Aurora é arrancada de seu quarto na véspera do casamento da irmã.
Sem direito a
protestar, é enfiada em um vestido de noiva, obrigada a fingir que é Allegra. No
altar, seus olhos encontram os de Dante, e ela percebe que está presa em uma teia
que pode consumir sua alma.
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O vestido pesava sobre sua pele como uma sentença. Branco, rendado, belo demais
para o inferno que representava.
Aurora tremia, não de frio, mas de medo. As mãos pequenas apertavam o buquê com
força, tentando disfarçar o pânico que martelava em seu peito. As palavras da mãe
ainda ecoavam em sua mente como lâminas afiadas:
— Sua irmã fugiu. E alguém tem que salvar nossa família da ruína. Vista-se. Agora.
Não houve escolha. Nunca houve, na verdade.
Enquanto caminhava em direção às enormes portas da catedral, cercada por seguranças
de preto e olhares julgadores, Aurora sentia-se uma oferenda prestes a ser
devorada. Cada passo era um adeus à sua liberdade, à sua identidade. Aquela não era
sua vida. Não era seu casamento.
Era o de Allegra.
As portas se abriram. A música ecoou pelas colunas de mármore. Os convidados,
rostos desconhecidos e frios, se viraram para vê-la. Ninguém parecia perceber.
Ninguém notava a diferença entre ela e a irmã gêmea.
Mas ele…
Ele notaria.
Dante Moretti estava de pé no altar, imponente em seu terno preto sob medida. Seu
olhar era de gelo e aço. Alto, de presença ameaçadora, era o tipo de homem que não
pedia. Tomava.
Seus olhos encontraram os dela — e por um segundo, Aurora acreditou que ele
soubesse. Que enxergasse a mentira.
Mas ele apenas a observou com intensidade, as sobrancelhas levemente franzidas.
Havia confusão ali. Uma dúvida silenciosa.
Aurora sentiu o estômago revirar.
Quando parou diante dele, o silêncio entre os dois era ensurdecedor. Ele estendeu a
mão. Ela hesitou, mas a entregou, sentindo o toque firme, quente, possessivo.
— Você está estranha — disse ele, baixo, curvando-se em sua direção. — Mudou de
perfume… e de olhos.
Aurora manteve o rosto erguido, tentando conter as lágrimas. Não podia fraquejar.
— Estou nervosa — sussurrou.
Dante apertou sua mão com mais força. Um aviso. Ou um teste.
— Nervosa por se casar comigo? Ou por estar mentindo?
Aurora congelou.
Ele sabia.
Ou talvez apenas suspeitasse. Talvez fosse o tipo de homem que sentia o cheiro do
medo como um predador fareja sangue.
— Allegra… — ele murmurou, encarando-a. — Espero que tenha consciência de quem sou.
E do que espero de uma esposa.
Aurora fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, estavam úmidos, mas
firmes.
— Sei exatamente com quem estou me casando, senhor Moretti.
Ele sorriu, mas não era um sorriso gentil. Era como se dissesse: Veremos.
E então o padre começou a cerimônia.
Aurora, com o coração sangrando, disse "sim" ao homem que poderia ser sua salvação…
ou sua perdição.
Os cristais do salão refletiam a luz em centenas de pontos dourados, como se até o
ar ali estivesse embriagado de luxo e poder. Champanhes tilintavam em taças,
sorrisos forçados cruzavam rostos, e a música clássica tocava em segundo plano,
abafada pelo murmúrio dos convidados.
Aurora sentia-se sufocada dentro do corpete apertado do vestido que Allegra
escolhera. Cada costura parecia querer moldá-la a uma imagem que não lhe pertencia.
Mas mais sufocante ainda era o olhar de Dante. Ele não parava de observá-la. Com
olhos escuros e penetrantes, como se pudesse despí-la com um simples pensamento —
não do vestido, mas da mentira.
Ela sorriu discretamente, desviando o olhar, tentando manter a fachada.
Mas Dante se aproximou, seu corpo colando ao dela com naturalidade possessiva, a
mão grande deslizando para a base de suas costas.
— Você está… diferente — ele murmurou em seu ouvido, voz rouca, carregada de
desconfiança e fascínio.
Aurora estremeceu. Tentou manter a compostura.
— O que quer dizer com isso?
— Não sei… — ele a fitou de cima a baixo, o olhar demorado, como se analisasse uma
peça de arte alterada sem permissão. — Está mais… curvilínea. Mais recatada. Até
seus gestos mudaram. Antes, você atravessava qualquer sala como se o mundo devesse
parar para te ver.
Ele deu um gole em sua bebida, os olhos nunca deixando os dela.
— Agora parece que quer se esconder dentro do próprio vestido.
Aurora sorriu fraco.
— Talvez o casamento me tenha tornado mais… madura.
Dante arqueou uma sobrancelha, descrente.
— Ou talvez algo tenha quebrado você. — Ele inclinou o rosto, com uma proximidade
que fazia o coração dela disparar. — E honestamente, Allegra… não sei se gosto mais
assim ou menos.
Aurora desviou o olhar, procurando por ar.
Os convidados vinham dar parabéns, brindes eram feitos. Dante a mantinha próxima,
seu toque sempre presente — no ombro, na cintura, nos dedos entrelaçados. Mas ele
estava calado demais. Observador demais. Como um leão que pressente que sua presa
não é a que deveria ser.
E então, ao passar por um dos espelhos do salão, ele a deteve. Segurou-a pelo braço
com gentileza, mas firmeza.
— Olhe — ordenou.
Ela obedeceu.
Duas figuras refletidas. Um homem imponente, de presença devastadora. E ao lado
dele, uma mulher de traços delicados, pele clara demais, curvas mais doces do que
sedutoras. Olhos grandes, assustados. Nada ousados. Nada como Allegra.
— O que fizeram com você? — ele murmurou, mais para si do que para ela.
Aurora tentou conter o tremor na voz.
— O que quer dizer?
Ele se virou lentamente para ela, olhos semicerrados.
— Se isso é um jogo, Allegra… cuidado para não perder. Porque eu jogo sujo.
E então ele a beijou. Um beijo que não era carinhoso — era territorial. A boca dele
invadindo a dela com domínio, marcando-a. Selando a mentira.
Aurora sentiu as pernas fraquejarem. O gosto de vinho tinto, da boca dele, do
perigo — tudo se misturava em sua língua. Ela não era Allegra. Não sabia jogar.
Mas estava casada com o Dom Moretti.
O beijo não era apenas um gesto. Era uma sentença.
Dante Moretti a beijava como se estivesse testando sua autenticidade — sua alma,
sua história, sua identidade. A mão grande envolvia sua cintura com domínio,
puxando-a para mais perto, enquanto a outra segurava sua nuca, impedindo qualquer
fuga.
Aurora sentiu o mundo girar.
Era seu primeiro beijo.
E não havia ternura alguma.
Ela não sabia como reagir. Seus lábios estavam rígidos, hesitantes. O coração
disparado martelava em seu peito como um tambor de guerra. O gosto dele era intenso
— vinho tinto, menta e pecado. Era uma mistura perigosa demais para alguém tão
inocente quanto ela.
Dante percebeu.
Seu beijo desacelerou. O domínio deu lugar à análise. Ele afastou o rosto,
encarando-a com olhos escurecidos por mais do que desejo. Havia confusão. Uma
desconfiança fria.
— O que foi isso?
Aurora engoliu em seco. Sua respiração estava descompassada, as bochechas coradas,
as mãos tremendo levemente.
— Eu… não estou me sentindo bem — mentiu, recuando um passo.
Dante não se moveu. Ficou ali, observando-a como se ela tivesse acabado de cometer
um crime diante de todos.
— Desde quando você recusa um beijo meu? — A voz dele era baixa, grave, perigosa.
Aurora abaixou os olhos, sentindo uma lágrima ameaçar. Você não sabe quem eu sou,
ela pensou. Você está beijando a irmã errada.
— Por favor — sussurrou —, preciso de um tempo. Só um pouco de ar.
Dante a analisou por longos segundos. Seus olhos escureceram ainda mais. O maxilar
estava tenso, como se ele estivesse se segurando para não explodir ali mesmo.
— Francesco! — chamou, seco.
Um dos seguranças que estava próximo se aproximou imediatamente.
— Leve minha esposa para o quarto. Agora.
Aurora arregalou os olhos. Ele não a acompanharia?
— Mas eu só…
Dante cortou com um olhar.
— Se você está fingindo, está fazendo mal. E se está doente de verdade, não deveria
estar aqui embaixo. Vá. Antes que eu decida levar você nos braços e te trancar até
lembrar quem você realmente é.
Aurora sentiu o sangue gelar.
Não ousou responder. Apenas assentiu, silenciosa, e seguiu o segurança com passos
apressados, quase correndo pelos corredores opulentos da mansão Moretti.
Ela precisava pensar. Respirar. Esconder-se.
Porque um beijo, um único beijo, havia colocado tudo em risco.
E Dante Moretti, com seus olhos de predador, havia sentido o gosto da verdade: ela
não era Allegra.