A LACUNA ENTRE IMAGEM, CORPO GORDO E O DISCURSO
Cíntia Viviane Fernande de Abreu
Alexandre Links Vargas (Orientador)
Resumo: Este trabalho propõe a análise de fotografias de mulheres gordas publicadas em
redes sociais e revistas, juntamente com o discurso sobre aceitação que as acompanha. Com o
objetivo de analisar a instância da valorização destas mulheres, a partir de imagens.
Considerando a hipótese de que há uma tensão entre a imagem e o discurso. Para alcançar este
objetivo os fundamentos dos autores como Michel Focault, Didi-Hubermam, Naomi Wolf,
David Le Breton e Suzan Sontag, serão aprofundados. A metodologia da pesquisa será
qualitativa, e a análise será estética. Como resultado, espera-se uma importante contribuição
para o pensar sobre a lacuna existente entre o poder do discurso e o uso das fotografias.
Palavras-chave: Discurso. Imagem. Poder.
Abstract: This work proposes an analysis about fat women photographs published in social
networks and magazines, along with the speech about acceptance that accompanies them,
with the goal of analyze the valorization’s instance of these women from pictures, considering
the hypothesis that there’s a tension between the picture and the speech. To achieve this goal,
the author’s groundworks like Michel Focault, Didi-Hubermam, Naomi Wolf, David Le
Breton and Suzan Sontag will be deepened. The research methodology will be qualitative, and
the analysis will be aesthetic. As result, an important contribution to thinking about the gap
existant between the power of speech and the use of photographs is expected.
Keywords: Speech. Picture. Power.
1 Introdução
A preocupação com a aparência física sempre existiu, desde tempos greco-
romanos com todas as figuras mitológicas de deuses e deusas descritas com uma beleza
exuberante. Os homens que cultivavam seus corpos esculturais, passavam horas e horas nos
ginásios. Já as mulheres, donas de uma cintura larga, eram consideradas de uma beleza
excepcional. Conforme o portal Jornal BBC Brasil 1, em uma matéria intitulada Você se
encaixaria nos padrões de beleza da Grécia antiga?, “para os gregos, um corpo bonito era
uma prova de uma mente brilhante. Havia um termo para isso - kaloskagathos ─ o que
significa ser bonito de se ver e, além disso, uma boa pessoa”. A reportagem informa ainda,
Cíntia Viviane Fernande de Abreu. Graduada em Jornalismo pela Universidade do Sul de Santa Catarina -
Unisul. Licenciada em Letras – Língua Portuguesa - Unisul. Mestre em Ciências da Linguagem – Unisul. E-
mail: cintiaabreufotografia@[Link]
1
Disponível em: < [Link]
Acesso em: 4 de abr. 2020.
2
que é ilusão pensar que as esculturas gregas não retratavam a realidade, ou seja, os atenienses
e espartanos tinham sim, um abdômen trincado, cintura fina e um corpo coberto de óleo, pois
vivem para cultuar o corpo.
Citar os tempos gregorianos para falar do conceito sobre beleza é também
ressaltar que é um conceito que varia de tempos em tempos. O que é considerado belo muda,
mas seu significado no dicionário é sempre o mesmo. Por exemplo, no Dicionário online de
Língua Portuguesa2, encontramos alguns significados como - qualidade do que é belo,
expressão própria de belo. Essência do ser ou daquilo que pode incitar uma sensação de
êxtase; que desperta admiração ou prazer por meio dos sentidos. Então, belo é uma
percepção e como tal pode sofrer alterações, manipulações ou influências. Ou seja, não é algo
definido, é uma definição que depende da época e o lugar em que vivemos.
A sociedade já passou por muitos momentos em que a concepção de beleza
mudou. Muitas questões que, na contemporaneidade, é considerado feio em um corpo, já
foram símbolos de extrema beleza.
No corpo social, a mulher em particular, foi criada para preocupar-se com o
corpo, e muitas vezes, cobrada demasiadamente por estar fora dos padrões de beleza, a qual
sua geração impunha. Houveram tempos em que ser obeso significava ser belo. Assim traz a
reportagem do site Fatos desconhecidos3 intitulada - Como eram os padrões de beleza das
mulheres do passado? “Além desses fatores, quanto mais obesa a pessoa fosse, melhor. Em
tempos em que a comida era escassa ou difícil de obter (ou seja, toda a história humana com
exceção dos últimos 100 anos), ser gordinho significava que você tinha o suficiente para
comer e era potencialmente saudável e rico”. Neste contexto, a beleza estava ligada às
questões econômicas. Assim como quanto menos bronzeada fosse a mulher, mais bela era
considerada, pois, segundo os dados apresentados, o bronze da pele, só tinham os
trabalhadores rurais. Mais uma vez o conceito de beleza estava relacionado ao poder
aquisitivo que a mulher possuía.
Noemi Wolf (1992), em “O mito da beleza - Como as imagens de beleza são
usadas contra as mulheres”, traz sobre as mudanças que o gênero feminino passou, e que foi a
partir dos anos 70 que grandes transformações por direito e igualdade mudaram a visão do
mundo em relação às mulheres. Então, as ocidentais conquistaram direitos legais e de controle
de reprodução, foram além da educação básica, chegaram às cadeiras das universidades e
2
Disponível em: < [Link] Acesso em: 10 de abr. 2020.
3
Disponível em: < [Link]
passado/>. Acesso em: 10 de abr. 2020.
3
atuaram no mundo dos negócios. Ainda segundo a autora, ao mesmo tempo em que
importantes conquistas foram alcançadas, a mulher preocupou-se ainda mais com a aparência
física. A indústria da cirurgia plástica, a quantidade de mulheres com distúrbios alimentares, e
o gênero da pornografia foram fatores com maior ascensão. “Trinta e três mil mulheres
americanas afirmaram a pesquisadores que preferiam perder de cinco a sete quilos a alcançar
qualquer outro objetivo” (Wolf, 1992, p.12). Dessa forma, observamos que apesar das
mulheres conquistarem direitos de escolha da sua posição na sociedade, ainda são reféns do
medo do envelhecimento e vivem em função da busca do físico perfeito.
Ainda conforme Wolf (1992), essas preocupações derivam de uma reação contra o
feminismo que utiliza a imagem da mulher e de sua beleza como um comportamento político
contra a evolução da mulher - o mito da beleza.
Ele é a versão moderna de um reflexo social em vigor desde a Revolução Industrial.
À medida que as mulheres se liberaram da mística feminina da domesticidade, o
mito da beleza invadiu esse terreno perdido, expandindo-se enquanto a mística
definhava, para assumir sua tarefa de controle social (WOLF, 1992, p. 13).
Compreende-se que os valores e ideologias sobre beleza são fortes e têm um
poder controlador mesmo diante de mulheres que ultrapassaram e venceram regras impostas
pela sociedade sobre a maternidade, domesticidade, virgindade e tantos outros assuntos do
universo feminino. Na obra de Wolf (1992) existem apontamentos sobre a responsabilidade
da mídia em relação essas mudanças de pensamento. Por exemplo, ao instante que a
publicidade direcionada aos utensílios domésticos perdeu forças, a indústria fomentada por
cosméticos e dietas tomou o seu lugar na cultura feminina. “A ‘beleza’ é um sistema
monetário semelhante ao padrão ouro” (Wolf, 1992, p. 15). Ou seja, há um sistema
determinado pela política, que na era moderna ocidental, baseia-se em um conjunto de crenças
em que o domínio masculino prevalece. Joice Berth (2019), em “Empoderamento”, fortalece
este pensamento e lembra que Simone de Beavoir (1949), em “O segundo sexo”, já trouxe o
conceito de beleza como artimanha de controle masculino, pois são eles que estão em um
lugar privilegiado de poder e decisão sobre o que é bonito, e desejável em uma mulher.
Homens não são tachados como desleixados se estão acima do peso, por exemplo, já para as
mulheres, isso pode significar desleixo. O gênero feminino está sempre em busca por manter
padrões que não foi ele quem os criou.
Temos, então, nesse campo, um elemento importante nos processos de dominação
de grupos historicamente oprimidos, pois, uma vez que se criam padrões estéticos
4
pautados pela hierarquização das raças ou do gênero, concomitantemente criamos
dois grupos: o que é aceito e o que não é aceito e, portanto, deve ser excluído para
garantir a prevalência do que é socialmente desejado (BERTH, 2019, p. 113).
Por conseguinte, a sociedade determina o que é aceitável, desejado e julgado
como belo, e as mulheres têm uma visão esteticamente distorcida de sua imagem. Porque não
são elas, mesmo pertencendo à sociedade, que sentenciam as percepções e emoções do belo.
A idealização da beleza feminina como já ressaltado, passa por variações, porém
há certas exigências que são constantes, independentemente do tempo em que se vive. Essa
questão acentuou-se ainda mais quando novas tecnologias surgiram. Conforme Wolf (1992),
com a chegada dos daguerreótipos, no século XIX, o corpo feminino ganhou ainda mais
destaque, pois através dessas imagens era definido como deveria ser a aparência das mulheres,
e pela primeira vez fotografias de prostitutas nuas foram distribuídas.
Anúncios com imagens de "belas" mulheres apareceram pela primeira vez em
meados do século. Reproduções de obras de arte clássicas, cartões-postais com
beldades de sociedade e amantes dos reis, gravuras de Currier e Ives e bibelôs de
porcelana invadiram a esfera isolada à qual estavam confinadas as mulheres da
classe média (WOLF, 1992, p. 18).
Assim, a imagem auxiliou na expansão da ideia do que era considerado fascinante
na época e, assim a fotografia toma um papel importante para o universo feminino. E cada vez
mais é uma ferramenta primordial para qualquer ramo que trabalhe com a economia feminina.
A enxurrada de imagens que se tem acesso nos faz desejar no corpo do outro aquilo que, às
vezes, é impossível alcançar. Segundo Wolf (1992) este seria o atual arsenal do mito da
beleza - disseminar milhões de imagens do ideal em voga, reforçando ainda que, é um temor
político por parte do gênero oposto, ou seja, as instituições masculinas sentem uma ameaça
pela liberdade das mulheres. Mas que é também uma alucinação coletiva, tanto de mulheres e
homens, atordoados com a rapidez com a qual se transformam as relações entre os sexos.
Cria-se algo contraditório, uma vez que a “beleza” não corresponde a verdadeira situação da
mulher.
Hoje, tal ilusão tem total abrangência, pois há a manipulação do mercado. A
indústria das dietas, dos cosméticos e da cirurgia plástica fatura “a partir do capital gerado por
ansiedades inconscientes e conseguem por sua vez, através da sua influência sobre a cultura
de massa, usar, estimular e reforçar a alucinação numa espiral econômica ascendente”
(WOLF, 1992, p. 21).
5
Dando um salto no tempo e trazendo o papel das imagens e da beleza para os anos
90, o corpo feminino de extrema magreza era a beleza daquele momento. A questão de
controle de peso já era assunto discutido em épocas anteriores.
O peso das modelos de moda desceu para 23% abaixo do peso das mulheres
normais, aumentaram exponencialmente os distúrbios ligados à nutrição e foi
promovida uma neurose de massa que recorreu aos alimentos para privar as
mulheres da sua sensação de controle (WOLF, 1992, p. 14).
Nessa época, modelos como Gisele Bündchen e Naomi Campbell, donas de um
corpo curvilíneo, foram consideradas literalmente modelos de beleza. As capas de revistas de
moda, como Marie Claire e Vogue estamparam fotografias de mulheres com este padrão de
beleza da época.
Nos anos 2000, a concepção sobre o corpo das mulheres profissionais da moda
mudou gradualmente com o passar das décadas. Ressalta-se modelos aqui porque é pela mídia
que o padrão de beleza é determinado à sociedade, e segundo o site Moda Cultura Mix 4 as
agências de modelos a partir de 2010 procuraram mulheres menos padronizadas, o estilo
procurado nesta era é o “ultraindividual”, ou seja, belezas diferentes. Ainda conforme o site,
modelos com características muito parecidas e inexpressivas já não têm tanta preferência na
passarela e nos editoriais de moda.
O site Terra5 traz a reportagem “Magreza e novo ideal de beleza continuam a
mobilizar a moda”, que traz informações sobre os estudos realizados pela Harvard Business
School, nos Estados Unidos, a qual levantou questões sobre o peso e o bem-estar dessas
profissionais. Além do estudo, o apoio da diretora da Vogue, Anna Wintour e do estilista
norte-americano, Michael Kors contribuiu para que as mudanças acontecessem. A matéria
conta ainda que naquele mesmo período, a revista Vogue trouxe em destaque a modelo plus-
size Kate Dillon, uma das primeiras modelos da categoria plus-size naquela década. No Brasil,
em 2016, a modelo Fluvia Lacerda é conhecida como Gisele Bündchen plus-size e foi a
primeira mulher acima do peso considerado ideal ou padronizado, a posar para a revista que
historicamente é direcionada ao público masculino, a Play Boy.
Realizar um aprofundamento sobre o mundo “tamanho maior”, é o primeiro
passo para estabelecer o problema principal desta pesquisa: Qual a instância da valorização de
mulheres gordas a partir de fotografias de artistas brasileiras nas redes sociais? Portanto,
4
Disponível em: < [Link] Acesso em: 20
de abr. 2020.
5
Disponível em: < [Link]
a-mobilizar-a-moda,[Link]>. Acesso em: 20 de abr. 2020.
6
lança-se como objetivo analisar a instância da valorização destas mulheres, a partir de
fotografias das redes socais. Considerando a hipótese de que há uma tensão entre a imagem e
o discurso.
Destaca-se também que o movimento sobre aceitação do corpo gordo vem
crescendo e tem denominação, o body positive. A ação é feminista e, trabalha com o objetivo
de convencer as pessoas a se aceitarem como são e não seguir padrões de beleza impostos
pela sociedade. Entretanto, pretendemos trabalhar juntamente com esses discursos, a presença
da fotografia neste meio e de como muitas imagens contradizem o que a própria mídia prega
sobre aceitar-se.
Para embasamento desta pesquisa, a obra “Microfísica do Poder” de Michael
Foucault (1994) será importante, uma vez que o filósofo traz a reflexão de como o poder se
configura e é exercido nas sociedades modernas. Haja vista que o poder existe enquanto
prática, não é algo violento, pelo contrário, o poder é exercido por corpos que o autor
denomina de corpos normalizadores. Esse corpo normalizador referente às mulheres gordas é
o que pretendemos compreender. O discurso é pelo empoderamento de uma beleza própria, ou
seja, dar liberdade e poder sem o controle dos padrões de beleza do senso comum.
Enquanto isso, somos apresentados às fotografias com tratamento de imagem que
maquiam a silhueta, posições técnicas, ângulos fotográficos que levam as modelos parecerem
menos gordas. A fotografia acaba não corroborando com os mecanismos utilizados pelos
grupos defensores da aceitação por diferentes corpos, ou seja, ela acaba criando um discurso
questionador referente de o quanto a imagem representa a fala. Para dar conta desses
objetivos, traremos também conceitos sobre o mundo imaginal, corpo, imagem, representação
e fotografia, com os autores Michael Meffesoli, David Le Breton, Jacques Aumont, Suzan
Sontag, Didi-Hubermam,
2 Revisão da Literatura
Na obra “Microfísica do Poder” de Michel Foucault (1994), entende-se a
cronologia do poder na sociedade moderna, pois anteriormente, o poder era entendido como
algo que estava centralizado no Estado, através dos aparelhos de dominação, o qual estava a
política, o critério de justiça social, a liberdade e a fraternidade entre os indivíduos, o mesmo
era único e soberano.
Para o filósofo o poder não é exercido em uma hierarquia como em uma pirâmide,
na qual quem está no topo tem mais domínio. O poder se exerce ou é praticado em todas as
7
camadas sociais através das relações e suas práticas. É um sistema de rede, consequentemente
com ramificações que já não pertencem somente ao ramo político, ou seja, o poder está em
nosso cotidiano.
Dessa forma, o poder torna-se legítimo a partir do discurso. Cada sociedade tem
seus discursos, o seu regime de verdade, explica Foucault (1994). O regime de verdade é
explanado através de diferentes formas de disciplina e por instituições com interesses próprios
que produzem crenças, costumes e interesses. As universidades, o exército e as prisões são
exemplos de organizações de dominação dos corpos, cada uma de sua forma. A escola tem
como objetivo domar os corpos. Exemplo disso são os exames em que o discente que não
atingiu a média, que saiu da normalidade, faz com o discurso de que terá mais uma chance de
absorver o conhecimento. Já nas prisões, o poder é exercido como forma de punir
violentamente os corpos.
Cada grupo social tem uma forma de estruturar seus mecanismos de poder e
tornam determinado discurso como verdade e, assim temos o dominador e o dominado.
Através de Foucault (1994) compreende-se também que o poder é exercido e seus efeitos se
manifestam no corpo, pois é através do corpo no mundo moderno que cada vez mais a
sociedade é refém do consumo desordenado em um mundo capitalista.
Indubitavelmente, as mulheres são exemplos claros dessa dependência com os
cuidados e regras com o físico. E os mecanismos que tentam nos dominar existiram. O mito
da beleza explicado por Wolf (1992) é um dos últimos criados, depois que se libertaram de
tantos outros. Pois a busca por dietas desatinadas e produtos milagrosos, que prometem
eliminar muito quilos em pouco tempo, não faziam parte do culto à beleza em séculos
passados. A revista eletrônica Super Interessante 6 mostra em uma de suas reportagens que
exemplo de beleza do século passado estava relacionado às mulheres de quadris largos, coxas
grossas e rosto mais arredondado. A revista traz ainda a obra de arte - As Três Graças, de
Peter Paul Rubens, feita em 1635.
Figura 1 – As Três Graças
6
Disponível em: < [Link]
Acesso em: 26 de abr. 2020.
8
Fonte: Super Interessante (2018).
A pintura mostra o tipo de beleza valorizado naquela época. E, historicamente é
sabido que donas de um corpo mais avantajado também tinham mais poder aquisitivo. Ainda
segundo a revista“Quando fazer as três refeições básicas diariamente era um luxo e morrer
de fome era um destino comum para as pessoas, a gordura alcançava status de privilégio”.
Então, na contemporaneidade temos comida em excesso e diferentes formas de
armazenamento. Portanto, não comer, não ceder às facilidades é o que se tornou difícil.
Ter condições financeiras para obter alimentos não foi o único motivo de
mudanças nas exigências de padrão de beleza do corpo das mulheres. Segundo Wolf (1992),
cada vez que a mulher deu um passo em busca de liberdade, em busca de direitos e um
posicionamento no mercado de trabalho, a sociedade colocava mais obstáculos para serem
enfrentados.
Na década de 1980, ficou evidente que à medida que as mulheres foram ficando
mais importantes, também a beleza foi adquirindo maior importância. Quanto mais
perto do poder as mulheres chegam, maiores são as exigências de sacrifício e
preocupação com o físico (WOLF. 1992, p. 34).
O mecanismo de poder agora está no corpo da mulher. Se ela tem poder
aquisitivo, está tomando lugar importante no mercado de trabalho, consequentemente tem que
ser magra o bastante para sustentar seu posicionamento. Para que a mulher aderisse a esse
discurso, três questões foram implantadas na ideologia da beleza, sem que causassem a
impressão de discriminação.
(1) A "beleza" teve que ser definida como uma qualificação legítima e necessária
para a ascensão de uma mulher ao poder. (2) O objetivo discriminatório da mentira
número um teve de ser disfarçado (especialmente nos Estados Unidos, com sua
receptividade à retórica da igualdade de oportunidade) por meio de sua firme
9
inserção no sonho americano: com criatividade e dedicação, a "beleza" pode ser
atingida por todas as mulheres. (3) Disseram à mulher que trabalhava que pensasse
na "beleza" de uma forma que desmontava, passo a passo, a mentalidade que ela
conseguira em conseqüência do sucesso do movimento das mulheres. Essa última
mentira vital aplicou à vida de cada mulher a regra central do mito: para cada ação
feminista há uma reação contrária e de igual intensidade por parte do mito da beleza
(Wolf, 1992, p. 36).
Desta forma Foucault (1994) evidencia que o corpo social é formado através do
exercício do poder sobre o corpo dos seres. Há um poder repressivo, sem que a mulher
perceba. Criam-se regras de como o corpo deve ser. A mulher tem em mente que só deve ter
desejos e amor próprio que se encaixem com exigências do local de trabalho, e se não for
assim, a culpa é dela. “O domínio, a consciência de seu próprio corpo só puderam ser
adquiridos pelo efeito do investimento muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo...” (1994,
p. 146). Destarte, a disciplina sobre o corpo da mulher se manifesta de forma dócil, com a
intenção de auxiliar, de fazer somente o bem. O filósofo diz ainda que, o poder está exposto
no próprio corpo e assim o discurso sobre a necessidade de uma vida saudável vem
acompanhado de espaços disciplinares.
Outros tipos de adestramento em relação ao corpo feminino vieram ao decorrer
dos tempos. E muitas lutas por liberdade do corpo se entrecruzam com o regime dos corpos.
Exemplo disso é a relação entre o surgimento da minissaia e a criação do grupo Vigilantes do
peso. Ambos foram criados nos anos 60, e segundo o site Modices 7, aquele foi o momento em
que a mulher trabalhava pela desconstrução da imagem da dona de casa. “As mulheres
estavam sentindo que podiam ser livres para tomarem suas próprias decisões, expressarem
suas vontades e usarem seus corpos da forma que achasse melhor”. Com a minissaia há um
discurso de poder, o dominado revolta-se contra o dominador, pois usar a peça foi um ato
político e não somente estético, uma vez que também foi um ato de contestação dos padrões,
o corpo é utilizado como resistência.
E assim, na mesma década, nos Estados Unidos, o grupo Vigilantes do peso é
criado por uma dona de casa que lutava contra o excesso de peso, e o grupo tornou-se uma
potência, que até hoje trabalha com o objetivo de corrigir e orientar a alimentação dos corpos
determinados como fora do padrão. “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo
investimento que não tem mais a forma de controle-repressão, mas de controle-estimulação:
Fiquei nu...mas seja magro, bonito, bronzeado” (FOUCAULT, 1992, p.147), por seguinte, na
década de 60, o qual o filósofo nos fala que os corpos dóceis tomam o seu lugar, e o discurso
7
Disponível em: < [Link]
e-resistencia-da-minissaia/>. Acesso em: 28 de abr. 2020.
10
é mais tênue. Exemplo de docilidade é o método do grupo Vigilantes do Peso, no qual quem
deseja emagrecer se auto vigia, anota as proporções e a qualidade do que ingere.
2.1 Imagem x gordo x magro
Enquanto as mulheres corriam para equilibrar um bom posicionamento no
mercado de trabalho e manter-se belas, o mundo editorial das revistas femininas trabalhava
para continuar lucrando, pois, os assuntos e interesses eram outros. Então, o mecanismo
utilizado foi trazer nas revistas conteúdos que as fizessem acreditar que, precisavam daquilo
para ter mais e mais beleza. Naquele instante, o mais importante era o corpo. Enquanto
preocupavam-se com a beleza não tomariam mais espaço no mundo. “Essa dose obrigatória
do mito da beleza fornecida pelas revistas induz nas leitoras um desejo incontrolável,
insaciável e furioso de obter certos produtos e uma fantasia permanente” (WOLF, 1992, p.
91).
O papel das revistas naquele período foi tão importante quanto o papel das redes
sociais no século XXI. As mulheres dignas de “capa de revista”, atualmente, são as pessoas
públicas e influenciadoras do Instragram, por exemplo. Pois, tanto os discursos que ainda
temos nas revistas impressas, também encontramos em redes sociais. Aqueles que vêm
carregado de ajuda às mulheres, sempre com a intenção de “ela desenvolveu um tom de
aliança para com a leitora, de estar ao seu lado com conhecimento e recursos superiores, como
um serviço de assistência social gerido por mulheres” (WOLF, 1992, p. 97). Ou seja, o
Instagram é a vitrine, que através da indústria sempre tem a solução para beleza feminina.
Nessa ferramenta, o mecanismo é muito mais rápido e em minutos influenciadoras ganham
likes, e seguidoras sedentas por serem como ela, ou comprarem determinado produto
divulgado naquele perfil.
As redes sociais não deixaram de trazer seu discurso em forma de texto, mesmo
que limitando os caracteres e, as fotografias assim como nas revistas, ganham destaque no
mundo feminino. A preferência pela exposição entre as mulheres é maior. Conforme o site
techtudo, no ano de 2017 foi compartilhado mais de 40 bilhões de fotos pelos usuários do
aplicativo. Ainda segundo o estudo, as mulheres estão em maioria como usuárias no
Facebook e no Instagram. “No Brasil as mulheres (55%) são mais presentes nas redes sociais
8
que os homens. Elas são maioria no Facebook (53%), Instagram (59%) e Snapchat (71%)”
8
Disponível em: < [Link]
[Link]>. Acesso em: 30 de abr. 2020.
11
(Techtudo, 30 de abril de 2016). Números esses que não sofreram mudanças em 2022. A
informação de que as mulheres estão presentes nas redes e em maioria, nos faz pensar no
papel em que exerce sobre elas mesmas, e diante de outras mulheres, quando a discussão é o
poder do discurso, de metamorfose, na concepção de identidades culturais e sobre estética
corporal.
A sociedade moderna convida-nos a construirmos nosso corpo, conservando e o
modelando conforme exigência da moda. Tem-se o nosso corpo como carta de apresentação
de si. “Nossas sociedades consagram o corpo como emblema de si. É melhor construí-lo sob
medida para derrogar ao sentimento da melhor aparência. Seu proprietário, olhos fixos nele
mesmo, cuida para torná-lo seu representante mais vantajoso” (LE BRETON, 2003).
Inegavelmente, a imagem também é mecanismo de poder diante às mulheres. Um
poder sem reprimir, para que a mulher exposta provoque desejo em outras. Foucault (1994)
corrobora com a ideia quando diz que o poder não age somente por meio de censura, de
repulsa e de forma negativa e, por isso não é frágil. Através de fotografias temos a propagação
de corpos restritos à juventude, à magreza extrema, com cabelos lisos e olhos claros,
características que não são encontradas com facilidade no Brasil, por exemplo. Um país
formado por diversas etnias e que apresenta uma diversidade racial e cultural abundante.
Conforme a Revista Fórum (2002) “O Estado brasileiro vem agindo por meio da
Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), desenvolvendo atuação específica para
questionar e combater os estereótipos sobre mulheres divulgados em anúncios publicitários e
programação televisiva. É importante lembrar que o Estado não está censurando nem
proibindo, está apenas questionando os valores que são transmitidos pelos meios de
comunicação. Ao questionar, propõe mudança de paradigma para que a mídia combata a
9
violência simbólica contra mulheres” (Revista Forum, 25 de junho de 2012). Juntamente
com as ações do Estado, percebemos que há mulheres que contribuem com a despadronização
dos corpos através de divulgações de suas próprias fotografias no Instagram. A artista Preta
Gil é um exemplo de mulher que usa de um discurso sobre o empoderamento do seu próprio
corpo e posta suas fotografias sem tratamentos de imagens.
Figura 2 – Postagem de Preta Gil
9
Disponível em: < [Link] Acesso
em: 30 de abri. 2020.
12
Fonte: Instagram (2018).
A postagem da artista tem 392.350 curtidas e 15.512 comentários que no geral são
mensagens de apoio à legenda, na qual Preta Gil se diz livre e feliz, sem se preocupar com os
padrões de beleza. Em um dos comentários a seguidora escreve: “Obrigada. Tu estás de
verdade fazendo diferença em minha vida, ajudando a me libertar, me ver!”. Já outra diz:
“pra mim é libertador lê isso que vc escreveu aqui, eu estou cansada desses “padrões” tbm,
cada dia me liberto mais e estou muito feliz, e o que importa é ter saúde”. É possível
identificar nesses comentários que há um reconhecimento, as seguidoras sentem-se próximas
e felizes por perceberam que a artista tem um corpo real, saindo do discurso em busca da
perfeição. O uso da fotografia é essencial para esse empoderamento acontecer, pois é através
da imagem que as seguidoras se reconhecem na artista.
Possivelmente, não haveria a mesma repercussão se Preta Gil somente declarasse
respeito com seu corpo e suas formas em forma de palavras. Sontag (2004) comenta sobre a
fotografia, “é, sobretudo um rito social, uma proteção contra a ansiedade e um instrumento de
poder”. O uso da imagem vem para contribuir com o respeito e a identidade das mulheres que
se sentem representadas ao verem a artista exposta sem tratamento de imagem em uma rede
social. Berth (2019) salienta:
Olhar-se no espelho e se achar bela/bonita não implica necessariamente em uma
aceitação pautada pelo autoamor. Se não percebemos que devemos entender a beleza
e amá-la porque houve movimentações políticas que induziram o pensamento
contrário a isso, não avançaremos no processo [...] (BERTH, 2019, p. 138).
13
Compreende-se que, quando se fala em belo, é o belo nos seus semelhantes, em
uma sociedade que cultua a autoimagem. Assim, o que a mulher cultua nela está também
relacionado ao narcisismo que está impregnado em nossa sociedade.
No livro “No fundo das aparências”, de Michel Maffesoli, o autor nos fala sobre o
mundo imaginal e de como ele funciona e nossa sociedade. “[...] agente revelador das
imagens particulares que constituem a vida cotidiana, que seja, de algum modo, causa e efeito
dessas imagens.” (Mafessoli, 1996,p. 130). Preta Gil através de suas fotografias “vende”
outra imagem do corpo belo, e isso faz com que as próprias mulheres consumam esse
discurso, e levanta a ideia de aceitação social de uma comunidade importante no mundo.
Culturalmente falando, a artista dita novas regras, há persuasão moral com o uso das suas
fotografias. Porém, ao mesmo tempo em que as fotos enquanto objeto funcionam, “na
verdade, como matéria significante da inscrição do sujeito do discurso figurativo, ele é o
espelho que reflete, no plano simbólico, essa ordem egocêntrica que instaura a representação”,
MACHADO (2015). Ou seja, essas fotos trabalham como representação, mas nem sempre
outras fotografias juntamente com o discurso sobre aceitação e belo tem a mesma sintonia.
A fotografia se volta contra o discurso quando, por exemplo, encontramos
fotografias e uma reportagem como a da revista Galileu com a matéria intitulada “O que é um
corpo capa de revista?”10 , que traz em sua capa uma modelo plus size e propõe a discussão
sobre a gordofobia e novas pesquisas científicas. As imagens trazem pessoas gordas, mas não
há indiciosos de obesidade e obesidade mórbida nos modelos, uma vez que o discurso do
periódico é trazer a gordofobia, que é a aversão ou repulsa ao corpo gordo e sobre
representação.
Figura 3 – Postagem Revista Galileu
10
Disponível em: <Instagram>. Acesso em: 30 de abr. de 2020.
14
Fonte: Instagram (2017).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), obesidade é um acúmulo
anormal ou excessivo de gordura corporal que pode atingir graus capazes de afetar a saúde, e
é classifica nos seguintes graus: portadores de obesidade grau 1, portadores de obesidade grau
2 e portadores de obesidade grau 3. Portanto, as pessoas que a sociedade determina como
gordas nem sempre são portadoras de obesidade. E pode ser o caso da modelo fotografada na
Galileu (2017), que além de ter um rosto bonito, está maquiada, seu corpo não aparece por
inteiro e a fotografia passou por processo de tratamento de imagem.
Jacques Amount (1993), e “Imagem” nos fala sobre o olhar de quem fotografa.
Para ele, olhar é o que define a intencionalidade e sua finalidade. Então, a escolha por
ângulos certos, direcionamento de luzes e mostrar somente o rosto dos modelos são técnicas
que amenizam a aparência da modelo e, que em um total não contribuiu com o processo de
empoderamento de todas as mulheres, inclusive, as portadoras de obesidade. O uso de
técnicas não vai ao encontro do discurso de exclusão e aceitação.
A nutricionista Morgana Pessenti, integrante do grupo Acolhimentar, o qual é um
centro de estudos para profissionais e pessoas que querem ser acolhidas e passam por algum
conflito com relação a alimentação e o corpo, ressalta o discurso de que esse conceito
negativo é resquício de uma sociedade gordofóbica e, que o conceito de magro é associado ao
belo, ao sucesso e a saúde. Pessenti (2020) ressalta que a sociedade se refere às características
de pessoas que estão acima do peso de forma pejorativa, bem como é importante trabalhar o
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discurso no âmbito das características emocionais, culturais, sociais e políticas que envolvem
o ato de comer e a relação que a pessoa tem com o próprio corpo.
Ainda sobre as fotografias expostas no Instagram, cabe enfatizar que é nítida a
produção das fotos com modelos gordas que corroboram com o discurso do senso comum
sobre os corpos das mulheres. As modelos são acinturas, produzidas, podem ser portadoras de
obesidade, mas têm em suas fotos uma manipulação da imagem, além de estratégias técnicas
de fotografia. Uma fotografia alterada fala muito mais que os textos sobre o empoderamento
da mulher, ou seja, uma mulher que não se vê realmente representada em uma foto pode não
ter a possibilidade de ressignificação. É preciso que se exerça a representatividade com
eficiência tanto quanto o discurso que impõe a necessidade imposta para mulheres de serem
belas.
Essa imposição da beleza, ao longo da história, deixou uma larga brecha para a livre
incursão dos mais variados estereótipos que, aplicados à sociedade, além de
corroborar com o esquema de hierarquização de mulheres, estimula a rivalidade
feminina - no âmbito das práticas de dominação e opressão por gênero (BERTH,
2019, p. 137).
Ser gorda, estar sobrepeso ou ser portadora de obesidade mórbida vai além da
questão da saúde da mulher. A autora ressalta que se faz necessário um entendimento político
do papel que a estética representa enquanto instrumento no discurso de poder em motivar todo
um grupo social. A fotografia muitas vezes, trabalha como instrumento desmotivador.
Em contrapartida, a imagem não é simples representação de algo. Georges Didi-
Huberman (1998), em “Questão de detalhe, questão de trecho”, afirma que a imagem não é
uma simples representação de algo. A fotografias nas redes sociais trazem componentes
importantes ao discurso como o detalhe e o trecho. Para Didi-Huberman (1998, p. 324), “[...]
o detalhe se presta ao discurso: ele ajuda a contar uma história, a descrever o objeto”. O
detalhe nos leva à estabilidade de ideias, da descrição, da exatidão das coisas, diferentemente
do trecho, que nos instabiliza, que “[...] é semioticamente lábil e aberto” (DIDI-
HUBERMAN, 1998, p. 344). Conforme o autor, “[...] o trecho não traz à luz senão a própria
figurabilidade, isto é, um processo, uma potência, uma ainda-não (e isso se diz, em latim,
praeses), uma incerteza, uma existência quase da figura” (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 344).
Ou seja, enquanto o detalhe permite ao espectador extrair da foto um saber, destacar uma
representação (como se costuma dizer, “ver detalhadamente”), o trecho o convoca a um
pensar decisório, explicita a porção da vontade a partir do momento em que um pequeno
ponto pode reabrir todos os significados, restituir a materialidade da foto e, portanto, o estágio
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prévio de sua figuração, cabendo ao observador ter de se posicionar sobre as formas que
compõem a imagem – um perfil de Instagram que afirma ter o objetivo da valorização da
beleza da mulher gorda se contrapõe quando apresenta um trecho, algo que desestabiliza o seu
discurso.
Magalhães (2008) diz que é de fundamental importância o debate sobre como o
corpo passou a ser objeto de intervenção de poderes e de investimento subjetivo. A autora
também trabalha com leituras de Michel Foucault sobre disciplina e normas. Assim como
Gusmão e Silva (2019), quando se referem aos corpos obesos, afirmam que obrigação de
sempre obter sucesso em todas as áreas da vida, gera uma sociedade positiva em excesso,
marginalizando pessoas fora dessa ilusória perfeição. Em um primeiro momento, é
perceptível que não há um estudo envolvendo a potência da fotografia e o discurso em relação
ao plus size. E é de fundamental importância esse olhar científico em nível das ciências
sociais, uma vez que “[...] A coerência não resulta do desvelamento de um projeto, mas da
lógica de estratégias que se opõem umas às outras. É pelo estudo dos mecanismos que
penetraram os corpos, nos gestos, nos comportamentos, que é preciso construir a arqueologia
das ciências humanas” (FOUCAULT, 1994, p. 150).
Somos com nossos corpos realidades sociais, fazemos história com ele desde os
primeiros tempos civilizatórios, nos moldando conforme o tempo em que vivemos. A cada era
anunciada, temos uma nova cultura, novos saberes e temos na memória o que se passou e
construindo nossa coletividade social. Portanto, “o corpo não mais designa uma objeção ou
uma máquina, mas designa nossa identidade profunda da qual não mais se tem motivo para
sentir vergonha; podemos exibi-lo nu nas praias ou em espetáculo, em toda a sua verdade
natural” (LIPOVETSY, 2005, p.42). Porém, o uso da fotografia para mostrar o real, ou várias
formas reais de corpos, trouxe muitos significados sociais e culturais para o estudo proposto.
3 Metodologia
A pesquisa a ser realizada é de abordagem qualitativa e a metodologia, referente a
seus objetivos, é exploratória. Entende-se como pesquisa qualitativa a que:
Visam a compreender um fenômeno em seu sentido mais intenso. Entre as
características essenciais podem ser destacadas: a objetivação, que é o esforço
metódico do pesquisador de conter a subjetividade; a validade interna, que se
fundamenta na triangulação de achados, pesquisadores, teorias e métodos; a validade
externa, que se fundamenta na generalização naturalística, a confiabilidade, que
determina em que medida os dados de pesquisa são consistentes ou podem ser
reproduzidos; e a ética na coleta, análise e disseminação dos achados. (RAUEN,
2015, p. 549)
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Como exploratória, compreendemos, conforme Gil (2017), o estudo que tem
como objetivo propor uma melhor familiarização com o problema, para que assim fique mais
claro. Levando em conta que pode envolver o levantamento bibliográfico, entrevistas e
análise de exemplos que levam a melhor compreensão.
Em um primeiro momento, serão selecionadas imagens veiculas nas redes sociais
e revistas, para que assim se dê início ao um trabalho teórico, os exemplos expostos aqui virão
para ilustrar, utilizando como procedimento a pesquisa bibliográfica e documental fotográfica;
a análise de dados, por sua vez, será estética, isto é, considerará a que há uma tensão entre a
imagem e o discurso.
4 Resultados Esperados
Ao escrever a dissertação no mestrado, abordei também a analises de imagens,
consequentemente, sobre questões relacionadas ao convencimento pelas mesmas. Entretanto,
faz-se necessário um aprofundamento sobre o discurso que as acompanha. Pois, imagem e
discurso são poder, e um poder que pode mudar a vida das pessoas gordas de forma branda,
normalizada, sem deixar transparecer uma quase imposição, como traz Foucault (1994).
Outrossim, aprofundamentos sobre o feminismo na contemporaneidade, a imagem
além do conceito de representação, são de extrema importância para que o estudo realmente
traga boas contribuições à pesquisa. Assim, espera-se perceber como se dá essa lacuna entre
o discurso e a fotografia. Entender como algo que antes era preconceito, agora é conceito
maquiado por um discurso de aceitação, quando ainda, malabarismos na arte de fotografar são
praticadas, tanto tecnicamente como digitalmente.
Referências
BERTH, Joice. Empoderamento. São Paulo: Pólen, 2019. Feminismo Plurais/Coordenação
de Djamila Ribeiro.
FOUCAULT, Michel. Microfisica do Poder. 2. ed. Belo Horizonte: Autentica, 2004. 200 p.
GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas S.A,
2002.
LE BRETON, David. Adeus ao corpo: Antropologia e sociedade. Campinas, SP: Papirus,
2003.
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LIPOVESTSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo.
Barueri, SP: Manole, 2005.
MACHADO, Arlindo - A ilusão Especular: uma teoria da fotografia. São Paulo: Gustavo
Gili, 2015.
DIDI-HUBERMAN, Georges. O rosto e a terra – onde começa o retrato, onde se ausenta o
rosto. Porto Alegre: Porto Alegre, v.9, n 16. p 91-82, maio. 1998.
MEFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.
SONTAG, Susan. Ensaios sobre fotografia. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
SOUZA, Luís Antônio Francisco de; SABATINE, Thiago Teixeira; MAGALHÃES, Bóris
Ribeiro de (org.). Michel Foucault: sexualidade, corpo e direito. Marilia: Cultura Acadêmica,
2011.
WOLF. Naomy. O mito da beleza. Como as imagens de beleza são usadas contra as
mulheres. Tradução de Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.