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Espiritualidade e a Ignorância Após a Morte

O Instrutor Gúbio explica a difícil compreensão da organização dos espíritos perversos, que se agrupam em comunidades escuras, mantendo-se presos à ignorância e à maldade. Ele destaca que, mesmo após a morte, muitos espíritos permanecem em estados de primitivismo mental, resistindo ao progresso e à luz divina. A palestra enfatiza a importância da evolução espiritual e a necessidade de compaixão pelos que ainda não despertaram para a sabedoria superior.

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Espiritualidade e a Ignorância Após a Morte

O Instrutor Gúbio explica a difícil compreensão da organização dos espíritos perversos, que se agrupam em comunidades escuras, mantendo-se presos à ignorância e à maldade. Ele destaca que, mesmo após a morte, muitos espíritos permanecem em estados de primitivismo mental, resistindo ao progresso e à luz divina. A palestra enfatiza a importância da evolução espiritual e a necessidade de compaixão pelos que ainda não despertaram para a sabedoria superior.

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Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 23

2
A palestra do Instrutor
Ao nos retirarmos do educandário, o Instrutor Gúbio, pousan-
do sobre Elói, o nosso companheiro, e sobre mim os olhos lúci-
dos, acentuou:
– Para muitas criaturas, é difícil compreender a arregimenta-
ção inteligente dos espíritos perversos. Entretanto, é lógica e
natural. Se ainda nos situamos distantes da santidade, não obstan-
te os propósitos superiores que já nos orientam, que dizer dos
irmãos infelizes que se deixaram prender, sem resistência, às teias
da ignorância e da maldade? Não conhecem região mais elevada
que a esfera carnal, a que ainda se ajustam por laços vigorosos.
Enleados em forças de baixo padrão vibratório, não apreendem a
beleza da vida superior e, enquanto mentalidades frágeis e enfer-
miças se dobram humilhadas, os gênios da impiedade lhes traçam
diretrizes, enfileirando-as em comunidades extensas e dirigindo-
as em bases escuras de ódio aviltante e desespero silencioso.
Organizam, assim, verdadeiras cidades, em que se refugiam fa-
langes compactas de almas que fogem, envergonhadas de si mes-
mas, ante quaisquer manifestações da divina luz. Filhos da revolta
e da treva aí se aglomeram, buscando preservar-se e escorando-se,
aos milhares, uns nos outros...
Auscultando-nos a surpresa manifesta, o instrutor prosseguiu,
respondendo-nos às argüições íntimas:
– Tais colônias perturbadoras devem ter começado com as
primeiras inteligências terrestres entregues à insubmissão e à
indisciplina, ante os ditames da Paternidade Celestial. A alma
caída em vibrações desarmônicas, pelo abuso da liberdade que lhe
foi confiada, precisa tecer os fios do reajustamento próprio e
milhões de irmãos nossos se recusam a semelhante esforço, ocio-
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 24

sos e impenitentes, alongando o labirinto em que muitas vezes se


perdem por séculos. inabilitados para a jornada imediata, rumo ao
Céu, em virtude das paixões devastadoras que os magnetizam,
arrebanham-se de conformidade com as tendências inferiores em
que se afinam, ao redor da Crosta Terrestre, de cujas emanações e
vidas inferiores ainda se nutrem, qual ocorre aos próprios homens
encarnados. O objetivo essencial de tais exércitos sombrios é a
conservação do primitivismo mental da criatura humana, a fim de
que o Planeta permaneça, tanto quanto possível, sob seu jugo
tirânico.
As observações de Gúbio escaldavam-me o cérebro.
Eu também havia passado pelos baixos círculos da vida, de-
pois do transe corporal; entretanto, não identificara a existência
dessas condensações organizadas de entidades malignas do campo
espiritual, embora ouvisse, em muitas ocasiões, impressionantes
comentários em torno delas.
Efetivamente, não conseguia, por ruim mesmo, exumar todas
as recordações do angustiado período que a porta do túmulo me
oferecera.
Vira-me perseguido, através de longos pântanos... Errara, a-
flitivamente, dias e noites que me pareceram sem fim, atormenta-
do e desditoso; todavia, custava-me crer que as atividades maléfi-
cas gozassem de organismo diretor. Por isto mesmo, de mente
agora centralizada nos propósitos do bem, aventurei uma indaga-
ção.
– Com que fim – perguntei – essas legiões retardadas se man-
comunam, além da morte, se despidas da vestimenta grosseira de
carne devem saber, mais que nunca, que se empenham em comba-
tes inúteis? Não se sentem, porventura, transportadas ao plano do
esclarecimento puro, quanto à posição que lhes diz respeito? Não
se cercam presentemente de mais sublimes revelações da Nature-
za? Não lhes quadrariam, mais justos, o trabalho edificante e o
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 25

estudo nobre, na elevada aspiração de galgar a sabedoria santifi-


cante, estrada acima? Por que motivo se aglomeram, assim, atra-
vés de ajuntamentos desprezíveis e diabólicos? Fácil de entender-
se a jornada evolutiva do homem, depois do sepulcro, mas o
estacionamento deliberado, na crueldade e no ódio, além da mor-
te, dá para confundir a mente de qualquer...
O orientador sorriu, maneiroso, e considerou:
– Reportamo-nos a Espíritos perfeitamente humanos, não
obstante desencarnados, e tais perguntas, André, poderiam ser
formuladas, mesmo na Crosta da Terra. Por que razão, nós mes-
mos, antes de acordar a consciência para a revelação divina, nos
precipitávamos nas linhas inferiores, todos os dias, contrariando
espetacularmente a Lei? À frente dos olhos, contávamos com
bendito dilúvio de claridade solar, jorrando incessante do Espaço
Infinito... sabíamos que a existência do corpo correria rápida, que
seríamos defrontados pela morte comum a todos, que regressarí-
amos do mundo carnal pela mesma porta misteriosa, através da
qual penetráramos nele; no entanto, quantas vezes teremos me-
noscabado a Sabedoria Excelsa, com atitudes de criminosa indife-
rença? Ante as sugestões do Plano Divino que te povoam, agora, o
pensamento, lembras-te de algum tempo passado em que tivesses
cogitado sinceramente da própria sublimação? Se desenterrarmos
o pretérito, meu caro, encontraremos lamentáveis reminiscên-
cias... Não nos compete parar ou desanimar. À maneira do tronco
frágil, é imperioso crescer, subir, por alcançar o oxigênio de cima,
e, apesar de algemados ao que fomos, à semelhança da árvore
humilde presa aos resíduos do complicado envoltório que lhe
encerrava a semente, reclamamos ascensão, ar puro e largueza de
condições para produzirmos o bem que o Senhor espera de nós.
A argumentação de Gúbio era bela e sugestiva; entretanto, eu
sentia dificuldades para aceitar a idéia de purgatórios e infernos
dirigidos.
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 26

– Concordo com as elucidações – exclamei reverente –, mas é


quase incrível tanta ignorância, além do corpo que nos conserva
em ilusão... a sepultura abre-nos a todos um caminho novo. É
razoável que a mente perturbada sofra amarguras de reajustamen-
to até que se restaure; todavia, apropriar-se um espírito desencar-
nado de certos setores do caminho, como se fora deles senhor
absoluto para perpetuar sua tirania, é observação que me escapa-
va...
– Sim – tornou o orientador, convincente –, para quem refle-
tiu sobre o assunto, durante muito tempo, em sentido contrário à
realidade, o apontamento surpreende bastante; todavia, não vejo
obstáculos à apreensão do ensinamento. Reconheçamos, por
exemplo, que o homem comum já atravessou, desde milênios, a
estação evolutiva em que se demora o irracional e, em várias
ocasiões, revela comportamento de nível inferior ao dele.
Imprimindo grave entono à voz agradável e fraternal, acres-
centou:
– Notemos que nós mesmos, os desencarnados, nos movemos
num campo de matéria que se caracteriza por densidade específi-
ca, embora rarefeita, quando confrontada com as antigas formas
físicas, e nossa mente, em qualquer parte, na Crosta ou aqui onde
nos achamos, é um centro psíquico de atração e repulsão. O espí-
rito encarnado respira numa zona de vibrações mais lentas, enfai-
xado num veículo constituído de trilhões de células que são outras
tantas vidas microscópicas inferiores. Cada vida, porém, por mais
insignificante, possui expressão magnética especial. A vontade,
não obstante condicionada por leis cósmicas e morais, inclinará a
comunidade dos corpúsculos vivos que permanecem a seu serviço
por tempo limitado, à maneira do eletricista que liga as forças da
usina para atividades num charco ou para serviços numa torre.
Sendo cada um de nós uma força inteligente, detendo faculdades
criadoras e atuando no Universo, estaremos sempre engendrando
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 27

agentes psicológicos, através da energia mental, exteriorizando o


pensamento e com ele improvisando causas possíveis, cujos efei-
tos podem ser próximos ou remotos sobre o ponto de origem.
Abstendo-nos de mobilizar a vontade, seremos invariáveis jogue-
tes das circunstâncias predominantes, no ambiente que nos rodeia;
contudo, tão logo deliberemos manobrá-la, é indispensável resol-
vamos o problema de direção, porquanto nossos estados pessoais
nos refletirão a escolha íntima. Existem princípios, forças e leis
no universo minúsculo, tanto quanto no universo macrocósmico.
Dirija um homem a sua vontade para a idéia de doença e a molés-
tia lhe responderá ao apelo, com todas as características dos mol-
des estruturados pelo pensamento enfermiço, porque a sugestão
mental positiva determina a sintonia e receptividade da região
orgânica, em conexão com o impulso havido, e as entidades mi-
crobianas, que vivem e se reproduzem no campo mental das mi-
lhões de pessoas que as entretêm, acorrerão em massa, absorvidas
pelas células que as atraem, em obediência às ordens interiores,
reiteradamente recebidas, formando no corpo a enfermidade
idealizada. Claro que nesse capítulo temos a questão das provas
necessárias, nos casos em que determinada personalidade renasce,
atendendo a impositivos das lições expiatórias, mas, mesmo aí, o
problema de ligação mental é infinitamente importante, porquanto
o doente que se compraz na aceitação e no elogio da própria
decadência acaba na posição de excelente incubador de bactérias e
sintomas mórbidos, enquanto que o espírito em reajustamento,
quando reage, valoroso, contra o mal, ainda mesmo que benéfico
e merecido, encontra imensos recursos de concentrar-se no bem,
integrando-se na corrente de vida vitoriosa.
Registrava as explicações, profundamente edificado, e, não
obstante a longa pausa que se fez espontaneamente, não ousei
interromper o curso da argumentação a fim de não quebrar a linha
do pensamento.
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 28

Prestimoso e digno, Gúbio continuou:


– Nossa mente é uma entidade colocada entre forças inferio-
res e superiores, com objetivos de aperfeiçoamento. Nosso orga-
nismo perispiritual, fruto sublime da evolução, quanto ocorre ao
corpo físico na esfera da Crosta, pode ser comparado aos pólos de
um aparelho magneto-elétrico.
O espírito encarnado sofre a influenciação inferior, através
das regiões em que se situam o sexo e o estômago, e recebe os
estímulos superiores, ainda mesmo procedentes de almas não
sublimadas, através do coração e do cérebro. Quando a criatura
busca manejar a própria vontade, escolhe a companhia que prefere
e lança-se ao caminho que deseja. Se não escasseiam milhões de
influxos primitivistas, constrangendo-nos, mesmo aquém das
formas terrestres a entreter emoções e desejos, em baixos círculos,
e armando-nos quedas momentâneas em abismos do sentimento
destrutivo, pelos quais já peregrinamos há muitos séculos, não nos
faltam milhões de apelos santificantes, convidando-nos à ascensão
para a gloriosa imortalidade.
O instrutor, fitando em nós o olhar percuciente e calmo, pon-
derou:
– Entenderam, agora, como é compreensível a opção de cer-
tos espíritos pela casa escura do crime, depois do túmulo, qual
ocorre a milhões de entidades encarnadas que, em plena harmonia
com a natureza terrestre, estimam viver no domicílio da enfermi-
dade? Atitudes mentais enraizadas não se modificam facilmente.
O rei que governa milhares, o condutor que se acostumou a traçar
férreas diretrizes, o homem que se habituou a dobrar caracteres
alheios, quando não dispõem de princípios santificantes, no terre-
no idealístico, para se alimentarem intimamente na tarefa a que se
consagram, não se transformam em servidores humildes de um
momento para outro, só porque se desfizeram da carga de células
materiais.
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 29

Quando não se recomendam aos precipícios da loucura, no


eclipse total da razão por tempo indeterminável, em vista dos
desvarios na intelectualidade e no poder, são conservados e res-
peitados na obra evolutiva do mundo, pelas qualidades apreciá-
veis e dignas que já conquistaram, embora as paixões violentas
que lhes assinalam a vida íntima, e são utilizados então por gênios
superiores, nos serviços de aprimoramento planetário, em que
vigiam e reajustam os mais fracos, sendo vigiados e reajustados
pelos mais fortes, convertendo-se, gradual e imperceptivelmente,
ao Supremo Bem, aceitando o Plano Divino em cuja execução
passam a colaborar com fidelidade e valor. Em tal posição, auxili-
am e são auxiliados, dão e recebem, impulsionam o progresso e
progridem a seu turno...
Impôs ligeira pausa às elucidações e, em seguida, prosseguiu
noutro rumo:
– Semelhante realidade obriga-nos a meditar na extensão do
serviço espiritual em todos os ângulos evolutivos. Educação para
a eternidade não se circunscreve à ilustração superficial de que
um homem comum se reveste, sentando-se, por alguns anos, num
banco de universidade – é obra de paciência nos séculos. Se árvo-
res existem assinaladas por centenas de anos, dentro das finalida-
des a que se destinam, que dizer dos milênios reclamados por uma
individualidade, no capítulo da própria sublimação?
Não podemos olvidar, desse modo, o amor que devemos aos
ignorantes, aos fracos, aos infelizes. Imprescindível se torna
caminhar nos passos daqueles que igualmente, um dia, nos esten-
deram compassivas mãos.
O argumento era demasiado edificante para que interferísse-
mos com indagações novas.
O orientador percebeu a oportunidade do esclarecimento e
continuou:
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– Os átomos que integram a hóstia dum templo, são, no fun-


do, iguais àqueles que formam o pão pobre de uma penitenciária.
Assim, toda matéria em si mesma. Passiva e plástica, é análoga
nas mãos das entidades sábias ou ignorantes, amorosas ou brutali-
zadas, no estado de condensação conhecido na Crosta Planetária e
além dele. Em razão disso, são compreensíveis as transitórias
construções levantadas em nosso plano por criaturas desviadas do
bem. Para quem anestesiou as faculdades no prazer fugitivo, a
separação da carne geralmente constitui acesso a doloroso estágio
na incompreensão. E considerando que a maioria das criaturas
humanas persegue as sensações do corpo físico, qual se as atra-
ções genésicas e o desvairado apego aos bens provisórios dos
círculos mais baixos encerrassem toda a felicidade do mundo, a
colheita de personalidades desequilibradas é sempre inquietante,
conservando quase inalteradas as fileiras escuras dos insensatos
cultivadores da satisfação egoística a qualquer preço. Loucos
perigosos, por voluntários, dirigidos por inteligências soberanas,
especializadas em dominação, constituem hordas terríveis que, a
bem dizer, vigiam as saídas das esferas inferiores em todas as
direções.
– E porque permite Deus semelhante irregularidade? – inqui-
riu Elói, sob visível consternação – Não bastaria ligeira ordem do
Eterno para sanar a desarmonia?
Gúbio, prestativo, não se fez esperado na resposta. Sorrindo,
franco, aduziu com interesse:
– Não será o mesmo que perguntar o motivo pelo qual o Se-
nhor nos esperou até ontem? Acreditaremos em paraísos miracu-
losos? Não sabemos, porventura, que cada homem se sentará no
trono que levantou ou se projetará ao fundo do abismo que prefe-
riu? Além disto, é necessário reconhecer que se o lapidário apri-
mora a pedra, usando lima resistente, o Senhor do Universo aper-
feiçoa o caráter dos filhos transviados de Sua Casa, usando cora-
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 31

ções endurecidos, temporariamente afastados de Sua Obra. Nem


sempre o melhor juiz pode ser o homem mais doce. Qualidades
morais e virtudes excelsas não são meras fórmulas verbalistas.
São forças vivas. Sem a posse delas, é impraticável a ascensão do
espírito humano. Personalidades vulgares apegam-se à salvaguar-
da de recursos exteriores e neles centralizam os sentimentos mais
nobres, prendendo-se a fantasias inúteis... Encarcera-se-lhes,
então, a mente na insegurança, na fragilidade, no pavor. O choque
da morte imprime-lhes tremendos conflitos à organização perispi-
rítica, veículo destinado às suas próprias manifestações no círculo
novo de matéria diferente a que foram arrebatadas, e, após perde-
rem abençoados anos no campo didático da esfera carnal, enreda-
das em conflitos deploráveis, erram aflitas, exânimes e revoltadas,
ajustando-se ao primeiro grupo de entidades viciosas que lhes
garantam continuidade de aventura em fictícios prazeres. Formam
associações enormes e compactas, com base nas emanações da
Crosta do Mundo, onde milhões de homens e mulheres lhes sus-
tentam as exigências mais baixas; fazem vida coletiva provisória à
força de sugarem as energias da residência dos irmãos encarna-
dos, qual se fossem extensa colônia de criminosos, vivendo a
expensas de generoso rebanho bovino. Importa ponderar, contudo,
que o homem explora a vaca, menos consciente e incapaz de ser
julgada por delito de conivência, ao passo que, na esfera humana,
o quadro apresenta outro aspecto. A criatura racional não se exi-
mirá à responsabilidade. Se o perseguidor invisível aos olhos
terrestres erige agrupamentos para culto sistemático à revolta e ao
egoísmo, o homem encarnado, senhor de valiosos patrimônios de
conhecimento santificante, garante-lhe a obra nefasta pela fuga
constante às obrigações divinas de cooperador de Deus, no plano
de serviço em que se localiza, alimentando ruinosa aliança. Um e
outro, por isto, partilhando os resultados da indiferença destrutiva
ou da ação condenável, atritam e se vascolejam reciprocamente,
tais quais feras que se entredevoram na floresta da vida. Obsidi-
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 32

am-se, mutuamente, quando nos atilhos educativos da carne ou na


ausência deles. Atravessam séculos, assim, jungidos um ao outro,
presos a lamentáveis ilusões e propósitos sinistros, com extremas
perturbações para si mesmos, já que a herança celestial se faz
naturalmente vedada a todos aqueles que menosprezam em si
próprios as sementes divinas. Há milhões de almas humanas que
se não afastaram, ainda, da Crosta Terrestre, há mais de dez mil
anos. Morrem no corpo denso e renascem nele, qual acontece às
árvores que brotam sempre, profundamente arraigadas no solo.
Recapitulam, individual e coletivamente, lições multimilenárias,
sem atinarem com os dons celestiais de que são herdeiras, afasta-
das deliberadamente do santuário de si mesmas, no terreno move-
diço da egolatria inconseqüente, agitando-se, de quando em quan-
do, em guerras arrasadoras que atingem os dois planos, no impul-
so mal dirigido de libertação, através de crises inomináveis de
fúria e sofrimento. Destroem, então, o que construíram laborio-
samente e modificam processos de vida exterior, transferindo-se
de civilização.
O instrutor, sentindo a profunda atenção com que lhe seguía-
mos a palavra, acentuou, depois de leve pausa:
– Todavia, no fluir e refluir das eras numerosas, os filhos do
Planeta que se conservam atentos às determinações divinas, livres
da antiga escravidão à miséria moral, tornam ao ambiente escuro
do cativeiro que já abandonaram, a fim de ampararem os irmãos
ignorantes e desvairados, em sublime trabalho de compaixão.
Formam as vanguardas do Cristo. nos mais diversos pontos do
Globo, e, aos milhões, sob o patrocínio d’Ele, operam no amor e
na renúncia, avançando, dificilmente embora, humanidade a
dentro, enfrentando a ofensiva incendiária e exterminadora, com
as bênçãos da Luz Celeste...
A exposição não podia ser mais clara. Elói, contudo, obser-
vou, assombrado:
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 33

– Quem diria, na Terra, nosso velho domicílio, que a vida in-


finita se estenderia, assim, estranha e ameaçadora?
– Sim – concordou o orientador –, porém a ortodoxia no
mundo costuma ser o cadáver da revelação. Argumentos teológi-
cos de milênios obstruem os canais da inteligência humana, quan-
to às realidades divinas. Mas a criatura prosseguirá na tarefa de
auto-descobrimento. A força mental, na luta comum, permanece
restrita ao círculo acanhado da personalidade egoística, copiando
o molusco algemado à concha, e sabemos que semelhante energia,
patrimônio eterno com que nos sublimamos ou viciamos, emite
raios criadores sobre a matéria passiva que nos cerca, dependendo
de nós a direção que venha a tomar. Se milhões de raios lumino-
sos formam um astro brilhante, é natural que milhões de pequeni-
nos desesperos integrem um inferno perfeito. Herdeiros do Poder
Criador, geraremos forças afins conosco, onde estivermos. Não
será tudo isto perfeitamente inteligível? É por esta razão que o
Senhor mandou constar no Livro Divino o seu aviso celestial: –
“eis que estou à porta e bato”. Se alguém abre a porta viva da
alma, haverá realmente o colóquio redentor, entre o Mestre e o
Discípulo. O coração é tabernáculo e a sublimação das potências
que o integram é a única via de acesso às esferas superiores.
O devotado orientador fixou o gesto de quem dava término
oportuno às explicações, sorriu, benévolo, e interrogou:
– Qual de nós cometeria o absurdo de exigir vôo ao balão ca-
tivo? A mente humana, enraizada nos interesses mais fortes da
Terra, não detém outro símbolo.
Calamo-nos, atendidos em nossa fome de elucidações. Colhê-
ramos ali, na conversação de alguns minutos, precioso material de
observação para longo tempo.
Prosseguíamos, agora, em silêncio, extáticos ante a beleza
imponente da noite, maravilhosamente constelada.
Francisco Cândido Xavier - Libertação - pelo Espírito André Luiz 34

Vento brando sussurrava cânticos sem palavras na folhagem


leve e grupos de amigos, que nos defrontavam de instante a ins-
tante, mostravam no olhar a mesma doce felicidade que transbor-
dava do arvoredo florido.
E assim, banhados em comoções inesquecíveis, buscamos o
santuário em que receberíamos instruções para serviço próximo,
inundados de confiança e alegria, na posição de trabalhadores
jubilosos que caminhassem contentes para a luta, como se avan-
çassem, felizes, para uma festa de luz.

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