ENSAIO SOBRE A EXPOSIÇÃO "PARDO NÃO É PAPEL"
João Pedro Ferreira Sampaio
A arte contemporânea traz uma reeleitura do que é arte, com novas técnicas e modos de
produzir, se diferenciando do modos artísticos anteriores. Além da obra em si, outros elementos
são importantes para a compreensão de modo mais amplo, como o contexto de produção da
obra e as vivências e sentimentos do artista que o inspiraram a produzir. Elementos abstratos e
estéticas únicas geram significados subjetivos na arte contemporânea.
Trago nesse texto uma análise sobre a exposição " Pardo é papel". Inaugurada no MAR (Museu
de arte do Rio) em 2019, do Maxwell Alexandre ( Rio de Janeiro, 1990), morador da
comunidade da rocinha, maior favela da America Latina, o artista teve criação evangélica e
serviu o exército. Aborda nas suas obras reflexões sobre questões sociais, apresentando uma
estética negra, que se aproxima da cultura popular urbana do Rio de Janeiro, trazendo cenas de
vivências comuns na comunidade, elementos do pop e construções abstratas. Na exposição, o
artista traz o conceito do pardo, termo usado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística) para configurar um dos grupos de "cor" presentes no Brasil, que serviu como
ferramenta de velação da negritude, essa tentativa de esconder a descendência negra, Maxwell
então trouxe o ato político de pintar corpos negros no papel pardo.
“O desígnio pardo encontrado nas certidões de nascimento, em currículos e carteiras de
identidades de negros do passado, foi necessário para o processo de redenção, em
outras palavras, de clareamento da nossa raça. Porém, nos dias de hoje, com a internet,
os debates e tomada de consciência e reivindicações das minorias, os negros passaram a
exercer sua voz, a se entender e se orgulhar como negro, assumindo seu nariz, seu
cabelo, e construindo sua autoestima por enaltecimento do que é, de si mesmo. Este
fenômeno é tão forte e relevante, que o conceito de pardo hoje ganhou uma sonoridade
pejorativa dentro dos coletivos negros. Dizer a um negro que ele é moreno ou pardo
pode ser um grande problema, afinal, Pardo é Papel” (Maxwell Alexandre, 2019).
A pintura de Maxewll apresenta traços distorcidos, imagens espalhadas sem seguir uma lógica
direta, construções subjetivas e íntimas do artista, típico da arte contemporânea, observando
seu estilo é impossível não lembrar de Basquiat, segundo Aira (2010, p. 9) "A obra de arte
sempre levou implícita a sua própria reprodução. Ao se propor à percepção e à memória, é
inevitável que desprendam fantasmas no tempo e no espaço" . A maioria das figuras estão sem
rosto, dando ênfase nos corpos, cabelos e acessórios.
Em uma das cenas pintadas, são retratados jovens dançando funk e break com seus afros,
tranças e dreads, namorando e festejando, pintando os cabelos de loiro ( algo que virou
tendência entre os garotos de periferia). O artista da protagonismo para os sempre
marginalizados, e capta cenas vividas por essas pessoas, como um banho na caixa d´agua para
se refrescar do calor. Ja em outra pintura há referências a personagens negros como o pantera
negra, o super choque, o saci, personalidades como a vereadora Marielle franco, e os rappers
Djonga e BK, é claro a influência da estética do hip hop americano em sua obra, cultura essa ja
dominante entre os jovens estadunidenses e que vem crescendo sua influência também no
Brasil, ajudando os jovens a assumirem penteados afros, apesar da resistência da sociedade.
O artista traz também a ostentação dos negros com carros, correntes de ouro, notas de dinheiro
nas mãos, outros formados com diploma, negros observando uma exposição de arte, espaço
esse pouco frequentado por não brancos, subvertendo a imagem que se construiu do negro na
arte, traz na pintura a fartura e abundância negada aos negros no contexto pós escravista. Mas
também se aborda a violência policial, retratando caburôes (navios de escravos moderno), uma
mãe negra chutando um carro da polícia, sangue escorrendo pela tela, na guerra falida as
drogas que mata corpos negros, crianças com uniformes da escola pública derrubando uma
viatura polícial como num ato de protesto ou rebelião, representando a insatisfação e a
consciência que o negro vem tomando da sua condição de oprimido.
Maxwell traz uma estética única, abordando a realidade nua e crua do universo negro no Brasil,
com suas dores, amores e vivências, misturando essa realidade com toda a imaginação que a
arte permite. Com reeleituras do mundo pop, e abstrações íntimas do artista, realiza uma
função importantíssima de levar reflexão e autoestima para a população negra. O simples fato
de se afirmar como artista e reivindicar um lugar historicamente ocupado por brancos, Maxwell
vai contra o que o sistema define para os corpos negros, a questão racial no Brasil vem se
tornando pauta nos últimos anos, e a exposição "Pardo é Papel" chega no momento exato.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AIRA, cesar. Sobre a Arte Contemporânea. Argentina. 001ed. Literatura Random House.
29/05/2019