Treino de Tiro em Contexto Policial
Treino de Tiro em Contexto Policial
TREINO DE TIRO
Análise de Situações de Treino em Contexto
Policial
DISSERTAÇÃO DE MESTRADO
EM CIÊNCIAS DO DESPORTO
Covilhã, 2009
Dissertação de Mestrado em Ciências do Desporto
realizada sob a Orientação da Professora Doutora
Kelly Lemos Serrano O`Hara
Professora Auxiliar do Departamento de Ciências do
Desporto da Universidade da Beira Interior
RESUMO
Introdução: O treino de tomada de decisão em contexto policial não é uma temática recente. Contudo
a pesquisa demonstra que agentes policiais que recorrem ao uso de força letal, não têm a devida
preparação para intervir em situações reais, tendo implicações no seu sucesso, que raramente excede
50%, e no número crescente de incidentes que envolveram disparos acidentais. Segundo a revisão da
literatura conclui-se que as situações de treino de tiro em contexto policial não são suficientemente
representativas da realidade, porque (1) focam o uso de arma em condições estáticas, dando pouco
ênfase à complexidade de decisões que normalmente são solicitadas; (2) simplesmente não conseguem
incorporar as circunstâncias desafiantes que estão frequentemente presentes na situação real; 3) falta
de estruturação de conhecimento nesta área, com naturais implicações; 4) a dificuldade de articular os
diferentes constrangimentos inerentes às situações e 5) pelos custos inerentes aos processos de treino,
desde financeiros, temporais, materiais e humanos.
O objectivo do presente trabalho é (a) analisar as situações de treino de tiro em contexto policial; (b)
caracterizar o contexto e a situação de tiro; (c) definir as variáveis pertinentes; (d) discutir a
representatividade das situações de treino existentes.
Método: A amostra foi constituída por 15 estudos no âmbito do treino de tiro. Sobre a pesquisa
realizada definiram-se os critérios de análise e parâmetros de modo a uniformizar a recolha dos dados
pertinentes que permitiram comparar os estudos entre si. O tratamento dos dados foi feito com base na
distribuição percentual dos critérios e parâmetros definidos.
Resultados: Apenas 40% dos estudos são realizados em contexto policial e no que se refere às
variáveis do desempenho no tiro, a qualidade (50%) e o tipo (67%) da resposta são as predominantes,
combinadas com variáveis do indivíduo (51%) do ambiente (17%) e da tarefa (17%). Relativamente às
situações de treino a abordagem mais utilizada 33% é a carreira de tiro indoor, sendo as restantes
abordagens equitativamente utilizadas (cerca de 17%). Na globalidade dos estudos evidencia-se que
73% dos estudos recorrem a alvos estáticos, 87% utilizam distâncias pré-establecidas e não variáveis,
73% não apresentam movimentação do atirador e 73% não existe a presença do adversário. A maioria
das situações não apresenta variabilidade na realização da tarefa.
Conclusão: Os dados obtidos vão ao encontro das críticas levantadas pela bibliografia, relativamente à
falta de representatividade das situações de treino de tiro em contexto policial. Para colmatar este
problema sugerem-se um conjunto de considerações a ter em conta no treino desta competência.
ii
ABSTRACT
Introduction: The issue of appropriate decision training for the police is not a new concern. However,
research shows that agents who have employed lethal force do not have the appropriate preparation to
intervene in real situations, with implications on the success of performance (which marginally
exceeds 50%) and an increase in the number of incidents that involve the involuntary discharge of
weapons. Training situations are characterized by a poor representativeness of the reality because (1)
the focus is on the use of weapons in static conditions with little emphasis on the complexity of
decisions that are currently demanded; (2) they simply do not incorporate the challenging
circumstances that are so frequent in real situations; (3) there is little structural knowledge in this area,
which has obvious implications; (4) it is difficult to characterize the inherent problems that arise in
these situations; (5) there are inherent costs involved in the training process, whether financial,
temporal, material or human.
The objective of the present work is (a) to analyse firearms training in police context; (b) characterize
the context and situation of firearms training; (c) define the relevant variables and (d) discuss the
representivity of existing training situations.
Methodology: The sample has been taken from fifteen studies conducted on firearms training. Our
research defines the analytical criteria and parameters of these studies in order to create a uniform
system that permits us to compare the studies among themselves. This was done using percentual
bases of the criteria and parameters.
Results: Only 40% of the conducted studies were done so in police context, and in reference to
firearms training variables, 50% refer to quality of response and 67% to the type of response. These
were the predominant variables, together with the ones related to the individual (51%), the
environment (17%), and the task (17%). 33% of the studies were conducted at an indoor target range.
From the globality of the studies, we can see that 73% of the studies were conducted on static targets,
87% used pre-determined non-variable distances, 73% of the marksmen were firing from a static
position and in 73% of the cases, no adversary was present. In the majority of the situations, there was
not task variation.
Conclusion: Based on research recommendations, this study concludes that the existent police
training situations with firearms are not sufficiently representative of reality. So, the proposal
presented in this work considers the relevant constraints that need to be manipulated and carried out in
scenes close to real situations.
There are some important implications for police firearms training among the many findings, and this
study concludes with recommendations to improve representative task design.
iii
Palavras-chave:
Tomada de Decisão
Treino de Polícia
Treino de Tiro em Contexto Policial
Treino de Armas
Treino de Força Letal
Keywords:
Decision Making
Police Training
Police Shooting Training
Firearms Training
Deadly Force Training
iv
Agradecimentos
v
ÍNDICE
Resumo ....................................................................................................................................... ii
Abstract ..................................................................................................................................... iii
Palavras-chave/ Keywords ........................................................................................................ iv
Agradecimentos .......................................................................................................................... v
Índice ......................................................................................................................................... vi
Índice de Figuras ...................................................................................................................... vii
Índice de Quadros..................................................................................................................... vii
Índice de Gráficos .................................................................................................................... vii
Abreviaturas ............................................................................................................................ viii
vi
3.4 Características da Tarefa de Tiro ................................................................................ 45
3.5 Variabilidade das características da Tarefa ................................................................ 46
4. Recolha e Tratamentos de Dados .................................................................................... 48
CAPÍTULO [Link]ÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS ................................... 49
[Link] de Intervenção ................................................................................................... 52
[Link]áveis da Tarefa de Tiro .............................................................................................. 53
3. Abordagens do Treino de Tiro ........................................................................................ 63
[Link]ísticas da Tarefa .................................................................................................. 67
[Link]álise da Variabilidade das Situações Experimentais.................................................... 75
CAPÍTULO VI. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................... 86
CAPÍTULO VII. BIBLIOGRAFISA.................................................................................... 92
ÍNDICE DE FIGURAS
FIGURA 1 Síntese das Variáveis a considerar na STTCP .....................................................................83
ÍNDICE DE QUADROS
QUADRO 1 Síntese das Abordagens de Treino de Tiro em Contexto Policial .....................................29
QUADRO 4 Síntese da Variabilidade dos Critérios Definidos nos Estudos em Contexto Policial .......81
ÍNDICE DE GRÁFICOS
GRÁFICO 1 Distribuição Percentual do Contexto de Intervenção ........................................................52
GRÁFICO 3 Distribuição Percentual das Variáveis da Tarefa de Tiro em Contexto Policial ...............56
GRÁFICO 4 Distribuição Percentual das Variáveis da Tarefa de Tiro em Contexto Militar ................60
GRÁFICO 5 Distribuição Percentual das Variáveis da Tarefa de Tiro em Contexto Desportivo .........62
GRÁFICO 7 Distribuição Percentual das Abordagens de Treino de Tiro em Contexto Policial ...........65
GRÁFICO 8 Distribuição Percentual das Abordagens de Treino de Tiro em Contexto Desportivo .....65
vii
GRÁFICO 9 Distribuição Percentual das Características da Tarefa ......................................................68
ABREVIATURAS
FC Frequência Cardíaca
FR Frequência Respiratória
STCP Situação de Tiro em Contexto Policial
STTCP Situações de Treino de Tiro em Contexto Policial
TTCP Treino de Tiro em Contexto Policial
viii
CAPÍTULO I. INTRODUÇÃO
1
CAPÍTULO I. INTRODUÇÃO
I. INTRODUÇÃO
2
CAPÍTULO I. INTRODUÇÃO
4
CAPÍTULO II. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA
5
CAPÍTULO II. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA
6
CAPÍTULO II. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA
1. Objectivo do Estudo
Os objectivos deste estudo são: 1) rever a bibliografia de forma a compreender e estudar
o treino em contexto policial e a estruturação do conhecimento que daí surge; 2) caracterizar a
situação de tiro em contexto policial, definindo variáveis pertinentes de estudo; 3) verificar se
existe realmente uma escassez de trabalhos sobre o TTCP e a consequente necessidade de
estruturação do conhecimento existente; 4) analisar a representatividade das situações de
treino e situações experimentais dos diferentes estudos; 5) apresentar um conjunto de
considerações a ter em conta na construção de situações representativas de tiro em contexto
policial.
Assim, este trabalho parte da grande questão Q1 - As situações existentes em Treino de
Tiro em Contexto Policial são representativas da realidade?
Uma vez que se fala em situações de treino e representatividade das mesmas, torna-se
fundamental perceber quais os princípios e pressupostos que devem fundamentar a construção
de situações de treino. No entanto para que seja possível operacionalizar os fundamentos
inerentes ao conceito de treino, na Situação de Treino de Tiro em Contexto Policial (STCP), é
necessário usar um quadro teórico que dê suporte à análise da mesma, ao nível da definição
dos objectivos, compreensão das decisões e adaptações desejadas no indivíduo.
Por outro lado, se se pretende discutir a representatividade das situações de treino foi
fulcral que se definisse o conceito de representatividade e que se analisasse as variáveis
pertinentes a considerar no estudo do tiro em contexto policial.
Como consequência, definiram-se os seguintes objectivos parciais, que traduzimos pelas
seguintes questões:
7
CAPÍTULO II. APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA
8
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
9
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
1. Treino
1.1 Conceito de Treino
Quando se pensa em treino, assume-se que este é um conceito intimamente relacionado
com a área das Ciências do Desporto.
Inúmeros autores exploraram e definiram este conceito. Weineck (1983) citando Matveiev
(1972), explica Treino como a preparação física, técnico-táctica, intelectual e moral do
desportista através de exercícios corporais, e referindo Martin (1977) sustenta ainda, que treino
é um processo que produz uma modificação de estado, quer físico, motor, cognitivo ou afectivo.
Martin, Carl, e Lehnertz (1997) definem Treino como um processo complexo de acção
dirigido ao desenvolvimento, segundo um plano de um determinado estado de prestação e à sua
demonstração em situações de confronto desportivo, especialmente em competição. Contudo,
para clarificar este conceito citam vários autores, nomeadamente:
Carl e Keiser (1976), encaram o Treino como um processo complexo de acção que
tem como objectivo uma acção planificada sobre o desenvolvimento da prestação
desportiva.
Martin (1977), defende que Treino é um processo controlado por um plano, com o
qual, através de medidas de Treino, devem ser atingidas variações do nível de estado
da prestação complexa ou capacidade de acção motora segundo determinados
objectivos,
Hollmann (1963), define Treino como a soma de todas as solicitações (estímulos)
aplicados num determinado período de tempo, que leva a modificações funcionais e
morfológicas do organismo.
Ulich (1973), descreve Treino como um processo planificado, provocador de
melhoria das capacidades e das possibililidades, ou seja, dos planos e das estruturas
da acção.
Stegmann (1971), explica treino como uma acção que implica a melhoria da
capacidade de prestação através da variação mensurável da estrutura orgânica.
Hollmann (1964), sugere o conceito de Treino como a exercitação funcional
planificada no campo físico ou mental, com o objectivo de atingir a melhor prestação
individual, sobretudo no desporto.
10
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
11
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
Por sua vez, os pressupostos acima definidos remetem para a caracterização do treino
como um processo:
Finalizado, porque tem de ter objectivos claramente definidos.
Complexo, pois pressupõe o seu direccionamento para a globalidade do organismo
(individuo).
Planeado, uma vez que implica uma estrutura prévia e detalhada de todos os seus
aspectos.
Sistemático, isto é uma operacionalização metódica e constante.
Científico, porque deve assentar num conhecimento rigoroso e racional com bases
sólidas, bem sistematizadas e com objectivos verificáveis e dotados de valor
universal.
Após ter sido definido um conjunto de pressupostos e características sob os quais assenta o
conceito de treino independentemente da área do conhecimento a que se aplica, e, considerando
que treino implica o conhecimento dos comportamentos e competências necessárias de modo a
optimizar o capital humano, pode assumir-se que as características do treino desportivo são
semelhantes aos de outras áreas de intervenção, nomeadamente na polícia.
12
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
missão de astronautas a Marte em 2020 (Dinges, 2003). A investigação em causa tem, como
objectivos fundamentais, desenvolver processos de treino, que permitam melhorar o
desempenho dos astronautas, perante as situações com que os mesmos se irão deparar.
Os processos de treino em questão contemplam a optimização dos factores interpessoais,
individuais (como, motivação e cognição), organizacionais, culturais e a tomada de decisão em
situações de tensão.
Uma parte deste projecto, a decorrer na Antárctida, é a colocação de situações de treino em
situações extremas, cujo objectivo é a compreensão de como a personalidade, factores culturais e
dinâmicas de grupo, que influenciam o comportamento individual e do grupo. Isto porque, o
facto de se identificar elementos de liderança que optimizem o funcionamento da tripulação em
ambientes e condições extremas, e compreender a forma como factores individuais e colectivos
afectam a saúde psicológica e fisiológica, em situações de isolamento colectivo na Antárctida,
pode permitir a identificação e design de medidas preventivas para a tripulação (Dinges, 2003).
Ainda na mesma lógica, a NASA, com intuito de optimizar a tomada de decisão em
condições de variabilidade e incerteza, desenvolveu outro processo de treino baseado em
algumas orientações fornecidas pelo Columbia Accident Investigation Board Report (CAIB),
relatório que foi desenvolvido na sequência da queda do vaivém Columbia em 2003. Este
programa de treino foi direccionado para a equipa gestora da missão, e teve como objectivo
primordial, promover situações de potencial perca do vaivém, situações de incerteza e a
interacção da equipa de gestão com diversas organizações de suporte da NASA (CAIB. 2003a;
CAIB. 2003 b).
Outro exemplo, mas agora na marinha, Cannon-Bowers e Salas (1998), na sequência de
um erro de tomada de decisão, na qual foi abatido um avião civil, têm investigado a forma como
a tomada de decisão é afectada pela influência de diferentes fenómenos e as exigências do
contexto na relação com o tempo que se tem para actuar.
A partir deste evento, Cannon–Bowers e Salas (1998) desenvolveram o programa
TADMUS (Tactical Decision Making Under Stress), cujo objectivo é definir o tipo de
problemas ao nível da tomada de decisão, que a marinha normalmente enfrenta, de modo a
desenvolver medidas e princípios de suporte e treino da mesma.
Na área dos bombeiros foi realizada uma investigação que teve como finalidade
compreender a forma como o treino pode ser utilizado para melhorar a tomada de decisão dos
bombeiros perante novas situações, i.e., performance adaptativa (Joung, Hesketh e Neal, 2006).
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
Joung et al. (2006) afirmam que é necessário uma organização do conhecimento que
permita analisar as situações ecológicas que os bombeiros normalmente vivenciam, para que as
situações de treino possam ser representativas do tipo de problemas e exigências da realidade,
permitindo assim desenvolver estratégias de resolução de problemas e capacidade de adaptação
à variabilidade do contexto.
Ainda na área de intervenção dos bombeiros, foram desenvolvidos estudos sobre a tomada
de decisão em contextos de incerteza e variabilidade, pois compreendendo o tipo de decisões
tomadas nestes contextos, poderão ser desenvolvidos sistemas de suporte e programas de treino
que foquem os factores situacionais e competências gerais que permitam resolver problemas
(Calderwood, Crandall, e Klein, 1987).
Os teorizadores da área da gestão empresarial consideram que a tomada de decisão é uma
das competências fundamentais para um gestor (Greenberg e Baron, 1997). Para além da tomada
de decisão, a autonomia, a versatilidade e a capacidade de lidar com novas situações, são
competências base que deverão ser desenvolvidas na formação de economistas (Lopes, 2002). O
desenvolvimento destas competências deverá incluir processos de treino que tenham uma
perspectiva transcultural, de modo a promover nos gestores, a capacidade de compreensão e
adaptação às especificidades de um determinado contexto, onde se pretende implementar um
determinado produto/serviço (Gomez-Mejia, Balkin e Cardy, 1995).
Com base na revisão da literatura, pode-se sugerir que a preocupação em desenvolver
programas de treino se generalizou em diferentes áreas de intervenção, e em qualquer uma
dessas áreas, são demonstradas as mesmas preocupações e princípios na estruturação e
construção de programas ou situações de treino, donde se salienta a necessidade de:
Identificar as exigências do contexto, permitindo definir objectivos, de modo a criar
situações de treino, capazes de solicitar a rentabilização de competências e
comportamentos adequados à especificidade da situação real.
Dominar determinadas competências, que permitam ao indivíduo tomar decisões e
adaptar-se a contextos de incerteza e variabilidade.
Adoptar uma perspectiva global, que integre o conhecimento dos diferentes
aspectos inerentes ao processo de treino.
Resumindo, quando se fala em treino numa lógica de melhoria do desempenho humano,
pode-se admitir que a construção de processos ou situações de treino, deve assentar numa
perspectiva global, que integre o conhecimento sobre o indivíduo, o contexto onde está inserido
e a tarefa a que tem de responder, de modo a que tais processos sejam capazes de promover
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
3.1 Tarefa
O tiro é uma das competências fundamentais para a operacionalização do trabalho de
polícia, uma vez que pode interferir com a vida humana (Barber, 1986 apud Marion, 1998;
Soeiro e Pauleta, 2004).
Segundo White (2006), citando Fyfe (1988) e Geller e Scott (1992), o tiro pode ter
consequências devastadoras para a vítima, para o agente, departamento e comunidade.
No entanto, há situações em que não existe outra solução para lidar com indivíduos
agressivos, senão, empregar a força, nomeadamente com o uso de armas de fogo (Kop e
Euwena, 2001).
Apesar de ser uma competência a utilizar em último recurso, verificou-se que o uso de
armas de fogo e o tiro são das poucas competências que exigem uma requalificação periódica e
obrigatória na polícia (Morrison, 2006).
A situação de tiro e respectivas confrontações podem ser categorizadas de duas formas,
segundo Vila e Morrison (1994):
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
20
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
21
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
De acordo com Mononen et al. (2007), referenciando Mason (1990), no tiro com pistola, a
rotação do corpo implica 53% da variabilidade da precisão do tiro em atiradores experientes,
conseguindo o membro superior que segura na arma mover-se independentemente do tronco. No
tiro com espingarda, é necessário recorrer ao apoio do tronco para estabilizar a arma contra o
mesmo.
Embora os autores não façam referência à taxa de variabilidade na exactidão do tiro, como
consequência da rotação do tronco, a conclusão anteriormente citada no estudo de Mononen et
al. (2007), faz com que se deduza que, no tiro com espingarda, caso ocorra rotação do tronco, a
taxa de variabilidade da precisão será maior que no tiro com pistola, demonstrando assim a sua
relação com a estabilidade postural e os movimentos da cadeia cinética utilizada.
No tiro a alvos em movimento, a quantidade de movimento vertical do cano da arma,
juntamente com as variáveis deslocamento do centro de pressão do atirador (COP) e a sua
estatura, conseguem predizer 75% da variação dos resultados do tiro (Mononen et al., 2007).
Deste modo o movimento do cano da arma, juntamente com o deslocamento do centro de
pressão e a estatura do atirador, permite predizer 75% da variação dos resultados do tiro, sendo
fundamental para a precisão do mesmo.
3. 2 Ambiente
Na situação de tiro, existem algumas variáveis ambientais que são incontroláveis, como a
luminosidade, o tipo de terreno, o clima, a multidão (Vila e Morrison, 1994), velocidade do
vento, gravidade (Baker et al., 2004) e podem interferir fisicamente com a exactidão/ precisão
no tiro.
Relativamente à velocidade do vento, Baker et al. (2004) sugerem que uma velocidade de
0,0028 m/s (velocidade suficiente para levantar poeira e papéis) desloca a munição cerca de
51mm a uma distância de 500 metros.
De acordo com Copay e Charles (2001b), devido à variabilidade do ambiente, numa
situação de tiro em contexto policial, o agente pode ser confrontado com diferentes tipos de
luminosidade quer ao nível de intensidade, quer ao nível da sua localização face ao alvo. Assim,
a eficiência no uso de armas, em condições de baixa luminosidade, é essencial, uma vez que
segundo o FBI (1997) 62,1% dos assaltos e 70,8% das mortes de agentes policiais ocorreram
entre as 18:01h e as 6:00h (Copay e Charles, 2001b).
As condições de luminosidade limitam a capacidade de ver o alvo e a mira da arma,
influenciando, naturalmente, a precisão e exactidão do tiro (Copay e Charles, 2001b).
22
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
3.3 Individuo
Após terem sido indicados os factores que caracterizam o ambiente e a tarefa do tiro em
contexto policial, serão caracterizados os Constrangimentos do Indivíduo intervenientes na
situação de tiro.
23
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
De acordo com Baker et al. (2004), o atirador é talvez um dos intervenientes que está
sujeito a maior variabilidade, pelo que existem alguns estudos que tentam definir alguns factores
inerentes ao indivíduo que actuam neste tipo de situações.
Vila e Morrison (1994) desenvolveram um estudo sobre os limites biológicos que
influenciam a precisão em STCP. No seu estudo, referem que os factores biológicos interferem
na performance em situações imprevisíveis de tiro, podendo ser agrupados nas seguintes
categorias:
i. Factores Cognitivos e Perceptuais, perante um problema a resolver, estes factores
estão associados à detecção, decisão e resolução do mesmo (Vila e Morrison, 1994).
ii. Factores Biomecânicos estão associados ao sistema muscular e sistema ósseo (Vila e
Morrison, 1994).
iii. Factores Neurofisiológicos, associados ao sistema nervoso que transmite e processa
a informação de todo o corpo (Vila e Morrison, 1994).
Aqui, os autores incluem os impulsos nervosos como um factor neurofisiológico, e citando
Campbell (1987), explicam que um impulso nervoso é transmitido a uma velocidade máxima de
1 x 102 metros por segundo. Mais concretamente na situação de tiro, a experiência indica que em
condições de carreira de tiro, atiradores experientes conseguem atirar com exactidão a alvos à
altura do peito, com dimensões semelhantes ao tamanho da zona vital de uma pessoa (25mm)
posicionados em frente ao alvo, a uma distância de 7 metros em cerca de meio segundo. Esta
velocidade é atingida a partir de uma pistola, já numa posição pronta a disparar, quando o
atirador já tem a arma na mão. Se a arma ainda estiver no coldre, esta velocidade decresce até
cerca de um segundo (Vila e Morrison, 1994).
Conforme, Heim et al. (2006), outro factor inerente ao indivíduo, relevante na situação de
tiro, é o tipo de contracções musculares, uma vez que os tiros acidentais ou não intencionais,
parecem estar intimamente relacionados com contracções musculares involuntárias.
De acordo com Heim et al. (2006), citando Enoka (2003), as contracções involuntárias
podem ocorrer devido a:
i. Contracções simpáticas, este tipo de contracção refere-se ao facto de uma
contracção involuntária poder ocorrer num músculo quando outro músculo
semelhante está a realizar uma acção (efeito de espelho - fisiologia)
ii. Perda de Equilíbrio, quando ocorre um privação de equilíbrio o corpo humano
solicita rápidas contracções involuntárias, para tentar retomar a posição inicial.
iii. “Startle reaction”, é um reflexo global como resposta a um estímulo inesperado.
24
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
Num estudo realizado por Heim et al. (2006), com um grupo de estudantes com diferentes
vivências desportivas, para identificar factores ambientais e fisiológicos que podem interagir de
modo a originar disparos acidentais, os autores concluíram que existem grandes diferenças na
forma como determinados movimentos do corpo humano influenciam o risco de actividade
muscular não intencional e que desencadeiam disparos acidentais.
Resumidamente Heim et al. (2006) sugerem que o movimento dos membros inferiores
aumenta a probabilidade de ocorrência de disparos acidentais resultantes de actividade muscular
não intencional, comparando com deslocação do membro superior oposto.
Os autores concluíram ainda que quanto maior a intensidade do movimento dos membros
inferiores maior a probabilidade da ocorrência de disparos acidentais. Isto porque, a alteração da
posição dos membros inferiores desencadeia actividade muscular não intencional na mão que
segura a arma, e que movimentos realizados com o membro superior oposto, existe uma maior
tendência para se empregar maior intensidade de forças exercidas na arma, durante a acção de
empurrar do que a de puxar.
Para que se possam criar as adaptações necessárias e solicitar as movimentações correctas
é necessário compreender o tipo de movimentos que estão na origem da ocorrência de actividade
muscular (Heim et al., 2006), pelo que o tipo de contracções musculares e a cadeia cinética são
constrangimentos do indivíduo que serão considerados no presente trabalho.
Para além do tipo de contracções musculares e movimentos da cadeia cinética, Baker et al.
(2004) define como variáveis que podem influenciar o tiro a Frequência Respiratória (FR), a
Frequência Cardíaca (FC), Fadiga e Ansiedade.
Segundo este autor, na posição vertical, a respiração normal, pode deslocar a ponta da
arma cerca de 12,7 mm durante a mudança da inspiração para a expiração, e alterações na
frequência cardíaca podem deslocar a ponta da arma cerca de um 25,4 mm. Apesar da alteração
parecer mínima, quando a linha de mira se desloca cerca de 25,4 mm, dificilmente o atirador
acerta no alvo (Baker et al., 2004).
De acordo com Baker et al. (2004), a fadiga e a ansiedade podem diminuir o sucesso dos
resultados no tiro; por um lado, a fadiga provoca tremores e outras instabilidades, e a ansiedade
aumenta a frequência cardíaca e frequência respiratória. E como já se referenciou anteriormente,
a frequência cardíaca e respiratória podem diminuir a precisão do tiro.
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
4. Treino de Tiro
4.1 Treino de Tiro em Contexto Policial (TTCP)
Neste ponto do trabalho, serão revistos alguns estudos descritivos sobre as abordagens de
treino de tiro, em contexto policial, actualmente utilizadas.
No que respeita aos processos de treino de tiro, a bibliografia existente sobre o tema
sustenta que:
Relativamente aos recursos materiais, temporais, financeiros e humanos
A familiarização com armas, bem como as competências motoras inerentes ao uso de
armas requer muitas horas para a sua introdução, desenvolvimento e aperfeiçoamento.
(Morrison, 2006).
Para além disso, o treino da tomada de decisão nas situações de uso de arma exige
normalmente um rácio de um instrutor por aluno, o que exige um grande dispêndio de tempo do
instrutor, das infra-estruturas e equipamento (Morrison, 2006).
E o que se verificou, num estudo elaborado por Morrison (2003), é que, durante um
período de 5 anos entre 1993-1997, no estado de Washington, poucos departamentos policiais
investiram em melhorias ao nível das abordagens do treino de tiro. Nenhum departamento tinha
uma “casa de tiro” para simulações reais, e pouco mais que um em cada dez departamentos
(7,4%) adquiriram um sistema reactivo e 9,8% adquiriram uma carreira de tiro táctica. Só cerca
de 11,4% dos departamentos adquiriram programas de computador para simulações, 12,2%
investiram em sistemas de alvos rotativos e 13,8% adquiriram sistemas de alvos em movimento.
Com base no autor acima referenciado, o tiro assume-se como uma competência
dispendiosa ao nível do treino, nomeadamente ao nível dos recursos temporais, materiais e
financeiros, como se pode constatar através do exemplo do Estado de Washington, em que
apenas uma taxa muito reduzida de departamentos realizaram investimentos em novos materiais.
Apesar destes serem um factor importante, uma vez que condiciona as opções tomadas
relativamente ao tipo de treino e investimentos realizados pelas organizações policiais, estas
opções são também condicionadas pelas políticas de gestão e prioridades das organizações e
departamentos. Assim, este factor não é prioritário no desenvolvimento deste trabalho, sendo
apenas referenciado como uma das origens do insucesso desta competência em situação
ecológica.
26
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
27
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
atirar, tipo de zonas de pontuação no alvo e os sistemas de pontuação arbitrária (Morrison e Vila,
1998; Morrison, 2003).
Segundo Morrison (2003), estar qualificado para atirar, deve significar responder com
competência durante situações de confrontação armada, que possam surgir a partir de situações
rotineiras, envolvendo distâncias pequenas. Para tal acontecer, a qualificação por sua vez,
deveria reflectir a totalidade do treino.
Ainda segundo este autor, para que a qualificação desta competência seja válida, deve
existir uma pesquisa sobre o contexto onde estas confrontações ocorrem, sobre as limitações
fisiológicas que não devem ser mitigadas pelo treino e sobre as técnicas ensinadas aos agentes
policiais (Morrison e Vila 1998).
Para além das abordagens de treino, utilizadas no passado e actualmente, não conseguirem
incluir as circunstâncias desafiantes das STTCP (Morrison, 2003), uma pesquisa realizada no
Instituto de Treino Policial da Universidade de Illinois, sugere que deveriam ser apresentados
mais cenários de treino de tiro quer na academia, quer depois de saírem da academia. Este tipo
de treino deveria incluir situações específicas, o mais próximo possível das condições que os
agentes irão encontrar na realidade (Copay e Charles, 2001a e b).
Através da revisão de estudos sobre este tema, verifica-se que as abordagens de treino
apresentadas, são fortemente criticadas por autores como Vila e Morrison (1994), Morrison e
Vila (1998), Helsen e Starkes, (1999), Morrison (2003), Heim et al., (2006) que remetem para a
falta de representatividade das situações de qualificação e, consequentemente, de treino do tiro.
De acordo com os autores acima citados, a maioria das situações utilizadas, privilegiam
condições fixas de localização e distância dos alvos, tempos disponíveis, posições e tipo de
luminosidade, que em nada se assemelham às condições de imprevisibilidade e variabilidade do
contexto em que ocorrem.
Para além da falta de representatividade das situações de treino acima referidas, é ainda
discutido por alguns autores como Vila e Morrison (1994), Morrison e Vila (1998), Morrison
(2003), a inexistência de uma sistematização e estruturação do conhecimento respeitante ao
treino do uso de armas e tiro. Este problema segundo os autores pode estar na origem da falta de
representatividade das situações.
Com base nos estudos anteriormente citados, é apresentado no Quadro 1, um resumo das
Abordagens de TTCP.
28
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
Num espaço é projectado um vídeo em tamanho real e acompanhado de som, constituído por
Simulações de Vídeo Helsen e Starkes (1999)
encenações de intervenções potencialmente perigosas.
Simulações combinadas de slides e Combinações de vídeo e de slides, sequencialmente organizados em tamanho real
Helsen e Starkes (1999)
vídeo
“Role playing” Com auxílio de cenários e armas com munições de tinta, são criadas simulações com Helsen e Starkes (1999);
Paint-ball participantes reais. Marion (1998)
Criação de Cenários Thunder Ranch” Simulações onde as paredes podem ser manipuladas e os alvos que podem ser
Marion (1998)
no Texas reposicionados.
29
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
1
Diferentes pesquisas demonstram que os potenciais lentos são responsáveis por alterações psicofisiológicas, como a
preparação, receptividade e mobilização de recursos (Konttinen et al., 1998).
30
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
capacidades de manter e apontar a arma podem dar informação essencial sobre o movimento
do cano da arma.
O grupo de participantes reuniu um conjunto de trinta e sete atiradores masculinos, os
quais foram divididos em três grupos com base na sua experiência enquanto atiradores. O
grupo dos inexperientes, constituido por vinte e quatro atiradores que não tinham qualquer
tipo de treino em tiro; o grupo dos experientes, constituído por seis atiradores, com cerca de
quatro a oito anos de treino de tiro a alvos em movimento, participando em competições a
nível regional e nacional; e ainda o grupo de elite, constituído por sete atiradores, com quatro
a onze anos de experiência, participando em competicões de tiro com alvos em movimento, a
nível nacional e internacional.
Neste estudo, para compreender o desempenho do tiro, foram consideradas inúmeras
variaveis, nomeadamente os desvios laterais e horizontais do cano da arma, o ponto do alvo
onde acertou em relação ao centro do alvo, o centro dos desvios horizontais e verticais da
arma, ao qual os autores chamaram Centro de Gravidade.
A situação experimental, consistiu em atirar na posição bípede, a 10m de distância, com
uma arma de repetição, a um alvo em movimento, numa carreira de tiro indoor. O alvo
movimentou-se alternadamente, ao longo de uma linha de 2m, da direita para a esquerda e da
esquerda para a direita num espaço de tempo correspondente a 5 segundos ( equivalendo a
uma velociadade de 0,4 m/s).
Os grupos de inexperientes e de elite atiraram vinte tiros e o grupo de experientes
atirou trinta, sempre em séries de dez tiros. Cada atirador teve de segurar a arma com as duas
mãos, já numa posição pronta a disparar, podendo após cada tiro, ver os resultados e a
trajectória da bala num computador.
Com base nos resultados obtidos, foram identificados quatro factores essenciais no
treino do tiro a alvos em movimento, nomeadamente a Área onde se segura a arma, Precisão
de apontar, Tempo em que se aponta ao alvo e Tempo em que se prime o gatilho.
Os autores sugerem ainda que o treino optoelectrónico é uma mais valia para a análise
do tiro a alvos em movimento.
Ainda no mesmo ano, Mononen, Viitasalo, Kontinnen e Era (2003b) realizaram um
estudo sobre a influência do feedback cinemático, na aprendizagem e desempenho do tiro.
O grupo de participantes deste estudo foi constituído por quarenta estudantes da Escola
de Comunicações da Força Aéria, escolhidos ao acaso de um total de cento e vinte. Durante o
curso, os participantes não tiveram formação de tiro, e foram divididos em quatro grupos
experimentais, que se distinguiam entre si, pela quantidade e tipo de feedback que recebiam,
31
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
Com este estudo o autor concluiu que uma boa estabilidade corporal e a capacidade de
manter a estabilidade da arma, parecem ser pré-requisitos para um bom desempenho no tiro,
em indivíduos inexperientes. A estabilidade postural está relacionada directa e indirectamente
com a estabilidade da arma, uma vez que o aumento na rotação do corpo, pode provocar
aumentos no movimento da arma, que por sua vez, pode provocar baixos resultados de
precisão e vice-versa. Consequentemente, a exactidão no tiro depende da variabilidade do
comportamento postural.
No estudo II, Mononen (2007) objectivou: 1) compreender se os participantes providos
de informação sobre o desempenho, durante a fase de aquisição, demonstram uma melhoria
de desempenho maior do que os participantes que recebem apenas informação sobre os
resultados e 2) avaliar um período de treino de quatro semanas com três tipos de condições
diferentes de feedback visuais de performance.
O grupo de participantes foi idêntico ao grupo utilizado no estudo I, porém neste estudo,
os participantes foram divididos em três grupos experimentais, que se distinguiam entre si,
pela quantidade e tipo de feedback que recebiam, relativamente ao desempenho, e um grupo
de controlo que participou apenas no pré-teste e no pós-teste. O grupo VS100 recebeu sempre,
após cada tentativa, feedback dos resultados e feedback visual relativo à performance; o grupo
VS50 recebeu sempre feedback dos resultados após cada tentativa, e ainda o feedback visual
de desempenho apenas em 50% das tentativas; o grupo (KR) recebeu apenas o feedback
relativo aos resultados obtidos.
As variáveis consideradas neste estudo foram: 1) tipo de feedback fornecido; 2) o
desempenho do tiro observado através das pontuações obtidas e RMSE (root mean square
error), que inclui os erros constantes e variáveis, aplicados como a variabilidade total e 3)
estabilidade postural analisada a partir da velocidade da rotação antero-posterior, da
velocidade da rotação médio-lateral e o movimento da arma 200ms antes de se premir o
gatilho.
Tanto as condições do pré-teste, como o pós-teste e das situações de treino foram
idênticas à do estudo I, sendo a única diferença o tipo de feedback que cada grupo
experimental recebeu durante o treino.
Neste estudo verificou-se que nos dois primeiros dias de treino, a precisão foi maior no
grupo que recebeu feedback visual após todas as tentativas, do que nos restantes grupos.
Verificou-se ainda que os índices de estabilidade postural não variaram entre os grupos
experimentais durante o período de treino e testes finais.
34
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
De acordo com Mononen (2007), os resultados obtidos sugerem que durante a fase de
treino, em tarefas com múltiplos graus de liberdade, o feedback relativo ao desempenho é
mais produtivo do que apenas o feedback dos resultados.
O estudo III, teve como finalidade 1) compreender se a informação sobre o movimento
da arma influencia as adaptações posturais realizadas pelo atirador antes de premir o gatilho e
2) avaliar um período de treino de quatro semanas com dois tipos de condições diferentes, ao
nível do feedback visual, relativo à estabilidade postural e estabilidade da arma, fornecido
antes de o participante premir o gatilho (Mononen, 2007).
O grupo de participantes utilizado neste estudo foi semelhante ao grupo utilizado no
estudo I, porém, os participantes foram divididos em dois grupos experimentais, que se
distinguiam entre si, pela quantidade de feedback de desempenho que recebiam. O grupo
VS100 recebeu sempre feedback dos resultados e feedback visual de desempenho, o grupo
(KR) recebeu apenas o feedback dos resultados obtidos.
As variáveis em estudo foram: 1) tipo e quantidade de feedback fornecido aos
participantes; 2) estabilidade da arma observada através do movimento da mesma, 200ms
antes de se premir o gatilho e 3) estabilidade postural analisada através da amplitude máxima
da rotação e do momento da velocidade.
Tal como no Estudo II, tanto as condições do pré-teste, como do pós-teste e das
situações de treino, foram idênticas à do estudo I, diferenciando-se apenas pelo tipo de
feedback que cada grupo experimental recebeu durante o mesmo.
No teste final, verificou-se que nos participantes providos com feedback visual, a
amplitude máxima de rotação foi menor que a verificada no grupo sem feedback de
desempenho. Contudo não se verificaram diferenças significativas, ao nível do momento de
velocidade e o movimento da arma no momento de premir o gatilho, entre os grupos
experimentais.
Segundo Mononen (2007), os resultados demonstram que o aumento da estabilidade
postural provoca melhorias no desempenho e aprendizagem no tiro.
O estudo IV, teve como objectivo compreender se a informação auditiva sobre o
desempenho, durante a fase de aquisição, representa uma melhoria maior ao nível do
desempenho, do que apenas a informação sobre os resultados.
Assim, como nos estudos anteriores, o grupo de participantes foi análogo ao grupo
utilizado no estudo I, porém neste estudo, os participantes foram divididos em dois grupos
experimentais, que se distinguiam entre si, pelo tipo de feedback relativo de desempenho que
recebiam, e um grupo de controlo que participou apenas no pré-teste e no pós-teste.
35
CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
Este estudo considerou como variáveis 1) o tipo de feedback fornecido aos participantes
e 2) o desempenho no tiro observado através da pontuação obtida.
O design experimental, bem como as condições de treino, foram idênticos às dos
estudos anteriormente revistos, diferenciando-se apenas pelo tipo de feedback fornecido.
Tanto no período de treino, como no teste final, verificou-se uma maior precisão, no
grupo que teve feedback auditivo, pelo que os autores questionam se o feedback de
desempenho é mais produtivo, do que apenas o feedback dos resultados.
Um dos estudos encontrados em contexto policial, foi o elaborado por Meyerhoff et al.
(2004), que teve como objectivo fundamental testar a capacidade dos participantes actuarem
com base na sua formação e recursos pessoais, numa situação extremamente stressante e com
diferentes tarefas, nomeadamente a tomada de decisão no tiro.
O grupo de participantes foi constituído por um total de noventa recrutas, que tinham
terminado o curso no Centro Federal de Treino de Forças Policiais (FLECT) nos Estados
Unidos da América.
Para este estudo foram consideradas como variáveis do desempenho do tiro, o tipo de
respostas (se atirou ou não) e a precisão (se acertou ou não, a quem atirou: - ao refém ou ao
adversário), e como respostas biofisiológicas foram consideradas a frequência cardíaca e os
níveis de cortisol salivar.
Uma semana antes de participarem nas situações, os participantes colocaram medidores
de frequência cardíaca e foram efectuadas colheitas de amostras de saliva, para avaliar os
níveis de cortisol salivar. Durante esta semana, foram ainda realizados testes psicométricos, e
após a aplicação dos mesmos, retiraram novamente amostras de saliva. Após esta primeira
semana, num dia normal de trabalho, os participantes foram enquadrados em equipas com
colegas mais experientes, e receberam uma chamada para intervirem numa queixa de
violência doméstica. Na sequência desta queixa os participantes deslocaram-se a uma casa,
onde se desencadeou uma situação de tiroteio (aproximadamente 3m) com refém.
Apesar dos participantes não saberem, esta situação foi simulada por agentes policiais.
Já na esquadra, a situação foi seguida pela divisão de Assuntos Internos, tendo sido feita
uma entrevista aos participantes, e a aplicação de questionários de ansiedade.
Neste estudo verificou-se que 97% dos participantes que atiraram mais do que uma vez,
não conseguiram cumprir o critério de 70% desses tiros, ou seja, terem acertado no suspeito.
Para além deste facto, muitos dos participantes dispararam, a partir duma posição com a
mínima cobertura possível e ao contrário do que era esperado e 70% dos participantes
mudaram a arma para a mão não dominante, para poderem operar o rádio na mão dominante.
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
divididos em dois grupos, concretamente, grupo de treino, que seguiu o programa de treino
elaborado e o grupo de controlo que realizou o pré-teste e o pós-teste.
Este estudo analisou a força exercida pela cadeia cinética responsável por segurar a
arma e precisão do tiro (pontuação atribuída aos diferentes círculos definidos no alvo), como
variáveis.
Foi aplicado um pré-teste de tiro, no primeiro dia do curso de tiro, e um pós-teste no
último dia do curso. Para ambos os testes, os participantes tiveram de atirar catorze tiros a
uma distância de 13,65 m, a um alvo de papel, que tinha a forma de um corpo humano da
cintura para cima. Durante o período entre o pré-teste e o pós-teste, foi dado ao grupo de
treino um “Grip Master” (utensílio que permite trabalhar os dedos da mão com diferentes
resistências (aproximadamente 4, 3 e 2 kg de forma independente para cada dedo). Foi pedido
aos participantes, que exercitassem os dedos até atingir o ponto de fadiga, durante várias
vezes ao dia, de modo a atingir varias séries de cem repetições durante os cinco dias de
semana, com descanso ao fim-de-semana.
Os autores, não verificaram grandes desigualdades ao nível da força exercida pela
cadeia cinética responsável por pegar na arma e premir o gatilho, entre o grupo de treino e o
grupo de controlo. Assim como também não verificaram grandes diferenças ao nível da
pontuação no tiro, entre o grupo de controlo e o grupo que tinha um plano de treino de força
estipulado, antes e depois do curso de armas. De acordo com os resultados verificados, a força
exercida pela cadeia cinética responsável por segurar na arma e premir o gatilho, não é uma
variável prioritariamente responsável pela melhoria do desempenho no tiro em contexto
policial (Copay e Charles, 2001a).
Nesse mesmo ano Copay e Charles (2001b), desenvolveram um trabalho em contexto
policial, cujo objectivo foi compreender a influência das condições de luminosidade na
precisão do tiro. As variáveis em análise foram a localização e o tipo de luminosidade e a
precisão no Tiro (pontuação atribuída aos diferentes círculos definidos no alvo).
De modo a diagnosticar o nível de experiência dos recrutas (experientes ou
inexperientes), foi aplicado um teste semelhante ao teste aplicado no inicio e fim do curso de
tiro, que consiste em atirar vinte e quatro tiros a uma distância de 6 m, catorze tiros a 13,65m,
e doze tiros 23m.
A situação experimental, consistiu em atirar a um alvo amarelo de papel, que tinha a
forma de um corpo humano da cintura para cima, em quatro situações diferentes: 1) para um
alvo iluminado a partir da parte posterior; 2) para um alvo iluminado a partir da parte anterior;
3) para um alvo com auxílio de uma lanterna e 4) para um alvo iluminado com uma luz
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
intermitente. Nas primeiras três situações foi disparado um total de doze tiros, a uma distância
de 13,65m, enquanto que na ultima situação foi disparado um total de catorze tiros a uma
distância de 6,37m.
Os resultados sugerem que os dispositivos de tiro nocturno melhoram a precisão no tiro
em situações de baixa luminosidade, tanto para atiradores experientes como inexperientes.
Os autores defendem que o tiro assistido de lanterna parece ser uma competência difícil
de dominar, uma vez que segurar numa lanterna durante o tiro diminui a precisão, estando
esta diminuição dependente do tipo de lanterna e do nível de precisão do atirador.
Outro trabalho realizado em tiro em contexto policial, foi o de Heim et al. (2006), que
teve como finalidade 1) identificar factores ambientais e fisiológicos que podem interagir, de
modo a provocar tiros acidentais e 2) identificar que tipo de movimentos do corpo humano,
estão mais frequentemente relacionados com a ocorrência de actividade muscular não
intencional, tentando através destes dois aspectos, reunir um conjunto de sugestões para o
treino de polícias.
O grupo de participantes englobou um total de vinte e cinco estudantes (treze
femininos) com idades compreendidas entre os vinte e um e os trinta e nove anos. A maioria
dos participantes tinham historial desportivo em modalidades como futebol, andebol, dança,
halterofilismo, ginástica e quatro participantes masculinos tinham experiência em tiro,
proveniente do serviço militar nacional.
Para este estudo foram equacionadas como variáveis o tipo de movimentos realizados,
respectiva cadeia cinética e a força exercida na arma e no gatilho.
Os participantes realizaram uma série de tentativas de alinhar uma arma com um alvo,
durante cinco situações diferentes, nomeadamente, 1) realização de seis saltos (três dos quais
sub-máximos e os últimos três, o mais alto possível); 2) realização de seis contracções
máximas num objecto estático, com o membro superior contrário, ao que segurava a arma
(três dos quais através do movimento de empurrar e outras três através do movimento de
puxar); 3) realização de seis contracções máximas num objecto em movimento, com o
membro superior contrário, ao que segurava a arma; 4) realização de seis pontapés com a
maior força possível, contra uma base de basebol colocada numa parede; 5) realização de três
tentativas de apontar a arma a um alvo, enquanto estavam em cima de uma plataforma em
movimento. Os sensores gravaram as mudanças possíveis na pressão exercida na arma,
tornando possível determinar em que situações esses movimentos provocavam aumentos na
pressão exercida na arma.
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CAPÍTULO III. REVISÃO DA LITERATURA
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