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Legislação e Direito Esportivo: Guia Completo

O documento aborda a Legislação e Direito Esportivo, oferecendo uma compreensão abrangente das questões legais no esporte, estruturado em três capítulos: Introdução ao Direito Desportivo, Direito Nacional e Internacional Privado do Esporte, e Desporto e Justiça. A obra explora a evolução histórica do Direito Desportivo, a Lei Pelé, o Estatuto do Torcedor, e as interseções entre o esporte e a justiça, incluindo aspectos trabalhistas e contratuais. O objetivo é capacitar os alunos a analisar criticamente as leis que regem o esporte e a aplicar esse conhecimento de forma ética e informada.

Enviado por

Joel Marques
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Legislação e Direito Esportivo: Guia Completo

O documento aborda a Legislação e Direito Esportivo, oferecendo uma compreensão abrangente das questões legais no esporte, estruturado em três capítulos: Introdução ao Direito Desportivo, Direito Nacional e Internacional Privado do Esporte, e Desporto e Justiça. A obra explora a evolução histórica do Direito Desportivo, a Lei Pelé, o Estatuto do Torcedor, e as interseções entre o esporte e a justiça, incluindo aspectos trabalhistas e contratuais. O objetivo é capacitar os alunos a analisar criticamente as leis que regem o esporte e a aplicar esse conhecimento de forma ética e informada.

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Legislação e Direito

Esportivo

Autoria: Maria Carolina Cavalcante de Oliveira

2ª Edição
EXPEDIENTE EDITORIAL

Reitor:
Janes Fidelis Tomelin

Diretor Pós-Graduação:
Tiago Lorenzo Stachon

Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD:


Tiago Lorenzo Stachon
Ilana Gunilda Gerber Cavichioli
Norberto Siegel
Julia dos Santos
Ariana Monique Dalri
Jairo Martins
Marcio Kisner
Marcelo Bucci

Revisão Gramatical:
Núcleo de educação a Distância

Diagramação e Capa:
Núcleo de educação a Distância

FICHA CATALOGRÁFICA

V848

Oliveira, Maria Carolina Cavalcante de

Legislação e Direito Esportivo. / Maria Carolina Cavalcante de


Oliveira — Florianópolis, SC: Arqué, 2024.
140 p.

ISBN Digital XXX-XX-XXXX-XXX-X


1. Legislação 2. Direito 3. Desportivo 4. Esportes

CDD 340
SUMÁRIO

Capítulo 1.............................6
Introdução ao Direito Desportivo

Capítulo 2............................49
Direito Nacional e Internacional Privado do Esporte

Capítulo 3............................96
Desporto e Justiça
APRESENTAÇÃO

A disciplina de Legislação e Direito Esportivo visa proporcionar ao aluno


uma compreensão abrangente e aprofundada das questões legais que per-
meiam o universo do esporte. Nossa disciplina será estruturada em três capí-
tulos, abordando temas fundamentais para uma análise crítica e contextua-
lizada das relações jurídicas no âmbito esportivo. É fundamental a análise de
cada inovação jurídica feita no Brasil para compreendermos sua importância.

Iniciaremos com o Capítulo 1, intitulado “Introdução ao Direito Desportivo”.


Esse capítulo serve como alicerce para a compreensão do Direito Desportivo,
tanto de suas bases históricas como de sua legislação mutante. Dessa forma,
em nossa seção 1, é oferecida uma visão panorâmica sobre a disciplina, desta-
cando sua relevância e papel na regulação das atividades esportivas. Trazendo
fatos históricos, o nascimento deste direito tão importante e a evolução de
vários esportes. Na seção 2, o foco recai sobre a “Lei Pelé” e suas implicações,
explorando os aspectos legais que regem as relações no contexto esportivo
brasileiro. A seção 3 dedica-se ao Estatuto do Torcedor, analisando os direitos
e deveres dos torcedores e as implicações legais relacionadas.

Enquanto isso, no Capítulo 2, iremos abordar o Direito Nacional e


Internacional Privado do Esporte. Este segundo capítulo concentra-se nas
dimensões nacional e internacional do Direito Desportivo, sendo importan-
te destacar que o direito internacional exerce grande influência em nossa
legislação pátria. Na seção 1, serão abordados o regime jurídico das enti-
dades de administração e de prática desportiva no Brasil, destacando suas
atribuições e responsabilidades legais. A seção 2 explora a estrutura de re-
solução de conflitos desportivos no âmbito internacional, tanto das entida-
des privadas quanto da administração, proporcionando uma compreensão
das instâncias e mecanismos disponíveis. Enquanto a seção 3 dedica-se a
analisar as principais diferenças entre as normas da FIFA e da CBF, desta-
cando os impactos dessas entidades nas relações esportivas de futebol.

Por fim, no Capítulo 3, trataremos de Desporto e Justiça. Este tercei-


ro capítulo explora as interseções entre o esporte e a justiça. Na seção 1,
será abordado o Direito Penal Desportivo, examinando as questões legais
relacionadas a comportamentos ilícitos no contexto esportivo. Na seção 2,
o foco recai sobre o Direito Trabalhista Desportivo, analisando as relações
laborais no universo esportivo. A seção 3 trata dos Contratos Desportivos e
suas implicações legais, explorando as nuances contratuais específicas do
mundo esportivo, principalmente a relação entre o atleta e seus clubes.

Ao longo de nossa disciplina, não apenas apresentaremos uma exposi-


ção teórica dos temas, mas também casos práticos, jurisprudências relevan-
tes e análises críticas que estimularão a reflexão sobre as complexidades ju-
rídicas presentes no Direito Desportivo. O objetivo é proporcionar uma base
sólida para que você possa compreender e atuar no campo jurídico-esportivo
de maneira informada e ética, estabelecendo uma conexão entre o que você
vivencia na vida real e o conteúdo aqui apresentado. Desde o fair play espor-
tivo até formas possíveis de rescisão contratual entre atletas e seus times, ou
mesmo questões relacionadas a bolsas olímpicas para atletas de alto nível.

Por fim, reforçaremos o conteúdo por meio de atividades, um banco


de questões, conteúdos extras e vídeos. Nossa missão é alcançar uma com-
preensão do conteúdo suficiente para que você seja capaz de analisar con-
tratos e decisões, elaborar contratos e tomar decisões de forma consciente
e embasada. Desejamos a você um ótimo estudo e aprendizado, e que o
conhecimento adquirido seja sempre útil em sua jornada!
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO AO DIREITO
DESPORTIVO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes
objetivos de aprendizagem:

• Compreender a evolução jurídica do esporte;

• Analisar conceitos básicos trazidos pela Lei Pelé;

• Compreender de forma introdutória o Estatuto do Torcedor;

• Compreender e ter uma primeira noção de diferença entre o regime


da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e Lei Pelé;

• Analisar as peculiaridades da Lei Pelé e Estatuto do Torcedor;

• Avaliar as proteções jurídicas e dos deveres tanto para os esportis-


tas quanto para seus torcedores.

6
CONTEXTUALIZAÇÃO

O Direito Desportivo, em constante evolução, desempenha um


papel fundamental na regulamentação das atividades esportivas.
Por isso, em nossa primeira seção, iremos aprofundar o estudo para
a compreensão desta evolução jurídica tão importante para o de-
senvolvimento do esporte como um todo. Exploraremos os marcos
históricos que moldaram essa área específica do direito. Com a in-
trodução feita relativa a esse tema, espera-se que seja possível es-
tabelecer uma base sólida para os demais desafios desta disciplina.

A partir da segunda seção, intitulada “Lei Pelé e suas implica-


ções”, serão analisados os conceitos básicos trazidos pela Lei Pelé.
Realizaremos uma investigação aprofundada das peculiaridades
desta legislação. A compreensão das diferenças entre a Consolidação
das Leis do Trabalho (CLT) e a Lei Pelé será fundamental para es-
clarecer os regimes jurídicos que regem as relações trabalhistas no
âmbito esportivo. Destacamos como a Lei Pelé trouxe inovações e
ajustes específicos para a realidade do esporte, impactando a vida de
atletas, clubes e demais envolvidos, principalmente no que se refere
à proteção dos direitos dos atletas, especialmente os trabalhistas.

Enquanto em nossa terceira seção, denominada “Estatuto do


Torcedor”, fornecerá uma introdução ao Estatuto do Torcedor, exa-
minando suas disposições e como ele busca garantir a segurança e
a experiência positiva dos torcedores durante eventos esportivos.
Analisaremos os deveres e direitos estabelecidos para os torcedo-
res, bem como a contribuição do estatuto para a preservação da
ordem nos estádios, tanto de maneira prática, como a quantidade
de ambulâncias em relação ao número de torcedores, quanto de
posicionamento em lutas contra o racismo, machismo e homofobia.

7
Capítulo 1

Com esse encerramento, estaremos prontos para avançar para


o próximo capítulo e também em nosso estudo. A partir desses co-
nhecimentos, será possível que você, aluno, compreenda como o di-
reito esportivo evoluiu, analise conceitos essenciais da Lei Pelé, tenha
uma introdução ao Estatuto do Torcedor e comece a compreender a
diferença entre CLT e Lei Pelé. Além disso, analise as particularidades
da Lei Pelé e do Estatuto do Torcedor, avaliando as proteções legais e
os deveres tanto dos esportistas quanto dos torcedores.

Após todo esse conhecimento, espera-se que, ao final deste capí-


tulo, você não apenas adquira conhecimentos sólidos sobre o Direito
Desportivo, mas também desenvolva a capacidade de aplicar esses
conhecimentos na análise crítica das leis que regem o mundo esporti-
vo, identificando as implicações práticas e as responsabilidades legais
de cada parte envolvida. Dessa forma, você estará seguro e apto para
debater essas legislações em seu ambiente de trabalho ou estudo.

8
1
1. INTRODUÇÃO AO DIREITO
DESPORTIVO

Para compreender o Direito Desportivo e alcançar sua aplicação práti-


ca, é crucial entender a história que deu origem às estruturas e entidades
internacionais, bem como suas peculiaridades e aplicabilidade. Ao conside-
rarmos a sociedade atual e seu desenvolvimento, é impossível ignorar o pa-
pel do esporte no cenário global. A atividade física e a prática esportiva têm
sido parte integrante da história humana desde os tempos mais remotos.
Quando pensamos, por exemplo, na Grécia Antiga, o berço da civilização,
logo nos vem à mente os esportes olímpicos, que continuam sendo o ápice
da prática esportiva até os dias de hoje.

A seguir, exploraremos as estruturas históricas e o desenvolvimento


do direito que as envolve.

1.1 DIREITO DESPORTIVO E A HISTÓRIA


O esporte, mesmo antes dos Jogos Olímpicos da Era moderna, já era
praticado com um alto nível de profissionalismo. Desde 776 a.C., os Jogos
Olímpicos da Antiguidade eram disputados no Santuário de Olímpia, na
Grécia, e eram regidos por regras e normas de competição. Esses Jogos eram
realizados a cada quatro anos e durante o período de competições, uma tré-
gua era estabelecida entre todos os participantes para viabilizar as disputas
esportivas. Uma distinção significativa era que, naquela época, as modalida-
des eram disputadas exclusivamente de forma individual, não havendo com-
petições coletivas, e somente homens podiam participar (Fachada, 2023).

As primeiras regras não se assemelhavam às características atuais do


desporto, mas representavam um início significativo. Os esportes pratica-
dos naquela época, como o Atletismo (com corridas, saltos, lançamentos e
o pentatlo), o Boxe (com Pugilato e Pancrácio), a Luta (representada pela

9
Capítulo 1

Luta greco-romana) e o Hipismo (com provas equestres), são claramente re-


conhecíveis como predecessores das modalidades contemporâneas. Além
disso, a presença do direito era inconfundível, tanto na forma de competir
quanto na obrigação de cumprir as regras nas instâncias competentes. As
punições podiam assumir quatro tipos: econômicas, políticas, desportivas
(como a desclassificação) e corporais (Fachada, 2023).

Embora a Grécia não fosse o único local onde se praticavam esportes


com regras e costumes, a semelhança e o legado deixados por essa civili-
zação são inegáveis para o trabalho desenvolvido por nossa disciplina. O
início da história dos jogos organizados representa um ponto fundamental
em nossa jornada de aprendizado (Fachada, 2023).

Figura 1. Esportes na Grécia Antiga

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: a ilustração retrata um homem segurando uma lança em posição imponente.
Ao fundo, objetos que representam a Grécia Antiga.

10
Capítulo 1

Durante o desenvolvimento industrial, por volta do século XVIII, na Grã-


Bretanha, o esporte começou a se configurar com as regras que conhecemos
hoje. Com a Revolução Industrial, o crescimento da produção em larga escala
e as extensas jornadas de trabalho criaram necessidades que ultrapassavam
o aspecto puramente econômico. As rotinas de trabalho árduo frequente-
mente resultavam em uma queda significativa na qualidade de vida dos tra-
balhadores, devido à repetição das tarefas e à propensão ao sedentarismo.
Foi então que surgiu a necessidade de promover atividades físicas para essa
população. Conforme Miranda (2016), a prática esportiva foi reconhecida
como um “excelente tônico restaurador das energias físicas e mentais”.

Nesse período da história, a atividade física desempenhava um papel


sócio-cultural com ênfase na preservação da saúde, em detrimento da com-
petição por resultados. Os esportes tornaram-se populares e eram pratica-
dos em bosques, praças, fábricas, entre outros lugares. Para a burguesia,
em especial, as atividades nos bosques incluíam tiro e disputas de caça,
práticas muito comuns naquela época.

De acordo com Fachada (2023), os primeiros registros de associações


esportivas datam do século XVIII, com o “Jockey Club” (1750). Esta associa-
ção foi criada com o objetivo de autorregular o clube de golfe San Andrés,
na Escócia. A partir desse movimento, diversas outras associações surgiram
na Grã-Bretanha entre 1860 e 1900, incluindo a Football Association (1863),
a Bycyclist’s Union (1878) e a Amateur Boxing Association (1884). Os avan-
ços no esporte na Inglaterra no século XIX contribuíram para disseminar o
esporte moderno por todo o mundo, não se restringindo às suas colônias.
Na França, por exemplo, equipes como o Havre Athletic Club, fundado em
1872, e o Athletic Bilbao, em 1898, são exemplos desse fenômeno.

11
Capítulo 1

Figura 2. Corrida de cavalos

Fonte: Wikipédia (2024).


#ParaTodosVerem: imagem de uma corrida de cavalos. São 4 cavalos, todos da cor marrom e va-
riando em tons mais claros e mais escuros. O chão é de grama verde e, ao fundo, um morro com
bastante vegetação e embaixo algumas casas.

A profissionalização e o aprimoramento do esporte geraram a neces-


sidade de competições em níveis mais amplos, inclusive entre nações, ul-
trapassando os limites territoriais. Nesse contexto, surgiu a urgência de um
organismo com alcance e representatividade internacional, sendo o ponto
de equilíbrio entre todos os Estados participantes. Essa entidade deveria
possuir legitimidade para unir os países em diretrizes nas quais o esporte
seria praticado (Fachada, 2023).

Dica de Leitura
O artigo Entre o amadorismo, a profissionalização e a carreira dupla:
o futsal feminino de elite sul-americano (2020), de Mariana Zuaneti
Martins e outros, aborda a discussão sobre os impactos gerados
pela profissionalização do esporte na América do Sul e pode ajudar
a compreender essa questão de modo mais aprofundado.

Porém, a pergunta que talvez mais nos intriga é: quando começaram as


organizações que conhecemos hoje? Com o sucesso das associações, difun-
diu-se a aplicação de um modelo de organização de forma internacional. A

12
Capítulo 1

criação mais significativa foi o Comitê Olímpico Internacional (COI), estabe-


lecido em 23 de junho de 1894. O COI foi concebido por Pierre de Coubertin,
que resgatou os Jogos Olímpicos e os trouxe para a Era Moderna, realizan-
do-os em 1896. Naquele evento, participaram 14 países, com um total de
241 homens. As mulheres ainda eram proibidas de praticar esportes. A
partir da organização desse evento, o esporte deixou de ser apenas um
passatempo para combater o sedentarismo, tornando-se uma construção
esportiva que promovia disputas entre países e a busca, pela primeira vez,
por um alto padrão de eficiência esportiva (Fachada, 2023).

O primeiro evento ocorreu em Atenas, na Grécia, com um novo forma-


to. A partir da primeira edição, as próximas sempre aconteceriam a cada 4
anos, com cada edição tendo como sede um país diferente. É interessante
notar que o início não foi tão glorioso, pois durante o século XX, em suas
primeiras décadas, o esporte estava em segundo plano no grande cenário
de disputas e conflitos causados pelas duas Grandes Guerras Mundiais. A
instabilidade política afetava fortemente o desenvolvimento da prática es-
portiva, já que as maiores preocupações eram a proteção de territórios e as
disputas de poder (Fachada, 2023).

Dica de Leitura
Um ótimo livro para aprofundar seus conhecimentos sobre o des-
porto é História dos esportes, de Orlando Duarte Figueiredo. O li-
vro, promovido para o Senac, conta de maneira dinâmica e prática
os acontecimentos nos esportes mundiais.

Em seguida, em 21 de maio de 1904, em Paris, foi fundada a Federação


Internacional de Futebol Associação, cuja sigla FIFA. Seguindo algumas pre-
missas do COI, como eventos mundiais que acontecem a cada 4 anos e
com sedes diferentes em cada um. Atualmente, a FIFA possui 211 organiza-
ções desportivas associadas. Sendo ultrapassada apenas pela Associação
Internacional de Federações de Atletismo (IAAF), fundada em 17 de julho de
1912 para gerir o atletismo mundial, que conta com 214 Países-Membros.

13
Capítulo 1

Figura 3. Logotipo da FIFA

Fonte: Wikimedia Commons (2010).


#ParaTodosVerem: imagem com o logotipo da FIFA com fundo branco, letras em azul e abaixo a
escrita “Pelo jogo. Pelo mundo”, em inglês.

As organizações desportivas, tanto em níveis nacionais como interna-


cionais, são peças centrais para que o sistema desportivo possa funcionar
de forma contínua e segura. O desporto abrange hoje papel central em
questões sócio-culturais, saúde e, principalmente, a economia, com investi-
mentos cada vez mais altos.

1.1.1 Desporto no Brasil


Os primeiros registros de legislação e normatização do esporte no
Brasil ocorreram durante o Brasil Império. Os esportes eram, naquele
momento, praticados com maior intensidade pelas escolas militares. A pri-
meira norma foi o Decreto nº 2.116/1858 (Brasil, 1858), que contemplava a
esgrima e a natação nos cursos de infantaria e cavalaria da escola militar.
Com o avanço do esporte em outros países, foram editados os Decretos nº
3.705/1866 (Brasil), 4.720/1871 (Brasil), 5.529/1874 (Brasil) e o 1.202/1889
(Brasil), acrescentando novas modalidades, como ginástica na Escola Militar
e também na escola da marinha.

Com o primeiro clube de futebol brasileiro, fundado pelo inglês Charles


Miller, chamado São Paulo Athletic Club, no final do século XIX. Em 1899,
foi fundado o S.C. Internacional, no sul do país. Já no estado do Rio de
Janeiro, foi criado em 1902 o Fluminense, e em 1911 o Clube de Regatas do
Flamengo. Em São Paulo, outros grandes clubes foram criados nessa época,
o Corinthians em 1910, o Santos em 1912 e o Palmeiras em 1914. Sendo
os pioneiros, esses clubes continuam no alto escalão do futebol sul-ame-
ricano. A primeira organização do campeonato de futebol brasileiro foi em
1902, com apenas duas equipes, sendo vencido pelo Paulistano.

14
Capítulo 1

Figura 4. Bola de futebol antiga

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: imagem de uma bola de futebol antiga em retalhos. Em segundo plano, um
solo seco com rachaduras.

A regulamentação do desporto no Brasil, fora do mundo militar, ocorreu


no ano de 1941, com o Decreto-Lei nº 3.199 (Brasil), promulgado em 14 de
abril pelo Presidente Getúlio Vargas. O objetivo desse decreto era reconhecer
a prática do desporto na forma profissional. A movimentação do então presi-
dente seguiu a tendência mundial. Em 1936, durante os jogos, Adolf Hitler fez
propaganda de seu governo por meio de resultados expressivos nas compe-
tições. A intervenção do Estado, por meio do Conselho Nacional do Desporto,
estava expressa no referido Decreto-Lei, conforme o art. 3º:


Art. 3º Compete precipuamente ao Conselho Nacional de Desportos: a) estu-
dar e promover medidas que tenham por objetivo assegurar uma convenien-
te e constante disciplina à organização e à administração das associações e
demais entidades desportivas do país, bem como tornar os desportos, cada
vez mais, um eficiente processo de educação física e espiritual da juventude
e uma alta expressão da cultura e da energia nacionais [...] (Brasil, 1941).

A criação da Justiça Desportiva do Brasil é um marco importante, pois o órgão


foi criado para ser o responsável por analisar e julgar as questões envolven-
do o desporto, conforme previsto no art. 43 do Decreto Lei n.º 3.199/41.

15
Capítulo 1

Dessa forma, cada entidade teria como objetivo seguir e adotar as re-
gras esportivas de sua modalidade junto ao órgão internacional ao qual
estivesse filiada. Logo após, em 1942, o Conselho Nacional do Desporto
publicou a Resolução, dessa vez, estabelecendo que as federações de cada
esporte poderiam criar seus próprios códigos de disciplina, comportamen-
to e até mesmo, em alguns casos, penalidades.

Figura 5. Símbolo antigo do Conselho Nacional do Desporto

Fonte: Wikimedia Commons (2023).


#ParaTodosVerem: logotipo do Conselho Nacional de Desportos, um brasão com fundo em azul
com letras e contornos brancos. No meio, duas faixas, uma verde e uma amarela. No fundo azul,
5 estrelas brancas espalhadas pela imagem.

O Decreto-Lei n.º 5342/1943 conferiu ao Conselho Nacional de Desporto


mais uma competência, que era aplicar as regras e, quando necessário, pe-
nalidades a todos os envolvidos diretamente no desporto, incluindo clubes,
federações, confederações e também os atletas profissionais participantes.
Até esse momento, a Justiça Desportiva era competente para julgar tanto
questões relacionadas a esses assuntos quanto questões trabalhistas dos
atletas, conforme garantido pelo art. 65.

A Lei n.º 6.354/76 regulamenta as relações de trabalho do atleta pro-


fissional de futebol e demonstra dois fatores importantes da época: I - o
futebol era o desporto mais desenvolvido e importante naquele contexto;
II - coloca a Justiça Desportiva como uma fonte de visão mais administrativa,
conforme é possível observar no art. 29:

16
Capítulo 1


Art . 29 - Somente serão admitidas reclamações à Justiça do Trabalho de-
pois de esgotadas as instâncias da Justiça Desportiva, a que se refere o item
III do artigo 42 da Lei número 6.251, de 8 de outubro de 1975, que proferirá
decisão final no prazo máximo de 60 (sessenta) dias contados da instaura-
ção do processo. Parágrafo único. O ajuizamento da reclamação trabalhis-
ta, após o prazo a que se refere este artigo, tornará preclusa a instância
disciplinar desportiva, no que se refere ao litígio trabalhista (Brasil, 1976).

A competência para julgamentos de cunho trabalhista foi alterada pela


Constituição Federal, conhecida como constituição cidadã. Anteriormente,
a Justiça Desportiva tinha a possibilidade de julgar questões trabalhistas.
Com o advento do art. 217 da Constituição de 1988, a Justiça Desportiva foi
retirada da tomada de decisão em qualquer assunto que não envolvesse
questões desportivas, regras e regulamentos.


Art. 217. É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não-
-formais, como direito de cada um, observados:
I - a autonomia das entidades desportivas, dirigentes e associações, quanto
a sua organização e funcionamento;
II - a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto
educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto rendimento;
III - o tratamento diferenciado para o desporto profissional e o não profissional;
IV - a proteção e o incentivo às manifestações desportivas de criação nacional.
§ 1º O Poder Judiciário só admitirá ações relativas à disciplina e às compe-
tições desportivas após esgotarem-se as instâncias da justiça desportiva,
regulada em lei (Brasil, 1988).

Analisando o artigo acima, podemos observar a preocupação em assegu-


rar a independência e autonomia das entidades desportivas. Esse movimento
representou uma grande mudança de estrutura em comparação ao que estu-
damos até aqui. Até então, prevalecia uma centralização estatal do desporto.
No entanto, organizações esportivas internacionais (um tema que estudaremos
nas próximas unidades) fizeram esforços para conceder maior importância à
autonomia de seus afiliados, em detrimento das legislações estatais.

Pelo poder constituinte, ficou claro que o Estado iria investir e desenvol-
ver outras modalidades desportivas, não apenas em níveis amadores, mas
também aqueles de alto rendimento praticados por atletas profissionais.
Dois anos após, pela Lei n.º 8.028/90, esse intento tomou forma. Normas
gerais necessárias sobre o processo e julgamento das questões que envol-
viam a disciplina e as regras das competições desportivas foram criadas
para que a Justiça Desportiva pudesse funcionar de forma plena.

17
Capítulo 1

Figura 6. Atletismo de alto rendimento

Fonte: [Link] (2016).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra seis pessoas correndo, sendo 5 homens e uma mulher.
Todos têm números na frente de suas roupas. A foto aparenta ser antiga e está em preto e branco.

O legislador, com o intuito de continuar a criação de um sistema for-


te, unificado e que promovesse as modalidades esportivas, criou a Lei n.º
8.672/93 (Brasil), também conhecida como Lei Zico, na mesma década de
1990, apenas cinco anos após a sua edição. No entanto, por necessidade,
outra lei viria a liderar o desporto no Brasil: a Lei n.º 9.615, promulgada em
24 de março de 1998, conhecida como a Lei Pelé, que será tema na nossa
próxima subseção.

O Código Brasileiro de Justiça Desportiva, editado pela primeira vez em


2003, é o ordenamento jurídico que regula toda a organização, funciona-
mento e atribuições da Justiça Desportiva brasileira, bem como o processo
desportivo, incluindo as questões disciplinares desportivas e suas respec-
tivas sanções. Foi revisado no ano de 2010 pela Lei n.º 12.299, promulgada
em 27 de julho de 2010, trazendo as torcidas organizadas para a discussão.

18
2
2. LEI PELÉ E SUAS IMPLICAÇÕES

O Brasil continuou a se desenvolver intensamente no esporte, com


muito foco no futebol. Desta forma, tornou-se a principal potência do fute-
bol masculino mundial a partir da década de 1950, quando a seleção brasi-
leira conquistou seus primeiros títulos internacionais. Em 1958, na Suécia,
o Brasil venceu a Copa do Mundo, bem como as Copas do Mundo de 1962,
no Chile; de 1970, no México; de 1994, nos Estados Unidos; e de 2002, no
Japão e na Coreia do Sul.

Figura 7. Pelé durante a copa de 1970

Fonte: Wikimedia Commons (1970).


#ParaTodosVerem: fotografia de Pelé jovem, com camisa da seleção brasileira amarela e logo
da CBF no meio. Gola verde. Céu azul e atrás um estádio com muitas pessoas o vendo. Ele está
sorrindo e olhando para o alto.

19
Capítulo 1

A evolução rápida e eficaz do futebol masculino tornou esse esporte


com a maior relevância no cenário brasileiro, gerando a necessidade da
criação da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), visando aprimorar o
calendário do futebol brasileiro, em 1980. Entretanto, em termos legislati-
vos e financeiros, ainda ficava atrás do futebol europeu. A busca por esse
avanço gerou a lei popularmente conhecida como Lei Zico, Lei n.º 8.672. A
necessidade de maiores normas e regimentos para os empresários, conhe-
cidos como cartolas, e também da possibilidade do clube se tornar uma
empresa com fins lucrativos. O art. 11 capta muito bem o objetivo:


Art. 11. É facultado às entidades de prática e às entidades federais de admi-
nistração de modalidade profissional, manter a gestão de suas atividades
sob a responsabilidade de sociedade com fins lucrativos, desde que adota-
da uma das seguintes formas:
I- transformar-se em sociedade comercial com finalidade desportiva;
II - constituir sociedade comercial com finalidade desportiva, controlando a
maioria de seu capital com direito a voto;
III - contratar sociedade comercial para gerir suas atividades desportivas
(Brasil, 1993).

Grandes pontos da Lei Zico são: estímulo ao esporte de base, com a


criação de escolas de futebol, e formação de jovens jogadores, penalidade
da manipulação de resultados, normas que combatem a manipulação de
resultados no futebol, punindo os envolvidos com multas e até mesmo com
a exclusão dos clubes de competições esportivas e por fim a criação do pas-
se livre que permitia que o jogador tivesse seu passe livre, após a finalização
de seu contrato com um clube.

Figura 8. Zico

Fonte: Wikimedia Commons (1982).


#ParaTodosVerem: fotografia do atleta Zico, que está em primeiro plano. Ele veste uma blusa
amarela com detalhes em verde e exibe o símbolo da CBF do lado direito em seu peito.

20
Capítulo 1

Apesar dos avanços, a Lei Zico tem alguns flancos que, para a época,
foram desastrosos. O maior exemplo foi a regularização dos jogos de bingo,
previsto no extinto art. 57, que versava que as entidades de direção e de prá-
tica desportiva filiadas a alguma entidade de administração em, no mínimo,
três modalidades olímpicas, e que comprovasse a atividade e a participação
em competições oficiais organizadas pela mesma, promovendo reuniões des-
tinadas a angariar recursos para o fomento do desporto, mediante sorteios
de modalidade denominada Bingo, ou similar. Foi em razão de anomalias
tão estranhas e brechas para outros desportos que surgiram expectativas
de nova legislação que pudesse suprir as lacunas deixadas. Para alcançar um
nível maior e melhor de excelência, houve debate nacional, baseado nas crí-
ticas e sugestões, permeando todas as modalidades desportivas. E mesmo
com 20 anos de história, a Lei Zico criou importantes marcos para o desporto,
mas não foi eficaz em seu controle. Nesse ritmo, a Lei Pelé n.º 9.615/1998
(Brasil) chegou para preencher os vácuos remanescentes.

Em seu 1º artigo, já nos é indicado que o desporto para o Brasil é a prá-


tica esportiva de forma formal ou não-formal. Ainda dita que os praticantes
das duas formas devem obedecer às normas nacionais e internacionais
e pelas regras de prática desportiva de cada modalidade, que devem ser
aceitas pelas respectivas entidades nacionais administradoras do desporto.
Entretanto, aqueles atletas não profissionais podem realizar os esportes
livremente com liberdade lúdica para tanto, sem se ater às regras de prática
(Brasil, 1998). Importante notar que há, no parágrafo terceiro ainda de seu
art. 1º, clara menção que há de orientar o esporte no Brasil, considerando
os tratados e acordos internacionais firmados pela República Federativa do
Brasil. Abrindo espaço para entidades como a FIFA e similares de terem
seus próprios regimentos, como, por exemplo, em transações financeiras
internacionais de jogadores.

Seguindo a própria Constituição Federal, a lei coloca o direito ao espor-


te como um direito individual, baseando-se em princípios constitucionais,
em seu art. 2º: soberania, autonomia, democratização, liberdade, direito
social, diferenciação, identidade nacional, educação, qualidade, descentra-
lização, segurança e eficiência. O legislador colocou o dever de observância
de princípios para exploração e a gestão do desporto profissional, quando
este tiver fim econômico. Entre eles estão: da transparência financeira e
administrativa; da moralidade na gestão desportiva; da responsabilidade
social de seus dirigentes; do tratamento diferenciado em relação ao des-
porto não profissional; e da participação na organização desportiva do país.
(Brasil, 1998) Ainda no ritmo de demarcação foi considerado desporto para
lei conforme observado no Quadro 1, adaptada do art. 3º da Lei Pelé:

21
Capítulo 1

Quadro 1. Modalidades de desporto no Brasil

TIPO DE DESPORTO O QUE É?

Quando praticado no seio do sistema


de ensino e em formas assistemáti-
cas de educação, evitando-se a sele-
tividade e a hipercompetitividade de
Desporto Educacional
seus praticantes para alcançar o de-
senvolvimento integral do indivíduo
e a sua formação para o exercício da
cidadania e a prática do lazer.

Modalidade voluntária de práticas


desportivas para contribuir para a in-
tegração dos praticantes na plenitude
Desporto de Participação
da vida social, na promoção da saúde
e educação e na preservação do meio
ambiente.

Praticado com a finalidade de obter


resultados e integrar pessoas e co-
Desporto de Rendimento
munidades do país e do país com ou-
tras nações.

Fomento e aquisição inicial dos co-


nhecimentos desportivos que garan-
tam competência técnica na interven-
ção desportiva visando promover o
Desporto de Formação
aperfeiçoamento qualitativo e quan-
titativo da prática desportiva em ter-
mos recreativos, competitivos ou de
alta competição.

Fonte: Adaptado do art. 3º da Lei 9.615/1998 (Brasil, 1998).

A legislação garante grandes diferenças entre o desporto organizado


e praticado de modo profissional ou não profissional. Entre as principais
diferenças estão a prática pelas normas e remuneração pactuada em con-
trato formal de trabalho entre o atleta e a entidade de prática desportiva,
se tratando da prática formal, enquanto o não profissional rege a liberdade
em sua prática, a falta de contrato formal de trabalho, porém permitindo
incentivos materiais e de patrocínio.

22
Capítulo 1

Importante notarmos que para ser considerado um Desporto de


Formação é necessário à entidade viabilizar a prática desportiva fornecen-
do aos atletas programas de treinamento nas categorias de base e comple-
mentação educacional. A lei estabelece alguns requisitos. Entre eles estão: o
atleta em formação deve estar inscrito por ela na respectiva entidade regio-
nal de administração do desporto há, pelo menos, 1 ano, comprovando que
estará inscrito em competições oficiais, garantir assistência educacional,
psicológica, médica e odontológica, bem como ter alimentação, transporte
e convivência familiar, mantendo alojamento e instalações desportivas ade-
quados, sobretudo em matéria de alimentação, higiene, segurança e salu-
bridade, e manter um corpo de profissionais especializados em formação
técnico desportiva. A formação não deve ultrapassar 4 horas por dia, para
não afetar a educação do atleta. (Brasil, 1998)

Importante entendermos que o nosso sistema brasileiro de desporto: o


Ministério do Esporte, o Conselho Nacional do Esporte (CNE) e sistemas de des-
porto dos estados (incluindo o Distrito Federal) e municípios devem agir em
colaboração e harmonia. O objetivo principal de todos esses níveis de prática
desportiva é melhorar o padrão de qualidade, bem como considerar o desporto
como patrimônio cultural brasileiro e é considerado de elevado interesse social.

A grande abertura dada pela legislação é a possibilidade, no § 3º do


art. 4º da Lei Pelé, de ser incluído no sistema brasileiro de desporto pessoas
jurídicas que desenvolvam práticas não formais, proporcionem a cultura e
as ciências do desporto e formem e aprimorem especialistas, integrando
melhorias a toda sociedade.

Por meio das alterações da Lei n.º 12.395, de 2011, foi garantido que o
Ministério do Esporte seguisse o Plano Nacional de Desporto na distribuição
de suas verbas. O CNE é o órgão responsável por propor o Plano Nacional do
Desporto, decenal. Interessante é a manutenção da loteria, conforme previa a
Lei Zico, como fonte de recurso, porém sendo a única. A destinação dos recursos
ao desporto educacional, desporto de rendimento, desporto de criação nacio-
nal, além da capacitação de recursos humanos (considerando para esse fim os
cientistas desportivos, professores de educação física e técnicos de desporto).

Para nossa compreensão das estruturas que a Lei Pelé trouxe, foi atri-
buída ao Conselho Nacional do Esporte a normatização, deliberação e asses-
soramento, diretamente vinculado ao Ministro de Estado do Esporte. Os 22
membros eleitos serão indicados pelo Ministro do Esporte, que o presidirá,
pelo prazo de 02 anos. Tendo o CNE como obrigação seguir os princípios e
preceitos já indicados no art. 2º. Além disso, deverá oferecer subsídios técni-
cos à elaboração do Plano Nacional do Desporto, bem como emitir pareceres

23
Capítulo 1

e recomendações sobre questões desportivas nacionais e propor prioridades


para o plano de aplicação de recursos do Ministério do Esporte.

Cabe ainda ao CNE aprovar os Códigos de Justiça Desportiva e suas altera-


ções, com as peculiaridades de cada modalidade, aprovar o Código Brasileiro
Antidopagem (CBA), redigindo as regras antidopagem e as suas sanções, os
critérios para a dosimetria das sanções, e o procedimento a ser seguido para
o processamento e julgamento das violações às regras antidopagem e, por
fim, estabelecendo diretrizes sobre os procedimentos relativos ao controle
de dopagem exercidos pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem
(ABCD). No tocante ao controle de antidopagem, é imprescindível observar as
disposições do Código Mundial Antidopagem editado pela Agência Mundial
Antidopagem. A Justiça Desportiva é parte integrante desse sistema.

Figura 9. Logotipo da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem

Fonte: Ministério do Esporte (2020).


#ParaTodosVerem: imagem do logotipo da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. As
letras das iniciais estão em cinza escuro, uma palavra em cada linha alinhadas da esquerda para a
direita. À esquerda das palavras, vários círculos com bolas coloridas.

São considerados como subsistema específico do Sistema Nacional


do Desporto: o Comitê Olímpico Brasileiro (COB), o Comitê Paralímpico
Brasileiro (CPB), o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), o Comitê Brasileiro de
Clubes Paralímpicos (CBCP) e as entidades nacionais de administração do
desporto ou prática do desporto a eles filiadas, ou vinculadas. Por óbvio,
cada comitê deve seguir as mesmas regras que o COB se submete.

24
Capítulo 1

Figura 10. Comitê Brasileiro de Clubes Paralímpicos (CBCP).

Fonte: CBCP ([2023]).


#ParaTodosVerem: imagem do logotipo do Comitê Brasileiro de Clubes Paralímpicos escrito em
cinza e, acima, as letras CBCP. Acima da sigla, uma bandeira do Brasil desconstruída.

É de responsabilidade dos conselhos de cada categoria o planejamen-


to das atividades do esporte de seus subsistemas específicos. Sendo ex-
clusivo do COB e do CPB a representação do Brasil em eventos olímpicos
e o uso das bandeiras, lemas, hinos e símbolos olímpicos e paralímpicos,
assim como das denominações “jogos olímpicos”, “olimpíadas”, “jogos pa-
ralímpicos” e “paralimpíadas”, permitida a utilização destas últimas quando
se tratar de eventos vinculados ao desporto educacional e de participação.
Outros eventos ou produtos que queiram utilizar algum dos símbolos pre-
cisarão de autorização do COB.

Enquanto isso, cabe às entidades de prática desportiva que organizarem


ligas comunicar a criação destas às entidades nacionais de administração do
desporto das respectivas modalidades. Dessa forma, as ligas criadas inte-
gram as entidades nacionais de administração do desporto, incluindo seus
eventos, calendários anuais de eventos oficiais. E por isso as ligas formadas
por entidades de prática desportiva envolvidas em competições de atletas
profissionais equiparam-se às entidades de administração do desporto.

Ainda se considera ciclo olímpico e paralímpico o período de 4 anos com-


preendido entre a realização de 2 Jogos Olímpicos ou 2 Jogos Paralímpicos,
de verão ou de inverno, ou o que restar até a realização dos próximos Jogos
Olímpicos ou Jogos Paralímpicos.

25
Capítulo 1

Figura 11. Anéis olímpicos.

Fonte: Wikimedia Commons (1913).


#ParaTodosVerem: imagem do símbolo olímpico com cinco argolas, sendo uma azul, preta e ver-
melha na primeira fileira e, logo abaixo, amarelo e verde.

Um ponto mais técnico trazido pela lei, mas importante, é colocar as


competências definidas em seus estatutos ou contratos sociais, conferin-
do-lhes personalidade jurídica de direito privado. Isso concede a possibi-
lidade de filiação para entidades regionais de administração e entidades
de prática desportiva. A possibilidade de vinculação com entidades nacio-
nais também é viável por meio de ligas. Quanto aos atletas, é facultada a
filiação direta às suas respectivas entidades de administração do desporto.
Inclusive, árbitros e auxiliares de arbitragem poderão constituir entidades
nacionais, estaduais e do Distrito Federal, por modalidade desportiva ou
grupo de modalidades, objetivando o recrutamento, a formação e a pres-
tação de serviços às entidades de administração do desporto. Entretanto, é
importante ressaltar que isso não gera vínculo trabalhista.

Para conseguir recursos necessários ao fomento das práticas desporti-


vas formais e não-formais, conforme indicado pelo art. 217 da Constituição
Federal, serão assegurados em programas de trabalho específicos cons-
tantes dos orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios, além dos provenientes de fundos desportivos, receitas oriun-
das da exploração de loterias e, por fim, doações, patrocínios e legados.

Em termos de isenções fiscais e possíveis repasses de recursos públi-


cos, tanto da administração pública direta quanto indireta, existem critérios,
conforme demanda o art. 18. Entre eles: possuir viabilidade e autonomia

26
Capítulo 1

financeiras, atender aos demais requisitos estabelecidos em lei, estar em


situação regular com suas obrigações fiscais e trabalhistas e demonstrar
compatibilidade entre as ações desenvolvidas para a melhoria das respecti-
vas modalidades desportivas e o Plano Nacional do Desporto. O Ministério
do Esporte é o responsável pela verificação dessas exigências.

É bem claro, pela legislação, que as entidades responsáveis pela organi-


zação de competições desportivas profissionais devem disponibilizar equipes
para atendimento de emergências entre árbitros e atletas, nos termos da re-
gulamentação. Este é um ponto importante, principalmente em esportes de
contato, visando ao bem-estar, saúde e atenção aos praticantes (Brasil, 1998).

O maior risco, conforme a lei, direciona-se aos administradores des-


sas entidades, que respondem solidária e ilimitadamente pelos atos ilícitos
praticados, gestão temerária ou contrários ao previsto no contrato social ou
estatuto. Também se estipula que essa modalidade de organização, mesmo
se não formalizada, será considerada sociedades empresárias.

Um ponto importante trazido pela lei em termos de equidade é a veda-


ção de pessoas físicas ou jurídicas, de forma direta ou indireta, ter parcela
do capital com direito a voto ou, de qualquer forma, participar de mais de
uma administração de qualquer entidade de prática desportiva. A restrição
também se estende para que duas ou mais entidades integrem a mesma
competição profissional das primeiras séries ou divisões das diversas mo-
dalidades desportivas, quando uma pode ter controle de forma direta ou
indireta de bens ou direitos que integrem o patrimônio da outra, ou/e tenha
voto ou controle em decisões da administração de uma terceira entidade.

Conceito
A lei acrescenta a vedação ao cônjuge e aos parentes até o segundo
grau das pessoas físicas; as sociedades controladoras, controladas e
coligadas das mencionadas pessoas jurídicas, bem como a fundo de
investimento, condomínio de investidores ou outra forma asseme-
lhada que resulte na participação concomitante vedada neste artigo.

27
Capítulo 1

Figura 12. Estádio Mineirão

Fonte: Wikimedia Commons (2014).


#ParaTodosVerem: imagem do estádio do Mineirão vazio visto atrás de um gol. O céu está azul,
arquibancadas brancas e campo verde sem defeitos.

A Lei Pelé fez uma exceção à vedação aos contratos de administração e


investimentos em estádios, ginásios e praças desportivas, de patrocínio, de
licenciamento de uso de marcas e símbolos, de publicidade e de propagan-
da, desde que não importem na administração direta ou na cogestão das
atividades desportivas profissionais das entidades de prática desportiva.
Para simplificar, o Premiere tem uma plataforma de assinatura para exibi-
ção de jogos do Campeonato Brasileiro, e podem ser veiculados anúncios
nos estádios durante as partidas. Se as regras acima dispostas, previstas no
art. 18, não forem respeitadas, há previsão de inabilitação da entidade de
prática desportiva para percepção dos benefícios.

O legislador tem como grande objetivo controlar inclusive as empre-


sas de concessão, permissão ou autorização para exploração de serviço
de radiodifusão sonora e de sons e imagens, bem como de televisão por
assinatura. Estão impedidas de patrocinar ou veicular sua própria marca,
bem como a de seus canais e dos títulos de seus programas, nos uniformes
de competições das entidades desportivas. Um exemplo nesse caso seria
o Premiere, do nosso exemplo anterior, estaria proibida de vincular a sua
marca em qualquer um dos times.

28
Capítulo 1

As questões de proteção da segurança e da honestidade em relação


aos campeonatos, ligas e demais competições são tão grandes e intensas
que, no art. 27-B, o legislador veda cláusulas em contratos entre entidades
esportivas com atletas ou terceiros que possam afetar o desempenho do
atleta. Vejamos:


Art. 27-B. São nulas de pleno direito as cláusulas de contratos firmados entre
as entidades de prática desportiva e terceiros, ou entre estes e atletas, que
possam intervir ou influenciar nas transferências de atletas ou, ainda, que in-
terfiram no desempenho do atleta ou da entidade de prática desportiva, exce-
to quando objeto de acordo ou convenção coletiva de trabalho (Brasil, 1998).

Conforme exposto, no artigo 27-B, temos a preocupação desta lei com o


atleta, tanto com suas condições físicas, mentais e financeiras. Abordaremos
isso mais profundamente na Unidade 2, mas na próxima subseção serão
colocados pontos importantes.

2.2 LEI PELÉ: PRIMEIRAS IMPRESSÕES


TRABALHISTAS

A maior inovação e proteção da legislação nº 9.615/1998 é, sem dúvida


nenhuma, os direitos trabalhistas dos atletas profissionais de todos os
esportes.

O art. 28 veda práticas predatórias e abusivas de dirigentes e entidades


esportivas, tais como: restrição à liberdade de trabalho desportivo, estabe-
lecimento de obrigações consideradas abusivas ou desproporcionais, que
violem os princípios da boa-fé objetiva ou o fim social do contrato, e que
envolvam o gerenciamento de carreira para menores de 18 anos.

O contrato profissional para um atleta profissional é caracterizado


pela remuneração pactuada em contrato especial de trabalho desportivo.
As cláusulas específicas e os casos de demissão, indenização, etc., serão
abordados por nós em nossas unidades 2 e 3. No entanto, é interessante
indicarmos que foi uma inovação trazida e necessária. Outras novidades in-
cluem a caracterização do atleta maior de 16 anos que não mantém relação
empregatícia com entidade de prática desportiva, auferindo rendimentos
por meio de contrato de natureza civil.

29
Capítulo 1

Figura 13. Prática de vôlei

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: ilustração com duas crianças jogando vôlei. Um menino com cabelos loiros,
olhos pretos, tênis brancos, shorts preto e regata verde. Uma menina tentando bloquear está
tentando bloquear a bola; ela está de costas, usa blusa amarela, saia verde e sapatos brancos. Em
segundo plano, areia da praia, céu e mar azuis.

A legislação impede que sejam feitos contratos autônomos para moda-


lidades coletivas, garantindo aos atletas a partir de 16 anos a assinatura do
primeiro contrato especial de trabalho desportivo, cujo prazo não poderá
ser superior a 5 anos, nem inferior a 3 meses. Os atletas não profissionais
em formação, maiores de 14 e menores de 20 anos, poderão receber au-
xílio financeiro da entidade de prática desportiva formadora, sob a forma
de bolsa de aprendizagem livremente pactuada mediante contrato formal,
sem que seja gerado vínculo empregatício entre as partes.

Ainda é vedado aos praticantes do desporto educacional, seja nos esta-


belecimentos escolares de 1º e 2º graus ou superiores, do desporto militar e
aos menores até à idade de dezesseis anos completos, o contrato profissio-
nal. Os atletas não profissionais com idade superior a 20 anos não podem
participar de competições desportivas profissionais.

30
Capítulo 1

Um complemento do art. 31 da Lei Pelé garante aos atletas que esti-


verem com o pagamento de salário ou seus direitos de imagem em atraso,
em todo ou em parte, por mais de 3 meses, a rescisão do contrato especial
de trabalho desportivo, ficando o atleta livre para transferir-se para qual-
quer outra entidade de prática desportiva de mesma modalidade, nacional
ou internacional, e exigir a cláusula compensatória desportiva e os haveres
devidos. É inclusive lícita a sua recusa em competir pela entidade, se houver
atrasos superiores a dois meses. A legislação se preocupou em garantir que
os clubes e times pudessem recusar a participação de atletas profissionais
em seleções, considerando que significa estar em efetivo exercício o atleta,
servidor público civil ou militar, da Administração Pública direta, indireta,
autárquica ou fundacional convocado para integrar representação nacional
em treinamento ou competição desportiva no País ou no exterior.

Foram criados o Direito de Imagem e o Direito de Arena. Enquanto o


primeiro se refere à utilização de uma pessoa, como um atleta, para fins
comerciais, a intenção do legislador é blindar a identidade visual, além de
obter vantagens econômicas com a comercialização. Enquanto o segundo
direito de arena envolve a exploração comercial do próprio evento esporti-
vo, incluindo transmissão, exibição e reprodução do evento.

Os incentivos que envolvem o Direito de Arena ficam com as entidades


organizadoras, e a receita é distribuída entre as partes envolvidas. É neces-
sário que esses valores também sejam repassados em parte aos jogadores,
conforme art. 42, §1º:


Art. 42. Pertence às entidades de prática desportiva o direito de arena, con-
sistente na prerrogativa exclusiva de negociar, autorizar ou proibir a capta-
ção, a fixação, a emissão, a transmissão, a retransmissão ou a reprodução
de imagens, por qualquer meio ou processo, de espetáculo desportivo de
que participem.
§ 1º Salvo convenção coletiva de trabalho em contrário, 5% (cinco por cento)
da receita proveniente [...].
§ 2º O disposto neste artigo não se aplica à exibição de flagrantes de espe-
táculo ou evento desportivo para fins exclusivamente jornalísticos, despor-
tivos ou educativos, ou para a captação de apostas legalmente autorizadas,
respeitadas as seguintes condições [...]
II- a duração de todas as imagens do flagrante do espetáculo ou evento des-
portivo exibidas não poderá exceder 3% (três por cento) do total do tempo
de espetáculo ou evento;
III- é proibida a associação das imagens exibidas com base neste artigo
a qualquer forma de patrocínio, propaganda ou promoção comercial [...]
(Brasil, 1998).

31
Capítulo 1

Ou seja, se tratando de Direito de Imagem é um direito individual, en-


quanto o Direito de Arena é um direito coletivo. O da imagem pode ser ne-
gociado e cedido por cada atleta com a limitação de corresponder a 40% do
salário deste. Proteção dupla aos atletas, mas, na prática, há desequilíbrio
de repasse no Direito de Arena entre os clubes.

Figura 14. Jogadores na TV

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra três mulheres sentadas em um sofá assistindo TV. Uma
delas está segurando um cartão vermelho e apontando para a TV, outra está com semblante de
medo segurando uma bola de futebol e a outra demonstra insatisfação.

No tema ainda de divulgação, é obrigação dos jogos das seleções brasi-


leiras de futebol, em competições oficiais, serem exibidos, pelo menos, em
uma rede nacional de televisão aberta, com transmissão ao vivo, inclusive
para as cidades brasileiras onde os mesmos estejam sendo realizados.

Outro ponto importante foi trazer a liberdade de imprensa com o art.


90-F, acrescentado pela Lei nº 12.395, de 2011, que garante aos profissio-
nais credenciados pelas Associações de Cronistas Esportivos, quando em
serviço, têm acesso a praças, estádios e ginásios desportivos em todo o
território nacional, obrigando-se a ocupar locais a eles reservados pelas res-
pectivas entidades de administração do desporto.

32
3
3. ESTATUTO DO TORCEDOR

Não só o esporte precisava ser regulado e editado, era necessário ao


torcedor, com fundamentos do Código de Defesa do Consumidor, a equipa-
ração deste com consumidores e, em consequência, os clubes e as entida-
des organizadoras dos eventos como fornecedores. O principal objetivo
dessa nova lei é proteger os interesses do torcedor, consumidor final do
produto desportivo, como uma forma de impor responsabilidades para as
organizações se estruturarem e fazerem com que o desporto alcance o mais
elevado nível de profissionalismo.

O Estatuto do Torcedor teve sua primeira versão pela Lei nº 10.671, de


15 de maio de 2003, em que se consolidou como um importante instru-
mento do direito desportivo, abrangendo e regulamentando as ativida-
des esportivas nacionais.

No art. 1º e 2º, é indicado que o estatuto é uma norma de defesa do


torcedor e que se considera torcedor toda pessoa que aprecie, apoie ou se
associe a qualquer entidade de prática desportiva do país e acompanhe a
prática de determinada modalidade esportiva.

33
Capítulo 1

Figura 15. Torcida organizada.

Fonte: Wikimedia Commons (2018).


#ParaTodosVerem: imagem da torcida organizada do Palmeiras em um estádio, com um bandeirão
branco escrito: “Mancha alvi verde somos torcida”. Ao lado, o símbolo do palmeiras com efeito de
pingos verdes e uma mancha verde com olhos com um pincel como se tivesse pintando o símbolo.

Entretanto, diante das constantes mudanças e vácuos gerados pela an-


tiga legislação, foi atualizado com a necessidade indispensável de mudança
de comportamento do torcedor, a Lei nº 12.299, de 27/7/2010, na busca de
segurança e alcance maior para outros esportes. Colocando em seu art. 1º que
a responsabilidade do poder público, das confederações, federações, ligas, clu-
bes, associações ou entidades esportivas, entidades recreativas e associações
de torcedores, inclusive de seus respectivos dirigentes, bem como daqueles
que, de qualquer forma, promovem, organizam, coordenam ou participam dos
eventos esportivos na prevenção nos esportes (Brasil, 2010). Nota-se que se
considera esse estatuto apenas para torcedores de desporto profissional.

O dispositivo também acresceu a distinção entre torcedor comum e


da torcida organizada, inclusive destinando à torcida organizada regras de
afiliação. Considera-se torcida organizada pessoa jurídica de direito privado
que se organiza para o fim de torcer e apoiar entidade de prática esportiva
de qualquer natureza ou modalidade. A torcida organizada ainda deverá
manter cadastro atualizado de seus associados ou membros, o qual deverá
conter, pelo menos, as seguintes informações: nome completo, fotografia,
filiação, RG, CPF, data de nascimento, etc.

34
Capítulo 1

O controle da torcida organizada demonstra que o legislador se preo-


cupou com o controle desta, mantendo o cadastro completo e atualizado
de seus participantes como forma de prevenir a violência.

Figura 16. Torcida.

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma multidão de torcedores vibrando em um jogo. Em
primeiro plano, duas mulheres e um homem sorriem. Uma das mulheres está segurando uma
bola de futebol.

Para nossa compreensão, é importante notar que o legislador vai de-


marcando os termos de início para facilitar as compreensões das proteções e
dos deveres que o torcedor possui. De plano, também é colocado que a enti-
dade responsável pela organização da competição, bem como a entidade de
prática desportiva detentora do mando de jogo, é o fornecedor. Esse termo
“fornecedor” remete ao Direito do Consumidor, pois essa é a forma como o
legislador coloca os torcedores, como consumidores do produto esporte.

O próprio art. 5º traz o elemento da publicidade e transparência de


todo o processo da organização do esporte, como se observa:

35
Capítulo 1


Art. 5º São asseguradas ao torcedor a publicidade e transparência na
organização das competições administradas pelas entidades de admi-
nistração do desporto, bem como pelas ligas de que trata o art. 20 da
Lei n.º 9.615, de 24 de março de 1998.
§ 1º As entidades de que trata o caput farão publicar na internet, em sítio da
entidade responsável pela organização do evento:
I – a íntegra do regulamento da competição;
II – as tabelas da competição, contendo as partidas que serão realizadas,
com especificação de sua data, local e horário;
III – o nome e as formas de contato do ouvidor da competição de que trata
o art. 6º;
IV – os borderôs completos das partidas;
V – a escalação dos árbitros imediatamente após sua definição; e
VI – a relação dos nomes dos torcedores impedidos de comparecer ao local
do evento desportivo (Brasil, 2003).

As regras descritas no art. 5º indicam que o regramento deve ser res-


peitado nas mais diferentes competições. Seguindo, no art. 6º, institui a
figura do Ouvidor da Competição para a possibilidade de recolher as suges-
tões, propostas e reclamações que receber dos torcedores, examiná-las e
propor à respectiva entidade medidas necessárias ao aperfeiçoamento da
competição e ao benefício do torcedor.

Outros momentos que colocam o torcedor como consumidor é a bus-


ca incessante pela divulgação e transparência, propostas pelo art. 7º, a di-
vulgação, durante a realização da partida, da renda obtida pelo pagamento
de ingressos e do número de espectadores pagantes e não pagantes, por
intermédio dos serviços de som e imagem instalados no estádio em que se
realiza a partida, pela entidade responsável pela organização da competição.

O art. 8º garante que as práticas desportivas durante 10 meses por


ano sejam em âmbito nacional. Seu regulamento deve ser disponibilizado
em até 45 dias antes do início e só pode sofrer alterações quando for feito
um novo calendário de eventos oficiais aprovados pela CNE, após dois anos
de vigência do estatuto anterior. Isso inclui em campeonatos e torneios re-
gulares as regras para subir ou cair de divisões. Garantindo aos torcedores
que os campeonatos que não seguirem as regras em suas partidas serão
desconsiderados, inclusive para efeito de pontuação na competição.

36
Capítulo 1

Figura 17. Tabela da Copa do Mundo 2022

Fonte: O Globo (2022).


#ParaTodosVerem: ilustração com a divisão por grupos dos times que disputaram a Copa do
Mundo 2022, no Catar. O Brasil aparece como o primeiro membro do “Grupo G”, seguido da Sérvia,
Suíça e Camarões.

Para o torcedor ter a possibilidade de assistir aos jogos, ele precisa


estar na posse de ingresso válido. Além disso, na busca de segurança, o
legislador proibiu objetos, bebidas ou substâncias proibidas, ou suscetíveis
de gerar, ou possibilitar a prática de atos de violência. Para garantir a inibi-
ção de atos violentos, os torcedores devem consentir com a revista pessoal
de prevenção e segurança. Ainda, seguindo demandas atuais, a Lei baniu
cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas,
inclusive de caráter racista ou xenófobo, e cantos no mesmo sentido tam-
bém não são tolerados.

O torcedor que permanecer no estádio não poderá arremessar obje-


tos, de qualquer natureza, no interior do recinto esportivo, nem portar ou
utilizar fogos de artifício, ou quaisquer outros produtos pirotécnicos que
tenham efeitos similares. Também não devem incitar ou praticar atos de
violência no estádio, nem invadir ou incitar a invasão, de qualquer forma,
da área restrita aos competidores. O afastamento do estádio ou o impedi-
mento não afastam outras sanções administrativas, civis ou penais even-
tualmente cabíveis. Entre os crimes específicos de torcedores, observe na
Tabela 2, adaptada conforme o Estatuto do Torcedor.

37
Capítulo 1

Tabela 2. Crimes no futebol.

CRIME PENA

Tumulto: praticar ou incitar a violên-


cia, ou ainda, invadir local restrito aos
competidores em eventos esportivos.
O tumulto é considerado em um raio Reclusão de um a dois anos e multa.
de 5 mil metros ao redor do local, no O juiz deverá converter a pena de re-
trajeto de ida ou volta. Portar, deter clusão em pena impeditiva de com-
ou transportar, no interior do estádio, parecimento às proximidades do es-
em suas imediações ou no seu trajeto, tádio de três meses a três anos.
em dia de realização de evento espor-
tivo, quaisquer instrumentos que pos-
sam servir para a prática de violência.

Vender ingressos de evento esportivo


por preço superior ao estampado no Reclusão de um a dois anos e multa.
bilhete.

Reclusão de dois a quatro anos e mul-


ta. A pena será aumentada de 1/3 (um
terço) até a metade se o agente for
servidor público, dirigente, funcioná-
Fornecer, desviar ou facilitar a distribui- rio de entidade de prática desportiva,
ção de ingressos para venda por preço entidade responsável pela organiza-
superior ao estampado no bilhete. ção, empresa contratada de emissão,
distribuição e venda de ingressos ou
torcida organizada, além da pena im-
peditiva de comparecimento às pro-
ximidades do estádio.

Fraudar, por qualquer meio, ou contri-


buir para que se fraude, de qualquer
Reclusão de dois a seis anos e multa.
forma, o resultado de competição es-
portiva ou evento a ela associado.

Dar ou prometer vantagem patrimo-


nial, ou não patrimonial, com o fim de
Reclusão de dois a seis anos e multa.
alterar ou falsear o resultado de uma
competição desportiva.

38
Capítulo 1

CRIME PENA

Solicitar ou aceitar, para si ou para ou-


trem, vantagem ou promessa de van-
tagem patrimonial ou não patrimonial
Reclusão de dois a seis anos e multa.
para qualquer ato ou omissão desti-
nado a alterar ou falsear o resultado
de competição esportiva.

Fonte: Adaptado da Lei nº 12.299/10 (Brasil, 2010).

A torcida organizada responde civilmente, em sentido objetivo e solidá-


rio, pelos danos causados por qualquer dos seus associados ou membros
no local do evento esportivo, em suas imediações ou no trajeto de ida e
volta para o evento.

A segurança do torcedor em evento esportivo é responsabilidade da


entidade de prática desportiva detentora do mando. Os dirigentes devem
solicitar ao poder público competente agentes públicos de segurança, e in-
formar imediatamente após a decisão acerca da realização da partida com
todas as informações (Brasil, 2010).

A entidade organizadora da competição deve confirmar, com até qua-


renta e oito horas de antecedência, o horário e o local da realização das
partidas em que a definição das equipes dependa de resultado anterior.
Além disso, deve contratar seguro de acidentes pessoais, tendo como be-
neficiário o torcedor portador de ingresso, válido a partir do momento em
que ingressar no estádio. De forma concomitante, deve disponibilizar um
médico, dois enfermeiros-padrão e uma ambulância para cada dez mil tor-
cedores presentes à partida. Por fim, deve comunicar previamente à auto-
ridade de saúde a realização do evento (Brasil, 2010).

39
Capítulo 1

Figura 18. Policiais protegendo árbitros.

Fonte: Wikimedia Commons (2012).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra dois árbitros com uniforme amarelo e preto sendo escolta-
dos por três policiais fardados com escudo escrito choque, utilizando capacete e cassetetes.

Na garantia de segurança, o legislador obriga que os estádios com


capacidade superior a dez mil pessoas deverão manter central técnica
de informações, com infraestrutura suficiente para viabilizar o monito-
ramento por imagem do público presente. Dessa forma, se algum dano
for causado aos torcedores, as entidades responsáveis pela organização
da competição, bem como seus dirigentes, respondem solidariamente
com as entidades (Brasil, 2010).

Referente aos ingressos, estes devem ser numerados e ocupar o lo-


cal correspondente ao número constante, além do valor pago por ele. O
desconto eventual em ingressos para o mesmo setor só pode ser garan-
tido caso vendido em pacotes de ingressos, acima de 3. Caso o estádio
tenha sido construído antes dessa lei, a obrigação é apenas de limitar
o número de torcedores, de acordo com critérios de saúde, segurança
e bem-estar. A entidade que não respeitar as regras acima dispostas
perderá o mando de jogo por, no mínimo, seis meses, sem prejuízo de
outras sanções cabíveis (Brasil, 2010).

40
Capítulo 1

Figura 19. Ingresso da Copa do Mundo de 1999 dos Estados Unidos

Fonte: Museu do Futebol (1999).


#ParaTodosVerem: imagem do ingresso original da Copa do Mundo de 1999 dos Estados Unidos,
colocando todas as informações necessárias como: setor, cadeiras, fileira, código do evento, logo-
tipo do evento e informações como data, local, horário.

O meio de transporte para crianças, idosos e deficientes físicos deve ter


acesso a locais de fácil acesso. A entidade deve garantir estacionamento para
os torcedores que comparecerem ao estádio. Em acréscimo, deverá o estádio
ter números de sanitários proporcionais ao público presente (Brasil, 2010).

No tocante à arbitragem, esta deve ser independente, imparcial, pre-


viamente remunerada e isenta de pressões. Os árbitros serão escolhidos
mediante sorteio, com no mínimo de 48 horas antes da partida. O sorteio
deve ser amplamente divulgado com data e local definidos previamente.
Os árbitros e seus auxiliares devem entregar, em até 4 horas contadas do
término da partida, a súmula e os relatórios da partida ao representante da
entidade responsável pela organização da competição. A entidade deverá
conferir publicidade à súmula e aos relatórios da partida (Brasil, 2010).

41
Capítulo 1

Figura 20. Arbitragem

Fonte: Grêmiopédia (2020).


#ParaTodosVerem: fotografia de um árbitro de futebol. Ele está em campo, em destaque, com o
braço esquerdo erguido apontando para algum lugar ou alguém. O árbitro veste camiseta amarela
com símbolo da FIFA.

Todas as infrações administrativas serão julgadas pela Justiça


Desportiva; os critérios de julgamento, sanções e processos serão trabalha-
dos na próxima unidade. Porém, com o fim desta subseção, podemos ter as
noções principais do que significa o Estatuto do Torcedor para a proteção
dos direitos do torcedor.

42
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

No estudo desta primeira unidade, conseguimos aprender


como o esporte chegou à organização de hoje, com as estruturas
que permitiram a profissionalização do esporte atualmente.

Nessa jornada pela história do esporte, visamos não apenas


mapear as transformações legislativas, mas também desvendar os
motivos subjacentes a essas mudanças. Ao contextualizar a evolu-
ção do Direito Desportivo brasileiro, pudemos juntos refletir sobre
os marcos que transformaram o esporte como conhecemos.

A imersão na Lei Pelé foi muito mais do que uma simples ex-
planação de seus artigos. Focamos em uma análise aprofundada
dos conceitos intrínsecos, ultrapassando apenas a memorização, e
alcançando compreensões do que, por que e como.

No último trecho, adentramos o universo do Estatuto do Torcedor,


reconhecendo a importância dos torcedores como parte integrante do
espetáculo esportivo. Por meio de exemplos que espelham situações
da realidade, foi possível pensar estrategicamente sobre como as dis-
posições legais podem ser aplicadas em cenários dinâmicos.

A introdução da profissionalização nos clubes, regida pela Lei


Pelé, trouxe consigo medidas como a formalização de contratos, es-
tabelecimento claro de direitos e deveres, fixação de salários e be-
nefícios, além da implementação de mecanismos para a resolução
de conflitos, oferecendo maior segurança e garantias aos jogadores.

No entanto, é importante salientar que, paralelamente aos avan-


ços proporcionados pela Lei Pelé nesse sentido, surgiram desafios
e problemas significativos. Dentre esses desafios, destacam-se as

43
Capítulo 1

dificuldades financeiras e a má gestão enfrentadas por alguns clu-


bes, resultando em endividamento elevado e questões estruturais.

Apesar desses percalços, a Lei Pelé exerceu um impacto notá-


vel no cenário do futebol brasileiro, promovendo uma gestão mais
profissional, transparência e melhores condições para jogadores e
outros profissionais do setor.

No entanto, na prática, a aplicação do direito de Arena frequen-


temente não reflete sua concepção ideal. As receitas provenientes
desse direito podem ser distribuídas de forma desigual entre clubes
e atletas, favorecendo aqueles mais populares em detrimento dos
menos renomados.

Essa disparidade na alocação de receitas não apenas amplia


as desigualdades financeiras entre os envolvidos, mas também im-
pacta negativamente o desenvolvimento de eventos e modalidades
esportivas menos visíveis.

44
ATIVIDADES
DE ESTUDO

1. Aprendemos muito sobre como o Brasil se caracterizou no esporte.


Sobre o tema, assinale a correta:

a. A destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do


alto rendimento.
b. Nenhuma entidade desportiva nacional poderá, sem prévia autori-
zação do Ministério dos Esportes, participar de qualquer competi-
ção internacional.
c. O tratamento igualitário para o desporto profissional e o não
profissional.
d. Há autonomia das entidades desportivas, dirigentes e associações
quanto à sua organização e funcionamento.

2. Considerando o que aprendemos até aqui, responda com a alter-


nativa correta:

a. Qualquer evento esportivo pode utilizar-se dos símbolos olímpicos;


b. Eventos escolares só podem usar os símbolos olímpicos mediante
autorização;
c. No que se refere às regras de antidopagem, a lei brasileira não pre-
cisa necessariamente se atentar ao Código Internacional;
d. Quando se fala em desporto de Participação, é uma modalidade
voluntária para contribuir para a integração dos praticantes na
plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação, e na
preservação do meio ambiente.

45
Capítulo 1

3. No tocante aos torcedores, assinale a alternativa correta:

a. A torcida organizada responde civilmente, em sentido objetivo e


solidário, pelos danos causados por qualquer dos seus associados;
b. A venda de ingressos de evento esportivo, por preço inferior ao
mesmo setor, é possível, na compra de dois ingressos.
c. O tumulto é considerado em um raio de 2 mil metros ao redor do
local onde acontecerá a partida;
d. Desde que não haja escritos preconceituosos, é possível a entrada
de cartazes que não se comuniquem com o evento esportivo.

46
REFERÊNCIAS

BERTOLO, J. G.; SILVA, R. S. R. Direito do trabalho desportivo: teoria, legis-


lação e prática. Leme: JH Mizuno, 2020.

BRASIL. Decreto nº 80.228, de 25 de agosto de 1977. Regulamenta a Lei


n.º 6.251, de 8 de outubro de 1975, que institui normas gerais sobre des-
portos e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1977.
Disponível em: <[Link]
[Link]>. Acesso em: 1 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 6.251, de 8 de outubro de 1975. Institui normas gerais sobre


desportos, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 1975.

BRASIL. Lei nº 8.028, de 12 de abril de 1990. Dispõe sobre a organização


da Presidência da República e dos Ministérios, e dá outras providências.
Brasília: Presidência da República, 1990. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/leis/[Link]>. Acesso em: 1 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 8.672, de 6 de julho de 1993. Institui normas gerais sobre


desportos e dá outras providências. Brasília: Presidência da República,
1993. Disponível em: <[Link]
Acesso em: 1 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998. Institui normas gerais sobre


desporto e dá outras providências. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/leis/[Link]>. Brasília: Presidência da República,
1998. Acesso em: 1 abr. 2024.

47
Capítulo 1

BRASIL. Lei nº 10.671, de 15 de maio de 2003. Dispõe sobre o Estatuto


de Defesa do Torcedor e dá outras providências. Brasília: Presidência da
República, 2003. Disponível em: <[Link]
leis/2003/[Link]>. Acesso em: 1 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 12.299, de 27 de julho de 2010. Dispõe sobre medidas de pre-


venção e repressão aos fenômenos de violência por ocasião de competições es-
portivas; altera a Lei no 10.671, de 15 de maio de 2003; e dá outras providências.
Brasília: Presidência da República, 2010. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/[Link]>. Acesso em: 1 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 12.663, de 5 de junho de 2012. Dispõe sobre as medidas


relativas à Copa das Confederações FIFA 2013, à Copa do Mundo FIFA 2014
e à Jornada Mundial da Juventude - 2013, que serão realizadas no Brasil;
altera as Leis nos 6.815, de 19 de agosto de 1980, e 10.671, de 15 de maio
de 2003; e estabelece concessão de prêmio e de auxílio especial mensal aos
jogadores das seleções campeãs do mundo em 1958, 1962 e 1970. Brasília:
Presidência da República, 2012. Disponível em: <[Link]
br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/[Link]>. Acesso em: 1 abr. 2024.

FACHADA, R. T. Direito Desportivo: uma disciplina autônoma. Rio de


Janeiro: Autografia, 2021.

MIRANDA, M. N. O Direito no Desporto. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris,


2011.

48
CAPÍTULO 2
DIREITO NACIONAL E
INTERNACIONAL PRIVADO DO
ESPORTE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes
objetivos de aprendizagem:

• Compreender o ordenamento pátrio e as principais legislações in-


ternacionais aderentes ao tema;

• Analisar a estrutura jurídica dos sistemas privados de regulamentação;

• Avaliar as peculiaridades entre a Federação Internacional de


Futebol (FIFA) e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF);

• Compreender sobre soluções de conflitos no desporto;

• Criar parecer técnico sobre o qual será a diretriz utilizada na solução


de conflitos;

• Analisar e orientar sobre possíveis soluções de conflitos no desporto;

• Criar atitudes preventivas para possíveis lides.

49
CONTEXTUALIZAÇÃO

No segundo capítulo, exploramos o complexo mundo do


Direito Nacional e Internacional Privado no contexto esportivo,
desvendando três subseções fundamentais que se mostram indis-
pensáveis para uma compreensão aprofundada das complexida-
des legais que permeiam as entidades esportivas.

Na primeira subseção, focamos no regime jurídico que esta-


belece as normas das entidades responsáveis pela administração
e prática desportiva no Brasil. Em uma análise detalhada, explora-
mos as leis e regulamentos que orientam suas operações, desta-
cando as nuances que definem suas funções, responsabilidades
e as intrincadas relações estabelecidas com atletas e clubes. Esta
incursão minuciosa revela-se essencial para uma compreensão
holística do ambiente jurídico que rege o esporte em território na-
cional, fornecendo uma base sólida para interpretar as complexas
dinâmicas do cenário esportivo brasileiro.

A segunda subseção nos leva além das fronteiras nacionais,


desvendando a complexa estrutura de solução de conflitos despor-
tivos em escala internacional. Investigamos os mecanismos adota-
dos por entidades privadas e órgãos de administração de maneira
meticulosa para resolver disputas que transcendem as jurisdições
nacionais. Compreender os procedimentos, regulamentos e juris-
prudências que moldam esse intricado contexto global não apenas
revela os desafios enfrentados, mas também proporciona insights
valiosos sobre as dinâmicas da resolução de conflitos em um cená-
rio internacional, evidenciando as complexas relações no panora-
ma esportivo global.

50
Capítulo 2

Na terceira subseção, concentramos nossa atenção nas diver-


gências fundamentais entre as normativas da Federação Internacional
de Futebol (FIFA) e da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Verificando minuciosamente como essas diferenças reverberam nos
contextos nacional e internacional, oferecendo uma compreensão
mais profunda dos desafios e oportunidades que emergem da intera-
ção entre normativas globais e locais. Este exame crítico fornece uma
perspectiva esclarecedora sobre como as divergências normativas
moldam o panorama regulatório do esporte, destacando os impactos
práticos dessas distinções nas práticas esportivas.

Ao explorar essas subseções, nossa missão é oferecer uma visão


abrangente do Direito Nacional e Internacional Privado do Esporte,
além de uma base sólida e detalhada para decifrar as complexida-
des jurídicas que caracterizam o cenário esportivo contemporâneo.

51
1
1. DIREITO NACIONAL E
INTERNACIONAL PRIVADO
DO ESPORTE

Neste capítulo, exploraremos as complexidades do Direito Nacional e


Internacional Privado que estão intrinsecamente ligadas às entidades es-
portivas. Um foco importante será dedicado à análise da relevância e do
papel das principais organizações esportivas, como a CBF e a FIFA, dentro
do cenário nacional e internacional.

A CBF, a FIFA e a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL)


desempenham papéis fundamentais na governança e na regulamentação
do futebol, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Elas estabelecem
diretrizes e regulamentos que afetam desde a organização de competições
até as regras do jogo, passando pela gestão de transferências de jogadores
e resolução de disputas entre clubes e jogadores. Além disso, essas entida-
des desempenham um papel crucial na promoção e no desenvolvimento do
esporte, moldando a sua imagem e influenciando a sua disseminação global.

No contexto do Direito Nacional Brasileiro, também abordaremos o


regime jurídico das entidades de administração e de prática desportiva. Isso
envolve a análise das leis e regulamentos que regem o funcionamento das
organizações esportivas, incluindo questões relacionadas à constituição,
organização interna, responsabilidade legal e fiscalização.

Além disso, vamos examinar a estrutura de solução de conflitos des-


portivos em escala internacional. Isso inclui a análise dos mecanismos e pro-
cedimentos adotados por entidades globais, como a Câmara de Resolução
de Disputas da FIFA e o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), para lidar com
questões de natureza jurídica e disciplinar envolvendo entidades esporti-
vas, jogadores, treinadores e outros atores do mundo do esporte.

52
Capítulo 2

Neste capítulo, adentramos as complexidades do Direito Nacional e


Internacional Privado que permeiam as entidades esportivas. Além disso, inves-
tigaremos a intrincada estrutura de resolução de conflitos desportivos em es-
cala internacional, destacando os mecanismos adotados por entidades globais.

53
2
2. REGIME JURÍDICO DAS
ENTIDADES DE ADMINISTRAÇÃO
E DE PRÁTICA DESPORTIVA NO
BRASIL

As inúmeras prescrições normativas concernentes à interseção entre


a atividade desportiva e a configuração organizacional dessas instituições,
conforme abordado anteriormente, denotam a relevância do tema nos dias
atuais. Nesse contexto, Eduardo Carlezzo (2004) indica que a terminologia
adotada é Direito Societário Desportivo. Por ocasião de sua constituição, as
entidades de prática desportiva eram, em essência, congregações de indi-
víduos com uma aspiração comum, destituídas de finalidades pecuniárias,
elegendo, como substrato jurídico, o modelo associativo, ocasionalmente
rotulado como sociedade civil ou entidade sem fins lucrativos, em virtude
da ausência de diferenciação conceitual legal.

Esse paradigma societário angariou ampla aceitação, em virtude de


sua maleabilidade organizacional, particularmente ajustada às atividades
esportivas de caráter amador e recreativo. Além disso, “a associação confe-
ria algumas prerrogativas, principalmente do ponto de vista fiscal, dado que
uma parcela expressiva das incidências tributárias deixava de ser imposta”
em consonância com os objetivos não lucrativos inerentes a essas institui-
ções (Carlezzo, 2004).

54
Capítulo 2

Figura 1. Associação desportiva: maleabilidade organizacional e prerrogativas fiscais

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: há oito pessoas na imagem, incluindo homens e mulheres, dispostas em círculo.
Cada indivíduo segura um bloco de notas e mantém o olhar concentrado no conteúdo de suas mãos.

No contexto jurídico, a reunião de indivíduos com objetivos comuns e


sem intenções lucrativas é legalmente denominada associação. Conforme
descrito por Maria Helena Diniz (2011), uma associação se configura quan-
do não há intenção de obter lucro ou distribuir resultados, embora possua
um patrimônio formado pelas contribuições de seus membros, com o pro-
pósito de alcançar objetivos culturais, educacionais, esportivos, religiosos,
beneficentes, recreativos, morais, entre outros.

Neste cenário, conforme o art. 53 do Código Civil, as associações são


constituídas pela “união de pessoas que se organizam com objetivos não
econômicos” (Brasil, 2002). No entanto, mesmo que o lucro não seja a prin-
cipal finalidade das atividades dos clubes de futebol, mas sim a obtenção de
resultados esportivos, essa circunstância não exclui a natureza comercial
que atualmente permeia seu funcionamento.

A contribuição dos associados, no momento da constituição das res-


pectivas agremiações, constituía a principal fonte de financiamento, muitas
vezes a única, sendo classificada, de acordo com Antônio Carlos Azambuja
(2002), como a única fonte de receita ordinária das associações.

55
Capítulo 2

Figura 2. Associação Paulista de Futebol

Fonte: Associação Paulista de Futebol (2023).


#ParaTodosVerem: imagem do logotipo da Associação Paulista de Futebol. O logotipo inclui um
escudo com listras pretas e uma faixa vermelha com as siglas brancas A.P.F.

Com a rápida popularização do futebol e o advento do profissionalis-


mo, a contribuição dos associados tornou-se insuficiente para a manuten-
ção das atividades das entidades desportivas. Atualmente, conforme narra
Azambuja (2002, p. 29), “por maior que seja a entidade, [a contribuição dos
associados] sequer chega a servir à cobertura dos gastos com o sustento
total de seus raros departamentos amadores” e, consequentemente, muito
menos ao custeio do departamento de futebol profissional.

Ademais, esse alargamento patrimonial, no panorama recente, não


se verifica com as entidades desportivas voltadas ao desenvolvimento
do futebol profissional. Pelo contrário, os grandes montantes de valores
captados culminam em uma distribuição pela cadeia produtiva do espor-
te, contribuindo para o enriquecimento de diversos setores e interme-
diários do “mercado da bola”, exceto da entidade. O modelo associativo
não mais se compatibiliza com a dinâmica do mercado do futebol, uma
vez que se encontra distante da realidade econômica na qual os clubes
estão inseridos. Não obstante, a forma como é organizado atualmente
importa em dilemas na esfera administrativa das entidades desportivas
(Azambuja, 2002, p. 29).

56
Capítulo 2

Em 1997, o Decreto nº 80.228, de 25 de agosto, forjou a figura do conse-


lho deliberativo no cerne das associações desportivas. O conselho delibera-
tivo tem como principal função eleger os administradores e cuidar dos bens
da associação. Por outro lado, à assembleia-geral restou exclusivamente “a
função de eleger o conselho deliberativo e de decidir quanto à extinção da
entidade ou fusão”, segundo o art. 111 do referido decreto.

Figura 3. Eleição do Conselho Deliberativo do Clube Atlético Juventus

Fonte: Clube Atlético Juventus (2023).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra seis homens ao centro, todos de terno, sendo que cinco estão
sentados e um está de pé. Atrás deles, três bandeiras hasteadas, sendo uma delas do Brasil, uma do
estado de São Paulo e uma do Clube Atlético Juventus. À frente, várias pessoas sentadas de costas.

Desse modo, ainda que não ocorra qualquer imposição legal de forma
diversa, a constituição das entidades de prática desportiva como associa-
ções revela-se, pois, em desarmonia com a realidade em que estão inse-
ridas atualmente, configurando uma estrutura organizacional com fortes
ligações ao amadorismo e limitada, econômica e administrativamente.

Entretanto, à medida que os anos transcorreram, o universo do futebol


experimentou metamorfoses profundas, assumindo uma importância eco-
nômica e social saliente. Dessa maneira, por meio de uma análise meticu-
losa das diferentes estruturas jurídicas, associativa e societária, pelas quais
os clubes brasileiros de futebol se conformam e têm a possibilidade de se
organizar – ressaltando os elementos que caracterizam cada paradigma

57
Capítulo 2

organizacional –, suscita-se a indagação acerca da pertinência da forma as-


sociativa no contexto do futebol profissional contemporâneo e a eventual
transição para um regime empresarial (Coelho, 2011).

Figura 4. Leila Pereira, presidente do Palmeiras

Fonte: Wikimedia Commons (2018).


#ParaTodosVerem: fotografia de Leila Pereira com camisa verde e símbolo da Sociedade Esportiva
Palmeiras, com uma estrela vermelha acima. Cabelo loiro escuro comprido repartido ao meio.

Assim como as agremiações, incluídas entre as entidades de direito


privado, deparamo-nos com as sociedades, caracterizadas como a união
de indivíduos que mutuamente se comprometem a aportar, com bens ou
serviços, para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si, dos
resultados, conforme estabelecido no art. 981 do Código Civil (Brasil, 2002).
Dessa maneira, advém do conceito de empreendedor, traçado pelo supra-
citado Código, a caracterização das sociedades empresárias, assinalando
sua dissociação das sociedades simples.

Nesse contexto, o art. 966 do Código Civil estipula: “Considera-se em-


presário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada
para a produção ou a circulação de bens, ou de serviços” (Brasil, 2002). Os
pilares que integram a definição de empreendedor podem ser identificados
como economicidade, organização e profissionalidade, aludindo a uma ati-
vidade econômica organizada, voltada à produção ou circulação de bens,
ou serviços, concretizada de modo profissional.

58
Capítulo 2

No que se refere às sociedades, a legislação civil brasileira disciplina


uma variedade de modelos jurídicos, a saber: sociedade em nome coleti-
vo, sociedade em comandita simples, sociedade em comandita por ações,
sociedade limitada e sociedade anônima. No escopo desta análise, as con-
figurações das sociedades não personificadas – sociedades em geral e em
participação – são momentaneamente excluídas, dada a impossibilidade da
moldagem de personalidade jurídica própria inerente à coletividade empre-
sarial desportiva, inconciliável com tais delineamentos coletivos.

Figura 5. Código Civil

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: figura da bandeira do Brasil ao fundo e, ao centro, dois livros abertos, um em
cima do outro com um martelo jurista de madeira acima.

A sociedade limitada se destaca pela limitação da responsabilidade


de cada sócio ao valor de suas quotas, regulamentada pelo art. 1.052 do
Código Civil (CC) (Brasil, 2002). Estabelecida por meio de contrato social,
esse formato proporciona simplicidade e liberdade na constituição, permi-
tindo negociações flexíveis entre os sócios. Apesar da limitação de respon-
sabilidade, todos os sócios respondem solidariamente até a integralização
total do capital social subscrito.

A administração da sociedade limitada pode ser realizada por uma ou


mais pessoas, conforme o art. 1.060 do CC, desde que designada no con-
trato social ou em ato separado. A responsabilidade dos administradores

59
Capítulo 2

é solidária, respondendo perante a sociedade e terceiros prejudicados por


culpa no desempenho de suas funções.

Quanto às deliberações dos sócios, modificações no contrato social, in-


corporação, fusão e dissolução da sociedade demandam aprovação mínima
de 3/4 dos votos correspondentes ao capital social. A aprovação de contas
da administração, destituição de administradores e modo de remuneração
destes exigem votos correspondentes a mais da metade do capital social.

A sociedade anônima, regida pela Lei das Sociedades Anônimas (LSA),


destaca-se pela divisão do capital social em ações e pela limitação da respon-
sabilidade dos acionistas ao preço de emissão das ações. Diferentemente
das associações, os acionistas buscam objetivos econômicos e lucrativos.
Esse modelo favorece a captação de recursos financeiros significativos, sen-
do crucial para a gestão de entidades desportivas em um mercado bilionário.

Figura 6. Sociedade Anônima

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: a ilustração mostra dez pessoas sem rosto, em preto e com fundo creme.

A sociedade anônima pode ser classificada como “aberta” ou “fecha-


da”, dependendo da negociação de seus valores mobiliários. A emissão
de ações preferenciais e a possibilidade de golden share são aspectos rele-
vantes para a captação direcionada de recursos. Os órgãos sociais, como

60
Capítulo 2

assembleia-geral, diretoria, conselho fiscal e conselho de administração de-


sempenham papéis fundamentais na administração transparente e eficaz.

Saiba Mais
Entenda o que é golden share mencionado em nosso
curso na matéria da CNN.

A LSA estabelece deveres essenciais para os administradores, como dili-


gência, lealdade e informação. A responsabilidade dos administradores é limi-
tada a atos regulares de gestão, sendo civilmente responsáveis por prejuízos
causados por culpa, dolo, violação da lei ou estatuto. A rigidez na disciplina da
administração nas sociedades anônimas atrai investidores e recursos finan-
ceiros, proporcionando maior segurança e governança profissional.

A transição para o regime empresarial por parte das entidades despor-


tivas no Brasil, visando à reestruturação, pode ocorrer por meio da conver-
são da associação em uma sociedade empresária ou pela constituição de
uma nova pessoa jurídica para gerir o departamento de futebol profissio-
nal. A primeira opção, transformando um clube associativo em sociedade
empresária, apresenta desafios práticos e incompatibilidades. Já a segunda
hipótese envolve a criação de uma sociedade empresária para administrar
o futebol profissional, enquanto mantém a estrutura associativa do clube.
Essa abordagem híbrida permite conciliar as atividades sociais e esportivas
de alto rendimento, adaptando-se à dualidade entre o modelo associativo e
a gestão empresarial do futebol.

O desenvolvimento sustentável do futebol profissional de alto rendimen-


to e dos negócios no mercado esportivo requer uma estruturação em-
presarial apropriada. A escolha do tipo societário para a nova entidade
criada pelos clubes, entre as opções legais, deve ser capaz de atender às
demandas do atual mercado do futebol. A sociedade limitada e a socieda-
de anônima destacam-se como as opções mais compatíveis para esse fim.

61
Capítulo 2

Figura 7. Treinamento

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: imagem de um atleta com uniforme azul e branco e de chuteira amarela. Ele
está jogando com uma bola branca fazendo treinamento em campo verde. À frente, possui obstá-
culos com detalhes em verde claro.

Destacam-se características como a divisão do capital social em ações,


responsabilidade limitada dos sócios ou acionistas ao preço das ações, me-
canismos de captação de recursos e uma gestão profissional conforme a
Lei das Sociedades Anônimas. Considerando a natureza peculiar do esporte
profissional, o processo de constituição dessa sociedade empresária des-
portiva pode ocorrer por meio de um instrumento jurídico conhecido como
“drop down” de ativos.

Saiba Mais
Drop down é a transferência de ativos que reestrutura operações
societárias sem comprometer a saúde financeira da empresa. É uma
operação societária que não acarreta nenhuma transferência de ati-
vos, mas que recebe ações, fazendo a manutenção dos negócios.

62
3
3. ESTRUTURA DE SOLUÇÃO
DE CONFLITOS DESPORTIVOS
NO ÂMBITO INTERNACIONAL
DAS ENTIDADES PRIVADAS E
ADMINISTRAÇÃO

Inicialmente, é crucial definir a Justiça Desportiva como um conjunto


de instâncias vinculadas à jurisdição e territorialidade das entidades de ad-
ministração do desporto, com o intuito de resolver conflitos desportivos.
Sua competência restringe-se ao processo e julgamento de transgressões
disciplinares determinadas pelos códigos correspondentes (Schimit, 2004).

Figura 8. Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol (STJD)

Fonte: STJD (2019).


#ParaTodosVerem: imagem mostra o logotipo com a sigla “STJD” escrita em azul e o nome
“Superior Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol” escrito em dourado logo abaixo.

O capítulo 7 da Lei 9615/98, conhecida como Lei Pelé (1998), normatiza


a Justiça Desportiva, tratando de sua organização e estrutura, em conso-
nância com a Constituição Federal. É saliente que o Brasil foi pioneiro ao
ter essa justiça especializada reconhecida constitucionalmente, conforme
o Art. 217. O Art. 50 da Lei Pelé delineia suas competências, focadas no
processo e julgamento de transgressões disciplinares e em questões vincu-
ladas a competições desportivas.

63
Capítulo 2

A Justiça Desportiva opera de modo mais simplificado em comparação


com a Justiça Comum, devido à sua especificidade, dividindo-se pelas mo-
dalidades esportivas. Enquanto a Justiça Comum organiza-se pela matéria
buscada para a determinação do direito (Vargas et al., 2017).

A autonomia e independência dos órgãos da Justiça Desportiva, esta-


belecidas constitucionalmente, foram reforçadas pela Lei Pelé. Os Tribunais
de Justiça Desportiva são entidades autônomas e independentes das enti-
dades de administração do desporto, capacitadas para processar e julgar
questões previstas nos códigos correspondentes, assegurando a ampla
defesa e o contraditório (Barreiros Neto, 2010).

Figura 9. Audiência virtual

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: ilustração de uma tela de computador simulando a transmissão de uma vi-
deoconferência. A imagem na tela apresenta 4 quadrantes, sendo o primeiro, em sentido horário,
um homem em roupa casual, seguido de uma mulher em roupa casual, uma mulher em traje for-
mal e um homem de cabelos brancos, terno e gravata.

Para Souza (2012), a Justiça Desportiva constitui uma estrutura espe-


cializada, autônoma e prevista constitucionalmente, dedicada à solução de
conflitos desportivos, principalmente no âmbito da disciplina e competição.
Vale ressaltar que ela não faz parte do Poder Judiciário, mas integra uma
parte especial da justiça com interesse público (Vargas et al., 2017).

64
Capítulo 2

Embora muitos doutrinadores destaquem a autonomia dessa justiça es-


pecializada, há divergências, como expresso por Bastos (2000, p. 836), que a
considera não autônoma, sendo uma justiça administrativa criada por ato ad-
ministrativo. Essa controvérsia tem suas raízes na criação da Justiça Desportiva
em 1941 com o Conselho Nacional de Desportos, regulamentado pelo Decreto-
lei n. 3199/41 (Souza, 2012). Atualmente, ela compreende o STJD, o Tribunal de
Justiça Desportiva (TJD) e seus Tribunais Plenos e Comissões Disciplinares.

Diante disso, a Justiça Desportiva é caracterizada por certa informali-


dade, contrastando com a Justiça Comum em termos de linguagem, ritos
processuais complexos e suntuosidade dos tribunais. Essa informalidade é
guiada por princípios como oralidade e celeridade (Sant’Ana; Souza, 2021).
A Justiça Desportiva não faz parte do Poder Judiciário e possui diferenças
fundamentais em relação à Justiça Comum, sendo uma justiça de natureza
administrativa e ministerial (Bastos, 2000).

O acesso à Justiça no Direito Desportivo é regulado pelo parágrafo 1º do


Art. 217 da Constituição Federal, que estabelece que, para levar demandas
ao Judiciário relacionadas a competição e disciplina, as instâncias da Justiça
Desportiva devem ser esgotadas ou não resolvidas dentro de 60 dias.

Figura 10. Constituição Federal Brasileira

Fonte: Wikimedia Commons (2023).


#ParaTodosVerem: imagem da capa do livro da Constituição da República Federativa do Brasil,
vinculado ao Senado Federal. Na capa, uma representação da bandeira do Brasil na vertical, o sím-
bolo do Senado Federal, o título do livro e uma breve nota sobre a edição.

65
Capítulo 2

Existem correntes divergentes sobre a constitucionalidade dessa res-


trição. Uma argumenta que o art. 217, §1º, entra em conflito com o princípio
da inafastabilidade da jurisdição, enquanto outra sustenta que, por ser uma
imposição do poder constituinte originário, não há inconstitucionalidade,
pois são normas de natureza originária e ilimitada (Neves, 2017). O Tribunal
de Justiça de São Paulo, em uma decisão única, reconheceu a desnecessi-
dade de esgotamento da via administrativa para recorrer ao Judiciário em
questões desportivas, considerando que o art. 217 da Constituição Federal
está em desacordo com o Art. 5º (Brasil, 1998).

Essas proibições, presentes nos estatutos da FIFA e CBF, visam priorizar


meios extrajudiciais de resolução de disputas, como mediação e arbitragem.
Somente após esgotadas todas as instâncias internas é permitido recorrer
exclusivamente ao Tribunal Arbitral do Esporte, sediado na Suíça (FIFA, 2021).

No contexto dos conflitos atuais, observa-se que o modelo de produção


do Direito ainda se baseia em uma dogmática jurídica voltada para conflitos
interindividuais, enquanto a sociedade moderna e complexa está repleta
de conflitos transindividuais. Diante da crise do Estado, resultante da globa-
lização e suas diversas implicações (econômicas, jurídicas, políticas, sociais
e culturais), surgiu a necessidade de repensar o papel do Estado (Spengler,
2017). A Resolução Alternativa de Controvérsias (ADR), um processo em que
um terceiro neutro, como um mediador ou árbitro, auxilia as partes envol-
vidas a alcançar um acordo, oferece uma alternativa ao litígio (Shonk, 2024).

A resolução de disputas fora dos tribunais não é algo novo, como obser-
vado. O que é verdadeiramente inovador é a extensa promoção e proliferação
dos modelos ADR. De fato, a tendência de resolver conflitos fora da esfera do
Estado também é encontrada em outros países, como Canadá e Estados Unidos,
que já incorporaram métodos alternativos de resolução de conflitos em seus
sistemas jurídicos, alguns dos quais são implementados online (Ferrari, 2021).

Além disso, esses meios proporcionam uma redução da inflação pro-


cessual, auxiliando na busca por um sistema forense de maior qualidade e
celeridade, além da diminuição da demora e dos custos do processo, bem
como na melhoria efetiva da qualidade e na facilitação do acesso à justiça
pelo cidadão (Spengler; Saraiva, 2019).

O direito desportivo, caracterizado pela sua natureza multicultural que


transcende fronteiras, abrangendo diversas nações, culturas e religiões, reve-
la-se desafiador quando se trata de resolver litígios específicos desse universo.
A submissão de conflitos dessa natureza a uma jurisdição estatal específica de
um país torna-se problemática devido à diversidade de ordenamentos jurídicos.

66
Capítulo 2

É válido observar que os litígios no desporto não se restringem exclusi-


vamente aos aspectos trabalhistas, embora esses sejam os mais divulgados
pela mídia. Questões jurídicas relacionadas a contratos de imagem, trabalho,
patrocínio, locação e uso de arenas, entre outras, também requerem soluções
específicas (Câmara de Mediação e Arbitragem Nacional e Internacional, 2020).

Figura 11. Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA)

Fonte: Wikimedia Commons (2023).


#ParaTodosVerem: imagem do logotipo comemorativo do CBMA de 20 anos com detalhes em ver-
de. Ao lado esquerdo, na parte de cima, consta a sigla “CBMA”, abaixo a escrita “Centro Brasileiro
de Mediação e Arbitragem” e, à direita, escrito 20 anos.

A aplicação da arbitragem encontra limitações, especialmente em


questões disciplinares e competições, devido à competência atribuída pela
Constituição à Justiça Desportiva, conforme disposto no art. 217. Além disso,
a atuação eficaz dos membros das Cortes Disciplinares nacionais restringe
a aplicação da arbitragem em determinados contextos (Costa, 2012).

Apesar de ser uma opção disponível para a resolução de conflitos despor-


tivos no Brasil, a arbitragem ainda é subutilizada. Os casos levados às câmaras
privadas são escassos, principalmente devido à falta de familiaridade das enti-
dades desportivas com as vantagens desse procedimento (Sordi, 2015).

Outro aspecto relevante é a necessidade de conhecimento especializa-


do por parte dos árbitros responsáveis por decidir os litígios. A agilidade e
flexibilidade dos procedimentos, aliadas à diversidade de partes envolvidas
e aos impactos das decisões em competições em andamento, enfatizam a
importância desse conhecimento especializado (Sordi, 2015).

No âmbito internacional, as demandas desportivas são frequentemen-


te encaminhadas ao Tribunal Arbitral do Esporte, sediado na Suíça, referên-
cia mundial na resolução de problemas relacionados a comitês olímpicos,

67
Capítulo 2

clubes, atletas, transferências e casos de doping. Esse tribunal será aborda-


do mais detalhadamente em tópico posterior.

Figura 12. Sede do Tribunal Arbitral do Esporte

Fonte: Wikimedia Commons (2012).


#ParaTodosVerem: imagem mostra céu azul, casa com dois andares ao centro. A casa tem janelas
verdes, um lago à frente e gramado ao redor, além de quatro árvores ao fundo e três arbustos na
frente da casa.

No cenário brasileiro, é necessário conscientizar as partes envolvidas so-


bre as vantagens da arbitragem na solução de conflitos desportivos, ampliando
seu uso não apenas em casos de menor relevância, mas também em grandes
conflitos, como contratos comerciais e transferências de atletas (Sordi, 2015).

Observa-se um movimento no país, liderado por doutrinadores e pro-


fissionais da área, que propõe a reavaliação do modelo da Justiça Desportiva
brasileira, considerando a profissionalização e racionalização do setor. A
ideia é implantar um sistema arbitral baseado na Lei 9.307/96, semelhante ao
adotado em alguns centros especializados no Rio de Janeiro (Ezabella, 2021).

A criação da Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) pela


Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é um exemplo recente dessa busca por
soluções consensuais no desporto brasileiro. A CNRD foi estabelecida para resol-
ver litígios envolvendo entidades do futebol no Brasil, e suas decisões podem ser
objeto de recurso para o Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA).

68
Capítulo 2

A CNRD, embora não se enquadre estritamente como um centro arbitral


nos termos da Lei 9.307/96, apresenta singularidades em sua composição
e funcionamento. A presença de cinco membros, indicados por diferentes
entidades, busca assegurar isonomia nos julgamentos. No entanto, a falta
de liberdade das partes para escolher os árbitros levanta questionamentos
sobre sua natureza jurídica (Alves; Silva, 2017).

A atuação da CNRD é marcada pela celeridade, com prazos definidos


para proferir decisões. A composição diversificada de seus membros visa
garantir imparcialidade nos julgamentos. Apesar de suas características
singulares, a CNRD é considerada uma forma consensual de solução de
conflitos, mesmo que seu respaldo legal seja questionado (Pereira, 2011).

Críticas à sua atuação incluem comparações com a arbitragem, apon-


tando características de mediação e a ausência de respaldo legal claro, uma
vez que não segue a Lei 9.307/96. No entanto, sua adesão voluntária e sua
natureza consensual a destacam como uma opção válida para a resolução
de disputas no âmbito desportivo brasileiro (Alves; Silva, 2017).

A CNRD enfrenta desafios, como a resistência da Justiça do Trabalho,


que, em virtude do princípio de proteção ao empregado, questiona a valida-
de de suas decisões. O embate entre a CNRD e a Justiça do Trabalho reflete
a busca por soluções que conciliam eficiência e respeito aos direitos dos
envolvidos (Alves; Silva, 2017).

O Tribunal Arbitral do Esporte (TAS), também conhecido como Tribunal


Arbitral du Sport, em francês, ou Court of Arbitration for Sport (CAS), em inglês,
encontra-se situado na cidade de Lausanne, Suíça. Foi estabelecido em 1983
pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), sob a presidência de Juan Antonio
Samaranch. Embora o estatuto do TAS tenha sido aprovado em 1983, suas ope-
rações tiveram início em 1984, após o Congresso Olímpico de Baden-Baden.

Essa corte de arbitragem, independente de federações ou comitês, tem


sede na Suíça, e suas decisões, conforme estipulado no Estatuto FIFA, de-
vem sempre respeitar seus próprios estatutos e regulamentos, recorrendo
à legislação suíça em caso de omissões. O TAS tem como propósito principal
a resolução de conflitos desportivos por meio de arbitragem ou mediação,
utilizando um código próprio denominado CODE, o qual abrange tanto a
divisão arbitral ordinária quanto a divisão arbitral de apelação (destinada a
servir como instância de recurso para decisões de Federações, Associações
e Comitês que a reconhecem como competente) (Prado, 2012, p. 39).

69
Capítulo 2

Na década de 1980, o aumento nos litígios internacionais relacionados


ao esporte e a carência de uma autoridade independente especializada le-
varam as organizações desportivas a questionar o modelo de resolução de
disputas então vigente (Seckelmann, 2017). Na época, o presidente do COI
propôs uma organização jurídica para evitar possíveis problemas decorren-
tes da consideração do COI como uma associação civil de direito internacio-
nal, conforme a Carta da instituição, ressaltando sua independência frente
aos poderes públicos nacionais e internacionais (Oliveira, 2012).

Para realizar essa organização jurídica, o presidente do COI convocou


Kebba Mbaye, magistrado da Corte Internacional de Justiça, que ficou en-
carregado de reestruturar o Comitê e propôs a criação de um tribunal para
julgar lides desportivas por meio da arbitragem. A proposta foi aceita, re-
sultando na criação do TAS em 1984 (Oliveira, 2012). A intenção ao estabe-
lecer o TAS era desvincular o julgamento de litígios desportivos do sistema
judiciário comum, criando um tribunal especializado para eficiente, rápida e
flexível resolução de controvérsias desse tipo (Seckelmann, 2017).

Figura 13. Kéba Mbaye

Fonte: Foundation Kebba Mbaye (2017).


#ParaTodosVerem: fotografia de Kéba Mbaye, um juiz senegalês. Ele está vestido de toga preta
com lenço branco com detalhes em renda ao redor do pescoço. Ao fundo, uma parede marrom.

O TAS, ao longo de sua atuação, julgou diversas causas, inclusive casos


envolvendo clubes brasileiros, como o Esporte Clube Internacional em 2014,
no caso Victor Ramos, que alegava o não cumprimento das normas que re-
gulamentam as transferências internacionais no futebol (Oliveira, 2012). As

70
Capítulo 2

decisões proferidas pelo Tribunal orientam órgãos que regulam o esporte,


além de influenciar a conduta de atletas, clubes e outros envolvidos em
diversas modalidades e negócios relacionados ao esporte (Sordi, 2015).

Em resumo, a função primordial do TAS é unificar a jurisprudência,


retirando os casos do âmbito da justiça comum para evitar a interferência
estatal. A corte atende satisfatoriamente às demandas submetidas em um
tempo hábil. É importante ressaltar que o TAS é uma entidade privada e não
governamental, situada na Suíça, e presta serviços de resolução de conflitos
em questões relacionadas a esportes olímpicos, não olímpicos e controvér-
sias de caráter comercial relacionadas ao esporte (Seckelmann, 2017).

A aplicação de mediação e arbitragem é fundamental para a solução


de controvérsias, excluindo questões disciplinares e relacionadas ao doping
na mediação. Podem acionar o TAS quaisquer entidades e pessoas físicas
envolvidas com o esporte, como clubes, atletas, federações, agentes, patro-
cinadores e empresas, não sendo obrigatório filiar-se à FIFA ou a qualquer
outra entidade desportiva (Seckelmann, 2017).

Figura 14. Propaganda da World Anti-Doping Agency (WADA)

Fonte: Wikimedia Commons (2018).


#ParaTodosVerem: imagem do logotipo da agência antidoping WADA, em fundo branco. À esquerda,
está escrito “World Anti-Doping Agency”; à direita, um quadrado preto com duas faixas verdes paralelas.

A Suprema Corte Suíça reconheceu o TAS como um dos principais pila-


res do esporte organizado, destacando sua importância na solução diligente
e acessível de litígios desportivos. A estrutura do tribunal compreende uma
câmara de primeira instância (Divisão de Arbitragem Ordinária) e uma câ-
mara de apelação (Divisão de Arbitragem de Apelação) (Seckelmann, 2017).

O TAS é conhecido por sua autonomia e imparcialidade, asseguradas


por seu estatuto e regulamento. Para garantir a independência, o tribunal

71
Capítulo 2

possui um conselho de administração e uma comissão de apelação, com


membros internacionais escolhidos de maneira equitativa. Essa composi-
ção plural visa evitar a influência de interesses específicos e garantir a inte-
gridade do processo decisório (Seckelmann, 2017).

O código de procedimento do TAS estabelece as regras processuais


para a arbitragem, fornecendo uma estrutura eficaz para a resolução de
disputas. As decisões do tribunal são finais e definitivas, com base no prin-
cípio da arbitragem voluntária, e não podem ser objeto de recurso perante
outro tribunal suíço ou estrangeiro (Seckelmann, 2017).

O acesso ao TAS é aberto a diversas entidades e indivíduos envolvidos


no esporte, como clubes, atletas, federações, agentes, patrocinadores, em-
presas, entre outros, não sendo obrigatório que estejam filiados à FIFA ou a
qualquer outra entidade esportiva (Seckelmann, 2017).

É importante notar que a atuação do Tribunal vai além da análise de


atos anteriores à ocorrência de conflitos; ela se estende à própria decisão
de recorrer ao TAS para resolver controvérsias quando surgem. As partes
devem avaliar elementos processuais e financeiros ao apresentar uma de-
manda ao Tribunal, decidindo se a arbitragem é a melhor alternativa para
solucionar o litígio (Sordi, 2015).

O TAS é rigoroso em relação à sua jurisdição e competência. A previsão


que permite que uma parte encaminhe uma disputa ao Tribunal deve ser
clara, e a submissão do conflito requer a existência de uma previsão expres-
sa contratual, seja por meio de cláusula ou compromisso arbitral, conforme
o princípio da liberdade contratual (Seckelmann, 2017).

O procedimento do TAS é regido pelo “Code: Procedural Rules”, elabora-


do com base nos Arts. 176 a 194 do Swiss Private International Law Act (PILA),
que governa toda a arbitragem internacional na Suíça. O Tribunal, além de
atuar como órgão judicante e de apelação, também funciona como órgão
consultivo (Seckelmann, 2017).

Quanto à atuação do TAS como órgão de apelação, Oliveira (2012) des-


taca que é uma submissão convencionada pela cláusula compromissória,
estabelecida sob a forma de estatuto, configurando um contrato de adesão.
Essa submissão é estabelecida pela respectiva federação esportiva, sendo
importante notar que a aprovação dos estatutos ocorre de forma demo-
crática. Observa-se que, para um conflito chegar à Corte Suíça, deve haver
uma cláusula expressa no contrato ou o compromisso arbitral. No âmbito
esportivo, isso é comum, pois as associações frequentemente estipulam

72
Capítulo 2

em seus estatutos e regulamentos que qualquer disputa deve ser resolvida


por meio de arbitragem, e o atleta concorda com essa proposta ao assinar
a declaração antes da competição (Seckelmann, 2017).

Enquanto órgão consultivo, o TAS pode ser consultado por várias en-
tidades reconhecidas pelo COI, além do próprio COI, federações interna-
cionais, comitês olímpicos nacionais, Agência Mundial Antidoping, comitês
organizadores dos Jogos Olímpicos, sobre qualquer questão vinculada ao
esporte. Após a consulta, o Tribunal emite um parecer com seu entendi-
mento sobre o assunto (Oliveira, 2012).

O TAS é composto por 20 membros com notável saber jurídico, no-


meados por um período renovável de quatro anos. Essa composição visa
garantir a representação de todos os participantes do mundo esportivo,
incluindo federações esportivas internacionais, a associação dos comitês
olímpicos, o Comitê Olímpico Internacional e os atletas (Oliveira, 2012).

Quanto às fontes utilizadas em suas decisões, o Código do TAS estabe-


lece que o painel decidirá a disputa conforme as normas legais acordadas
pelas partes ou, na ausência delas, conforme o direito suíço. O Tribunal
busca integrar um conjunto de fontes que abrange desde princípios especí-
ficos do direito desportivo, como o fair play, até princípios gerais de direito
e regulamentos estabelecidos pelas federações (Calixto, 2013).

A jurisprudência do Tribunal Arbitral do Esporte fortalece as regras e


princípios do direito desportivo internacional. Suas decisões contribuem para
o desenvolvimento da lex sportiva, um conjunto de normas produzidas em
um pluralismo jurídico global sem a intervenção dos Estados (Sordi, 2015).

73
4
4. PRINCIPAIS DIFERENÇAS
ENTRE AS NORMAS DA FIFA E CBF
E SEUS IMPACTOS

A FIFA é uma associação registrada no Registro Mercantil do cantão de


Zurique, conforme os arts. 60 e seguintes do Código Civil Suíço. Sua sede
está localizada em Zurique, Suíça. Para que eventualmente mude de sede,
será necessário a aprovação do congresso suíço (FIFA, 2020).

Figura 15. Sede FIFA

Fonte: Wikimedia Commons (2009).


#ParaTodosVerem: imagem da sede da FIFA. Um prédio espelhado, grama verde em volta, três árvores
ao lado esquerdo, rampa preta até a porta e céu azul ao fundo.

74
Capítulo 2

Os objetivos incluem a melhoria contínua do futebol e sua promoção


em todo o mundo, considerando seu caráter universal, educativo e cultu-
ral, juntamente com seus valores humanitários. Isso é alcançado por meio
de programas juvenis e de desenvolvimento, organização de competições
internacionais, elaboração de regulamentos para o futebol e sua aplicação,
controle das diversas formas do esporte, promoção da prática inclusiva do
futebol, fomento do futebol feminino e integridade esportiva (FIFA, 2020).

Conforme seu regulamento FIFA (2020), há o comprometimento a res-


peitar os direitos humanos reconhecidos pela comunidade internacional,
esforçando-se para garantir o respeito desses direitos. A discriminação com
base em raça, cor, origem étnica, nacional ou social, gênero, deficiência,
língua, religião, orientação política, poder aquisitivo, local de nascimento,
orientação sexual ou qualquer outra razão é proibida e passível de suspen-
são ou expulsão. A FIFA declara neutralidade em relação à política e religião,
com exceções que afetem seus objetivos estatutários.

O Conselho regulamentará periodicamente, por meio de regulamen-


tos específicos, a categoria profissional dos jogadores, suas transferências
e outras questões relacionadas, incluindo o estímulo à formação de jogado-
res pelos clubes e a proteção das seleções.

Ainda conforme as suas disposições, a FIFA (2020) incentiva relações


cordiais entre federações, membros, confederações, clubes, oficiais e joga-
dores, assim como na sociedade, com objetivos humanitários, oferecendo
meios institucionais para resolver disputas entre as partes. As federações
que fazem parte de um mesmo continente formaram as seguintes confedera-
ções reconhecidas pela FIFA: CONMEBOL, Confederação Asiática de Futebol
(AFC), União das Federações Europeias de Futebol (UEFA), Confederação
Africana de Futebol (CAF), Confederação de Futebol da América do Norte,
Central e Caribe (Concacaf) e Confederação de Futebol da Oceania (OFC).
O reconhecimento das confederações pela FIFA implica respeito mútuo à
autoridade de cada instituição em sua área de competência institucional.
Em circunstâncias excepcionais, a FIFA pode permitir que uma confedera-
ção aceite como membro uma federação de outro continente mediante a
opinião da confederação à qual a federação geograficamente pertence.

75
Capítulo 2

Figura 16. Logotipo CONMEBOL.

Fonte: Wikimedia Commons (2018).


#ParaTodosVerem: imagem do logotipo da CONMEBOL composto por uma bola de futebol azul,
com o formato da América do Sul ao centro e, abaixo, escrito CONMEBOL em azul.

!
Importante
A União das Federações Europeias de Futebol (UEFA), a Confederação
Asiática de Futebol (AFC), a Confederação de Futebol da Oceania
(OFC), a Confederação Africana de Futebol (CAF), a Confederação
Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL) e Confederação de Futebol
da América do Norte, Central e Caribe (CONCACAF) são as confede-
rações reconhecidas pela FIFA.

Todos os órgãos oficiais devem obedecer aos Estatutos, regulamen-


tos, decisões e ao Código Ético da FIFA. Em circunstâncias excepcionais, o
Conselho pode excluir os órgãos executivos das federações membros de
suas funções, substituindo-os por um comitê de regularização. Todas as
pessoas e entidades envolvidas no futebol devem obedecer aos Estatutos e
Regulamentos da FIFA, bem como aos princípios de jogo limpo.

Os idiomas oficiais da FIFA são alemão, espanhol, francês e inglês. O


inglês será o idioma oficial para atas, correspondência oficial e comunica-
dos. As federações membros são responsáveis por traduzir os textos para
o idioma de seu país. Os idiomas oficiais do Congresso são alemão, árabe,
espanhol, francês, inglês, português e russo. Os Estatutos, o Regulamento
de Aplicação dos Estatutos, o Regulamento do Congresso, as decisões e
comunicados da FIFA serão redigidos nos quatro idiomas oficiais, sendo a
versão em inglês vinculativa em caso de divergência.

76
Capítulo 2

O Congresso decide sobre a admissão, suspensão ou expulsão de fede-


rações membros conforme recomendado pelo Conselho. Federações que
organizam e supervisionam o futebol em seu país podem tornar-se mem-
bros da FIFA. Cada país terá apenas uma federação membro, exceto com
autorização da federação do país de origem, permitindo que a federação de
uma região sem independência solicite a admissão na FIFA. As federações
filiadas a uma confederação podem se tornar membros mediante solicita-
ção por escrito à Secretaria Geral da FIFA, acompanhada dos estatutos da
federação, que devem incluir disposições obrigatórias.

As federações que são participantes devem obedecer aos Estatutos,


regulamentos e decisões da FIFA, participar de competições, pagar a taxa
de membro, garantir que seus membros respeitem as regras, convocar seu
órgão legislativo pelo menos a cada dois anos, ratificar estatutos conforme
os requisitos da FIFA, criar uma comissão de árbitros, respeitar as Regras de
Jogo, administrar seus assuntos de forma independente e cumprir todas as
obrigações estatutárias.

Os estatutos incluem disposições sobre neutralidade política e religiosa,


proibição de discriminação, independência e prevenção de interferência
política, garantia da independência dos órgãos judiciais, aceitação das re-
gras de jogo, princípios de lealdade, integridade, esportividade e jogo limpo.

O congresso pode suspender uma federação membro mediante re-


comendação do Conselho. Em casos graves, o conselho pode suspender
temporariamente, com efeito imediato, até o próximo congresso. A suspen-
são requer três quartos dos votos do Congresso e deve ser confirmada no
Congresso seguinte. Federações suspensas perdem seus direitos, e aquelas
que não participam de competições por quatro anos consecutivos perdem
o direito de voto no Congresso.

A expulsão de uma federação membro só ocorre mediante pedido do


conselho, por descumprimento financeiro, violação grave dos estatutos ou
perda de status de representante do futebol do país. A exclusão requer
mais de 50% das federações com direito a voto no congresso, e a proposta
deve ser aprovada por três quartos dos votos válidos. As federações podem
renunciar à FIFA até o final do ano civil, desde que notifiquem a secretaria
geral com seis meses de antecedência e quitem suas obrigações financei-
ras. Os clubes, ligas ou entidades afiliadas estão subordinados a esta e só
podem existir com seu consentimento.

77
Capítulo 2

O congresso tem o poder de conferir o título de presidente, vice-presi-


dente ou membro honorário a antigos membros do conselho que se desta-
caram por seus serviços em prol do futebol. Os candidatos são propostos
pelo conselho, e esses presidentes, vice-presidentes e membros honorários
podem participar do congresso e debates, mas sem direito a voto.

Os órgãos principais incluem o congresso (legislativo supremo), o conse-


lho (estratégico e supervisor), a secretaria geral (executivo) e comissões per-
manentes e especiais. As eleições para presidente, vice-presidente e membros
de várias comissões seguem procedimentos específicos. O congresso, que
pode ser ordinário ou extraordinário, é responsável pela aprovação e modi-
ficação de Estatutos, regulamento de aplicação e regulamento do congresso.

A composição do conselho da FIFA é completa por 37 membros, incluindo


um presidente, oito vice-presidentes e 28 membros adicionais. O presidente
é eleito pelo congresso para um mandato de quatro anos, não podendo exer-
cer mais de três mandatos consecutivos ou não consecutivos. Os vice-presi-
dentes e membros do conselho são eleitos pelas federações membros em
seus respectivos congressos por confederação, com um mandato de quatro
anos, também limitado a três mandatos. As vagas são distribuídas por con-
federação, sendo designados vice-presidentes e membros conforme as con-
federações. Para promover a diversidade de gênero, devem apresentar pelo
menos uma candidatura feminina para a eleição do conselho. Se nenhuma
candidata for eleita, a vaga permanecerá vaga até a próxima eleição.

Figura 17. Gianni Infantino, presidente da FIFA

Fonte: Wikimedia Commons (2019).


#ParaTodosVerem: fotografia de Gianni Infantino, com fundo branco, de terno preto e gravata
vermelha; ao lado direito, uma estrela com faixa azul. Ao fundo, duas cortinas verdes e, ao meio,
uma cortina branca. À frente de Gianni, uma bancada branca com dois microfones.

78
Capítulo 2

Cada federação membro só pode ter um representante no conselho.


Em caso de impedimento permanente ou temporário do presidente, o vice-
-presidente mais antigo assume até a próxima eleição. Os vice-presidentes
ou membros do conselho ausentes são permanentemente substituídos pe-
los membros da confederação que os elegeram.

O conselho tem várias competências, incluindo a definição de objetivos,


direção estratégica e políticas da FIFA, decisões sobre questões comerciais
e econômicas, supervisão da administração geral da FIFA, aprovação de
orçamento e contas, nomeação de presidentes e membros de comissões
permanentes, entre outras responsabilidades.

As comissões permanentes, como a Comissão de Governança, Comissão de


Finanças e Comissão de Desenvolvimento, assessoram o conselho em diferentes
áreas. A Comissão de Governança realiza exames de idoneidade e a Comissão
de Finanças cuida da gestão financeira. A Comissão de Desenvolvimento é res-
ponsável pelos programas globais de desenvolvimento da FIFA.

A Comissão de Árbitros, responsável por supervisionar a aplicação das


regras de jogo, é encarregada de designar árbitros e árbitros assistentes
para competições da FIFA. A Comissão de Medicina aborda aspectos médi-
cos, incluindo luta antidoping.

A Conferência Anual das Federações Membro, organizada pela FIFA, reú-


ne presidentes ou principais dirigentes para abordar questões relevantes para
o futebol, como desenvolvimento, integridade, responsabilidade social, gover-
nança, direitos humanos e segurança. As Comissões Independentes, como a
Comissão de Auditoria e Conformidade, garantem independência institucional.

Os órgãos judiciais, como a Comissão Disciplinar, a Comissão de Ética


e a Comissão de Apelação, são responsáveis por tomar decisões disciplina-
res conforme os códigos correspondentes. Medidas disciplinares, conforme
estabelecido no Código Disciplinar da FIFA, incluem advertências, multas,
suspensões e outras sanções para indivíduos e entidades.

O Tribunal de Arbitragem Desportiva (TAD), sediado em Lausanne, é


reconhecido para resolver disputas entre a FIFA e outras entidades. As fi-
nanças são gerenciadas em ciclos quadrienais, com auditorias e controle
das contas. As federações membro pagam suas cotas anuais, e a FIFA pode
deduzir valores para saldar dívidas.

A FIFA detém os direitos sobre competições e eventos, decidindo sobre


sua aplicação e autorizando a distribuição de imagens e sons. A escolha dos

79
Capítulo 2

organizadores das competições finais, exceto a Copa do Mundo, segue um


processo detalhado. O calendário internacional é elaborado pelo Conselho,
e os regulamentos são estabelecidos para partidas e competições interna-
cionais. Em caso de dissolução da FIFA, seus ativos são transferidos para o
tribunal supremo do país-sede.

No âmbito da organização de partidas, são permitidos agentes orga-


nizadores, desde que licenciados pelas confederações ou pela FIFA, de-
pendendo da natureza da competição. Intermediários também são reco-
nhecidos para contratos de jogadores, com o conselho regulamentando as
relações com esses agentes.

As regras de elegibilidade para jogar nas seleções nacionais abordam a


nacionalidade, exigindo presença física mínima no território da federação.
Além disso, o regulamento trata das situações em que um jogador pode
representar mais de uma federação, considerando nascimento, ancestra-
lidade ou residência. O processo de adoção de uma nova nacionalidade,
a elegibilidade de apátridas (indivíduos que não são titulares de qualquer
nacionalidade) e as condições para a mudança de federação também são
detalhadamente descritos. Essas regras visam garantir a integridade espor-
tiva e a justiça nas competições internacionais.

O regulamento abrange ainda temas como ascensão e descenso de


categorias, modificações nas Regras de Jogo, designação e remuneração
de árbitros, entre outros. O Congresso, representado por delegados das
federações, tem regras específicas de participação, presidência, debates e
procedimentos de votação.

No tocante às votações, o regulamento do congresso da FIFA estabe-


lece que o voto secreto é proibido, não sendo permitido o voto por procu-
ração ou carta quando o congresso é presencial. Em congressos realizados
por meios virtuais, como teleconferência ou videoconferência, o voto por
correspondência ou online é permitido. Antes de cada votação, a presidên-
cia lê em voz alta o texto da proposta e explica o procedimento de votação,
podendo haver votação nominal se solicitado por pelo menos 15 federações
presentes. O voto não é obrigatório, sendo realizado por meio de mãos le-
vantadas ou dispositivos eletrônicos.

Quanto às eleições, estas são feitas por voto secreto, seja por cédulas
ou por dispositivos eletrônicos que garantam o segredo do voto. Os resul-
tados são anunciados pelo presidente do Congresso, e o secretário-geral
dirige o escrutínio. As papeletas são guardadas em envelopes especiais e
destruídas após cem dias do encerramento do congresso.

80
Capítulo 2

O cálculo de maiorias nas eleições e votações leva em consideração o


número de votos válidos depositados, desconsiderando votos em branco,
nulos e abstenções. A maioria absoluta é calculada com base no número
de federações presentes com direito a voto. Em caso de introdução de múl-
tiplas papeletas no mesmo envelope, o último voto emitido é considerado
válido.

4.1 REGULAMENTAÇÃO GERAL DAS


COMPETIÇÕES DA CBF
O Regulamento Geral das Competições (RGC) foi desenvolvido pela CBF
em 2020 no exercício da autonomia constitucional desportiva, visando con-
cretizar princípios, sendo algum deles o da integridade, ética, estabilidade
das competições e fair play desportivo. O objetivo é garantir a imprevisibili-
dade dos resultados, igualdade de oportunidades, equilíbrio nas disputas e
a credibilidade de todos os envolvidos. Quanto às necessidades de preven-
ção de comportamentos antidesportivos, violência, dopagem, corrupção,
manifestações político-religiosas, racismo, xenofobia, etc.

Figura 18. Escudo CBF.

Fonte: Wikimedia Commons (2020).


#ParaTodosVerem: imagem do símbolo da CBF, um escudo com o formato azul, fundo azul claro
e uma cruz com detalhes em amarelo e verde ao centro; acima, 5 estrelas verdes.

As competições nacionais oficiais de futebol, referidas como competições,


são coordenadas pela CBF, que detém exclusividade sobre todos os direitos
relacionados a elas. Essas competições são regidas por três regulamentos: o

81
Capítulo 2

Regulamento Geral de Competições (RGC), que trata de questões comuns a


todas as competições; o Regulamento Específico da Competição (REC), que
abrange o sistema de disputas e outras matérias específicas vinculadas a de-
terminada competição; e o Regulamento Geral de Marketing (RGM), que lida
com questões de marketing relacionadas às competições.

Os Clubes e seus atletas, ao participarem das competições, assim como


as Federações estaduais, aderem automaticamente ao RGC, reconhecendo
os plenos poderes da CBF para decidir, de forma definitiva e administrativa,
todas as questões de sua competência e resolver problemas e demandas
que possam surgir durante as competições regidas por este regulamento.

O Regulamento Geral de Competições (RGC) elaborado pela Confederação


Brasileira de Futebol (CBF) é uma expressão da autonomia constitucional
desportiva, visando concretizar os princípios de integridade, ética, continui-
dade, estabilidade, fair play, imparcialidade, verdade e segurança desportiva.
Estabelece normas para as competições nacionais de futebol no Brasil, abor-
dando questões como comportamento antidesportivo, violência, dopagem,
corrupção, manifestações político-religiosas, racismo e discriminação.

O RGC compreende três regulamentos fundamentais: RGC, REC e RGM,


que abordam aspectos comuns, sistema de disputas e questões de marketing
relacionadas às competições coordenadas pela CBF, respectivamente. Além
disso, as competições estão sujeitas a normas da FIFA, CBF, CBJD e regulamen-
tações de combate à dopagem, além das regras do jogo definidas pela IFAB.

Dica de Leitura
O livro Regras do Jogo, que foi lançado em 2023 pela International
Football Association Board (IFAB), é uma versão traduzida do ma-
terial que visa compartilhar a linguagem do futebol e pode ajudar
a compreender o modo de funcionamento dos jogos.

A CBF, como coordenadora das competições, possui competências


como delegar atribuições, autorizar exploração comercial, aprovar ações
promocionais, autorizar a transmissão de partidas, entre outras. A Diretoria
de Competições (DCO) atua como órgão gestor técnico, elaborando e fa-
zendo cumprir regulamentos, calendários e tabelas, além de supervisionar
a Ouvidoria das Competições. Federações estaduais têm responsabilidades
como garantir logística e segurança das partidas, ceder estádios, fiscalizar
clubes e realizar inspeções. Os clubes, por sua vez, têm obrigações como ga-
rantir condições adequadas nos estádios, prevenir desordens, ceder estádios
quando requisitados, e cumprir acordos comerciais e projetos especiais.

82
Capítulo 2

O Regulamento Geral das Competições (RGC) estabelece diversas normas


e diretrizes para a realização de eventos esportivos, especialmente no contexto
de partidas de futebol. Algumas das disposições incluem restrições à instalação
de arquibancadas provisórias nos estádios, salvo se atenderem rigorosamente
aos padrões técnicos e de segurança exigidos pela legislação. Partidas podem
ser adiadas, interrompidas ou suspensas por motivos como falta de seguran-
ça, mau estado do gramado, falta de iluminação adequada, entre outros. O
árbitro aguardará até 30 minutos, prorrogáveis por mais 30, para decidir sobre
a suspensão da partida. O árbitro também pode suspender a partida mesmo
com garantias oferecidas pelo chefe do policiamento em casos específicos.

Em caso de suspensão da partida, as regras estabelecem que o Clube


responsável terá a derrota declarada por 3 a 0 se estivesse vencendo ou em-
patado, e o adversário será declarado vencedor pelo mesmo placar ou pelo
placar do momento da suspensão se estivesse perdendo. A situação de um
Clube não responsável dependerá da Justiça Desportiva, especialmente se
depender de saldo de gols para classificação. Duas horas antes do horário
agendado para o início da partida, uma reunião administrativa envolven-
do o Delegado do Jogo, árbitro, responsável pela Polícia Militar no estádio,
responsável pelos gandulas e macas, médico (se aplicável) e um supervisor
de cada equipe é conduzida. Nessa reunião, são ratificados os uniformes
definidos, horários de entrada, orientações sobre aquecimento, verificação
da documentação, questões de segurança e outros pontos pontuais.

O Clube mandante, conforme o Art. 28, tem a prerrogativa de escolher


o vestiário a ser utilizado. Não é permitida a realização de partidas em es-
tádios com portões abertos, exceto em competições não profissionais, se
decidido pela DCO. Todo atleta relacionado para uma partida está sujeito
a exames de verificação de dopagem, seguindo as normas da legislação
específica. A realização de partidas preliminares está sujeita à aprovação da
DCO, com solicitação formal com pelo menos 10 dias de antecedência.

O Capítulo 4, da lei, aborda a condição de jogo dos atletas. Para par-


ticipar de competições coordenadas pela CBF, os atletas devem atender
simultaneamente aos requisitos de vínculo não profissional ou contrato de
trabalho, inscrição na competição e cumprimento das exigências do RGC e
REC correspondente. A responsabilidade de garantir a condição de jogo é
exclusiva dos clubes. A suspensão da condição de jogo pode ocorrer devido
a sanções da Justiça Desportiva ou Antidopagem, CNRD, aplicação de car-
tões vermelhos ou amarelos, conforme estabelecido nos Arts. 34 e 35.

O processo de registro de atletas inicia-se na Federação à qual o Clube


está filiado. Somente clubes participantes de competições profissionais

83
Capítulo 2

coordenadas pela CBF, estaduais ou femininas podem registrar contratos


de trabalho. Irregularidades no registro e/ou transferência são de compe-
tência da CNRD. Os RECs definem os prazos limites de inscrição de atletas
na competição, e a renovação de contrato de trabalho pode manter a con-
dição de jogo, desde que publicada no Boletim Informativo Diário (BID) em
até 15 dias após o término do contrato anterior.

Figura 19. Exemplo de BID.

Fonte: CBF (2023).


#ParaTodosVerem: imagem mostra foto de um jogador com uniforme do Palmeiras, com fundo
branco. Ao lado, dados de quando começou o contrato de base, seu apelido, número de contrato,
inscrição e quando foi cadastrado.

Há restrições quanto à idade e número de atletas não profissionais


e estrangeiros nas súmulas das partidas. O texto abrange ainda questões
relacionadas à transferência de atletas entre clubes na mesma competição,
limites de atuações durante a temporada, e a contagem para o limite de
registros. Os Art. 47 a 63 do Regulamento Geral de Competições (RGC) esta-
belecem normas e penalidades relacionadas à condição de jogo dos atletas,
bem como disposições disciplinares.

No contexto de punições, o regulamento estabelece que em casos de


perda de mando de campo, a Diretoria de Competições (DCO) é responsá-
vel por determinar o local da partida, considerando uma distância superior
a 100 km da cidade-sede do clube punido. A DCO também pode escolher
um estádio em outro estado, contanto que haja concordância da federação
local. A execução da penalidade ocorre após 10 dias da comunicação da
decisão da Justiça Desportiva, levando em conta questões logísticas e ne-
cessidade de reservas de voos e hospedagem.

Quanto à suspensão por partida aplicada a atletas ou membros da


comissão técnica pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), o cum-
primento ocorre nas partidas subsequentes da mesma competição.

Para situações graves de violência e distúrbios, o regulamento prevê a


possibilidade de realização de partidas com portões fechados, no mesmo

84
Capítulo 2

estádio onde o clube manda seus jogos, com proibição de presença de tor-
cedores e venda de ingressos.

Por fim, o regulamento estabelece procedimentos relacionados à


arbitragem, indicando que os árbitros são designados pela Comissão de
Arbitragem (CA), que pode escalar árbitros estrangeiros. A divulgação da
equipe de arbitragem é feita às federações locais 48 horas antes da partida.
Os clubes devem entregar a relação de seus atletas ao quarto árbitro antes
do início do jogo, facilitando o trabalho da imprensa.

O regulamento aborda aspectos financeiros relacionados às partidas de


futebol. Estabelece que a renda bruta, após reduções como aluguel de campo,
despesas administrativas da federação local, entre outras, devem seguir critérios
específicos. O não cumprimento dessas disposições implica em suspensão ad-
ministrativa de recebimentos pela CBF, sujeito a sanções da Justiça Desportiva.

O regulamento também aborda o uso da tecnologia na arbitragem, se-


guindo as diretrizes da IFAB (International Football Association Board, órgão
que regulamenta as regras do futebol). Em caso de não comparecimento da
equipe de arbitragem, a CA ou a federação devem providenciar substituições. A
utilização de Árbitros de Vídeo (AV) depende de condições técnicas e materiais.

Figura 20. Árbitros de Vídeo (AV).

Fonte: Wikimedia Commons (2022).


#ParaTodosVerem: imagem mostra o equipamento retangular do VAR, com um fone em cima e,
ao fundo, desfocado, um estádio lotado.

85
Capítulo 2

A súmula eletrônica é um aspecto relevante, detalhando a inclusão de in-


formações sobre atletas titulares e suplentes, membros da comissão técnica
e outros detalhes específicos, a serem anexados ao documento pelo árbitro
após as partidas. A entrega da súmula e demais documentos relacionados ao
delegado do jogo é crucial, seguindo prazos estipulados para remessa à CBF.

As questões financeiras também são abordadas, com a determinação de


deduções na renda bruta das partidas, incluindo aluguel de campo, despesas
administrativas das federações locais, custos com árbitros, entre outros. O não
cumprimento dessas disposições pode acarretar suspensão administrativa do
recebimento de taxas e sanções pela Justiça Desportiva.

O regulamento ainda estabelece regras para a utilização da tecnologia na


arbitragem, com a possibilidade de adoção do AV em determinadas circunstân-
cias, de acordo com diretrizes técnicas específicas.

Artigo
O que você acha de se aprofundar no debate
sobre a utilização do AV no contexto do futebol
brasileiro? Leia o artigo A nova tecnologia no
Futebol: diálogos sobre a influência do VAR
(2020), de Andriéle Cremonte Oliveira e outros
para saber mais sobre esse tema.

Disposições gerais e finais abrangem temas como a obtenção da Licença


de Clube, acesso de autoridades aos estádios, seguro de acidentes pessoais
coletivo, e a utilização de denominações como “Campeonato Brasileiro” e
suas variações, protegidas pela CBF. Além disso, são abordados aspectos
relativos à imprensa, segurança nos estádios e responsabilidades dos clu-
bes quanto ao fair play financeiro.

Outras disposições incluem regras sobre o acesso à justiça despor-


tiva, participação em competições, e a importância do cumprimento do
Calendário Nacional. A atuação do Tribunal Arbitral, direitos comerciais e
audiovisuais, além de questões relacionadas à saúde dos atletas, também
são contempladas no regulamento. Casos omissos são atribuídos à DCO,
que poderá emitir instruções complementares para assegurar o cumpri-
mento das normas estabelecidas no regulamento.

86
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

O Direito Nacional e Internacional Privado do Esporte é uma


área complexa e dinâmica fundamental para nossa disciplina de
Legislação e Direito Esportivo. Isso porque abrange diversas dimen-
sões, desde o regime jurídico das entidades esportivas até as estru-
turas de solução de conflitos no âmbito nacional e internacional. No
contexto brasileiro, as entidades de administração e prática despor-
tiva, como a FIFA e a CBF, desempenham papéis fundamentais na
regulação e organização do cenário esportivo.

No Brasil, o regime jurídico das entidades esportivas é vital para


garantir a integridade e a transparência das atividades desportivas.
A legislação nacional define as regras que orientam o funcionamen-
to das entidades esportivas, abrangendo desde a organização de
competições até a disciplina e a resolução de conflitos.

A estrutura de solução de conflitos desportivos no âmbito in-


ternacional, conduzida por entidades privadas e órgãos de adminis-
tração, como o TAS, desempenha um papel crucial na harmonização
e resolução eficiente de disputas. O TAS oferece uma via especiali-
zada e independente para a solução de litígios, contribuindo para a
estabilidade e equidade no cenário esportivo global.

Ao compreender o funcionamento da FIFA e CBF, é possível ob-


servar a interconexão entre as esferas nacional e internacional no
universo esportivo. A FIFA, como entidade global, estabelece padrões
e regulamentos que impactam as federações nacionais, como a CBF,
delineando diretrizes para a condução do futebol ao nível mundial.

Aprendemos muito sobre o TAS e como vem sendo efetivo para


criar um fluxo de decisões justas e jurisprudências para deixar linear

87
Capítulo 2

e mais seguro o mundo dos esportes. Principalmente porque conta,


além dos regulamentos feitos por cada agência, com especialistas
que direcionam o julgamento.

Em síntese, a interseção entre o Direito Nacional e Internacional


Privado do Esporte é essencial para manter a ordem, a justiça e a in-
tegridade no mundo esportivo. Compreender as regulamentações, as
estruturas de administração e as vias de resolução de conflitos é fun-
damental para todos os envolvidos no esporte, desde atletas e clubes
até as entidades que regulamentam e administram as competições.

88
ATIVIDADES
DE ESTUDO

1. Considerando a natureza peculiar do esporte profissional, o pro-


cesso de constituição dessa sociedade empresária desportiva pode
ocorrer por meio de um instrumento jurídico conhecido como “drop
down” de ativos. Qual das seguintes afirmações é verdadeira sobre o
“drop down” de ativos?

a. O “drop down” de ativos refere-se à transferência de responsabili-


dades fiscais para os atletas envolvidos na sociedade empresária
desportiva.
b. No “drop down” de ativos, ocorre a transferência de ativos da empre-
sa-mãe para a subsidiária, mantendo a continuidade das operações.
c. O “drop down” de ativos é um termo utilizado apenas no contexto
do esporte amador, não se aplicando ao esporte profissional.
d. No “drop down” de ativos, os investidores externos adquirem a pro-
priedade intelectual da equipe desportiva.

2. Qual é a principal função do Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) no


cenário jurídico-desportivo internacional?

a. Emitir sanções disciplinares a atletas e clubes.


b. Substituir as decisões de tribunais nacionais em casos esportivos.
c. Julgar exclusivamente casos de doping.
d. Resolver litígios e controvérsias relacionados ao esporte por meio
da arbitragem.

89
Capítulo 2

3. Considerando o Art. 55 do RGC, que trata de condutas ilícitas rela-


cionadas à manipulação de resultados, como essas medidas visam
preservar a integridade e a ética nas competições?

a. Apenas com advertências verbais para evitar constrangimentos.


b. Aplicando suspensões prolongadas como forma de dissuasão.
c. Utilizando sanções como suspensões e multas para desencorajar
práticas antiéticas.
d. Não estabelecendo medidas específicas para manipulação de
resultados.

90
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do novo negócio. In: AIDAR, A. C. Kfour.; LEONCINI, M. P.; OLIVEIRA, J. J. T.
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94
Capítulo 2

SOUZA, C. P. M. de. Radiografia sumária da justiça desportiva: uma visão de


política desportiva disciplinar a partir da atuação da procuradoria de jus-
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VARGAS, A. et al. (coord). Direito e legislação desportiva: uma abordagem


no universo dos profissionais de educação física. Rio de Janeiro: Confef, 2017.

95
CAPÍTULO 3
DESPORTO E JUSTIÇA

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes
objetivos de aprendizagem:

• Compreender a sequência processual criminal e analisar a autono-


mia Desportiva x Poder Judiciário;

• Compreender a composição dos órgãos;

• Analisar os contratos e quais suas cláusulas possíveis e suas


consequências;

• Compreender o sistema processual penal e trabalhista;

• Analisar as implicações dos contratos e seus efeitos, podendo tanto


criá-los quanto judicializá-los.

96
CONTEXTUALIZAÇÃO

Em nosso terceiro e último capítulo, iremos trabalhar como o


desporto transcende as dimensões do entretenimento e da compe-
tição, adentrando, de maneira intrínseca, os meandros do sistema
jurídico. O Capítulo 3 deste material, intitulado “Desporto e Justiça”,
propõe uma análise aprofundada de três pilares fundamentais que
conectam o mundo esportivo ao universo jurídico: Direito Penal
Desportivo, Direito Trabalhista Desportivo e as complexas implica-
ções que envolvem os Contratos Desportivos.

A interseção entre o desporto e a justiça emerge como um


campo de estudo não apenas crucial, mas também dinâmico, su-
jeito a uma evolução constante. Este dinamismo é intrínseco ao
aumento dos desafios éticos, sociais e legais no cenário esportivo,
que, a cada dia, adquirem uma complexidade mais acentuada.

No decorrer deste capítulo, buscaremos uma compreensão so-


bre questões que permeiam o Direito Penal Desportivo. Nosso objeti-
vo é compreender como funciona a justiça desportiva criminal, quais
crimes são considerados no esporte e suas consequências. Desta for-
ma, será possível que você, aluno, entenda as nuances necessárias.

A análise das complexas relações laborais no âmbito esportivo


é um dos focos deste capítulo. Ao explorarmos o Direito Trabalhista
Desportivo, nossa ideia é não apenas expor as intrincadas dinâmi-
cas entre atletas, clubes e outros agentes envolvidos, mas também
destacar as características regulatórias que regem contratos e con-
dições laborais específicas do universo esportivo. A compreensão
dessas complexidades não apenas amplia o conhecimento sobre
as salvaguardas e direitos dos atletas, mas também proporciona

97
Capítulo 3

insights sobre como as práticas trabalhistas no desporto respon-


dem às exigências de uma indústria em constante evolução.

A seção final deste capítulo, “Contratos Desportivos e suas im-


plicações”, oferecerá uma análise dos possíveis acordos e contratos
que moldam as relações no mundo esportivo. Desde contratos de
patrocínio até cláusulas que regulam a transferência de atletas. Para
que assim examinemos de que forma esses instrumentos jurídicos
refletem e influenciam as dinâmicas do desporto contemporâneo.

Ao embarcar nesta jornada pelo intricado enlace entre despor-


to e justiça, convidamos os leitores a mergulharem nas reflexões
apresentadas, reconhecendo a importância de compreender as ba-
ses legais que sustentam o cenário esportivo e contribuindo, assim,
para um entendimento mais holístico e informado deste fascinante
e dinâmico campo de estudo.

Este capítulo traz ideias mais práticas das legislações e regras


que aprendemos nos capítulos anteriores. Iremos entender quais
são as consequências de transgressões das regras impostas. Como
os contratos podem ser feitos, os acordos financeiros, a justiça tra-
balhista desportiva e criminal.

A seguir, vamos explorar a parte contratual, processual e práti-


ca do mundo do desporto.

98
1
1. DIREITO PENAL DESPORTIVO

O direito esportivo está sempre muito conectado às relações de


compra e venda de jogadores, trocas de clubes, eleições presidenciais
e até mesmo atraso no pagamento dos jogadores, fazendo com que o
direito esportivo criminal muitas vezes não seja tratado como o objeto
central de nossas discussões. E com esse pensamento, torna-se muito
necessário discuti-lo em nossa primeira subseção.

O direito desportivo criminal está previsto em sua forma mais atual


na Lei Geral do Esporte (LGE), a Lei nº 14.597/2023. O legislador, ao redi-
gir a parte criminal, considerou a autonomia esportiva, a ordem econô-
mica esportiva e assegurou principalmente a incerteza sobre resultados
esportivos. Houve o enfoque na harmonia do sistema transnacional
denominado Lex Sportiva. A LGE (Brasil, 2023) deixa claro a proteção à
prática esportiva contra ingerências políticas, mercadológicas ou econô-
micas, promovendo um padrão compatível internacionalmente.

A legislação punitiva inicia no Art. 165 da LGE (2023), visando à pro-


teção da ordem econômica esportiva, instaurando o crime de corrupção
privada no esporte. A lei informa que aquele que exige, solicita, aceita
ou recebe vantagem indevida, em razão de cargo em uma organização
esportiva privada, favorecendo a si mesmo ou a terceiro direta ou indi-
retamente, ou aceitar promessa de vantagem indevida, a fim de realizar
ou de omitir ato inerente às suas atribuições, terá pena de reclusão de
2 a 4 anos, e multa. O mesmo ocorre para aqueles que ofereceram, en-
tregaram e/ou pagaram de forma direta ou indireta, ao representante
da organização esportiva privada, vantagem indevida.

99
Capítulo 3

Figura 1. Corrupção

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: na imagem, uma foto que retrata por baixo de uma mesa uma mão entregan-
do dinheiro a outra. A foto está em preto e branco.

No tocante à venda ou porte para venda de ingressos de evento espor-


tivo, com preço maior do que o estampado no bilhete, terá reclusão, de 1
a 2 anos, e multa. Ainda é punido pelo Art. 167, LGE (Brasil, 2023), aquele
que fornecer, desviar ou facilitar a distribuição de ingressos para venda por
preço superior ao estampado no bilhete, tendo como pena reclusão, de 2
a 4 anos, e multa. A pena será aumentada de 1/3 até a metade se o agente
for servidor público, dirigente ou funcionário de organização esportiva que
se relacione com a promoção do evento ou competição, de empresa contra-
tada para o processo de emissão, distribuição e venda de ingressos ou de
torcida organizada e se utilizar desta condição.

Ainda há vedação da reprodução imitadora ou falsificada, modificada ou


não, de sinais visivelmente distintivos, emblemas, marcas, logomarcas, mas-
cotes, lemas, hinos e qualquer outro símbolo de titularidade de organização
esportiva, causando detenção, de 3 meses a 1 ano, ou multa. Os revendedores,
exportadores e até mesmo quem oculta ou guarda estoque desses produtos
elencados acima podem incorrer em reclusão, de 2 a 4 anos, além de multa.

Também é proibido o marketing de emboscada por associação originado


com a divulgação de marcas, produtos ou serviços, com o fim de alcançar

100
Capítulo 3

vantagem econômica ou publicitária, por meio de associação com sinais visi-


velmente distintivos, emblemas, marcas, logomarcas, mascotes, lemas, hinos
e qualquer outro símbolo de titularidade de organização esportiva, sem sua
autorização ou de pessoa por ela indicada, induzindo terceiros a acreditar que
tais marcas, produtos ou serviços são aprovados, autorizados ou endossados
pela organização esportiva titular dos direitos violados. No caso dessa infra-
ção, haverá a possibilidade de detenção, de 3 meses a 1 ano, ou multa.

Figura 2. Loja de camisetas

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: na imagem, um homem de cabelos longos usando um boné preto para trás, ca-
misa jeans e blusa branca por baixo, está em uma loja de artigos esportivos escolhendo uma camiseta.

Com a mesma pena do marketing de emboscada, ocorre se alguém,


sem autorização da organização esportiva promotora do evento esportivo
ou de pessoa por ela designada, associar o uso de ingressos, convites ou
qualquer tipo de autorização de acesso aos eventos esportivos a atividades
publicitárias ou comerciais, visando obter vantagem econômica.

O marketing de emboscada por Intrusão, conforme previsto nos Arts.


171 e 172, consiste na exposição de marcas, negócios, estabelecimentos,
produtos ou serviços, ou na prática de atividade promocional nos locais de
eventos esportivos sem autorização da organização esportiva responsável.
O objetivo é atrair a atenção pública para obter vantagem econômica ou pu-
blicitária. A infração é passível de detenção por 3 meses a 1 ano, ou multa.

101
Capítulo 3

No contexto desses crimes, a ação penal depende da representação da


organização esportiva titular dos direitos violados, exceto no crime do art.
169, que é de ação pública incondicionada. Essas disposições visam preser-
var a integridade dos eventos esportivos e garantir que a responsabilidade
legal seja acionada mediante o consentimento da entidade afetada.

Saiba Mais
O Ministério Público vem atuando ferozmente contra
os crimes que envolvem o esporte brasileiro, como
podemos ver na notícia da Metropóles.

Ao concentrar-se no atleta, o legislador criou severas leis visando que


o controle de dopagem no esporte é essencial para assegurar que atletas e
organizações participem de competições de maneira justa e livre de práticas
de dopagem, visando à preservação da saúde e a promoção da igualdade
entre competidores. Conforme estabelecido nos artigos 174 e 175, o Brasil
conta com a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), vincula-
da ao Ministério do Esporte, como a organização nacional responsável por
coordenar e executar ações antidopagem.

Compete à ABCD diversas atribuições, como coordenar nacionalmente


o combate à dopagem, conduzir os testes de controle de dopagem, expedir
autorizações de uso terapêutico e certificar profissionais e entidades atuan-
tes nesse contexto. A ABCD também mantém interlocução com organismos
internacionais, divulga normas técnicas internacionais e informa à Justiça
Desportiva Antidopagem sobre violações às regras de dopagem.

No âmbito privado, as organizações integrantes do Sistema Nacional


do Desporto (Sinesp) têm a responsabilidade de adotar, implementar e apli-
car regras antidopagem, conforme disposto nos Arts. 175 e 176. A ABCD,
por sua vez, pode delegar a coleta de amostras e outras atividades mate-
riais relacionadas ao controle de dopagem, além de propor ao Conselho
Nacional do Esporte (CNE) a edição e alterações das normas antidopagem,
alinhadas ao Código Mundial Antidopagem.

Na busca pelo compromisso com a promoção da paz no âmbito esportivo,


é uma responsabilidade compartilhada entre o poder público em todas
as esferas, as organizações esportivas, os torcedores e os espectadores de
eventos esportivos, conforme estabelecido pelo Artigo 179 desta legislação.

102
Capítulo 3

Os promotores de eventos esportivos, considerados todos os envolvidos


em sua organização, têm a obrigação de prevenir a ocorrência de violência
durante essas atividades, conforme ressalta o Parágrafo único do mesmo
artigo. Os Estados e o Distrito Federal têm a prerrogativa de criar os Juizados
do Torcedor, órgãos da justiça com competência tanto cível quanto criminal,
destinados ao processamento, julgamento e execução das causas relaciona-
das às atividades reguladas por esta Lei, conforme estabelece o Artigo 180.

Visando direcionar esforços específicos para a promoção da paz nas ati-


vidades esportivas, o poder público federal desenvolverá o Plano Nacional
pela Cultura de Paz no Esporte, conforme previsto no Art. 181. Este plano
terá como diretrizes a adoção de medidas preventivas e educativas para
controlar atos de violência no esporte, a promoção de atividades que visem
afastar torcedores violentos das arenas esportivas, a difusão contínua de
práticas que promovam a cultura de paz, o estabelecimento de procedi-
mentos padronizados de segurança e resolução de conflitos em eventos
esportivos, e a valorização da experiência dos Juizados do Torcedor.

Os dispositivos legais descritos nos Artigos 198, 199 e 200 têm por
objetivo coibir práticas que comprometam a integridade das competições
esportivas e eventos a elas associados. Começando com o Art. 198, apren-
de-se que é proibido solicitar ou aceitar, para si ou para terceiros, vanta-
gens, sejam elas patrimoniais ou não, ou promessas dessas vantagens. Essa
proibição tem como finalidade influenciar ou distorcer o resultado de uma
competição esportiva ou evento correlato. As penalidades previstas incluem
reclusão, com período de 2 a 6 anos, além da imposição de multa.

Figura 3. Manipulação de resultados

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: na ilustração, um celular preto, em formato 3D. Acima dele, três montes de
dinheiro e uma bola de futebol branca com detalhes em preto.

103
Capítulo 3

Enquanto o Art. 199 da LGE versa sobre a conduta de dar ou prometer


vantagens, tanto patrimoniais quanto não patrimoniais, com o intuito de
alterar ou falsificar o resultado de uma competição esportiva ou evento as-
sociado. Assim como no Artigo 198, as penalidades aplicáveis são reclusão,
variando de 2 a 6 anos, e multa.

Sendo que o Art. 200 aborda a prática de fraudar, por qualquer meio,
ou contribuir para a fraude do resultado de competições esportivas ou
eventos associados. As penalidades são as mesmas previstas nos artigos
anteriores, incluindo reclusão de 2 a 6 anos e a aplicação de multa. Estes
dispositivos legais reforçam o compromisso com a ética, a transparência
e a imparcialidade no âmbito esportivo, estabelecendo medidas rigorosas
para dissuadir e punir aqueles que tentam manipular de maneira indevida
os resultados das competições.

O Art. 201 da legislação esportiva é uma peça fundamental na promo-


ção da segurança e ordem em eventos esportivos, estabelecendo punições
para a promoção de tumultos, prática ou incitação à violência, bem como a
invasão de locais restritos a competidores, árbitros e seus auxiliares. A vio-
lação dessas normas sujeita os infratores a reclusão de 1 a 2 anos, além de
multa. O artigo se subdivide em vários parágrafos dando maior destaque às
penalidades e possíveis penas.

Figura 4. Tumulto

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: na imagem, cerca de 20 pessoas protestam, entre elas homens e mulheres;
ao centro, está um homem segurando um sinalizador.

104
Capítulo 3

A partir do parágrafo 1º desdobra-se a aplicação da lei para os torcedo-


res, indicando que a promoção de tumulto ou incitação à violência em um
raio de 5.000 metros ao redor do local do evento esportivo, o porte de ins-
trumentos potencialmente violentos nas imediações ou trajeto da arena es-
portiva em dias de evento, bem como a participação em brigas de torcidas,
resultarão nas mesmas penalidades. Enquanto no parágrafo 2º o legislador
traz uma alternativa ao cumprimento da pena de reclusão, permitindo que
o juiz converta essa pena em uma impeditiva de comparecimento às proxi-
midades da arena esportiva por um período de 3 meses a 3 anos. Essa con-
versão leva em conta fatores como a gravidade da conduta, a primariedade
do agente, seus antecedentes e histórico de punições anteriores.

É pelo parágrafo 3º, por sua vez, que é estabelecida a pena impeditiva de
comparecimento que pode ser convertida em privativa de liberdade em caso
de descumprimento injustificado da restrição imposta. O parágrafo 4º impõe
uma obrigação adicional ao agente condenado, determinando que ele per-
maneça em um estabelecimento indicado pelo juiz nas 2 horas antecedentes
e 2 horas posteriores à realização de provas ou partidas esportivas.

O parágrafo 5º regula a possibilidade de aplicação da pena restritiva de


direitos, prevista no art. 76 da Lei nº 9.099/1995, caso o representante do
Ministério Público a sugira, sendo aplicada a sanção do parágrafo 2º.

!
Importante
Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação
penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento,
o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena
restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta. §
1º Nas hipóteses de ser a pena de multa a única aplicável, o Juiz
poderá reduzi-la até a metade. § 2º Não se admitirá a proposta se
ficar comprovado: I - ter sido o autor da infração condenado, pela
prática de crime, à pena privativa de liberdade, por sentença de-
finitiva; II - ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo
de cinco anos, pela aplicação de pena restritiva ou multa, nos
termos deste artigo; III - não indicarem os antecedentes, a con-
duta social e a personalidade do agente, bem como os motivos e
as circunstâncias, ser necessária e suficiente a adoção da medida.
§ 3º Aceita a proposta pelo autor da infração e seu defensor, será
submetida à apreciação do Juiz.

105
Capítulo 3

§ 4º Acolhendo a proposta do Ministério Público aceita pelo autor


da infração, o Juiz aplicará a pena restritiva de direitos ou multa,
que não importará em reincidência, sendo registrada apenas para
impedir novamente o mesmo benefício no prazo de cinco anos.
§ 5º Da sentença prevista no parágrafo anterior caberá a apelação
referida no art. 82 desta Lei.
§ 6º A imposição da sanção de que trata o § 4º deste artigo não
constará de certidão de antecedentes criminais, salvo para os fins
previstos no mesmo dispositivo, e não terá efeitos civis, cabendo
aos interessados propor ação cabível no juízo cível (Brasil, 1995).

O parágrafo 6º, por sua vez, estabelece um agravante, aumentando a


pena de 1/3 até a metade para quem organiza, prepara ou incita tumultos,
inclusive nas formas previstas no parágrafo 1º, excluindo as medidas dos
parágrafos 2, 3, 4 e 5º.

Por fim, o parágrafo 7º acrescenta uma camada adicional de rigor ao


determinar que as penalidades previstas no artigo sejam aplicadas em do-
bro nos casos de racismo no esporte brasileiro ou de infrações cometidas
contra as mulheres. Essa disposição reflete o compromisso legal com a gra-
vidade dessas situações específicas.

106
2
2. DIREITO TRABALHISTA
DESPORTIVO

Como já aprendemos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é a


entidade nacional responsável pela administração, coordenação e gestão do
futebol no Brasil. Sob o manto da autonomia esportiva e da própria organi-
zação desportiva, todos os interessados em integrar esse sistema na modali-
dade de futebol são obrigados a aderir aos estatutos e regulamentos da CBF.

Figura 5. Sede CBF

Fonte: Wikimedia Commons (2015).


#ParaTodosVerem: na imagem, a sede da CBF; ao lado esquerdo, 6 bandeiras, destacando-se a
do Brasil; no centro, um prédio com aspecto espelhado e com o símbolo da CBF no topo, céu azul
e árvores verdes ao redor.

107
Capítulo 3

Essa adesão implica também a conformidade com as normas estabelecidas


pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) e Confederação Sul-Americana
de Futebol (CONMEBOL), bem como a aceitação dos órgãos de resolução de
disputas constituídos. A não observância dessas diretrizes, exceto em ques-
tões trabalhistas e criminais, pode acarretar em sanções graves, incluindo a
desfiliação. Atualmente, a CBF detém exclusividade nas questões relacionadas
ao futebol no país devido à sua filiação às entidades internacionais.

Dessa forma, a entidade está obrigada a respeitar os estatutos, objetivos


e ideais da entidade dirigente do futebol, assumindo a responsabilidade pela
promoção e gestão da modalidade de acordo com tais regras. Portanto, todas
as ações relacionadas à organização, funcionamento e disciplina das atividades
de futebol, envolvendo as filiadas à CBF, têm caráter de adoção obrigatória.

O tema da utilização de arbitragem já foi discutido no capítulo ante-


rior, porém iremos aprofundar o estudo no âmbito trabalhista, analisando
a Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT). O futebol profissional está mais
avançado quando se trata de regulamentação trabalhista do que a maioria
dos esportes, principalmente porque há muito debate doutrinário acerca
desse tema. Os juristas debatem em torno da arbitragem no contrato de
trabalho entre os clubes, atletas, empresários e até membros da comissão
técnica. A grande epifania sobre esse tema está relacionada ao conflito de
normas. A primeira norma seria o art. 507-A da CLT, que tem posicionamen-
to oposto ao que dispõe o art. 90-C, § único da Lei 9.615/98.

Conceito
O que diz a lei? Art. 507-A. Nos contratos individuais de trabalho
cuja remuneração seja superior a duas vezes o limite máximo
estabelecido para os benefícios do Regime Geral de Previdência
Social, poderá ser pactuada cláusula compromissória de arbitra-
gem, desde que por iniciativa do empregado ou mediante a sua
concordância expressa, nos termos previstos na Lei no 9.307, de
23 de setembro de 1996. (Incluído pela Lei nº 13.467, de 2017). Art.
90-C. As partes interessadas poderão valer-se da arbitragem para
dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis, veda-
da a apreciação de matéria referente à disciplina e à competição
desportiva. Parágrafo único. A arbitragem deverá estar prevista
em acordo ou convenção coletiva de trabalho e só poderá ser
instituída após a concordância expressa de ambas as partes,
mediante cláusula compromissória ou compromisso arbitral.
(Incluído pela Lei nº 12.395, de 2011).

108
Capítulo 3

Enquanto o artigo previsto pela CLT prevê a possibilidade de, em contratos


em que o salário seja maior que duas vezes o limite máximo estabelecido para
os benefícios do Regime Geral de Previdência Social, é possível utilizar-se da
cláusula compromissória de arbitragem, o Art. 90-C se posiciona na necessida-
de de acordo ou convenção coletiva de trabalho que a preveja. Se analisarmos
apenas o que diz a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, o art. 2º
nos informa: “Não se destinando à vigência temporária, a lei terá vigor até que
outra a modifique ou revogue. § 1º: A lei posterior revoga a anterior quando
expressamente o declare, quando seja com ela incompatível ou quando regule
inteiramente a matéria de que tratava a lei anterior“ (Brasil, 1942).

Analisando apenas a Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro


(LINDB), o tema estaria resolvido e o art. 507-A prevaleceria em detrimento ao
art. 90-C, uma vez que o primeiro seria mais novo e, por isso, colocaria o se-
gundo em desuso. Miguel (2021) defende a dispensa de autorização em norma
coletiva para a inclusão de cláusula arbitral em contratos especiais de trabalho
desportivo, uma viabilidade que seguiria as mudanças introduzidas no ordena-
mento jurídico que impactaram o sistema jurídico trabalhista desportivo.

Figura 6. Decreto da LINDB

Fonte: Wikimedia Commons (2010).


#ParaTodosVerem: na ilustração, há a divulgação da lei de Introdução às Normas de Direito
Brasileiro escrita em azul no topo uma imagem que se assemelha uma construção romana, com
duas colunas em forma de caneta tinteiro nas cores verde, amarela e azul, com a bandeira do
Brasil e, acima, uma bandeira do Brasil.

109
Capítulo 3

Porém, o jurista Paganella (2022) valoriza a especialidade. Ou seja, ar-


gumenta a premissa de que a Lei nº 9.615/98, por sua natureza especial e
pela sua regulação abrangente do cenário desportivo brasileiro, incluindo as
nuances específicas das relações de trabalho esportivo, deve prevalecer sobre
a CLT, que possui uma abrangência mais geral. E tais posicionamentos, per-
petuados por vários juristas, forçaram a Justiça do Trabalho a se posicionar.

Figura 7. Tribunal Regional do Trabalho (TRT).

Fonte: Jusbrasil (2019).


#ParaTodosVerem: na imagem, o símbolo da justiça do trabalho no Brasil com uma estrela ao
centro amarela, um círculo azul com estrelas em seu meio e, ao fundo, uma guirlanda verde.

Importante ressaltar que nesse diapasão também não há concordância


entre as Regiões trabalhistas no tocante ao favorecimento da especialidade
da lei ou não. Enquanto no Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região posi-
cionou-se no Processo nº 0010531-39.2019.5.03.0013, na 1ª Seção de Dissídios
Individuais, pelo Desembargador Manoel Barbosa da Silva, em 01 de junho
de 2020, a favor da cláusula compromissória em detrimento à lei 9.615/98.
Alegando que o órgão competente para decidir e comandar seria o CNRD e
não a Justiça trabalhista. O mesmo posicionamento foi dado pelo TRT da 2ª re-
gião, no processo nº 1000585-81.2020.5.02.0445 com o juiz Wildner Izzi Pncheri,
em 25 de agosto de 2020. E do TRT da 3ª região, no processo nº 0010125-
84.2020.5.03.0012, por Mauro César Silva em 26 de novembro de 2020.

110
Capítulo 3

Em confronto, o TRT da 15ª Região optou por dar prioridade à neces-


sidade da norma coletiva para a cláusula arbitral estipulada no parágrafo
único do art. 90-C da Lei nº 9.615/98 em detrimento do disposto no art. 507-
A da CLT, mesmo quando os demais requisitos objetivos estavam devida-
mente preenchidos. Esse foi o posicionamento dado pela desembargadora
Larissa Carotta Martins da Silva Scarabelim, em 19 de outubro de 2020, no
processo nº 0011013-87.2019.5.15.0001.

Superados esses pontos e partindo da premissa da possibilidade da im-


plementação da arbitragem, nos termos do art. 507-A da CLT, o Regulamento
de Registro e Transferência (RCNRD) apresenta em seu art. 3º, incisos II e VII
a exigência do “consenso” entre o atleta profissional de futebol ou membro
da comissão técnica e o clube empregador. A CNRD interpreta que o “con-
senso” pode ocorrer em dois momentos: antes do surgimento da disputa,
por meio da previsão de cláusula compromissória expressa no contrato de
trabalho entre o atleta ou membro da comissão técnica e o clube, dispen-
sando a ratificação posterior, ou após a instauração da disputa, mediante a
celebração de compromisso arbitral.

Para João Renda Leal Fernandes (2018):


Cláusula compromissória é o ato jurídico por meio do qual as partes, ante-
cipadamente, comprometem-se a submeter conflitos futuros à arbitragem.
Distingue-se do compromisso arbitral, que estabelece a arbitragem para
resolver um litígio já existente.

É importante destacar que, mesmo com a cláusula compromissória no


contrato de trabalho entre o atleta ou membro da comissão técnica e o clu-
be empregador, se a remuneração mensal não atingir o piso do Art. 507-A
da CLT, a CNRD não pode conduzir a arbitragem trabalhista.

Em conformidade com o que foi decidido pelo primeiro Presidente da


RCNRD, Vitor Butruce, em uma verdadeira arbitragem perante o órgão, sua ins-
tauração acarreta diversas consequências: especialmente, gera litispendência,
interrompe a prescrição (Art. 19, §2º, da Lei nº 9.307/1996), a sentença faz coisa
julgada e forma título executivo (Art. 31 da Lei nº 9.307/1996), a menos que não
haja recurso para o Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem (CBMA), con-
forme autorizado pelos Arts. 121 e 128 do Estatuto da CBF e Art. 36 do CNRD.

Uma vez que as partes concordam em resolver a disputa trabalhista


por arbitragem com base no Art. 507-A da CLT e elegem a CNRD como foro
competente, este órgão privado tem competência para processar e julgar as
questões de natureza laboral entre clube e atleta ou membro da comissão

111
Capítulo 3

técnica, tornando-se “juiz de fato e de direito da causa”, de acordo com o


Art. 18 da Lei nº 9.307/1996.

Em caso de questionamento da sentença arbitral proferida, a parte pode


buscar ação no Poder Judiciário Trabalhista, nos termos do artigo 5º, inciso
XXXV, da CF/88, cuja análise está limitada às nulidades listadas no art. 32 da
Lei nº 9.307/96, sem revisão do mérito. Um caso relevante em andamento no
notável TRT da 3ª Região é a ação anulatória de sentença arbitral com recla-
matória trabalhista movida pelo ex-atleta profissional de futebol Frederico
Chaves Guedes, conhecido como “Fred”, contra o Clube Atlético Mineiro, dis-
cutindo a nulidade da sentença da CNRD no processo nº 2018/TRF/094176.

Figura 8. O ex-jogador Fred

Fonte: Wikimedia Commons (2022).


#ParaTodosVerem: na imagem, o ex-jogador Fred, de uniforme verde do Fluminense; ao fundo,
céu azul e gramado verde de futebol.

No processo disponível publicamente, o ex-atleta questiona, entre ou-


tros pontos, (i) a incompetência absoluta da CNRD para resolver conflitos
trabalhistas, por violação ao art. 114, inciso I, da CF/88 e art. 31 da Lei de
Arbitragem; (ii) nulidade da sentença arbitral, argumentando que o art. 3º
do RCNRD descaracteriza o poder jurisdicional da CNRD. A ação foi admiti-
da, mas a segurança foi negada por unanimidade de votos.

112
Capítulo 3

Sobre a validade da arbitragem em disputas trabalhistas entre atleta


profissional de futebol e clube, o TRT da 3ª Região considerou válida, pois o
distrato contendo a cláusula compromissória foi assinado após a entrada
em vigor do art. 507-A da CLT, e não houve comprovação ou alegação de
vício de consentimento pelo ex-atleta, não violando o art. 114, inciso I da
CF/88, pois a competência da Justiça do Trabalho não impede a submissão
do contrato de trabalho à arbitragem.

Quanto à alegação de que o art. 3º do RCNRD anula a sentença arbitral,


o TRT entendeu que o dispositivo regulamentar não descaracteriza a natureza
arbitral da CNRD, pois não prevê a possibilidade de apresentar “recursos” na
Justiça do Trabalho contra as sentenças desse tribunal arbitral, apenas o direito
de ação garantido pela Constituição. Nos casos em que não há acordo entre
atleta e clube sobre a cláusula compromissória para a CNRD ou o compromisso
arbitral, ainda é possível questionar questões trabalhistas neste órgão, buscan-
do o reconhecimento de que o clube não cumpriu as obrigações contratuais,
com base no art. 64 do RNRTAF da CBF c/c art. 3º, inciso III do RCNRD.

Essa inovação no cenário do futebol mundial foi implementada pela FIFA


em seu Regulations on the Status and Transfer of Players (RSTP) em 1º de mar-
ço de 2015, após a Circular nº 1.468, de 23 de janeiro de 2015, que introduziu
o art. 12bis. Essa norma interna impôs que essas disposições fossem vincu-
lativas nas federações nacionais e incluídas nos regulamentos domésticos,
levando à inserção do art. 64 no Regulamento de Registro e Transferência
da CBF. Essa incorporação visa proteger a estabilidade contratual entre o
atleta profissional e/ou membro da comissão técnica e o clube, forçando as
agremiações a cumprirem suas obrigações financeiras contratuais.

113
Capítulo 3

Figura 9. Transferência de jogadores

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: na imagem, uma montagem que contém um jogador de uniforme vermelho e
detalhes em azul dando um carrinho, além de uma bola e um goleiro de uniforme laranja e luvas
pretas tentando fazer uma defesa. Ao fundo, números aleatórios e notas de dólar voando ao redor.

O clube e o atleta são vinculados à CBF, tornando ambos sujeitos à


jurisdição da CNRD. Em conformidade com decisões anteriores da CNRD,
quando o clube se filiou às entidades desportivas dirigentes (especialmente
à CBF e à federação local), assumiu a obrigação de reconhecer os estatutos e
regulamentos aplicáveis à prática formal do futebol, além das normas nacio-
nais e internacionais aceitas pelas respectivas entidades, em conformidade
com o caráter associativo da relação entre clubes e entidades dirigentes.

Portanto, quando as partes assinam contratos especiais de trabalho


desportivo, contratos de imagem, auxílio-moradia, luvas, entre outros, nos
quais o clube se compromete a pagar ao atleta e/ou membros da comissão
técnica valores mensais decorrentes da relação de trabalho, o não cum-
primento dessas obrigações é uma violação ao art. 64 do Regulamento de
Registro e Transferência (RNRTAF), e a CNRD tem competência para analisar
as alegações relacionadas a isso. O procedimento da ação seguirá as disposi-
ções do Regulamento da Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD),
com o atraso do pagamento superior a 30 dias.

Posteriormente, para configurar a mora, é imprescindível que a parte


notifique formalmente o devedor, por escrito, concedendo-lhe um prazo
mínimo de 10 dias para a regularização de suas obrigações financeiras em
atraso. Concretamente, a dívida deve, em última instância, encontrar-se em

114
Capítulo 3

atraso por um período mínimo de 40 dias, composto por 30 dias de inadim-


plência, somados aos 10 dias destinados ao cumprimento do prazo de mora,
antes que a ação seja instaurada na CNRD em virtude do descumprimento
do disposto no art. 64 do RNRTAF.

Figura 10. Prazo para pagamento

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: na imagem, uma mulher segurando um relógio em uma mão e dinheiro em
outra. Fundo azul. A mulher tem cabelos cacheados e utiliza blusa rosa.

Saiba Mais
Veja o caso do jogador Rojas, que solicitou a rescisão
do seu contrato por falta de pagamento.

O parágrafo 4º do Art. 54 da Lei nº 9.615/98 determina que os membros


dos Tribunais de Justiça Desportiva podem ser graduados em Direito ou indiví-
duos reconhecidos por sua notável experiência jurídica e integridade. Em con-
trapartida, os juízes são proibidos de exercer funções dentro desse subsistema
da jurisdição desportiva, conforme estabelecido pela Resolução nº 10/2005 do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), cuja legalidade foi confirmada pelo STF.

A Justiça Desportiva desempenha um papel fundamental no siste-


ma disciplinar esportivo, garantindo uma competição equilibrada em

115
Capítulo 3

conformidade com as regras do jogo, com total observância ao fair play.


De acordo com o Código de Ética Desportiva do Conselho da Europa, o
fair play vai além do simples respeito às regras, abrangendo conceitos
de amizade, respeito pelo próximo e espírito esportivo, representando
uma mentalidade, não apenas um comportamento.

No cenário jurídico-desportivo atual, há consenso de que o fair play não


se restringe apenas ao jogo, estendendo-se ao combate à corrupção no fu-
tebol e à promoção da governança responsável, profissional e transparente
nos clubes. Essa perspectiva se reflete na implementação de normas de fair
play financeiro e trabalhista pelas entidades organizadoras das competições.

No contexto do futebol, o fair play trabalhista implica a inclusão, nos re-


gulamentos das competições, de regras claras para desencorajar atrasos
salariais por parte dos clubes em relação aos seus atletas profissionais. O
descumprimento dessas normas pode resultar em sanções disciplinares
pela Justiça Desportiva, como a perda de pontos e aplicação de multas.

O Art. 18 do Regulamento Específico da Série A (aplicável também


nas séries B e C) estipula que clubes em atraso com remuneração de
atletas por 30 dias perderão 3 pontos por partida após decisão do STJD.
O atleta prejudicado pode comunicar ao STJD em até 30 dias após a
competição, sem prejuízo da reclamação trabalhista. O clube devedor,
comprovado o débito, terá 15 dias para regularizar, sendo a sanção apli-
cada em todas as partidas durante a inadimplência. A CNRD e o CBMA
aplicam taxas e honorários em casos de recurso, sem isenção para casos
de impossibilidade de pagamento, violando o princípio do acesso à jus-
tiça. O sistema adotado pela CNRD, embora eficaz, carece de concessão
de assistência judiciária para garantir acesso justo, alinhando-se com
normas da FIFA e promovendo maior equidade no âmbito desportivo.

A Justiça Desportiva, ao sancionar clubes inadimplentes, segue pro-


cedimentos que incluem advertência e multa, com aplicação de penali-
dades mais severas em casos de reincidência. O processo de execução
na jurisdição estatal trabalhista inicia-se com a liquidação da dívida,
seguida pela citação do devedor para pagamento ou nomeação de bens
à penhora. Medidas atípicas, como as previstas no CPC, são admitidas
quando esgotadas as opções convencionais.

116
Capítulo 3

Figura 11. STJD

Fonte: e-DOU (2017).


#ParaTodosVerem: na imagem, uma parede em tom azulado, escrito Superior Tribunal de Justiça
Desportiva de Futebol em dourado.

A imposição de custas processuais na jurisdição desportiva cria um obs-


táculo insuperável para os menos favorecidos economicamente, comprome-
tendo o acesso à justiça. A falta de assistência judiciária gratuita na CNRD e no
CBMA, somada à ausência de defensores dativos quando necessário, prejudica
o amplo acesso a essa instância, fragilizando o sistema jurisdicional privado do
futebol brasileiro. O não alinhamento da CNRD e do CBMA com as diretrizes da
FIFA, que dispensa o recolhimento de custas quando envolve atletas ou treina-
dores, ressalta a violação ao princípio fundamental de acesso à justiça.

A argumentação de falta de norma regulamentar interna pode ser inter-


pretada à luz dos regulamentos da FIFA, conforme o art. 4º do RCNRD, forta-
lecendo o acesso à jurisdição desportiva. Esse cenário cria uma barreira in-
transponível para uma ordem jurídica justa, especialmente quando um atleta
ou membro da comissão técnica, mesmo com contrato de trabalho, não pode
arcar com as despesas processuais para buscar seus direitos na CNRD, fragili-
zando o sistema e incentivando debates na jurisdição estatal trabalhista.

Na esfera da jurisdição desportiva disciplinar, no contexto do fair play


trabalhista, a apresentação de irregularidades contratuais ao STJD do futebol
é isenta de custas. Contrariamente, na CNRD, não há concessão de justiça
gratuita, implicando na obrigação de pagar custas processuais. O padrão

117
Capítulo 3

requer que a parte solicitante liquide as custas antes de protocolar o pedido,


seja na CNRD ou no CBMA, em casos de recursos. Atualmente, as custas na
CNRD, denominadas “Taxa de Registro e Administração,” para procedimentos
ordinários, correspondem a 2% do valor atribuído à causa, com mínimo de
R$ 3 mil e máximo de R$ 50 mil. Já para procedimentos sancionadores, como
definido no art. 64 do RNRTAF, a taxa é de R$ 3 mil. As custas para recurso ao
CBMA são mais substanciais, incluindo uma “Taxa de Instituição” fixa de R$ 4
mil e uma “Taxa de Administração,” variável conforme o valor da demanda.

Figura 12. Taxa de Administração

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra uma mulher lendo um papel e teclando no notebook. Além do
notebook, há um celular, uma calculadora, uma caneca de café e um prato de maçãs sobre a mesa.

Ademais, a parte deve custear os honorários dos árbitros, determinados


individualmente e escalonados de acordo com o valor da causa. O recorrente
deve comprovar o pagamento das taxas e depositar 50% da quantia inicial-
mente estimada para os honorários arbitrários, sob pena de não conheci-
mento. O entendimento da CNRD é que o art. 5º, inciso LXXIV da CF/88 não se
aplica aos seus procedimentos, alegando impossibilidade de estender a as-
sistência gratuita estatal a um órgão privado sem previsão nos regulamentos.

A contestação sobre a validade da sanção de proibição de registro de novos


atletas pela CNRD, embora legalmente reconhecida pelo Poder Judiciário, pode
impactar a eficácia do sistema de jurisdição estatal trabalhista em situações

118
Capítulo 3

envolvendo clubes sem recursos para quitar dívidas. A CNRD, por outro lado,
tem sido efetiva ao aplicar essa sanção, vista como uma medida de proteção à
integridade do futebol. Apesar da impossibilidade de escolha livre do foro na
Justiça do Trabalho, a preferência pela CNRD destaca a importância da espe-
cialização para os interessados do setor. O amplo acesso à justiça, um direito
fundamental conforme o art. 5º, inciso LXXIV da CF/88, é crucial.

Figura 13. Contestação

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: na imagem, tem-se um notebook, um homem segurando papéis e fazendo
anotações em um papel que está na mesa. Ele veste camisa cinza escura.

Na Justiça do Trabalho, a concessão da gratuidade está atrelada à situa-


ção financeira desfavorável, com diretrizes específicas para pessoas físicas e
jurídicas. Em ambas as situações, a imposição de honorários sucumbenciais é
suspensa por até dois anos, sujeita à avaliação da capacidade de pagamento
durante a execução do crédito, e a manutenção da hipossuficiência após a li-
quidação do crédito é examinada pelo Juiz da Execução.

119
3
3. CONTRATOS DESPORTIVOS E
SUAS IMPLICAÇÕES

Aprendemos bastante sobre a legislação conhecida como Lei Pelé, po-


rém esta não é a única fonte normativa aplicável ao contexto esportivo bra-
sileiro. De fato, existem diversas regulamentações específicas que regem o
meio esportivo, como o Estatuto do Torcedor (Lei nº 10.671/2003), a Lei do
Profut (Lei nº 13.155/2015) e a mais recente Lei da SAF (Lei 14.193/2021).

Além disso, em situações nas quais não existem regras específicas, as


leis gerais do ordenamento jurídico brasileiro, tais como a CLT e o Código
Civil (CC), são aplicadas de forma subsidiária. A complexidade do cenário é
ainda mais acentuada pelos regulamentos elaborados pelas entidades es-
portivas, como os da CBF e da FIFA.

Essa abundância de normas frequentemente suscita dúvidas práticas


quanto à hierarquia e à aplicabilidade das diferentes regulamentações.
Como resultado, não é incomum que surjam debates jurisprudenciais so-
bre a possibilidade de aplicar regras trabalhistas gerais, regulamentadas
pela CLT, aos atletas profissionais de futebol, por exemplo.

Para ser possível realizar um contrato profissional é necessário que o


atleta profissional praticante de esporte de alto nível que se dedica à ativi-
dade esportiva de forma remunerada e permanente e sendo esta sua prin-
cipal fonte de renda por meio do trabalho, independentemente da forma
como recebe sua remuneração.

Existem dois tipos principais e gerais de contratos para atletas. Para


aqueles que possuem menos de 16 anos e para aqueles maiores de 16 anos,
contratos de atletas a partir dos 16 anos, a organização esportiva respon-
sável pela formação de atletas pode celebrar o primeiro contrato especial
de trabalho esportivo, com prazo máximo de 3 anos para o futebol e 5 anos
para outros esportes.

120
Capítulo 3

Figura 14. Adolescente assinando contrato

Fonte: Freepik (2024).


#ParaTodosVerem: na imagem, um rapaz utilizando camisa jeans e camiseta laranja. Ele segura três
papéis em sua mão e uma caneta, enquanto sorri para uma menina que veste roupa branca com
listras horizontais pretas e óculos. A menina segura um café. Ao fundo, há uma mesa e uma cadeira.

Considera-se formadora de atleta a organização esportiva que oferece


programas de treinamento nas categorias de base, cumprindo requisitos como
inscrição do atleta por pelo menos 1 ano, participação em competições oficiais,
assistência educacional e médica, instalações adequadas, entre outros.

A certificação como organização esportiva formadora é concedida pela


entidade nacional que regula o esporte, e atletas não profissionais em for-
mação (14 a 20 anos) podem receber auxílio financeiro sem gerar vínculo
empregatício. Se tratando de atletas menores de 14 a 20 anos, são garan-
tidos direitos específicos, sem a necessidade de cumprir certos requisitos
pela organização formadora.

A organização formadora tem direito a indenização se não conseguir


assinar o primeiro contrato devido à oposição do atleta ou vinculação a
outra organização sem autorização, limitada a 200 vezes os gastos compro-
vados na formação. O contrato de formação esportiva, obrigatoriamente
escrito, inclui identificação das partes, duração, direitos e deveres, garan-
tias de seguro, e especificação das despesas com o atleta. A organização

121
Capítulo 3

formadora tem preferência para a primeira renovação do contrato, salvo


equiparação de proposta de terceiro.

O atleta profissional maior de 16 anos pode estabelecer uma relação de


emprego com uma organização dedicada à prática esportiva, mediante um
contrato especial de trabalho esportivo. Esse contrato, que deve ser escrito
e com prazo determinado, precisa ter uma vigência não inferior a 3 meses e
não superior a 5 anos, sendo firmado com a organização esportiva corres-
pondente. Nesse documento, é obrigatória a inclusão da cláusula indeniza-
tória desportiva, a qual é devida exclusivamente à organização desportiva
empregadora à qual o atleta está vinculado, em situações específicas.

Figura 15. Seleção brasileira de vôlei.

Fonte: Wikimedia Commons (2015).


#ParaTodosVerem: fotografia da seleção brasileira de vôlei feminino com uniforme amarelo e cal-
ças pretas em cima de um pódio comemorando mais um título. São 11 mulheres e 3 homens na foto.

Partindo dessa premissa, destacamos os principais pontos da Lei Geral


do Esporte (Brasil, 2023) se tratando de contratos de trabalho. No tocante
à Natureza das Premiações, no âmbito do esporte profissional, os atletas
recebem bônus relacionados à sua contratação ou desempenho esportivo,
conhecidos como “Luva” e “bicho”, respectivamente. A legislação antiga esta-
belece que tais bonificações, quando incluídas no contrato de trabalho, pos-
suem natureza salarial. No entanto, a LGE propõe uma abordagem diferente,
sugerindo que prêmios por desempenho ou resultado, direitos de imagem e

122
Capítulo 3

luvas, quando ajustados, devam ser formalizados por meio de contrato avul-
so de natureza exclusivamente civil. Conforme o art. 85, vejamos:


Art. 85. A relação do atleta profissional com seu empregador esportivo regula-
-se pelas normas desta Lei, pelos acordos e pelas convenções coletivas, pelas
cláusulas estabelecidas no contrato especial de trabalho esportivo e, subsidia-
riamente, pelas disposições da legislação trabalhista e da seguridade social.
§ 1º Os prêmios por performance ou resultado, o direito de imagem e o
valor das luvas, caso ajustadas, não possuem natureza salarial e constarão
de contrato avulso de natureza exclusivamente civil.
§ 2º Consideram-se prêmios por performance as liberalidades concedidas pela
organização que se dedique à prática esportiva empregadora em dinheiro a
atleta, a grupo de atletas, a treinadores e a demais integrantes de comissões
técnicas e delegações, em razão do seu desempenho individual ou do desem-
penho coletivo da equipe da organização que se dedique à prática esportiva,
previstas em contrato especial de trabalho esportivo ou não (Brasil, 2023).

Outro ponto importante se faz referente à cláusula compensatória,


caracterizada como multa devida aos jogadores em casos de rescisão
indireta causada por culpa do clube ou dispensa sem justa causa, era
anteriormente estabelecida livremente pelas partes, respeitando os
parâmetros legais. Com a nova lei foram introduzidas alterações signifi-
cativas, prevendo o pagamento parcelado desta cláusula, com exceção
para contratos de até 12 meses.

A cláusula compensatória esportiva é devida pela organização que


promove prática esportiva ao atleta. O valor desta cláusula indenizató-
ria é indicado no art. 86 da LGE e será livremente pactuado pelas partes
e expressamente quantificado no instrumento contratual. O valor pode
ser até o limite máximo de duas mil vezes o valor médio do salário con-
tratual, para as transferências nacionais, o mesmo limite não se aplica
para as transferências internacionais. O valor da cláusula compensatória
esportiva internacional será livremente pactuado entre as partes e for-
malizado no contrato especial de trabalho desportivo, observando-se,
como limite máximo, 400 vezes o valor do salário mensal no momento
da rescisão e, como limite mínimo, o valor total de salários mensais a
que teria direito o atleta até o término do referido contrato.

O atleta e a nova organização esportiva empregadora serão solidaria-


mente responsáveis pelo pagamento da cláusula indenizatória desportiva.
Se ocorrer o atraso no pagamento das parcelas da cláusula compensatória
esportiva por mais de dois meses, vencendo automaticamente toda a dívida.

123
Capítulo 3

Figura 16. Jogadora de Futebol

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: imagem de uma mulher segurando uma bola de futebol branca com detalhes
em preto. A garota está com seu cabelo preso e usa uniforme esportivo preto com detalhes em
azul. Ela sorri e está com o braço aberto mostrando sua força.

A concentração, quando considerada conveniente pela organização


esportiva contratante, não pode ultrapassar três dias consecutivos por
semana, desde que haja programação de partida, prova ou equivalente,
amistosa ou oficial. Durante esses períodos, o atleta está obrigado a estar à
disposição do empregador, especialmente em competições realizadas fora
da localidade onde a organização tem sua sede.

O prazo de concentração pode ser estendido sem a necessidade de


pagamento adicional, desde que o atleta esteja à disposição da entidade
que regulamenta a modalidade. Não serão aplicados acréscimos remune-
ratórios em virtude de períodos de concentração, viagens, pré-temporada
fora da sede e participação do atleta em partidas, provas ou equivalentes, a
menos que haja previsão contratual diversa.

As férias anuais remuneradas, totalizando 30 dias, acrescidas do abo-


no de férias, devem ser concedidas, permitindo que a entidade de prática
de futebol decida sobre a coincidência ou não com o recesso das atividades
esportivas. Essa decisão pode ser ajustada individualmente entre as partes.

124
Capítulo 3

Deve ser observado um período de trabalho semanal regular de 44 horas.


Em situações de participação em jogos e competições noturnas, a remuneração
do atleta deve incluir um acréscimo de pelo menos 20% sobre a hora diurna,
salvo condições mais benéficas estabelecidas em convenção ou acordo coletivo.

A atividade do atleta profissional da modalidade de futebol é caracteri-


zada pela remuneração pactuada em contrato especial de trabalho esporti-
vo, o qual é firmado com a organização dedicada à prática esportiva. Além
disso, cabe destacar que convenção ou acordo coletivo têm a prerrogativa
de dispor de forma diferente do estabelecido nestas diretrizes, e disposi-
ções contratuais ou constantes de convenções ou acordos coletivos podem
ser estendidas aos atletas profissionais de outras modalidades.

Quanto ao trabalho noturno, este é definido como a participação em jogos


e competições realizados entre as 23h59 de um dia e as 6h59 do dia seguinte,
sendo a hora do trabalho noturno calculada como 52 minutos e 30 segundos.

Figura 17. Estádio à noite

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: a imagem mostra um estádio de futebol lotado com torcedores vistos por
cima de um dos gols, na vertical. Está no período noturno e 6 fogos de artifícios estão sendo estou-
rados deixando cada um fumaça alaranjada.

125
Capítulo 3

As disposições desta Lei aplicam-se aos atletas profissionais da modali-


dade futebol, estabelecendo diretrizes específicas para regulamentar diver-
sos aspectos da relação de trabalho nesse contexto esportivo. O término dos
vínculos empregatício e esportivo entre o atleta profissional e a organização
desportiva empregadora ocorre de maneira definitiva nas seguintes situações:

• ao finalizar o prazo do contrato ou mediante acordo entre as partes;

• na rescisão resultante do não pagamento salarial ou do contrato de


direito de imagem vinculado a ele, de responsabilidade da organiza-
ção esportiva empregadora, conforme disposto nesta Lei;

• na rescisão indireta, de acordo com as demais hipóteses previstas


na legislação trabalhista;

• na dispensa sem justa causa do atleta.

A rescisão indireta do contrato especial de trabalho esportivo ocorre


quando a organização desportiva empregadora não cumpre as obrigações
contratuais referentes à remuneração do atleta profissional ou ao contrato
de direito de imagem, por período igual ou superior a dois meses. Nesse
caso, o atleta tem o direito de transferir-se para qualquer outra organização
esportiva, nacional ou estrangeira, e requerer a cláusula compensatória es-
portiva e os valores devidos.

Os elementos considerados como salário, para fins da remuneração


mencionada no § 1º deste artigo, incluem o abono de férias, o décimo ter-
ceiro salário, gratificações e outras verbas estabelecidas no contrato de tra-
balho. A falta de regularização do recolhimento do FGTS e das contribuições
previdenciárias caracteriza mora contumaz (quando se deve por mais de
3 meses, tais verbas) por parte da organização desportiva empregadora.

126
Capítulo 3

Figura 18. Caixa Econômica.

Fonte: Wikimedia Commons (2016).


#ParaTodosVerem: na imagem, um prédio espelhado com uma placa azul no topo com a escrita
“Caixa” ao lado de palmeiras.

Após a rescisão do contrato especial de trabalho esportivo, o atleta


está autorizado a transferir-se para outra organização esportiva, indepen-
dentemente do número de partidas disputadas na competição em curso,
respeitando a data-limite de inscrições estipulada nos regulamentos de
cada modalidade esportiva.

Ao atleta profissional é permitido recusar-se a competir por uma or-


ganização esportiva quando seus salários, total ou parcialmente, estiverem
atrasados por dois ou mais meses. Para o atleta profissional não nacional de
determinada modalidade esportiva, é possível obter autorização de traba-
lho, sujeita às exigências da legislação específica, por um prazo não superior
a 5 anos, correspondente à duração fixada no contrato especial de trabalho
esportivo, podendo ser renovada. A organização que regula a modalidade
esportiva deve exigir da organização esportiva contratante a comprovação
da autorização de trabalho emitida pelo Ministério do Trabalho e Emprego,
sob pena de cancelamento da inscrição esportiva.

Quando se trata da exploração comercial de imagens captadas em even-


tos esportivos, é permitida. Disso é gerado o direito de arena, que engloba a
exploração e comercialização de difusão de imagens, é de responsabilidade

127
Capítulo 3

das organizações esportivas mandantes. Este direito abrange a negociação,


autorização ou proibição da captação, fixação, emissão, transmissão, retrans-
missão e reprodução de imagens de eventos esportivos em que participam.

O pagamento da verba deve ser intermediado pelos sindicatos das res-


pectivas categorias, que ficam encarregados de receber e repassar os valo-
res aos participantes do evento em até 72 horas. A organização detentora
do direito de arena e dos direitos comerciais pode cedê-los, total ou parcial-
mente, por meio de documento escrito, a outras organizações esportivas
que regulamentam a modalidade e organizam competições.

Figura 19. Pagamento dos direitos comerciais e arena

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: na imagem, um homem entrega dinheiro a outro, só aparecendo as mãos;
abaixo, uma agenda em branco com uma caneta em cima e, do outro lado, alguns papéis espalha-
dos embaixo de uma calculadora.

Nas competições organizadas por outras entidades esportivas, estas


detêm o direito de autorizar ou proibir a captação, transmissão e reprodu-
ção de imagens, bem como a exploração comercial associada a nomes, sím-
bolos, marcas e publicidade. Fica proibido o proveito publicitário indevido,
sendo necessária a concordância dos titulares dos direitos envolvidos.

Em eventos sem mando de jogo definido, a captação, transmissão e re-


produção de imagens dependem da anuência das organizações esportivas

128
Capítulo 3

participantes. As disposições não se aplicam a contratos de direitos de


transmissão celebrados antes da vigência da LGE. Contratos referidos não
afetam organizações esportivas que não cederam direitos de transmissão.
A veiculação de marcas de empresas detentoras de concessões de radiodi-
fusão, inclusive em uniformes, não configura proveito econômico indevido.

A difusão de imagens de eventos esportivos na internet segue as mesmas


normas. A comercialização de direitos de difusão de imagens de eventos espor-
tivos deve respeitar princípios como o interesse público, o direito do torcedor, a
liberdade de comunicação, a livre concorrência e a integridade do esporte.

O detentor dos direitos de difusão deve disponibilizar imagens de


eventos a veículos de comunicação para fins jornalísticos, observando cri-
térios como tempo e forma de exibição. As regras não se aplicam quando o
detentor autoriza o organizador do evento a reservar espaço para captação
de imagens por não detentores de direitos. O uso da imagem de atletas
pode ser cedido a terceiros por ajuste contratual civil, desde que não se
confunda com o contrato especial de trabalho esportivo.

Figura 20. Torcedores assistindo jogo de futebol

Fonte: Freepik (2023).


#ParaTodosVerem: na imagem, quatro amigos sentados em um sofá assistindo na TV um jogo de
futebol. Sala com tapete verde, sofá marrom e estante com aspecto de madeira.

129
Capítulo 3

O atleta pode ceder seu direito de imagem à organização esportiva em-


pregadora, sem substituir a remuneração devida pelo vínculo empregatício.
A remuneração pelo direito de imagem não pode exceder 50% da remunera-
ção total do atleta. A utilização da imagem pode ocorrer em diversos meios e
formas durante o vínculo, desde que haja efetivo uso comercial. Sendo per-
mitida a exploração da imagem coletiva de atletas e membros das comissões
técnicas para fins promocionais, institucionais e de fomento ao esporte.

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) e o Comitê Paralímpico Brasileiro


(CPB) devem firmar com o Ministério do Esporte, até o mês de dezembro
dos anos que forem realizados Jogos Olímpicos e Paralímpicos, seus pactos
para os ciclos olímpicos e paralímpicos seguintes. Ainda para os atletas que
desejam receber a Bolsa Atleta na categoria Atleta Pódio (cuja bolsa pode
chegar a até R$ 15 mil mensais), o atleta deve estar ranqueado entre os 20
melhores do mundo na modalidade. Conforme o Quadro 1:

Quadro 1. Categoria de atleta + bolsa.

Valor Base
Categoria de Atleta Mensal da
Bolsa Atleta

Categoria atleta de base: atletas de até 19 anos de idade


com destaque nas categorias de base de alto rendimento,
que tenham obtido até a 3ª colocação nas modalidades in-
dividuais de categorias e de eventos previamente indicados R$ 370,00
ou que tenham sido eleitos entre os 10 melhores atletas do
ano anterior em cada modalidade coletiva participando de
competições nacionais.

Categoria estudantil: atletas de até 20 anos de idade, que


tenham participado de eventos nacionais estudantis reco-
nhecidos pelo Ministério do Esporte e obtido até a terceira
colocação nas modalidades individuais ou que tenham sido R$ 370,00
eleitos entre os 6 melhores atletas em cada modalidade cole-
tiva do referido evento e que continuem treinando e partici-
pando de competições nacionais.

130
Capítulo 3

Valor Base
Categoria de Atleta Mensal da
Bolsa Atleta

Categoria atleta nacional: atletas que tenham participado


do evento máximo da temporada nacional ou que integrem o
ranking nacional da modalidade divulgado oficialmente pela
respectiva organização nacional de administração da modali- R$ 925,00
dade, tendo obtido, em ambas as situações, até a terceira co-
locação, e que continuem treinando e participando de com-
petições nacionais.

Categoria atleta internacional: atletas que tenham inte-


grado a seleção brasileira de sua modalidade esportiva, re-
presentando o Brasil em campeonatos sul-americanos, pan-
-americanos ou mundiais reconhecidos pelo COB, pelo CPB,
R$ 1.850,00
pela Confederação Brasileira de Desportos de Surdos (CBDS)
ou pela entidade internacional de administração da modali-
dade, tendo obtido até a terceira colocação, e que continuem
treinando e participando de competições internacionais.

Categoria atleta olímpico, paralímpico ou surdolímpico: atle-


tas que tenham integrado as delegações olímpica, paralímpica ou
surdolímpica brasileiras de sua modalidade esportiva, que conti- R$ 3.100,00
nuem treinando e participando de competições internacionais e
que cumpram critérios definidos pelo Ministério do Esporte.

Categoria atleta pódio: Atletas de modalidades olímpicas,


paraolímpicas e surdolímpicas individuais que estejam entre
os 20 melhores do mundo em sua prova, segundo ranking
oficial da entidade internacional de administração da moda- Até
lidade, e que sejam indicados pelas respectivas organizações R$ 15.000,00
nacionais de administração e regulação da modalidade es-
portiva em conjunto, respectivamente, com o COB, o CPB, a
CBDS e com o Ministério do Esporte.

Fonte: Adaptado a partir da Lei nº 14.597/2023 (Brasil, 2023).

Dessa forma, podemos compreender como funcionam os contratos para


atletas profissionais e como as bolsas de auxílio podem ser concedidas. Assim
sendo, analisamos as leis vigentes e as alterações dadas pela Lei Geral do Esporte.

131
CONSIDERAÇÕES
FINAIS

Nesta nossa última unidade, exploramos aspectos cruciais de


nossa disciplina, com o Capítulo Desporto e Justiça. Trabalhamos
três áreas fundamentais: direito penal desportivo, direito trabalhis-
ta esportivo e disposições contratuais. Essa abordagem ampla pro-
porcionou uma compreensão abrangente dos desafios e nuances
legais que permeiam o universo do esporte.

O direito penal desportivo revelou-se crucial para a preservação


da integridade e ética no meio esportivo. Ao analisar casos práticos,
compreendemos como as leis visam coibir práticas prejudiciais ao fair
play, crimes de manipulação de resultado e como seria possível promo-
ver um ambiente mais justo e seguro para atletas e demais envolvidos.

No âmbito do direito trabalhista esportivo, aprofundamos


nosso entendimento sobre as relações contratuais entre atletas e
clubes. Com debates importantes sobre como são decididas as lides
de esportistas e como o judiciário vem se portando em casos reais.

As variações específicas dessa relação foram exploradas, desta-


cando-se a importância de contratos bem elaborados para proteger
os direitos e interesses de ambas as partes. Além disso, a análise das
disposições contratuais permitiu-nos compreender como cláusulas
específicas podem impactar diretamente o desfecho e a resolução
de conflitos no mundo esportivo.

A análise da LGE permitiu uma maior compreensão e aplicação


de normas no contexto esportivo. Seu papel na regulação e promo-
ção do desenvolvimento sustentável do esporte no país foi eviden-
ciado, destacando como suas disposições têm impacto direto nas
demais áreas estudadas.

132
Capítulo 3

A abordagem prática do ensino, através de estudos de casos e


análise de situações reais, proporcionou uma experiência enrique-
cedora. A conexão entre teoria e prática permite-nos aplicar os co-
nhecimentos adquiridos a cenários do mundo real, preparando-nos
para enfrentar desafios e tomar decisões informadas no campo do
Direito Esportivo.

Ao finalizar este curso, reconhecemos a importância crítica de


um conhecimento sólido no âmbito legal para profissionais envolvi-
dos no mundo do esporte. A compreensão das leis que regem o es-
porte não apenas protege os direitos dos envolvidos, mas também
contribui para a construção de um ambiente esportivo mais ético,
transparente e sustentável. Essa disciplina proporcionou uma base
sólida para enfrentarmos os desafios jurídicos no cenário esportivo,
promovendo uma atuação mais consciente e eficaz.

133
ATIVIDADES
DE ESTUDO

1. No que diz respeito ao controle de dopagem no esporte, qual é o


papel principal da ABCD, conforme estabelecido nos Arts. 174 e 175
da Lei Geral do Esporte (Brasil, 2023)?

a. Emitir autorizações para eventos esportivos.


b. Coordenar a concentração de atletas em competições.
c. Conduzir testes de controle de dopagem e expedir autorizações de
uso terapêutico.
d. Gerenciar a venda de ingressos para eventos esportivos.

2. Em relação à contestação sobre a validade da sanção de proibição


de registro de novos atletas pela CNRD, qual é o impacto mencionado
no texto?

a. A contestação não possui impacto significativo no sistema da juris-


dição estatal trabalhista.
b. A contestação fortalece a eficácia do sistema da jurisdição estatal
trabalhista.
c. A CNRD tem sido ineficaz na aplicação da sanção, comprometendo
a integridade do futebol.
d. A contestação pode impactar a eficácia do sistema da jurisdição
estatal trabalhista em casos envolvendo clubes com recursos para
quitar dívidas.

134
Capítulo 3

3. Como é tratado o período de concentração em termos de remune-


ração e acréscimos, de acordo com as diretrizes?

a. O atleta recebe pagamento adicional por períodos de concentração.


b. A remuneração do atleta é mantida, independentemente do perío-
do de concentração.
c. O prazo de concentração pode ser estendido sem custos adicionais.
d. Não são aplicados acréscimos remuneratórios em virtude de perío-
dos de concentração, a menos que haja previsão contratual diversa.

135
REFERÊNCIAS

AMADO, J. L. Desporto, Direito e Trabalho: uma Reflexão sobre a Especificidade


do Contrato de Trabalho Desportivo. In: BELMONTE, Alexandre Agra; MELLO,
Luiz Philippe Vieira de; BASTOS, Guilherme Augusto Caputo et al. (coord.).
Direito do Trabalho Desportivo: os aspectos jurídicos da Lei Pelé frente às
alterações da Lei n. 12.395/2011. São Paulo: LTr, 2013. p. 9-21.

BRASIL. Decreto-Lei nº 4.657, de 4 de setembro de 1942. Rio de Janeiro:


Presidência da República, 1942. Disponível em: <[Link]
br/ccivil_03/decreto-lei/[Link]>. Acesso em: 3 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados


Especiais Cíveis e Criminais e dá outras providências. Brasília: Presidência
da República, 1995. Disponível em: <[Link]
leis/[Link]>. Acesso em: 2 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996. Dispõe sobre a arbitra-


gem. Brasília: Presidência da República, 1996. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/leis/[Link]>. Acesso em: 2 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 10.671, de 15 de maio de 2003. Dispõe sobre o Estatuto


de Defesa do Torcedor e dá outras providências. Brasília: Presidência da
República, 2003. Disponível em: <[Link]
leis/2003/[Link]>. Acesso em: 2 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 13.155, de 4 de agosto de 2015. Estabelece princípios e prá-


ticas de responsabilidade fiscal e financeira e de gestão transparente e de-
mocrática para entidades desportivas profissionais de futebol; institui par-
celamentos especiais para recuperação de dívidas pela União [...]. Brasília:
Presidência da República, 2015. Disponível em: <[Link]
br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/[Link]>. Acesso em: 2 abr. 2024.

136
Capítulo 3

BRASIL. Lei nº 14.193, de 6 de agosto de 2021. Institui a Sociedade Anônima do


Futebol e dispõe sobre normas de constituição, governança, controle e transpa-
rência, meios de financiamento da atividade futebolística, tratamento dos pas-
sivos das entidades de práticas desportivas e regime tributário específico [...].
Brasília: Presidência da República, 2021. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/[Link]>. Acesso em: 3 abr. 2024.

BRASIL. Lei nº 14.597, de 10 de janeiro de 2023. Institui a Lei Geral do Esporte.


Brasília: Presidência da República, 2023. Disponível em: <[Link]
[Link]/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/[Link]>. Acesso em: 8 mar. 2024.

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região. Processo nº 0010531-


39.2019.5.03.0013. 1ª Seção de Dissídios Individuais. Relator: Desembargador
Manoel Barbosa da Silva. DEJT 01 de junho de 2020.

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. Processo nº 1000585-


81.2020.5.02.0445. Juiz: Wildner Izzi Pncheri. DEJT 25 de agosto de 2020.

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região. Processo nº 0010125-


84.2020.5.03.0012. Relator Juiz: Mauro César Silva. DEJT 26 de novembro de 2020.

BRASIL. Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região. Processo nº 0011013-


87.2019.5.15.0001. 4ª Camara. 2ª Turma. Relatora: Desembargadora Larissa
Carotta Martins da Silva Scarabelim. DEJT 19 de outubro de 2020.

CENTRO BRASILEIRO DE MEDIAÇÃO E ARBITRAGEM. Regulamento de


Arbitragem Esportiva Recursal. Rio de Janeiro: CBMA, 2019. Disponível
em <[Link]
[Link]>. Acesso
em: 11 dez. 2023.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL. Fair Play Trabalhista: informa-


ções e esclarecimentos. CBF, Rio de Janeiro, 9 mar. 2015. Disponível em:
<[Link]
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CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL. Regulamento da Câmara


Nacional de Resolução de Disputas 2020. Rio de Janeiro: CBF, 2020. Disponível
em: <[Link]
Acesso em: 12 dez. 2023

137
Capítulo 3

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL. Regulamento Nacional


de Registro e Transferências de Atletas de Futebol 2022. Rio de
Janeiro: CBF, 2021. Disponível em: <[Link]
cdn/202201/20220103141959_422.pdf>. Acesso em: 12 dez. 2023.

FERNANDES, J. R. L. A arbitragem em conflitos individuais trabalhistas: uma


interpretação constitucional e lógico-sistemática do art. 507- A da CLT.
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MIGUEL, R. G. A. O reconhecimento dos eSports como desporto olím-


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PAGANELLA, M. A. A autonomia jurídica do sistema esportivo extraesta-


tal. Londrina: Thoth Editora, 2022.

TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO. Relatório Geral da Justiça do


Trabalho. Brasília: TST, 2020. Disponível em: <[Link]
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5d8b949aa5f?t=1624912269807>. Acesso em: 2 abr. 2024.

138
GABARITO GERAL

CAPÍTULO 1
Questão 1
d) Há autonomia das entidades desportivas, dirigentes e associações quan-
to à sua organização e funcionamento.

Questão 2
d) Quando se fala em desporto de Participação, é uma modalidade voluntária
para contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social,
na promoção da saúde e educação, e na preservação do meio ambiente.

Questão 2
a) A torcida organizada responde civilmente, em sentido objetivo e solidá-
rio, pelos danos causados por qualquer dos seus associados.

CAPÍTULO 2
Questão 1
b) No “drop down” de ativos, ocorre a transferência de ativos da empresa-
-mãe para a subsidiária, mantendo a continuidade das operações.

Questão 2
d) Resolver litígios e controvérsias relacionados ao esporte por meio da
arbitragem.

Questão 3
c) Utilizando sanções como suspensões e multas para desencorajar práticas
antiéticas.

139
Gabarito Geral

CAPÍTULO 3
Questão 1
d) Gerenciar a venda de ingressos para eventos esportivos.

Questão 2
d) A contestação pode impactar a eficácia do sistema da jurisdição estatal
trabalhista em casos envolvendo clubes com recursos para quitar dívidas.

Questão 3
d) Não são aplicados acréscimos remuneratórios em virtude de períodos de
concentração, a menos que haja previsão contratual diversa.

140

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