AO EXCELENTÍSSIMO PRESIDENTE DOO EGREGIO TRIBUNAL DE
JUSTIÇA DO ESTADO DO PIAUI
WELISSON MARTINS DE SOUSA, brasileiro, autônomo, unido
estavelmente, portador do RG de nº 3.209.697 SSP/PI e inscrito no CPF sob o
nª 053.581.203-51 Endereço situ a Rua Projetada 1, n° 155, bairro Tranqueira,
municipio de Altos/PI], vem, à presença de Vossa Excelência, por intermédio de
seuS advogados, ALEXANDRE MAGNO DE ROSA LMEIDA NUNES , inscrito
na OAB sob o nº 11.638/PI e LUCAS MOREIRA ARAUJO MADEIRA CAMPOS,
inscrito na OAB sob o nº 9588/PI conforme procuração juntada aos autos, com
endereço profissional sito a Rua Doze de Outubro , nº 1626, Centro, Altos-PI,
CEP 64.290-000 e endereço eletrônico alexandrerosalmeida@[Link], nos
termos do art. 5º, LXVIII (CF/88); arts. 647 a 667 (CPP/41); arts. 466 a 479
(CPPM/69), impetrar Habeas Corpus Criminal
I) DOS FATOS
O paciente foi preso em flagrante sob a acusação de posse ilegal
de arma de fogo de uso permitido, sem que houvesse a devida apresentação de
mandado de busca.
Tal prisão ocorreu em 16/07/205, na cidade de Altos-PI, quando
agentes policiais adentraram sua residência sem autorização judicial prévia, em
flagrante violação ao artigo 5º, inciso XI, da Constituição Federal, que assegura
a inviolabilidade do domicílio, salvo em situações excepcionais.
A ausência de mandado judicial e a inexistência de flagrante
delito no momento da abordagem tornam a prisão manifestamente ilegal.
Conforme consta nos autos do processo de nº 0832789-
38.2025.8.18.0140, o mandado se dirigia a sua ex-companheira em endereço
diverso do dele.
Após a polícia adentrar no imóvel da sua ex-conjuge e tê-la
pressionado a indicar onde era a residência do paciente (conforme consta no
depoimento a autoridade judicial no processo de nº 0839694-
59.2025.8.18.0140) .
Cumpre destacar que, antes da prisão, não houve qualquer
investigação prévia que justificasse a medida extrema de privação de liberdade,
o que evidencia a ausência de justa causa para a decretação da prisão
preventiva, fora que o crime de posse de arma de fogo tem pena inferior a 04
(quatro) anos o que lhe garante o direito a liberdade, seja ela por meio de
medidas cautelares ou fiança.
A prisão foi efetuada unicamente com base em informações não
comprovadas, sem que houvesse qualquer diligência investigativa que
fundamentasse a suspeita contra o paciente. Tal procedimento fere os princípios
do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, previstos no artigo
5º, inciso LIV e LV, da Constituição Federal.
Ademais, não há qualquer indício ou prova que vincule o
paciente a qualquer organização criminosa. A acusação de envolvimento em
atividades ilícitas é desprovida de base probatória idônea, o que torna a prisão
preventiva desproporcional e arbitrária.
A presunção de inocência, princípio basilar do ordenamento
jurídico pátrio, foi flagrantemente desrespeitada, visto que não há elementos que
justifiquem a manutenção da prisão cautelar.
A segregação do paciente é um cumprimento antecipado de
pena, o que não é permitido no ordenamento jurídico brasileiro.
A prisão preventiva foi decretada sob a alegação de posse ilegal
de arma de fogo de uso permitido ( e na decisão judicial há um erro matéria, juiz
colocou como porte), crime que, conforme o artigo 310, inciso III, do Código de
Processo Penal, admite a concessão de fiança. A manutenção da prisão
preventiva, portanto, mostra-se inadequada e desnecessária, sobretudo diante
da inexistência de outras condenações e da ausência de risco à ordem pública.
Outrossim, as provas que embasaram a prisão foram obtidas por
meio ilícito, uma vez que a entrada na residência do paciente ocorreu sem o
devido mandado judicial. Tal circunstância afronta o artigo 5º, inciso LVI, da
Constituição Federal, que veda a admissibilidade de provas obtidas por meios
ilícitos, comprometendo a validade da prisão e de todos os atos dela decorrentes.
Diante da possibilidade de manutenção da necessidade de
acompanhamento do paciente, devem ser consideradas medidas cautelares
diversas da prisão, conforme o artigo 319 do Código de Processo Penal. Tais
medidas são menos gravosas e suficientes para garantir o regular andamento
processual, preservando-se, assim, os direitos fundamentais do paciente.
Em virtude das ilegalidades e arbitrariedades aqui expostas, faz-
se necessária a impetração do presente Habeas Corpus Criminal, com o objetivo
de garantir a liberdade do paciente e assegurar o respeito aos princípios
constitucionais e processuais penais que regem o Estado Democrático de
Direito.
II) DO DIREITO
II.I) Ilegalidade da Prisão Sem Mandado
É de se verificar que a prisão do paciente foi efetuada sem a
apresentação de mandado, o que configura uma ilegalidade, pois não houve
flagrante delito nem circunstâncias que justificassem a exceção à regra da
necessidade de mandado judicial. Tal conduta viola expressamente o artigo 5º,
inciso XI, da Constituição Federal, que preconiza a inviolabilidade do domicílio,
salvo em situações de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou,
durante o dia, por determinação judicial. A proteção ao domicílio é um direito
fundamental, assegurando a privacidade e a liberdade individual do cidadão
contra intervenções arbitrárias do Estado.
A jurisprudência é clara ao afirmar que a ausência de mandado
judicial para ingresso em residência, sem a configuração de flagrante delito,
caracteriza desvio de finalidade e ilicitude das provas obtidas. Nesse sentido, a
teoria dos frutos da árvore envenenada estabelece que uma prova obtida por
meio ilícito contamina todas as provas derivadas dela, devendo ser
desentranhadas do processo.
Consoante entendimento jurisprudencial:
RECURSO EM HABEAS CORPUS.
CUMPRIMENTO DE MANDADO DE PRISÃO
PREVENTIVA. REALIZAÇÃO DE DILIGÊNCIA
DE BUSCA E APREENSÃO. AUSÊNCIA DE
PRÉVIA AUTORIZAÇÃO JUDICIAL. DESVIO
DE FINALIDADE E FISHING EXPEDITION.
ILICITUDE DAS PROVAS OBTIDAS. TEORIA
DOS FRUTOS DA ÁRVORE ENVENENADA.
TRANCAMENTO DO INQUÉRITO POLICIAL.
RECURSO EM HABEAS CORPUS PROVIDO.
1. De acordo com o disposto no art. 293 do CPP,
para ingressar em domicílio a fim de dar
cumprimento a mandado de prisão, o executor
primeiro deve intimar o morador a entregar o
foragido e, depois, em caso de desobediência,
se durante o dia, a autoridade - com duas
testemunhas - poderá adentrar o imóvel. 2. No
caso dos autos, além de não haver sido
observado o procedimento legal previsto no
referido dispositivo, nem sequer se sabia, com
segurança, se o réu estava ou não dentro da
casa, haja vista que o mandado de prisão foi
cumprido a partir de informações anônimas de
que o investigado estava em determinada
residência. Não havia fundadas razões de que o
alvo estaria, de fato, no interior daquela casa. 3.
Ainda que seguido o procedimento legal descrito
no art. 293 do CPP e ainda que admitida a
possibilidade de ingresso no domicílio para a
captura do recorrente a fim de dar cumprimento
ao mandado de prisão, isso não bastaria para
validar a apreensão de diversos bens -
aparelhos celulares, computadores etc. - dentro
do referido [Link] o cumprimento do
mandado de prisão ocorrer no domicílio do
investigado, é permitido apenas o seu
recolhimento e o dos bens que estejam na sua
posse direta, como resultado de uma busca
pessoal (art. 240 do CPP), mas não de todos os
objetos guarnecidos no imóvel que possam,
aparentemente, ter ligação com alguma prática
criminosa. 4. A obtenção de elementos de
convicção ou de possíveis instrumentos
utilizados na prática de crime - ainda que seja ao
tempo do cumprimento da ordem de prisão no
domicílio do réu - exige autorização judicial
prévia, mediante a expedição do respectivo
mandado de busca e apreensão (art. 241 do
CPP), no qual devem ser especificados, dentre
outros, o endereço a ser diligenciado, o motivo
e os fins da diligência (art. 243 do CPP), o que,
no entanto, não ocorreu. É de se destacar,
também, que muitos dos bens apreendidos se
encontravam em outras residências do
condomínio e que o local onde o recorrente foi
detido nem sequer era sua residência. 5. Por se
tratar de medida invasiva e que restringe
sobremaneira o direito fundamental à
intimidade, o ingresso em morada alheia deve
se circunscrever apenas ao estritamente
necessário para cumprir a finalidade da
diligência. É o que se extrai da exegese do art.
248 do CPP, segundo o qual, "Em casa
habitada, a busca será feita de modo que não
moleste os moradores mais do que o
indispensável para o êxito da diligência". 6. É
ilícita a prova colhida em caso de desvio de
finalidade após o ingresso em domicílio, seja no
cumprimento de mandado de prisão ou de busca
e apreensão expedido pelo Poder Judiciário,
seja na hipótese de ingresso sem prévia
autorização judicial, como ocorre em situação
de flagrante delito. O agente responsável pela
diligência deve sempre se ater aos limites do
escopo - vinculado à justa causa - para o qual
excepcionalmente se restringiu o direito
fundamental à intimidade, ressalvada a
possibilidade de encontro fortuito de provas. 7.
Na hipótese, a apreensão de diversos objetos
supostamente relacionados à prática de crimes,
tais como lavagem de dinheiro, tráfico de drogas
e associação para o narcotráfico, não decorreu
de mero encontro fortuito enquanto se
procurava pelo recorrente, mas sim de
verdadeira pescaria probatória dentro da
residência, totalmente desvinculada da
finalidade de apenas capturá-lo para fins de
cumprimento do mandado de prisão. Ademais,
conforme descrito no boletim de ocorrência,
nenhum dos bens apreendidos se encontrava
na posse do ora recorrente. A ordem judicial era,
tão somente, de prisão. De igual modo, é de se
ressaltar que o caso não revela qualquer
possibilidade de fonte independente, porquanto
não há nenhum elemento concreto capaz de
indicar que os agentes estatais pudessem vir a
localizar e apreender os referidos bens, se não
houvesse o cumprimento do mandado de prisão
no interior da residência. 8. Uma vez que não
houve prévia autorização judicial para a
realização de busca e apreensão na residência
do recorrente, deve ser reconhecida a ilicitude
das provas por tal meio obtidas e, por
conseguinte, de todos os atos delas decorrentes
(art. 157 do CPP). 9. Porque reconhecida a
ilicitude das provas obtidas em desfavor do
recorrente por meio da medida de busca e
apreensão - da qual resultou, entre outros, a
apreensão de celulares -, bem como de todas as
provas das que delas decorreram, fica
prejudicada a análise da alegação de que a
decisão de quebra do sigilo
eletrônico/telemático dos celulares apreendidos
não teria sido concreta e suficientemente
fundamentada. 10. Recurso em habeas corpus
provido, a fim de reconhecer a nulidade da
busca e apreensão de todos os bens efetuada
em setembro de 2019 durante o cumprimento de
mandado de prisão expedido em desfavor do
ora recorrente e, por conseguinte, declarar a
ilegalidade da apreensão e revogar a constrição
desses bens. Consequentemente, fica
determinado o trancamento do IP n. 2270947-
60.2019.200602, judicializado na forma do
Processo n. 1528907-91.2019.8.26.0050 em
São Paulo - SP. (STJ - RHC: 153988 SP
2021/0296876-6, Relator: Ministro ROGERIO
SCHIETTI CRUZ, Data de Julgamento:
11/04/2023, T6 - SEXTA TURMA, Data de
Publicação: DJe 19/04/2023)
A decisão acima reforça que a entrada em domicílio sem
mandado judicial, sem flagrante delito, é ilegal e compromete a validade de
quaisquer provas obtidas.
Pode se dizer que o flagrante foi premeditado, pois conforme
vídeo em anexo que circula nas redes sociais, o delegado ao adentrar na casa
da ex-companheira do paciente se quer a informou do mandado, já foi
perguntado pelo seu companheiro.
Ora, excelncia, se o mandado era direcionada a senhora Bruna,
porque o delegado pergutou pelo seu companheiro.
Como não existiam provas de qualquer crime cometido pelo
paciente, a autoridade policial forçou a senhora bruna a indicar o ederço do ex-
marido.
Não havia qualquer suspeita de crime, a polícia invadiu a casa
e após adentra-la, descobriu-se, por acaso um flagrante.
A autoridade policial tem a obrigação de trabalhar com
materialidade e autoria, e não pode trabalha ou agir no calor do momento por
mera suspeita. A suspeita é início do trabalho e não o fim.
.No caso em tela, a prisão do paciente foi realizada nessas
condições, tornando-se imperiosa a declaração de nulidade da prisão e a
revogação de qualquer medida cautelar que dela tenha decorrido.
Em suma, a ilegalidade da prisão sem mandado é evidente,
devendo ser declarada a nulidade das provas obtidas e, consequentemente, a
revogação da prisão do paciente, com sua imediata soltura.
[Link]) Ausência de Investigação Prévia
No caso presente, não houve qualquer investigação prévia que
justificasse a prisão do paciente. A medida extrema de privação de liberdade foi
decretada sem que houvesse qualquer diligência investigativa que
fundamentasse a suspeita contra o paciente. Tal procedimento fere os princípios
do devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, previstos no artigo
5º, incisos LIV e LV, da Constituição Federal.
A jurisprudência é pacífica ao afirmar que a ausência de
investigação prévia que fundamente a prisão cautelar caracteriza
constrangimento ilegal, devendo ser relaxada a prisão e trancada a ação penal.
A necessidade de justa causa é imperativa para a decretação de medidas tão
gravosas como a prisão preventiva.
Nos mesmos moldes, a seguinte decisão:
AGRAVO REGIM ENTAL EM HABEAS
CORPUS. ORDEM CONCEDIDA . TRÁFICO
DE DROGAS. PRISÃO EM FLAGRANTE.
INVASÃO DE DOMICÍLIO. PROVAS ILÍCITAS.
DENÚNCIA ANÔNIMA. AUSÊNCIA DE
INVESTIGAÇÃO PRÉVIA. FALTA DE
CONSENTIMENTO VÁLIDO DO MORADOR.
AÇÃO PENAL INSTAURADA EM RAZÃO DAS
PROVAS OBTIDAS POR ATO CONSIDERADO
ILEGAL. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
EVIDENCIADO. TRANCAMENTO DA AÇÃO
PENAL. 1 - As razões trazidas no regimental não
são suficientes para infirmar a decisão
agravada, devendo ser mantida por seus
próprios fundamentos. 2 - No caso, após
denúncia anônima de tráfico de drogas, os
policiais se dirigiram ao endereço, abordaram a
residência e foram recebidos pelo paciente, que
teria confessado fazer parte de uma
organização criminosa que controlava o tráfico
de drogas em pelo menos quatro pontos de
venda. Realizadas buscas no interior do imóvel,
foram apreendidos 3,9 kg de maconha, 445 g de
cocaína, 60 g de crack, caderno de anotações e
quantia em dinheiro. 3 - A abordagem ocorreu
em razão de denúncia anônima obtida pela
polícia militar, não tendo sido realizada qualquer
investigação prévia que convalidasse a
denúncia; havendo, assim, ilegalidade na
abordagem policial. 4 - Ademais, As regras de
experiência e o senso comum, somados às
peculiaridades do caso concreto, não conferem
verossimilhança à afirmação dos agentes
policiais de que o réu haveria autorizado, livre e
voluntariamente, o ingresso em seu domicílio,
franqueando àqueles a apreensão de objetos
ilícitos e, consequentemente, a formação de
prova incriminatória em seu desfavor. Ademais,
não se demonstrou preocupação em
documentar esse suposto consentimento (AgRg
no HC n. 834.805/RS, relator Ministro Rogerio
Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe 1/12/2023 -
grifo nosso). 5 - Agravo regimental improvido.
(STJ - AgRg no HC: 861086 MG 2023/0371635-
8, Relator: Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR,
Data de Julgamento: 06/02/2024, T6 - SEXTA
TURMA, Data de Publicação: DJe 08/02/2024)
A decisão acima evidencia que a ausência de investigação
prévia e a obtenção de provas por meios ilegais são suficientes para configurar
constrangimento ilegal, impondo-se o trancamento da ação penal. No caso em
tela, a prisão do paciente ocorreu sem qualquer investigação que a justificasse,
devendo ser reconhecida a ilegalidade da medida.
Em arremate, a ausência de investigação prévia demonstra a
falta de justa causa para a prisão preventiva, devendo ser relaxada a prisão e
trancada a ação penal.
[Link]) Inexistência de Envolvimento em Organização Criminosa
É sobremodo importante assinalar que não há provas ou indícios
suficientes que vinculem o paciente a qualquer organização criminosa. A
acusação infundada e sem base probatória idônea torna a prisão preventiva
desproporcional e arbitrária. A presunção de inocência, princípio basilar do
ordenamento jurídico pátrio, foi flagrantemente desrespeitada, visto que não há
elementos que justifiquem a manutenção da prisão cautelar.
A jurisprudência é unívoca ao afirmar que a ausência de provas
concretas de envolvimento em organização criminosa inviabiliza a decretação de
prisão preventiva. A mera suposição ou conjectura não pode embasar medida
tão gravosa, sob pena de violação dos direitos fundamentais do acusado.
Como já decidido na jurisprudência:
RECURSO DE JOÃO CARLOS FELIX TEIXEIRA . RECURSO
ESPECIAL. CORRUPÇÃO ATIVA. DENÚNCIA FUNDADA
APENAS EM COLABORAÇÃO PREMIADA. INEXISTÊNCIA DE
OUTROS ELEMENTOS DE INFORMAÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA.
RECURSO ESPECIAL PROVIDO PARA TRANCAR O
PROCESSO. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO. RECURSO ESPECIAL.
ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. REJEIÇÃO DA DENÚNCIA
PERANTE O TRIBUNAL DE ORIGEM. PRETENSÃO DE
INCLUSÃO NO ESPECIAL. DENÚNCIA FUNDADA APENAS
EM COLABORAÇÃO PREMIADA. INEXISTÊNCIA DE
OUTROS ELEMENTOS DE INFORMAÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA.
RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO. 1. A colaboração
premiada deve vir sempre corroborada por outros meios de
prova, isto é, faz-se necessário que o colaborador traga
elementos de informação e de prova capazes de confirmar suas
declarações (v.g., indicação do produto do crime, de contas
bancárias, localização do produto direto ou indireto da infração
penal, auxílio para identificação de números de telefone a serem
grampeados ou na realização de interceptação ambiental, etc.).
2. Há que se preservar, em regra, o dever imposto ao Juízo de
fazer corroborar as palavras do delator com outras provas
produzidas em juízo para fins de formação da sua convicção. Ou
seja, o que foi dito na declaração do agente colaborador não tem
força suficiente para, por si só, possibilitar nem sequer a
deflagração de ação penal, embora possa subsidiar a existência
de uma investigação preliminar. 3. No caso, observa-se que o
depoimento do colaborador haveria sido corroborado pela
também colaboração de outro indivíduo, numa espécie de
depoimentos cruzados. Vale dizer, embora as declarações
prestadas pelo réu hajam sido consonantes com as declarações
desse indivíduo, ambas se originaram de acordos de
colaboração, os quais não prescindem da indicação de
elementos de informação ou de provas para que deem
sustentabilidade mínima à acusação. 4. Da mesma forma que
ocorre com o teor de uma colaboração premiada individual, há
que se refutar a colaboração cruzada que apenas visa confirmar
outra quando, em ambas, não há substrato probatório, isto é,
quando venham destituídas de elementos de informação
mínimos que amparem a acusação. A par do conteúdo dos
depoimentos dos colaboradores, exigem-se outros elementos
extrínsecos de prova, cujo teor aponte no mesmo sentido,
ratificando, assim, seu conteúdo. 5. Na hipótese, em relação a
esses elementos de informação, há somente a referência às
colaborações (notas de rodapé 38, 39, 40), a conversas
realizadas por meio de aplicativo de telefonia, em que constava
apenas o agendamento de encontros - conforme destaca a
denúncia à fl. 28 em nota de rodapé (item 37) - e a existência de
contratos administrativos e acordos operacionais, os quais, diga-
se de passagem, não apresentam vícios formais, até porque,
segundo essas mesmas declarações, todas as supostas
operações ilícitas ocorriam com a burla desses contratos (a
propina seria calculada "por fora" na base de 20%). 6. É inviável
identificar, somente nesses aspectos, a existência de justa
causa, porquanto não foi indicada ou mesmo referenciada na
denúncia nenhuma prova ou elemento de informação que
subsidiasse as declarações feitas por colaboradores. Apontar
conversas de aplicativo que apenas indicavam a marcação de
encontros ou a existência de contratos administrativos regulares
é insuficiente como standard probatório mínimo que se exige,
além das declarações dos colaboradores, para justificar a
deflagração do processo penal. 7. Em relação ao delito de
organização criminosa não houve o devido amparo em justa
causa para a deflagração do processo penal, já que a denúncia
se lastreou, basicamente, em acordos de colaboração premiada,
sem a indicação mínima de outros elementos de informação ou
de prova que pudessem robustecer e dar alguma credibilidade
nos depoimentos prestados. 8. Esse aspecto, inclusive, foi
reconhecido pelo Tribunal de origem;curiosamente, embora a
falta de justa causa estivesse caracterizada para o delito de
organização criminosa, esta não foi a compreensão em relação
ao crime de corrupção ativa, máxime se levado em conta que
toda a narrativa feita tinha um mesmo contexto, situação
corrigida por esta Corte em recurso do acusado. 9. No caso,
portanto, não foi identificada a existência de justa causa,
porquanto não foi indicada ou mesmo referenciada na denúncia
nenhuma prova ou elemento de informação que subsidiasse os
depoimentos feitos por colaboradores. Malgrado no momento do
recebimento da denúncia o standard probatório seja menos
rigoroso, conforme dicção do Supremo Tribunal Federal, há que
haver um mínimo de substrato de elementos de informação que
subsidie a denúncia, o qual não se coaduna somente com as
declarações de colaboradores. 10. Recurso especial de João
Felix Teixeira provido para trancar o processo por falta de justa
causa. Recurso especial do Ministério Público do Rio de Janeiro
não provido. (STJ - REsp: 2109794 RJ 2022/0403129-5, Relator:
Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Data de Julgamento:
12/12/2023, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe
20/12/2023)
A decisão supracitada ilustra que a falta de elementos
probatórios concretos para vincular o acusado a uma organização criminosa
implica a ausência de justa causa para a prisão preventiva. No caso em tela, não
há qualquer prova que relacione o paciente a atividades criminosas organizadas,
devendo, portanto, ser revogada a prisão preventiva.
Por conseguinte, a inexistência de envolvimento em organização
criminosa deve levar à revogação da prisão preventiva do paciente, garantindo-
se sua liberdade.
[Link]) Revogação da Prisão Preventiva
Vale ratificar que o crime de posse ilegal de arma de fogo de uso
permitido admite a concessão de fiança, conforme previsto no artigo 310, inciso
III, do Código de Processo Penal. A manutenção da prisão preventiva, portanto,
mostra-se inadequada e desnecessária, sobretudo diante da inexistência de
outras condenações e da ausência de risco à ordem pública.
A jurisprudência reitera que a prisão preventiva deve ser a última
ratio, aplicável apenas quando não houver medidas cautelares menos gravosas
que possam garantir a ordem pública e o regular andamento processual. A
substituição da prisão por fiança ou outras medidas cautelares é medida que se
impõe, respeitando-se os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade.
Considerando o precedente:
HABEAS CORPUS. POSSE OU PORTE ILEGAL DE ARMA DE
FOGO DE USO RESTRITO. SÚMULA 691/STF. PLEITO DE
REVOGAÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA.
DESPROPORCIONALIDADE DA MEDIDA. MÁXIMA
EXCEPCIONALIDADE DA CUSTÓDIA CAUTELAR.
RECOMENDAÇÃO N. 62/2020 DO CNJ. CONSTRANGIMENTO
ILEGAL EVIDENCIADO. SUMÚLA SUPERADA. LIMINAR
CONFIRMADA. 1. No caso, a despeito das considerações
realizadas pelo Magistrado singular quando da decretação da
segregação cautelar do paciente (fls. 43/44), observo que a
substituição de prisão preventiva por medidas alternativas
mostra-se mais adequada às condições pessoais do acusado e
à situação narrada, pois além de o paciente ser primário, o crime
a ele atribuído não foi cometido com violência ou grave ameaça
à pessoa. 2. Com o advento da Lei n. 12.403/2011, a custódia
cautelar passou a ser, mais ainda, a mais excepcional das
medidas, devendo ser aplicada somente quando comprovada a
inequívoca necessidade. A autoridade judicial há sempre de
verificar se existem medidas alternativas à prisão, adequadas ao
caso concreto, ainda mais no contexto atual de pandemia e
considerando que o Conselho Nacional de Justiça, na
Recomendação n. 62/2020, salientou a necessidade de
utilização da prisão preventiva com máxima excepcionalidade.
3. Writ não conhecido. Ordem concedida de ofício, para,
confirmando-se a liminar, substituir a prisão preventiva imposta
ao paciente pelas medidas alternativas à prisão previstas no art.
319, I, II, III, IV e V, do Código de Processo Penal, a serem
implementadas e fiscalizadas pelo Magistrado singular, salvo
prisão por outro motivo, podendo o Juízo de primeiro grau
decretar novamente a segregação cautelar ou aplicar outras
medidas alternativas, desde que fundamentadamente. (STJ -
HC: 614789 RJ 2020/0247453-8, Relator: Ministro SEBASTIÃO
REIS JÚNIOR, Data de Julgamento: 04/05/2021, T6 - SEXTA
TURMA, Data de Publicação: DJe 10/05/2021)
A decisão acima reafirma a possibilidade de revogação da prisão
preventiva quando a concessão de medidas cautelares menos gravosas se
mostra suficiente para garantir a ordem pública. No caso em tela, a prisão do
paciente é desproporcional, devendo ser substituída por fiança ou outras
medidas previstas no artigo 319 do Código de Processo Penal.
Em síntese, a revogação da prisão preventiva é medida que se
impõe, devendo ser concedida liberdade ao paciente mediante fiança ou
aplicação de medidas cautelares diversas.
II.V) Prova Obtida por Meio Ilícito
Mister se faz ressaltar que as provas que embasaram a prisão
foram obtidas por meio ilícito, uma vez que a entrada na residência do paciente
ocorreu sem o devido mandado judicial. Tal circunstância afronta o artigo 5º,
inciso LVI, da Constituição Federal, que veda a admissibilidade de provas
obtidas por meios ilícitos, comprometendo a validade da prisão e de todos os
atos dela decorrentes.
A jurisprudência é categórica ao declarar que provas obtidas por
meios ilícitos são inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo. A
teoria dos frutos da árvore envenenada estabelece que uma prova ilícita
contamina todas as provas dela derivadas, acarretando a nulidade do processo.
Nos termos da seguinte decisão:
RECURSO EM HABEAS CORPUS. PORTE
ILEGAL DE ARMA DE FOGO DE USO
PERMITIDO. PROVA ILÍCITA. BUSCA
PESSOAL. INEXISTÊNCIA DE FUNDADAS
RAZÕES. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
EVIDENCIADO. HABEAS CORPUS
CONCEDIDO. 1. Nos termos do art. 240, § 2º,
do Código de Processo Penal, para a realização
de busca pessoal pela autoridade policial, é
necessária a presença de fundada suspeita no
sentido de que a pessoa abordada esteja na
posse de drogas, objetos ou papéis que
constituam corpo de delito. 2. A mera referência
a "atitude suspeita" do acusado, além de
corroborar apenas estereótipos, presunções e
impressões subjetivas, não constitui fundadas
razões para a realização de busca pessoal, sem
a devida apuração. 3. Sem a indicação de dado
concreto sobre a existência de justa causa para
autorizar a medida, deve ser reconhecida a
ilegalidade por ilicitude da prova, com o
trancamento da ação penal. 4. Recurso em
habeas corpus provido para determinar o
trancamento da Ação Penal n. 0810309-
95.2022.8.15.2002. (STJ - RHC: 185767 PB
2023/0293674-1, Relator: Ministro JESUÍNO
RISSATO DESEMBARGADOR CONVOCADO
DO TJDFT, Data de Julgamento: 28/11/2023, T6
- SEXTA TURMA, Data de Publicação: DJe
26/12/2023)
O fundamento jurídico da decisão acima é claro ao afirmar que
a obtenção de provas por meios ilícitos compromete a validade do processo,
impondo-se a absolvição do acusado. No caso em tela, as provas contra o
paciente foram obtidas sem mandado judicial, devendo ser declaradas nulas e
desentranhadas dos autos.
Por tudo isso, a prova obtida por meio ilícito deve ser
desconsiderada, resultando na absolvição do paciente e no trancamento da ação
penal.
Como dito o sistema penal brasileiro é o acusatório e não o
inquisitivo. A autoridade policial se considerou investigativa, denunciante e
julgadora ao prender o paciente sem fundamento probatório e legal.
[Link]) Aplicação de Medidas Cautelares Diversas da Prisão
Insta, ainda, observar que, em caso de manutenção da
necessidade de acompanhamento do paciente, devem ser consideradas
medidas cautelares diversas da prisão, conforme o artigo 319 do Código de
Processo Penal. Tais medidas são menos gravosas e suficientes para garantir o
regular andamento processual, preservando-se, assim, os direitos fundamentais
do paciente.
A jurisprudência tem reiteradamente decidido que as medidas
cautelares previstas no artigo 319 do CPP são adequadas e suficientes para
assegurar o cumprimento das obrigações processuais, sem a necessidade de
encarceramento. A aplicação dessas medidas respeita o princípio da
proporcionalidade e evita a superlotação carcerária.
À luz da jurisprudência:
AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO EM
HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL.
MEDIDAS CAUTELARES ALTERNATIVAS.
ART. 319 DO CPP. PROIBIÇÃO DE
AUSENTAR-SE DO PAÍS E RETENÇÃO DE
PASSAPORTE. DECURSO DE MAIS DE 3
ANOS. EXCESSO DE PRAZO.
CONSTRANGIMENTO ILEGAL
EVIDENCIADO. AGRAVO REGIMENTAL
PROVIDO. 1. As medidas cautelares previstas
no art. 319 e 320 do CPP estão sujeitas à
demonstração dos requisitos de adequação e
necessidade (art. 282, I e II, do CPP),
caracterizados pelo fumus commissi delicti
(provas de materialidade e indícios suficientes
de autoria) e periculum libertatis (perigo de
liberdade). 2. Embora menos gravosas se
comparadas à prisão preventiva e de não terem
prazo determinado em lei, as cautelares
previstas no art. 319 do CPP também se
orientam pelo princípio da provisoriedade e
devem perdurar por prazo razoável, enquanto
necessárias e adequadas às circunstâncias
concretas. 3. Embora a aferição do excesso de
prazo não dependa de mero cálculo aritmético,
à luz dos princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade, insculpidos no art. 5º,
LXXVIII, da Constituição Federal, é inadmissível
a subsistência de medida restritiva de liberdade
individual por mais de três anos. 4. Agravo
regimental provido. (STJ - AgRg no RHC:
143759 PR 2021/0069815-0, Relator: Ministro
JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR
CONVOCADO DO TJDFT), Data de
Julgamento: 13/12/2021, T5 - QUINTA TURMA,
Data de Publicação: DJe 14/02/2022)
A decisão supracitada demonstra que as medidas cautelares
diversas da prisão são suficientes para garantir o cumprimento das obrigações
processuais, sem a necessidade de encarceramento. No caso em tela, a
aplicação dessas medidas é adequada e necessária, assegurando o respeito
aos direitos do paciente.
Por derradeiro, a aplicação de medidas cautelares diversas da
prisão é medida que se impõe, garantindo o cumprimento das obrigações
processuais sem a necessidade de prisão.
III) DOS PEDIDOS E REQUERIMENTOS
Diante do exposto, requer-se a Vossa Excelência:
1. A concessão da ordem de Habeas Corpus Criminal para determinar a
imediata soltura do paciente, em razão da ilegalidade da prisão sem
mandado, da ausência de investigação prévia e da inexistência de
envolvimento em organização criminosa.
2. O reconhecimento da nulidade das provas obtidas por meio ilícito,
determinando-se o desentranhamento dos autos.
3. A substituição da prisão preventiva por medidas cautelares diversas,
conforme o artigo 319 do Código de Processo Penal, caso Vossa
Excelência entenda pela necessidade de acompanhamento do paciente.
4. A intimação do Ministério Público para que se manifeste no prazo legal.
5. A condenação da parte requerida ao pagamento das custas processuais,
se aplicável.
Atribui-se à causa o valor de R$ 1518,00 (mil quinhentos e
dezoito reais)
Teresina -PI, 17 de julho de 2025
ALEXANDRE MAGNO DE ROSA LMEIDA NUNES
OAB nº 11.638/PI
LUCAS MOREIRA ARAUJO MADEIRA CAMPOS
OAB nº 9588/PI