Contos de Gonçalo Fernandes Trancoso
Contos de Gonçalo Fernandes Trancoso
lhe mandou ũa embaixada, pedindo-lhe que com sua gente o quisesse ajudar a
dar fim àquela empresa que tinha começado, à qual embaixada mostrou o nosso
francês alegre sembrante. Ainda que era bem diferente o prepósito a que vinha
a Espanha, o procurou encobrir e não dar ocasião de algũa suspeita por onde
saísse em vão quanto trazia imaginado. Lhe respondeu que ele e sua gente es-
tavam prestes a o servir, como em o que tocava à paga dele e de seus soldados,
se lhe fizesse boa comunidade.
Houve sobre isto algũas demandas e repostas de parte a parte, e neste co-
menos, antes que viessem ao concerto, chegou a reposta da princesa, a qual res-
pondeu que não podia crer senão que era algum anjo vindo do céu ajudá-la em tão
perigroso trance, como el-rei de Aragão, seu imigo, a tinha posta. Que ela e sua
gente estava oferecida a aceitar sua amizade e pôr em suas mãos tudo o que fosse
em proveito seu e dano de seu imigo.
Folgou em extremo Felício com a breve detreminação de Aurélia e, que-
rendo fazer certa sua promessa, deu logo ordem pera que a cidade ficasse livre.
Estava el-rei de Aragão muito confiado que o novo capitão aceitaria al-
guns dos partidos que lhe tinha mandado oferecer. E sendo desta maneira, não
se arreceando dele, vivia tão seguro e descuidado como se já o tivera consigo.
Polo qual, vendo Felício que a seguridade e confiança d’el-rei era causa que o
exército estivesse mal ordenado e pior provido, imaginou que seria muito fácil o
desbaratá-lo e destruí-lo.
E portanto, um dia que viu boa ocasião pera fazer a seu salvo o que detre-
minava, mandou dizer à princesa que aquela mesma noute saísse fora da cidade
com sua gente e d’improviso acometesse a parte de seu contrário; e que no pró-
prio instante ele acometeria por outra parte, tomando no meio seus inimigos; e
que não descansaria até lhe prender a el-rei, que tantos agravos lhe tinha feito,
e pô-lo nas suas mãos, ou ao menos fazer alevantar o cerco que lhe tinha posto
naquela cidade.
Não faltou ânimo à fermosa Aurélia a pôr por obra tudo aquilo de que por
Felício foi avisada. E vindo a noute, saiu da cidade com muito secreto e silêncio
e, chegada desta sorte ao campo do inimigo, fez que as trombetas e atambores to-
cassem arma, e com grande ímpeto entrou ferindo no campo contrário. Os quais,
não imaginando que ela se atrevera nem ousara sair a dar-lhe semelhante assalto,
estavam desaprecebidos de armas e cavalos.
E a esta causa, tarde e com mal ordem,177 animando-os el-rei, o melhor
que puderam se misturaram peleijando com seus contrários. A este tempo, o que
a princesa combatia por ũa parte, Felício também por outra deu animosamente
177
Leia-se: “desordenadamente”. Na expressão, o adjetivo mal está por mala.
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TERCEIRA PARTE
sobre eles, com que se acovardaram e perderam de tal maneira o ânimo, que em
breve espaço foram vencidos e desbaratados.
Vendo el-rei o negócio em tão mau estado, começou a fugir, deixando o
campo não com poucas riquezas, muitas munições e petrechos de guerra por des-
pojo ao inimigo. Polo qual, desejando Felício de fazer cumprido o serviço a quem
ele tanto queria, não deixou de seguir a parte d’el-rei, até que o prendeu e, preso,
o pôs nas mãos de Aurélia, sem manifestar a ela nem a ninguém quem era.
Vendo a princesa o grande valor e cortesia do capitão estrangeiro, lhe ficou
tão obrigada que lhe parecia não ser bastante toda sua fazenda e reino pera pagar
tão grande dívida. Por onde lhe fazia ordinariamente todo o favor e mimos que
eram possíveis, guardando o decoro de sua honestidade. Tendo-o sempre por ca-
valeiro de França, vendo que nunca falava senão francês e, por esta causa, tinham
ambos de ordinário necessidade de um intérprete que declarasse a um o que o
outro dizia.
Com estes favores e mercês que a rainha e princesa lhe faziam,178 tinha este
nosso fingido francês tanta autoridade com todos, que já era pouco menos que
senhor do reino. E em efeito, considerando a princesa que enquanto não se casava
estava sujeita a qualquer estranho príncipe lhe fazer guerra, como lhe fez el-rei de
Aragão, imaginou, forçada da necessidade, que não podia achar pessoa que mais
merecesse ser seu esposo que quem tanto bem lhe tinha feito e a tinha posto em
sua honra e estado, dando tantas mostras de valor e prudência em sua pessoa, nas
cousas tocantes ao governo do reino. Tendo isto na vontade, falou com a rainha
sua mai, a quem pareceu muito bem a detreminação de sua filha, pelo merecimen-
to que via no cavaleiro francês, não imaginando cousa tão impossível como era
poder ser este cavaleiro de quem tamanhos agravos tinham recebido.
Porém acharam neste caso um inconveniente: e foi haver-se a princesa
prometido por mulher a qualquer cavaleiro que a cabeça do homicida Felício lhe
trouxesse, por cujo respeito acharam que se não podia fazer o que detreminavam
sem se pôr a risco de ficar em reputação de inconstante. Acontecendo vir algum
cavaleiro com a cabeça de Felício e achando-a casada com outrem, se aqueixaria
dela com muita razão, vendo que não havia conservado a fé e palavra que tinha
dado de sua promessa aos cavaleiros que se aventuraram a pôr a risco sua vida
por a honra dela. Medindo estas cousas com bom entendimento, acharam que era
melhor conselho esperar alguns dias antes que se afeituasse este desejo.
Esta tenção e vontade que a rainha e princesa tinham chegou a ouvidos de
Felício, o qual lhe foi causa de grande contentamento, em ver que tão estima-
das andavam suas cousas diante de quem ele tanto desejava agradar. Entendendo
quanta vontade a princesa tinha de lhe gratificar seus serviços, se dispôs a pôr a
178
No original, na forma fazia, em flagrante erro de concordância, incoerente com o padrão do texto.
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GONÇALO FERNANDES TRANCOSO – CONTOS E HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO
risco sua vida por mão daquela que ele tanto estimava. E confiado em o que por
ela e por todo o reino tinha feito, se ofereceu, achando-as ũa vez ambas sós em
seu aposento onde ele muitas vezes as ia visitar. Despois de haver tratado algũas
cousas tocantes ao governo do reino sem se favorecer de intérprete, porque já
neste tempo fingia ter aprendido parte da língua espanhola, e vendo boa ocasião,
lhe disse as palavras seguintes:
– Nenhũa outra cousa, poderosas senhoras, me fez partir de França, senão
o desejo de servir-vos, mostrando-vos, ilustre rainha, o muito que estimo qual-
quer cousa vossa, e a vós, fermosa princesa, o grande amor que vos tenho. Este
foi ocasião de me armar em vossa defensão contra o descomedido rei que vos en-
treguei vencido e preso, em tempo que se não achava em toda Espanha, nem em
toda Europa, cavaleiro que em favor vosso e do reino se movesse. E sobretudo me
concedeu o céu tanto favor, que não tão somente hei posto ao reino em liberdade
e a ambas vossas ilustres pessoas que estais presentes em seguro estado, senão
que, ainda pera mais exalçar minha179 boa ventura, vos pus em vossas mãos a um
rei que pretendia levar-vos cativas e tirar-vos a vida, e ter todo o reino sujeito a
alvedrio de sua vontade. E posto que este voluntário serviço que vos tenho feito
deve com razão fazer-me dino de vossa grandeza pera que vós, poderosa prin-
cesa, me não enjeitásseis receber-me por marido, contudo, parecendo-me que
este título e esta soberana mercê se me podia ser negada todas as vezes que a eu
pedisse sem primeiro fazer o que está obrigado quem há de ser vosso esposo que
é apresentar-vos a cabeça de vossa justa vingança, e se sois servida e me prome-
teis que, fazendo-vos eu este serviço de vos pôr em vossas mãos a tal cabeça, me
recebereis logo por esposo, eu vos prometo de vo-la apresentar em vosso poder,
senão que me seja negado tudo o que peço.
A rainha e princesa estavam tão obrigadas pelas virtudes deste cavaleiro
que sem esta obrigação o tinham já em suas vontades elegido (a rainha, por genro;
e a princesa, por marido). Vendo sua promessa e que queria cumprir o que estava
mandado por elas não faltarem em sua fé e palavra, ficaram mui alegres. E a rai-
nha, com o consentimento de sua filha, lhe disse as palavras seguintes:
– Senhor, minha filha Aurélia, princesa e sucessora deste reino, está obriga-
da a ser mulher de qualquer cavaleiro que lhe oferecer a cabeça de Felício, o ma-
tador de Pompeio. E sendo isto verdade, como é, com quanta mais razão estamos
ambas obrigadas a vos não negar a vós aquilo que por vossas excelências e claras
virtudes tendes merecido. Pelo qual estai seguro e confiado que em cumprimento
desta promessa a princesa vos será entregada por esposa e mulher.
Estas palavras cheas de razões tão favoráveis que a rainha dizia foram
parte pera que Felício, com nova seguridade e confiança de seu bem, deixasse o
179
No original, com erro de impressão, na forma minhar.
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TERCEIRA PARTE
fingido nome que até então tinha usado. E posto de geolhos diante da princesa,
inclinando a cabeça sobre seu regaço, lhe disse:
– Esta é, ó amada Aurélia, a cabeça que pouco há menos de dez anos tanto
desejado haveis, como cabeça de vosso capital inimigo. A qual eu agora, não
como inimigo, mas como leal servidor vosso, vos apresento. E seja-me testemu-
nha a verdade que jamais tive intento de ofender vossa pessoa e que a morte que
dei a Pompeio não foi por anojar-vos, senão por não ver em outro poder, senão
no meu, quem já tinha feito morada em meu coração, como única rainha e se-
nhora de minha liberdade. Porém, se isto não basta, e minha ventura ordenar que
vos tenhais por ofendida (o que Deus tal não permita) e que gosteis de tomar de
mim vingança, eu sou contente que se cumpra o que vós, senhora, ordenardes. E
que deixando qualquer respeito ou obrigação à parte, façais de mim o que mais
vos agardar, tirando-me junto com a vida esta cabeça que tanto haveis desejado,
porque eu levarei grande gosto que morra meu bem porque viva vosso contenta-
mento. Mas, se o amor que vos tenho e sempre tive e os serviços que vos tenho
feito e benefícios que vós e vosso reino de mim tendes recebido, e juntamente
com isto o desejo de derramar o meu sangue em vosso serviço merecerem algũa
paga; se é verdade que em verdadeiro amor há i agradecimento, veja eu em vos
receberdes-me em vossa graça, usando comigo de aquela grandeza de que sem-
pre vos prezastes, de maneira que o mundo conheça que vive em vosso generoso
peito aquela piadade de que sempre vos sei serdes tão amiga.
Aqui deu fim a seu breve e piadoso razoamento. E com muita humildade
ficou aguardando a reposta da rainha e princesa, que com grande amiração e es-
panto o tinham ouvido. As quais qualquer outra cousa puderam imaginar, antes
que vir-lhe à memória ser aquele Felício. Ficaram em grande maneira amiradas.
E combatida Aurélia naquele ponto, assi do odioso abarrecimento que lhe
tinha, como da obrigação em que lhe estava, esteve um espaço suspensa, cui-
dando qual daqueles dous intentos seguisse: ou aquele que a180 incitava a dar-lhe
morte, ou o que a movia a recebê-lo por esposo. Porque em um a levava o nojo
e descontentamento que recebeu com a morte de Pompeio; e o outro a inclinava
ver que tinha não somente o reino, senão a vida, por sua causa. Mas, resoluta fi-
nalmente a antepor ó antigo ódio a justiça, e o benefício à injúria, lhe disse estas
palavras:
– Bastante era, ó atrevido Felício, o grande desgosto que com a morte de
Pompeio me deste, a provocar-me agora de tal modo a ira que não quisesse mais
ver-te. E isto podia bastar-te em recompensa de quanto por mim tens feito, que
com te perdoar o delito te livrasse do perigo em que vives, polos muitos cavalei-
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No original, este pronome está na forma masculina, tendo sido emendado para o feminino por
referir-se ao personagem Aurélia.
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GONÇALO FERNANDES TRANCOSO – CONTOS E HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO
ros que por diversas partes hão ido a buscar pera te dar a morte. Mas, porque é
condição minha pagar com mui conhecida ventagem o que por mim se faz, não
tão somente quero, mostrando-me piadosa, perdoar-te a recebida injúria, como te
perdoo, senão, sendo cortês e agardecida, receber-te por esposo e fazer-te senhor
de mim e deste reino.
Ditas estas palavras, fez que se alevantasse e, abraçando-o honesta e amo-
rosamente, o recebeu por marido. A rainha estimou em muito a discreta resolução
de sua filha e também ela, com grande alvoroço, quis abraçar a Felício, rece-
bendo-o por genro. E depois de ditas algũas palavras de cumprimento e cortesia
de parte a parte, deram ordem como se celebrassem as bodas, das quais não tão
somente em Toledo, mas em toda Espanha, houve grandes festas e alegrias.
Os cavaleiros que por diversas partes do mundo andavam em busca de
Felício pera lhe dar a morte, tanto que souberam o casamento e da maneira que o
matador Felício o alcançara, e como por seu valor se fez dino de tamanho estado,
levaram grande gosto que aquele negócio tivesse tão bom e próspero sucesso.
E louvando em extremo a princesa, porque assi sabia gratificar os serviços dos
valentes cavaleiros, todos de comum parecer e consentimento reconheceram e
juraram por seu rei e senhor o valeroso Felício, e ajudaram com muita festa e
regozijo a celebrar as alegres bodas.
Despois das solenes bodas estarem acabadas, o novo rei disse à rainha
que parecia bem, em tempo de tantas festas, fazer mercê a el-rei de Aragão, que
tinham preso, mandá-lo pera sua terra, de que a nova rainha foi mui contente. E
assi lhe deram logo liberdade, tomando-lhe juramento e homenagem de jamais
por si, nem em favor de outrem, fazer guerra a Espanha, senão que, sempre que
necessário fosse, seria fiel amigo. E tomando dele, pera mais seguridade, certos
reféns, foi restituído em seu reino. E eles ficaram no seu, onde sempre viveram
próspera e pacificamente.
CONTO IX
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TERCEIRA PARTE
Viviam estes casados em ũa vida felice. E como ele, além de ser nobre e
honrado, tinha e possuía fazendas e riquezas com que vivia em honra e quietação,
também era tão zeloso de sua honra que nunca queria consentir que ninguém a
respeito dela o agravasse.
Residia na mesma cidade um mancebo mercador estrangeiro que havia
vindo ali assentar casa com seu trato e mercadorias. O qual, vendo-se favorecido
de muitas riquezas que possuía, era tão soberbo e arrogante que lhe parecia que
tudo o que quisesse ou intentasse lhe havia de obedecer. Este acertou a pôr os
olhos em Eugênia, que assi se chamava a mulher de Sidônio, este nobre cida-
dão de que temos falado. E como ele desse em a namorar e presseguir, assi em
meneos de seus inquietos passos, como em mensagens que procurava por via de
algũas mulheres que, obrigadas polo interesse que dele tiravam, se ofereciam a
semelhantes mandados.
Eugênia, como temos contado, tinha tanto respeito à sua honra e à fé que
devia a seu marido, e sobretudo o intento de não ofender a Deus. Temerosa de se
não entender na terra estas cousas, andava tão triste e pensativa que, dando repos-
tas a quem tais recados lhe trazia, conformes à sua honra e virtude, mais trabalho
tinha de dissimular em apagar o fogo em que este desinquieto se abrasava, que
se escusar de seus mal concertados recados. E a esta causa andava de contino tão
malenconizada, sendo d’antes aos olhos de seu marido alegre e contente. Agora
vivia nela ũa contínua tristeza que seu marido se maravilhava de a ver assi.
E perguntando-lhe algũas vezes a causa de seu pouco contentamento, ela
sempre lhe respondia com ũas escusas leves e de pouco fundamento. E a rezão
era porque, como mulher avisada e prudente, não queria que viesse às orelhas de
seu marido tal cousa. Não por ele desconfiar de sua honestidade, senão por o não
pôr em risco de algum desastre com o mercador, segundo conhecia a condição de
seu marido ser no ponto de sua honra tão belicoso. De modo que tanto trabalhava
de se escusar com meos honrosos a quem na presseguia, como de encobrir a seu
marido a causa de sua tristeza.
Mas Sidônio, como homem que se prezava de bom entendimento, detremi-
nou de tomar sua mulher um dia em ũa câmara fechada e, com palavras cheas de
cólora e soberba, se começou a gastar demasiadamente, dizendo:
– Senhora, já muitas vezes vos tenho pedido e rogado me digais a causa de
vossa contínua tristeza, e sempre me respondeis tão fora de prepósito que estou
detreminado a não sair desta casa sem o saber. Porque, sendo vós minha amada
mulher, a quem eu tenho por coroa de minha honra e alívio de meu pensamento, e
onde se recream meus sentidos, não consentirei que em vossa alma viva nenhum
desgosto sem eu ser participante. Portanto, vos rogo e peço me digais a causa de
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GONÇALO FERNANDES TRANCOSO – CONTOS E HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO
vosso descontentamento, senão vos juro a quem sou de por estas mãos tomar de
vós a vingança que vossa pouca fé merece.
E com estas palavras se inflamou em tamanha cólora que Eugênia, que
queria e temia a seu marido, por se não pôr em estado de maior infâmia, perten-
deu de lhe descobrir o que passava. E estando neste prepósito lhe disse:
– Marido e senhor, a quem eu tenho dado as chaves de meu coração, é tanto
que temo de dar-vos nenhum desgosto que quis antes sobre mim padecer a pena
que esta tristeza me causava, que dar ocasião de nenhũa tristeza vossa. Posto que
vos rogo por o verdadeiro amor nosso, e por aquela fé e amizade, e polo preço e
estima que sempre em vosso coração tive, que não seja parte nenhũa cousa das que
aqui disser pera que vosso nobre peito se escandalize; antes, com tal discirição vos
hajais que, vencendo-vos a vós mesmo, se conheça vossa discirição181 e prudência.
Isto dito, lhe contou quanto o desinquieto mercador andava porque ela se
inclinasse a seus desatinos e como, ainda que ela precurava apartá-lo de seu mau
prepósito, em nenhum modo queria deixar de pressegui-la. As quais cousas lhe
dobravam a pena: a ũa, por ver que não podia dar a sua pessoa nenhum aumento
de honra aquele enfado importuno; a outra, considerar que o querer tirá-lo que a
solicitasse lhe parecia impossível, sem lhe dar a ele conta daquelas cousas; e que,
se lha dava, temia algum mau sucesso. Assi, por estar duvidosa o que nisto faria,
se a achava de contino malenconizada e triste.
Despois que Eugênia disse a seu marido a verdade do caso e ele ficou sa-
tisfeito que assi era, lhe disse:
– Eu, senhora, estou muito seguro de vosso amor e lealdade pera comigo.
E por esta causa não quero que por amor das parvoíces desse doudo vós esteis
desgostosa, como até aqui haveis estado, senão que vivais com contentamento
e liberdade, pois me tendes a mim satisfeito. E quanto a ele, deixai-o doudejar
quanto quiser, que, como vós fordes pera comigo quem sempre fostes, eu satis-
feito, minha honra segura, o mundo contente.
E dizendo isto, sem dar mostra de nenhum pesar, se partiu de casa. Ficou,
contudo, Eugênia, conhecendo a condição de seu marido, temerosa de algum
triste caso. E depressa saiu verdadeira sua suspeita, porque, em chegando Sidônio
à praça, lugar onde os mercadores residiam, e vendo ali o que pretendia ofendê-
-lo, lhe disse que, se não deixava de dar fastio e pesar à sua esposa, lhe daria a
entender como era mui malfeito solicitar desonestamente as mulheres honradas.
O indiscreto mercador, que por as muitas riquezas que tinha imaginava que
tanto o haviam de temer todos quanto por rico o estimavam, respondeu dizendo:
181
Forma mantida como no original, nas duas ocorrências deste período, considernado-se a possi-
bilidadade de suarabácti, com a letra c sendo pronunciada como oclusiva velar surda.
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TERCEIRA PARTE
– Minha vontade é livre e vós não lhe haveis de pôr leis a que se sujeite.
E além disto entendei que vossa mulher não é mais privilegiada que as outras. E
estai certo que, se ela quer, que ela vos fará ter paciência, porque não sois vós o
primeiro nem o derradeiro a quem as armas de Anteão182 ornem sua cabeça.
Não teve paciência Sidônio a ouvir tão livres palavras sem vingar-se. E
assi, acendido em ira, lhe disse:
– Nem tu, traidor, solicitarás mais a minha mulher, nem eu darei lugar pera
que eu me arme dessas armas que dizes.
E dizendo isto, posto a mão na sua espada, com tal ímpeto se foi pera ele
que logo deu com ele em terra morto.
Feita nesta forma sua vingança, com a maior pressa que pôde se foi reti-
rando, té que, desconhecido, chegou a um porto de mar onde, tomando ũa barca
com a maior diligência que pôde, se afastou de sua desejada pátria e se passou
a um estado do duque de Ferrara. E dali se meteu na mesma cidade de Ferrara,
cheo de muita ânsia e paixão por lhe não ser possível despedir-se de sua mulher
e seus queridos filhos. Os quais, em lhe chegando aos ouvidos a desastrada nova,
ficaram com tanta angústia e pesar quanta se pode imaginar em semelhante caso.
A Senhoria de Veneza, que quer que todos os lugares de sua cidade estém
seguros, em especial os públicos onde os mercadores têm sua contratação e merca-
dorias, vendo este repentino caso, se indinou de tal maneira contra o matador que
logo lhe foi tomada toda sua fazenda. E não contente com isto, pera terror e exem-
plo dos mais, apregoaram segundo a ordem de suas leis e pormeteram dous mil
cruzados a qualquer que, vivo, o entregasse, e mil a quem trouxesse sua cabeça.
Foi esta triste nova de grande dor e sentimento ao nobre Sidônio. E não
lhe pesava tanto de haver perdido sua fazenda, nem o estar desterrado, com tanto
perigo de sua vida, da insigne cidade onde havia nascido, quanto por haver de
estar apartado de sua mulher, a quem como sua alma amava, e de seus filhos, que
eram o lume de seus olhos.
Posto que havia dado ordem como ela e eles se saíssem da cidade de Ve-
neza e se viessem onde ele estava, não foi isto cuidado, quando foi sentido e
mandado polos senadores, sobre graves penas, que ela nem seus filhos se saíssem
da cidade. O qual foi outra nova desaventura: ver que lhe impediam a vista e con-
versação daquele que sua sorte lhe dera por marido.
Pois vivendo o infelice Sidônio na cidade de Ferrara, ausente de sua pátria,
sem ter de que viver nem de que se sustentar, lhe foi forçado fazer-se soldado do
duque de Ferrara, polo qual se sustentava tão miseravelmente que não era po-
deroso a poder mandar um real a sua casa, com que se remediasse sua mulher e
182
Anteão, ou Actéon, também Acteão, caçador mitológico, metamorfoseado em cervo pela deusa
Ártemis.
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GONÇALO FERNANDES TRANCOSO – CONTOS E HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO
filhos. E por este meio veo Eugênia e um filho que tinha, de dez anos, e ũa filha,
de quatorze, a tanta pobreza e necessidade, que era de contino atromentada com
choro de seus filhos por lhe faltar o sustentamento necessário.
Vivendo esta pobre senhora em suma pobreza e vendo-se em tamanho ex-
tremo de miséria, escreveu ũa carta a seu marido, a Ferrara onde estava desterra-
do, dizendo que já não sabia que fizesse; que, se não mandava algum remédio à
vida de seus filhos, temia grandemente que a filha, que havia deixado em idade
conveniente pera casar, não pusesse a risco sua honra.
Foram de tanto sentimento estas palavras ao afligido Sidônio que lhe che-
gou à alma a grande dor que elas lhe causaram. E temendo não viesse após de
tantas desaventuras a sua infâmia, com a desonra de sua filha, respondeu à sua
mulher que não sentia ver-se desterrado senão por se achar ausente de sua pre-
sença e de seus filhos que eram todo seu coração, como ela era sua alma. Mas,
pois sua pouca ventura assi o havia ordenado por querer defender sua honra,
lhe rogava quanto se podia rogar que àquele honroso estado em que ela sempre
havia vivido procurasse sustentar a sua filha, pera que desta sorte se conservasse
em sua casa aquela honra que ele estimou sempre em mais que a própria vida. E
animando-a, finalmente, que tivesse esperança de cobrar o bem perdido, dizendo
que Deus não nega o seu favor a quem Nele espera, o não negaria a ela nem a seus
filhos; e que ele esperava em Sua divina majestade que inda o havia de trazer a
tempo, onde todos com muito descanso vivessem té a morte; e que ele, entretan-
to, lhe assegurava e prometia de fazer quanto fosse possível pera socorrê-los e
mostrar-lhe, por obra, que mais atromentava a seu esprito o cuidado dela e deles,
que o de si próprio.
Desta maneira viveu a desconsolada Eugênia com seus filhos perto de dous
anos, e o sem ventura Sidônio, com as armas às costas, esperando assi, ele em
seu desterro, como ela em sua casa, que Deus, por Sua divina misericórdia, lhe
abrisse algum caminho de remédio em tamanho trabalho.
Viviam na cidade de Ferrara dous mancebos irmãos, os quais tinham gran-
de amizade com o pobre Sidônio. E fingindo um dia casarem ũa irmã fora da cida-
de, convidaram a Sidônio que, pela amizade que com eles tinha, os acompanhasse
naquele desposório. Que Sidônio singelamente lhe concedeu, não entendendo
que onde tanta amizade havia lhe resultasse nenhũa traição. O qual o levaram
a ũa horta onde outras vezes já tinha ido a folgar com eles. E não seria entrado
nela, quando dos dous irmãos e ajudados de outros companheiros foi preso e, sem
remédio, fortemente atado.
De que mostrando-se o triste maravilhar-se e preguntando-lhe a causa por
que tão mal guardavam as leis e o honroso estado de amigos, responderam que
menos obrigação tinham de amar a ele que a seu pai, o qual estava desterrado não
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TERCEIRA PARTE
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GONÇALO FERNANDES TRANCOSO – CONTOS E HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO
Dito isto, se chegou a ele e o desatou com suas próprias mãos. E estando
solto lhe disse:
– Do que agora vos há sucedido aprendei daqui por diante a ter mais res-
guardo, porque podeis cair em mãos de quem por ventura vos não fora, como eu,
tão piadoso. E, posto que com razão haveis de estar anojado contra meus filhos
por vos haverem posto em tal perigo, pois eu dele vos hei livrado, tendes mais
obrigação de amá-los que de aborrecê-los, que vos avisaram, pera outro dia sa-
berdes guardar vossa vida de semelhantes jogos. E assi vos rogo que lhe perdoeis
o mal que vos fizeram, pois vos há sucedido, também carregando a culpa de seu
erro, a piadade e amor que mostraram ter a seu pai.
E com isto os fez logo ali abraçar e que tornassem de novo à paz e amigável
trato que até ali tiveram.
Pois, vendo-se este pobre veneziano livrado de semelhante perigo, tão con-
fuso em si que rebolvendo na imaginação mil fantesias, começou a dizer:
– Agora posso dizer que nasci, pois me livrei de um trance tão perigoso.
Mas que me aproveita, triste de mim, viver em tamanhas misérias e trabalhos?
Pois ainda não hão de bastar pera deixar de estar oferecido a semelhantes trai-
ções, como me agora aconteceram, e juntamente com isto o risco em que está
posta a honestidade de minha filha. E se de qualquer maneira eu acabo com a
vida fica minha casa posta em extrema pobreza. Pois não há de ser assi: perca-se
a vida, e conserve-se a honra! Eu me quero ir a Veneza e quero que minha mulher
me conheça por fiel marido, e minha filha por verdadeiro pai. E que, já que eu hei
de ser levado por mãos de alguns traidores diante do Senado, que elas sejam as
que me apresentem com que fiquem ganhando os dois mil cruzados que se têm
prometido a quem me entregar vivo. E desta maneira, posto que a mim me custe
a vida, fique minha mulher e filhos fora de pobreza e misérias onde possam con-
servar aquela honra que eu sempre tanto estimei.
E com este prepósito se partiu logo secretamente pera Veneza. E, em che-
gando a sua casa, se apresentou diante de sua mulher a qual, posto que em ex-
tremo o amava e desejava vê-lo mais que todas as cousas do mundo, lhe pesou
muito de sua vinda, porque por amor dela pusesse em tanto risco sua vida. E a
esta causa, com grande turbação e sobressalto, lhe disse:
– Bem entendo, doce e caro marido, que a vossa vinda é trazer-nos algum
socorro, a mim e a vossa filha. Porém pudérei-lo mandar com alguém que a esta
cidade viera, sem vos pordes a tão manifesto perigo, porque, se soubessem que
aqui estais, humanas forças não seriam bastantes a vos tirar da morte. Portanto,
fazei depressa o que vindes a fazer e, por amor de Deus, vos parti logo, porque,
se vos sucedesse por esta causa algum dano, me teria pola mais desaventurada
mulher do mundo.
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TERCEIRA PARTE
Respondeu ele:
– Bem acertais, senhora, em dizer que venho a socorrer-vos, a vós e a vossa
filha. E à verdade, não me traz outra cousa a esta terra mais que isso. E querer dar
ordem com que sua honra se não ponha em ocasião de perigo. E por não achar
quem melhor isto pudesse fazer, que eu quis vir em pessoa. E mostrar-vos o modo
que haveis de ter pera viver com ela honestamente, livre da muita necessidade e
trabalho em que agora viveis.
Estava a coitada de Eugênia tão traspassada e temerosa de ver ali seu ma-
rido, que toda tremendo lhe dizia que lhe manifestasse depressa a ocasião de sua
vinda e se partisse logo logo de Veneza, antes que o sentisse alguém que o fosse
acusar ao Senado. Mas ele, fazendo à sua mulher que trouxesse ali sua filha, não
quis tê-las mais tempo suspensas; senão, estando ambas em sua presença, lhe
disse estas palavras:
– Infinitas cousas, senhora mulher e amada filha, se hão oferecido a meu
entendimento, muitas vezes encaminhadas todas ao remédio de vossas misérias.
Porém somente ũa me há parecido conveniente pera que vivais em mais descanso
que até aqui: e é fazendo que o prêmio que têm mandado estes senhores a quem
me puser em suas mãos, vivo, se dê a vós outras. O qual, posto que não iguale
com a fazenda que me tomaram, ao menos será bastante a suprir vossas necessi-
dades. De sorte que, por esta causa, não tenha ocasião minha filha de perder sua
honra e a nossa. Portanto, Eugênia, é minha vontade que logo vades ao Senado e
pedi a esses senhores o que segundo seu pregão se deve a quem me entregar em
seu poder, vivo. E eu logo me porei em suas mãos, pera que vós, senhora, por
este meio, alcanceis o tal prêmio. E eles façam de mim o que forem servidos,
que mais quero morrer desta sorte que não dar ocasião a que em nenhum tempo
se diga que, sendo eu vivo, perdeu minha filha a honra que até agora com tanta
diligência hei guardado.
Fizeram estas piadosas palavras no coração da donzela tanta impressão,
que se cobriu o rosto de empacho e vergonha. E tanta lhe causaram aquelas pala-
vras que, começando a chorar amargamente sua desaventura, inclinou os olhos e
não pôde falar palavra. Mas a mãe, que qualquer outra cousa imaginara e não ao
que seu marido vinha detreminado, entre si se queixava por haver escrito o que
escreveu da filha, vendo o mal que daquilo se lhe seguia. E assi, vertendo pelos
olhos um rio de lágrimas, respondeu desta sorte:
– Tão minha inimiga e contrária me há de ser a fortuna e tão cruéis me hão
de ser meus pecados que me hão de forçar a que venda a meu marido, pera ver
regada a terra com o seu sangue vertido por mão de um cruel algoz, e que viva eu
com o dinheiro com que mo comprarem? Queria eu, se possível fosse, com a mi-
nha própria vida resgatar a sua. E pois hei de ser eu tão desumana que o entregue
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GONÇALO FERNANDES TRANCOSO – CONTOS E HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO
pera ser afrontosamente morto pera que eu viva? Não permita o piadoso céu que
tal se faça. Antes eu quero morrer que não dar ocasião a que por mim se possa
dizer: “Eugênia entregou à morte a seu marido, que mais que a si amava, só por
sustentar sua vida e a de seus filhos”.
E virando-se pera a filha que ainda não tinha descansado de seu choro, lhe disse:
– Olha, filha minha, a que estado tão miserável havemos chegado. Pois teu
piadoso pai, porque nos sustentemos e tu vivas honradamente, se quer oferecer
voluntariamente à morte. Dize-me agora se seremos de tão duro coração que o so-
framos. Não, nem é justo. Antes eu triste morra, que tal veja nem tal suceda. Basta
que quereis, meu senhor, morrer porque eu viva. Ai, triste de mim. Se finalmente
estais detreminado a morrer, morramos ambos juntos e acabem-se de ũa vez em
nós ambos os trabalhos e a vida.
E dizendo estas lastimosas palavras, rompidas com soluços e eterno choro,
chegou a deitar os braços polo colo de seu marido, o qual lhe não quis consentir.
Antes, afastando-se dela, lhe disse:
– Não choreis, amada esposa, nem vós, querida filha, se não disponde-vos
a cumprir o que tenho dito, porque, quando não queirais fazê-lo, eu mesmo me
irei apresentar aos que tanto me desejam.
Ouvindo isto, começaram mãe e filha a dar, chorando, tão lastimosos gritos
que se ouviam por toda a rua. Estando elas fazendo estes extremos, sucedeu que,
passando por ali acaso o capitão da guarda e ouvindo o choro e vozes que se da-
vam, e duvidoso do que seria, subiu pola escada acima e, batendo à porta, o filho
que mais junto estava dela a foi abrir, tão supitamente que não teve o pai tempo
pera se esconder.
E entrou o capitão acompanhado com seus homens de armas e de justiça
com que de ordinário andava. E tanto que viu ali o pobre Sidônio, com a mulher
de ũa parte e a filha da outra, que como se fora morto o estavam tristemente cho-
rando, se maravilhou em extremo que tivesse atrevimento pera estar em Veneza,
e dentro em sua casa, como se estivera livre, sabendo o perigo que corria em estar
em tal parte. E muito contente por haver de ganhar o prêmio que se devia a quem
vivo o entregasse, mandou logo aos seus lhe atassem detrás as mãos pera o levar
assi diante ao Senado.
Causou esta não cuidada e nova desaventura neste pobre homem tamanha
dor, que foi muito não acabar ali logo sua trabalhosa vida. E vendo e consideran-
do que o trouxe àquela terra somente o desejo de que com sua morte aproveitasse
a sua família e que agora havia de ser o proveito do capitão que o levava; vendo
a mulher ao marido, e a filha ao pai, já atado e preso pera o levarem à morte,
começou-se de novo nelas tão grande pranto, que moveria a piedade e lástima às
duras pedras.
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ouvidos ouvido cousa mais dina de vossa misericórdia que esta, e se os rogos dos
afligidos têm lugar em vossos generosos corações, vos rogo que tenhais piadade
de nós outras e permitais ao menos que por esta vez vença o rigor da justiça, que
a tão cruel fim nos ameaça, o valor de vossa clemência, em que consiste o bem
de nossa esperança.
Aqui pôs fim a seus piadosos rogos, forçada de abundância de lágrimas e
mal formados suspiros que a cansada voz lhe afogaram.
Ficaram os senadores amirados de ouvir caso tão estranho, parecendo-lhe
cousa dina de amiração que, estando Sidônio condenado à morte, por prover as
necessidades de sua mulher e filha, viesse a Veneza pera que o pusessem nas
mãos da justiça, pera nelas deixar a vida, por lhes deixar remédio com que vi-
vessem. E assi como lhes pareceu infinita a piadade dos pais pera com os filhos,
assi também julgaram por grande cousa o amor de Sidônio pera com sua mulher,
Eugênia. Sobre o qual, entrando todos em consulta, temperou de sorte em seus
nobres ânimos este piadoso ato o rigor da justiça que, movidos à compaixão do
marido e da mulher e da filha, lhe deram a ele perdão da vida e fizeram trazer logo
ali dous mil cruzados e os entregaram a Eugênia, dizendo:
– Pois que vós havíeis de ser a que entregaríeis a vosso marido, e ele veo a este
fim a Veneza, ainda que se ofereceu caso que o impedisse. Não bastante isso, quere-
mos fazer com vós o mesmo que fizéramos se vós própria no-lo entregáreis. Portanto
nossa vontade é que leveis estes dous mil cruzados para o dote de vossa filha.
E despois disto, revirados pera Sidônio lhe disseram:
– E porque a vós, nobre Sidônio, não vos havemos feito perdão da vida só
porque vivais, senão pera que esteis com vossa mulher e filhos livre da necessi-
dade e trabalho em que entendemos que até agora vivestes, vos fazemos também
mercê dos bens e fazenda que vos foi tomada, com a qual possais viver como
homem nobre, em paz e quietação de vosso primeiro estado.
A este tempo alevantou Sidônio os olhos e o esprito – que até então tinha
tão derrubado – e, dando ao Senado infinitas graças por ũa e outra mercê, se
desculpou, dizendo que nem desejo nem vontade de cometer homicido foi causa
que ao mercador matasse, senão a força que pera isso lhe fizeram as sem razões
e más palavras que em desonra sua e de sua mulher lhe disse no meio da praça.
Porém que dali por diante pertendia viver tal vida que merecesse antes prêmio de
merecimento que infâmia de castigo.
Levaram muito gosto aqueles senhores de suas comedidas palavras e acon-
selharam-lhe ultimamente que, assi como o dizia, assi o fizesse.
Havendo Sidônio provado em esta forma a misericórdia de tão insignes se-
nhores e conhecido que as obras de piedade lhe davam muito gosto, quis intentar
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TERCEIRA PARTE
também se concediam perdão àquele bom homem que se mostrou com ele tão
piadoso, quando em seu poder o teve atado. E a esta causa lhe disse:
– Vendo, clementíssimos senhores, ser tanta vossa bondade quanta hoje
por experiência tenho conhecido, me atrevo a rogar-vos humilmente favoreçais
um nobre e cortês ânimo, cuja cortesia de me haver dado a vida hoje se vos ofe-
rece matéria pera que acabeis de espantar todo o mundo com vossa clemência.
Deu-lhe logo particular conta de como, tendo-o preso e podendo-o trazer
à morte pera seu resgate, quis antes ficar no desterro que tinha que banhar suas
mãos em sangue que jamais o tinha ofendido; acrescentando a isto que a cortesia
que aquele nobre ânimo com ele tinha usado lhe parecia sujeito próprio de sua
clemência. Pelo qual lhe pedia e rogava gostassem de lhe alevantar o desterro
pera que, ajuntando mercê à mercê, lhe ficasse perpetuamente obrigado.
Os juízes, que lhe alembrava bem que não era grande o delito por que
aquele homem estava desterrado e que, segundo o tempo em que havia estado no
desterro, podia dizer-se que havia passado a maior parte de sua pena, movidos do
ogardecido183 ânimo de quem por ele rogava, porque nada houvesse aquele dia
em que não usassem de sua manificência, foram contentes de aceitarem quanto
ele lhe quis pedir, com tanto contentamento e aplauso de toda a cidade que se não
podia mais desejar.
Somente parecia que o capitão não ficava satisfeito, por lhe parecer que,
havendo ele entregado o delinquente, devia levar ele, e não Eugênia, o prêmio.
Mas deram-lhe a entender que se enganava polas razões já ditas. E assi, dando-
-lhe o que por direito lhe vinha polo haver preso, ficou também, como os mais,
contente.
E desta maneira, a cabo de tantos trabalhos, veo o fiel Sidônio a viver com
sua mulher e filhos em alegre vida (pola mercê daquele valeroso Senado) e dar
justo galardão ao amigo que, com ele estando preso e atado, usou de tanta cortesia.
CONTO X
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