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Imaginário e Memória em Idosos Asilados

O artigo investiga a estrutura mítico-simbólica nas narrativas de idosos asilados em Tubarão, SC, utilizando uma análise cultural e a teoria do imaginário. A pesquisa busca compreender como esses idosos percebem sua vida no asilo, suas memórias e sentimentos, destacando a imagem como reflexo de um desejo de retorno ao passado. O estudo revela a complexidade das experiências de solidão e a importância de simbolizações na construção de suas identidades.

Enviado por

Gladys Rios
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Imaginário e Memória em Idosos Asilados

O artigo investiga a estrutura mítico-simbólica nas narrativas de idosos asilados em Tubarão, SC, utilizando uma análise cultural e a teoria do imaginário. A pesquisa busca compreender como esses idosos percebem sua vida no asilo, suas memórias e sentimentos, destacando a imagem como reflexo de um desejo de retorno ao passado. O estudo revela a complexidade das experiências de solidão e a importância de simbolizações na construção de suas identidades.

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Centro Unversitário Santo Agostinho

[Link]/revista
Rev. FSA, Teresina, v. 17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun. 2020
ISSN Impresso: 1806-6356 ISSN Eletrônico: 2317-2983
[Link]

A Imagem como Sombra do Desejo: Estrutura Mítico-Simbólica em Idosos Asilados

Image as a Shadow of Desire: Mythic-Symbolic Structure in Nursing Home Residents

Heloisa Juncklaus Preis Moraes


Doutora em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Professora da Universidade do Sul de Santa Catarina
E-mail: heloisapreis@[Link]
Luiza Liene Bressan
Mestre em Ciências da Linguagem pela Universidade do Sul de Santa Catarina
Professora do Centro Universitário Barriga Verde
E-mail: luizalienebressan@[Link]
Ana Caroline Voltolini Fernandes
Mestre em Ciências da Linguagem pela Universidade do Sul de Santa Catarina
E-mail: [Link]@[Link]

Endereço: Heloisa Juncklaus Preis Moraes


UNISUL - PPGCL – Av. José Acácio Moreira, 787, CEP: Editor-Chefe: Dr. Tonny Kerley de Alencar
88.704-900, Tubarão-SC, Brasil. Rodrigues
Endereço: Luiza Liene Bressan
UNISUL - PPGCL – Av. José Acácio Moreira, 787, CEP: Artigo recebido em 13/04/2020. Última versão recebida
88.704-900, Tubarão-SC, Brasil. em 27/04/2020. Aprovado em 28/04/2020.
Endereço: Ana Caroline Voltolini Fernandes
UNISUL - PPGCL – Av. José Acácio Moreira, 787, CEP: Avaliado pelo sistema Triple Review: a) Desk Review
88.704-900, Tubarão-SC, Brasil. pelo Editor-Chefe; e b) Double Blind Review (avaliação
cega por dois avaliadores da área).

Revisão: Gramatical, Normativa e de Formatação


A Política Externa Brasileira nos Anos 30: Nazismo, Nacionalismo e o Jogo Internacional 57

RESUMO

Apresentamos uma inquietação que perpassa estes três pilares: identificação de uma estrutura
mítico-simbólica em idosos asilados, a partir de uma culturanálise de grupos inspirada no AT-
9 pela utilização de iscas semânticas. Percebemos que a teoria do imaginário nos permite
transitar por imagens-símbolos que estruturam o cotidiano e, aqui, identificar as paisagens nas
quais se sustentam as narrativas de idosos asilados na cidade de Tubarão, estado de Santa
Catarina, Brasil. A imagem é a sombra de um desejo: o retorno ao passado, lugar de
enfrentamento e aconchego, cheio de potência de vida. Partimos do pressuposto das estruturas
antropológicas do imaginário (DURAND, 2012), de que há rubricas semânticas diretoras que
constituem uma grade de leitura para a referenciação simbólica das produções imaginárias.

Palavras-chave: Imaginário. Idosos Asilados. História de Vidas. Estrutura Mítico-Simbólica.

ABSTRACT

We present a concern that permeates these three pillars: identification of a mythic-symbolic


structure in the elderly asylum from a group-based group analysis inspired by the AT-9 through
the use of semantic baits. We realize that the theory of the imaginary allows us to navigate
through images-symbols that structure the daily life and, here, to identify the landscapes in
which the narratives of the elderly in the city of Tubarão, state of Santa Catarina, Brazil, are
sustained. The image is the shadow of a desire: the return to the past, place of confrontation and
coziness, full of life power. We start from the assumption of the anthropological structures of
the imaginary (DURAND, 2012) that there are directional semantic rubrics that constitute a
reading grid for the symbolic reference of imaginary productions.

Keywords: Imaginary. Senior Citizens. History of Lives. Mythical-Symbolic Structure.

Rev. FSA, Teresina PI, v. 17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun. 2020 [Link]/revista
H. J. P. Moraes, L. L. Bressan, A. C. V. Fernandes 58

1 INTRODUÇÃO

Este artigo faz uma discussão sobre o imaginário1, a memória e as relações de afeto, tendo como
corpus de investigação idosos asilados2 da cidade de Tubarão, Santa Catarina, através de uma
ação de pesquisa por escuta. Buscamos identificar representações imagético-simbólicas que
emergem de universos estruturantes do grupo escutado e que demonstram as maneiras de
pensar, ser e sentir. Assim, temos como objetivo identificar o suporte imagético, desvendando,
através das narrativas dos idosos às pesquisadoras, as imagens que lhes são pregnantes.
Partimos do pressuposto das estruturas antropológicas do imaginário (DURAND, 2012),
de que há rubricas semânticas diretoras que constituem uma grade de leitura para a
referenciação simbólica das produções imaginárias. Assim, queríamos saber como os idosos
asilados constituem sua percepção em relação à convivência no Asilo que têm por moradia,
bem como suas simbolizações sobre vida e morte, passado, presente e futuro e, ainda, sobre a
expressão de sentimentos como afeto, solidão e medo.
“Viver muito, ou mais, não é o mais importante, o que interessa é viver bem!”
(LOUREIRO, 2000, p. 38). Estar velho é um privilégio, apesar dos grandes desafios do
envelhecimento. Este continuum que começa a acontecer desde a concepção e vai se estendendo
no correr do tempo é um processo de tomada de consciência “ou a aceitação do ingresso na
etapa de vida considerada como velhice não é algo natural e espontâneo, a pessoa custa a se
aceitar como idosa” (LOUREIRO, 2000, p. 21). Se a aceitação da velhice já se constitui um
grande desafio, mais complexo ainda é estar asilado, longe do convívio familiar, afastado dos
tempos e lugares registrados na memória. Como lançar âncoras que se prendam aos afetos já
vividos? Pensamos sobre qual imaginário podemos falar de um grupo de idosos asilados que se
encontra longe da sua família, distante dos seus amores, tendo cortados os vínculos que os
ligava para fora da situação asilar e que têm a sua liberdade minimizada pelas regras do asilo
(LOUREIRO, 2009).
Estamos rodeados de símbolos que se (re)significam constantemente, pois nos ensina
Durand (2012) que o imaginário se apresenta como um dinamismo organizador e este é fator
de certa homogeneidade na representação, que se torna o fundamento de toda a vida psíquica.
As trocas pulsionais e as intimações do meio, formadoras do trajeto antropológico se movem

1
Nossas pesquisas na perspectiva do Imaginário e Cotidiano iniciaram-se em 2016 e seus resultados parciais
podem ser observados em MORAES e BRESSAN (2016a; 2016b; 2017; 2018a; 2018b) entre outros (vide
[Link]/imaginario)
2
Idosos que moram no Abrigo dos Velhinhos da cidade em tempo integral.

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A Política Externa Brasileira nos Anos 30: Nazismo, Nacionalismo e o Jogo Internacional 59

nestas duas polaridades que, antes de serem opostas, são complementares e dialogam com as
memórias as quais pretendemos mobilizar e discutir na escuta das histórias de vidas do grupo
de asilados.
Como técnica de investigação, utilizamos a entrevista semiestruturada com oito idosos,
sendo que o roteiro foi baseado no teste arquetípico AT-9, proposto por Y. Durand (citado por
PAULA CARVALHO, s/d), cujas iscas semânticas, como veremos adiante, serviram de
estímulos para deflagrar o processo de imaginação e busca de raízes comuns na função
imaginativa, já que “o imaginário constitui o conector obrigatório pelo qual se forma qualquer
representação humana” (DURAND, 2001, p. 41).

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 Velhice institucionalizada: os devaneios do passado e a permanência da espera

Envelhecer é um fenômeno que está relacionado à vida de todos os seres vivos e, na


espécie humana, atrelado às suas condições de vida, de trabalho, de lazer, de convivência
familiar. São muitos os fatores que estão relacionados à velhice e à forma como lidamos com
esse tempo. A Organização Mundial de Saúde – OMS, por exemplo, considera 65 anos o limite
inicial dessa fase; já a Organização das Nações Unidas - ONU considera os 60 anos o marco
dessa tênue fronteira. Mas a terceira idade seria mesmo demarcada apenas por números? A
idade cronológica é um marco suficiente para determinar a chegada do envelhecimento?
Papaléo Netto (2002, p.10) tece alguns argumentos sobre esse assunto:

O envelhecimento (processo), a velhice (fase da vida) e o velho ou idoso (resultado


final) constituem um conjunto cujos componentes estão intimamente relacionados.
[...] o envelhecimento é conceituado como um processo dinâmico e progressivo, no
qual há modificações morfológicas, funcionais, bioquímicas e psicológicas que
determinam perda da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente,
ocasionando maior vulnerabilidade e maior incidência de processos patológicos que
terminam por levá-lo à morte. [...] Às manifestações somáticas da velhice, que é a
última fase do ciclo da vida, as quais são caracterizadas por redução da capacidade
funcional, calvície e redução da capacidade de trabalho e da resistência, entre outras,
associam-se à perda dos papéis sociais, solidão e perdas psicológicas, motoras e
afetivas.

O autor citado (PAPALÉO NETO, 2002) traz uma definição bastante ampla,
envolvendo desde aspectos físicos, sociais e emocionais. Por este viés, prevalece a visão do
envelhecimento no seu aspecto biológico e suas consequências no âmbito individual/pessoal.
Estudos apontam que o envelhecimento populacional é hoje uma realidade mundial. No Brasil,

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H. J. P. Moraes, L. L. Bressan, A. C. V. Fernandes 60

estima-se que haverá 25 milhões de idosos em 2020. Segundo as projeções estatísticas da


Organização Mundial de Saúde (1985), entre 1950 e 2025, a população de idosos no Brasil será
a sétima maior do mundo, com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais.
Viver mais significa maior planejamento de estratégias de integração entre idoso,
família e/ou, instituição e profissionais especializados. Carvalho Filho (2007, p. 105) afirma
que o processo de envelhecimento “pode ser conceituado como um processo dinâmico e
progressivo, no qual há alterações morfológicas, funcionais e bioquímicas que vão alternando
progressivamente o organismo, tornando-o mais suscetível às agressões intrínsecas e
extrínsecas”.
O envelhecimento normalmente se associa a sentimentos destrutivos, sensação de
inutilidade, agravando conflitos internos no idoso. Esses conflitos estão relacionados às
mudanças físicas, mas também psicológicas e sociais. Há dificuldades de compreensão e
adaptação a novos papéis, falta de planejamento do futuro, afetividade mal resolvida, perdas. O
idoso necessita de espaços de (re) aprendizagem que lhe permita uma existência saudável.
Segundo Néri (2001, p. 60) “trata-se de preparar e de oferecer meios à pessoa para que possa
envelhecer bem, cuidando não apenas do aspecto físico, social e econômico, mas também das
questões de vida interior”.
Outro aspecto a ser considerado é a questão da morte na velhice. Torres corrobora com
nossa discussão ao afirmar que:

Em relação à velhice, ela se apodera de nós de surpresa e através da velhice do outro.


Assim, devemos assumir uma realidade que é inegavelmente nossa, embora só nos
atinja de fora e permaneça para nós como inatingível. […] Portanto, a morte com o
outro, não comigo. Minha mortalidade não é objeto de minha experiência interna. Não
a ignoro, levo-a em conta na prática, mas não a sinto (TORRES, 1996, p. 65).

Assim, a percepção de nossa própria velhice se dá a partir do outro. É pelo outro que
não a ignoramos por completo, mas não a assumimos em plenitude. A condição de estar “velho”
é uma das faces tenebrosas do tempo, motivadora de muitas de nossas atitudes imaginativas,
como veremos.
Umas das grandes queixas na velhice é a solidão, sentimento de extrema complexidade
e angustiante que produz uma sensação de mal-estar permanente. A pessoa que se sente só,
mesmo que rodeada por outras pessoas, tem a constante impressão que lhe falta suporte,
principalmente o afeto, o acolhimento.
Estudiosos como Perplau et al (apud FREITAS, 2011) procuraram definir a solidão,
apontando três aspectos a ela relacionados: a solidão é uma experiência subjetiva que pode não

Rev. FSA, Teresina, v. 17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun. 2020 [Link]/revista


A Política Externa Brasileira nos Anos 30: Nazismo, Nacionalismo e o Jogo Internacional 61

estar relacionada com o isolamento objetivo; esta experiência subjetiva é psicologicamente


desagradável para o indivíduo; a solidão resulta de alguma forma de relacionamento deficiente.
Essas percepções sobre a solidão nem sempre são compreendidas. Os mais jovens pensam que
a solidão é um sentimento próprio da terceira idade e que o envelhecimento traz consigo o
isolamento e a solidão. Outro estudioso, Pinhel (2011), define a solidão como um sentimento
de angústia, abandono, isolamento; é uma palavra de um significado tão amplo que se torna
difícil a sua definição face à extrema complexidade.
Também complexo é compreender como se sente um idoso que vive em abrigos
coletivos, locais em que a solidão está permeada de tantas outras solidões, de tantos outros
sentimentos de isolamento e de abandono. Nesse sentido, experienciar a solidão pode ocorrer
pela perda de alguém que se ama, por um sentimento de exclusão ou pela falta de laços sociais.
A solidão pode levar o idoso a um estágio mais profundo, o isolamento. Maia (2002, p.216) diz
que “o vulgar de isolamento remete para afastamento”. Este pode ser físico, quando se trata de
um afastamento, ou psicológico, quando o estado psíquico faz sentir-se moralmente só ou
perdido (MAIA, 2002).
Tanto o isolamento físico quanto o isolamento psicológico produzem a sensação de mal-
estar, de viver se sentindo inútil, desvalorizado, em um primeiro plano por si mesmo e depois
pela família e pela sociedade, cuja forma de perceber a velhice não é acolhedora, nem gentil e
terna.
No entanto, há outros aspectos que devem ser considerados no envelhecer e que podem
minimizar os impactos da solidão e do isolamento. O bom desenvolvimento da afetividade e a
integração do idoso na sociedade são fundamentais, de acordo com Paschoal (2007), para que
o idoso tenha autonomia e o máximo de independência. Cabe dizer, ainda que brevemente, que
os espaços de Asilos, segundo Vieira (1996), são instituições que tutelam um indivíduo,
retirando-o do meio social em que vive, para colocá-lo sob representação social da instituição.
Apesar do estabelecimento do instituto de tutela que têm os asilos, Oliveira e Fortes (1999)
destacam a importância do contato dos asilados com a comunidade, evitando o isolamento
destes numa realidade fechada. Há inúmeras causas para a inserção de idosos em Abrigos, que
vão desde a exigência de cuidadores especiais, abandono ou rejeição familiar, ausência de
recursos financeiros, inexistência de parentes de primeiro grau, entre outros (PAPALÉO
NETTO, 1996, p. 406).

Rev. FSA, Teresina PI, v. 17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun. 2020 [Link]/revista
H. J. P. Moraes, L. L. Bressan, A. C. V. Fernandes 62

A escuta sensível3 de suas histórias de vida, de suas percepções do passado e do


presente, como a que nos propusemos a fazer, precisa ser valorada de forma terna e acolhedora,
pois muitas vezes os idosos encontram-se em momento de fragilidade física e emocional.
Afirmamos isso levando em consideração os estudos de Terra (2007, p. 22) que enfatizam que
o abrigo “trata-se de um espaço ressignificado, no mais das vezes negativamente, onde a doença
e a insanidade mental se confundem com a solidão e a tristeza pela ausência do convívio com
os que lhes foram”. Para a pesquisadora, estar nestes tipos de ambientes é uma permanência
sem fim ou de expectativa de morte, chegando mesmo a desejá-la, como vimos também com
nossos entrevistados. Elias, em A solidão dos moribundos (2001), sugere que isolar idosos do
convívio social seria livrar-se do “vírus da morte”, já que os mesmos são identificados
socialmente com a mesma.
A mudança para o asilo é muito maior do que de ambiente físico: perde-se referência,
seu lugar no mundo e as construções materiais e físicas que marcaram uma vida. É uma
condição institucionalizada (TERRA, 2007, p. 30), deixando de ter um caráter de
privacidade/intimidade para ter/ser institucional. Falamos em rompimento com laços de seu
contexto. A autora se utiliza do conceito de morte civil cunhado por Goffmann: apesar de se
estar vivo, perde-se o direito à cidadania. Há uma restrição de convivência, de experiências, de
paisagens. Com “o surgimento dos asilos, a velhice ganha um lugar, mas perde simbolicamente
o seu lugar na vida. A localização da velhice no asilo não parece ser apenas geográfica, mas
representativa” (GROISMAN apud TERRA, 2007, p. 29).
Esta também é a realidade do grupo de idosos que participou de nossa pesquisa e, por
isso, compreendemos, nesse estudo, que a escuta afetiva ajuda o idoso a manifestar o sentimento
de abandono. A atividade possibilita ao idoso elevar a sua autoimagem e autoestima,
estabelecendo uma troca permanente de afeto, carinho, ideias, sentimentos, conhecimentos,
proporcionando-lhe a oportunidade de sentir-se útil, integrado e participativo. É por esta
ambiência que nos motivamos a pesquisar o suporte imagético destes sujeitos em determinado
ambiente, partindo da premissa de que o imaginário tem força organizadora, a partir de uma
estruturação identificada nas narrativas e estimuladas por meio das iscas semânticas.

3
Chamamos a nossa escuta de sensível por se fazer de maneira acolhedora, respeitando o tempo, as falhas de
memória, as emoções advindas da conversa com os idosos. Tal como Silva (2018) nos direciona, enquanto
pesquisadores de imaginários, na busca dos sentidos que parecem aninharem-se em semelhanças, percorremos um
caminho das sensações. São essas sensibilidades que procuramos (des)cobrir em nossa análise.

Rev. FSA, Teresina, v. 17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun. 2020 [Link]/revista


A Política Externa Brasileira nos Anos 30: Nazismo, Nacionalismo e o Jogo Internacional 63

2.2 Imagens-símbolos que estruturam o cotidiano

Nossa base conceitual para as discussões é a antropologia do imaginário, proposta por


G. Durand (2012) que nos coloca frente a um regularizador de comportamentos, especialmente
por se colocarem como “estruturas de sensibilidade, pois são motivadoras tanto pelo aspecto
racional, conceitual das imagens quanto por sua dimensão sensível, poética, afetual”
(FERREIRA-SANTOS; ALMEIDA, 2012, p. 19). Thomas (1998, p.15 apud GODINHO, 2003,
p.141) esclarece que “o imaginário não é assim uma coleção de imagens adicionadas, um
corpus, mas uma rede onde o sentido está na relação”.
O imaginário, como teoria antropológica, discute várias questões que expressam a
trajetória humana, especialmente aquelas ligadas aos modos pelos quais o homem lida com o
medo da morte e a angústia do passar do tempo. São os chamados semblantes do tempo, matriz
de toda atitude imaginativa. Assim, é pelo imaginário que se estrutura e orienta a vida,
individual ou em grupo, lutando ou convivendo com este medo, eufemizando-o. O imaginário
é arma que dispomos, consciente ou não, de nos posicionarmos frente à angústia existencial.
Figura-se como um conjunto relacional de imagens com potência organizadora de ações,
pensamentos, memórias, visões de mundo, sentimentos. Trata-se de equilibração antropológica,
como expressa Paula de Carvalho (sd, mimeo) por meio do jogo das funções da imaginação
simbólica.
Crítico às categorizações existentes, baseadas em conhecimentos exteriores às imagens,
Durand (2012) procurou estabelecer relações entre as imagens por uma classificação não
reducionista. Para o autor (2012), devem-se abordar as imagens, identificando-as a partir dos
significados que se constroem no âmago da própria imagem, que se presentificam em culturas
de locais diversos e temporalidades. Estas imagens estão em movimento entre as estruturas do
imaginário, quer pelo enfrentamento ou pelo aconchego. Assim, a compreensão das imagens
(pela sua força simbólica e não pela sua forma) está ancorada em três estruturas: heroica (tema
de combate), mística (atmosfera de repouso) e sintética (combate e repouso organizados
diacrônica ou sincronicamente), e são capazes de nos auxiliar na interpretação simbólica em
dada cultura (MORAES, 2016).
As estruturas são aportadas em dois regimes de imagem: Diurno (estrutura heroica) e
Noturno (estruturas mística e sintética). Em cada um destes regimes, o estudioso percebe duas
intenções na base da organização do universo, criando polaridades opostas como um jogo de
forças entre o bem e o mal, o alto e o baixo, a esquerda e a direita, etc... a outra intenção seria
a união destas polaridades opostas que se complementam e se harmonizam. Das polaridades

Rev. FSA, Teresina PI, v. 17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun. 2020 [Link]/revista
H. J. P. Moraes, L. L. Bressan, A. C. V. Fernandes 64

opostas, surgiria o que Durand nomeou como regime diurno das imagens, sinalizadas pela luz
que permitem as distinções pelo debate. Na segunda polaridade, está o regime noturno cuja
noite é sua maior representação e que unifica e concilia os opostos, tal como já apresentado e
discutido em Moraes e Bressan (2016b; 2017).
Assim, Durand (2012, p. 67) destaca que “semanticamente falando, pode-se dizer que
não há luz sem trevas enquanto o inverso não é verdadeiro; a noite tem uma existência simbólica
autônoma. O Regime diurno da imagem define-se, portanto, de maneira geral, como regime da
antítese”. Logo, os símbolos relacionados ao regime diurno, conforme a significação
predominante, remetem mais a ideias de ascensão, heroísmo, poder, iluminação, razão. O RD
caracteriza-se por ações de separar e pelas atitudes bélicas de heróis violentos. O pesquisador
afirma que “todo o sentido do Regime Diurno do imaginário é pensamento ‘contra’ as trevas; é
pensamento contra o semantismo das trevas, da animalidade ou da queda, ou seja, contra
Cronos, o tempo mortal” (DURAND, 2012. p. 188).
Morte e sofrimento existencial produzem imagens relacionadas ao tempo e sua
fugacidade, mas é no Regime Diurno (RD) que estão presentes o simbolismo das trevas e os
simbolismos da queda. Também englobam os símbolos ascensionais, espetaculares, dieréticos
que expressam estruturas esquizomorfas heroicas do imaginário individual e coletivo.
No Regime Noturno (RN), que expressam as dominantes digestivas e copulativas, as
imagens se formam a partir da ideia de acomodação, de aconchego, buscando conciliar as lutas
e a necessidade de acolhimento, pois a imaginação consola o homem da fugacidade do tempo
(DURAND, 2012).
Com esta estruturação, Durand propõe que há certa convergência, isomorfismo e
totalidade das imagens expressas pelo ser humano. “Das primeiras representações, passando
pelas antigas mitologias às narrativas contemporâneas, podemos encontrar matrizes: arquétipos
e símbolos que são mobilizados pelos mitos” (MORAES; BRESSAN, 2017, p.140). Há,
portanto, um processo de trocas entre o que é próprio da espécie humana, da sua subjetividade
e do meio em que vive: é o que chamamos de trajeto antropológico. Nas próprias palavras de
Durand (2012, p. 41), “a incessante troca que existe ao nível do imaginário entre as pulsões
subjetivas e assimiladoras e as intimações objetivas que emanam do meio cósmico e social”.
Esta é uma noção chave para a nossa análise, uma vez que percebemos que as pressões do meio
sociocultural ficam muito restritas em ambiente asilar, não havendo estímulos de atualização e,
portanto, uma referência simbólica unânime, recorrente e pregnante ao passado, como veremos
adiante.

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A Política Externa Brasileira nos Anos 30: Nazismo, Nacionalismo e o Jogo Internacional 65

Nesse sentido, a teoria do imaginário e o conceito de trajeto antropológico auxiliam a


pensar o envelhecimento dos idosos que vivem em asilos, via potência do devaneio poético, a
partir da metáfora utilizada por Érico Veríssimo, quando uma personagem do clássico romance
Olhai os Lírios do Campo assim se pronuncia:

[...] a vida é como uma travessia transatlântica [...] os passageiros são das mais várias
espécies. Uns passam a viagem a se preocupar para o desembarque no porto do seu
destino, outros não têm nenhuma esperança no porto de chegada e procuram passar
da melhor maneira possível a travessia (VERÍSSIMO, 1973, p. 96/97).

A travessia segue, cheia de simbolismos.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 Soluções (sempre) simbólicas: resultados e discussões da culturanálise de grupo com


as iscas semânticas

Então, compreendendo a vida como essa travessia, elaboramos nosso percurso


metodológico a partir da escuta sensível de oito entrevistados que vivem no abrigo asilar em
Tubarão, Santa Catarina, a fim de conhecer o universo mítico-simbólico, ou seja, a estrutura do
seu imaginário. Selecionamos aqueles que estavam há mais tempo no Asilo.
O AT-9 foi um instrumento experimental criado por Yves Durand destinado a testar a
existência das estruturas antropológicas, de Gilbert Durand, como raízes comuns a todos os
homens na função da imaginação. Nas palavras de Paula de Carvalho (s/d, p.2), “essas
constantes da imaginação simbólica que são os arquétipos, refratados sócio-culturalmente em
imagens simbólicas integrando as grandes configurações de suas presentificações, que são os
mitos e os universos míticos”. Consideramos que estas constantes formam “protocolos
imagético-simbólicos de soluções e vetores configurando um comportamento e uma ação
através das estruturas identificadas e de suas matrizes transformacionais” e que foram, como
técnica de pesquisa, identificadas de modo esquemático através do desenho, do relato e do
questionário. Tem-se aí uma sondagem de como o indivíduo ou grupo lida com a angústia
original, tal como um “capital simbólico de presentificação de vivências simbólicas (...) e as
soluções, sempre simbólicas” (PAULA DE CARVALHO, s/d, p. 2) para a experiência das
vivências.

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Assim, a utilização de iscas semânticas que servem de estímulos para deflagrar o


processo de imaginação tem caráter funcional e semântico: queda e monstro ligam-se à
situação existencial; o refúgio simboliza proteção e aconchego; o elemento cíclico, arquétipos
sintéticos, ligados à análise; a espada, resposta heroica diante da angústia existencial e da
morte, usada contra o Monstro; e a personagem. Os complementos à personagem, água, fogo
e animal, ajudariam a projetar o sujeito, fazer face aos semblantes.
Dado o ambiente e as condições cognitivo-emocionais dos idosos sujeitos da pesquisa,
optamos por uma culturanálise qualitativa, conscientes da incidência do ambiente sobre a
realização de suas produções imaginárias, através de uma escuta sensível e tendo as iscas
semânticas como estímulos de narração. Assim, a partir das falas e suas imagens, buscamos
identificar o suporte imagético como força organizadora do imaginário e do cotidiano do grupo
de asilados. Parece-nos que o arquetípico passa a ser não a imagem em si, mas a maneira como
é combinada, em que o ambiente forja a estruturação das representações imagético-simbólicas
e demonstram a maneira de pensar, ser e sentir.
Os dados foram coletados a partir de entrevista semiestruturada, inspirada nas iscas
semânticas do teste AT-9 proposto por Yves Durand (citado por PAULA DE CARVALHO,
s/d), embora não seguindo as etapas de seu teste projetivo. A partir das narrativas, fruto da
escuta individualizada, montamos um quadro para melhor visualização das iscas semânticas e
os sentidos evocados. Os oito idosos ouvidos foram quatro mulheres e quatro homens, com
idades entre 70 a 94 anos, que vivem em ambiente asilar.
Os elementos estavam arrolados nas questões da entrevista semiestruturada e o quadro,
montado a partir das respostas dadas pelos entrevistados.

Quadro 1- As iscas semânticas e os sentidos atribuídos


Elementos Representado por Função Simbolizando
Relacionamentos ruins com
família, no trabalho e, As dificuldades impostas pela
Queda Viver
especialmente, o momento vida
presente
A sobrevivência foi defendida
Espada Instrumentos de trabalho Lutar
pelos instrumentos de trabalho
Refúgio A casa Proteger Acolhida, amor, segurança
Monstro A solidão Conviver A família, os amigos
Cíclico A vida antes do abrigo Lembrar Saudade, alegrias vividas
Personagem Pessoas que ajudaram Auxiliar Amor, alegria, vitórias
Água Enchente e mar Doer, perder Tristeza, destruição, tragédia, dor
Alimentação, força, trabalho,
Animal Cavalo, boi, porco, galinhas Criar
produção
Fogo Incêndio, acidente Destruir, doer Dor, perdas, medo
Fonte: Adaptado de LOUREIRO, 2004, p.43

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Os dados recolhidos sobre as representações das imagens relatadas, as funções, os papéis


que representam a existência dos entrevistados e os simbolismos atribuídos pelos idosos são os
elementos que servem de base para nossa análise. Ao fazerem seus relatos individuais a partir
das iscas semânticas, os idosos se referiram a cada um dos elementos, conforme apresentamos
no quadro acima.
O primeiro elemento, a queda, cuja função se relaciona ao ato de viver, trouxe os
símbolos que implicam os relacionamentos familiares, ora lembrados como positivos, mas, em
sua maioria, evocam lembranças ruins. O elemento trouxe à memória aquilo que foi
desagradável, difícil de superar. Os símbolos são casamentos infelizes, morte de filhos, falta de
reconhecimento no ambiente de trabalho. Assim, compreendemos que:

A polarização mítica e sua orientação temática positiva ou negativa, a integração


estrutural, a organização das polarizações, a elaboração discursiva, vão definir a partir
do desenho e do discurso o tema existencial e/ ou simbólico, veiculado pelo sujeito-
autor da ação (DURAND, 1988, p.82-83).

O segundo elemento ‒ a espada ‒ vem associado aos instrumentos de trabalho com os


quais empreenderam a luta pela vida. Traduzem-se em ferramentas como: a vara de pescar, o
arado e os bois para arar a terra, os instrumentos de pedreiro, jardineiro e carpinteiro, o
caminhão para transportar, o fogão e o forno para cozinhar e os instrumentos de limpeza. Estes
símbolos estão conectados ao Regime Diurno que “tem a ver com a dominante postural, a
tecnologia das armas, a sociologia do soberano mago e do guerreiro, os rituais de elevação e da
purificação” (DURAND, 2012, p. 58). Foram estas espadas que garantiram o ser/estar no
mundo, contribuindo para que as estruturas heroicas do imaginário individual e coletivo se
manifestassem.

A dominante postural, situada no regime diurno das imagens, aciona o ideário e a


imaginária da purificação, da luta, do combate, da guerra, da análise, despertando,
assim, simbolismos heroicos (esquizomorfos), representados por armas, espada,
flecha e gládio (LOUREIRO,2004, p.17).

Nesse sentido, a postural dominante se expressa nos objetos de trabalho com os quais
venceram os desafios impostos no dia a dia e remontam a um passado de utilidade, potência de
vida e enfrentamento.
O elemento refúgio vem expresso na palavra “casa” e também no “abrigo asilar”. Para
o abrigo, as palavras se relacionam com cuidados, alimentação, conforto no sentido da
satisfação do plano biológico, como alimentação e controle de saúde. Quando se referem à casa,
aparece a memória afetiva, o lugar das alegrias, do aconchego, do vivido e do que já não existe.
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De certa forma, a escuta permitiu conversar sobre as imagens da memória: “[...] há dois tipos
de memórias: memória sem vida própria e memória com vida própria. As memórias sem vida
própria são inertes. [...] Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa
[...] À espera de que as chamemos” (ALVES, 2005, p. 13). Foram essas memórias que
chamamos ao fazermos a entrevista com os idosos asilados. As memórias do lar estão em uma
caixa, salvaguardadas do ambiente em que vivem. Esse refúgio (o asilo) é negado à memória
afetiva.

O passado conserva-se e, além de conservar-se, atua no presente, mas não de forma


homogênea. De um lado o corpo guarda esquemas de comportamento de que se vale
muitas vezes automaticamente na sua ação sobre as coisas: trata-se da memória-
hábito, memória dos mecanismos motores. De outro lado, ocorrem lembranças
independes de quaisquer hábitos: lembranças isoladas, singulares, que constituíram
autênticas ressurreições do passado (BOSI, 1994, p. 48).

O passado é acionado com as memórias singulares, o presente traz o grande monstro: a


solidão asilar. Apesar de formarem um grupo que se apoia mutuamente e que é bem assistido
pelos profissionais que lá atuam, a solidão já se tornou melancolia. No passado residem as
alegrias, as lutas, a família que construíram, pois para o imaginário heroico, “o refúgio será
sempre um lugar de ‘refúgio contra’ um perigo, enquanto para o imaginário místico, ele (o
refúgio) é uma imagem de recipiente, símbolo de bem-estar e da vida em paz, conforme um
sentido arquetipal” (LOUREIRO, 2004, p.24). É no passado que está a imagem do aconchego,
muito relacionada aos momentos de afeto e pessoas do seio familiar que deixam saudade pela
ausência de contato e intimidade no presente.
Assim, enfrentar o monstro da solidão implica resguardar as experiências vividas e que
ficaram inscritas na memória de cada um; a partir deste acúmulo vivenciado, sobrevivem à
solidão, às vezes monologando com o já vivido, com a intenção de reconstruir e examinar seu
conteúdo passado, mediado pelas experiências do presente, sem a pretensão, contudo, de
estabelecer provas para confirmar ou refutar verdades.
Em relação ao elemento cíclico, as narrativas se referem à vida antes do asilo e lá que
reside a vida. É neste giro ao passado que se reproduz o estímulo que sopra o alento, pois algo
cíclico pode se localizar em um micro universo heroico, místico ou sintético que se caracteriza
pela harmonia dos contrários. Essa harmonia de contrários faz com que tempo-espaço-memória
do já vivido seja o motor que os mantêm conectados ao universo. São as memórias preservadas
que estabelecem o vínculo possível com a realidade. Muito embora, paire o desejo, em

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devaneio, de voltar a um tempo já vivido: de uso da espada em ato heroico para um refúgio
escolhido. É o desejo de um retorno.
O elemento personagem aparece como aquele que, em dado momento, foi o herói,
pessoas do bem que auxiliaram na trajetória. Ao criar a narrativa, a personagem tinha uma
característica recorrente e pregnante: vínculo afetivo. O amparo, suporte, gestos de afeição e
ternura marcam as imagens de cada personagem.
Os elementos água e fogo foram narrados a partir de seu poder de destruição. Sobre o
elemento água lembraram de uma grande enchente ocorrida na região em 1974.
A água, de acordo com Durand (2012), está referenciada nos símbolos nictomorfos. “O
medo da água, seus aspectos tenebrosos, características inquietantes (água negra, hostil),
mortuária, convite a morrer, convite a uma viagem sem retorno, lembra a fatalidade”
(LOUREIRO, 2004, p.24). Nesse sentido, a lembrança da água nos remete ao seu poder
destrutivo, que não se pode controlar.
Já o fogo também foi narrado a partir de seu poder destrutivo: “assistir ao incêndio de
uma casa, ver seu corpo ser queimado pelas chamas”. Nesse elemento, a narrativa que
prevaleceu sobre o fogo foi o seu semantismo angustiante de destruição, de fim, de prenúncio
de morte.
O animal é o estímulo que pode remeter a uma estrutura heroica com a representação de
animais que, junto com a espada, serviram como âncoras que sustentaram o herói em sua
jornada. A força animal se constituiu como elemento impulsionador das conquistas. Os animais
lembrados nas narrativas foram cavalo, boi, porco e galinhas. O cavalo simboliza o filho da
noite e do mistério, o seu significado está ligado ao fogo e à água; é destruidor e triunfante,
nutriente e asfixiante. Foi lembrado como força, pujança e auxiliar no transporte e nos trabalhos
agrários. O boi simboliza bondade, calma e força pacificadora. O boi representa também
capacidade de trabalho e sacrifício. O boi é um auxiliar precioso do trabalho humano. O porco
tem simbologia ambivalente: é associado à ignorância, gula, luxúria, egoísmo, mas se associa
também à abundância e à prosperidade. A narrativa dos idosos apresenta polaridade positiva,
ligada à abundância e às celebrações. Por fim, as galinhas simbolizam os cuidados maternos,
proteção e conforto, visto ser, muitas vezes representada acompanhada pelos seus pintinhos
(RONECKER, 1997). Os animais reforçam o empreendimento heroico de posição frente à vida.
Complementam, nos caso dos entrevistados, a espada.
Em uma análise geral das escutas, pudemos perceber que o presente (tempo) apresenta-
se como um semblante do tempo, já que a morte não assusta mais pela falta de motivação em
relação à vida. O presente, pela falta de afetividade, é um monstro atual, que sufoca, pois não

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sentem mais possibilidade de luta. Os símbolos de refúgio estão ligados a um lugar de


acolhimento, onde havia afeto e ficou no passado. A espada é sempre uma ferramenta utilitária
que dava sentido à vida e, simbolicamente, à jornada das personagens, colocando-as em posição
de autores (heróis) e não de espectadores. Hoje, são espectadores de uma tela do passado. O
futuro é só uma espera, com um fio de esperança pela volta ao passado, de que alguém venha
tirá-los da ociosidade e da solidão.
O presente é, então, só um lugar de espera. O asilo, a institucionalização da velhice, que
supre o biológico, mas não o afetivo. São histórias isoladas que habitam um mesmo espaço.
Paira uma tristeza de solidão (coletiva pela sua recorrência), sem a ternura do compartilhamento
e sem afeto. Nenhum símbolo de ternura ligado ao presente e à presença no asilo foi expressado.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

4.1 A imagem como sombra do desejo: tecendo algumas conclusões

Pelas narrativas dos oito idosos asilados, via escuta sensível e ancoradas nas iscas
semânticas, pudemos perceber que há um imaginário que atua como força organizadora, é uma
matriz que articula os protocolos imagético-simbólicos orquestrados pela experiência. Há um
encadeamento narrativo, individual e coletivo, de construção simbólica, recorrente e pregnante.
O enfrentamento e o aconchego se completavam, porque havia potência. Emergiu aí uma
estrutura sintética.
Ao encadear sua própria narrativa, o narrador-personagem não vê só as coisas em si,
mas o significado das coisas. Como nos alertou Bachelard, o olhar voltado para a forma e não
à forma simbólica. Os resultados provocam a reflexão, não só sobre Imaginário, mas sobre a
vida. Nosso papel, como pesquisadores do sensível, de fazer refletir as dores que somos capazes
de curar ou, ao menos, apaziguar, acalentar. Os resultados podem provocar reflexões e subsidiar
o cuidado com os idosos, criando práticas de acalento e aconchego, carências recorrentes na
dimensão simbólica e afetiva. Pensar em uma amplitude de estímulos de ambientes, vivências
e relações, o que se configura em considerar o polo do trajeto antropológico.
A visão de mundo entre vida e morte, em uma antítese positiva e negativa, perde aí seu
valor (não sem trazer sofrimento). O tempo cíclico – passado, presente e futuro – é
determinante. Sendo o passado detentor das imagens de enfrentamento e aconchego; o presente,
o monstro desanimador, de espera, de angústia; e o futuro, como desejo de morte, ainda que
com um fio de esperança de retorno ao passado, guardado na memória afetiva. O asilo é o lugar

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que se convive com o monstro, um assombro, porque materializa tudo que traz sofrimento:
abandono familiar, falta de afetividade, de aconchego, de produtividade. Este é o suporte
imagético recorrente e pregnante: o mito da terra prometida, a busca de um lugar de descanso
que perde seu lugar de estesia e é apenas uma história para contar (MORAES; BRESSAN,
2018).
Se pudéssemos destacar um sentido das imagens narradas seria uma sombra: o que faz
ligação cíclica entre os tempos, que coloca o narrador na angústia do presente, gera desânimo
em relação ao futuro (muitas vezes até desejando a Morte para encurtar o sofrimento) e liga sua
memória afetiva ao passado. A imagem é, pois, a sombra de um desejo: afeto, carinho, contato,
ternura, acalento. Uma sombra que assombra, a lembrar do abandono, a presentificar o presente,
a mostrar a paralisia da personagem que ainda queria ser/estar herói. A continuar a travessia,
querendo não estar sozinho.

REFERÊNCIAS

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Como Referenciar este Artigo, conforme ABNT:

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Estrutura Mítico-Simbólica em Idosos Asilados. Rev. FSA, Teresina, v.17, n. 6, art. 3, p. 56-73, jun.
2020.

Contribuição dos Autores H. J. P. L. L. A. C. V.


Moraes Bressan Fernandes
1) concepção e planejamento. X X
2) análise e interpretação dos dados. X X X
3) elaboração do rascunho ou na revisão crítica do conteúdo. X X X
4) participação na aprovação da versão final do manuscrito. X X X

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