilateralmente


terminar com o acordo, no que iria entre outros, prejudicar os interesses dos
investidores de U que haviam criado as empresas mistas, não permitindo a este Estado
ver recuperados os importantes financiamentos por si assegurados no processo.

Z insistiria na legitimidade da sua posição decorrente do facto de o memorando de


entendimento acordado, não poder enquanto tal, ser considerado como uma
convenção vinculativa, pelo que mantinha plena liberdade de desvinculação a todo o
tempo.

Quid Iuris?

Gabriela Pinto
DIP – casos práticos 2º ponto escrito

Caso prático nº1


Os Estados F, G e H celebraram uma convenção que criava uma força comum de
patrulhamento das fronteiras terrestres e marítimas. Já depois da entrada em vigor da
convenção, os Estados F e G tomam conhecimento de que a forma de cálculo aplicável
à repartição das despesas que tinha sido apresentada pelo Estado H assentava em
pressupostos incorretos e, por isso, prejudicava substancialmente ambos os Estados.
Face a este circunstancialismo, responda:

1. Pronuncie-se quanto à validade da convenção.


® O uso de pressupostos incorretos que prejudicaram o Estado E e G na
repartição das despesas da força comum do patrulhamento das
fronteiras, constitui dolo nos termos do 49º CV69, já que da parte do
Estado H houve uma conduta fraudulenta que induziu os demais
Estados em erro;
® O dolo gera uma nulidade relativa, ou seja, os Estados cujo
consentimento foi afetado podem invocar o vício e se assim o
entenderem, podem ponderar da eventualidade dessa invocação se
dirigir apenas a parte do tratado;
® Divisibilidade – 44º/3 e 4 CV69 – podem ainda considerar o vício
sanado.

2. Explique se o Estado G, ao tomar conhecimento da situação, poderia


considerar-se imediatamente desvinculado e exigir a devolução das
contribuições por si efetuadas.
® Sendo que o consentimento do Estado G foi afetado pelo dolo do
Estado H, este tem legitimidade para invocar o vício – 49º CV69;
® Não pode, todavia, considerar-se imediatamente desvinculado –
devendo seguir o procedimento previsto nos 65º e ss CV69, isto é,
comunicar a sua constatação indicando da sua intenção, concedendo
um prazo não inferior a 3 meses para que os demais Estados se
possam pronunciar;
® Se, da parte destes houvesse oposição, deveriam recorrer a um dos
mecanismos de resolução pacífica de conflitos e se, no prazo de 1 ano
não obtivessem solução, poderia dar início ao procedimento de
conciliação previsto no anexo da CV69;
® Havendo nulidade, a qual decorreria do vício referido na resposta
anterior (dolo) – esta tem como efeito a retroatividade, ou seja,
qualquer parte poderia solicitar a reposição da situação que existiria
se a convenção não tivesse sido aplicada;

1 Gabriela Pinto
® Nesse sentido, poderia exigir a devolução das contribuições por si
efetuadas, no entanto, os atos praticados de boa-fé antes da
nulidade de um tratado haver sido invocado, não serão afetados pela
nulidade do tratado – o que significa que as despesas importantes
realizadas de boa-fé se mantinham.

3. Indique qual seria a intervenção do PR se o Estado português se vinculasse a


esta convenção.
® Tratando-se de uma convenção que criava uma força comum de
patrulhamento das fronteiras, esta revestiria a forma de um tratado
solene (161º/i CRP);
® A competência de aprovação dos tratados solenes é da AR por se
encontrar nesta mesma norma, e deve aprovar através de resolução
(166º/5);
® O PR poderia eventualmente suscitar a fiscalização preventiva da
constitucionalidade (278º/1 + 134º/g):
o Não havendo qualquer vício – se o PR entendesse que a
vinculação era politicamente adequada deveria ratificá-la (+
posterior referenda ministerial).

Caso prático nº2


Suponha que a CDI foi encarregue pela assembleia geral das nações unidas de codificar
e de desenvolver o regime relativo aos mecanismos de luta contra a pirataria no mar
alto.
A CDI apresentou a sua proposta na sessão de 2015, tendo a assembleia geral dos
Estados Unidos aprovado a mesma e recomendado que o texto constituísse a base de
uma convenção.
Foi imediatamente aberto um período de 90 dias para que os Estados-membros
pudessem efetuar a assinatura diferida, à qual sucederia a ratificação que produziria a
vinculação no 1º dia do segundo mês subsequente.
O texto da convenção previa ainda que, findo o prazo estabelecido para a assinatura
diferida (31 de janeiro de 2016), os Estados poderiam aderir comunicando essa intenção
ao secretário-geral das Nações Unidas que exerceria as funções de depositário,
ocorrendo a vinculação no 1º dia do 2º mês subsequente.
Era também referido no texto que a convenção entraria em vigor com a vinculação do
15º Estado.
Em 31 de janeiro de 2016 haviam assinado a convenção 20 Estados. Em 15 de abril de
2016 os Estados X e Y pediram a adesão.
Em junho de 2016, 13 Estados haviam depositado o instrumento de ratificação, mas um
deles (M) juntou uma declaração limitando a sua participação em eventuais operações
de patrulhamento. Os Estados A e B aceitam em 1 de julho de 2016 e os restantes não
se pronunciaram.

2 Gabriela Pinto
Em 1 de Agosto, o Estado N depositou o seu instrumento de ratificação seguido pelo
Estado O, a dia 15 do mesmo mês.
Explique em que data entrou em vigor a convenção?

Resolução:
® A entrada em vigor da convenção terá ocorrido, nos termos da mesma, com a
vinculação do 15º Estado-membro;
® Importa por isso conferir quando é que o 15º estado-membro se vinculou;
® Os primeiros estados a vincularem-se terão sido os estados X e Y a 1 de junho de
2016, por aplicação da regra que está fixada no tratado, isto nos termos do 15º/a
CV69 a qual dispensava qualquer aceitação;
® Dos 13 Estados que depositaram o seu instrumento de ratificação em 1 junho de
2016, 12 vincularam-se a 1 de agosto – nesta data temos 14 estados vinculados;
® A vinculação do Estado M ficou dependente da aceitação da sua reserva – a
declaração limitava a sua participação em eventuais ações ou operações de
patrulhamento da qual decorria a pretensão de que na aplicação da convenção
a este estado fosse contemplada essa especialidade;
® Tratando-se de uma convenção multilateral geral (já que celebrada pelas nações
unidas) basta a aceitação por um Estado para que a vinculação se possa produzir
– art. 20º/4 CV69;
® Isto aconteceu em 1 de julho de 2016 - pelo que a vinculação ocorreria em 1 de
setembro do mesmo ano, por aplicação da regra fixada no tratado;
® A 1 de setembro o 15º Estado vinculou-se, portanto, a convenção entra em vigor.

Caso prático nº3


A assembleia geral das NU, aprovou em 10 de setembro de 2016 o texto de uma
convenção-quadro, sobre a determinação das fronteiras que lhe foi proposta CDI,
submeteu-a à assinatura dos Estados-membros que entendessem fazê-lo, no prazo de 1
semana, seguindo-se os demais trâmites da vinculação.
No texto da convenção determinava-se que esta entraria em vigor no 1º dia do mês
seguinte ao depósito do 35º instrumento de vinculação. Estipulava ainda, que a adesão
poderia ocorrer após a entrada em vigor, através do depósito do respetivo pedido junto
do SG.
Em 15 de outubro, 35 estados haviam depositado o respetivo instrumento de
vinculação, mas 2 deles haviam formulado reservas. Em 2 de novembro, 5 estados-
membros haviam aceitado as reservas, 2 tinham objetado as mesmas e os demais não
haviam sequer pronunciado.

3 Gabriela Pinto
Nesse enquadramento, responda:
1. Se o dispositivo da convenção contrariasse uma regra consuetudinária,
formada entre estados africanos, aqueles que a ela se vinculassem deveriam
aplicar nas suas relações mútuas a regra consuetudinária ou a regra
convencional?
® Não havendo hierarquia nas fontes de direito internacional, as regras
convencionais podem alterar a revogar as regras consuetudinárias e vice-
versa;
® Assim, nas relações entre estados africanos que estivessem previamente
obrigados às regras consuetudinárias e se vinculassem posteriormente à
convenção, aplicar-se-iam as normas convencionais contrárias às normas
consuetudinárias, por se considerar que aquelas alteraram estas.

2. Em 5 de dezembro o Estado A depositou junto do SG o pedido de adesão. Deve


este aceitá-lo?
® Tratando-se de um tratado multilateral geral (por se celebrar sobre a
égide das Nações Unidas), a aceitação de reservas por 1 estado parte é
suficiente para que a vinculação ocorra – 20º CV69;
® A aceitação por 5 estados em 2 de novembro das reservas formuladas
por 2 dos estados que haviam depositado o respetivo instrumento de
vinculação – produz a vinculação destes e, portanto, a entrada em vigor
da convenção a 1 de dezembro;
® Quando o Estado A depositou o seu pedido de adesão – 5 dez – a
convenção estava em vigor, pelo que por aplicação do regime previsto no
próprio texto, a adesão processava-se automaticamente, devendo,
portanto, o pedido ser aceite pelo depositário, isto é, o secretário-geral
das NU e comunicada às partes – conforme o art. 77º CV69.

3. Poderia o PR impedir a vinculação do Estado português a esta convenção,


contrariando a vontade expressa da AR e do governo?
® A convenção em causa revestiria, no caso da vinculação do Estado
português, a forma de tratado solene – por integrar a 1ª parte do 161º/i
CRP (retificação de fronteiras):
o Por isso, a aprovação do tratado é da competência da AR
(resolução – 166º/5).
® Assim, a intervenção do PR consistiria, além da solicitação da eventual
fiscalização preventiva da constitucionalidade (134º/g + 278º/1), no que
diz respeito à ratificação (135º/b) – ato livre e não vinculado, ao
contrário da assinatura;
® Nestes termos, se o PR discordasse politicamente do conteúdo da
convenção poderia recusar o ato de ratificação, impedindo a vinculação
do estado português, mesmo contrariando a vontade expressa do
governo e da AR.

4 Gabriela Pinto
Caso prático nº4
Suponha que os representantes dos Estados A, B, C e D assinaram em 31 de janeiro de
2015 uma convenção que codificava o costume regional relativo ao trânsito marítimo
nas águas territoriais. O texto da convenção estipulava que a mesma se aplicaria desde
a assinatura e que entraria em vigor com o depósito do instrumento de ratificação do
3º Estado.
Os estados A, B e D depositaram os respetivos instrumentos de ratificação
simultaneamente em 12 de junho de 2015, tendo D formulado uma reserva que excluía
a aplicação do regime em situações de conflito armado relativamente a quaisquer navios
de estados beligerantes, ou com destino aos portos destes.
Os Estados A e B aceitaram imediatamente a reserva, ao passo que o Estado C (apenas
depositou o instrumento de ratificação em 1 de agosto) não se pronunciou.
Em julho de 2015, o Estado E solicitou a adesão que foi imediatamente aceite pelos
estados A, B e D.

Face ao circunstancialismo descrito, responda:

1. Estaria o Estado C obrigado a cumprir o regime convencional em julho de 2015?


® O Estado C poderia estar obrigado ao cumprimento do regime por duas
ordens de razões distintas, em primeiro lugar, porque tratando-se da
codificação do costume o regime consuetudinário manter-se-ia em vigor,
obrigando todos aqueles que não houvessem protestado aquando da sua
formação – conforme o regime de objeção persistente conclusão 15 –
adotado pelo comité de redação da CDI;
® Por outro lado, uma vez que a convenção se aplicava desde a assinatura
“regime de aplicação provisória” (art. 25º CV69), isso obrigava também o
Estado C enquanto este não comunicasse a intenção de não contemplar
o processo de vinculação.

2. Os estados B e E são partes da convenção? Se sim, desde quando?


® Tendo o Estado D formulado uma reserva no quadro de uma convenção
multilateral restrita, a vinculação a esta pressupõe a aceitação de
todos – 20º/2 CV69;
® A não pronúncia do Estado C vale como aceitação, mas só depois de
decorridos 12 meses após a formulação da reserva, pelo que a
vinculação do estado D ocorreria em 2 de agosto de 2016 – 20º/5 CV69;
® O Estado E solicitou a adesão e, nada dispondo a convenção sobre o
assunto, esta apenas ocorre quando todos os Estados expressamente
a aceitarem – 15º/c CV69;
® Não havendo presunção de aceitação dos pedidos de adesão, não
tendo C aceite a mesma, a vinculação do Estado C não terá ocorrido.

5 Gabriela Pinto
Caso prático nº5
Suponha que os Estados A, B, C e D criaram uma comissão de codificação do costume
relativo à exploração e utilização das águas de um mar interior que banhava o território
destes.
A referida comissão propôs, no seguimento do seu trabalho, a celebração de uma
convenção, indicando expressamente as regras resultantes do processo de codificação
e as que correspondiam a um desenvolvimento do mesmo.

Responda:

1. Estaria o Estado B obrigado a cumprir uma regra da dita convenção,


justificando o facto com a sua recusa em vincular-se à mesma e, ainda, ao facto
de a sua ordem jurídica ser estritamente dualista?
® Não estando vinculado à convenção, o Estado B não teria que a cumprir,
na medida em que esta apenas produz efeitos para as partes (34º CV69);
® Todavia, no caso das regras que codificassem costume, este estaria ainda
obrigado a cumpri-las, nessa mesma qualidade;
® Relativamente ao caráter dualista da ordem do Estado B (o qual afastaria
as regras consuetudinárias e o direito internacional enquanto tal), deve
ter-se presente que os Estados têm liberdade para adotar o regime de
direito internacional que entendam;
® Não obstante, é unanime na doutrina e jurisprudência que, essa
liberdade não admite que estes possam deixar de cumprir as obrigações
resultantes de direito internacional (27º CV69);
® Significa isto que, se a ordem jurídica do Estado B não reconhecesse o
direito internacional enquanto tal, para assegurar o cumprimento das
obrigações dessa natureza deveria transformar as regras em atos
internos, dos quais resultassem as mesmas obrigações;
® Direta ou indiretamente, o Estado B estava obrigado a cumprir o regime
consuetudinário, sob pena de responder internacionalmente pelos
danos resultantes desse incumprimento.

2. Explique se as regras convencionais de desenvolvimento poderiam dar lugar a


novos costumes.
® É pacífico que as regras convencionais podem dar origem a regras
consuetudinárias, servindo de ponto de partida a uma prática geral com
a convicção da sua obrigatoriedade.

6 Gabriela Pinto
Caso prático nº6
Suponha que os estados E, F e G celebraram em janeiro de 2015 uma convenção com
vista à colaboração policial na luta contra crimes violentos, optando por aplicá-la desde
logo (ou seja, enquanto decorria o processo de vinculação em casa um dos Estados).
Os Estados E e F vincularam-se em março do mesmo ano, e o Estado G depositou em
Abril o documento tendo em vista à vinculação, no entanto, formulou uma reserva no
sentido de condicionar a disponibilização de danos sensíveis à prévia autorização do
ministro da tutela. O Estado E aceitou imediatamente essa reserva, mas o Estado F não
se pronunciou.
Responda:

1. Poderia o Estado F recusar-se a cumprir uma obrigação convencional em


fevereiro de 2015?
® O Estado F ainda não se havia vinculado à convenção, no entanto, os
Estados haviam acordado quanto à aplicação provisória da mesma (25º
CV69);
® Por força da aplicação provisória da convenção, F estava obrigado, mas
não se tratando de vinculação definitiva podia recusar esta vinculação,
desobrigando-se da obrigação provisória – art. 25º/2 CV69.

2. Estará o Estado G vinculado à convenção em junho de 2016?


® Sendo uma convenção restrita, a reserva tinha de ser aceite por todas as
partes, ou seja, os Estados E e F – 20º/2 CV69;
® Apenas o Estado E aceitou, uma vez que o Estado F não se pronunciou;
® Quer isto dizer que, a vinculação de G só aconteceria quando F aceitasse
a reserva ou, mantivesse o silêncio durante 12 meses sobre a data da
formulação da reserva – 20º/5 CV69;
® Ou seja, mantendo-se F em silencio, a vinculação de G ocorreria em abril
de 2016.

3. Qual seria a intervenção do PR se o Estado português se vinculasse a esta


convenção?
® A cooperação policial não integra o elenco da 1ª parte do 161º/i
(tratados solenes), pelo que a convenção revestiria a forma de acordo em
forma simplificada;
® Não integrando também as matérias de reserva legislativa do 164º e 165º
CRP, a competência de aprovação seria do governo (197º/1/c) – tendo
este a competência para aprovar por decreto simples (197º/2);

7 Gabriela Pinto
® Uma vez aprovada, a convenção e o próprio decreto de aprovação são
enviados ao PR para que este eventualmente possa suscitar a fiscalização
preventiva da constitucionalidade (134º/g + 278º/1);
® Não padecendo a convenção de nenhuma inconstitucionalidade, a
intervenção do PR nos acordos em forma simplificada será a da
assinatura do ato de aprovação:
o A falta de assinatura do ato de aprovação determina a
inexistência jurídica do ato de aprovação – 137º ou 140º/2 CRP.

® Nos acordos em forma simplificada, o PR só pode recusar a assinatura do


ato de aprovação se houver uma inconstitucionalidade – dado o seu
caráter vinculado e interno (recai sobre o ato de aprovação / efeitos
internos);
® Da intervenção do PR, ou seja, dos atos de ratificação ou assinatura, é
exigida referenda ministerial – 140º/1;
® O texto da convenção e os avisos relativos à aprovação e assinatura
devem depois, ser publicados no diário da república, sob pena de
ineficácia – 119º/1/d + 119º/2 CRP.

Caso prático nº7


Os Estados A, B, C e D concluíram uma convenção que regulava o uso, nos respetivos
territórios, de moedas digitais.
Aquando do depósito do instrumento de vinculação, em janeiro de 2016, o Estado B
juntou uma declaração nos termos da qual considerava que a referida convenção não
se aplicava a eventuais unidades de conta eventualmente usadas pela administração
tributária para efeitos orçamentais.
B informava ainda os demais Estados que considerava a questão tao relevante que
condicionava a sua vinculação ao reconhecimento desse âmbito de aplicação.
A e c declararam imediatamente ser esse o seu entendimento dos termos
convencionais, mas D, envolvido em complexos processos eleitorais, não se pronunciou.

Responda:

1. Estaria B obrigado pela convenção em Março de 2016?


® O Estado B, de acordo com as diretivas 1.2 e ss do GPR formulou uma
declaração interpretativa:
o Uma declaração unilateral através da qual se visa clarificar o
sentido ou alcance de um tratado ou de algumas das suas
disposições;

8 Gabriela Pinto
® ≠ das reservas uma vez que não visam excluir ou modificar o efeito
jurídico de disposições convencionais, apenas clarificar o seu
significado, visando na maioria das vezes, garantir a adequação das
regras convencionais com o direito interno:
o Portanto, delas não resulta qualquer afetação das obrigações
do Estado, nem surgem como condicionantes à vinculação –
diretiva 1.3.
® Acontece que o Estado B formulou uma declaração interpretativa e
condicionou a sua vinculação ao reconhecimento dessa declaração por
todos os outros Estados – declaração interpretativa condicional
(diretiva 1.4);
® Assim nos termos do nº2 da D1.4. GPR – estas estão sujeitas às
normas aplicáveis às reservas (19º e ss CV69);
® Nos termos do 20º/2 CV69 – tratando-se de uma convenção
multilateral restrita, a reserva teria de ser aceite por todas as partes,
para que ocorresse a vinculação do Estado B;
® Ora, A e C aceitaram a mesma, no entanto D não se pronunciou:
o Significa isto que a vinculação de B só ocorreria quando D
aceitasse a sua reserva, ou no caso de este continuar em
silêncio até ao decurso de 12 meses da data em que recebeu
a notificação – 20º/5 CV69;
® Assim, em Março de 2016 o Estado B ainda não estava vinculado à
convenção.

2. Se Portugal se vinculasse a esta convenção, qual seria a intervenção do governo


no processo?
® A competência para a negociação das convenções é da competência
exclusiva do governo (197º/1/b CRP), que o faz através do MNE ou
por iniciativa dos restantes ministérios;
® A assinatura da convenção é também competência exclusiva do
governo (197º/1/b), cuja prática é reservada ao conselho de
ministros ou ao PM.
® O mecanismo de vinculação portuguesa apresenta uma
particularidade (8º/2 CRP) – a da aprovação.
® A competência de aprovação é partilhada pelo governo (197º/1/c) e
pela AR (161º/i + 164º + 165º);
® Importa salientar que a competência do governo apresenta natureza
subsidiária, isto é, apenas aprova acordos internacionais (forma
simplificada), cuja competência não seja atribuída à AR;

9 Gabriela Pinto
® Para aferir qual dos órgãos teria competência, importa aferir em 1º
lugar do art. 161º/i CRP, que elenca determinadas matérias que
devem revestir forma de tratado solene, cuja competência de
aprovação cabe à AR:
o Esta convenção regula o uso de moedas digitais, não
parecendo por isso integrar as matérias que devam revestir
forma de tratado solene;
® É ainda, da competência da AR aprovar acordos internacionais que
versem sobre a sua matéria legislativa reservada – importa aferir dos
artigos 164º e 165º CRP:
o Parece esta matéria enquadrar-se no art. 165º/1/o, sobre o
sistema monetário – devendo por isso a convenção revestir
forma de acordo em forma simplificada e é da competência de
aprovação da AR;
® Nos termos do 166º/5 – a AR aprova por resolução e o texto
convencional deve ser enviado ao PR, bem como a resolução de
aprovação;
® Embora a vinculação nos acordos em forma simplificada possa
depender apenas da aprovação, a intervenção do PR no processo de
vinculação internacional é sempre obrigatória;
® Em primeiro lugar, cabe ao PR suscitar a eventual fiscalização
preventiva da constitucionalidade (134º/g + 278º/1), enviando a
convenção para o TC;
® Não padecendo de qualquer vício, o PR deve, no caso dos acordos em
forma simplificada, assinar o ato de aprovação, neste caso, a
resolução da AR:
o A falta de assinatura do ato de aprovação leva à inexistência
jurídica do ato de aprovação 137º ou 140º/2 CRP.

Nota: Portugal vincula-se pela ratificação (tratados) ou pela aprovação (acordos) – 8º/2
CRP. No entanto, para que a aprovação produza os seus efeitos vinculativos, o PR tem
de assinar o ato, sob pena de inexistência do próprio ato de aprovação.

® Tratando-se a assinatura de um ato vinculado e interno, uma vez que


recai sobre o ato de aprovação e apenas produz efeitos internos, o PR
apenas pode recusar a mesma em caso de inconstitucionalidade;
® O governo intervém posteriormente, uma vez que o 140º/1 impõe
referenda ministerial dos atos de ratificação ou assinatura do PR –
sob pena de inexistência jurídica (140º/2);
® É ainda exigida a publicação do texto convencional + avisos de
ratificação e outros, no diário da república, sob pena de ineficácia
(119º/1/d + 119º/2).

10 Gabriela Pinto
Caso prático nº8
Os Estados A, B, C, D e E celebraram em janeiro de 2020 uma convenção criando um
imposto comum sobre transações bolsistas.
O texto do tratado dispunha que entraria em vigor no 1º dia do 2º mês após a vinculação
(que decorria da ratificação) do 4º Estado.
A, C e D depositaram o seu instrumento de ratificação em 1 de outubro, 15 de outubro
e 5 de novembro de 2020.
A carta de ratificação de C incluía, todavia, uma declaração nos termos da qual este
Estado se reservava ao direito de não aplicar o dito imposto às transações que o governo
viesse a considerar essenciais ao seu desenvolvimento económico.
A comunicou imediatamente a sua aceitação, enquanto B, D e E não se pronunciaram.
Em 20 de abril de 2021, B comunicou a sua ratificação, sendo seguido por E, dois meses
depois.

Responda:

1. Explique em que data entrou em vigor a convenção.


® A entrada em vigor não consubstancia uma fase da conclusão da
convenção, e está referida nos artigos 24º e 25º da CV69;
® Tal como previsto no 24º/1, o próprio texto convencional estabelece a
data de entrada em vigor da convenção, estando esta condicionada ao
depósito do instrumento de ratificação do 4º Estado;
® A, C e D foram os primeiros 3 estados a ratificar a convenção, ato pelo
qual afirmam a vontade de se vincularem à convenção cujo texto havia
sido por eles assinado;
® Acontece que C formula uma reserva (declaração unilateral feita por um
Estado no momento da sua vinculação, com vista a modificar ou excluir o
efeito jurídico de certas disposições do tratado na sua aplicação a esse
mesmo estado);
® Tratando-se de uma convenção multilateral restrita, que não têm
vocação integrativa, nos termos do 20º/2 CV69 deve ser aceite por todas
as partes para que a vinculação do Estado C ocorra:
o Ora, o Estado A manifestou a sua aceitação, no entanto, os
restantes não se pronunciaram;
o Perante este silêncio – nos termos do 20º/5 CV69 – a vinculação
do Estado C só iria ocorrer quando os restantes Estados
aceitassem a sua reserva ou, se não formulassem qualquer
objeção no prazo de 12 meses da data em que receberam a
notificação;
o Ou seja, a reserva do Estado C iria ser dada como aceite a 15 de
outubro 2021.
® A 20 de abril B ratificou – aqui temos 3 estados vinculados à convenção
(A, D e B);

11 Gabriela Pinto
® E, 2 meses depois, ou seja, em junho de 2021 ratificou o tratado – 4º
Estado a vincular-se;
® Assim sendo, tendo sido a ratificação por parte do 4º Estado em junho de
2021, a convenção entraria em vigor no dia 1 de Agosto de 2021.

2. Supondo que a declaração de C consubstanciasse uma declaração


interpretativa, seria diferente a solução?
® As declarações interpretativas (diretiva 1.2) são declarações unilaterais
através das quais se visa clarificar o sentido ou alcance de um tratado ou
de algumas das suas disposições;
® Distinguem-se das reservas uma vez que, não visam excluir ou modificar
o efeito jurídico de disposições convencionais, e delas não resulta
qualquer afetação das obrigações do Estado, nem surgem como
condicionantes à vinculação;
® As declarações podem ser formuladas a todo o tempo e não precisam de
confirmação, podendo também ser levantadas a qualquer momento –
diretivas 2.4.4 + 2.4.6.
® Assim sendo, a resposta à alínea anterior seria distinta uma vez que, a
vinculação do Estado C teria sido a 15 de outubro de 2020 – a esta data
teríamos 3 estados já vinculados (A, C e D);
® Assim, a entrada em vigor da convenção seria no primeiro dia do 2º mês
subsequente à vinculação de B, que ocorreu a 20 de abril de 2021 – a
convenção entra em vigor a 1 de junho de 2021 com o depósito de
ratificação do 4º Estado (B).

3. Caso Portugal se pretendesse vincular, qual seria a intervenção do PR?


® A competência para a negociação das convenções é da competência
exclusiva do governo (197º/1/b CRP), que o faz através do MNE ou
por iniciativa dos restantes ministérios;
® A assinatura da convenção é também competência exclusiva do
governo (197º/1/b), cuja prática é reservada ao conselho de
ministros ou ao PM.
® O mecanismo de vinculação portuguesa apresenta uma
particularidade (8º/2 CRP) – a da aprovação.
® A competência de aprovação é partilhada pelo governo (197º/1/c) e
pela AR (161º/i + 164º + 165º);
® Importa salientar que a competência do governo apresenta natureza
subsidiária, isto é, apenas aprova acordos internacionais (forma
simplificada), cuja competência não seja atribuída à AR;

12 Gabriela Pinto
® Para aferir qual dos órgãos teria competência, importa aferir em 1º
lugar do art. 161º/i CRP, que elenca determinadas matérias que
devem revestir forma de tratado solene, cuja competência de
aprovação cabe à AR:
o Esta convenção cria um imposto comum sobre transações
bolsistas, não parecendo por isso integrar o elenco de
matérias que devam revestir a forma de tratado solene do
161º/i.
® É ainda, da competência da AR aprovar acordos internacionais que
versem sobre a sua matéria legislativa reservada – importa aferir dos
artigos 164º e 165º CRP:
o Parece esta matéria enquadrar-se no art. 165º/1/i que
reserva à AR a criação de impostos – devendo por isso a
convenção revestir forma de acordo em forma simplificada e
é da competência de aprovação da AR;
® Nos termos do 166º/5 – a AR aprova por resolução e o texto
convencional deve ser enviado ao PR, bem como a resolução de
aprovação;
® Embora a vinculação nos acordos em forma simplificada possa
depender apenas da aprovação, a intervenção do PR no processo de
vinculação internacional é sempre obrigatória;
® Em primeiro lugar, cabe ao PR suscitar a eventual fiscalização
preventiva da constitucionalidade (134º/g + 278º/1), enviando a
convenção para o TC;
® Não padecendo de qualquer vício, o PR deve, no caso dos acordos em
forma simplificada, assinar o ato de aprovação, neste caso, a
resolução da AR:
o A falta de assinatura do ato de aprovação leva à inexistência
jurídica do ato de aprovação 137º ou 140º/2 CRP.

Nota: Portugal vincula-se pela ratificação (tratados) ou pela aprovação (acordos) – 8º/2
CRP. No entanto, para que a aprovação produza os seus efeitos vinculativos, o PR tem
de assinar o ato, sob pena de inexistência do próprio ato de aprovação.

® Tratando-se a assinatura de um ato vinculado e interno, uma vez que


recai sobre o ato de aprovação e apenas produz efeitos internos, o PR
apenas pode recusar a mesma em caso de inconstitucionalidade;
® O governo intervém posteriormente, uma vez que o 140º/1 impõe
referenda ministerial dos atos de ratificação ou assinatura do PR –
sob pena de inexistência jurídica (140º/2);
® É ainda exigida a publicação do texto convencional + avisos de
ratificação e outros, no diário da república, sob pena de ineficácia
(119º/1/d + 119º/2).

13 Gabriela Pinto
DIP – casos práticos (frequência)

Caso prático nº1


Suponha que o governo português celebrou com a autoridade palestiniana um acordo
em matéria cultural, nos termos do qual se estabelecia um programa de bolsas de
estudo e de investigação.
O acordo veio a assumir uma projeção pública muito grande, até que dois dos projetos
de investigação incidiram sobre dirigentes do Hamas e do Hezbollah.
O governo israelita agastado com a situação invocou a nulidade da mesma com
fundamento em erro.
1. Explique quem, em Portugal tinha autoridade para aprovar a convenção e qual a
intervenção do PR no processo.
2. Analise a competência da autoridade palestiniana para celebrar a convenção.
3. Supondo que a autoridade palestiniana não tinha competência para celebrar a
convenção, que tipo de vício daí decorreria?
4. Tinha o governo israelita legitimidade para invocar o erro?
5. Pressupondo a incapacidade palestiniana e o erro, poderiam as autoridades
portuguesas reclamar a devolução de todas as somas gastas nas bolsas, caso
existisse uma nulidade da convenção? Justifique.

Resolução:

Caso prático nº2


Suponha que, procurando dar os primeiros passos no sentido da integração económica
na África Ocidental, foi aprovada sem votos contra (com as abstenções de 2 Estados – A
e B), em 2016 uma resolução na Assembleia Geral da OCEAO (organização da cooperação
económica da África Ocidental), nos termos da qual todos os Estados dessa região
deveriam garantir aos demais o tratamento comercial da nação mais favorecida.
Desde então, todos os estados da africa ocidental, com exceção do Estado Z, vêm
seguindo os termos da referida resolução.
Em 2017, alguns Estados tentaram celebrar uma convenção tendo em vista o
aprofundamento da integração económica em termos da criação de uma União
Aduaneira.
Nas negociações, os Estados B e C subscreveram a proposta inicial que referia a prática
decorrente da resolução da OCEAO e lhe reconheciam carater obrigatório, considerando
tratar-se do 1º passo no sentido do aprofundamento pretendido.
O novo governo do Estado B, que tomou posse em 2018, optou, todavia, por não se
vincular à convenção que criava a União Aduaneira. Pretende, aliás, reorientar a política
comercial daquele Estado introduzindo medidas protecionistas e estabelecendo
acordos incompatíveis com o regime decorrente da resolução da tal organização
internacional, chamada OCEAO.
Os demais Estados daquela OI, protestaram lembrando que se tratava de um costume
(aceite aliás pelo Estado B aquando das negociações da convenção relativa à criação da
União Aduaneira), ao que, este Estado retorquiu que, não se tendo vinculado à dita
convenção, dela não se podiam retirar quaisquer efeitos jurídicos.

1 Gabriela Pinto
Face a este circunstancialismo, explique direta e fundamentadamente se, na sua
opinião, existia um costume que obrigava as autoridades do Estado B a manterem o
tratamento da nação mais favorecida relativamente aos Estados da África Ocidental.

Resolução:

® (Vamos deixar de parte a questão de saber se podem existir regras


consuetudinárias em matéria comercial, o que de facto é duvidoso);
® O problema central é o de saber se existe ou não uma regra consuetudinária que
obrigasse as autoridades do Estado B a manterem o tratamento da nação mais
favorecida relativamente aos Estados da África Ocidental;
® A resposta passa necessariamente pela verificação da existência de 2 elementos:
a prática e a convicção da obrigatoriedade, ou melhor dizendo, conforme refere
a conclusão nº2 da CDI é preciso que haja uma prática geral e a sua aceitação
com caráter jurídica;
® Quanto à prática, parece evidente que esta existe, uma vez que com a exceção
daquele estado Z, todos os Estados vêm seguindo os termos da referida
resolução;
® De facto, a exceção não impede a formação da regra consuetudinária, apenas
torna esta inoponível (conclusão nº15 CDI) ao Estado Z;
® Quanto à convicção da obrigatoriedade, parece também considerar-se
verificada, na medida em que isso era reconhecido expressamente na proposta
inicial da convenção relativa à criação da União Aduaneira;
® Trata-se, portanto, da conduta relativa às resoluções aprovadas em conferencias
intergovernamentais que constituem um meio de prova deste elemento;
® Parece, por isso, que se deve considerar existir uma regra consuetudinária que
se impõe ao Estado B, nos termos pretendidos pelos demais Estados da OI.

Caso prático nº3


Os Estados A, B e C celebram uma convenção que garantia a livre circulação de pessoas
entre os respetivos estados, abolindo assim os controles aduaneiros.
2 anos mais tarde os Estados C, D e E celebraram uma convenção relativa à luta contra
o terrorismo, na qual todos se obrigavam a registar e a lançar numa base de dados
comuns todos os movimentos dos cidadãos não nacionais.
Os Estados A e B, ao tomarem conhecimento da nova convenção protestaram junto de
C, alegando que o cumprimento por este do acordado na 2ª convenção implicaria a
introdução de um obstáculo à liberdade de circulação de pessoas, já que impunha o
controle de todos os movimentos. Como não obtiveram do estado C uma resposta
satisfatória, decidiram pôr fim à convenção no tocante a este Estado.
Quid Iuris?

Resolução:

2 Gabriela Pinto
® O problema central é o do conflito de regras convencionais;
® Há sucessividade de convenções sempre que 2 ou mais destas tenham em
comum a matéria e a identidade (ainda que parcial);
® O regime encontra-se previsto no art.30º CV69 – que fixa um regime subsidiário
(para as situações que não possam ser resolvidas nos termos eventualmente
previstos nas próprias convenções);
® Cada Estado deve cumprir as obrigações assumidas com os outros Estados, nos
termos das próprias convenções;
® Havendo incompatibilidade destas, se os Estados forem parte em ambas as
convenções, prevalece a 2ª (última) por se presumir a vontade de alterar /
revogar a anterior;
® Não havendo identidade das partes, o Estado que seja parte em ambas, deve dar
prevalência à primeira, sendo que:
o Em qualquer caso, o Estado parte (de qualquer das convenções) em
relação ao qual não sejam cumpridas as obrigações, pode socorrer-se do
regime do 30º CV69;
o Isto é, suscitar a modificação, se isto lhe interessar (41º CV69), podendo
fazer cessar ou suspender a vigência desta convenção;
o Pode ainda responsabilizar internacionalmente o Estado que tenha
violado essas obrigações.

® O problema seria o de saber se os Estados A e B poderiam por fim à convenção:


o Parece que não – apenas poderiam reagir na medida em que C não
cumprisse as obrigações para com eles (já que perante a
incompatibilidade o Estado C poderia preferir não cumprir com D e E);
o Nesse caso, poderiam por fim à convenção nos termos do 60º CV69
(aplicado por força do 30º/5) + responsabilizar internacionalmente C.

Caso prático nº4


Suponha que, durante um longo período de tempo, os Estados com capacidade de
explorarem recursos mineiros, assumiam a obrigação de retirar todos os meios
utilizados nessas explorações quando terminava a atividade de prospeção ou
mineração.
O governo soviético, cuja posição sempre foi a inversa, defendeu a legitimidade da
mesma em diversas ocasiões.
A questão gerou um animado debate a vários níveis, chegando à AG das NU onde veio
a ser aprovada por maioria esmagadora uma resolução favorecendo a prática que vinha
sido desenvolvida.
Os Estados com capacidade de exploração dos fundos marinhos continuaram, por isso,
nos anos subsequentes a obrigar-se ao levantamento dos materiais utilizados na
exploração.

3 Gabriela Pinto
Recentemente um novo Estado, resultante da desagregação da União Soviética, iniciou
a exploração de fundos marinhos, não seguindo a prática internacional na matéria.
Apesar de alguns Estados insistirem existir costume, esse Estado manteve a sua posição,
alegando nomeadamente que nunca havia aceite tal prática como legitima, que a
mesma consistia numa liberdade não vinculativa (ou seja, não havia convicção da sua
obrigatoriedade) e recordou a oposição soviética para negar a existência de um
costume.
Quid Iuris?

Resolução:
1º importa saber se a prática do levantamento dos meios utilizados nas explorações
subaquáticas configurava um costume:
® Para que exista um costume devemos conferir a existência dos seus 2 elementos
– a prática e a convicção da sua obrigatoriedade;
® Não existem duvidas quanto à verificação da prática – expressa nos parágrafos
1º e 2º do enunciado;
® A oposição soviética não afeta esta consideração, já que o comportamento dos
Estados não tem de ser unânime para que se forme uma regra consuetudinária;
® Essa oposição teria como consequência que – se se formasse um costume, este
não seria oponível à União Soviética, enquanto objetor persistente (conclusão
15º CDI);
® Quanto à convicção da obrigatoriedade – pode retirar-se da decisão da AG das
NU, apesar deste ato não ter caráter vinculativo:
o A decisão serve apenas, acessoriamente, para demonstrar a existência de
um costume – uma vez que foi uma posição tomada pela esmagadora
maioria dos Estados ao aprovar a resolução (conclusão 6º/2).
® Isto contraria a pretensão do Estado quando se refere a uma liberdade não
vinculativa.

Concluímos pela existência de costume

2º importa saber se, existindo costume, se este é oponível ao Estado em questão:


® É pacifico, no entendimento atual, de que os Estados novos estão obrigados aos
costumes já, entretanto formados, já que o fundamento da obrigatoriedade do
costume não radica no consentimento;
® Deve ainda ponderar-se se o Estado em questão podia beneficiar da objeção
persistente da União Soviética:
o A resposta é negativa – a objeção persistente de um Estado não beneficia
novos Estados (independentemente do Estado em questão resultar da
desagregação da US);

Concluímos que existe um costume e esse obriga o Estado em questão

4 Gabriela Pinto
Caso prático nº5
Suponha que os Estados E, F e G, preocupados com a crescente insegurança cibernética,
criaram uma força de defesa conjunta integrando complementos militares e civis, cujo
início de atividade se previa para 1 de junho de 2016.
Aquando do depósito do instrumento de vinculação do Estado G, em janeiro de 2016,
este formulou uma reserva estabelecendo um limite para as suas contribuições
financeiras, o que foi imediatamente aceite pelo Estado E e recusado pelo Estado F
(Estados que se haviam vinculado em dezembro de 2015).
1. Teria o Estado E fundamento para exigir a G que nomeasse os seus
representantes na força conjunta, em junho de 2016? Justifique.
® Em junho de 2016 o Estado G não é parte;
® De facto, este formulou uma reserva em janeiro desse ano, a qual não foi
aceite pelo Estado F:
o Isso impediu, desde logo, a vinculação do Estado G já que,
tratando-se de uma convenção multilateral restrita, era
necessário o assentimento de todos (20º/2 CV69);
® Não sendo parte, o cumprimento da mesma não lhe pode ser exigido –
34º CV69.

2. Se, em outubro de 2016, o governo de F tomasse conhecimento de que os dados


relativos aos riscos e, bem assim, as estimativas relativas aos custos de
financiamento tinham sido incorretas, poderia retirar-se da convenção?
® O facto de F tomar conhecimento de que os dados relativos aos riscos e
de que as estimativas relativas aos custos de financiamento tinham sido
incorretas – consubstancia uma situação de erro (48º CV69);
® Tratando-se de uma base essencial do consentimento desse estado a
ficar vinculado (48º/1), e não tendo o Estado F contribuído para o mesmo
(48º/2) – ocorreria uma nulidade relativa que poderia apenas ser
invocável pelo Estado F (estado cujo consentimento foi afetado pelo
erro);
® A nulidade tem como consequência a cessação da vigência, ainda que o
Estado F devesse seguir o procedimento previsto nos artigos 65º e ss
CV69.

3. Caso o Estado Português se pretendesse vincular à convenção, qual seria a


intervenção do PR no processo?
® Tratando-se de uma convenção em matéria militar, teria de assumir
forma de tratado solene, sendo a competência de aprovação da AR
(161º/i 1ª parte) por resolução;
® Neste enquadramento, o PR poderia suscitar a fiscalização preventiva
da constitucionalidade da convenção (134º, 278º e 279º CRP);
® Estando de acordo com o seu conteúdo, deveria ratificá-la (135º/b);
® Do ato de ratificação havia obrigatoriamente referenda ministerial
(140º/1).

5 Gabriela Pinto
Caso prático nº6
Suponha que, o território dos Estados A, B, C e D é atravessado por um rio que constitui
o acesso destes ao mar alto.
Face às necessidades de acautelar a segurança da navegação e minimizar os riscos de
poluição, estes estados decidem celebrar uma convenção nessas matérias.
A e B vinculam-se em Janeiro de 2010, mas o novo governo de C decide recusar a
ratificação, ao que o governo de D – receando impactos eleitorais negativos – decide
deixar para o próximo executivo a ponderação da vinculação.
Ocorre, entretanto, um período de seca que aumenta consideravelmente os riscos de
poluição no rio, pelo que A e B solicitam a C e D que cumpram o estipulado na
convenção, até porque, no caso, se tratava de mera codificação do regime
consuetudinário existente.
C recusou-se a fazê-lo, lembrando que não estava ainda vinculado à convenção, seguido
por D. D referiu ainda que não estaria vinculado ao regime consuetudinário, na medida
em que a sua ordem jurídica nem sequer reconhecia a vigência do costume.

1. Aprecie a posição de C:
® Não estando vinculado à convenção, C não teria que a cumprir na medida
em que esta apenas produz efeitos quanto às partes – 34º CV69;
® Todavia, na medida em que o regime convencional se limitasse a codificar
o regime consuetudinário, C estaria obrigado a cumpri-lo (enquanto
costume).

2. Aprecie a posição de D:
® Os Estados têm a liberdade para adotar o regime de vigência do direito
internacional que entendam;
® Não obstante, há unanimidade na doutrina e jurisprudência
relativamente ao facto de essa liberdade não admitir que esses possam
deixar de cumprir as obrigações resultantes do direito internacional;
® Desde logo, se a ordem jurídica de D não reconhecesse o costume, para
assegurar o cumprimento das obrigações dessa natureza – deveria
transformar as regras em causa em atos internos dos quais resultassem
as mesmas obrigações;
® Direta ou indiretamente, D estava obrigado a cumprir o regime
consuetudinário.

Caso prático nº7


O Estado A, aliado de B (que sofreu uma invasão de força do Estado C) assumiu a
liderança e coordenação da ajuda humanitária em parte do território deste (B) decidindo
que, relativamente aos nacionais de B as suas forças apenas garantiriam a estabilização
sanitária e a devolução ao território de C, onde deveriam obter outra ajuda de que
necessitassem.
As ONG e algumas agências de OI a operar no terreno, opuseram-se vigorosamente a
essa decisão lembrando a prática por si seguida em zonas de conflito latente no sentido

6 Gabriela Pinto
do apoio às populações se fazer independentemente do seu envolvimento e/ou da
nacionalidade dos necessitados.
Consideravam estas, que essa prática havia formado costume que obrigava as
autoridades de A.
Face a este circunstancialismo, explique direta e fundamentadamente se, na sua opinião
existia um costume que obrigava as autoridades de A.

Resolução:
® Tal como refere o projeto de conclusão 2 do documento da CDI relativo à
identificação de normas de direito internacional consuetudinário – para
determinar a existência e o conteúdo de uma norma de direito internacional
consuetudinário é necessário conferir a existência de uma prática geral e a sua
aceitação com caráter jurídico (opinio iuris);
® Acontece que a prática em questão – o apoio às populações fazer-se
independentemente do seu envolvimento e da nacionalidade dos necessitados
– foi desenvolvida por ONG e agências de OI, o que, no primeiro caso não releva,
mas no segundo releva acessoriamente (conclusão 4º/2 + 3);
® Não parece haver prática relevante para a formação de um costume;
® Não existem quaisquer outros elementos que demonstrem a existência da
convicção da obrigatoriedade;
® Assim, devemos concluir pela inexistência de uma norma consuetudinária que
obrigue as autoridades de A a agir nos termos seguidos pelas ONG e agências de
OI.

Caso prático nº8


Numa dada região encravada, o acesso ao mar era feito através de um rio e das vias que
atravessavam o vale onde este corria, em direção a Sul.
Na zona do vale em questão, eclodiu um conflito que se arrastou vários anos.
Em consequência disso, o acesso ao mar passou a fazer-se através de um outro rio e das
vias terrestres adjacentes no sentido Norte, atravessando o território dos Estados A e B.
Esta solução apresentava algumas limitações importantes, já que no Inverno as baixas
temperaturas chegavam a gelar parcialmente as águas e os nevoes restringiam
significativamente o trânsito pelas outras vias.
Durante o período em que o conflito impediu o uso do acesso ao mar pelo Sul, o Estado
A por diversas vezes informou os Estados encravados de que o atravessamento do seu
território voltaria a ser sujeito a todas as limitações e exigências, assim que
restabelecidas as condições de acesso pelo sul. B nunca se pronunciou.
Terminado o conflito, A e B restabeleceram os controlos fronteiriços e proibiram o uso
comercial das vias nos 2 meses de Inverno, invocando os riscos na circulação e os custos
acrescidos de patrulhamento e apoio gerados nesse período.
Os Estados encravados protestaram, invocando a formação de um costume, situação
que nem A nem B aceitavam.

7 Gabriela Pinto
Resolução:
® Para a formação de um costume, têm de verificar-se os dois elementos essenciais
– conclusão 2: prática e a convicção da obrigatoriedade;
® Durante o período de conflito formou-se uma prática clara, aceite pelos Estados
A e B;
® Não há, todavia, indícios de que essa prática fosse acompanhada da convicção
da obrigatoriedade já que, tudo indica, que apenas surgiu face à impossibilidade
de os Estados encravados acederem ao mar alto através das vias sul;
® Faltando esse elemento, concluímos pela não existência de um costume –
tratando-se de um mero uso (conclusão 9/2);
® Releva ainda a objeção persistente do Estado A, que tornou claro o caráter
excecional da própria prática;
® Nestas circunstâncias, mesmo que se pudesse conferir a existência da convicção
da obrigatoriedade, a regra consuetudinária que eventualmente se teria
formado, não se aplicaria a este Estado (conclusão 15).

Caso prático nº9


Em 2015 foi aprovada, por unanimidade e aclamação, na Assembleia do Conselho da
Europa, uma resolução que solenemente declarava banida a pena de morte no
continente.
Desde essa data, nunca mais foi aplicada a dita sanção.
No corrente ano, as autoridades húngaras pretendem a aplicação da pena de morte (que
continuava prevista na lei, por não ter ocorrido qualquer alteração formal) num caso de
grande impacto público.
A defesa do cidadão em causa, invocou a resolução de 2015 para evitar tal condenação,
mas o governo húngaro – cujo partido de apoio prometeu no debate eleitoral de 2016,
voltar a aplicar a pena de morte – impôs ao MP que, neste sentido, solicitasse essa
aplicação.
Em duas sentenças anteriores (2015 e 2016) os tribunais húngaros haviam considerado
que a resolução de 2015 formara costume impedindo, por isso, a aplicação da pena de
morte prevista na lei.
Quid Iuris?

Resolução:
® A existência de 2 sentenças judiciais húngaras considerando a existência de um
costume era elemento de prova da existência do mesmo (e dos respetivos
elementos);
® As decisões judiciais são um dos meios expressamente previstos para a
demonstração da prática (conclusão 6º/2 in fine) + da convicção da
obrigatoriedade (conclusão 10º/2);
® Certo é que a prática deve ser geral (conclusão 8) – sobre isso, o enunciado diz
apenas que a pena de morte não foi mais aplicada;

8 Gabriela Pinto
® Uma resolução de uma OI ou de uma conferencia intergovernamental não é
suscetível de criar uma regra consuetudinária por si mesma, mas pode refletir
uma norma consuetudinária – conclusão 12;
® Poderia ainda referir-se o curto período de tempo decorrido (2 anos), mas não
há período mínimo – a situação poderia até configurar um costume selvagem,
com a convicção da obrigatoriedade a anteceder a própria prática;
® Subsiste a incompatibilidade com o direito húngaro:
o É pacifico na doutrina e jurisprudência que os Estados são obrigados a
adequar o seu direito interno ao cumprimento das suas obrigações
internacionais que, podem decorrer de qualquer fonte, incluindo o
direito consuetudinário.
® Concluindo – os dados constantes do enunciado indicam a existência de uma
regra consuetudinária, a qual obriga o Estado húngaro, enquanto direito
internacional geral ou comum, devendo os tribunais continuar a recusar-se a
aplicar a pena de morte.

Caso prático nº10


O petroleiro X, com bandeira do Estado A efetuou em 2017 uma lavagem dos tanques
no mar alto que veio a causar importantes danos ambientais no Estado B.
A empresa proprietária (Y) abriu falência pouco depois, não havendo, por isso, meios
para compensar os prejuízos sofridos em B.
Este estado conseguiu, todavia, que o tribunal arbitral a quem coube apreciar tais
prejuízos condenasse subsidiariamente A relativamente aos danos não cobertos pelo
seguro nem pelo património de Y.
A situação teve algum impacto mediático vindo a ser debatida na ONU.
Alguns Estados, em especial aqueles onde estavam sediadas as grandes empresas
transportadoras, manifestaram alguma resistência inicial, mas vieram progressivamente
a convergir – o que permitiu que fosse aprovada sem votos contra uma resolução na AG,
consagrando a obrigação dos Estados responderem subsidiariamente pelos danos
ambientais causados por petroleiros hasteando a sua bandeira.
Meses depois um petroleiro com a bandeira de Z afundou-se, causando graves danos
ambientais em C.
Esse Estado pretende chamar Z à responsabilidade (subsidiariamente), invocando a
existência de um costume.
Z insiste que nenhuma responsabilidade lhe pode ser atribuída por manifestamente não
existir nem prática geral nem convicção da obrigatoriedade.

Resolução:
® Z afirma não existir prática geral nem convicção da obrigatoriedade –
consequentemente não existirá costume:
o Para determinar a existência e o conteúdo de uma norma de direito
internacional consuetudinário – é preciso conferir a existência de uma
prática geral e da sua aceitação com caráter jurídico (conclusão 2);

9 Gabriela Pinto
® Muito embora, o enunciado refira apenas uma ocorrência – a conduta relativa
às resoluções adotadas por organizações internacionais pode configurar tanto
uma prática (6/2) como a convicção da obrigatoriedade (10/2);
® A ocorrência mereceu um debate nas NU – mesmo os Estados que inicialmente
resistiram permitiriam a aprovação sem notos contra de uma resolução na AG
que obrigava os Estados a responder, subsidiariamente, pelos danos ambientais
causados por petroleiros hasteando a sua bandeira;
® Ou seja, a conduta dos Estados e a convicção destes evidencia os dois elementos:
o É dos Estados que tem de se retirar os elementos 4/1 + 10/2 – por isso a
resolução tem um papel meramente acessório 4/2 + 12/2
® A situação configura um costume selvagem, na medida em que a convicção
antecipa a própria prática:
o é da conduta face a uma resolução da OI e da convergência face ao
reconhecimento de uma obrigação jurídica que vai ser retirada a própria
conduta.

Caso prático nº11


Os representantes dos Estados A, B, C e D assinaram em 20 de fevereiro de 2016 uma
convenção que codificava e desenvolvia o regime consuetudinário relativo a uma
cordilheira de montanhas que separava aqueles países, especificamente em relação ao
atravessamento das mesmas e ainda, ao uso comum das pastagens dos vales de
montanha. O texto da convenção estipulava que esta entraria em vigor assim que 3
Estados se vinculassem.
B, C e D depositaram os respetivos instrumentos de ratificação simultaneamente, em 15
de junho de 2016, tendo D acrescentado uma declaração na qual esclarecia que, em
relação ao rio X, que corria nas montanhas em questão e em alguns troços fazia fronteira
entre os Estados signatários, era seu entendimento que a dita convenção em nada
afetava as práticas que vinham sido seguidas. Condicionou a sua vinculação à aceitação
pelas outras partes desse entendimento.
B e C declararam imediatamente terem o mesmo entendimento, pelo que nada tinham
a opor à posição expressa por D.
A, que apenas depositou o instrumento de ratificação em 1 de agosto de 2016, não se
pronunciou.

1. Estariam A e B obrigados a cumprir o regime convencional em 1 de junho de


2016?
® Nessa data a convenção ainda não estaria em vigor – só entraria com a
vinculação de um terceiro estado – que neste caso foi A, a 1 de agosto,
uma vez que D formulou uma declaração interpretativa condicional à
qual se aplica o regime das reservas, e tratando-se de uma convenção
multilateral restrita precisa do assentimento de todos, ou então que
passem 12 meses sem que nada seja dito por A;
® Assim, nenhum dos Estados estava obrigado ao regime convencional
enquanto tal;

10 Gabriela Pinto
® Acontece que a convenção veio desenvolver e codificar um regime
consuetudinário pré-existente:
o Os Estados estavam vinculados às normas que resultassem do
desenvolvimento do regime consuetudinário.

2. C e D são partes da convenção? Se sim, desde quando?


® D formulou uma declaração interpretativa condicional, à qual são
aplicadas as regras das reservas (GPR 1.4/2);
® Tratando-se de uma convenção multilateral restrita (envolve apenas os
Estados cujo território se estende à cordilheira de montanhas em causa),
a vinculação a esta supõe a aceitação de todos os Estados (20º/2 CV69);
® A não pronuncia de A apenas pode ser assumida como aceitação
decorridos 12 meses (20º/5 CV69) – 15 junho de 2017;
® Assim, sendo, A foi o 3º Estado a vincular-se à convenção e, portanto, D
e C eram parte da mesma desde 15 junho de 2016.

3. Qual seria a intervenção do PR no processo de vinculação do Estado Tuga?


® O regime interno relativo à vinculação do Estado Português às
convenções internacionais determina que, no presente caso, a
convenção não teria de assumir a forma de tratado solene – por não
integrar o elenco das matérias da 1ª parte do 161º/i CRP;
® Não integrando também os elencos dos 164º e 165º - a competência de
aprovação seria do governo (197º/1/b);
® Ao PR caberia suscitar a eventual fiscalização preventiva da
constitucionalidade (134º/g + 278º/1);
® E deveria, uma vez que se trata aqui de um ato vinculado, assinar o
decreto simples do governo, que aprovasse a convenção (134º/b +
197º/2);
® Deste ato do PR (assinatura) haveria obrigatoriamente referenda
ministerial.

4. Explique se, em 25 de maio de 2016, B já tinha algum tipo de obrigação


decorrente do tratado em causa.
® B não estava ainda vinculado a esta data, por não ter depositado o seu
instrumento de ratificação;
® Todavia, tendo assinado, tinha a obrigação de não privar o tratado do seu
objeto ou fim (18º CV69);
® Tendo ainda em conta que, as disposições finais dos tratados entram em
vigor com a assinatura (24º/4), B estaria vinculado a quaisquer
obrigações que constassem das mesmas.

11 Gabriela Pinto
Suponha ainda que, em 1 janeiro 2018, o novo governo de A toma conhecimento de
que o Governo de C – que havia depositado o instrumento de vinculação – não tinha
cumprido todas as exigências de direito interno relativas à vinculação.

5. Explique se esse facto permitiria a A considerar o tratado inválido, exigindo ser


ressarcido pelas despesas tidas.
® O incumprimento das exigências de direito interno relativas à vinculação,
consiste numa irregularidade formal do consentimento;
® O regime aplicável (46º CV69) determina que esse incumprimento
apenas releva na medida em que:
o Seja manifesto;
o Incida sobre uma regra de importância fundamental.

® Mesmo que esses requisitos se verificassem – o que não parece


acontecer, pelo menos em relação ao caráter manifesto, uma vez que
nada indica que os demais Estados devessem ter-se apercebido – isso
resultaria numa nulidade relativa;
® A nulidade relativa em causa seria apenas invocável por C – ou seja,
mesmo existindo nulidade, A não a poderia invocar;
® Havendo nulidade, apenas o estado C, cujo consentimento foi afetado,
poderia solicitar a reposição da situação que existiria se não tivesse
cumprido o tratado (69º/2/a CV69) – salvaguardando-se os atos
produzidos de boa-fé, o que incluiria grande parte das despesas
efetuadas.

Caso prático nº12


A AG das NU aprovou em 10 de Setembro de 2016 o texto de uma convenção-quadro
sobre a determinação das fronteiras que lhe foi proposta pela CDI e submeteu-a à
assinatura dos EM que entendessem fazê-lo, no prazo de uma semana, seguindo-se os
demais trâmites de vinculação.
No texto da convenção determinava-se que esta entraria em vigor no primeiro dia do
mês seguinte ao depósito do 35.º instrumento de vinculação. Estipulava ainda que a
adesão poderia ocorrer, após a entrada em vigor, através do depósito do respetivo
pedido, junto do SG.
Em 15 de Outubro, 35 Estados haviam depositado o respetivo instrumento de
vinculação, mas 2 deles haviam formulado reservas. Em 2 Novembro, 5 EM haviam
aceitado as reservas, 2 tinham objetado as mesmas e os demais não se haviam
pronunciado.

1. Se o dispositivo da convenção contrariasse uma regra consuetudinária formada


entre Estados Africanos, aqueles que a ela (à convenção) se vinculassem
deveriam aplicar nas suas relações mútuas a regra consuetudinária ou a regra
convencional?

12 Gabriela Pinto
® Não havendo hierarquia nas fontes do direito internacional, as regras
convencionais podem alterar ou revogar as regras consuetudinárias (e
vice-versa);
® Assim sendo, nas relações entre Estados africanos que estivessem
previamente obrigados às regras consuetudinárias e se vinculassem
posteriormente à convenção – aplicar-se-iam as normas convencionais
contrárias às normas consuetudinárias:
o Considera-se que umas alteram as outras.

2. Em 5 de dezembro, o Estado A depositou junto do SG o pedido de adesão. Deve


este aceitá-lo?
® Tratando-se de uma convenção multilateral geral (que se presume por
ser celebrada sob a égide das NU) – a aceitação das reservas por um
Estado é bastante para que a vinculação ocorra (20º/4 CV69);
® A aceitação, por 5 Estados em 2 de novembro, das reservas formuladas
por dois dos Estados produz a vinculação destes – a entrada em vigor é,
por isso, a 1 de dezembro;
® Quando A depositou o seu pedido de adesão, a 5 de dezembro, a
convenção estava em vigor, portanto, aplicando o regime previsto no
próprio texto:
o A adesão processava-se automaticamente, devendo, portanto, o
pedido ser aceite pelo depositário e comunicado às partes
(77º/1/c + e CV69).

3. Poderia o PR impedir a vinculação do Estado português a esta convenção,


contrariando a vontade expressa do governo e da Assembleia da República?
® A convenção em causa revestiria, no âmbito da vinculação do estado
português, a forma de tratado solene – por integrar a 1ª parte do 161º/i
(retificação de fronteiras);
® Assim, a intervenção do PR consiste, além da solicitação de uma eventual
fiscalização da constitucionalidade (134º/g + 278º/1), na ratificação
(135º/b);
® A ratificação é sempre um ato livre e não vinculado (≠ assinatura):
o Se o PR discordasse politicamente do conteúdo da convenção,
poderia recusar a ratificação, impedindo a vinculação do Estado
português, ainda que contrariasse a vontade do governo e da AR.

Suponha ainda que, em 1 de janeiro de 2017, o novo governo de A (um dos 35 que
haviam depositado o instrumento de vinculação a 15 de outubro) toma conhecimento
de que o representante de B havia assinado a convenção no convencimento indevido
de que esta salvaguardaria algumas pretensões territoriais do seu Estado e que a
vinculação se tinha assentado nesse pressuposto.

13 Gabriela Pinto
4. Explique se esse facto permitiria a A considerar o tratado inválido, exigindo ser
ressarcido pelas despesas tidas.
® O eventual erro (48º CV69) do representante de B apenas seria relevante
se incidisse sobre um elemento essencial (base do negócio) e, nessa
medida, fosse insuscetível de obrigar as partes à luz dos princípios da
boa-fé;
® Demonstrando que a salvaguarda das pretensões territoriais constituía
um elemento essencial – importa perceber se B não contribuiu, ele
próprio, para esse erro (48º/2);
® Ainda, mesmo ocorrendo erro relevante (provados os requisitos
referidos) – este apenas afetaria a vinculação do Estado cujo
consentimento foi afetado, neste caso, B;
® Havendo nulidade, esta seria relativa e, portanto, só poderia ser
invocável por B:
o Apenas B poderia, também, invocar a retroatividade, ou seja,
solicitar a reposição da situação que existiria se não tivesse
cumprido o tratado (69º/2/a);
o Salvaguardar-se-iam, no entanto, os atos produzidos de boa-fé
(69º/2/b) – o que incluiria a maior parte das despesas efetuadas.

Suponha, finalmente, que o Estado C – parte da CV em questão – que durante décadas


tinha uma disputa fronteiriça com D (também parte), vinha exigir a aplicação de uma
regra subsidiaria constante na dita convenção, no âmbito da dita disputa.
D considerou, todavia, que a disputa havia sido ultrapassada a partir do momento em
que o governo anterior de C havia reconhecido publicamente e, repetidas vezes, as
fronteiras estabelecidas como sendo adequadas e definitivas.

5. Analise a situação e explique se, efetivamente há lugar à aplicação das normas


convencionais (como pretende C), ou se a situação está resolvida (como
pretende D).
® Importa analisar os efeitos das declarações públicas de C – sendo estas
vinculativas, o conflito estaria resolvido e, não sendo, manter-se-ia em
aberto, havendo lugar à aplicação das regras convencionais pertinentes;
® As declarações em causa parecem configurar atos unilaterais, na medida
em que:
o foram formuladas publicamente e exprimem uma vontade em
assumir um compromisso – 1º dos princípios;
o emanaram de autoridades competentes – 4º dos princípios;
o o seu objeto foi claro e preciso – nº7.
® Assim sendo, criaram obrigações jurídicas (nº1) para C, por força do
princípio da boa-fé;
® Ou seja, C estava obrigado por elas, tendo reconhecido as fronteiras
como adequadas e definitivas, podendo D exigir o cumprimento desta
obrigação.

14 Gabriela Pinto

Você também pode gostar