Raiva
Contexto Histórico 1) Absorção/Adesão: receptores de
· Sinonímia: hidrofobia. acetilcolina nicotínicos e interação
· Conhecida desde 500 aC (Demócrito descreveu com o vírus
no cão e Celsus no homem). 2) Penetração: o vírus entra na célula
· Louis Pasteur, em 1885, impediu que a doença 3) Desenvelopamento: remoção do
ocorresse em dois meninos mordidos por cães envelope viral e o genoma do vírus é
raivosos, ao aplicar neles uma vacina que obteve liberado
pouco tempo antes. 4) Transcrição: síntese de mRNAs
· Em 1888: é criado o Instituto Pasteur, Paris. - (mensageiro). Produção dos 5 RNAs
Em 1903: é criado o Instituto Pasteur, em São mensageiros, um para cada gene.
Paulo. 5) Translação: síntese das 5 proteínas
· Em 1908, os brasileiros Antônio Carini estruturais do vírus. O vírus vai em
(Diretor do Inst. Pasteur de SP) e Parreiras Horta direção ao
descobrem que morcegos também transmitem a 6) Processamento: glicolisação da
raiva. A teoria é considerada como "fantasia proteína G do vírus. Vão em direção
tropical" até que em 1914 cientistas alemães ao ribossomo do vírus
comprovam-na. 7) Replicação: produção do RNA
· Atualmente, morrem no mundo de 20 a 50 mil genômico. A célula trabalha só para
pessoas por ano por causa da raiva. o vírus.
· Distribuição mundial (há poucos países 8) Montagem: união de todas as
livres...) estruturas virais. As enzimas P e L
· Há um avanço recente da doença no Estado de organizam a montagem.
São Paulo (a vacinação em herbívoros está sendo 9) Brotamento: vírus completos
obrigatória). deixam a célula hospedeira por
· Cidade de São Paulo: sem casos notificados brotamento e estão prontos para
desde 1983; infectarem outras células
Etiologia Epidemiologia
· RNA vírus, gênero Lyssavirus (Lyssa = Fonte de infecção: cães e morcegos (pp.
loucura, em grego), família Rhabdoviridae. Desmodus rotundus). Outros animais
· Acomete todos os mamíferos. ocasionalmente, como gatos, animais silvestres...
· Vírus pouco resistente no ambiente. Via de eliminação: saliva.
Via de transmissão: contágio direto - mordedura.
Ocasionalmente lambedura em feridas,
arranhaduras.
Porta de entrada: pele.
Susceptível: mamíferos (inclusive o homem).
Casos raros, excepcionais
· Contágio via respiratória: 4 casos - cavernas e
laboratório.
· Portador são ou convalescente: caso de uma
cadela na África. Transmissão homem-homem:
Ciclo de replicação do vírus transplante de córnea.
Patogenia
Período de incubação: depende da quantidade de ("hidrofobia"). Podem aparecer espasmos
vírus inoculado e da proximidade do local da respiratórios e convulsões. Antes da morte,
mordedura ao SNC: alguns pacientes podem apresentar uma fase de
· Homem: 14 dias a 2 meses (pode chegar a 2 paralisia generalizada.
anos, ou mais...)
· Cães e gatos: 10 dias a 2 meses
· Bovinos: 25 dias a 5 meses
Fase centrípeta: A inoculação do vírus é
subcutânea ou intramuscular, através da
mordedura. O vírus chega ao SNC pelos nervos
periféricos (neurectomia experimental em
animais de laboratório impediu a doença em Cães e gatos: alteração de conduta, se escondem
animais inoculados). O vírus permanece certo em locais escuros, mostram agitação não usual,
tempo no local da mordedura (aonde se ficam dando voltas. Animal reage ao menor
multiplica), antes de caminhar ao SNC (esta é a estímulo. Anorexia, irritação no local da
chance do tratamento.). mordedura, febre ligeira. Depois de 1 a 3 dias se
exaltam os sintomas de excitação e agitação. O
animal se torna perigosamente agressivo, com
tendência a morder objetos, animais e o homem,
mesmo o próprio dono. É comum que morda a si
mesmo. A salivação é abundante, já que o
animal não consegue deglutir. Há alteração do
latido por paralisia das cordas vocais. Os animais
tendem a abandonar suas casas e a percorrer
Fase centrífuga: Depois de chegar ao SNC, ele longas distâncias, atacando outros animais no
se espalha ao restante do SN e às glândulas percurso. Na fase terminal, observam-se
salivares. No SN ele causa inflamação inicial do convulsões, incoordenação muscular e paralisia.
tecido nervoso (fase de excitação) que evolui Alguns animais apresentam forma muda ou
para morte celular (fase paralítica). paralítica, a qual começa pela cabeça. O animal
tem dificuldade de deglutir e o dono pensa que
ele está "engasgado". Ao tentar socorrê-lo,
abrindo e manipulando sua boca, o dono se
infecta.
Sintomas
Em geral a doença dura de 2 a 6 dias e quase
Bovinos: predomina a forma paralítica,
sempre termina em morte.
começando pelos membros posteriores.
Homem: inicia com angústia, dores de cabeça,
Apresentam paresia fláciada posterior, que
febre ligeira, mal estar, perturbações sensoriais,
evolui para paralisia. Os animais tem dificuldade
principalmente próximas ao local da mordedura.
para deglutir e deixam de se alimentar. Com a
Evolui para excitação, hiperestesia, extrema
evolução, eles se deitam e não conseguem mais
sensibilidade a luz e som, dilatação das pupilas e
levantar, até a morte, que ocorre em 2 a 5 dias.
salivação. Aparecem, então, espasmos dos
músculos da deglutição e a bebida é rechaçada
violentamente por contrações musculares
Vacinas disponíveis no mercado
Morcegos: os animais doentes alteram seu
comportamento, passam a voar de dia e muitas
vezes permitem ser capturados com facilidade (=
risco de contágio !!)
Diagnóstico
Histórico: relatos de mordeduras por cães e
morcegos.
Exame físico: sintomas neurológicos diversos, Controle de Infecção
morte em menos de 10 dias. Controle da população de cães vadios: captura e
Exames laboratoriais: sacrifício, campanhas de castração.
Diagnóstico direto: pesquisa do agente · controle da população de morcegos: captura e
· Imunofluorescência direta: encéfalo, decalque aplicação de pasta anticoagulante, pastas
córnea, raspado de mucosa lingual. vampiricidas nos animais.
· Inoculação em ratos (intra-cerebral). · Controle da população de animais silvestres,
· Exame histopatológico: Corpúsculos de Negri vacinação oral?
(Sellers, May-Grunwald, Mann)
Diagnóstico indireto: pesquisa de anticorpos Como proceder em caso de acidente (animal
(sorologia) mordeu humano):
· Soroneutralização · Lavar a ferida com água e sabão e aplicar um
anti-séptico (álcool, iodo, etc).
Tratamento · Quando possível, manter o animal em
Não existe tratamento para casos com observação.
manifestação clínica. As tentativas, entretanto, · Encaminhar o acidentado para atendimento
incluem soroterapia específica e vacinação. médico (vacinação, soroterapia).
Controle
Imunização: cães e gatos - aos 3 ou 4 meses,
revacinação anual; herbívoros - aos 3 meses,
reforço com 30 dias, revacinação anual,
semestral ou estratégica (depende da ocorrência).
Existem vacinas vivas e inativadas:
· Vírus morto (inativado): vírus fixo em tecido
nervoso (cérebro de rato) e cultivo celular.
· Vírus vivo: embrião de galinha - Low Egg
Passage (LEP), High Egg Passage (HEP), rim de
suíno (cepa ERA)
Outras informações