MÚSCULOS: GENERALIDADES
2.1. O músculo é um tecido com capacidade de se contrair perante um estímulo,
aplicando a força da sua contracção a outro tecido ao qual movimenta.
Representa 40-50% do peso corporal total.
2.1.1. Dependendo da sua localização realiza funções algo diferentes. Desta
maneira:
Quando o músculo aplica a força aos ossos, movimenta o esqueleto,
permitindo o corpo se deslocar de maneira voluntária;
Quando o músculo do coração se contrai, bombeia para todo o corpo o
sangue;
Quando o músculo da parede dos diferentes órgãos ocos se contrai,
facilita as funções correspondentes (trânsito de alimento pelo tubo
digestivo, expulsão de urina pela bexiga, expulsão do feto pelo útero no
momento do parto,…).
2.1.2. Para cada uma de estas funções respectivas existe um tecido muscular
especializado diferente, com a propriedade comum de se contrair. Assim:
O “músculo esquelético ou estriado voluntário” movimenta os ossos,
O “músculo cardíaco ou estriado involuntário” contrai o coração, e
O “músculo liso involuntário” contrai as paredes de órgãos.
2.2. O tecido muscular está composto por células de tamanho variável, por vezes
muito compridas, chamadas “fibras musculares”. Cada tipo de músculo têm
fibras musculares algo diferentes.
2.2.1. As fibras musculares se juntam em feixes ou “fascículos” de fibras
relacionadas fisiologicamente, de maneira que se contraem ao mesmo
tempo para exercer a sua função.
2.2.2. Vários fascículos unidos por uma estrutura de tecido conjuntivo formam já
um músculo visível macroscopicamente.
2.3. O Músculo-esquelético ou estriado voluntário é chamado assim por
apresentar bandas ou riscos ao microscópio e por ser o que movimenta o
esqueleto, por contracção voluntária (inervado pelo Sistema Nervoso Periférico).
2.3.1. Derivado do mesoderma, é composto por fascículos de fibras musculares,
células caracterizadas por ter:
Sarcolema ou membrana celular, com múltiplas comunicações entre
fibras vizinhas.
Vários núcleos periféricos. Realmente cada fibra muscular estriada é
um “sincício” ou grupo de células que partilham o mesmo citoplasma e
membrana para realizar uma função comum, mas que mantêm
individualizados os núcleos.
Miofibrilas, proteínas filamentares (como cabelos) que preenchem o
citoplasma. Têm dois tipos superpostos em uma certa sequência:
“espessas” (de miosina) e “finas” (de actina, troponina e tropomiosina).
Este arranjo particular dá o aspecto estriado característico do
“sarcómero”, unidade que se repete consecutivamente e que é a
unidade funcional do músculo esquelético.
As fibras finas e espessas se dispõem agrupadas em arranjos em forma
de pente, que se sobrepõem para permitir o deslizamento de umas
sobre outras, o que produz a contracção das fibras.
Retículo sarcoplásmico, rede de tubos interconectados, em volta das
miofibrilas, com função fundamental na transmissão de sinais químicos
que sincronizam a contracção entre fibras
Mitocôndrias, também em volta das miofibrilas, responsáveis pelo
aporte da energia que precisa a contracção.
Imagem cortesia de Bjecas
Figura 1. Estrutura miofibrilar do músculo esquelético.
2.4. O Músculo cardíaco ou estriado involuntário, também com bandas na visão
microscópica, forma as paredes do coração contraindo-se involuntariamente
perante estímulos intrínsecos (do próprio coração).
2.4.1. É derivado do mesoderma, e têm certas características diferenciais com o
esquelético:
Têm um arranjo parecido ao músculo estriado, mas com um único
núcleo em cada fibra, de posição central.
Tem terminações ramificadas que servem para comunicar umas fibras
com outras mediante “discos intercalares”.
2.4.2. Algumas delas são diferenciadas em células capazes de produzir e
transmitir estímulos eléctricos (“células neuro-musculares”). São delas que
parte o impulso que se transmite por todo o coração e que resulta numa
contracção rítmica e sincronizada (batimento cardíaco).
2.5. O Músculo liso involuntário, chamado assim por não apresentar o aspecto em
bandas do músculo estriado e por ser de contracção involuntária (inervado pelo
Sistema Nervoso Autónomo).
2.5.1. Formam parte das paredes dos órgãos com mobilidade (intestino, vasos,
útero,…). As fibras são células com núcleo único e miofibrilas grossas e
finas (como no estriado), mas sem arranjo regular (pelo que não formam as
bandas). Pode ser:
Visceral (Unitário), derivado do mesoderma, formando feixes com fibras
muito unidas (para transmitir impulsos eléctricos) que são capazes de
se contrair na ausência de estímulo nervoso (vísceras ocas e tubos
contrácteis).
Multiunitário, derivado do ectoderma , com fibras separadas que
precisam estímulo nervoso (independente para cada uma) para se
contrair (como na íris do olho).
Figura 2. Tipos de tecido muscular: esquelético, cardíaco e liso.
ANATOMIA DOS MÚSCULOS ESQUELÉTICOS
3.1. Por ser os únicos que formam parte do sistema músculo-esquelético, os músculos
estriados são os estudados nestas aulas, ficando os outros dois tipos inseridos
nas correspondentes aulas de coração e vísceras ocas.
3.2. Tipos de músculos estriados. Se podem classificar considerando diferentes
parâmetros
3.2.1. Quanto a sua situação:
Superficiais ou Cutâneos: Estão logo abaixo da pele e inserem na
camada profunda da derme. Estão localizados na crânio, na face, no
pescoço (como o “músculo platisma”) e na mão (região hipotenar).
Profundos ou Subaponeuróticos: Se inserem em ossos e estão
localizados abaixo da fáscia superficial.
3.2.2. Quanto a sua função:
Agonistas, músculos principais que pela sua contracção activam um
movimento específico do corpo (para flexionar o cotovelo, agonistas são
o bíceps braquial).
Antagonistas, músculos que se opõem à acção dos agonistas (quando
o agonista se contrai, o antagonista relaxa progressivamente),
produzindo um movimento suave (o triceps braquial é antagonista na
flexão do cotovelo).
Sinergistas, músculos que estabilizam as articulações para reforçar a
acção do músculo agonista principal (sinergistas da acção anterior são
os músculos que estabilizam cotovelo e ombro).
Fixadores, músculos que estabilizam a origem do agonista de modo
que ele possa agir mais eficientemente (estabilizam a raiz do membro
quando move-se a parte distal).
O conceito de agonista-antagonista é relativo, pelo que um mesmo músculo
pode ser agonista para um certo tipo de movimento, mas antagonista para
outro
Figura 3. Músculos agonistas e antagonistas.
Exemplo da flexão do cotovelo.
3.2.3. Quanto a sua forma:
Longos é caracterizado por apresentar um comprimento superior a
largura e a espessura. São encontrados especialmente nos membros,
sendo mais longos os mais superficiais, podendo saltar duas ou mais
articulações para se inserir em ossos que não estão directamente em
contacto. Podem ter um ou mais ventres e inserções (como o bíceps
braquial).
Curtos é caracterizado por apresentar as três dimensões relativamente
similares. Encontram-se nas articulações cujos movimentos tem pouca
amplitude, mas que podem estar envolvidos em movimentos muito
especializados ou que requerem muita força (como os músculos da
mão).
Largos ou planos é caracterizado por apresentar um comprimento
semelhante à largura e muito superior a espessura. Caracterizam-se
por serem laminares. São encontrados nas paredes das grandes
cavidades (como os da parede abdominal).
Circulares é caracterizado por apresentar a forma circular. Circundam
um orifício ou abertura do corpo, fechando-o quando se contraem
(como o esfíncter anal).
Imagens cortesia de Anatomy of the Human Body por Henry Gray
Figura 4. Músculos longos, curtos, largos e circulares.
3.3. Os componentes anatómicos dos músculos estriados são:
3.3.1. Ventre muscular é a porção contrátil do músculo, que forma o corpo do
músculo, constituída por fibras musculares.
3.3.2. Tendão é o prolongamento (de tecido conjuntivo denso, com aspecto de fita
ou cilindro) do músculo, que serve para a fixação do ventre muscular em
ossos, tecido subcutâneo ou cápsulas articulares.
Os músculos têm tendões “de origem” (ligados a partes ósseas imóveis ou
a partes ósseas mais proximais à raiz do membro) e “de inserção” (ligados
à partes móveis e distais).
Aponeurose é um tendão plano formado por una lâmina de conjuntivo
denso com fibras colágenas paralelas em forma de lâminas ou leques
(como os que inserem os músculos largos do abdómen).
Ligamentos (vide Aula 9) não são tendões nem partes de estes (com os
que não se devem confundir), mas sim espessamentos das cápsulas
articulares ou das fáscias, que reforçam as articulações protegendo-as
ao limitar os movimentos extremos.
3.3.3. Outros tecidos conjuntivos associados ao músculo que dão suporte e
estrutura incluem:
Fáscias superficiais e profundas: lâminas fibrosas (colágena densa
entrecruzada) que recobre todos os elementos profundos (grupos
musculares, com pacotes vasculo-nervosos,…), separando estruturas
em compartimentos.
Fáscia muscular: lâmina fibrosa, que circunda (envolve) cada músculo,
individualizando-o e dando continuidade entre o ventre muscular e os
tendões.
Epimísio: por dentro da fáscia muscular, é a camada mais externa de
tecido conjuntivo, que circunda todo o músculo.
Perimísio: camadas dentro do músculo que o dividem em grupos de 10
a 100 ou mais fibras musculares individuais, separando-as em feixes
chamados “fascículos” (podem ser vistos a olho nu).
Endomísio: fino revestimento conjuntivo que penetra no interior de cada
fascículo e separa as fibras musculares individuais.
3.3.4. Bainhas tendinosas são membranas fibro-serosas que formam pontes ou
túneis entre as superfícies ósseas dentro das quais deslizam os tendões,
facilitando a sua função.
3.3.5. Bolsas sinoviais são pequenas cavidades fibro-serosas que contêm líquido
sinovial, que situadas entre ossos e tendões e músculos, facilitam o
deslizamento destes.
3.3.6. Vasos. Todo músculo recebe a nutrição a partir de uma (ou várias) artérias
que se dividem amplamente pelas estruturas conjuntivas para chegar a
todas as fibras. Existe um sistema paralelo venosos de retorno.
3.3.7. Nervos. Junto com os vasos, acostumam entrar no músculo nervos motores
(trazem as ordens para a contracção), formando “pacotes vásculo-
nervosos”.
Figura 5. Anatomia do músculo estriado.
FISIOLOGIA DOS MÚSCULOS ESQUELÉTICOS
4.1. As funções dos músculos estriados são:
4.1.1. Produção dos movimentos corporais voluntários (andar, correr,…),
mediante sistemas de “alavancas”, que dependendo da posição relativa
entre os pontos de apoio (A), de aplicação da força (F) e da resistência (R),
podem ser de:
1ª classe: F-A-R (como um sobe-desce): a contracção num sentido
provoca movimento no sentido contrario (extensão da cabeça para
atrás, contraindo os extensores do pescoço).
2ª classe: A-R-F (como uma carrinha de mão): a contracção num
sentido provoca movimento no mesmo sentido (pôr-se de pontinhas nos
pés, contraindo os gêmios)
3ª classe: A-F-R (como umas pinças): a contracção num sentido
provoca movimento no mesmo sentido (levantar peso com a mão,
contraindo o biceps).
Extensão pelo Tríceps Flexão pelo Tríceps
Figura 6. Tipos de alavancas musculares.
4.1.2. Estabilização da posição do corpo, mediante a manutenção de um tónus
muscular que fixa as articulações em posições de repouso (ficar em pé,
sentar,…).
4.1.3. Facilitação do fluxo de linfa e de retorno do sangue para o coração,
mediante a contracção rítmica dos músculos dos membros (ao caminhar,
…).
4.1.4. Produção de calor, já que quando o tecido muscular se contrai produz
calor, que é liberado é usado na manutenção da temperatura corporal.
4.2. As propriedades mecânicas dos músculos são:
4.2.1. Excitabilidade, capacidade de responder (com contracção) a um estímulo
químico, mecânico ou eléctrico (como quando recebemos um “esticão”).
4.2.2. Contractilidade, capacidade de diminuir activamente de comprimento,
perante estímulos eléctricos ou mecânicos. É um processo de
transformação de energia química em energia mecânica. Pode ser:
“Contracção tónica” ou “Tônus muscular”, ligeira contracção sempre
existente nos músculos do indivíduo consciente, que lhes confere uma
certa firmeza, ajudando na estabilidade das articulações e na
manutenção da posição corporal, e mantendo o músculo sempre
preparado para uma contracção rápida.
“Contracção fásica (activa) isotónica” é quando o músculo encurta
durante uma contracção, mantendo uma tensão constante durante toda
a contracção. É responsável pelos movimentos do corpo. Por exemplo,
a contracção isotónica do bíceps braquial provoca a flexão do cotovelo.
“Contracção fásica (activa) isométrica” é quando o músculo não encurta
durante a contracção.. É responsável pela postura e sustentação de
objectos em posição fixa. Por exemplo, como o cotovelo já flexionado, a
contracção isométrica do bíceps braquial é capaz de suportar um peso,
como quando se carrega um objecto pesado.
Contracção Contracção
Isotónica Ismétrica
[Link]
imagesAP1/muscle/[Link]
Figura 7: Contracção Isométrica e Isotónica
4.2.3. Extensibilidade, pela que o músculo, independentemente da sua
contractilidade, pode-se alongar passivamente até um certo limite.
4.2.4. Elasticidade, capacidade de recuperar a forma e comprimento original
depois de uma mudança passiva ou activa destes.
4.3. Estruturas que intervêm no mecanismo de contracção.
4.3.1. Unidade motora é um grupo de fibras musculares (entre 10, em músculos
de movimentos muito finos, e 1.000 em músculos grosseiros) associadas
funcional e bioquimicamente (se comunicam por sinais eléctricos e
moleculares), pelo que são capazes de se contrair ao mesmo tempo.
Cada unidade motora é inervada por uma única fibra nervosa motora (que
leva a ordem para se contraírem).
4.3.2. Placa motora ou Junção neuromoscular é uma estrutura de comunicação
entre a terminal da fibra nervosa e o sarcolema da fibra muscular.
Quando chega um impulso nervoso a terminal nervosa, esta libera
vesículas com acetilcolina (neurotransmisor), capazes de provocar um
impulso químico pelo sarcolema e retículo sarcoplásmico da fibra muscular,
Este impulso libera Ca++ desde o retículo às miofibrilas, onde provoca
mudanças estruturais nas uniões entre filamentos finos e espessos,
permitindo a contracção dos sarcómeros.
4.3.3. A contracção efectua-se pelo deslizamento dos filamentos finos (em cada
extremidade dum sarcómero em direcção ao outro) entre os filamentos
espessos estacionários.
Figura 8. Ultra-estrutura do mecanismo da contracção muscular esquelética.
4.3.4. Este processo implica um consumo de energia importante (por
desfosforilização do ATP). A produção de ATP se pode realizar por duas
vias:
Inicialmente mediante a combustão de carboidratos e lípidos com
oxigénio (“via aeróbia”), pelo que quando fazemos exercício se acelera
a respiração e os batimentos cardíacos, para abastecer o músculo com
a maior quantidade oxigénio.
Mais diante, em caso de exercício intenso e prolongado, o aporte de
oxigénio não é suficiente, produzindo-se a energia por outra via (“via
anaeróbia”) de menor rendimento, mas que não precisa de oxigénio.
Produz ácido láctico como metabólico, que é o responsável das dores
musculares no dia seguinte de um exercício intenso.
O oxigénio é transportado dentro da fibra muscular aos centros do seu
consumo (mitocóndrias) pela “mioglobina”, proteína com estrutura e
função parecida à hemoglobina do sangue.
4.3.5. Existem dois tipos de fibras musculares (cada músculo, dependendo da sua
função, tem proporções diferentes de cada tipo):
Fibras musculares vermelhas ou lentas, mais finas com muito retículo,
muita mioglobina, muitas mitocôndrias e muita energia, capazes de
contracções lentas e prolongadas. Exemplo: os corredores de
maratonas possuem mais fibras vermelhas, e as usam neste processo.
Fibras musculares brancas ou rápidas, mais grossas, com pouco
retículo, pouca mioglobina, menor número de mitocôndrias e pouca
energia, capazes de contracções rápidas de tipo anaeróbico. Os
corredores de curta distância (100 metros) tem mais fibras brancas, e
as usam neste processo.
4.4. O processo de estimulação-contracção segue umas regras:
4.4.1. Existe um estímulo mínimo (“estímulo limiar”) por baixo do qual não se
desencadeia a contracção. Cada tipo de unidade motora pode ter limiares
diferentes, assim as de limiares baixos contraem-se com menos estímulo.
Ao estimulo limiar pode-se chegar por um único estímulo suficientemente
grande o por vários pequenos em sequência (somatório).
4.4.2. Um músculo é mais efectivo, quando na contracção, parte da sua posição
de repouso.
4.4.3. Ciclo de contracção. Inclui várias fases:
Desde a aplicação do estímulo até o começo da contracção existe um
“período latente”, ao que segue
Um progressivo encurtamento da fibra (“contracção”), seguido (supondo
que o estímulo acabou) de
Um alongamento até a posição de repouso (“relaxamento”).
4.4.4. Uma descarga intermitente de estímulos de alta frequência causa
contracção prolongada e de magnitude crescente (“tetánia”).
4.4.5. Uma descarga contínua de estímulos leva a uma contracção fraca (“fadiga”)
e a uma recuperação incompleta (“contractura”).
o Algumas horas após a morte, todos músculos do corpo entram num estado
de contractura conhecido como “rigidez cadavérica” (ou rigor mortis), ou
seja, os músculos se contraem e ficam rígidos. Essa rigidez resulta da
perda de todo ATP que é necessário para a separação das pontes
cruzadas dos filamentos de actina durante o processo de relaxamento.
Esta situação dura 15 a 25 horas, quando as proteínas musculares
degeneram.
PONTOS-CHAVE
5.1. O tecido muscular está composto por fibras (células musculares) com capacidade
de se contraírem, dando movimento às estruturas às que estão ligados.
5.2. Há três tipos de tecido muscular morfológica e funcionalmente diferentes: estriado
(de contracção voluntária, que forma os músculos que mexem o esqueleto),
cardíaco (de contracção involuntária, que forma as paredes do coração) e liso (de
contracção involuntária, que forma as paredes das vísceras ocas).
5.3. Os grupos musculares funcionam por balanço entre opostos (“agonistas”, que
favorecem um certo movimento, e “antagonistas”, que se oporem aos anteriores).
5.4. Um músculo esquelético típico está formado por: ventre, fáscia muscular que a
envolve, tendão que o insere aos ossos, e conjuntivo estrutural (epimísio,
perimísio e endomísio).
5.5. As funções dos músculos estriados são: produzir movimentos voluntários,
estabilizar a posição do corpo, facilitar o fluxo de linfa e de retorno do sangue para
o coração, e produzir calor.
5.6. O músculo tem propriedades de excitabilidade (responder a um estímulo),
contractilidade (mudar o seu comprimento), extensibilidade (deixar-se estender) e
elasticidade (voltar à posição de repouso).
5.7. A contracção do músculo é iniciada por um estímulo nervoso eléctrico que chega
até a placa motora onde libera neurotransmissores que provocam uma liberação
massiva de cálcio num grupo de fibras musculares comunicadas (unidade
motora), provocando uma contracção sincronizada.
5.8. A contracção muscular ocorre pelo encurtamento do sarcómero (unidade
funcional das miofibrilas) quando se deslizam grupos sobrepostos de diferentes
miofibrilas.
REPARAÇÃO E REGENERAÇÃO MUSCULAR
4.1. Reparação e regeneração muscular.
4.1.1. Os músculos, quando usados repetida e intensivamente, acabam por
aumentar sua massa em resposta a exigência do tipo de exercício,
mediante uma maior síntese de miofibrilas e retículo (“hipertrofia
muscular”), sem aumentar o número total de fibras.
Assim, pequenas lesões musculares (por actividade muscular intensa, com
micro-roturas) são estímulo para a reparação local com hipertrofia.
4.1.2. A falta de uso de um grupo muscular (como em um membro imobilizado por
um gesso ou em um doente acamado) leva a perda de massa muscular
(“atrofia”).
4.1.3. O aumento do número de fibras musculares, independentemente do
processo de hipertrofia, é conhecido como “hiperplasia muscular”.
4.1.4. Em caso de grandes lesões, com perda importante de fibras musculares
(em traumas severos, necrose isquémica, cirurgia,…), a capacidade do
músculo de regenerar-se é muito limitada.
Existem, entre as fibras, algumas “células satélite”, células musculares
pouco diferenciadas, capazes de se dividirem e especializar em fibras, mas
com uma divisibilidade limitada.
Em perdas de músculo importantes, não conseguem a reparação completa,
sendo o defeito substituído por tecido conjuntivo (“cicatriz fibrosa”).
4.1.5. Existe maior capacidade de regeneração no músculo liso e menor no
esquelético, sendo mínima no cardíaco.
Uma perda de músculo cardíaco (como acontece, por necrose isquémica,
no infarto agudo de miocárdio) nunca se regenerará, e apenas será
substituído por tecido fibroso (não contráctil). Em caso de esta cicatriz ser
extensa pode alterar gravemente a função de bomba do coração.
4.2. Algumas alterações comuns dos músculos são:
4.2.1. Lesões nervosas que inibam o estímulo de músculos, provocam a sua
“paralisia” (flacidez) ou “hipertonia” (espasticidade) permanente, o qual
implica uma perda de função e uma progressiva atrofia.
4.2.2. Lesões traumáticas, que podem ser cortantes (agressões com arma branca
- faca, cirurgia,…), lacerantes (por excessiva extensão do músculo, típica
de desportistas), esmagantes (grandes traumas por achatamento)
4.2.3. Inflamação, geralmente no contexto de doenças imunes que provocam
inflamação crónica e degeneração do tecido muscular (“miosite”) e do
conjuntivo associado (“fibromiosite”).
“Mialgia” não é sinónimo de miosite, mas refere-se apenas à dor muscular,
sem definir a causa.
4.2.4. Infecção, por entrada directa (feridas) ou por via hematógena (micróbios
levados pelo sangue), dando lugar a processos supurativos (com pus)
muito destruidores (“piomiosite”), especialmente em crianças.
4.2.5. Lesões necróticas – morte de células musculares por diminuição ou
ausência do suprimento sanguíneo.
MÚSCULOS DO CORPO HUMANO
2.1. Os músculos esqueléticos que movimentam o corpo dispõem-se anatómica e
funcionalmente em grupos de agonistas e antagonistas.
Assim, em relação a cada articulação encontraremos grupos flexores e
grupos extensores, abdutores e adutores,…
2.2. Cabeça.
2.2.1. Músculos mastigadores (elevam e descem, protraem e retraem a
mandíbula): Masseter, Temporal, Pterigóideo medial e Pterigóideo lateral.
Inervados pelo Nervo Trigêmio - V par craniano (p.c).
2.2.2. Músculo da face (fecham e abrem as pálpebras, fecham e abrem os lábios,
levantam os supracílios, levantam os ângulos da boca): Orbicular do olho,
Prócero, Auricular superior e posterior, Transverso do nariz, Orbicular da
boca, Zigomáticos maior e menor, Elevador do lábio superior, Risório,
Depressor do ângulo da boca, Bucinador, e Mental. Inervados pelo nervo
Facial (VII p.c.).
2.2.3. Músculos do couro cabeludo (puxam para trás e para frente o couro):
Epicrániais occipital e frontal. Inervados pelo nervo Facial (VII p.c.).
Imagens cortesia de Anatomy of the
Human Body por Henry Gray
Figura 1. Músculos da cabeça.
2.2.4. Músculos que movem a língua (puxam, empurram e deprimem a língua):
Genioglosso, Estiloglosso, Palatoglosso e Hioglosso. Inervados pelo nervo
Hipoglosso (XII p.c.).
2.2.5. Músculos do pescoço anterior (Elevam ou deprimem o osso hióide, o
assoalho da boca e a laringe): Platisma (subcutâneo), Supra-hióideos
(Digástrico, Miloióideo, Genioióideo e Estiloióideo) e Infra-hióideos
(Esternoióideo, Omoióideo, Esternotiróideo e Tiroióideo). Inervados pelos
nervos Trigémeo (V p.c.), Facial (VII p.c.) e Cervicais.
2.2.6. Músculos que movem a cabeça (extendem ou flexionam, e fazem girar a
cabeça): Esternocleidomastóideo, Esplénio e Complexos maior e menor.
Inervados pelo nervo Accessório (XI p.c.).
Imagens cortesia de Anatomy of the Human Body por Henry Gray
Figura 2. Músculos do pescoço anterior.
2.3. Tronco.
2.3.1. Músculos que movem a coluna vertebral (estendem ou flexionam,
lateralizam e fazem girar a coluna): Erector espinhal (cervical, torácico e
lombar), Longos (da cabeça, pescoço e tórax) e Espinhal (da cabeça,
pescoço e tórax) . Inervados por ramos dorsais dos nervos Espinhais dos
diferentes níveis.
Imagens cortesia de Anatomy of the
Human Body por Henry Gray
Figura 3. Músculos da coluna.
2.3.2. Músculos da respiração (aumentam ou diminuem a caixa torácica com a
respiração): Diafragma, Intercostais externos e internos. Inervados por N.
Frénico e Torácicos dos diferentes níveis (T2 a T12), respectivamente.
2.3.3. Músculos da parede abdominal (flexionam a coluna e comprimem a
cavidade abdominal): Recto anterior, Oblíquos externo e interno e
Transverso do abdómen. Inervados por N. Torácicos dos diferentes níveis
(T7 a T12).
Imagens cortesia de Anatomy of the
Human Body por Henry Gray
Figura 4. Músculos do tórax e abdómen.
2.3.4. Músculos do assoalho da pélvis (mantêm as vísceras pélvicas e tem
funções na micção, erecção e dejecção): Elevador do ânus (pubococcígeo
e iliococcígeo), Isquiococcígeo, Superficiais do períneo (transverso,
bulbocavernosos, isquiocavernoso) e Profundos do períneo (trasnverso e
esfíncteres uretral e anal) . Inervados por diferentes ramos do Plexo Sacro
(S2 a S5).
Imagens cortesia de Anatomy of the Human Body por Henry Gray
Figura 5. Músculos do assoalho pélvico.
2.4. Extremidade superior.
2.4.1. Músculos anteriores da cintura escapular (abaixam e adiantam o ombro e
escápula): Subclávio, Peitoral menor e Serrato maior. Inervados por
diferentes ramos do Plexo Braquial (C5 a T1)
2.4.2. Músculos posteriores da cintura escapular (elevam e puxam do ombro e
escápula): Trapézio, Elevador da escápula, Rombóides maior e menor.
Inervados por diferentes ramos do Plexo Braquial (C5 a C7).
Imagens cortesia de Anatomy of the Human Body por Henry Gray
Figura 6. Músculos da cintura escapular.
2.4.3. Músculos do braço (estendem ou flexionam, abduzem ou aduzem,
levantam ou deprimem o ombro e úmero): Coracobraquial, Peitoral maior,
Redondos maior e menor, Deltóide, Supra-espinhal, Infra-espinhal, Grande
dorsal e Subescapular. Inervados por diferentes ramos do Plexo Braquial
(C5 a C8).
2.4.4. Músculos do antebraço (estendem ou flexionam o cotovelo, pronam ou
supinam o antebraço): Braquial, Triceps, Bíceps, Ancóneo, Braquiorradial,
Supinador, e Pronadores redondo e quadrado. Inervados por diferentes
ramos do Plexo Braquial (C5 a T1).
Imagens cortesia de Anatomy of the Human Body por Henry Gray
Figura 7. Músculos do antebraço.
2.4.5. Músculos do punho (estendem ou flexionam, abduzem ou aduzem o
punho): Flexor radial, Flexor ulnar, Extensores radiais longo e curto,
Extensor ulnar, Palmar longo e Extensor dos dedos. Inervados por
diferentes ramos (Mediano, Ulnar e Radial) do Plexo Braquial (C5 a T2).
2.4.6. Músculos dos dedos da mão (estendem ou flexionam, abduzem ou aduzem
o polegar e os outros dedos): Flexores longo e curto do polegar, Extensores
longo e curto do polegar, Adutor do polegar, Abdutores longo e curto do
polegar, Oponente do polegar, Flexores profundos e superficiais dos dedos,
Interósseos dorsais e palmares. Inervados por diferentes ramos (Mediano e
Ulnar) do Plexo Braquial (C5 a T2).
Imagens cortesia de Anatomy of the
Human Body por Henry Gray
Figura 8. Músculos do punho e mão.
2.5. Extremidade inferior.
2.5.1. Músculos da cintura pélvica (flexionam e estendem, abduzem e aduzem a
anca e coxa): Psoasilíaco, Glúteos maior, mediano e menor, Tensor da
fáscia lata, Adutores longo, curto e magro, Piramidal, Obturador externo e
Pectíneo. Inervados por diferentes ramos dos Plexos Lombar (L1 a L4) e
Sacro (L4 a S3).
Imagens cortesia de Anatomy of the
Human Body por Henry Gray
Figura 9. Músculos da cintura pélvica.
2.5.2. Músculos da coxa e perna (flexionam e estendem, abduzem e aduzem a
coxa e flexionam e estendem o joelho): Bíceps femoral (longo e curto),
Semitendinoso, Semimembranoso, Poplíteo, Grácil, Sartório, Quadriceps
femoral (recto e vastos lateral, medial e intermédio). Inervados por
diferentes ramos dos Plexos
Lombar (L1 a L4) e Sacro (L4 a S3).
Figura 10. Músculos da anca, coxa e perna.
2.5.3. Músculos do pé e dos dedos do pé (estendem ou flexionam, invertem ou
evertem o pé e estendem ou flexionam o hálux e os outros dedos):
Gastrocnémio, Solear, Tibiais anterior e posterior, Fibulares longo, curto e
terceiro, Plantar, Flexores longo e curto do hálux, Extensor do hálux,
Interósseos dorsais e ventrais, Flexores longo e curto dos dedos e
Extensores dos dedos. Inervados por diferentes ramos do Plexo Sacro (L4
a S3).
Imagens cortesia de Anatomy of the Human Body por Henry Gray
Figura 11. Músculos do pé e dos dedos do pé.
ALTERAÇÕES COMUNS DO SISTEMA MÚSCULO-ESQUELÉTICO
3.1. Osteoporose é uma doença degenerativa do osso, relacionada com: o
envelhecimento corporal, a inactividade física, a predisposição genética, certas
patologias (hormonais, metabólicas,…) e com medicamentos (corticóides,…).
3.1.1. Trata-se dum desequilíbrio do balanço entre a destruição e a regeneração
do osso, de maneira que o resultado é a diminuição da massa de tecido
ósseo com desestruturação da sua arquitectura (osso mais esponjoso,
menos resistente).
3.1.2. Deve-se diferenciar da Osteomalácia, que é a descalcificação dos ossos
(perda exclusiva de minerais, com tecido fibroso e arquitectura normais),
que acontece nas deficiências da vitamina D (provoca “raquitismo” nas
crianças, com ossos amolgados) e em algumas doenças metabólicas.
3.2. Osteomielite é um processo inflamatório ósseo (frequente em ossos longos e nas
vértebras), usualmente causado por uma infecção por bacterias ou fúngos com
entrada desde o sangue, os tecidos adjacentes (extensão de artrite) ou desde o
exterior (fracturas expostas).
3.3. Fracturas são soluções de continuidade dos ossos, com ou sem lesão dos
tecidos moles adjacentes.
3.4. Artrose é uma doença crónica degenerativa (não inflamatória) articular provocada
pelo envelhecimento da cartilagem da articulação.
3.4.1. Com a passagem dos anos (idosos), com o esforço excessivo das
articulações (desportistas, certas profissões,…) e com traumas prévios não
bem curados (que sobrecarregam a articulação), a cartilagem articular vai
perdendo água na matriz, perde a sua superfície lisa e se fibrosa
progressivamente e de forma irreversível, resultando numa menor eficácia
da articulação, pelo que começa ter pequenas lesões pela fricção mal
lubrificada.
3.5. Artrite é um grupo amplo de doenças inflamatórias articulares provocada por
diferentes agentes infecciosos (bactérias, fungos, vírus) ou não (metabólicas
como a “gota”, auto-imunes como a “artrite reumatóide”,…).
3.6 Paralisia muscular flácida – é um tipo de paralisia que se manifesta por hipotonia
muscular e que surge em situações de lesão dos neurónios motores periféricos ou de
lesões agudas da via piramidal
3.7 Paralisia muscular espástica – são as paralisias que se manifestam com
espasticidade e aumento dos reflexos musculares.
3.8 Mialgia – é o termo usado para designar a dor muscular, sem especificar a causa
3.9 Miosite – é a inflamação, aguda ou crónica, de um ou mais músculos, geralmente
de causa infecciosa
3.10 Fibromialgia - é um distúrbio caracterizado por dor músculo-esquelética crónica
generalizada e rigidez dos tecidos moles (músculos, tendões e ligamentos)
3.11 Piomiosite – é uma doença infecciosa bacteriana dos músculos esqueléticos,
frequentemente supurada (com pús)
PONTOS-CHAVE
5.1. Os músculos esqueléticos que movimentam o esqueleto estão em equilíbrio, pela
disposição anatómica e funcional em grupos de agonistas (e antagonistas .
5.2. Estão divididos em 4 grupos principais: cabeça, tronco, extremidade superior e
extremidade inferior.
5.3. A actividade repetida dum certo músculo provoca o seu crescimento por aposição
de novas miofibrilas (“hipertrofia muscular”), enquanto o seu desuso provoca
emagrecimento do mesmo por eliminação de miofibrilas (“atrofia muscular”).
5.4. A capacidade de regeneração (criação de novas fibras musculares) e reparação
(reconstrução de fibras danificadas) do músculo é limitada, pelo que lesões
severas do músculo deixam sempre sequelas.
5.5. Alterações comuns dos músculos são: atrofia por desuso, lesões traumáticas,
miosite, infecções e lesões isquémicas.