VANTAGENS DO PROGRAMA COMPLIANCE PARA A EMPRESA
O Compliance, por ser relativamente novo no meio empresarial, e
demandar um significativo investimento tanto financeiro quanto pessoal, para
que seja realmente efetivado devido a sua complexidade, algumas
organizações não se sentem estimuladas para a implementação.
Com os desdobramentos do cenário político nacional na história recente,
evidenciou-se a necessidade de adequação dos setores empresariais e
institucionais em defesa da integridade. Essa adequação se estende ao
cumprimento das normas contratuais, tanto nacionais quanto internacionais,
públicas ou privadas, explica Naresi (2019).
Segundo a referida autora, a aplicabilidade do Compliance nas esferas
contratuais pode ser iniciada ainda na fase pré-contratual, por meio de uma
análise sobra a reputação das partes e de quem as representam, como uma
plataforma de investigação para avaliação do perfil e do histórico empresarial
daqueles que desejam estabelecer um vínculo jurídico e também para que se
possa traçar uma transparência efetiva na manifestação da vontade dos
envolvidos.
O não cumprimento dos Programas de Compliance, complementa
Naresi (2019), além de ser passível das penalidades jurídicas, pode expor
publicamente aquele ou aqueles que o comete. A transparência na conduta
passou a ser exigida e instrumentalizada, portanto, indispensável para que as
normas contratuais sejam devidamente cumpridas.
Entretanto, não há de se levar em consideração apenas o custo e a
preparação para a implementação, já que um programa de Compliance bem
estruturado poderá trazer vantagens relevantes.
Na era do capitalismo, declaram Pelegrini e Arbol (2019), o programa
traz um diferencial no mercado, impulsionando o principal objetivo do
empresário que é consolidar sua marca no mercado.
As autoras acima ainda ressaltam que o programa de conformidade
pode ser direcionado para empresa de todos os portes, abrangendo, assim,
desde as de grande porte, como as multinacionais até as de médio e pequeno
porte, não se excluindo as microempresas. Dessa forma, o programa
desenvolvido e aplicado adequadamente às necessidades de cada tipo
empresarial torna efetivos os benefícios que podem ser diversos: redução de
custos; prevenção de riscos; conscientização dos funcionários em decorrência
das normas de conduta adaptadas a cada atividade empresarial e identificação
antecipada de eventuais contingencias.
Segundo o ENDEAVOR (2015), muitas empresas brasileiras de pouca
estrutura relutam em adotar Programas de Compliance. Essa é uma das
razões pelas quais menos de 20% das empresas chegam aos 10 anos de
existência. Travar brigas judiciais por causa de uma lei trabalhista
descumprida, arcar com multas pesadas da Receita Federal por causa de
impostos e por descumprimento às leis ambientais enfraquecem a empresa no
mercado, minam sua credibilidade, secam seu caixa e suas perspectivas de
futuro.
Ainda são expostos os principais benefícios que a área de Compliance
pode trazer para a empresa:
a) Ganho de credibilidade por parte de clientes, investidores
e fornecedores, incluindo o mercado externo;
b) Aumento da eficiência e da qualidade dos produtos
fabricados ou serviços prestados;
c) Oferece prevenção de riscos e passivos trabalhistas
(muitas empresas só pensam em Compliance quando já foram
punidas por algum “desvio”, postura custosa ao caixa da
organização).
As vantagens mencionadas são apenas exemplificativas, já que existem
inúmeros benefícios que um Programa de Compliance bem estruturado poderá
proporcionar, cabendo explanar aqui os mais relevantes.
Atratividade por Credibilidade.
Em uma era capitalista e com um grande fluxo de importação e
exportação, grandes e pequenas empresas possuem a necessidade de
estarem sempre vinculadas umas às outras.
Neste sentido, uma das principais vantagens de adotar o Programa
Compliance é a atratividade que este proporciona para os stakeholders, que
conforme Vanin (2018), são grupos ou pessoas que afetam a empresa, e
coadunam interesses diretos ou indiretos, positivos e negativos, na função de
gestão, planejamento e execução de projetos. Ou seja, a adoção do
Compliance significa atratividade para os terceiros interessados que estejam de
alguma forma vinculados a atividades exercidas pela empresa, como
acionistas, parceiros, consumidores, fornecedores e outros.
A adoção do programa Compliance traz um diferencial no mercado, pois
demonstra que tem como principal objetivo zelar pela reputação e boa atuação
da empresa, atribuindo a ela maior credibilidade e confiança. Acaba
consequentemente atraindo parceiros e colaboradores que compartilham dessa
política e previnem falhas ou ilegalidades.
Em determinadas áreas e projetos, há parcerias estratégicas com outras
instituições que podem representar grandes oportunidades e levar a empresa a
altos patamares. Manzi (2008) declara que o sucesso das organizações
depende da admiração e da confiança pública, refletida no valor de suas
marcas, na sua reputação, na capacidade de atrair e manter clientes,
investidores, parceiros e empregados. Estudos recentes demonstram que as
organizações que apresentam uma estrutura sólida de preceitos éticos e atuam
de forma responsável, estão à frente em detrimento das demais que atuam de
forma diferente.
Conclui ainda Manzi (2008) que, sendo a cooperação naturalmente
estimulada em ambientes com transparência, ética e confiança, a implantação
da política de Compliance é uma ferramenta poderosa para alcançar tal intento
e, consequentemente, o desenvolvimento pleno da empresa.
Em uma geração conectada torna-se muito mais fácil obter informações
acerca da idoneidade das empresas. Além disso, o público consumidor nunca
levou tão a sério a reputação de empresas quanto atualmente. As redes
sociais costumam ser verdadeiros tribunais, nos quais não é raro algumas
marcas entrarem para o ostracismo quando uma má conduta ou deslize se
torna público.
Assim, confirmam Ribeiro e Diniz (2015), o Programa de Compliance
vem como verdadeiro estímulo para a concretização de conduta empresarial
ética e do combate à corrupção, bem como para o crescimento e o
desenvolvimento, além de exaltar o papel da confiança nos negócios,
pressuposto básico que deve ressurgir como característica essencial em tais
condutas.
Desse modo, a empresa que adotar o programa Compliance transmitirá
uma mensagem de idoneidade para a comunidade, pois se divulgará que a
empresa não tolera condutas inadequadas e que se preocupa com seus
colaboradores, o que sem sombras de dúvidas gera a desejada atratividade.
Maior satisfação dos funcionários e produtividade
Um bom Programa de Compliance gera efeito positivo em todos os
processos da empresa, tornando-a muito mais organizada e atrativa para os
colaboradores.
É inegável que trabalhar em uma empresa correta, que cumpre
assiduamente as normas e oferece garantias dos direitos dos trabalhadores é
muito mais satisfatório do que ser funcionário de uma companhia que passa
por cima das regras, conforme expõem Innocenti, Camilis, Martinez et al:
Manter o meio ambiente de trabalho saudável e em bom funcionamento é de
extrema importância para a empresa, pois seu material humano é um dos
principais elementos para alcançar o sucesso almejado (INNOCENTI,
CAMILIS, MARTINEZ et al., 2017, p. 92).
Em consequência disso surgem processos bem organizados, com
motivação e engajamento desta maneira a produção se torna maior e melhor.
Os níveis de estresse são reduzidos, pois os colaboradores não precisam se
preocupar com possíveis resultados de má conduta dos seus colegas,
subordinados ou superiores.
Os autores Innocenti, Camilis, Martinez et al. (2017) também registram
que o empregado, ao se deparar com atitudes da empresa que objetivam a
melhora no ambiente e na rotina de trabalho, tem a sua produtividade
aumentada e pode ensejar a redução de faltas e maior dedicação, tendo como
consequência seu desenvolvimento profissional, que impulsionará a qualidade
de seus serviços, refletindo diretamente no resultado final do produto ou
serviço prestado.
As empresas também sofrem bastante com a alta rotatividade de
funcionários em seus setores, o que significa perda de tempo e dinheiro.
Quando alguém se desliga da empresa, há um custo para selecionar um
substituto e um déficit na produção até que a pessoa contratada esteja
totalmente inserida e treinada na rotina da empresa. Se os colaboradores estão
mais satisfeitos há a diminuição de saída, reduzindo drasticamente o fluxo da
rotatividade.
Reduzindo as saídas, aumenta a atração, e isso se deve à melhora da
imagem da empresa sendo reflexo direto de seus colaboradores, que atuam
como embaixadores, levando comentários positivos a respeito do seu trabalho
a quem conhecem.
Chiavenato (2006) evidencia que a qualidade da produção está
diretamente ligada à satisfação do trabalhador. Laborar num meio ambiente
saudável, equilibrado e digno, que respeite os princípios fundamentais do ser
humano e que evidencie a busca pelo bem da coletividade, gera maior
rendimento e, consequentemente, lucro para o empregador. Desse modo, o
clima organizacional positivo propiciado pelo Compliance aproveita ambas as
partes na relação de emprego na mesma medida: bem-estar, satisfação e, por
conseguinte, maior produtividade do empregado e produção da
empresa/corporação.
Prevenção de riscos e passivo trabalhista
Conforme Augusto e Falavigno (2018), não apenas a Lei Anticorrupção
pode aplicar sanções às empresas faltosas. A Receita Federal e a Justiça do
Trabalho, por exemplo, podem também aplicar sanções a quem não respeitar
suas leis e normas. Diante dessas situações, a empresa, além de prejuízos
financeiros imediatos, sofrerá danos à sua imagem, diminuição de clientes e
lucros e aumento de dívidas. A recuperação pode se tornar difícil, lenta ou até
improvável.
Para evitar isso, entra a finalidade principal do programa de Compliance:
a prevenção. Evidentemente, é impossível garantir cem por cento que não
ocorrerá nenhum caso concreto alguma violação ou conduta inadequada por
parte dos colaboradores da empresa, entretanto o Compliance gera uma
prevenção evitando que ocorram práticas que exponham a empresa a
ameaças nos mais diversos seguimentos.
Desvios no cumprimento de leis e regramentos, inclusive de mercado,
ou instituídos por associações e reguladoras, implicam na desproporção dos
riscos da atividade, e que devem ser mitigados com os afastamentos das
vulnerabilidades ou potencialidades de perdas financeiras resultantes de
eventos com significado jurídico ou não (AUGUSTO; FALAVIGNO, 2018).
Em virtude da série de escândalos corporativos que expuseram a
fragilidade e a sustentabilidade nas empresas na nossa era global, houve um
crescimento de interesse em se inteirar de métodos preventivos de gestão.
As empresas lidam diariamente com riscos em suas atividades, tanto
com quem os representa dentro da empresa como também fora (terceirizados,
fornecedores, etc.), e para se resguardarem precisam buscar medidas
preventivas e eficientes.
Adotar o Compliance na terceirização é fundamental, pois, mesmo
sendo realizado por uma empresa externa, o trabalho terceirizado gera uma
grande influência nos resultados das operações internas.
Diante dessa questão, Morhena expõe: Portanto, a empresa contratante
deve controlar o serviço prestado pelo fornecedor por meio do compliance.
Dessa forma, é possível se certificar de que os processos estão de acordo com
as normas internas e com as leis estabelecidas pelos órgãos
regulamentadores, especialmente quando são contratados serviços de alto
impacto ou de alto risco. Aqueles profissionais que atuam diretamente nos
setores administrativos, como os de Recursos Humanos ou de obrigações
fiscais, requerem maior controle e acompanhamento. (MORHENA, [2017).
A fonte supracitada enfatiza que, apesar de demandar uma série de
cuidados durante a contratação, a adoção desse conceito nos processos
terceirizados contribui grandemente para o crescimento do negócio. Terceirizar
com Compliance assegura o alinhamento dos serviços prestados pelo
fornecedor aos valores da contratante e às normas estabelecidas pelos órgãos
regulamentadores. Assim, sua aplicação não só elimina riscos jurídicos, mas
também favorece a reputação da corporação, e ainda garante vantagem
competitiva.
Embora o Compliance seja implementado com o objetivo de prevenção,
não significa que não vá aplicar medidas remediadoras quando necessárias.
Neste sentido, o Programa poderá aplicar sanções ou medidas aos infratores
assim que constatada denúncia ou identificado ato inadequado pelo
monitoramento, sendo respeitados a observância do devido processo, e
garantidos o contraditório e a ampla defesa.
Em casos de atos que violem a Lei Anticorrupção, sendo eles de maior
nível de complexidade, estes também estão sujeitos a investigações. Conforme
Dias (2017), é importante lembrar que eventual violação à Lei Anticorrupção
brasileira poderá ainda provocar a abertura de investigações, processos e
sanções de outras jurisdições por violações a leis estrangeiras, tais como o
FCPA (Foreign Corrupt Practices Act) dos Estados Unidos da América e
também o UK Bribery Act (United Kingdom Bribery Act), do Reino Unido,
aumentando de maneira exponencial a exposição da empresa ao risco de non-
compliance (não conformidade). Estas leis estrangeiras possuem uma
dimensão de extraterritorialidade muito amplo, ou seja, podem ser aplicadas
fora de seus territórios, caso o ato de corrupção tenha uma relação direta ou
indireta com seu país.
Ademais, a responsabilidade da empresa é objetiva, ou seja,
independentemente de dolo ou culpa do empregador, em relação aos danos
causados a terceiros por ato do empregado ou preposto na execução do
contrato de trabalho, conforme disposto nos artigos 932, inciso III, e 933, do
Código Civil Brasileiro:
Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil: [...] III - o
empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e prepostos, no
exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele;
Art. 933. As pessoas indicadas nos incisos I a V do artigo antecedente,
ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados
pelos terceiros ali referidos.
Assim, o empregador deve tomar uma postura cuidadosa com relação
aos seus empregados, principalmente os que atuam na função de gerência ou
diretoria e possuem subordinados, para se certificar que estes estejam atuando
dentro da normalidade, a fim de se prevenir dos riscos trabalhistas.
A responsabilidade objetiva prevista no Código Civil traz certo receio às
empresas, porém o legislador trouxe, no art. 7º, VIII da Lei 12.846/13, as
atenuantes que serão imputadas no caso de estipulação da pena: Art. 7° Serão
levados em consideração na aplicação das sanções:
Art. 7º Serão levados em consideração na aplicação das sanções
[...]
VIII - a existência de mecanismos e procedimentos internos de
integridade, auditoria e incentivo à denúncia de irregularidades e a aplicação
efetiva de códigos de ética e de conduta no âmbito da pessoa jurídica;
[...]
Para tanto, é preciso que o Programa de Integridade seja amplamente
divulgado e cumprido, pois, conforme se depreende do texto da lei, não basta
apenas possuir um Programa de Integridade. É necessária a demonstração de
sua efetiva aplicação em todos os setores da corporação, trazendo do Decreto
nº 8.420/15 parâmetros para esta avaliação.
A partir da análise das ações trabalhistas, é possível verificar que a
maioria poderia ter sido evitada mediante atitudes preventivas, pois grande
parte de tais reclamações decorrem da má aplicação das normas trabalhistas
ou de questões relacionadas a danos morais causados por práticas
inadequadas pelos altos empregados, superiores hierárquicos, ou pelos demais
colegas no ambiente de trabalho.
Apesar de ainda não existir dados conclusivos sobre a maior demanda
de processos trabalhistas no Brasil em nível mundial, tem-se por óbvio diante
das pesquisas recentes, o grande número de ações que tramitam na justiça.
Em síntese, todas as práticas de Compliance aplicadas à área trabalhista
ajudam a reduzir conflitos e evitar ações judiciais, diminuindo,
consequentemente, o prejuízo das empresas, proporcionando a satisfação dos
funcionários, a expansão das atividades e o aumento dos lucros (FRANÇA,
[2018).
De acordo com Paz (2019), percebe-se a intenção do legislador em
incentivar a adoção de uma gestão corporativa/empresarial para o fim de
implementação de Compliance, o que fortalece o ambiente trabalhista e as
relações entre empregador e empregado.
Os prejuízos decorrentes das demandas trabalhistas serão maiores do
que o investimento em um Programa de Integridade justamente porque as
demandas trabalhistas geram, além de toda uma movimentação da empresa,
despesas com multas, advogados, prepostos, transportes, etc., além dos
reflexos negativos à imagem da empresa.
Neste entendimento, Paz comenta: Diante do contexto, tem-se que a
adoção do Compliance pode não somente beneficiar a empresa perante o
mercado, mas também auxilia a na diminuição de passivos trabalhistas
decorrentes da falta de organização operacional além de criar diretrizes
estratégicas para melhorar a produtividade e a harmonia do setor (PAZ, 2019).
Mesmo diante das vantagens acima apresentadas, reitera-se que a
eficácia do Programa de Compliance depende, inicialmente, do
comprometimento da alta direção corporativa com o Programa, do seu contínuo
monitoramento e aperfeiçoamento pela instância responsável por sua
implementação, divulgação e treinamento, além de contar com um conjunto de
normas que representem efetivamente a área de atuação da corporação e seus
valores que devem ser entendidos e absorvidos na prática diária de todos os
cooperadores.
MAPA MENTAL TRABALHISTA
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