Copyright © 2025 by Tim Shiverin
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usada ou reproduzida, sob qualquer forma, sem autorização por
escrito, exceto em caso de breves citações em artigos críticos ou
resenhas.
Este livro é uma obra de ficção. Nomes, personagens, empresas,
organizações, lugares, eventos e incidentes são produtos da imaginação
do autor ou são usados ficticiamente. Qualquer semelhança com
pessoas reais, vivas ou mortas, eventos ou locais é mera coincidência.
Impresso em Portugal
Design do livro por Tim Shiverin
Design da capa por Tim Shiverin
Primeira Edição: Julho 2025
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PREFÁCIO
Entre os Morros há caminhos que não constam nos mapas
— trilhas que serpenteiam entre a infância e o abismo,
entre a inocência e a escuridão, entre o mundo visível e
aquele que vive atrás das pálpebras fechadas. Este livro
nasce justamente desse espaço: da fronteira entre o que é
e o que poderia ter sido.
Em “Simão”, não se narra apenas uma história —
testemunha-se uma travessia. A ilha de São Jorge é mais
do que cenário: é uma personagem viva, pulsante, uma
Simão
entidade que acolhe, amaldiçoa, observa. É uma terra
onde os pássaros sabem demais e o silêncio pesa como um
aviso. Onde os jovens sonham em crescer, mas logo
percebem que crescer é carregar os fantasmas que
deixaram atrás das figueiras e dos campos de futebol de
salão.
Simão é um protagonista fragmentado. Filho do medo, da
vergonha, do desejo, e daquilo que não tem nome. E se os
outros personagens se movem em volta dele com o fulgor
da juventude ou o peso da ancestralidade, ele próprio se
transforma: em suspeito, em amante, em pai, em monstro,
em vítima — talvez tudo ao mesmo tempo.
A estrutura do romance é engenhosa: um labirinto
temporal onde presente e passado se dobram, onde
sonhos parecem mais reais do que o dia seguinte, e onde
cada gesto é um eco de algo que já se viveu ou se vai
repetir. Há uma tensão permanente entre destino e
escolha, entre realidade e alucinação. E é precisamente
isso que transforma esta narrativa num espelho quebrado
— um espelho onde todos nós, leitores, podemos
encontrar um fragmento de nós mesmos.
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Tim Shiverin
Prepare-se para entrar numa vila onde os segredos
escorrem pelas paredes, onde o amor pode tanto salvar
como condenar, e onde o tempo não é uma linha reta, mas
uma espiral que se fecha sobre quem ousa recordar.
Este livro é uma ferida aberta. Mas também é uma
tentativa de cura.
[Link]
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Simão
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A AVENTURA
São Jorge, Açores – Setembro de 1976
O céu ainda era um roxo pisado, recusando-se a sangrar
em aurora. Simão, o coração a bater como um pássaro
enjaulado, já estava desperto, uma sombra na penumbra
antes do amanhecer, pronto para escorregar da casa como
um sussurro.
Simão
Lá em baixo, junto ao portão rangente do Jardim da
República — um lugar que, ao fim da tarde, fervilhava com
a energia crua da infância, mas que agora jazia mudo e
expectante —, os seus amigos esperavam. Silhuetas
sombrias, encolhidas contra o frio mordaz da manhã. Uma
"aventura", era o que lhe chamavam. Mas, mesmo então,
um verme gelado de desconforto talvez já se agitasse nas
entranhas de Simão.
Tinham conspirado para se aventurarem na zona de Entre
os Morros, um pedaço esquecido de terra que os mais
velhos, em segredo, chamavam de "Entre os Mundos". Era
um lugar para onde os caminhos não levavam, longe dos
olhos curiosos dos adultos, onde as árvores cresciam
demasiado juntas e o silêncio pesava como uma mão sobre
a boca. Perfeito para o tipo de travessura que sabia a fruta
proibida e ao primeiro indício de algo verdadeiramente
perigoso.
"Anda lá, Anão!" Luís sibilou, um grito rouco que era mais
ar do que som, um apelo desesperado para não despertar
a rua adormecida, que, mesmo àquela hora, parecia uma
criatura viva, pronta para acordar e julgar.
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Tim Shiverin
"Calma! A minha mãe tem ouvidos de morcego e um
temperamento de tempestade de verão," Simão
murmurou de volta, sentindo o suor frio na nuca.
Com Luís, o mais velho aos onze anos, o rosto já gravado
com os primeiros vincos do cinismo adolescente, mas os
olhos ainda a brilhar com malícia, estavam os gémeos
Pedro e José. Dez anos, idênticos como duas ervilhas numa
vagem, e igualmente obcecados com o couro gasto de uma
bola de futebol. Mas, sob essa paixão inocente, fervilhava
uma fome inquieta pelo desconhecido. Sempre prontos
para uma aventura, não importava o quanto esticasse os
limites das regras das suas mães, ou os avisos não ditos da
vila.
A vila de Velas, naqueles dias, parecia viva, vibrando com
uma energia crua e não refinada. Uma colmeia de
atividade, perpetuamente a zumbir com o burburinho da
existência humana. As crianças escorriam para as ruas
como refrigerante destapado, as suas risadas ecoando
pelo Jardim da República, junto ao cais movimentado, e
pelas soleiras ensolaradas das casas, numa altura em que
os carros eram um luxo raro, não uma ameaça constante.
Havia as pequenas, insignificantes aventuras da rapaziada
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Simão
que pareciam atos gloriosos de rebelião: roubar pombas
dos pombais dos "Senhores" da Vila, as asas a bater uma
batida frenética contra os peitos dos miúdos; colher figos
maduros da figueira do velho Bettencourt, o sumo doce
uma insígnia pegajosa de honra. O atiçar do cão da Sra
Dolores, que por muito barulho que fizesse, adorava a
companhia da rapaziada. O zumbido dos piões a girar no
asfalto rachado, o estalido de triciclos improvisados, feitos
de madeira descartada e rodas corroídas pela ferrugem.
A maioria dos rapazes, se lhes perguntasses, sonhava com
os ofícios simples e honestos, honrando as carreiras dos
pais : o sabor salgado da vida de pescador, a solidez segura
da mão de um pedreiro, ou, com sorte, um trabalhinho nos
Serviços, embora na altura fosse uma lotaria e um luxo.
Coisa para meninos dos Senhores. Qualquer coisa que
prometesse um salário estável e uma vida tranquila, longe
dos sussurros e das sombras.
Havia dois polícias cansados, homens velhos com olhos
ainda mais velhos, que viam demais e falavam de menos.
As rondas eram cada vez menos e a vontade menor ainda.
Não queriam encontrar problemas, nem queriam que os
problemas os encontrassem a eles.
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Tim Shiverin
E o Cinema São Jorge, uma sala escura e poeirenta onde as
imagens cintilantes no ecrã continham mais vida do que a
própria vila. Os rapazes, proibidos por sinais severos e o
ocasional safanão na orelha, continuavam a escorregar
para dentro, fantasmas nas filas de trás ou por baixo do
palco, inalando o cheiro a pipocas velhas, fumo de cigarro
e o aroma de sonhos proibidos.
Era um tempo diferente, certamente. Um tempo mais
magro. Um tempo de mãos calosas e barrigas vazias, onde
a fartura era uma palavra sussurrada como uma oração,
não um dado adquirido. Mas havia uma felicidade,
também, uma alegria feroz e desafiadora que florescia nas
frestas da pobreza. Uma felicidade que parecia tão sólida
quanto o calhau sob os seus pés. Pelo menos, era assim
que se sentia.
Até agora
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Simão
2
ENTRE OS MORROS
São Jorge, Açores – Setembro de 1976
O sol já espreitava, preguiçoso mas implacável, por entre
os pinheiros, quando a matilha de Simão, Luís, Pedro e José
irrompeu no recanto proibido conhecido apenas como
Entre os Morros. Os músculos doíam, as pernas pareciam
de chumbo depois da caminhada, mas a excitação, aquela
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Tim Shiverin
eletricidade selvagem que só os garotos de onze e doze
anos conhecem, vibrava em cada nervo. Aquele era o seu
santuário, o seu reino secreto, longe dos olhares vigilantes
dos pais, dos sermões e das regras. O medo de serem
descobertos era um sussurro constante no fundo da
mente, um veneno doce que tornava cada aventura ainda
mais embriagante.
Naquele vasto planalto, coberto por um tapete irregular
de urzes e pedras soltas, a energia reprimida de uma
semana de escola explodiu em catarse. Garrafas de vidro
vazias, talvez vestígios de algum piquenique de adultos
esquecido, estilhaçavam-se contra os troncos de carvalho
com um som satisfatório, como ossos a partir.
Penduravam-se nos galhos mais altos, baloiçando como
macacos, e as fisgas improvisadas, feitas com elásticos
roubados dos feixes de jornais, disparavam pedras que
zumbiam no ar, procurando alvos invisíveis. Era a
libertação, bruta e sem filtros.
O almoço, quando chegou a hora, foi um ritual. Uma "lata
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Simão
de sardinha de atum" como os antigos chamavam, a broa
esfarelada e uma garrafa de plástico já gasta, contendo os
restos de chá frio da noite anterior. Aquela mistura
insípida e fria era, de alguma forma, o néctar dos deuses
para os seus pequenos estômagos famintos, acalmando a
sede e a fome enquanto os olhos brilhavam com os planos
para a tarde. A Grande Aventura, como lhe chamavam:
escalar a encosta do Morro. Um penhasco, de onde se
vislumbrava uma queda de mais de cem metros até ao
mar, onde as ondas se desfaziam em espuma branca
contra as rochas castanhas e avermelhadas.
Corriam histórias, sussurradas nas noites de verão e nos
recreios da escola, de quem tinha tentado e nunca mais
voltara. Histórias de névoas traiçoeiras e de ventos que
pareciam sussurrar nomes. Mas eles eram homens, ou
pelo menos tentavam ser. Tinham de experimentar. O
desafio era um nó na garganta.
Luís, o mais velho e o mais cauteloso, sugeriu o sorteio.
Pedras brancas e pedras pretas, escondidas na mão suja.
Quem tirasse a preta, ia primeiro. Simão, o mais novo,
sentiu o golpe no estômago quando a pedra escura pousou
na sua palma. Uma pontada de certeza, fria e aguda, de
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Tim Shiverin
que fora enganado, de que as mãos dos mais velhos
tinham manipulado o destino. Mas não podia dar parte
fraca. Não podia. Por fora, o rosto era uma máscara de
bravura, os olhos fixos no Morro como se fosse um alvo a
conquistar. Por dentro, um terror gelado escorria pelas
veias, apertando o coração até o som dos seus próprios
batimentos se tornar insuportável.
Avançou, as pequenas mãos procurando apoio nas pedras
incrustadas na terra, nos tufos de erva teimosamente
agarrados às fissuras, nas pequenas nuances de verde que
prometiam aderência na rocha fria. Cada movimento era
um cálculo, cada centímetro uma vitória. Houve deslizes,
momentos em que o coração dos amigos lá em baixo
parecia saltar para a garganta, mas Simão persistiu.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, a
cabeça emergiu. E lá estava ele. O azul infinito do mar,
riscado pelo branco cremoso da espuma que beijava as
encostas.
"Vitória! Consegui!", o grito de Simão rasgou o ar, a voz
embargada por uma espécie de nervosismo e triunfo. Os
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Simão
olhos brilhavam com uma luz febril, quase insana.
Lá em baixo, as palavras de Simão perderam-se no vento,
mas o significado, a conquista, era claro. Os amigos
explodiram em gritos e saltos de alegria, a adrenalina
correndo solta, a tensão finalmente libertada.
Mas a euforia de Luís durou pouco. Uma sombra de
preocupação gelou-lhe o sorriso. "Desce devagar!", gritou,
a voz um pouco mais grave. "A descida pode ser tão
perigosa quanto a subida!"
Simão, porém, estava infestado por uma confiança
insidiosa, uma arrogância que ele não sentia, mas que o
possuía. Ele não ouviu. Ou não quis ouvir. Apenas três
metros abaixo do topo, o pé escorregou. Um grito rasgou
o ar, cortado por um baque seco. Simão bateu numa
pedra, perigosamente perto dos amigos, e o mundo
escureceu. Para Pedro e José, que gritaram o seu nome em
uníssono, aflitos, o tempo esticou-se num silêncio
agoniante. Pareceu uma eternidade.
"Simão! Simão!", os gritos eram quase súplicas,
aterrorizados pela quietude do corpo do amigo.
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Tim Shiverin
Então, com um gemido, Simão abriu os olhos. "O que… o
que aconteceu?", perguntou, a voz rouca, os olhos vazios.
Os minutos seguintes foram preenchidos com o esforço de
se recomporem, de varrerem para debaixo do tapete o
terror que sentiram. O dia de aventura estava terminado.
A promessa foi feita em uníssono: ninguém contaria aos
pais, nem a ninguém. Era o segredo deles, a cicatriz que
partilhavam.
Mas enquanto Simão dizia que estava bem, talvez para não
se rebaixar perante os mais velhos, ele sabia, com uma
certeza fria que lhe arrepiava a espinha, que algo estava
errado. Havia uma sensação estranha na nuca, diferente
do habitual. Como se alguém o estivesse a tocar por
dentro, a sussurrar o seu nome. Mas a boca estava
fechada. Um chamado silencioso, vindo de algum lugar
que não era ele próprio.
Algo se passava.
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Simão
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AS VOZES
São Jorge, Açores –
Setembro de 1976 | Maio de 1984
Os dias que se seguiram não foram meros dias; foram
trechos de outra coisa inteiramente, uma distorção, como
se o próprio tecido da realidade tivesse sido esticado até o
ponto de ruptura, revelando as bordas desfiadas do
desconhecido espreitando por baixo. Uma estranheza
assentou sobre tudo, uma comichão persistente sob a pele
Tim Shiverin
do mundo, um zumbido baixo que só cães e homens
atormentados podiam realmente ouvir.
Simão, sobrecarregado por um segredo demasiado
terrível, demasiado *alienígena*, para alguma vez lhe dar
voz – uma coisa que lhe arranhava a garganta sempre que
tentava falar, deixando um gosto fantasma de cinzas e
ferrugem – começou a recuar. Ele era uma pedra caindo
num poço sem fundo, afundando-se para longe do calor
reconfortante da família, da camaradagem fácil dos
amigos. Uma parede subtil, quase impercetível, lisa e
pegajosa de um pavor invisível, começou a crescer entre
ele e o resto do mundo, tornando-se mais espessa, mais
fria, a cada hora que passava.
O sono tornou-se um campo de batalha, um lugar de
suores frios e despertares súbitos e ofegantes, a escuridão
no seu quarto a pressionar como um peso físico, um
cobertor sufocante. Durante o dia, era um fio
desencapado, a sua mente uma roda de hamster frenética
de pavor, sempre a correr, nunca a descansar. O zumbido
tranquilo da normalidade foi substituído por um zumbido
constante e agudo de medo, um som que só ele podia
ouvir, perfurando-lhe o crânio. Aprendeu a viver neste
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Simão
novo ritmo, digno de pesadelo, um estado perpétuo de
hipervigilância, um prisioneiro trancado dentro do seu
próprio crânio, a chave há muito engolida pela escuridão.
A sua mãe, com aquela percepção estranha e inquietante
que só uma mãe possui, viu-o. A faísca vibrante da
infância, o sorriso fácil e ingénuo, tinha sido apagada,
substituída por um vazio tão profundo que era como olhar
para um poço sem fundo, onde nenhuma luz jamais
poderia alcançar. Os seus olhos, outrora brilhantes com a
travessura juvenil, agora ostentavam o olhar vago e
cansado de um velho que tinha visto demasiado, um
homem à espera de uma escuridão final e misericordiosa.
O desespero, uma mão fria e pegajosa, agarrou-lhe o
coração, apertando-o com força. Consultaram o padre
local, um homem bondoso mas, em última análise,
perplexo, que falava de fé e pecado em igual medida, e o
Dr. Virgílio, um amigo da família cujos manuais médicos
não ofereciam diagnóstico para uma alma em tormento.
As suas palavras, as suas garantias vazias, eram como
grãos de poeira contra uma tempestade que se formava,
sem sentido, inúteis. Não havia nada a fazer senão
observar, testemunhar a lenta e agonizante
transformação.
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Tim Shiverin
E os amigos. Ah, os amigos. Depois daquele dia – aquele
dia que pairava sobre todos eles como um sudário tecido
de terror inominável – espalharam-se. O medo, uma coisa
contagiosa, passou entre eles em sussurros e olhares
desviados, um acordo silencioso de que Simão estava
agora contaminado, um arauto de alguma consequência
invisível, um mau presságio ambulante. Deixaram-no à
deriva, encalhado numa ilha do seu próprio horror
crescente, as paredes do seu isolamento tornando-se mais
espessas, mais altas, com cada terrível dia que passava.
Mas, à medida que os anos se arrastavam, Simão adaptou-
se a esta cruel realidade que ele habitava apenas nos
confins da sua própria mente. Começou a procurar
respostas às suas perguntas, fechando-se na vasta e
empoeirada biblioteca móvel do Sr. Goulart, devorando
livros sobre anatomia, o submundo, mitologia, tudo o que
pudesse oferecer uma explicação concreta para o que
sentia e o que fazia os outros sentirem. Procurava o
manual de instruções para o seu próprio inferno pessoal.
E então, em uma tarde límpida e fresca de maio, algo
mudou na vida de Simão. Tinha dezessete anos agora, um
19
Simão
rapaz à beira da idade adulta, mas um rapaz que carregava
uma escuridão que poucos homens poderiam
compreender. Algo mudou, algo que ele nunca pensou
que sentiria novamente. Uma aparição tão real que, de
fato, *era* real. Chamava-se Aurora, e acabara de aterrar
em São Jorge. Sua pele era limpa e clara, seus cabelos
loiros e ondulados, presos por uma simples tiara. Um
vestido florido e bordado, tênis brancos. Modernidades,
talvez, para a gente pacata da vila, mas para Simão, ela era
um farol. Ele não se importava com as fofocas da vila; por
alguns momentos preciosos, parecia que o zumbido
incessante do pavor, embora sempre presente, recuava,
silenciava.
Ele tinha que conhecê-la.
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Tim Shiverin
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AURORA
São Jorge, Açores – Maio de 1984
"Que linda!" O pensamento irrompeu na mente de Simão,
afiado como um caco de vidro, enquanto seus olhos,
espiando por entre as folhas densas de uma velha e
retorcida acácia no Jardim, se fixavam na figura distante
de Aurora. Ali estava ela, sentada num dos bancos de ferro
fundido e madeira, pintados de um vermelho desbotado
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Simão
que parecia sangrar sob o sol num fim de, tarde. A pele
dela, de um branco quase lunar, e os olhos de um azul tão
profundo que pareciam engolir a luz, conversavam
animadamente com as primas, um sorriso constante a
brincar-lhe nos lábios. Era um espetáculo, pensou Simão,
um prazer quase doloroso, ver aquela mulher, por
enquanto, apenas à distância, como uma miragem num
deserto particular.
Sentia uma atração que era quase uma febre, uma
necessidade visceral de se aproximar, de decifrar aquela
pessoa nova na Vila. Ela irrompera na monotonia como um
raio, sim, mas não de luz a afastar a tempestade, e sim um
raio que anunciava uma tempestade ainda maior, uma que
se formava nos recônditos mais sombrios da sua própria
alma. Mas o medo... o medo era uma névoa fria que se
agarrava aos seus ossos. Ela era de outras paragens, de um
continente distante, de um mundo que os rapazes da Vila,
como ele, mal podiam imaginar. O que iria ela querer de
um pobre diabo como Simão, com as suas mãos calosas e
os seus sonhos que não se estendiam além das fronteiras
da ilha?
Ele sabia que precisava de coragem, uma dose maciça, mas
não naquele dia. Não, o dia ainda não tinha chegado.
22
Tim Shiverin
Mais acima, o campo de futebol de salão, um retângulo de
cimento esburacado e linhas desbotadas, fervilhava. O
torneio de verão, organizado pelo clube local, era um
pretexto para que a Vila inteira se juntasse, mesmo
aqueles que mal sabiam a diferença entre um pontapé de
baliza e um lançamento lateral. Era mais pelo convívio,
pela cerveja morna e pelos cigarros de enrolar, mas para
Simão, havia outra razão, uma razão que se aninhava no
fundo do seu estômago como uma cobra adormecida: a
probabilidade de Aurora virar a esquina do edifício
adjacente ao campo era grande. Uma probabilidade que
se tornava uma obsessão.
E assim, os seus olhos, mais do que no jogo
desinteressante, estavam fixos na esquina, uma vigilância
que beirava o ritual. O suor escorria-lhe pela nuca, o cheiro
a relva cortada e a poeira misturava-se com a expectativa.
E então, ela apareceu.
Não foi uma entrada, foi uma aparição. O burburinho que
já existia nas bancadas, um zumbido constante de vozes,
23
Simão
transformou-se num silêncio coletivo, depois num novo
tipo de murmúrio, mais denso, mais carregado. Todos os
olhos, de repente, viraram-se para ela. Quem era aquela
menina, que se movia com uma leveza quase
sobrenatural? Até eu, pensou Simão, sentindo-se parte de
um rebanho hipnotizado.
Ela sentou-se a poucos lugares do seu grupo, e Simão pôde
observá-la mais de perto. Os detalhes, antes desfocados
pela distância, agora eram nítidos: a forma como os seus
cabelos escuros caíam sobre os ombros, o anel prateado
no seu dedo anelar. E então, os olhos dela, aqueles olhos
de um azul abissal, moveram-se. Encontraram os dele.
Simão sentiu um arrepio, como se uma mão fria o tocasse
por dentro. Ela reparou que ele a observava. E, devagar,
um sorriso desenhou-se nos seus lábios. Não disse nada.
Apenas o sorriso, um convite silencioso, quase uma
maldição, uma autorização implícita para que ele
continuasse a olhar, a mergulhar.
"Estás muito pasmado, ó minorca."
A voz, grave e familiar, irrompeu por trás do seu ombro,
quebrando o feitiço como um tiro. Era Luís. Tinha chegado
de férias, a pele bronzeada, o cabelo mais comprido.
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Tim Shiverin
Estivera a estagiar numa empresa em Lisboa, e agora, o
destino trazia-o de volta à ilha, para começar a trabalhar
em São Jorge.
Simão cumprimentou-o, um nó na garganta. Há quanto
tempo não o via? Anos, talvez. Luís era um amigo de
infância, um companheiro de aventuras, das boas e das
más. E havia uma em particular, uma que pairava entre
eles como um fantasma, uma história que ambos
conheciam, e que, de certa forma, os ligava para sempre.
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Simão
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VISITA DO PASSADO
São Jorge, Açores – Maio de 1984
"Estás muito pasmado, ó minorca."
A voz, grave e familiar, irrompeu por trás do seu ombro,
quebrando o feitiço como um tiro. Era Luís. Tinha chegado
de férias, a pele bronzeada de sol, o cabelo mais comprido,
despenteado. Estivera a estagiar numa empresa qualquer
em Lisboa, e agora, o destino – velho e traiçoeiro – trazia-
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Tim Shiverin
o de volta à ilha, para começar a trabalhar em São Jorge.
Simão cumprimentou-o, um nó na garganta, como se
tivesse engolido uma pedra. Há quanto tempo não o via?
Anos, talvez. Luís era um amigo de infância, um
companheiro de aventuras, das boas e das más, dessas
que te marcam a alma. E havia uma em particular, uma que
pairava entre eles como um fantasma, uma história que
ambos conheciam, um segredo partilhado que, de certa
forma, os ligava para sempre, como dois náufragos numa
jangada à deriva.
"Então, Luís. De volta à pedra?" perguntou Simão, a voz
mais rouca do que pretendia, um travo amargo na boca.
"É verdade, Simão. A vida de Lisboa não é para mim. Muita
pressa, muito barulho. Vou começar a trabalhar no
aeroporto, e aqui a vida é mais pacata. E tu? O que andas
a fazer?" questionou Luís, um sorriso fácil nos lábios.
"Eu? Continuo na carpintaria do Sr. Virgílio. Lá estou bem.
É um bom sítio para um tipo como eu."
27
Simão
"Ah, boa. O Sr. Virgílio é boa pessoa, mas madeira não é
para mim", disse Luís, batendo no próprio braço, como se
a simples menção da madeira lhe causasse arrepios.
Com o seguimento da conversa, uma torrente de
futilidades sobre a vida na cidade e as novidades da ilha,
Simão sentiu a mente a divagar. Quando finalmente olhou
para o lado, para o banco, Aurora já tinha saído.
Desaparecera. Nem sequer reparara. Foi como se o sorriso
dela, aquele convite silencioso e amaldiçoado, tivesse sido
apenas um truque de luz, uma alucinação.
Sem interesse na conversa de Luís ou no jogo de futebol
salão, que parecia agora mais monótono do que nunca,
Simão levantou-se e foi dar uma volta à beira-mar, junto
ao velho forte, as pedras escuras a erguerem-se como
dentes apodrecidos contra o céu. Olhou para as luzes
distantes da ilha do Pico e Faial, pequenos pontos
tremeluzentes no negrume do Atlântico.
Fez-lhe pensar naquele dia, e no que se passara nos anos
seguintes. No que o fazia sentir, no que ainda o fazia sentir.
A dificuldade em se concentrar, em se relacionar, em não
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Tim Shiverin
se sentir afogado na escuridão que parecia segui-lo como
uma sombra persistente. Talvez Aurora fosse o começo de
uma janela aberta, uma fresta de luz que o deixasse sair.
Talvez fosse apenas mais um prego no caixão, mais uma
confirmação de que nunca passaria disto, de que estava
condenado a apodrecer ali, naquelas costas.
Foi até casa já perto da meia-noite. A sua mãe estava
acordada, sentada na escada em frente à casa, uma figura
esguia e fantasmagórica na penumbra, a olhar para a torre
da igreja que ainda se conseguia ver de lá, um gigante de
pedra a rasgar o céu noturno.
"Estás bem, Simão?" perguntou a mãe, a voz baixa, quase
um sussurro. "Sabes que comigo estás seguro e podemos
conversar. Sempre."
"Estou bem, mãe, mas às vezes parece que não pertenço
aqui", respondeu Simão, a esperança a roer-lhe as
entranhas como um rato. "Parece que faço parte de outra
dimensão. Que tudo é estranho." Ele olhou para ela, para
aquela mulher "antiga", que parecia guardar segredos
mais velhos que a própria ilha.
29
Simão
A mãe suspirou, um som arrastado. "Filho. Todos estamos
de passagem. Ninguém se sente totalmente integrado ou
adaptado a lado algum. Temos um propósito maior, Simão.
Resta-nos levantar a cabeça e fazer com que cheguemos
ao nosso destino. O meu está mais perto que o teu."
Simão aceitou as suas palavras como uma velha e familiar
dor. Foi deitar-se. Adormeceu a olhar para a Lua, um olho
pálido e indiferente a espreitar pela janela, e imaginou o
que poderia ser a sua vida se fosse normal. Mas decidiu
seguir o conselho da sua mãe. Afinal, havia sempre um
destino. E o dele, embora desconhecido, parecia estar a
acenar-lhe das sombras.
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Tim Shiverin
6
O REGRESSO
São Jorge, Açores – Verão de 1984
No dia seguinte, Simão despertou, e a voz da mãe ecoava,
não em seus ouvidos, mas em algum lugar mais profundo,
nas cavernas do seu crânio: "Todos temos o nosso
destino". Ele se agarrava a essa verdade como um
náufrago a um pedaço de madeira, determinado a esculpir
seu próprio caminho ou, na pior das hipóteses, a aceitar o
31
Simão
que a vida lhe atirasse. Mas havia algo mais, uma corda
invisível puxando-o, um sussurro persistente que não
podia ignorar. O chamado era para Entre os Morros. Uma
atração antiga, sim, mas também um pavor que o impedia
de retornar àquele ponto exato no mapa, um lugar que
sempre pareceu mais uma cicatriz aberta na terra do que
um mero local.
Entre os Morros não era mais o que fora há quase oito
anos. O Homem, com sua pressa implacável, abrira trilhas,
derrubara árvores, rasgara estradas e erguera algumas
casas pálidas, até um campo de futebol, como uma cicatriz
na paisagem. Mas o canto onde tudo acontecera, o
epicentro daquele pavor que ainda o perseguia,
permanecia intocado. As mesmas árvores retorcidas, os
mesmos arbustos que pareciam sussurrar segredos, as
mesmas pedras cobertas de líquen, as mesmas marcas na
rocha que pareciam cortes de uma lâmina gigante, e o
mesmo som do mar, um lamento constante sobre as
pedras, como um coro de fantasmas afogados.
Então, com uma resolução fria que se parecia mais com
uma aceitação do inevitável, Simão partiu. Ele buscava
algo que o completasse, uma peça perdida de si mesmo,
32
Tim Shiverin
como se tivesse deixado um pedaço da sua alma para trás
naquele lugar esquecido. Algo que o ajudasse a sentir,
finalmente, que pertencia a este mundo, e não a algum
outro, mais sombrio.
Ao se aproximar, o céu, que deveria ser um azul
deslumbrante de verão açoriano, escureceu com uma
rapidez antinatural, como se um tapete de asfalto tivesse
sido estendido sobre o mundo. Embora Simão soubesse
que a chuva nos Açores não escolhia estações, aquilo era
diferente. O ar adensou-se, tornando-se pesado, quase
sufocante, com um cheiro de terra molhada e algo mais…
algo metálico e antigo, como sangue e ferrugem.
Ele percorreu a encosta negra e rochosa, que parecia a
espinha dorsal de um monstro adormecido, movendo-se
como alguém que procurava por algo que não deveria ou
não queria ser encontrado. Alguma peça macabra que, se
encaixada, revelaria uma verdade terrível sobre si mesmo.
O mar, lá embaixo, estava revolto, suas ondas quebrando
com uma fúria surda, como se tentasse falar através de
uma garganta fechada, borbulhando segredos que fariam
o coração parar.
33
Simão
Nada o ajudava. Pelo contrário, o peso no peito de Simão
só aumentava, e as vozes em sua cabeça, antes sussurros,
tornaram-se um coro de acusações e lamentos. A pressão
na nuca, como uma mão fria e invisível, era mais forte do
que jamais sentira.
Ele se sentou perto do ponto exato onde tudo havia
desmoronado, e um arrepio gélido percorreu sua espinha,
tão profundo que o fez cair de lado. Sentiu o orvalho
gelado na pele, que em poucos segundos se transformou
em uma chuva fina e cortante. As vozes eram tantas, tão
ensurdecedoras, que o paralisavam, prendendo-o ali,
incapaz de se mover ou de escapar. A pressão na cabeça
era tamanha que, por breves e terríveis momentos, ele
afundou na escuridão, perdendo os sentidos.
Foi encontrado por um velho pescador, um homem com a
pele curtida pelo sol e o sal, que parecia ter visto a morte
muitas vezes em seus olhos. O pescador, que passava por
mero acaso – ou talvez o destino tivesse planos mais
sinistros –, chamou ajuda. Simão foi arrastado para o
Centro de Saúde da Vila, para observação, como se fosse
34
Tim Shiverin
um espécime recém-descoberto.
Acordou no dia seguinte, a luz filtrada pelas janelas
embaçadas da enfermaria, e viu a mãe ao seu lado. Ela
dormia, exausta, encolhida num cadeirão desgastado que
parecia ter absorvido o desespero de incontáveis famílias.
A Irmã Florinda, auxiliar do Sr. Doutor, uma mulher de
rosto austero e voz que soava como papel amassado,
informou que o Doutor Felício viria falar com ele e a mãe.
"Mas está tudo bem, rapaz", ela disse, a frase soando mais
como uma ordem do que um consolo.
Pouco depois, o Doutor Felício apareceu. Era um homem
novo na ilha, recém-chegado à Vila com suas duas filhas.
Poucos o conheciam, e isso, de alguma forma, o tornava
ainda mais forasteiro, alheio aos segredos que a ilha
guardava.
"Estás bem, rapaz", disse o Doutor, com um sorriso
forçado que não chegava aos olhos. "Pode ter sido apenas
algum cansaço que possas acusar."
35
Simão
Simão sabia que era algo muito, muito mais, algo que as
palavras de um médico não poderiam sequer arranhar.
Mas não sentiu a menor necessidade de explicar. Apenas
assentiu e pediu para ir para casa. Preferia a familiaridade
das suas próprias paredes, mesmo que elas também
começassem a parecer estranhas.
O Doutor concordou, mas pediu para falar a sós com a mãe
de Simão. Estava preocupado com as marcas nos braços e
nas costas do rapaz. Não eram meras escoriações. Eram
impressões estranhas, algumas parecendo recentes,
outras, cicatrizes antigas, como se o tempo tivesse se
dobrado sobre si mesmo. Havia algo inexplicável nelas,
algo que não se encaixava em nenhum livro de medicina.
Perguntou sobre a dinâmica familiar, a relação com os
irmãos e o pai.
A mãe de Simão, com a voz embargada, disse que não
sabia o que poderia ser. O pai havia partido há muito
tempo, e a relação com os irmãos era boa, normal. Ela não
conseguia entender. Agradeceu, com um aceno de cabeça,
e saiu, o rosto uma máscara de confusão e dor.
36
Tim Shiverin
Simão seguiu para casa e mergulhou num sono pesado que
durou dois dias. A experiência em Entre os Morros parecia
ter drenado sua própria força vital, deixando-o exausto até
os ossos, como se tivesse lutado contra algo que não era
deste mundo.
A mãe, por outro lado, não pregou olho. O medo, frio e
cortante como uma lâmina, roía-lhe o coração. O medo de
estar a perder o filho, não para a depressão, mas para algo
bem maior, algo antigo e faminto, algo que transcendia a
eles dois, e que era vastamente maior e mais sombrio do
que aquela Vila amaldiçoada jamais poderia conceber.
37
Simão
7
SALVAÇÃO PROIBIDA
São Jorge, Açores – Verão de 1984
O regresso de Luís à ilha, aquele lugar que outrora fora o
berço de dias pintados em ouro e risos de criança, devia
ter sido um farol, uma mão estendida na escuridão que
envolvia Simão. Devia ter sido o doce eco de aventuras
passadas, de alegrias esquecidas. Mas não foi. Longe disso.
Em vez de luz, Luís trouxe consigo uma névoa densa, um
38
Tim Shiverin
sentimento que se infiltrou nas frestas da alma de Simão,
agindo como um catalisador perverso, uma lâmina afiada
que rasgou as crostas de velhas feridas, expondo
memórias e sentimentos há muito sepultados mas vivos.
Mas então, como um milagre frio em meio ao inferno
pessoal de Simão, surgiu Aurora. Ela era o gelo na
queimadura, a brisa fresca que precede a tempestade, ou
talvez, a única coisa capaz de acalmar o furor que se
agitava dentro dele. Os seus olhos, de um azul que
lembrava o abismo calmo de um lago profundo ao
amanhecer, não apenas emitiam calma; eles a
"irradiavam", uma inquietude tão potente que parecia
capaz de silenciar o próprio grito do inferno. Sob o seu
olhar, a alma de Simão, há muito tempo estagnada e
enferrujada, começou a girar novamente, lenta e incerta,
mas girando.
Naquelas conversas de fim de tarde, quando o sol tingia de
laranja e púrpura os céus sobre a pequena casa que os
abrigava, sentados nos degraus gastos que guardavam
histórias de gerações, Simão finalmente abriu o peito à sua
mãe. A voz era um murmúrio, quase um segredo
partilhado com o vento que beijava as folhas das árvores.
39
Simão
Ele falou de Aurora, de tê-la visto no Jardim da República,
sob a luz dourada do entardecer, conversando com as
primas. E confessou, com uma estranha mistura de
esperança e medo, que a visão dela era um bálsamo, um
conforto que nunca antes sentira. Era, sussurrou ele, o que
faltava para arrancar os pregos que o prendiam ao fundo
do poço, a última peça para tentar uma vida, se não
normal, pelo menos "quase" normal.
Aquelas palavras de Simão foram para a mãe como a
primeira lufada de ar puro após uma eternidade de sufoco.
Um suspiro profundo escapou-lhe dos lábios, um som
carregado de anos de dor e preocupação. "Tens de ir falar
com ela, meu filho," disse ela, a voz embargada pela
emoção, "Tens de a conhecer. Pelo menos, tentar."
A determinação acendeu-lhe nos olhos, uma chama
intensa que se recusava a morrer. E assim, na manhã
seguinte, antes mesmo que o orvalho secasse nos campos,
a mãe de Simão pôs-se a caminho. O seu destino era a
velha casa de tectos altos e cantarias de pedra, que se
aninhava perto do Cais, onde as gaivotas gritavam e o
cheiro a sal e peixe podre pairava no ar.
A casa do Dr. Felício. Ela ia partilhar com ele o que
40
Tim Shiverin
acreditava ser a única e derradeira esperança de arrancar
o filho daquela miséria que o consumia, um cancro
invisível que lhe roía a alma.
A batida da mãe de Simão na porta de madeira velha
ressoou na quietude da manhã, um som que parecia
demasiado alto, quase profano. Uma das filhas do Dr.
Felício, uma menina de uns 16 anos, com os olhos grandes
e curiosos, abriu a fresta. "Gostaria de falar com o Dr.
Felício, se for possível," disse a mãe de Simão, a voz mais
firme do que o seu coração se sentia. "Diga que é a mãe do
Simão." "Com certeza. Vou chamá-lo," respondeu a
menina, a inocência estampada no rosto que ainda não
conhecia as sombras do mundo. O Dr. Felício, um homem
que a vida havia forjado na fornalha da perda – a esposa
levada anos antes pela 'doença maldita', um cancro que
lhe roubara a alegria e o deixara a criar as filhas sozinho –,
apareceu à porta, os olhos cansados mas gentis. "Entre,
Senhora. Seja bem-vinda," disse ele, a voz um bálsamo.
"Diga-me, que ventos a trazem por cá?"
A mãe de Simão sentou-se na cadeira de vime que o Dr.
41
Simão
Felício lhe indicara, apertando as mãos no colo. O seu olhar
suplicava. "Dr. Felício," começou ela, a voz mal contida, "o
meu Simão nunca me falou de amor. Nunca. E eu... eu já
tinha perdido a esperança. Mas agora, ele fala de uma
menina. Uma linda menina que chegou à nossa terra e
que, ao que parece, tem o poder de afastar as sombras que
o consomem. Ele diz que ela pode ser a porta de saída
desta... desta depressão maldita que o arrasta para o
abismo. O nome dela é Aurora, e, pelo que ele me conta,
ela faz com que a escuridão que o persegue se dissipe,
como fumaça ao vento."
O Dr. Felício assentiu lentamente, os olhos fixos num
ponto distante, como se visse algo que a mãe de Simão não
podia. Concordou que, sim, poderia ser uma forma de
ajuda, um raio de sol a perfurar as nuvens densas. Mas
havia algo na forma como ele disse, uma hesitação quase
imperceptível, um franzir de testa que não passou
despercebido à mãe de Simão. As suas reservas eram
palpáveis, quase um odor no ar. A entrada de uma jovem
na vida de alguém tão fragilizado era uma aposta de alto
risco, uma moeda lançada ao ar que podia cair de qualquer
lado: para a salvação, ou para um mergulho ainda mais
profundo na desgraça. A linha entre a cura e a catástrofe
42
Tim Shiverin
era, por vezes, mais fina que um fio de cabelo.
Com um nó na garganta, a mãe de Simão agradeceu o
tempo e a escuta atenta do Dr. Felício, despedindo-se com
a promessa frágil de esperança a pairar sobre ela. O Dr.
Felício, por sua vez, agradeceu a confiança, as palavras
pesadas de um fardo partilhado. Fechou a porta atrás dela,
o som abafado, quase um suspiro resignado, e dirigiu-se
ao seu pequeno escritório. O ar ali era denso, carregado
com o cheiro a papel velho e a uma melancolia persistente.
Os seus olhos varreram a estante de madeira escura, onde
livros de medicina se misturavam com molduras de
fotografias: as filhas, ainda pequenas, e, no centro, o rosto
sorridente da sua esposa, agora apenas uma memória, um
fantasma que ainda assombrava os cantos da casa. Foi
então que chamou, a voz um sussurro rouco, quase uma
premonição: "Aurora."
Quase de imediato, como se conjurada por um feitiço
sussurrado, a jovem Aurora apareceu à porta do escritório,
os olhos azuis – os mesmos olhos que haviam capturado a
atenção de Simão – fixos no pai, a perguntar o que ele
desejava. O Dr. Felício sentiu um arrepio. A pergunta que
43
Simão
se preparava para fazer era um peso na língua, um segredo
prestes a ser desvendado.
"Conheces um rapaz chamado Simão?" perguntou ele, a
voz carregada de uma precaução que beirava o pavor,
"O rapaz que trabalha na carpintaria, ali perto dos silos?"
O seu coração batia um ritmo irregular, temendo a
resposta, temendo o que ela poderia significar para todos
eles.
"Não, pai," respondeu Aurora, a voz firme, sem um único
pestanejo, os olhos de um azul tão profundo que pareciam
esconder segredos. "Porquê?" A pergunta dela pairou no
ar, inocente, mas ao mesmo tempo um desafio silencioso.
O Dr. Felício, agora não mais o médico ponderado, mas
apenas o pai aterrado, inclinou-se para a frente, a voz um
sussurro rouco, carregado de uma urgência sombria.
"Afasta-te dele, filha," disse ele, a palavra “afasta-te”
soando como um comando antigo. "Para o teu próprio
bem. Para o teu bem, ou o mal pode vir a ti."
44
Tim Shiverin
Mas Aurora, apesar da negação tão veemente, tão
"perfeita", sabia a verdade. Ela já o tinha visto. O rapaz.
Simão. E não só o vira, como o procurara, a sua curiosidade
um ferrão constante, as perguntas sussurradas às primas,
disfarçadas de mera fofoca. Havia algo nele, uma sombra,
uma escuridão que a chamava, um abismo silencioso que
se afigurava estranhamente atraente. Era uma força
inegável, um íman para a sua própria alma, e a ordem do
pai, proferida com tal pavor, não era um dissuasor, mas
sim um desafio, um muro que ela, no fundo, sabia que
teria de escalar. A sua felicidade, talvez a sua própria
essência, parecia estar irremediavelmente ligada àquela
escuridão. E Aurora, com uma determinação fria que
assustaria o próprio pai se ele a percebesse, estava
disposta a lutar por ela, a mergulhar de cabeça no
desconhecido, mesmo que isso significasse desobedecer,
mesmo que isso significasse enfrentar a escuridão que o
Dr. Felício tão desesperadamente queria manter longe
dela. Era um chamamento, um destino, e ela sentia-o no
mais profundo dos seus ossos.
45
Simão
8
FINALMENTE
São Jorge, Açores – Verão de 1984
O sol, um disco brutal e intransigente, espetou-se pela
pequena, suja janela do quarto de Simão, uma luz
demasiado aguda para uma manhã de sábado. No
entanto, não foi a luz que o arrastou das profundezas do
sono profundo. Foram os estorninhos, empoleirados como
um júri minúsculo e de olhos vivos no parapeito, o seu
46
Tim Shiverin
canto um coro estridente e insistente.
Ele olhou para eles, aquelas coisas emplumadas, e por um
momento fugaz e desesperado, imaginou-se a voar com
elas. Livre. Acima do mar inquieto e agitado, acima da terra
antiga e adormecida. Sem preocupações. Sem os ruídos,
sem os sussurros das sombras. Apenas o canto fino e
sussurrante do vento através das suas próprias penas
imaginadas.
A fantasia, frágil como uma teia de aranha, estilhaçou-se
quando uma batida leve – demasiado suave, quase um
arranhão – veio da porta. Era a mãe dele, claro. Sempre a
mãe dele. Ele conhecia aquela batida, um som hesitante,
quase medroso, como se ela estivesse a testar as águas,
incerta se ele estava acordado ou ainda perdido na falsa
paz do sono.
"Queres comer? Pão fresco, o café está quase pronto",
chamou ela, a sua voz um fio ténue de falsa alegria que não
conseguia mascarar a esperança – e algo mais, algo afiado
e quebradiço – nos seus olhos. Era o olhar de uma pessoa
a guardar um segredo, uma pedra pesada, pronta para a
47
Simão
deixar cair.
Simão flutuou para a cozinha apertada, o cheiro a café
fresco no ar. Deslizou para a sua cadeira habitual, a
madeira gemendo fracamente sob o seu peso, e começou
a comer, o silêncio entre eles espesso como manteiga por
bater.
Ela não perdeu um segundo. O momento, cuidadosamente
elaborado pelas suas próprias mãos ansiosas, estava
maduro. "Devias procurar a Aurora", disse ela, a voz
baixando a um quase sussurro, como se as próprias
paredes tivessem ouvidos. Não era uma sugestão; era um
imperativo, uma convicção profunda de que esta rapariga,
esta Aurora, era a engrenagem que faltava, a única coisa
que poderia tirar Simão das águas silenciosas e estagnadas
da sua vida.
Simão observou-a, o rosto uma máscara de
encorajamento feroz, quase desesperado. Ele viu o brilho
nos olhos dela, a necessidade crua de que ele desse este
passo, este próximo passo. E então, uma estranha e fria
certeza instalou-se no seu próprio estômago. Tinha de
conhecer a Aurora. Não mais tarde. Agora. Era uma
48
Tim Shiverin
compulsão, uma corrente escura a puxá-lo para a frente.
Mas então, uma sombra passou sobre o rosto dela, uma
memória fugaz de algo que sentira, um frio arrepio na
pele, em casa do Dr. Felício. Um sexto sentido de mãe, cru
e primordial, acendeu-se dentro dela. "Encontra-a num
lugar privado", ela implorou, a voz quase inaudível. "Não
no Jardim. Ainda não." O Jardim da República, o coração
pulsante da vila, seria um caldeirão de olhos e sussurros ao
anoitecer, um lugar onde reputações podiam ser desfeitas
mais depressa do que um coelhona boca de uma raposa.
Cada olhar era um julgamento, cada palavra sussurrada
uma condenação.
As Velas em 1985, era um tempo, um lugar, onde poucas
casas zumbiam com o brilho azul de um televisor. A vida, a
vida real, desenrolava-se ao ar livre, nos espaços
partilhados. E nenhum era mais partilhado, mais
escrutinado, do que o Jardim da República, a praça da vila,
um pulmão verde e extenso no centro da localidade. Era
um palco para jogos de infância, para as danças
desajeitadas de jovens amores, para o murmúrio baixo de
mexericos que podiam tornar-se venenosos com um único
olhar errado. Cada alegria, cada tristeza, cada indiscrição,
49
Simão
desenrolava-se sob o olhar coletivo e inabalável da
comunidade.
Então, quando a mãe de Simão falava em evitar o Jardim,
ela falava com a certeza sombria. Um olhar errado, uma
palavra sussurrada, e qualquer conexão nascente entre
Simão e Aurora – frágil como um rebento de primavera –
podia ser envenenada, murcha antes mesmo de ter a
chance de florescer. Mesmo que, no fundo, fosse tudo o
que ela realmente esperava.
Simão, que já sentira o puxão inquietante desta ideia,
desta necessidade, sentiu agora as palavras da mãe como
um forte empurrão nas costas. Hoje à noite. Tinha de ser
hoje à noite. Antes que a estranha corrente elétrica que
agora o percorria pudesse dissipar-se, deixando-o frio e
sozinho.
Sábado à noite era a noite. O Jardim estaria a fervilhar,
uma colmeia de atividade humana. E a Aurora, tinha a
certeza, estaria lá, atraída por algum compromisso
invisível e não dito.
Ele só precisava de uma maneira de a alcançar, de a afastar
dos olhos famintos da vila, exatamente como a mãe o
50
Tim Shiverin
avisara. Um sussurro na escuridão. Um sinal secreto.
O resto do dia arrastou-se, cada minuto um peso de
chumbo, a mente de Simão a fervilhar, desesperado por
um plano. Depois de um jantar que mal provou, ele dirigiu-
se ao Jardim, sentando-se num banco perto da entrada
superior, junto aos Paços do Concelho. Dali, tinha uma
vista clara e panorâmica de toda a praça, um ponto de
observação de onde podia avistar Aurora no momento em
que ela aparecesse.
Mas o problema persistia: como falar com ela? Como fazer
contacto sem atrair o olhar coletivo? Um papelinho
amassado? Uma palavra sussurrada através de uma
criança, um mensageiro inocente, inconsciente do que
estava em jogo? Os seus pensamentos espiralavam, cada
ideia mais desesperada que a anterior.
Ele ainda estava perdido neste labirinto de pânico, o
coração a bater um ritmo frenético contra as costelas,
quando uma mão, fria e inesperada, pousou no seu ombro.
Ele ofegou, uma inspiração curta e aguda, um som que
parecia demasiado alto no súbito e o silêncio que o
envolveu. O medo, frio e imediato, apertou-lhe os
51
Simão
músculos, paralisando-o.
Lentamente, como se estivesse a mover-se através de
xarope espesso, Simão virou a cabeça, olhando por cima
do ombro esquerdo. E lá estava ela. De pé no brilho âmbar
do candeeiro próximo, um halo de luz pálida a cintilar à sua
volta, fazendo-a parecer menos real, mais como uma visão
conjurada dos seus desejos mais profundos e
desesperados. Ou talvez, dos seus medos.
"Estás bem?", perguntou ela, a voz um murmúrio baixo,
como o farfalhar de folhas secas numa noite calma.
"Desculpa, não queria assustar-te."
Simão encontrou a voz, um rouco e atrasado som que mal
parecia o seu. "Não. Não, estou bem. Sou o Simão."
"Eu sei quem tu és", respondeu ela, um sorriso fraco,
quase secreto, a tocar-lhe os lábios, um rubor a subir-lhe
às bochechas como uma maré lenta e quente. "E acho que
tu também me conheces."
"Sim", Simão conseguiu, a palavra um mero suspiro. "Já te
tinha visto antes."
52
Tim Shiverin
A memória do aviso frenético da mãe, afiado como um
espinho, picou a mente de Simão. "Vem comigo", ele
deixou escapar, as palavras a saírem atropeladas. "Há algo
que te quero mostrar. Algo que talvez nunca tenhas visto."
Eles andaram, os passos suaves nas pedras antigas,
afastando-se dos olhos curiosos do Jardim, em direção ao
Arco. Era um trecho da costa onde o mundo se abria, uma
vasta e escura extensão de oceano sob um céu ainda a
sangrar laranja e roxo do sol moribundo. Ao longe, Pico e
Faial, ilhas vizinhas, que pareciam beijar-se no horizonte,
os seus picos vulcânicos envoltos em névoa. O ar estava
fresco, trazendo o sabor salgado do mar, mas Simão sentia
um estranho calor a subir-lhe, um rubor que pouco tinha a
ver com o ar crepuscular e tudo a ver com a proximidade
de Aurora.
Finalmente.
Eles conversaram, ou melhor, as suas vozes misturaram-se
na escuridão que se adensava, um contraponto suave ao
suspiro distante das ondas, até que o último fio de sol
mergulhou abaixo do horizonte, mergulhando o mundo
53
Simão
numa escuridão mais profunda e profunda.
Era o início de uma história, uma coisa frágil e tenra,
aparentemente inocente no seu desenrolar. Mas mesmo
então, um pavor frio e conhecedor sussurrava nas
margens da mente de Simão: algumas histórias, por mais
docemente que comecem, estão destinadas a terminar
num grito.
54
Tim Shiverin
9
O PESO DO TEMPO
São Jorge, Açores – Verão de 1984
Os dias que se seguiram arrastaram-se, pesados e lentos
como um sonho que teima em terminar, cada hora um
fardo de inquietação. Eles desejavam ardentemente
encontrar-se, almas sedentas por um toque, um olhar,
longe dos olhos famintos e sussurrantes da cidade. Mas
para Simão, cada encontro era tingido por uma sombra
mais escura, a dúvida gélida de se ele conseguiria algum
55
Simão
dia superar a escuridão que o acompanhava, um espectro
pessoal que se agarrava a ele como um sudário, e dar a
Aurora a luz que ela tão desesperadamente merecia.
Com Aurora, um frágil santuário de paz parecia descer
sobre Simão, um breve alívio das coisas que roíam nas
esquinas escuras de sua mente.
Aurora, por sua vez, sentia-se puxada para Simão com a
força bruta e inexplicável de uma maré, uma atração
perigosa como a de uma mariposa para uma chama. Ela
pressentia a escuridão nele, um poço oculto de dor ou
talvez algo pior, e, em vez de repeli-la, aquilo a fascinava,
um enigma que ela sentia a necessidade irrefreável de
desvendar, de curar. Isso, claro, voava em total oposição
às ordens tácitas de seu pai, um homem de vontade férrea
que, por enquanto, permanecia em uma ignorância
abençoada sobre os encontros clandestinos de sua filha.
Os encontros se multiplicaram, como fungos crescendo
em lugares úmidos e escuros. Eles buscavam refúgio nos
cantos esquecidos da cidade: a zona calma do Arco, suas
pedras sussurrando segredos do mar; as rochas
pontiagudas e varridas pelo vento da Preguiça, onde o
oceano rugia sua indiferença; os solitários pores do sol na
encosta das Velas, onde o mundo lá embaixo parecia
encolher para um zumbido distante. Sempre, sempre,
eram caçados por olhos fantasmas, pelos sussurros da
56
Tim Shiverin
cidade, pelo pavor de serem descobertos.
"Eu... eu gosto de ti," Aurora confessou, sua voz um fio fino
e trêmulo, à beira de um grito ou um soluço. As palavras
de Simão, um sussurro rouco de afirmação, selaram o
pacto entre eles. Mas mesmo enquanto o calor se
espalhava por ele, um frio pavor se enrolava em seu
estômago. Havia sempre um "mas".
Dr. Felício. O nome por si só era um peso frio no ar. Um
bom homem, diziam as pessoas, devotado às suas filhas.
Mas sua bondade era uma coisa frágil, facilmente
estilhaçada, e seu perdão era um conceito tão alheio a ele
quanto o riso de uma viúva. Desafiá-lo, cravar uma faca
nas costas de seu mundo cuidadosamente construído,
seria um ato de rebelião imperdoável.
No entanto, o amor que florescera entre eles, frágil e
desafiador, parecia mais forte do que qualquer
tempestade que o Pai de Aurora pudesse conjurar. Por
enquanto, o segredo era o único escudo deles, um véu
tênue contra o inevitável acerto de contas.
Mas segredos, como sombras, sempre se traem à luz dura
do dia. Um único passo em falso, um momento de
descuido, foi tudo o que precisou. Eles pensavam que
estavam seguros, escondidos em um canto esquecido do
mundo, mas o próprio ar parecia crepitar com olhos
invisíveis. E então, lá estava ele. Parado ali, um sorriso de
57
Simão
escárnio brincando em seus lábios, era Luís. Simão o
conhecia. Conhecia-o muito bem.
Luís, com seu sorriso ensaiado e fácil, era uma víbora em
pele humana. Ele cultivava um ar de camaradagem
simples, mas por baixo fervia uma inveja verde e corrosiva,
um ressentimento profundo por qualquer um que ousasse
agarrar um pedaço de felicidade. Ele se via como superior,
um homem do mundo, tendo escapado dos confins
provincianos de sua cidade para as luzes brilhantes de
Lisboa e um emprego "de luxo" no aeroporto, um lugar
onde as pessoas realmente "iam" a lugares.
Ver Simão, sempre destinado aos becos sombrios da vida,
andando ao lado de Aurora, uma garota cuja beleza era um
farol na escuridão – era uma visão que roía Luís como um
rato faminto. A única coisa que eles compartilhavam era o
facto de ambos terem vivido em Lisboa. Ele acreditava que
Simão estava destinado à escuridão, não à luz frágil e fugaz
da felicidade que agora parecia perseguir.
Na manhã seguinte, ao sair para o ar frio, a caminho do
trabalho, Simão o viu. Luís, encostado casualmente na
esquina de uma casa próxima, uma sombra onde nenhuma
sombra deveria estar.
"Ora, ora, Simão. O que o gato arrastou para dentro," Luís
arrastou as palavras, sua voz untuosa, doce demais. "Faz
tempo, não faz? Tens te mantido recluso. Quase perdido."
58
Tim Shiverin
As palavras vinham embrulhadas em falsa boa vontade,
mas a intenção por trás delas era uma faca afiada.
"É assim, meu amigo," Simão respondeu, sua voz um
pouco firme demais, um pouco normal demais. "Só tenho
ficado mais perto de casa. Minha mãe. O trabalho. O de
sempre."
"Claro, claro," Luís ronronou, um brilho predatório em
seus olhos. "É a vida, não é? A gente cresce. Assume
responsabilidades. Encontra novos amigos. Novos...
amores. É a ordem natural das coisas, afinal."
A testa de Simão franziu, uma onda de frio o invadindo. Era
como se Luís estivesse falando em enigmas, mas o
significado era claro, brutalmente óbvio, como um soco no
estômago.
"Natural, de fato, Luís," Simão conseguiu, as palavras com
gosto de cinzas em sua boca, cada uma escolhida com uma
cautela desesperada e fútil.
"Certo, então, meu caro. Bom trabalho," Luís disse, um
sorriso largo e inquietante se espalhando por seu rosto.
"Eu? Estou indo ver o Dr. Felício. Tenho uma pequena
consulta. Algumas coisas para discutir, entendes." E com
isso, ele se virou, assobiando uma melodia desafinada, e
se afastou na direção oposta, deixando Simão sozinho na
calçada, o frio da manhã de repente parecendo a mão
gelada de um fantasma.
59
Simão
As palavras pairavam no ar, uma nuvem envenenada.
Simão sabia, com uma certeza horrível e nauseante. Luís
sabia. Mas como? Como ele poderia saber? E se ele
soubesse, conhecendo Luís como Simão conhecia, este
segredo seria uma arma, afiada e apontada. Ele não podia
deixar que isso acontecesse. Mas o relógio estava
correndo, a hora de entrada estava perto. Ele tinha que ir
trabalhar. Ele resolveria isso. Mais tarde. Sempre mais
tarde. A palavra ecoou em sua mente, oca e cheia de
pavor.
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Tim Shiverin
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A PERDA
São Jorge, Açores – Verão de 1984
Simão, após a conversa com Luís, sentiu uma certeza
gelada enraizar-se em seu peito: nada, absolutamente
nada, podia se interpor entre ele e Aurora. Não depois de
tudo o que haviam passado juntos, daqueles fios invisíveis,
mas inquebráveis, que os uniam. Não podia, de forma
alguma, permitir-se ser arrastado de volta à escuridão que
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Simão
o rondava, uma escuridão pegajosa e sem forma que
ameaçava engoli-lo inteiro. Era imperativo resolver as
coisas com Luís, apelar àquela amizade de mais de uma
década que agora parecia um peso morto, uma âncora
enferrujada.
O dia na carpintaria foi um inferno de suor, pó e
marteladas, cada golpe reverberando em sua cabeça como
um tambor de guerra. Assim que o sol começou a se
derramar em tons de sangue no horizonte, Simão disparou
da oficina, o cheiro de madeira fresca ainda impregnado
em suas roupas, numa corrida quase febril em direção à
Praça Velha. Ali, junto à tasca do Sr. Ferreira, onde as
sombras já se alongavam como dedos famintos, Luís
costumava se encontrar com os outros, vendo os velhos
jogar dominó, suas vozes arrastadas e risos roucos.
Simão o encontrou ali, uma figura em meio à penumbra
que se adensava.
"Luís. Queres beber alguma coisa?", Simão perguntou, a
voz mais rouca do que pretendia, a aparição tão súbita que
Luís sobressaltou-se.
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Tim Shiverin
"Claro que sim. Manda vir", Luís respondeu, um sorriso
que não chegava aos olhos, tão liso quanto óleo.
Sentaram-se num dos bancos de madeira lascada à
entrada da tasca, o cheiro de cerveja velha e fumo
estagnado pairando no ar. Simão começou a sondar, as
palavras daquela manhã, as entrelinhas que pareciam
vibrar com um significado oculto, como uma corda de
violino prestes a arrebentar. Luís, com uma falsidade tão
densa que quase podia ser mastigada, retrucou que não
significava nada, que era apenas conversa fiada.
Mas a noite avançava, espessa e húmida, e o vinho
começava a escorrer pelas gargantas, derramando-se em
manchas escuras na mesa e no chão. As palavras de Luís,
antes tão evasivas, começaram a se soltar, a se desfazer
como farrapos. Com os copos já pesando, Luís finalmente
soltou: "Tu és muito novo para te meteres em trabalhos
amorosos, Simão." Nem uma palavra sobre Aurora, nem
um mísero sussurro do nome dela, mas a omissão era um
grito, um sinal claro.
Naquele instante, Simão sentiu uma facada no estômago,
não de metal, mas de gelo. Luís sabia. Sabia de tudo. E
entre perder um amigo como Luís e o amor de Aurora, a
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Simão
escolha não era apenas fácil; era a única. Era uma certeza
brutal, tão sólida quanto uma lápide.
Mais vinho se seguiu, e com ele, fragmentos de memórias
passadas, distorcidas pela névoa alcoólica. Quando
finalmente cambalearam para fora da tasca, os dois
homens pareciam marionetes com os fios cortados, o
mundo girando em torno deles em um turbilhão disforme.
O dia seguinte chegou com um martelo dentro da cabeça
de Simão, uma dor latejante que parecia querer explodir
seu crânio. A noite anterior era um borrão, uma tela escura
onde as lembranças se recusavam a aparecer. Apenas uma
certeza permanecia, afiada e fria como uma lâmina: Luís
sabia do seu amor por Aurora. E a urgência de avisá-la, de
alertá-la que Luís poderia contar – ou já havia contado –
ao pai dela, era um nó apertado em seu peito.
Levantou-se da cama, o corpo pesado e dolorido, vestiu as
mesmas calças jeans e a camiseta branca manchada do dia
anterior – a camisa parecia exalar o odor rançoso do medo
e do álcool – e calçou as botas, o couro rangendo como
velhos ossos.
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Tim Shiverin
Ao chegar à cozinha, a mãe estava sentada à mesa, o rosto
vincado pela preocupação, lágrimas escorrendo em trilhas
brilhantes por suas bochechas.
"Que se passa, mãe?", Simão perguntou, a voz arranhada.
"Simão, senta-te", ela pediu, a voz um sussurro trêmulo.
"Soube agora e não sei como te contar, mas o teu amigo
Luís... ele morreu."
O chão pareceu ceder sob os pés de Simão. Um choque
elétrico percorreu seu corpo, paralisando-o. Olhou para a
mãe, os olhos fixos, esperando mais, tentando assimilar o
que parecia impossível.
"Mas como? Eu ainda ontem estive com ele", Simão
balbuciou, a ingenuidade de suas palavras soando oca no
ar pesado da cozinha.
A mãe sobressaltou-se, os olhos arregalados, um
vislumbre de terror e suspeita neles. "Quando? Onde?"
"Estivemos a beber na tasca, e depois fomos para casa. Já
era tarde", Simão respondeu, as palavras tropeçando
umas nas outras, a névoa da noite anterior ainda densa em
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Simão
sua mente.
Desesperado por respostas, saiu pela porta, a Praça Velha
agora parecendo um lugar diferente, manchado por uma
nova escuridão. Queria encontrar alguém, qualquer um,
que pudesse lhe dar mais informações.
Encontrou João, colega da carpintaria e amigo em comum
de Luís.
"O que se passou, João? Já sabes? A minha mãe disse-me
agora", Simão perguntou, a urgência quase o sufocando.
"Mataram-no, Simão. Encontraram-no estrangulado perto
do Asilo, ao lado do contentor do lixo. Quem faria algo do
género?", João respondeu, a voz embargada, o horror
gravado em seu rosto.
A noite passada era uma névoa ainda mais espessa agora,
um manto que cobria sua memória. Simão tentava,
desesperadamente, pescar algum detalhe, mas as
lembranças escorregavam como areia entre os dedos.
Sabia, tinha certeza de que o deixara com vida. Ou será
que não? A dúvida era um verme corroendo sua mente.
Não conseguia se lembrar de nada daquela noite, nada
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Tim Shiverin
que o pudesse inocentar.
Correu até o mercado, onde as primas de Aurora
trabalhavam, na esperança de encontrá-la ali, mas o lugar
estava vazio, o silêncio ecoando sua própria angústia.
Finalmente, a encontrou na zona do Arco, sentada,
pensativa, uma nuvem de preocupação pairando sobre
ela.
"Estás bem, Aurora?", Simão perguntou, a voz ainda rouca.
"Sim. Apenas preocupada. O meu pai disse que o Luís foi
assassinado por alguém que não tinha nada a perder. Que
tinha um ódio tão profundo dentro de si que deixou danos
terríveis no corpo do Luís", Aurora respondeu, a voz baixa,
quase um sussurro de medo.
"Não tinha sido estrangulado?", Simão questionou, o
coração batendo forte.
"Sim, foi. Mas também tinha lesões internas que só alguém
com muito ódio poderia causar. E o rosto dele... estava
desfeito. Só o reconheceram pela roupa e pelo isqueiro
ZIPPO que ele sempre exibia. Algo de estranho está a
acontecer nesta Vila, Simão", Aurora disse, os olhos fixos
num ponto distante.
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Simão
Simão sentou-se ao lado dela, tentando acalmá-la, mas a
dúvida, fria e persistente, começava a se instalar em sua
própria mente. "Fui eu?" A pergunta ecoou em seu crânio,
um sussurro medonho. "Eu queria tanto calá-lo, evitar que
destruísse a minha relação com Aurora. Fui longe demais?
Será que a escuridão, aquela coisa sem forma, finalmente
tomou conta de mim?"
Ficaram ali por mais alguns minutos, abraçados, olhando o
mar cinzento, um breve porto seguro antes de cada um
seguir seu caminho para casa.
Simão passou a noite em claro, os olhos fixos no teto
escuro, a mente em um turbilhão de pensamentos, sem
saber qual seria o próximo passo.
Pelo menos o pai de Aurora não iria saber. Achava Simão.
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Tim Shiverin
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DA SUSPEITA À CONFIRMAÇÃO
São Jorge, Açores – Verão de 1984
O funeral de Luís aconteceu dois dias depois, sob um céu
cinzento que parecia chorar junto com a vila. Cerca de
cinquenta almas se amontoavam na pequena casa
mortuária, um cubo apertado de dor e sussurros. Alguns
estavam lá para prestar as últimas homenagens, as faces
contorcidas em tristeza genuína. Outros – e Simão podia
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Simão
sentir o peso de seus olhares – estavam ali por aquela
curiosidade mórbida que sempre fervilhava sob a
superfície tranquila de vilas como a deles, como um
pântano silencioso que de repente borbulha com gases
fétidos. Afinal, uma morte daquelas, tão… "repentina", tão
"brutal", não era a normal por aquelas bandas. Aquilo era
algo que acontecia em noticiários distantes, não na pacata
Ilha dos Ventos.
Mas tudo o que encontraram foi um caixão selado – por
razões óbvias, embora ninguém ousasse pronunciar quais
eram, e a mente de Simão conjurava imagens que ele
tentava, em vão, sufocar – e dois pais desolados, com os
olhos vermelhos e a pele pálida como a de cadáveres.
Simão entrou, a garganta seca como um deserto.
Cumprimentou os pais de Luís, apertando mãos frias e
moles, e alguns outros parentes, figuras fantasmagóricas
num véu de luto. Ele murmurou uma reza, palavras ocas
que se perderam no ar pesado, e então se dirigiu para a
porta, dando lugar a outros. Ele sentia os olhos perfurando
suas costas como agulhas, uma sensação de ser dissecado
sob um microscópio invisível. Sentia-se observado, cada
músculo tenso, cada pelo da nuca arrepiado. Mas seria
apenas sua imaginação, essa maldita mente que não
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Tim Shiverin
parava de girar? Talvez a incerteza do que realmente tinha
acontecido naquela noite, os buracos negros em sua
memória, estivessem corroendo sua própria sanidade,
plantando sementes de dúvida sobre si mesmo.
Mas a verdade, como um tumor maligno, era outra.
Nessa vila amaldiçoada, onde os segredos eram tão raros
quanto diamantes e a fofoca viajava mais rápido que o
vento, todos já sabiam. E com a ajuda do Sr. Ferreira – um
homem com olhos pequenos e curiosos que pareciam ver
através das paredes, um parasita da informação que se
alimentava da desgraça alheia –, a história já havia se
espalhado como um incêndio incontrolável. Simão havia
passado a noite bebendo com Luís, na fatídica noite de sua
morte. Isso o tornava, aos olhos de todos, um suspeito em
potencial. Embora, na mente de Simão, não houvesse
outro.
O ar na casa mortuária parecia se tornar mais denso, mais
pesado, esmagando-o. Simão sentiu-se sufocar, como se
uma mão invisível estivesse apertando sua garganta.
Mesmo vendo Aurora ao longe, um farol de esperança
perto de seu pai, o Dr. Feliciano, que cumprimentava a
família enlutada, ele não conseguiu controlar.
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Simão
O pânico subiu. Ele tinha que sair. Tinha que respirar.
Mais tarde, soube que dois detetives já haviam chegado à
ilha, trabalhando lado a lado com a polícia local. A notícia
desceu em seu estômago como uma pedra gelada, um
presságio de algo inevitável e terrível. Algo que o
inquietou. Profundamente.
Chegando em casa, sua mãe o chamou. Sua voz,
geralmente um bálsamo, agora carregava uma nota de
preocupação que o fez gelar. Ela perguntou como ele
estava, se havia conseguido falar com Aurora. Simão havia
se encontrado com Aurora várias vezes desde então, mas
não havia contado nada à mãe, conforme combinado com
ela.
“Não. Tenho que ganhar coragem”, ele tentou disfarçar, as
palavras soando falsas até para seus próprios ouvidos.
“Talvez seja até melhor nem tentar.”
A mãe de Simão o olhou, seus olhos fixos nos dele, uma
preocupação que ele nunca tinha visto antes. “Simão. Na
noite da morte de Luís, estavas com ele, certo? O que
aconteceu, filho?”
72
Tim Shiverin
“Nada, mãe. Por favor. Tu também?” A voz de Simão saiu
mais alterada do que ele pretendia, um rugido contido de
frustração e medo.
“Calma, filho! É que hoje eu tive uma visita. Da polícia.
Perguntando por ti.”
“O quê? Por quê? Eu não fiz nada!”, Simão disse, o coração
batendo como um tambor frenético dentro do peito. A
surpresa era um choque elétrico.
“Eu sei, Simão. Devem estar apenas investigando”, sua
mãe respondeu, mas seus olhos revelavam a mesma
preocupação e surpresa que ela via nele. Ela o
compreendia. Afinal, ele tinha perdido um amigo.
Simão acabou saindo de casa, seus passos o levando para
lugar nenhum e para todo lugar, tentando
desesperadamente encontrar respostas para o que havia
acontecido naquela noite amaldiçoada. Com a
necessidade quase física de estar com Aurora, e sentindo
o clima de suspeição pairando sobre ele como uma nuvem
escura e ameaçadora, ele precisava encontrá-la.
73
Simão
Ele se dirigiu à casa dela, sem pensar no Dr. Feliciano, sem
pensar nas consequências que poderiam se desenrolar
como uma teia de aranha pegajosa. Ele bateu na porta
com uma força que ecoou no silêncio da noite, e ela foi
aberta quase imediatamente por Aurora.
“Simão.” Os olhos de Aurora se arregalaram em surpresa,
e depois em algo que parecia medo. “Entra. Rápido.”
Aurora, sabendo que estava sozinha em casa, puxou-o pela
mão, os dedos dela frios e tremendo, e o levou para seu
quarto, o único refúgio seguro que ela conhecia.
“Simão, o que estás aqui a fazer? Meu pai, se ele te
apanha…”, ela começou, a voz um sussurro urgente.
“Eu precisava te ver, Aurora. Parece que todos suspeitam
de mim. Até minha mãe”, Simão respondeu, a voz
embargada. “Eu precisava de me acalmar junto a ti.”
Ele deitou a cabeça no colo dela, e Aurora começou a
acariciar seu cabelo, um toque que era como um bálsamo
para sua alma atormentada.
74
Tim Shiverin
“Aqui, você está seguro”, Aurora assegurou, e ele
acreditou nela.
“Eu sei. Eu me sinto seguro contigo”, Simão disse,
erguendo os olhos para os profundos azuis de Aurora. E ali,
naquele quarto, sob o peso da suspeita e do luto, eles
fizeram amor pela primeira vez. Não apenas um com o
outro, mas talvez, pela primeira vez, com alguém. Foi um
ato desesperado de conexão, uma afirmação de vida
contra a sombra da morte.
Serviu apenas para cimentar ainda mais o amor que
tinham um pelo outro, uma ligação que parecia forjada em
aço e fogo. E foi ali, na penumbra do quarto, que decidiram
tomar uma decisão juntos. Mostrar-se ao mundo. Inclusive
ao pai dela, o Dr. Feliciano.
E esse seria o seu próximo obstáculo, um monstro a ser
enfrentado.
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Simão
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A CERTEZA
São Jorge, Açores – Verão de 1984
Decididos a arrancar a pele velha do passado e vestir uma
nova, uma que ninguém, ninguém pudesse rasgar ou sujar,
Simão e Aurora sabiam que o primeiro nó a desatar era o
mais apertado: o pai dela.
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Tim Shiverin
Simão começou pela mãe, como se estivesse a testar as
águas de um lago escuro. Contou-lhe, com uma voz que
mal reconhecia como sua, o envolvimento com Aurora, a
intenção de costurar um novo capítulo da vida ao lado
dela, dando-lhe o que, no fundo, ambos mereciam. Estar
com Aurora, sentir o calor dela ao seu lado, era o que o
impelia a não cair no abismo, a continuar a arrastar-se por
esta estrada poeirenta a que chamavam vida.
Mas o Dr. Feliciano... ah, o Dr. Feliciano era outra história.
Contar-lhe seria como atirar-se de um penhasco, sabendo
que a aterragem seria dura, talvez fatal. Mas tinha de ser
feito. Aquele pensamento martelava na sua cabeça, um
tambor surdo e incessante, desde que a ideia de Aurora se
enraizara no seu coração como uma erva daninha, bela
mas perigosa.
Simão marcou a consulta. Um eufemismo, claro. Não era
por uma dor de cabeça ou uma constipação. Era para
desenterrar um segredo, talvez para enterrar uma vida.
Encontrou-o no Centro de Saúde da Vila, um edifício
branco e estéril, junto a uma velha igreja, que sempre lhe
parecera cheirar a doença e desespero, apesar de todos os
esforços para o manter limpo.
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Simão
"Entra, amigo Simão. Como te sentes? Pelo menos pareces
de melhor cara desde a última vez que te vi aqui." A voz do
Dr. Feliciano era um bálsamo, untuosa e falsa como mel
venenoso. Os seus olhos, porém, pareciam ver através da
pele, direto aos ossos.
"Sim, Dr. Estou melhor agora," Simão respondeu, o
nervosismo a apertar-lhe a garganta, como uma mão
invisível. Sentia o suor a escorrer pelas costas, as palmas
das mãos húmidas.
"Então o que te traz cá, amigo Simão?" A pergunta veio,
inevitável, e Simão sentiu os músculos do pescoço
repuxarem.
"Na verdade, queria apenas falar consigo," começou
Simão, a voz a falhar-lhe, o coração a bater como um
tambor de guerra. "Queria falar-lhe da sua filha."
O Dr. Feliciano não disse nada. Não precisava. A
compreensão, fria e rápida como uma sombra, atravessou
os seus olhos. Levantou-se, com movimentos lentos e
deliberados, despiu a bata branca, dobrando-a com uma
precisão quase cirúrgica. Depois, sentou-se novamente,
mas desta vez não era o médico. Era o pai.
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Tim Shiverin
"Se queres ter uma conversa comigo, como pai da Aurora,
nem devo ter a bata vestida e devia ter sido noutro lugar.
Mas diz," a voz do Dr. mudara. Não era mais amigável.
Havia nela uma aresta afiada, o som do aço a raspar a
pedra.
"Sabe... Eu tenho a pretensão de fazer a sua filha feliz e
gostaria de ter a sua permissão," Simão começou,
sentindo-se infantil, patético. "Penso que sou mais feliz
junto a ela e penso que ela é mais feliz comigo."
"Simão. Ok. Compreendo." O Dr. Feliciano inclinou-se para
a frente, os olhos fixos nos de Simão, parecendo perfurar
a sua alma. "Mas explica-me o que lhe irá acontecer
quando entrares em depressão novamente? E quando ela
não for suficiente para alegrares o teu dia? Vais deixá-la
novamente à minha porta?"
O Dr. aproximou-se ainda mais, a sua voz um sussurro
gélido que parecia escorrer para os ouvidos de Simão. "E
quando te der os teus ataques de ódio? Irás descarregar
nela? Quando não conseguires lidar com as vozes da tua
cabeça? Vais descarregar nela? Pensa bem antes de agir,
meu amigo. Uma vez contigo, para sempre contigo."
79
Simão
O Dr. Feliciano terminou, e a última frase ecoou na sala,
parecendo preencher cada canto com uma ameaça muda.
Simão sentiu um arrepio gélido percorrer a espinha. O suor
frio escorria-lhe pela testa. O quê? Vozes? Como era
possível ele saber? Como era possível que o Dr. Feliciano
soubesse dos sussurros e murmúrios que, por vezes, se
enroscavam na sua mente, como cobras invisíveis? E os
ataques de ódio? Não, nunca.
"Amigo Simão," o Dr. continuou, a voz agora quase
inaudível, mas carregada de peso. "O Luís não era apenas
teu amigo. Também era meu. Aproximou-se pouco antes
da sua morte. Infelizmente, sei de coisas. Só ainda não sei
como e o porquê de o teres morto daquela forma."
Aquelas palavras. Eram como agulhas de gelo fincadas no
peito de Simão. A sala girou. Gelou. Levantou-se tão
rapidamente que a cadeira caiu para trás com um baque
seco. "O quê? Eu? Quem julga que é para me acusar de tal
barbaridade?" O grito de Simão rasgou o silêncio do
consultório, e por um momento, imaginou que os vidros
da janela tremeriam.
80
Tim Shiverin
"Calma, Simão. Só me estás a dar mais certezas. E também
não quero que acordes os doentes no andar de cima. Já é
tarde," respondeu o Dr., com um ar estranhamente
descansado, quase divertido.
Mas Simão estava numa pilha de nervos, como nunca tinha
estado. O sangue pulsava nas suas têmporas. As vozes e os
murmúrios tornavam-se cada vez mais notórios na sua
nuca, como um enxame de insetos invisíveis a roçar-lhe a
pele. Mal se conseguia concentrar. A realidade parecia
escorregar-lhe pelos dedos.
O Dr. Feliciano, levantando-se com a mesma calma
perturbadora, começou a andar devagar pela sala, os seus
passos medidos e lentos. "Calma. O teu segredo está
comigo. Não tenho intenções de lançar suspeitas
infundamentadas para o resto da Vila. Sei que as pessoas
podem ser cruéis, mas há um custo."
Simão, encurralado num canto da sala do Dr., respirava de
forma incontrolável, o ar a parecer denso e pesado.
Tentava, desesperadamente, agarrar-se a qualquer
vestígio de calma.
81
Simão
"Qual custo?", perguntou, a voz rouca.
"Esta ideia da Aurora, acaba aqui. Afastas-te para sempre.
Sem despedidas, sem adeus, sem explicações," disse o Dr.
Feliciano.
De repente, sentiu uma sensação fria e cortante junto à
espinha, como se uma lâmina de gelo lhe tivesse roçado a
pele. Virou-se para ver Simão, mas ele já não estava no
canto da sala. Estava um pouco mais à frente, a sombra
dos seus olhos vazia.
O Dr. sentiu um calor súbito na parte de trás da nuca,
seguido de uma pequena tontura, como se o chão lhe
tivesse fugido por um instante. Passou a mão e sentiu uma
agulha fincada no seu pescoço. Retirou-a, olhando para
Simão com um ar surpreso, os olhos arregalados de
incredulidade e um terror crescente.
"O que tinha esta agulha?" perguntou o Dr. Feliciano, a voz
já embargada pela preocupação, pelo medo que começava
a perfurar o seu coração.
"Nada!" respondeu Simão, a sua face sem expressão, sem
vida, uma máscara de indiferença que era mais
82
Tim Shiverin
assustadora do que qualquer grito.
O ar injetado já percorria o corpo do Dr., uma corrente
gelada que se espalhava, invadindo cada veia, cada artéria,
especialmente na zona do coração, do cérebro e dos
pulmões.
O Dr., que começava a ter a visão turva e um zumbido
agudo nos ouvidos, agarrou-se ao peito, a dor a apertá-lo
numa morsa invisível. "Porquê?" perguntou a Simão, a voz
quase um sussurro.
E Simão, com a mesma face inexpressiva, aproximou-se e
respondeu prontamente, as palavras frias e definitivas
como pedras de mármore: "Porque tu sabes que eu matei
o Luís e porque sabes que vou acabar por matar a tua
filha." E então, as memórias. Flashs rápidos e brutais da
noite da morte de Luís, imagens que se projetaram na
mente de Simão como um filme de horror em câmara
lenta: o brilho do metal, o som abafado, o corpo a cair, o
sangue.
O Dr. arregalou os olhos, tentando agarrar Simão, mas os
seus músculos já não respondiam. As pernas falharam. O
chão veio ao seu encontro. Acabaria por morrer de
83
Simão
paragem cardíaca, os olhos fixos num ponto distante, o
horror e a compreensão final gravados para sempre nas
suas pupilas dilatadas.
Simão saiu sem que ninguém o visse, uma sombra furtiva
na noite que caía, e dirigiu-se até casa. Um problema
resolvido, aparentemente. Embora devesse ter sido de
outra forma, de uma forma menos... suja.
Agora, Simão tinha a certeza. Tinha matado Luís. E com a
morte do Dr. Feliciano, era apenas uma questão de tempo
até que as peças se encaixassem, até que a Vila, com os
seus sussurros e olhares, chegasse até ele. A teia apertava-
se. Tinha de fazer alguma coisa.
Alguma coisa terrível.
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Tim Shiverin
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O FIM
São Jorge, Açores – 1984-1988
Simão, agora um assassino confesso, sentia algo que antes
lhe fora impossível de conceber. Não era apenas o poder,
mas a vertigem gélida de arrancar uma vida, o deleite
perverso no medo que se projetava como uma sombra nos
olhos das vítimas, antes que a luz se apagasse para
85
Simão
sempre. Uma sensação que se enroscava na sua alma
como uma serpente faminta, fria e insaciável.
A Vila das Velas despertou no dia seguinte não com o canto
dos pássaros, mas com um silêncio pesado, como de um
velório se tratasse. A notícia da morte do Doutor Feliciano
espalhou-se como um veneno no ar da manhã, uma
mancha escura na tapeçaria da vida da pequena
comunidade. A vida do Doutor, um homem respeitado e
adorado por muitos, terminara cedo demais, deixando as
suas duas filhas, Aurora e a mais nova, à deriva num
mundo que de repente se tornara frio e vasto. Uma
pequena multidão, mais uma congregação de almas
aterrorizadas do que de amigos em luto, juntou-se junto
ao cemitério, os sussurros mais altos que as orações, os
olhares mais pesados que as lápides.
Simão, com a garganta seca e o coração a bater um ritmo
estranho, correu para Aurora. Ofereceu-lhe o seu ombro,
palavras vazias de consolo que se desfaziam na boca como
areia. Mas ela estava inconsolável, uma estátua de dor.
Tinha perdido o pai, apenas alguns anos depois de ter
perdido a mãe, mas esta dor era diferente, mais aguda,
mais perversa. Era uma morte sem aviso, sem a doçura da
doença prolongada ou a inevitabilidade da velhice. E até
86
Tim Shiverin
ao momento, não havia nada que pudesse levantar
suspeitas; uma paragem cardíaca, limpa, quase asséptica.
Nenhuma ligação a qualquer pessoa, muito menos a
Simão. O único registo que existia era a marcação de uma
consulta, um pormenor insignificante que, por enquanto,
não o preocupava.
Mas o ar na Vila das Velas parecia ter-se tornado denso,
difícil de respirar, como se um luto permanente se tivesse
instalado sobre as casas e as ruas. Não era apenas pelos
que tinham morrido, mas pelos que ainda poderiam
morrer. Era como se a vila estivesse a prender a
respiração, à espera do próximo golpe, da próxima morte
sem aviso que viria do escuro.
O Jardim, outrora o coração pulsante da vila, começou
lentamente a esvaziar-se. A taberna do Senhor Ferreira
mantinha-se aberta, uma luz trémula no crepúsculo que se
adensava, acolhendo apenas dois ou três velhos cujos
olhos tinham visto demasiado e que, aparentemente, nada
tinham a perder. A vida da Vila das Velas começou a
murchar, a definhar. Um receio ligeiro, mas persistente, de
sair à rua enraizou-se nas almas. O anoitecer tornou-se
uma hora sagrada de recolher obrigatório, portas
trancadas, cortinas corridas, as luzes da rua a piscar como
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Simão
olhos nervosos.
A Simão apenas lhe restava amparar Aurora nos tempos
difíceis que se seguiram. E foram anos difíceis, de
adaptação penosa, como tentar respirar debaixo de água.
Simão casou-se com Aurora, e em 1988, num último e
desesperado aceno à normalidade, tiveram um filho. José
Francisco. Em honra ao avô.
Com esta mudança, e as dificuldades financeiras que se
arrastavam como um peso morto, as mudanças de humor
constantes de Simão começaram a rasgar o tecido da
relação. Os ataques de fúria eram quase diários, como
trovoadas repentinas que se abatiam sobre a casa.
Mergulhado na bebida, as discussões eram um coro
constante, ecoando pelas paredes como fantasmas.
Uma noite, Simão estava afundado no seu cadeirão, o
cheiro azedo do uísque a pairar no ar. Aurora, sentada ao
seu lado, com o filho a dormir no colo, o rosto iluminado
apenas pela luz ténue da lâmpada, perguntou, a voz um
sussurro no silêncio da casa: "A escuridão não te deixa,
pois não, Simão?"
Simão olhou para ela, os olhos pesados de cansaço e uma
tristeza que parecia ter-se enraizado nos seus ossos. "Não.
88
Tim Shiverin
Não consigo."
Aurora, num tom que revelava uma resignação amarga,
como se já soubesse a resposta muito antes de a
perguntar, disse a Simão que no dia seguinte iria para
Lisboa com o filho. Não conseguia viver mais daquela
forma.
Simão compreendeu. Aceitou a decisão de Aurora com
uma quietude que o surpreendeu a si mesmo. Levantou-
se, os joelhos a ranger, e foi até à porta da entrada da sua
casa, onde se sentou nos degraus frios, respirando o ar
noturno. Pensou no que tinha feito de errado, as escolhas
erradas que o tinham levado àquele ponto. A perda dos
amigos, a perda da esposa, a perda do filho. Um desfile
interminável de fantasmas.
No momento em que as lágrimas, quentes e amargas, lhe
começaram a escorrer pelo rosto, sentiu as vozes na sua
cabeça, mais nítidas do que nunca. Não eram sussurros
agora, mas um coro, um coro de agonia e exigência. "Volta,
Simão! Volta!" Simão não as compreendia, era uma
confusão de sons, de gritos, de promessas obscuras. E
então a dor começou. Uma dor lancinante nos braços e no
peito, como se mãos invisíveis o estivessem a puxar de um
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Simão
lado para o outro, a esticar, a rasgar. Algo se passava. Algo
terrível.
Subiu as escadas em desespero, os degraus a ranger sob
os seus pés, tentando encontrar o apoio da esposa, o seu
porto seguro de outrora. Mas ela, sem que ele tivesse
reparado, já tinha saído com o filho. Sem um adeus, sem
um último beijo. A casa estava vazia, o silêncio agora um
monstro que o engolia.
Correu pela vila fora, os seus próprios passos a ecoar na
noite assustadoramente silenciosa. Não havia para onde ir,
exceto para o único lugar que sabia que poderia ter
respostas. Entre os Morros. O desespero era tão grande
que sentiu uma necessidade visceral de ir para o sítio que
mais temia, o lugar que assombrava os seus pesadelos.
Ao atingir o fatídico local, o ponto de partida de toda a sua
desventura, Simão ajoelhou-se sob a luz pálida e vacilante
da lua. A claridade, por enquanto, ainda delineava o
caminho pedregoso. Murmurou um pedido de perdão,
uma súplica para que o levassem, para que o livrassem
daquela dor lancinante, daquela escuridão que o
consumia.
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Tim Shiverin
A lua, como se num gesto de cumplicidade macabra,
escondeu-se por entre as nuvens espessas, deixando
apenas uma penumbra que mal permitia discernir a
própria mão à frente do rosto.
Havia, ele sabia, apenas uma saída. Uma única e derradeira
forma de pôr termo àquela existência de tormento.
Com uma determinação gélida, começou a ascender o
caminho íngreme em direção à ravina, um lugar que lhe
era familiar de outras ocasiões. Vozes, espectrais e cada
vez mais insistentes, pareciam chamar o seu nome,
ecoando no seu íntimo: "Volta, Simão!" Sentia uma força
invisível a puxá-lo para trás, mas ele avançou, inabalável
no seu propósito.
Ao alcançar o cume, o vento forte chicoteava a aresta da
ravina, trazendo consigo o sabor salgado do mar. Abriu a
boca e, num grito rouco que se perdeu na imensidão,
clamou: "Estou aqui! Sou vosso! Levem-me!"
Abandonou-se ao abraço impiedoso do vento, sentindo os
pés desprenderem-se da rocha, iniciando uma queda que,
paradoxalmente, pareceu tão vertiginosa quanto eterna.
E de repente...
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Simão
Ali estavam. Luís. E os irmãos, José e Pedro. O sol, agora
uma lança ofuscante, feria-lhe os olhos, mas não havia
engano. Eram eles.
"Estás bem? Voltaste! Ele voltou!"
Simão desabou no chão, um homem perdido, os olhos
fixos nos amigos, detendo-se em Luís. Num instante,
estava de volta a 1976.
"O que aconteceu? Quanto tempo estive inconsciente?",
perguntou Simão, a voz embargada pela confusão.
"Dois, talvez três minutos", respondeu Pedro. "Mas
pareceu uma eternidade. Estávamos tão preocupados",
emendou José, com um suspiro.
"O que importa é que estás a salvo. Eu tive um
pressentimento, sabes?", disse Luís, um sorriso de alívio
espalhando-se pelo seu rosto.
Após alguns momentos para recompor os pensamentos
dispersos, Simão abraçou os amigos, um gesto
particularmente sentido para com Luís.
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Tim Shiverin
Regressaram a casa, concluindo um dia repleto de
acontecimentos inesperados. Mas para Simão, fora muito
mais do que isso. Ele havia vivido uma vida inteira no
espaço de meros três minutos. Parecera tão real,
ponderava Simão, a mente ainda atordoada com a
peculiaridade da experiência.
Correu para casa e abraçou a mãe com uma intensidade
que falava de um alívio profundo e inarticulado.
"O que se passa, meu rapaz?", inquiriu a mãe, uma ruga de
preocupação vincando a sua testa.
"Nada, mãe! Nada de nada!", Simão retorquiu, talvez com
demasiada pressa.
Tudo parecia, finalmente, regressar à normalidade.
Dias de sol, o jardim a transbordar de alegria juvenil, a
taberna local ecoando com o burburinho familiar dos seus
clientes mais antigos.
Simão já não ouvia as vozes. O formigueiro peculiar na
nuca desaparecera. Apenas uma crescente alegria de viver
preenchia o seu ser.
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Simão
As noites no Jardim da República retomaram o seu
encanto, agora com um renovado entusiasmo. Os torneios
de futebol de salão ganharam um interesse fresco.
Contudo, de súbito, Simão recordou-se de tudo o que
havia ocorrido. Era, de facto, impossível esquecer. Ainda
lançava olhares apreensivos para a esquina do edifício
adjacente ao campo de futebol de salão, com um receio
latente de que alguma figura familiar pudesse surgir. Mas
não passara de um sonho.
"Olá! Como te chamas?"
A voz, leve e melodiosa, flutuou até aos seus ouvidos.
Simão conhecia aquela voz. Não podia ser.
Voltou-se, e lá estava ela: Aurora.
Não podia ser.
Não passara de um sonho. Ou estaria Simão, afinal,
profundamente enganado?
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Simão
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EPÍLOGO
São Jorge – anos 80
E assim, quando Simão finalmente fecha os olhos diante
do penhasco, invocando o fim como única salvação, a
história curva-se sobre si mesma como a serpente que
morde o próprio rabo. Num instante de escuridão — ou de
luz — ele desperta. Não no futuro dilacerado pela culpa,
mas no calor da infância, entre os sorrisos dos amigos, o
som dos piões e o aroma dos figos roubados.
Mas algo mudou. O leitor sabe. Simão sabe.
Será que tudo foi apenas uma projeção? Uma
possibilidade não concretizada? Ou será que, ao cair,
atravessou uma dimensão onde passado e futuro se
fundem, revelando-lhe o caminho certo?
O amor por Aurora permanece — real ou sonhado. A
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Tim Shiverin
amizade com Luís vibra, reconectada. O peso da culpa?
Talvez se dissolva nos risos recuperados. Ou talvez
permaneça, quieto, esperando o momento certo para
reaparecer.
Este epílogo não serve como fecho definitivo. Antes, é um
sussurro. Uma nota grave que ecoa depois da última
página. Porque este não é apenas o fim de uma história: é
o início de uma pergunta. E o leitor é convocado a
respondê-la dentro de si.
Simão voltou. Simão vive. Mas que parte dele ficou no
abismo?
E tu, leitor — o que terias feito?
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Simão
Sobre o Autor
Tim Shiverin, estreia-se como escritor com este
livro, o seu primeiro, trazendo uma narrativa sem
experiência prévia, mas com um profundo compromisso
em contar uma história verídica.
Nesta obra, ele entrelaça em São Jorge, nos
Açores, capturando as vivências e costumes, misturando a
ficção.
Com autenticidade e paixão, Tim Shiverin espera
que esta história ressoe com os leitores e marque o início
de sua jornada literária.
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