Capítulo 3 — A Pedra do Silêncio
Na manhã seguinte, Joaquim escondeu o mapa e o bilhete no fundo da mochila, junto com
uma lanterna, uma garrafa d’água, uma faca pequena e alguns biscoitos que pegou escondido
da despensa. Não contou nada aos pais. Só deu um beijo rápido em Aninha, que sussurrou no
ouvido dele antes de sair:
— As corujas vão te seguir… mas nem todas são inimigas.
Joaquim não respondeu. Apertou os punhos e seguiu pela trilha que levava à mata. O sol mal
conseguia atravessar a neblina. O ar tinha cheiro de terra molhada e ervas esmagadas.
A Pedra do Silêncio ficava a uns cinco quilômetros da casa, numa parte da floresta onde os
galhos se entrelaçavam como se tentassem impedir a passagem da luz. Quando era menor, ele
tinha ido até lá com o avô — e Tonico o havia advertido:
— Nunca fale nesse lugar, nem mesmo com o pensamento. Aqui, a floresta ouve.
Ele achava que o velho só queria assustá-lo, mas agora aquilo fazia mais sentido.
Após quase duas horas de caminhada, Joaquim chegou ao sopé da colina onde ficava a pedra.
O ambiente ali era... estranho. O som sumia. Nada de passarinhos, insetos ou vento. O silêncio
era total, esmagador. Só o som de seus próprios passos ecoava como se fosse proibido existir
ali.
A Pedra do Silêncio era gigantesca. Tinha a forma de uma cabeça caída de lado, esculpida pela
natureza ou por mãos antigas demais para serem lembradas. O rosto da pedra tinha olhos
fechados e boca trincada.
Joaquim se aproximou com cuidado. Pegou o mapa e o observou de novo. Um dos símbolos
brilhava levemente no papel: a figura de um olho com uma lágrima.
Ao tocar a pedra naquele ponto específico, ela se moveu.
Uma abertura surgiu em sua base. Um cheiro de coisa antiga saiu de dentro. Sem hesitar,
Joaquim entrou.
O interior da pedra era como uma caverna viva. As paredes pareciam pulsar levemente, como
se respirassem. Símbolos brilhavam em vermelho nas paredes. No fundo, havia um pedestal de
pedra e sobre ele, um livro grosso, de capa preta e bordas douradas. Ao lado, repousava um
colar com uma pena branca presa a um cristal.
Joaquim se aproximou devagar. Assim que tocou no livro, ouviu uma voz — não com os
ouvidos, mas dentro da cabeça:
“Acordaste o legado do Guardião. A chave foi virada. O ciclo recomeça.”
Joaquim recuou, mas a caverna começou a tremer. Pedaços da parede caíam. A luz vermelha
piscava como alerta. Sem saber o que fazer, ele pegou o livro e o colar e correu para fora,
enquanto a entrada da pedra se fechava atrás dele com um estrondo seco.
Do lado de fora, o mundo parecia diferente. O ar mais denso, as árvores mais escuras. E no céu,
corujas negras sobrevoavam em círculos, como se marcassem o início de uma caçada.
Joaquim correu pela trilha de volta, mas ao chegar perto de casa, algo o parou.
O tempo parecia… parado. As folhas congeladas no ar. O vento suspenso. E no meio do
caminho, uma figura o esperava.
Era um homem alto, com um chapéu antigo, capa longa e olhos como brasas. Ele sorriu, mas
não era um sorriso de amizade. Era um sorriso de quem espera algo há muito tempo.
— Você tem o livro. Então a escolha foi feita — disse o homem, com voz baixa e ameaçadora.
Joaquim não sabia o que responder.
— O Guardião acordou. Mas o inimigo também. Diga ao seu avô que os sussurros voltaram. E
que não haverá segunda chance.
Antes que Joaquim pudesse perguntar algo, a figura desapareceu em uma nuvem de fumaça
escura. O tempo voltou a fluir. As folhas caíram. O vento soprou.
Joaquim estava sozinho. Mas algo dentro dele havia mudado.