Diversidade e Inclusão: Curso CNU 2025
Diversidade e Inclusão: Curso CNU 2025
Autor:
Ricardo Torques
04 de Julho de 2025
Sumário
Vulnerabilidade e Interseccionalidades............................................................................................................ 10
Resumo............................................................................................................................................................. 11
Gabarito ............................................................................................................................................................ 28
DIVERSIDADE E INCLUSÃO
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Tenho a felicidade de apresentar a você o nosso Curso de Diversidade e Inclusão, voltado para o Concurso
Unificado Nacional, o CNU.
Para esse concurso, dada a natureza do concurso, o 1º CNU e a banca FGV, alguns pontos devem pautar as
questões:
Interdisciplinariedade.
Pensamento analítico.
Políticas públicas e ações afirmativas. São conceitos relevantes que devem ser compreendido sob
o enfoque dos direitos humanos.
Teorias da Justiça, como a de Rawls e Nancy Fraser. São conceitos teóricos, que vem justificar a
aplicação de políticas públicas.
Iremos adentrar esse tema por meio de diversas aulas, distribuídas, e disponibilizadas, da seguinte maneira:
Aula 7 4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: pessoas com deficiências; 23/07
Aula 8 4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: pessoas em situação de rua; 25/07
4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: povos indígenas,
Aula 9 28/07
comunidades quilombolas
4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: demais minorias sociais.
Aula 10 31/07
Parte I: Refugiados e Migrantes
4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: demais minorias sociais.
Aula 11 03/08
Parte II: Egressos do Sistema Prisional.
4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: demais minorias sociais.
Aula 12 06/08
Parte III: Transtorno Mentais.
4.2. Desafios sociopolíticos da inclusão de grupos vulnerabilizados: demais minorias sociais.
Aula 13 09/08
Parte IV: Trabalhadores Informais e Subempregos.
Bons estudos!
O princípio da igualdade, nesse período, é genérico, não considerando as pessoas em suas especificidades.
Contudo, percebeu-se que assegurar a igualdade formal não era suficiente para que as pessoas fossem
respeitadas mesmo com suas diferenças e particularidades.
Houve, assim, com a expansão dos Direitos Humanos, uma ampliação dos direitos de igualdade, de modo
que se passou a defender a necessidade de garantir não apenas a igualdade formal, mas também a igualdade
material (substancial), a igualdade perante a lei. A igualdade material pressupõe a individualização do
sujeito. Vale dizer, consiste em considerar a pessoa nas suas relações concretas, assimilando suas diferenças.
Assim, a igualdade (formal) considera a pessoa em abstrato, sem levar em conta o sexo, a cor e a classe
social. Pela igualdade em sentido material pugna-se por um aparato normativo especial, endereçado aos
grupos de pessoas vulneráveis na sociedade, como forma de reequilibrar tais desigualdades. Diante disso,
surgem regras protetivas às mulheres, às crianças, aos idosos e às vítimas de discriminação racial.
Pode-se, ainda, fazer uma diferenciação entre a igualdade na perspectiva da não discriminação (garantia da
diversidade) e da igualdade sob a perspectiva da inclusão.
um de abrangência subjetiva, significando que uma pessoa ou grupo tem direito a ser protegido
contra a discriminação; e
Historicamente, a igualdade foi compreendida primeiro como um dever de não discriminar, uma proibição
de discriminar. Esse princípio sofreu particular conformação teórica depois das experiências totalitárias e,
==26ee93==
Esse esforço antidiscriminação levou à formação de legislação própria para a proteção de certos grupos
sociais, além da criação de uma jurisprudência específica.
Por outro lado, as normas de direitos das minorias visam proteger um grupo discriminado específico, como
as mulheres ou as crianças, no entanto, as normas antidiscriminatórias têm, em regra, amplitude mais
ampla, protegendo todas as pessoas contra a discriminação.
Isso quer dizer que o direito antidiscriminação parte de uma visão universalista do ser humano, enquanto o
direito das minorias parte de um viés particularista.
Além disso, deve-se observar que a resposta jurídica que o direito antidiscriminação
oferece são medidas repressivas e condenatórias da discriminação, enquanto o direito
das minorias traz medidas especiais destinadas a melhorar o nível dos direitos humanos
dos grupos discriminados.
Assim, é possível fazer uma diferenciação entre dois tipos de direitos da igualdade: um direito das minorias,
consistente no conjunto de normas que estruturam uma política pública para a promoção da igualdade em
favor de grupos vulneráveis, e um direito antidiscriminatória, consistente nas regras proibitivas da
discriminação.
Além disso, é importante conhecer o conceito de discriminação indireta. Esse tipo de discriminação ocorre
no âmbito normativo. Uma norma tecnicamente neutra, isto é, uma norma que não elenca como fato
gerador da sua incidência qualquer característica pessoal dos jurisdicionados, pode, apesar dessa
neutralidade, ter um impacto desproporcional sobre a população, prejudicando algum grupo vulnerável.
Agora, vamos abordar as políticas de promoção da igualdade e vamos usar a desigualdade racial como
exemplo. De acordo com o art. 1º, VI, do Estatuto da Igualdade Racial, Lei n. 12.288/2010, ações afirmativas
são os programas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das
desigualdades raciais e para a promoção de igualdade de oportunidades. Esse conceito pode ser estendido
para abarcar qualquer programa ou medida especial que vise a correção de desigualdades em desfavor de
um grupo vulnerável.
Ações afirmativas também são conhecidas como discriminações positivas. São medidas efetivamente
discriminatórias na medida em que elas beneficiam um grupo social específico, mas são positivas, já que
promovem uma discriminação como forma de combate a outra discriminação negativa e excludente.
O Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADC 41, relator o ministro Roberto Barroso, concluiu pela
constitucionalidade das ações afirmativas. O julgado reconheceu que as desequiparações promovidas pelas
políticas de ação afirmativa estão em consonância com o princípio da isonomia e se fundam na necessidade
de superar as discriminações estruturais e institucionais ainda existentes na sociedade brasileira como forma
de se garantir a igualdade material entre os cidadãos, para o que se exige a distribuição mais equitativa dos
bens sociais e a promoção do reconhecimento dos grupos vulneráveis.
Em relação aos direitos das minorias, é importante dar ênfase ao seguinte aspecto: as políticas públicas ou
ações afirmativas de inclusão são eminentemente temporárias.
Ora, a ideia de implementar medidas afirmativas em favor de grupos sociais vulneráveis parte do
pressuposto de que existe, efetivamente, uma situação de exclusão social, o que se manifesta, por exemplo,
pela menor taxa de inscritos negros em universidades públicas, o que justifica a existência de cotas como
forma de transição para uma situação social em que que a taxa de participação desse grupo nas
universidades públicas corresponda à presença dele na sociedade. Caso, no entanto, se perceba que esse
objetivo foi alcançado, que há uma correlação entre as taxas de participação nas universidades e na
sociedade, não mais se justificaria a existência da medida afirmativa.
Essa ideia está incorporada na Lei federal de cotas, Lei n. 12.711/2012, com as alterações promovidas pela
recente Lei n. 14.723/2023.
De acordo com o art. 7º-C da Lei n. 12.711/2012, incluído pela Lei n. 14.723/2023, deve ser adotada
metodologia para atualização anual dos percentuais de pretos, pardos, indígenas e quilombolas e de pessoas
com deficiência em relação à população das unidades da Federação após 3 anos da divulgação dos resultados
do censo do IBGE. A finalidade dessa atualização é justamente a de aferir a equivalência entre as taxas de
participação nas universidades em relação à participação na população, como forma não só de se verificar
se estão sendo alcançados os resultados pretendidos, mas também a fim de se avaliar a necessidade da
manutenção da política pública.
Para encerrar o ponto, vale tratar da teoria do impacto desproporcional. Trata-se de tese que foi firmada no
âmbito do STF ao envolver a potencialidade e os efeitos de medidas que – em tese colocam-se iguais – mas
que podem para determinados grupos vulneráveis trazer um impacto desproporcional.
São medidas decorrem de normas ou de práticas aparentemente neutras que, na prática, afetam
negativamente certos grupos vulneráveis ou historicamente discriminados.
Esses deveres específicos complementam a visão tradicional dos direitos humanos. Na visão tradicional, os
direitos humanos são direitos reconhecidos a todas as pessoas em razão de serem seres humanos – é a visão
universalista.
A concepção de que algumas pessoas têm direito a prestações específicas de proteção decorre da percepção
de que um reconhecimento meramente formal dos direitos humanos não é capaz de assegurar a plena
dignidade em igualdade de condições a todos. Alguns grupos vulneráveis precisam de uma proteção
específica para que possam participar da sociedade em plenitude em razão da existência de riscos específicos
que prejudicam essas pessoas.
OBRIGAÇÕES POSITIVAS
Conforme amplamente reconhecido pela doutrina, é possível identificar dimensões dos direitos
fundamentais e humanos.
Os direitos de primeira geração são as liberdades civis e se manifestam principalmente por um dever de
abstenção do Estado, um dever de não interferir na esfera privada dos indivíduos.
Já os direitos de segunda geração são direitos que demonstram a preocupação em se construir uma
sociedade específica em que sejam garantidas algumas condições materiais mínimas para os cidadãos. É
nesse momento que se pode falar em obrigações positivas do Estado, obrigações de prover condições
mínimas para uma vida com dignidade.
Nesse contexto surge a necessidade de construção de políticas públicas, abrangendo as etapas de concepção
da política, de provisão orçamentária e de execução.
Na medida em que essas políticas são essenciais para a concretização de direitos fundamentais, é possível
que se exija judicial a consecução dessas prestações.
Vamos mencionar, exemplificativamente, alguns dos pontos mais importantes a respeito do tema:
① limitação dos recursos disponíveis diante das necessidades infinitas a serem supridas;
② impossibilitum nulla obligatio est (obrigação impossível não pode ser exigida).
Contudo, o mínimo existencial escapa destes argumentos e deve ser lido não apenas como
sinônimo de sobrevivência, mas como um conjunto de condições socioculturais que
garantam vida digna. Desse modo esse mínimo deve ser assegurado, apesar de qualquer
reserva do possível. Cite-se, por exemplo, entendimento do STF: insuficiência orçamentária
para atividades prioritárias: a real insuficiência para atendimento do mínimo existencial
requer demonstração com dados orçamentários e contábeis (AgRg no AREsp 790.767, DJe
14/12/2015).
Qualquer empreendimento público, mesmo sem caráter econômico, pode causar prejuízos aos direitos
humanos. Os riscos de danos devem ser identificados, prevenidos e mitigados, que é justamente o que o
procedimento de devida diligência busca concretizar.
Prevenção de impactos negativos: os riscos reais ou potenciais devem ser prevenidos por
meio de medidas de controle. Essas medidas de prevenção podem consistir, por exemplo,
na adoção de códigos de conduta, na realização de treinamento para os funcionários e na
adoção de parcerias com organizações da sociedade civil, por exemplo;
Mitigação de impactos negativos: caso não seja possível contornar algum dano, ainda
assim é necessário que sejam adotadas medidas que mitiguem o impacto, como a
compensação às pessoas afetadas e a adoção de postura de colaboração com as
autoridades públicas; e
É importante saber que hoje é amplamente reconhecido o dever de se efetuar a devida diligência em relação
aos direitos humanos, não bastando um reconhecimento formal de direitos sem que haja um procedimento
efetivo de concretização dos direitos.
Há um exemplo relevante da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Velásquez Rodríguez vs.
Honduras (1988). O Estado Hondurenho foi responsabilizado internacionalmente pela violação de direitos
humanos mesmo quando não autor direto da violação, mas pela omissão.
A falta de uma devida diligência pode justificar a responsabilidade por violação de direitos humanos.
Os mandados de criminalização preveem matérias sobre as quais o Legislador ordinário deve instituir leis
criminais. Como os mandados de criminalização obrigam o próprio Legislador, inevitavelmente essas normas
devem constar da própria Constituição.
A estratégia de prever mandados de criminalização decorre da percepção de que não é possível, já em sede
constitucional, definir com precisão os tipos penais e que, no entanto, é necessário que uma certa conduta
seja punida.
Os mandados de criminalização se justificam como uma forma de garantia de suficiência da proteção penal,
ou seja, são normas que proíbem a proteção social deficiente.
Dada o regime jurídico adotado pela nossa Constituição – notadamente pelo seus fundamentos e objetivos
– busca-se combater essas fragilidades por intermédio de políticas públicas, dado que assegurar a todos a
igualdade em sentido abstrato, formal, não garante isonomia, a igualdade em sentido material.
Tipo Exemplo
Econômica Pessoas em situação de extrema pobreza.
Social Pessoas em situação de rua.
Jurídica Pessoas hipossuficientes sem acesso efetivo à justiça.
Física Crianças, idosos, pessoas com deficiência, mulheres.
Cultural Povos indígenas, comunidades tradicionais, religiões minoritárias
Reconhecida existência desses grupos, uma diferenciação adicional, faz-se necessária: a vulnerabilidade não
se dá apenas diante de minorias. Naturalmente, grupos minoritários, tem maiores dificuldades de organização
e representatividade política, o que pode dificultar a proteção de direitos básicos. É o que ocorre, por
exemplo, com pessoas com deficiência, com comunidades quilombolas, dentre outros. Nos casos mencionados,
dados do IBGE apontam que temos cerca de 14,4 milhões de pessoas com deficiência no Brasil, representam
cerca de 7,3% da população. No que diz respeito às comunidades quilombolas, esse percentual é ainda
menor, cerca 0,65% da população, representando cerca de 1,4 milhão de pessoas.
Contudo, a vulnerabilidade também se faz presente diante de grupos majoritários, mas tipos distintos. Por
exemplo, hoje, pretos e pardos representam 55,5% da população brasileira, a maioria. 10,2% declaram-se
pretos; 45,3% declaram-se pardos. Do mesmo modo, em relação às mulheres, dados do IBGE indicam 51,5%
da população brasileira constituída por pessoas do sexo feminino. Não obstante, ainda assim, ostentam diante
do restante da população, dificuldade de acesso aos direitos, seja por questões relacionadas à nossa
formação cultural, compleição física e também devido ao processo colonizador.
Portanto, sempre que se reconhecer a determinado grupo (minoritário ou não!) dificuldade de acesso a bens
jurídicos outorgados constitucionalmente a todos de forma distinta perante aos demais, abre-se espaço para
formação de um grupo vulnerabilização que, por opção constitucional, merece atenção especial.
A atenção do Estado perpassa especialmente por ações estatais específicas e diferenciadas, como políticas
públicas, garantias de bens jurídicos diferenciados e adoção de medidas protetivas.
Reunindo os elementos acima todos, podemos concluir – de forma ampla – que as principais vulnerabilidades
estão nos seguintes grupos:
VULNERABILIDADE E INTERSECCIONALIDADES
A discussão sobre vulnerabilidade e interseccionalidades é relevante para a proteção dos direitos mais
básicos, notadamente por reconhecer que as desigualdades afetam as pessoas de forma distinta.
A jurista norte-americana Kimberlé Crenshaw ao analisar múltiplas formas de discriminação e opressão (como
racismo, sexismo, capacitismo, LGBTfobia, pobreza, xenofobia) concluiu que essas vulnerabilizadas se cruzam
e geram experiências únicas e agravadas de exclusão.
Por exemplo, mulher negra e pobre pode sofrer discriminações diferentes (e mais intensas) do que aquelas
sofridas por uma mulher branca ou um homem negro — as opressões se somam e se entrelaçam.
Exemplos:
Marcadores sociais da diferença são compostos por raça, gênero, sexo, idade, classe, deficiência etc. e a
articulação dessas categorias, por meio de uma abordagem interseccional, que compreende a análise das
relações sociais em sua complexidade e pretende pensar como tais marcadores estão articulados na
prática social.
A abordagem interseccional exige do Estado e da sociedade respostas específicas e integradas para garantir
a igualdade material e não apenas formal, de modo demandar:
Por fim, registre-se que a discriminação interseccional também é conhecida como discriminação múltipla ou
discriminação agravada.
RESUMO
❍ A igualdade (formal) considera a pessoa em abstrato, sem levar em conta o sexo, a cor e a classe social.
❍ Pela igualdade em sentido material pugna-se por um aparato normativo especial, endereçado aos grupos
de pessoas vulneráveis na sociedade.
❍ Pode-se, ainda, fazer uma diferenciação entre a igualdade na perspectiva da não discriminação (garantia
da diversidade) e da igualdade sob a perspectiva da inclusão.
❍ O direito antidiscriminação parte de uma visão universalista do ser humano, enquanto o direito das
minorias parte de um viés particularista.
❍ O direito das minorias traz medidas especiais destinadas a melhorar o nível dos direitos humanos dos
grupos discriminados.
❍ Conceitos:
preconceito: é uma atitude negativa dirigida a um grupo com base em características das
pessoas que o integram.
estereótipo: é uma generalização sobre um grupo a partir de certas características dos seus
membros.
subjetividade jurídica: esse elemento enfatiza o fato de que a postura discriminatória é baseada
numa certa visão de mundo subjetiva adotada pelo discriminador
universalidade de direitos: esse elemento ressalta o fato de que os seres humanos, tão só em
razão de serem humanos, são dotados dos mesmos direitos, o que vai contra as concepções
discriminatórias.
❍ Ações afirmativas: são os programas e medidas especiais adotados pelo Estado e pela iniciativa privada
para a correção das desigualdades raciais e para a promoção de igualdade.
❍ São obrigações positivas que demandam ações concretas do Estado para a prevenção, proteção,
promoção e reparação a violações de direitos humanos, notadamente em relação a pessoas e grupos
vulnerabilizados.
❍ As obrigações positivas decorrem da necessidade de o Estado prover condições mínimas para uma vida
com dignidade.
Não basta assegurar a sobrevida, mas vida em dignidade. Esses bens jurídicos formam o mínimo
existência, que está seguro contra o argumento da reserva do possível.
O mínimo existencial está protegido também pela noção de proibição do retrocesso, que objetiva
garantir que a atuação do Estado vá no sentido de ampliar os direitos humanos e de lhes assegurar a
máxima efetividade, não se admitindo a redação do âmbito de aplicação ou extinção de políticas
públicas de proteção sem alguma forma de compensação.
Cabe não apenas ao Executivo assegurar o mínimo existencial, sendo admitida atuação judicial no
sentido de obrigar o Estado, notadamente em relação as políticas públicas compromissadas.
são procedimentos por meio dos quais se identifica, previne, mitiga e produz elementos de
accountability a respeito dos impactos negativos de uma atividade.
Etapas
✓ Identificação de riscos
✓ Prestação de contas
A falta de uma devida diligência pode justificar a responsabilidade por violação de direitos humanos.
Forma de garantia de suficiência da proteção penal, ou seja, são normas que proíbem a proteção
social deficiente (Untermassverbot).
Trata-se de condição que pode decorrer de elementos sociais, econômicos, políticos, jurídicos, físicos
ou culturais.
A vulnerabilidade não está presente apenas diante da falta de representatividade, vale dizer, não está
presente apenas quando se trata de minoria (pessoa com deficiência ou comunidades quilombolas), mas
também em grupos majoritários que história e culturalmente estão em posição de fragilidade (negros ou
mulheres).
✓ Mulher;
✓ Negro
✓ LGBTQIA+
✓ Idoso
✓ Povos Originários
✓ Quilombolas
✓ Migrantes
✓ Refugiados
✓ Apátridas
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Chegamos ao final de mais uma aula.
Ricardo Torques
[Link]@[Link]
@proftorques
QUESTÕES COMENTADAS
1. (2022/FCC/Recife-PE/Assistente Social) As ações afirmativas:
A) têm caráter temporário.
B) baseiam-se no princípio da igualdade formal previsto na Constituição Federal.
C) devem ser aplicadas, simultaneamente, em relação a todos os grupos sociais vulneráveis, sob pena de
violar a isonomia existente entre eles.
D) são baseadas em critérios estritos de meritocracia.
E) dependem sempre de autorização legal para não configurarem discriminação negativa.
Comentários
A alternativa B é incorreta. Ações afirmativas se baseiam no princípio da igualdade sob o espectro material.
A alternativa C é incorreta. Admite-se a seleção de grupos mais vulneráveis como medida prática tendente
a garantir a efetividade das ações afirmativas.
A alternativa D é incorreta. As ações afirmativas são baseadas na vulnerabilidade de um certo grupo social.
A alternativa E é incorreta. Não se faz essa exigência, podendo inclusive entidades privadas adotarem ações
afirmativas independentemente de previsão legal.
Comentários
Comentários
A alternativa B é incorreta. O entendimento que prevalece atualmente é o de que as ações afirmativas são
benéficas e não provocam divisionismo. O fato de que a política de cotas nas universidades públicas tem sido
aceita pelos estudantes e de que não há cisão social entre os estudantes beneficiados pelas cotas e os demais
comprova que essa política não gera divisionismo social.
A alternativa C é incorreta. Esse tipo de medida encontra amparo direto no princípio constitucional da
igualdade e há suporte legal no Estatuto da Igualdade Racial, o qual prevê que as ações afirmativas podem
ser adotadas por entidades privadas.
A alternativa D é incorreta. As políticas de ação afirmativa podem ser consideradas discriminatórias, mas é
uma discriminação positiva. Não se pode falar em racismo, que daria a entender que haveria marginalização
do grupo social que já é beneficiado socialmente.
A alternativa E é incorreta. Já está demonstrado que as pessoas negras têm as mesmas capacidades que as
demais, o que é demonstrado pela aptidão das pessoas negras para exercerem cargos de liderança social.
Comentários
A alternativa A é correta e é o gabarito da questão. Estereótipo é uma generalização sobre um grupo a partir
de certas características dos seus membros. O estereótipo pode ser positivo ou negativo.
As alternativas C e D são incorretas, pois o estereótipo é expresso por uma afirmação sobre um grupo, não
por atitudes ou emoções.
B) a existência ou não de discriminação numa política pública é uma avaliação de natureza apenas moral e
não há base legal que permita a judicialização desse caso;
C) trata-se de um caso de discriminação direta, já que produziu distinção que teve como efeito restringir o
exercício, em igualdade de condições, de um grupo ao acesso à água;
D) é um caso de discriminação indireta, pois, apesar de ser uma política neutra, ela acarreta uma
desvantagem particular às pessoas que não possuem recursos para transportar a água;
E) a situação caracteriza-se como discriminação múltipla ou agravada, uma vez que acumula tanto a
discriminação direta quanto a discriminação indireta.
Comentários
A alternativa A é incorreta. Apesar de uma norma ser tecnicamente neutra, é possível que haja discriminação
indireta.
A alternativa C é incorreta. Não há discriminação direta, a qual ocorre quando a própria norma designa um
grupo social específico como beneficiário. No caso, considerando-se o universo de beneficiários (os vitimados
pela seca), a norma não prevê preferência ou exclusão de qualquer outro grupo social de forma específica.
A alternativa D é correta e é o gabarito da questão. De fato, a norma produz uma discriminação indireta na
medida em que ela pressupõe que as vítimas tenham, de fato, a possibilidade de se locomover até a cidade
vizinha para recolher a água, o que pode não ser correto. Assim, a política deveria ser aprimorada para que
se forneça não só o acesso à água, mas os meios de transportar a água.
E) A discriminação indireta se dá quando uma norma tem um impacto desproporcionalmente negativo sobre
um dado grupo vulnerável, podendo tal norma ser neutra, no sentido da instituição responsável não ter a
intenção de prejudicar o grupo atingido.
Comentários
A alternativa A é incorreta. A discriminação interseccional ressalta justamente que algumas pessoas são mais
discriminadas em razão de participarem de mais de um grupo vulnerável.
A alternativa B é incorreta. O mais certo é dizer que o Direito Antidiscriminatório é um subsistema dos
Direitos Humanos ou do Direito Constitucional. Além disso, o fundamento desse Direito é o princípio da
igualdade.
A alternativa C é incorreta. O agente discriminador pressupõe que haja uma hierarquia que lhe permita
depreciar o grupo vulnerável.
A alternativa E é correta e é o gabarito da questão. Há discriminação indireta quando a norma neutra causa
um impacto desproporcional sobre certo grupo vulnerável.
Comentários
A Constituição de 1988 é prolixa e garante muitos direitos, inclusive os direitos de indígenas (art. 231, § 2º)
e de comunidades quilombolas (art. 68 do ADCT) à terra.
8. (2018/CESPE/MPU/Analista - Direito) Julgue o item a seguir, à luz das disposições da Lei n.°
12.288/2010, da Lei n.° 10.639/2003 e da Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação Racial:
Medidas que visem garantir a certo grupo de minorias a superação de barreiras resultantes de desigualdade
histórica e impeditivas ao exercício pleno de direitos e garantias fundamentais não devem ser consideradas
discriminatórias, pois representam compromisso com a promoção de valores universais concernentes à paz
e à igualdade entre diferentes povos, raças e nações.
Comentários
Comentários
De acordo com o princípio da vedação do retrocesso, os direitos humanos devem ser sempre agregados. A
proteção num certo momento deve ser sempre superior àquela que havia antes, proibindo-se que haja
retrocessos de proteção.
Comentários
A alternativa A é incorreta. A assertiva trocou os conceitos. As obrigações gerais são as voltadas à população
em geral enquanto as especiais são voltadas a grupos vulneráveis específicos.
A alternativa B é incorreta. O Estado tem a obrigação positiva de promover uma investigação séria e
imparcial das violações de direitos humanos.
A alternativa C é incorreta. Há outros fundamentos para o dever de investigar, processar e punir, como o
direito à intimidade e o direito à propriedade privada.
167. A obrigação de garantir o livre e pleno exercício dos direitos humanos não se esgota
com a existência de uma ordem normativa dirigida a fazer possível o cumprimento desta
obrigação, mas comporta a necessidade de uma conduta governamental que assegure a
existência, na realidade, de uma eficaz garantia do livre e pleno exercício dos direitos
humanos.
Quer dizer, a garantia dos direitos não é uma garantia efetiva tão só pelo reconhecimento formal: exige-se
que haja um procedimento estatal que efetive o direito, o que inclui o dever de investigar, processar e punir
responsáveis por violações de direitos fundamentais.
Comentários
É falso, pois a própria Constituição prevê mandados de criminalização, exigindo que haja uma proteção penal
suficiente em relação a determinados bens jurídicos.
A) A OCDE formulou um guia para empresas multinacionais, com a finalidade de promover um padrão
empresarial responsável a nível global, e uma das recomendações feitas é a adoção da devida diligência com
base no risco (risk-based diligence).
B) A definição das medidas de prevenção, detecção e comunicação é o primeiro passo na formulação de um
programa de compliance que tenha por objetivo a prevenção à lavagem de dinheiro.
C) A efetividade de um programa de compliance deve ser realizado por meio de um teste de idoneidade, que
se limita a avaliar em abstrato a implementação do programa.
D) A implementação de processos internos de denúncia de irregularidades nas empresas privadas teve
origem na Inglaterra, onde são denominados de whistleblowers.
E) A implementação do programa de compliance se dá com o estabelecimento de um processo para
averiguação dos descumprimentos ao programa, assim como a instituição de um plano de avaliação
continuada.
Comentários
A alternativa C é incorreta. O teste não deve ser feito apenas em abstrato, mas se deve verificar a aptidão
real do programa para combater os riscos.
A alternativa D é incorreta. Whistleblowers são os denunciantes de ilícitos. Não se utiliza essa expressão
para designar os programas de compliance.
Comentários
A garantia efetiva de um direito depende da existência de procedimentos que assegurem a sua efetivação,
incluindo a diligência correspondente à detecção, prevenção e mitigação de danos que possam ser causados
por particulares.
14. (CESPE/CNMP - 2023) Julgue o seguinte item, referente ao ambiente de controle corporativo.
Na presença de cenário de risco substancial à integridade, as entidades, públicas ou privadas, devem adotar
verificações prévias, conhecidas como due dilligence, ou seja, efetuar exame prévio à contratação, além de
medidas para a supervisão de terceiros contratados.
Comentários
O due dilligence é o procedimento por meio do qual se detectam, previnem e mitigam riscos que possam ser
ocasionados por um empreendimento, tratando-se de procedimento hoje em dia reconhecido como
necessário para se afastar a responsabilidade de uma parte interessada.
Comentários
A assertiva II é correta, podendo-se afirmar que o reconhecimento de interseccionalidades não é uma prática
corrente da Administração Pública no momento.
A assertiva III é incorreta. Não se pode afirmar que tão só as qualidades de gênero e raça/etnia marquem a
identidade e experiência social das mulheres negras. Há marcas também da pobreza, por exemplo.
Como estão corretas apenas as assertivas I, II e IV, a alternativa E é correta e é o gabarito da questão.
LISTA DE QUESTÕES
1. (2022/FCC/Recife-PE/Assistente Social) As ações afirmativas:
A) têm caráter temporário.
B) baseiam-se no princípio da igualdade formal previsto na Constituição Federal.
C) devem ser aplicadas, simultaneamente, em relação a todos os grupos sociais vulneráveis, sob pena de
violar a isonomia existente entre eles.
D) são baseadas em critérios estritos de meritocracia.
E) dependem sempre de autorização legal para não configurarem discriminação negativa.
respeito aos deveres e às responsabilidades para com a comunidade em que atuam, cujos direitos e
interesses devem lealmente respeitar e atender.
B) A adoção de ações afirmativas fomenta o divisionismo, pois a mera desproporcionalidade no número de
empregados negros e brancos verificada no âmbito interno de uma empresa não é justificativa
suficientemente plausível e razoável para a adoção do processo de treinamento e aperfeiçoamento
profissional exclusivamente voltado a pessoas negras.
C) Ações afirmativas destinadas à concretização de objetivos e valores relativos à efetivação e à
materialização do princípio da igualdade no âmbito da iniciativa privada não encontram amparo legal no
ordenamento jurídico brasileiro e, por isso, não têm o condão de eliminar desigualdades sociais e étnicas
decorrentes de fatores históricos, sociais, econômicos, entre outros, pois cabe ao poder público adotar
políticas públicas de enfrentamento a essas desigualdades.
D) Ações afirmativas para pessoas negras no mercado de trabalho promovem racismo reverso, ou seja,
discriminação contra pessoas brancas, por isso o mais adequado seria promover um processo de seleção
sem possibilidade de identificação da cor/raça dos candidatos.
E) A falta de capacitação é o principal problema da população negra, o que acaba se refletindo na
desigualdade na ocupação de postos nas empresas; portanto, em vez de fomentar o divisionismo com ações
afirmativas, convém promover ações neutras, com oferta de qualificação profissional, para o enfrentamento
do cenário de ausência de pessoas pretas e pardas nos postos de comando nas esferas pública e privada.
B) a existência ou não de discriminação numa política pública é uma avaliação de natureza apenas moral e
não há base legal que permita a judicialização desse caso;
C) trata-se de um caso de discriminação direta, já que produziu distinção que teve como efeito restringir o
exercício, em igualdade de condições, de um grupo ao acesso à água;
D) é um caso de discriminação indireta, pois, apesar de ser uma política neutra, ela acarreta uma
desvantagem particular às pessoas que não possuem recursos para transportar a água;
E) a situação caracteriza-se como discriminação múltipla ou agravada, uma vez que acumula tanto a
discriminação direta quanto a discriminação indireta.
8. (2018/CESPE/MPU/Analista - Direito) Julgue o item a seguir, à luz das disposições da Lei n.°
12.288/2010, da Lei n.° 10.639/2003 e da Convenção Internacional sobre Eliminação de Todas as Formas
de Discriminação Racial:
Medidas que visem garantir a certo grupo de minorias a superação de barreiras resultantes de desigualdade
histórica e impeditivas ao exercício pleno de direitos e garantias fundamentais não devem ser consideradas
discriminatórias, pois representam compromisso com a promoção de valores universais concernentes à paz
e à igualdade entre diferentes povos, raças e nações.
B) Indisponibilidade;
C) Inerência;
D) Vedação do retrocesso;
E) Inesgotabilidade.
14. (CESPE/CNMP - 2023) Julgue o seguinte item, referente ao ambiente de controle corporativo.
Na presença de cenário de risco substancial à integridade, as entidades, públicas ou privadas, devem adotar
verificações prévias, conhecidas como due dilligence, ou seja, efetuar exame prévio à contratação, além de
medidas para a supervisão de terceiros contratados.
15. (2019/FUNDATEC/Prefeitura de Chuí - RS/Assistente Social) Sobre a interseccionalidade e a
perspectiva do feminismo interseccional, importante tema que permeia o trabalho do(a) assistente social
com as diferentes expressões da questão social, analise as assertivas abaixo:
I – O feminismo interseccional é uma abordagem teórica que tem sido utilizada por muitas teóricas negras
feministas.
II – O cruzamento entre raça e gênero, tal qual formulado pela abordagem interseccional, ainda é periférico
na produção do Serviço Social.
III – A perspectiva do feminismo interseccional permite a ampliação do olhar sobre específicas opressões
vivenciadas pelas mulheres, cujas identidades e experiências sociais são marcadas por exclusivos marcadores
sociais de gênero e raça/etnia.
IV – A proposta do feminismo interseccional possibilita uma análise dos marcadores sociais de gênero e de
raça/etnia através do seu entrecruzamento, não sendo vistos de forma isolada, ou através de uma visão
somatória ou aditiva de opressões.
Quais estão corretas?
A) Apenas I e II.
B) Apenas II e IV.
C) Apenas II e III.
D) Apenas I, II e III.
E) Apenas I, II e IV.
GABARITO
1. A 3. A 5. D
2. A 4. A 6. E
7. Certa
8. Certa
9. D
10. E
11. Errada
12. A
13. Certa
14. Certa
15. E