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Lui Morais
As gravadoras dominavam a música popular no Brasil na segunda metade do século
XX. Mesmo assim, houve cantores e compositores cujo imenso talento estava não só em
fazer coisas lindas e cheias de provocações pro pensamento, como em conseguir que a
mídia, as gravadores e a censura deixassem aquilo ser gravado e tocar, nessa ordem,
pior que a censura, as gravadoras, pior ainda, a mídia. Vivemos numa época de jogo de
braço entre a possibilidade de uma mídia democratizada e a recrudescência
megalomaníaca e totalizante das mídias e gravadoras. De um lado, milhares de novos
artistas geniais gravando em casa e colocando na internet. De outro lado, as tvs e rádios
com sua imposição monótona de coisas bem rasinhas, tratando até no jornalismo a
população como criança. Sempre houve coisas fracas, no sentido de tolas e simplórias,
no século XX era o que vendia mais, muito mais que geniais compositores e
performáticos cantores. A questão é que havia espaço pra talento. Agora só há espaço
pra ta – lento. Quanto mais lento melhor. Sim, foram as classes populares se tornando
público consumir, e isso é sensacional, é tudo de bom. Mas negar a essas mesmas
classes sequer um pouco de contato com outros tipos de música é APARTHEID
CULTURAL. Vai ser se os donos das mídias e gravadoras negam aos seus filhos o
conhecimento de toda a riqueza musical que vigora no Brasil e no mundo, apesar deles
mesmos. Eu não consigo sentir prazer ou sequer cultivar a paciência pra ficar ouvindo
toda uma canção da Anitta, é muito tolinho. Mas eu a trouxe na minha escola, e a
homenageei como ex-aluna talento e de sucesso. Inteligente ela é, existem vários tipos
de inteligência, e é bom que aquilo que ela traz circule, já que faz bem pra tanta gente.
Mas essa ditadura de “the voice” e outras porcarias assim no país está barrando a
entrada ou a saída de coisas lindas, com muito conteúdo, nem todo mundo quer “descer
até o chão”. Na verdade, todo mundo quer crescer, e aparecer.