SUMÁRIO
CAPÍTULO 1 ...............................................................1
MAIS UM COMEÇO ......................................................1
CAPÍTULO 2 .............................................................11
DESPERTAR ..............................................................11
CAPÍTULO 3 .............................................................23
CAFÉ E LAVANDA ......................................................23
CAPÍTULO 4 .............................................................36
NA DEFENSIVA .........................................................36
CAPÍTULO 5 .............................................................48
A SÓS .......................................................................48
CAPÍTULO 6 .............................................................61
DISTÂNCIA MÍNIMA.................................................61
CAPÍTULO 7 .............................................................74
DESCOMPASSO .........................................................74
CAPÍTULO 8 .............................................................88
SOB A PELE ..............................................................88
CAPÍTULO 9 .............................................................98
COLORINDO O INVISÍVEL ........................................98
CAPÍTULO 10 ......................................................... 112
REPLAY DE OLHARES ............................................. 112
CAPÍTULO 11 ......................................................... 124
ANTES DO ERRO ..................................................... 124
CAPÍTULO 1
MAIS UM COMEÇO
Mais uma semana se iniciava, daquelas cansativas que mais pareciam
uma eterna sexta-feira, como se sábado e domingo tivessem sido
cancelados e a rotina recomeçasse sem descanso.
Seis da manhã, e o clima estava consideravelmente bom lá fora. O
outono acabava de chegar, e o vento fresco trazia uma tranquilidade
rara. Hannah estava deitada confortavelmente em sua cama,
sentindo o calor suave do cobertor. Nos seus sonhos, aquele
momento era quase paradisíaco.
Ela amava dias frios.
Mas a vida tem um talento especial para nos lembrar que a realidade
nem sempre é tão generosa.
O despertador disparou, quebrando o silêncio pacífico do pequeno
apartamento. Hannah abriu os olhos com dificuldade, sentindo o peso
do cansaço em cada músculo. Ela sempre teve um ritmo frenético de
vida.
A faculdade exigia dedicação extrema, e morar sozinha significava
lidar com responsabilidades que, por vezes, pareciam infinitas.
Mas, naquele momento, sua única preocupação era o relógio
piscando insistentemente na tela do celular.
— Merda…
Ela se levantou num salto, tropeçando nos próprios pés.
Já estava atrasada 15 minutos.
Correu direto para o banheiro e tomou o banho mais rápido possível
— o que já era rotina, considerando as inúmeras vezes que perdera
o horário sonhando com o frio gostoso do outono.
Vestiu a roupa mais simples e confortável que encontrou, tomou um
gole apressado de café e saiu correndo pela porta.
Na rua, o cenário estava calmo. Poucas pessoas e poucos automóveis
circulavam, dando ao momento uma estranha sensação de deserto
urbano. Apenas alguns estudantes caminhavam tranquilos, fones nos
ouvidos, enquanto trocavam risadas com amigos.
Hannah era uma dessas estudantes, mas, ao contrário deles, estava
desesperada.
Corria para chegar ao ponto de ônibus a tempo, determinada a não
se atrasar—não de novo. Já era a quinta vez no mês, e a presença
de seu nome no registro escolar estava se tornando preocupante.
Uma injustiça, pensava.
Hannah estava na faculdade cursando o terceiro semestre de Design
e comunicação visual. Sem emprego e sem recursos para um meio
de locomoção próprio, dependia unicamente do transporte público. E,
como sempre, dependia de sua velocidade para não perder o ônibus.
Caminhava a passos rápidos, segurando papéis, livros e cadernos. A
mochila pequena parecia lotada e o peso incomodava—a certeza de
uma bela dor nas costas ao final do dia.
— Que ótimo, só tenho cinco minutos! — disse num tom irônico.
O ônibus da faculdade seguia horários precisos, e ela precisava pegá-
lo.
Ao se aproximar do ponto, viu seu ônibus se distanciando. A
frustração tomou conta de seu rosto. Ali ia embora a chance de um
dia minimamente tranquilo.
Sem pensar, correu. Mesmo sabendo que era inútil, correu. Fez
gestos para chamar a atenção do motorista, mas foi ignorada.
Ofegante, parou no meio da calçada, sentindo o peso da derrota
crescer. Pegou o celular e verificou o horário do próximo ônibus. Só
chegaria em 20 minutos. O que poderia fazer?
Se fosse a pé, jamais chegaria a tempo.
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Se sentou no banco e apoiou a cabeça sobre as mãos, refletindo sobre
como tudo parecia dar errado antes mesmo de o dia realmente
começar.
— Ei, Hannah!
Uma voz muito conhecida soou. Ela levantou os olhos e viu um carro
branco parado ali. Ao reconhecer as duas pessoas dentro dele, um
sorriso imediato se estampou em seu rosto.
Sua melhor amiga, Jun, e a irmã mais velha, Harim estavam ali.
— Jung! — correu até o carro, entrando rapidamente. — Eu nunca
fiquei tão feliz em ver o rosto de vocês. — Colocou o cinto de
segurança e sorriu.
— Também te amamos, Hannah. — Harim brincou. — Mas vamos
logo, já estamos atrasadas.
Sem mais delongas, Harim deu partida e seguiu em alta velocidade.
Hannah pôde finalmente relaxar. O vento forte entrava pela janela,
trazendo consigo uma sensação de liberdade. Ela conversava
animadamente com Jung e riam de pequenas coisas, enquanto Jennie
permanecia focada na estrada.
Pouco tempo depois, chegaram ao colégio. As duas garotas saíram
do carro, se despediram de Jennie e correram para dentro do prédio.
A estrutura era imensa. De longe, era possível ver diversos edifícios
distintos. O lugar era tão extenso que, nos primeiros meses, os
alunos frequentemente se perdiam. Com o tempo, acabavam se
acostumando.
— Te vejo mais tarde! — Acenou enquanto já caminhava apressada
para sua sala.
— Até o almoço! — respondeu Jung com um riso, seguindo seu
próprio caminho.
Hannah respirou fundo ao se aproximar da porta da sala.
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O professor da primeira aula não fazia parte da lista de pessoas que
não simpatizavam com ela. Se pudesse, provavelmente a expulsaria
sem hesitação. Assim que entrou, todos os olhares recaíram sobre
ela.
O professor interrompeu sua explicação, cruzando os braços.
— Senhorita Hannah, espero que tenha um excelente motivo para
interromper minha aula.
Ela cerrou os dentes, tentando manter a calma.
— Perdi o ônibus, professor Naveeh.
Ele ergueu uma sobrancelha antes de responder, com sua frieza
habitual:
— Da próxima vez, planeje melhor seu horário.
Alguns alunos soltaram risadas abafadas. Hannah apenas afundou na
cadeira vazia no fundo da sala ao lado da janela, exausta e irritada.
A aula se arrastava. Design Editorial nunca lhe pareceu tão tedioso.
Seu estômago roncava, sua cabeça pesava. Queria apenas comer
algo gostoso e se jogar na cama para um cochilo infinito. Mas
infelizmente, precisava ficar ali, absorvendo cada palavra do
professor sobre manipulação de dados geométricos.
De repente, a porta se abriu e os olhos de Hannah foram da lousa
para ela rapidamente.
Uma mulher loira, esguia, de pele pálida, usando um terno salmão e
saltos nude, entrou. Elegante. Tinha um ar sério e refinado. Todos os
alunos fixaram os olhos nela. Enquanto cochichava algo com o
professor, eles tentavam adivinhar do que se tratava.
A conversa durou pouco. Ela saiu, mas antes lançou um último olhar
para a turma. O professor suspirou, e seu semblante se tornou mais
sério e tedioso ao mesmo tempo.
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— Bom, jovens. Hoje vocês serão liberados para o almoço mais cedo.
— Ele ajeitou os óculos. — Mas antes, quero uma redação simples.
Todos se levantaram quase em uníssono. A fome os impulsionava.
Pegaram suas instruções e dispararam para fora da sala.
Hannah apenas observou a cena aguardando todos saírem para se
levantar sem caos.
Pegou sua lição e saiu da sala, tentando conter sua curiosidade.
Ao sair da sala, Hannah decidiu ir para a área gramada — um grande
pátio aberto, onde não havia nada além de grama e algumas árvores
espalhadas. A maioria dos alunos costumava almoçar ali, como se
fosse um piquenique diário.
Seu celular vibrou no bolso esquerdo da calça. Parou no corredor e o
pegou, vendo que era sua amiga. Atendeu enquanto caminhava em
direção ao pátio.
— Onde você está? Já estou te esperando aqui fora. Comprei nosso
almoço — Jung disse do outro lado da linha.
— Você está falando como se eu estivesse atrasada, sendo que fui
liberada quatro aulas mais cedo — respondeu Hannah, ouvindo a
risada contagiante da amiga.
— Eu sei! Por isso estou te ligando no exato minuto em que você
saiu.
— Como você soube?
— Meu curso praticamente domina essa universidade. Tem
estudantes de comunicação a cada dois passos que você dá. Claro
que eu ia ficar sabendo — Hannah riu baixinho.
— Tá bom, tô indo. Antes que você clone meu celular.
Ela desligou e seguiu para encontrar Jung, mas antes que pudesse
dar mais alguns passos, foi atingida por uma bola de basquete nas
costas. O impacto a fez dar um impulso indesejado para frente
5
— Mas que p… De onde veio essa merda? — Olhou ao redor furiosa
à procura do responsável.
— Caramba!
Uma voz masculina e firme soou. Um garoto se aproximava.
— Nossa, foi mal!
Quando chegou perto, abaixou-se para pegar a bola, levantando-se
devagar.
E, no instante em que ergueu os olhos na direção de Hannah, o
coração dela deu um salto.
Rápido e fraco, mas ainda assim, um salto.
Por um momento, Hannah se sentiu menor. Não só fisicamente, mas
diante da presença inesperada de alguém que exalava uma
intensidade desconcertante.
Ficou imóvel por alguns segundos.
Ele segurava a bola, observando-a da mesma forma que ela o
observava — sem perceber.
Era alto. Muito alto. Magro mediano, pele pálida, cabelo grande,
cacheado e escuro, mas com algumas luzes loiras.
Seu olhar era penetrante, o sorriso, atraente. Usava um brinco
discreto na orelha esquerda e tinha um pequeno corte no canto da
sobrancelha.
Sim, Hannah percebeu todos esses detalhes. E todos eles... A
impactaram.
Havia algo desleixado nele, mas, por algum motivo, isso apenas
aumentava sua aura intrigante.
Ela respirou fundo, lembrando-se de que estava irritada, e cruzou os
braços.
— Se não sabe segurar uma bola, não deveria estar jogando...
6
Ela queria gritar, queria xingá-lo por tê-la atingido, mas se conteve.
Definitivamente, não faria isso.
Ele sorriu, um sorriso carregado de sarcasmo.
— É mesmo?
A resposta soou de um jeito que pegou Hannah desprevenida. Sua
voz era forte. Muito forte.
— Toma mais cuidado da próxima vez.
O garoto se aproximou mais. Agora, estavam a apenas dois passos
de distância.
Muito perto.
Hannah pôde notar ainda mais o quão alto ele era. 1,85? Menos que
isso não parecia aceitável.
Ele sorriu novamente. Enigmático.
— Vou tentar.
E, sem pressa, se afastou.
Só então Hannah percebeu que tinha prendido a respiração.
— O QUE FOI ISSO?!
— AH!!! — Hannah gritou, saindo de seus pensamentos com o susto.
— De onde você saiu?! — virou-se para Jung.
— Vim te procurar porque você demorou demais e eu estava faminta!
— Só se passaram alguns segundos.
— Exatamente 10 minutos, contando assim que você desligou o
telefone — Jung cruzou os braços, um brilho de pura curiosidade nos
olhos. — Mas agora… o que. Foi. ISSO?
Hannah não respondeu.
Porque, pela primeira vez naquele dia caótico, ela não sabia.
7
A noite caiu sobre a cidade, e as ruas ao redor do colégio já estavam
menos movimentadas. O céu exibia tons alaranjados que lentamente
se dissipavam, dando lugar ao azul profundo e às luzes espalhadas
pelos prédios e postes.
Hannah estava exausta.
Depois de um dia cheio de aulas, debates, provas, bolas voadoras e
sorrisos enigmáticos, tudo que queria era chegar em casa, tomar um
banho e se jogar no sofá.
Assim que empurrou a porta do apartamento, foi recebida por
Artemis, sua gata preta de olhos brilhantes. A felina se aproximou,
soltando um miado curto — um misto de saudação e cobrança por
comida.
— Você age como se eu tivesse te abandonado por uma semana,
Artemis — murmurou Hannah, abaixando-se para acariciar o pelo
macio da gata.
Artemis ronronou em resposta, claramente satisfeita com a atenção,
mas logo correu até seu pote de comida, deixando claro quais eram
suas reais intenções.
Hannah sorriu de canto e suspirou, largando a mochila sobre a
cadeira. O apartamento era pequeno, mas aconchegante. Pôsteres
de filmes clássicos decoravam as paredes, prateleiras abarrotadas de
livros preenchiam o espaço, e anotações espalhadas pela mesa de
estudos contavam sua rotina. Seu lar refletia sua personalidade —
um refúgio onde podia relaxar e se desligar do mundo lá fora.
Seguindo seu ritual noturno, foi direto para o banho. A água quente
ajudou a aliviar a tensão dos ombros e o peso do cansaço acumulado.
Ficou ali por alguns minutos, deixando o vapor relaxá-la antes de
finalmente vestir seu moletom favorito e preparar algo rápido para
comer.
Macarrão instantâneo. Sempre prático, sempre confiável.
Sentada no sofá, prato equilibrado sobre as pernas, Hannah abriu o
laptop e navegou pelas redes sociais.
8
Como esperado, Jung havia postado mais uma foto sobre Leon, seu
namorado “absurdamente fascinante.”
Era uma imagem dele na cozinha, colocando uma xícara de café sobre
o balcão.
“O maior presente da literatura moderna.”
Hannah revirou os olhos, digitando apenas um comentário:
“Você precisa de ajuda.”
Em segundos, Jung respondeu.
“Ou um namorado. Ae, já tenho uma obra prima que é exatamente
a mesma coisa”
Hannah soltou uma risada baixa e mudou a página do feed para o
Messenger. Não precisou procurar o perfil de Jung porque era sempre
o primeiro. Abriu o chat.
Naah_Lr: Você soube de alguma coisa diferente no colégio hoje de
manhã?
Passou alguns minutos .
[Link] K: O que exatamente?
Naah_Lr: Apareceu uma mulher diferente na aula do professor
Naveeh. Pareceu sério o assunto que ele conversou com ela. E eu
nunca vi ela na escola.
[Link] K: Hum...
[Link] K: Não que eu me lembre
Naah_Lr: Affs
Naah_Lr: Achei que finalmente ia ter algo novo na escola pra dar uma
movimenta
[Link] K: Achei que você não era fã de mudanças movimentadas na
sua vida
Naah_Lr: As vezes sim. As vezes não...
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Ficou pesando um pouco sobre que tipo de novidades poderiam
acontecer na escola para que a coisas realmente se agitassem. Mas
espantou seus pensamentos e fechou o laptop. Não queria distrações.
Pegou um dos livros que estava lendo — O lado feio do amor.
Romance melodramático. Ela gostava da ilusão dos romances
fictícios.
A verdade era que Hannah apreciava a solidão de suas noites, que
ela não gostava de chamar de solidão porque se divertia muito bem.
Jung sempre insistia para que saísse mais, conhecesse gente nova,
fosse a festas. Mas havia algo reconfortante na calmaria do
apartamento, na companhia silenciosa de Artemis e na liberdade de
estar sozinha.
Pensou na faculdade, nos trabalhos que teria que entregar, em
encontrar um emprego.
E, por um breve momento, sua mente deslizou para o garoto da
quadra.
O desconhecido que sem querer acertou uma bola em suas costas e
em um olhar mexeu com ela.
Não que estivesse obcecada por ele — longe disso, acabou de ver o
garoto.
Literalmente nunca o viu na universidade antes.
Mas o rosto dele surgiu involuntariamente em sua mente, junto com
aquele sorriso.
Ela suspirou, virou a página do livro, tentando afastar o pensamento.
Foi só um encontro sem sentido com alguém sem sentido.
Nada que merecesse tanta atenção.
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CAPÍTULO 2
DESPERTAR
O refeitório estava cheio, o som das conversas se misturava ao
tilintar dos talheres e ao barulho das bandejas sendo empilhadas.
Hannah e Jung sentaram-se em uma das mesas próximas à janela,
onde a luz suave do meio-dia entrava.
— Eu estava pensando nisso hoje de manhã — Jung começou,
mexendo distraidamente na comida. — Sobre o que eu realmente
quero fazer... Tipo, da vida sabe?
Hannah tomou um gole de suco antes de responder.
— E chegou a alguma conclusão?
Jung suspirou, encostando as costas na cadeira.
— Acho que publicidade... Eu amo esse rolê de criar, de pensar, em
como as pessoas se conectam com uma ideia,... Eu sou assim,
inquieta, cheia de coisa na cabeça. Só que... ao mesmo tempo, esse
mercado me assusta. Parece tudo tão lotado, competitivo demais.
— Saturado, mas promissor — Hannah respondeu, descansando o
cotovelo sobre a mesa. — E, sério, se tem alguém que leva jeito pra
isso, é você.
— Ai, é isso que eu fico pensando. — Jung sorriu meio de canto,
brincando com o garfo. — Mas você sabia que... eu quase pensei em
fazer Direito.
— Sabia — Hannah sorriu.
— Como sabia?
— Você discute até com parede, garota! E ainda sai ganhando. Fora
que não suporta ver nada errado, injustiça perto de você... Jamais.
Jung sorriu convencida.
11
— Pior que é. Mas acho que não combina comigo no fim das contas.
Eu sou energia demais pra ficar presa em um escritório, lendo
processos.
Logo apontou para Hannah com o garfo.
— E você? O que quer?
Hannah hesitou por um momento antes de responder.
— Acho que agora eu sei... Design. Exatamente design e
comunicação visual... esse rolê mais criativo. Quero viver da minha
arte, fazer disso meu trabalho, minha vida.
Jung arregalou os olhos, batendo palminha bem baixinho.
— AMÉM, SENHOR! — segurou no braço dela, empolgada. —
Demorou pra cair essa ficha, viu? Você nasceu pra isso, Hannah!
Hannah rolou os olhos pelo refeitório, levando seus pensamentos
para longe. O barulho das conversas ao redor era apenas um pano
de fundo distante—um ruído abafado que não conseguia romper sua
bolha de reflexões.
Nunca havia parado de verdade para pensar sobre seu futuro.
Agora, no meio daquele ambiente caótico e familiar, isso parecia lhe
atingir como um peso repentino. Por que nunca havia refletido sobre
isso antes? Mas pro seu orgulho, a escolha de viver da sua
criatividade nunca pareceu tão certa.
Mas ainda existia aquele medo de que não fosse boa o suficiente pra
viver disso. Era apenas uma jovem sonhadora.
A inquietação tomou conta dela.
Mas antes que pudesse se aprofundar na própria angústia, algo
interrompeu seu devaneio.
O som de um grupo entrando no refeitório.
Na verdade, não havia como não notar.
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Os garotos adentraram o espaço como uma tempestade—caótica,
barulhenta, sem qualquer preocupação com o impacto que
causavam. Risadas, vozes altas, brincadeiras. Eles estavam tão
entretidos que não perceberam os olhares que atraíam.
Jung também desviou a atenção para eles por um momento, mas
logo voltou a falar desesperadamente sobre por que precisava ter
dois peixes, um cachorro e cinco gatos. Era impressionante como ela
conseguia passar por tantos assuntos em segundos, como se cada
ideia fosse uma faísca que acendia outra antes de apagar.
Hannah, no entanto, manteve os olhos fixos no grupo de garotos.
Se perguntando como conseguiam ser tão sem noção.
O barulho desconfortável era irritante, mas eles nem ao menos
pareciam perceber. Apenas se jogaram nas cadeiras no canto do
refeitório, continuando a conversar, gesticular, rir.
Ela soltou um suspiro discreto, pronta para voltar à conversa com
Jung—mas então, seus olhos encontraram os dele.
O garoto da quadra.
O choque foi imediato.
Como no dia anterior, o mesmo olhar profundo. Intenso.
Uma análise silenciosa que parecia atravessar sua pele e tocar sua
alma.
Uma corrente de eletricidade percorreu sua espinha, como se seu
corpo reconhecesse aquela conexão antes mesmo que sua mente
pudesse racionalizá-la.
A cena do dia anterior ressurgiu com força.
Aquela faísca inesperada que ela tentou ignorar.
Agora, sentada a poucos metros dele, percebeu que ele não desviava
o olhar. E só então percebeu que ela também não havia desviado.
Seu coração acelerou.
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Se mexeu desconfortável na cadeira, tentando ignorar a sensação de
ser observada tão atentamente. Lutando contra a vontade de encarar
de volta.
Mas quando levantou o olhar novamente… ele ainda estava lá.
Imóvel. Observando.
Qual o problema dele?
Era impossível fingir que não percebia.
Tentou se concentrar no prato à sua frente, nas palavras de Jung, no
ambiente ao redor—mas o peso do olhar dele continuava queimando
sua pele, como um lembrete constante de que ele ainda estava ali.
Depois de minutos que pareceram horas, a irritação cresceu dentro
dela como um fogo lento e persistente.
— Vamos para outro lugar? — disparou, tentando soar indiferente.
Jung interrompeu suas próprias palavras, surpresa.
— Por quê?
— Sei lá. Está muito barulhento aqui.
Jung estreitou os olhos, desconfiada, mas deu de ombros e começou
a se levantar.
— Tá bom. Vamos.
Hannah sentiu o alívio imediato ao se levantar da mesa e pegar sua
bandeja. Estava pronta para sair, deixar aquele ambiente para trás—
mas antes que pudesse dar o primeiro passo, foi interrompida
— Ei!
A voz ecoou pelo espaço, forte e segura.
Não foi um grito. Mas não precisava ser.
As duas se viraram e lá estava ele.
Caminhando até ela.
14
Cada passo dele parecia calculado, firme, com uma confiança
desconcertante.
Hannah sentiu seu estômago se contrair.
— Você deixou isso cair ontem. — Ele estendeu um pequeno objeto
brilhante.
Seu olhar demorou a se mover até o objeto.
Era um brinco. Seu brinco.
Ela piscou algumas vezes, tentando assimilar aquilo, antes de
murmurar:
— O que é isso?
Louis ergueu a sobrancelha, divertido.
— Eu acho que é seu brinco. Não?
Ela observou melhor e confirmou.
Balançou levemente a cabeça, como se quisesse afastar qualquer
pensamento além do necessário.
— É sim, obrigada.
Estendeu a mão para pegar, mas ele fez um movimento inesperado—
recuou levemente, puxando o brinco para perto de si.
Hannah franziu a testa, irritada.
— O que você tá fazendo?
Um sorriso apareceu no canto dos lábios dele.
— Se não sabe usar o brinco, não deveria estar com um. Não acha?
A provocação foi clara. O tom despreocupado, insolente.
Ele rindo de si mesmo e esperou uma reação dela.
E conseguiu.
O rosto de Hannah esquentou com uma indignação imediata.
15
Mas antes que pudesse responder, Louis estendeu novamente o
brinco.
Dessa vez, ela pegou.
— Te vejo por aí — ele disse, despreocupado.
Hannah soltou um suspiro irritado.
— Não acho que isso vai acontecer.
Louis apenas sorriu, sarcástico.
— Quem sabe.
E então, foi embora.
Deixando Hannah parada, indignada, sentindo seu corpo tenso como
se tivesse sido envolvido por uma energia que não conseguia
explicar.
Ele era impossível de ignorar.
Jung, ao lado dela, observou toda a cena atentamente.
Então, soltou uma risada contida e voltou os olhos para Hannah.
— Você esteve esse tempo todo sem um brinco e não percebeu?
Hannah ainda estava se recuperando do momento, mas resmungou:
— Não.
— Você dorme de brinco?
— Às vezes.
Jung cruzou os braços, analisando a amiga com diversão.
— E o que tá rolando entre vocês?
Hannah despertou da própria confusão, negando imediatamente:
— Não existe esse “entre nós”. Eu mal conheço esse garoto.
Mas a convicção em sua voz não era tão forte quanto gostaria.
16
Jung arqueou as sobrancelhas.
— Aham.
Hannah bufou.
— Ele só é um desses meninos que acham que todas as garotas vivem
caídas por ele porque ele é bonito, atraente e… — hesitou —
aparentemente misterioso.
Jung sorriu.
— Ele é bonito então?
— Não! — negou rápido demais.
Jung apenas riu.
— Com certeza, amiga. Com certeza.
As duas garotas saíram do refeitório, caminhando lado a lado pelo
campus, os passos lentos, como se Hannah precisasse de tempo para
reorganizar seus pensamentos.
Jung a observava de soslaio, tentando decifrar a súbita mudança de
comportamento.
Hannah estava estranha.
— Algum problema? — Jung finalmente perguntou, quebrando o
silêncio entre elas.
Hannah desviou o olhar, fingindo indiferença.
— Não. — A resposta veio rápida demais, quase automática. — Só
frustrada porque estava barulho demais para ficar lá.
Jung franziu a testa.
Não parecia convencida.
— Tem certeza que não foi por causa de Louis?
O nome dele fez Hannah estremecer.
17
Uma reação involuntária — como se seu corpo tivesse entendido
antes mesmo que sua mente admitisse algo.
Ela tentou disfarçar, mantendo o rosto neutro, mas sentiu o peso do
olhar atento de Jung sobre si.
— Louis?
— Sim, o garoto de agora há pouco.
Hannah sentiu uma corrente fria percorrer sua espinha.
O nome dele ressoou em sua mente, como uma lembrança
persistente que se recusava a desaparecer.
Mas ela não podia admitir que isso a incomodava.
— Não, não foi por isso. — desconversou, tentando soar casual. —
Como você sabe o nome dele?
Jung sorriu, divertida.
— Alunos de comunicação sabem de tudo.
Hannah riu junto, tentando usar o momento para dissipar seu
desconforto.
Jung conhecia sua amiga bem demais. Sabia que algo tinha mexido
com ela.
Mas também sabia que Hannah nunca admitiria isso.
Então, resolveu deixar para lá.
Elas encontraram um canto tranquilo no gramado aberto, onde o sol
esquentava a grama e a brisa tornava o ambiente mais leve.
Se acomodaram ali, sentindo a atmosfera mais relaxada.
Hannah precisava de distração.
— E aí… como tão as coisas com o Leon? — soltou, meio no impulso,
antes que Jung resolvesse começar a fazer perguntas que ela não
queria responder.
18
Jung pegou um pedaço do sanduíche, fez aquela cara pensativa e
mordeu.
— Uhum… tá tudo bem, eu acho. — mastigou — Quer dizer... a gente
tá bem, mas às vezes me dá uns cinco minutos, sabe? Eu fico
pensando se não sou doida demais pra ele.
Hannah arqueou a sobrancelha, segurando o riso.
— Como assim?
— Ah, sei lá! — Jung jogou o corpo pra trás, fazendo um drama — O
Leon é todo certinho, organizado, responsável, calculado... e eu
sou... eu, né. Um evento aleatório ambulante.
Hannah riu.
— E é exatamente por isso que vocês funcionam. Equilíbrio perfeito:
ele é o Excel, você é o Pinterest.
— Real, né? — riu, balançando a cabeça. — Mas às vezes me bate
aquele mini surto de: “Será que eu tô preparada pra esse negócio de
vida adulta? Faculdade, contas, futuro, boletos... compromisso
sério...” — suspirou, jogando as mãos pro alto — Eu nem sei o que
eu vou querer comer amanhã, quanto mais planejar o resto da vida.
— Bem-vinda ao clube. — Hannah gargalhou, apoiando o queixo na
mão. — Ninguém sabe, amiga. Tá todo mundo fingindo que sabe.
O silêncio pairou novamente.
Mas dessa vez, era um silêncio compreensivo.
Jung sorriu e olhou para a amiga, que transmitia apoio apenas com
seu olhar tranquilo.
— Eu fico aqui tentando não surtar, enquanto você provavelmente
nem pensa nessas coisas.
Hannah deu de ombros.
— Não por enquanto. Mas quem sabe um dia?
Jung sorriu.
19
— Verdade. Quem sabe um dia você não encontra alguém na quadra
de educação física..
Hannah revirou os olhos, mas dessa vez, não conseguiu evitar o
sorriso discreto no canto dos lábios.
Ela não era nenhuma solitária sem sentimentos.
Mas seu amor próprio, sua ambição e sua realização pessoal sempre
viriam antes de qualquer coisa.
Dar tudo de si por alguém sem saber se essa pessoa faria o mesmo
nunca esteve em seus planos.
O resto do dia parecia arrastar-se em câmera lenta. Hannah tentou
de tudo para fazer as horas passarem mais rápido, mas parecia que
o próprio tempo conspirava contra ela. Quando caminhava para a
aula, o barulho dos seus próprios passos soava ensurdecedor,
reverberando pelo corredor vazio. Ao chegar à porta da sala,
percebeu algo incomum: havia mais alunos presentes do que o
normal.
Geralmente, poucos compareciam àquela aula, conhecida por ser
teórica e maçante. A voz da professora lembrava o comercial do
Ômega 3 da TopTherm, algo que os estudantes brincavam entre si.
Mas, para sua surpresa, quase todos estavam lá hoje. Hannah hesitou
por um momento antes de entrar e se dirigir ao seu lugar de costume:
a penúltima cadeira da segunda fileira. No entanto, ao chegar, parou
abruptamente.
Alguém estava ali. Dormindo.
Ela franziu a testa, olhando ao redor e percebendo que poucas
cadeiras estavam disponíveis—e as únicas livres eram bem na frente.
Ela odiava sentar perto demais dos professores. Eles sempre
chamavam os alunos da frente como voluntários para atividades.
Hannah respirou fundo e se inclinou levemente, falando em um tom
baixo, mas firme.
— Ei... você está sentado no lugar onde eu costumo me sentar.
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Nenhuma resposta. Nem um movimento.
Ela estreitou os olhos e decidiu ser mais incisiva. Cutucou o braço da
pessoa e insistiu:
— Ei, você não gostaria de se sentar em outro lugar? A frente é ainda
melhor que aqui.
Uma mentira descarada.
Finalmente, o garoto respondeu, sem sequer levantar o rosto:
— Então sente-se lá.
Hannah piscou algumas vezes, incrédula. Estava prestes a insistir,
mas se interrompeu quando a professora entrou na sala e se dirigiu
à segunda cadeira da última fileira.
— Boa tarde, alunos! Todos sentados. — Ela organizou suas coisas
sobre a mesa enquanto falava. — Hoje teremos uma atividade
simples. Mas antes… — Seus olhos percorreram a turma até se
fixarem no fundo da sala. — Quero apresentar um novo colega para
vocês. Louis, pode vir à frente?
O queixo de Hannah caiu. Seu estômago revirou.
O garoto que ela acabara de mandar sair de seu lugar estava se
levantando—com o corpo sonolento, os passos arrastados—indo até
o centro da turma. Um frio percorreu sua espinha ao reconhecê-lo
imediatamente.
Era impossível não lembrar
Ele de novo. Das memórias que agora pareciam querer ressurgir sem
permissão.
Louis.
A professora se aproximou de Louis, colocando a mão em seu ombro
com certa dificuldade, dada a altura do garoto.
— Pessoal, este é Louis. Ele esteve ausente por um tempo, mas
voltou para se juntar a nós.
21
Hannah quis desaparecer. Afundar na cadeira até se tornar invisível.
E, pior de tudo, agora teria que suportar os olhares curiosos e, sem
dúvida, os comentários sarcásticos sobre sua pequena cena
momentos atrás. Como se não bastasse, ele estaria ali. Todos os dias.
No mesmo lugar que ela.
A voz da professora interrompeu sua espiral de pensamentos:
— Hannah?
Ela se sobressaltou e ajeitou o corpo rapidamente.
— Sim?
A professora sorriu.
— Pode ajudar Louis com os materiais e conteúdos das últimas
semanas? Ele não pode ficar sem fazer a prova geral do mês.
Definitivamente não.
— Por que eu? — A pergunta escapou antes que ela pudesse se
conter.
— Porque você é a melhor aluna da turma. — A professora respondeu
sem hesitar. — Melhores notas e frequência impecável. Por que não
você?
Hannah fechou os olhos por um breve segundo e respirou fundo.
Louis apenas lançou um olhar divertido na direção dela, o canto dos
lábios curvando-se em um sorriso quase imperceptível.
Louis se acomodou no outro lado da sala, mas não tirava os olhos
dela. Hannah podia sentir aquele olhar, mesmo que tentasse ignorá-
lo, e o desconforto crescia dentro dela.
22
CAPÍTULO 3
CAFÉ E LAVANDA
O céu estava tingido de tons dourados pelo fim da tarde quando Jung
desceu do táxi em frente ao prédio. O calor do dia ainda pairava no
ar, mas uma brisa suave tornava tudo mais agradável.
Jung ajustou a alça da bolsa no ombro, o couro deslizando com leveza
contra o tecido da blusa, e ergueu os olhos para o edifício à sua
frente.
A fachada de vidro espelhado refletia o céu nublado daquela tarde
preguiçosa, como se o prédio em si fosse um pedaço do céu preso à
terra. Ela respirou fundo, sentindo o cheiro urbano de asfalto úmido
misturado ao perfume discreto das flores plantadas ao redor da
entrada.
Visitar sua irmã mais velha, Harim, era sempre como voltar para um
lugar onde tudo fazia sentido. O apartamento dela ficava no oitavo
andar e carregava uma aura que parecia parar o tempo—era como
um refúgio acima do caos cotidiano.
Assim que atravessou a porta do prédio, uma voz familiar ecoou:
— Boa tarde, senhorita!
O senhor Dunny, o porteiro do prédio, tentou se levantar, mas Jung
foi mais rápida e fez um gesto para que ele permanecesse sentado.
— Qual é, Sr. Dunny, já falamos sobre isso! Não precisa de tanta
formalidade.
O porteiro riu, ajeitando-se na cadeira e apoiando os cotovelos nos
braços da poltrona desgastada. Com seus 70 anos, ele trabalhava ali
há mais de três décadas e, desde que Jung e Harim chegaram em
Nova York, ele sempre esteve por perto, ajudando quando podia e as
recebendo com um sorriso caloroso.
23
— Velhos hábitos, minha filha. Você veio ver sua irmã?
— Sim! Ela está por aí?
Ele coçou o queixo, pensativo.
— Creio que sim. Não a vi sair depois do horário do almoço.
Jung sorriu de maneira simpática, e Sr. Dunny retribuiu com um
aceno de cabeça, indicando que ela entrasse logo.
Ela seguiu para o elevador, pressionando o botão do andar de Harim.
A cada passo no corredor silencioso, Jung sentia a ansiedade do dia
a dia se dissolver. Harim era metódica, prática, com um estilo de vida
impecavelmente equilibrado. Mas, apesar da organização quase
cirúrgica com que dispunha os livros nas prateleiras ou escolhia as
almofadas do sofá, havia algo profundamente acolhedor ali. Era o tipo
de casa que exalava calma. Tudo cheirava a lavanda e café recém
passado.
Ao chegar em frente ao apartamento, caminhou até a entrada do
apartamento e tocou a campainha
Quando a porta finalmente se abriu e ela cruzou o limiar, Jung se
sentiu como se estivesse mergulhando num abraço silencioso.
Harim a recebeu depois com um coque despreocupado no topo da
cabeça, vestindo uma blusa larga e uma calça confortável, junto
aquela recepção calorosa que sempre tinham.
Ela inclinou a cabeça, surpresa.
— O que você tá fazendo aqui?
Jung fingiu uma expressão ofendida, levando a mão ao peito.
— Nossa… pensei que você gostasse da minha visita!
Harim revirou os olhos e abriu espaço para que ela entrasse.
O apartamento era espaçoso e bem iluminado, com móveis
minimalistas e algumas plantas espalhadas pelo ambiente. O aroma
24
de café recém-feito preenchia o ar, misturado ao leve perfume cítrico
da vela acesa na mesa de centro.
As paredes claras, os quadros minimalistas, a iluminação suave—
cada detalhe refletia não apenas o bom gosto da irmã, mas o carinho
silencioso com que ela cuidava do lar e, indiretamente, de Jung
também.
— O que você estava fazendo? — Jung perguntou, se jogando no sofá
como se estivesse em casa.
Harim foi até a cozinha, que era separada da sala por um balcão de
mármore negro, e pegou mais uma xícara de café.
— Estava aproveitando minha própria companhia até você aparecer.
Jung riu, pegando a xícara que a irmã lhe entregava.
— Bom, agora pode aproveitar a minha.
Harim se sentou na poltrona ao lado e cruzou as pernas.
— Enfim, já que você está aqui, como anda a vida?
Jung soprou o café antes de dar um gole e respondeu com
naturalidade:
— Tudo bem. Faculdade, trabalho, Leon… aquela rotina de sempre.
Harim arqueou uma sobrancelha.
— Você e o Leon tem se dado bem?
Jung segurou a xícara de café por um instante, absorvendo a
pergunta antes de responder.
Ela soltou um pequeno sorriso, aquele sorriso que surgia sempre que
pensava em Leon.
— Bem. Na verdade, muito bem.
Harim arqueou uma sobrancelha, interessada.
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— “Muito bem” como? — Semicerrou os olhos e se inclinou como
quem apontava o subconsciente de Jung — O que você anda
aprontando Kim Há Jung?
Jung riu, apoiando a xícara sobre o joelho e mexendo levemente no
líquido quente dentro dela.
— Nada, só... Sei lá. A gente se entende, sabe? Não é aquele
relacionamento perfeito de filme, mas é fácil estar com ele.
Harim inclinou a cabeça, esperando mais detalhes.
Jung suspirou, pensativa.
— Tipo, hoje. Eu cheguei em casa e ele já estava me esperando, do
jeito dele de sempre — só encostado na parede, sem dizer nada de
imediato, mas olhando pra mim como se eu fosse a melhor parte do
dia dele.
Ela sorriu ao lembrar do instante em que Leon a puxou para perto,
do calor confortável do abraço e da maneira como ele murmurou
contra sua pele: “Só queria ver você logo.”
— Ele tem essas coisas, esses pequenos gestos que fazem tudo
parecer certo.
Jung deu mais um gole no café, continuando.
— E não é só isso. A forma como ele me conhece sem que eu precise
explicar nada… Como se ele soubesse exatamente o momento certo
de brincar comigo ou ficar em silêncio e só me deixar relaxar.
Harim observava atentamente, um pequeno sorriso de canto
surgindo enquanto tomava um pouco do café.
— Você realmente gosta dele.
Jung soltou um pequeno riso, balançando a cabeça.
— Sei que é cedo pra dizer, mas talvez eu o ame.
Ela apoiou o rosto contra a palma da mão e olhou para a xícara,
girando-a lentamente entre os dedos.
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— Quando eu tô com ele, tudo parece simples.
Harim cruzou os braços, fingindo desinteresse.
— Tá bom, tá bom… Já entendi. Não precisa exagerar no romance.
Jung riu e jogou uma almofada nela, enquanto Harim desviava e
pegava mais um gole de café.
O apartamento ficou preenchido por uma sensação confortável,
aquele tipo de conversa que não precisa de justificativa—apenas duas
irmãs compartilhando momentos e reflexões, sem qualquer tensão
no ar.
Harim a observou por alguns segundos, avaliando-a como se tentasse
encontrar alguma falha nessa afirmação.
— É bom ouvir isso. Às vezes, fico meio desacreditada que você tem
19 anos e já mora com um cara muito mais velho que você inclusive.
Jung fez uma expressão maliciosa. Harim revirou os olhos em
resposta. Ela era do tipo que preferia as coisas dentro dos padrões
normais.
— Não é um cara. É seu cunhado.
Harim soltou um riso curto e deu um gole no café.
— Eu ainda não sou tão fã dele assim.
— O que você tem contra ele?
Ela deu de ombros, fingindo descaso.
— Nada. Só não sou fã.
Jung virou seu olhar para a janela, a medida que que Harim já se
distraía com o celular.
Seu olhar vagou para a estante ao lado, onde um porta-retratos
delicadamente ornamentado abrigava uma foto sua com Há Yeon,
sua irmãzinha caçula.
27
A imagem capturava um momento de riso sincero entre elas — Há
Yeon com os olhos semicerrados de tanto sorrir, as bochechas
coradas e s bracinhos enrolados no pescoço de Jung.
O peito de Jung apertou suavemente. Uma pontada silenciosa de
saudade percorreu seu corpo.
Há Yeon tinha apenas cinco anos e ainda morava com os pais na
Coreia, enquanto Jung seguia sua vida acadêmica em outro país,
lidando com a distância e a ausência cotidiana da irmãzinha que
crescia tão rápido.
Jung piscou devagar, como quem tenta afastar a emoção que sobe
de fininho. Era estranho — e injusto, talvez — como o amor podia
crescer mesmo quando o convívio diminuía. Às vezes, se perguntava
se Há Yeon lembraria do toque de suas mãos, do cheiro do shampoo
que ela usava, das noites em que Jung ficava acordada só pra fazer
a bebê dormir com uma canção sussurrada.
A saudade se espalhou por seus pensamentos como tinta em papel
molhado.
Harim a observara brevemente, ligando seu olhar ao de Jung que se
prendia ao porta retrato, de forma sutil percebeu a mudança na
expressão da irmã
— Pensando na Yeonyeon?
Jung sorriu de leve.
— Sim… tem um tempo que não falo com ela.
Harim tomou mais um gole do café antes de murmurar:
— Faz tempo que não visita.
Jung suspirou, brincando com a borda da xícara entre os dedos.
— É difícil conciliar as coisas. Faculdade, trabalho… sempre tem
alguma coisa me segurando aqui.
Harim a encarou por um instante.
28
— Mas as você sente falta, né?
Jung assentiu devagar.
— Sim.
Harim sorriu de canto e colocou a xícara sobre a mesa, como se
estivesse prestes a fazer algo importante.
— Então, talvez seja hora de ir.
Jung olhou para ela, confusa
— Como assim?
Harim se levantou abruptamente e caminhou até a estante, tirando
dois papéis de uma gaveta.
Virou-se para Jung com um sorriso largo, sacudindo os papéis no ar.
— Tcharam!
Jung franziu a testa antes de pegar os papéis das mãos da irmã. Seus
olhos deslizaram pelas linhas impressas, sem realmente processar o
que estava lendo.
Passagens.
Destino: Coreia.
Seu coração deu um salto e, por um momento, ela ficou congelada.
Coreia. Casa.
Era como se o peso da saudade que sempre carregava de forma
silenciosa tivesse acabado de se tornar real novamente.
Ela piscou algumas vezes antes de levantar o rosto para Harim, a
boca se abrindo num sorriso involuntário.
— Espera… A gente vai pra Coreia?!
Harim cruzou os braços, satisfeita.
— Sim!
29
Jung deu um salto e correu para abraçá-la.
— Você é louca!
As duas começaram a pular juntas, gritando de alegria.
— Os pais sabem? — Jung perguntou entre risos.
Harim balançou a cabeça.
— Ainda não, é surpresa.
Ela guardou os papéis novamente e puxou Jung de volta para o sofá.
Jung considerou aquilo por um momento, ainda sorrindo.
Ela deu um último gole no café, sentindo a tranquilidade daquele
instante se espalhar pelo peito.
Sem preocupações. Sem tensões.
Por enquanto, tudo ainda estava bem.
O relógio na parede marcava quase dez da noite quando Jung e Leon
terminaram de organizar a cozinha.
Assim que Jung chegou da casa de Harim, Leon já a esperava do jeito
de sempre — ansioso e inquieto para vê-la. Ele havia planejado uma
noite aconchegante, algo simples, mas significativo. Nada fora do
normal para Jung. Leon gostava de agradá-la, de mostrar que era um
homem romântico.
A pizza havia sido devorada, o vinho quase no fim, e o clima entre
eles estava leve, tranquilo.
Jung se espreguiçou, apoiando os braços na mesa e soltando um
suspiro satisfeito.
— Isso foi perfeito.
Leon, ainda segurando uma taça de vinho, a observou com um sorriso
divertido.
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— Gostou mesmo?
Jung inclinou a cabeça de leve, como se refletisse.
— Tirando o fato de que você é melhor que eu em tudo... A pizza
estava ótima.
Os dois riram, e Leon começou a se levantar, estendendo a mão para
ela.
— E se eu te disser que a noite ainda não acabou?
Ela arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Tem mais alguma surpresa?
Ele deu um gole na bebida antes de responder.
— Não exatamente. Mas que tal sair um pouco?
— Agora?
— Sim. Tá uma noite bonita. Vamos só andar, sem destino.
Ela olhou para a janela da sala. A cidade ainda vibrava lá fora, com
luzes iluminando as ruas e uma movimentação discreta de pessoas.
Por um instante, a ideia pareceu inesperada demais. Mas então, ela
sorriu.
— Tá bem. Vamos!
Os dois caminhavam lado a lado pelas ruas iluminadas. O ar fresco
da noite fazia o clima perfeito para um passeio espontâneo, e cada
esquina parecia mais viva sob as luzes douradas dos postes.
Jung sentia o vento roçar sua pele, levemente frio, mas agradável. O
cheiro da cidade à noite sempre trazia algo familiar—um misto de
café vindo dos bares que ainda estavam abertos, terra úmida, e o
perfume de Leon ao seu lado.
Os cafés tinham mesas ocupadas por grupos de amigos que riam alto,
e Jung sentiu aquela energia gostosa pulsar ao redor deles. As vozes
31
misturadas ao som distante de carros criavam uma melodia cotidiana
que ela nunca tinha parado para apreciar antes.
Ela olhou para Leon, que tinha as mãos enfiadas no bolso da jaqueta,
caminhando despreocupado.
Mas era mais do que isso.
Havia algo nos olhos dele—um brilho concentrado, como se estivesse
absorvendo cada detalhe da noite, da cidade, dela.
E ele nunca pareceu tão lindo quanto agora.
Ou talvez já tivesse parecido antes.
Ele era lindo o tempo inteiro.
Jung desviou o olhar, sentindo um calor inesperado subir pelo peito.
— Isso foi uma ideia muito boa.
Leon sorriu, jogando a cabeça de leve para trás, como se estivesse
apreciando o céu estrelado.
— Eu sou cheio de boas ideias.
Jung soltou um riso baixo e deu um leve empurrão no braço dele.
Eles continuaram andando até chegarem a uma pequena praça
silenciosa, onde havia bancos de madeira posicionados sob grandes
árvores. O lugar estava quase vazio, exceto por um casal de idosos
sentado mais à frente, conversando tranquilamente.
Jung parou por um instante, observando a cena.
— Eu acho tão perfeito isso.
Leon seguiu seu olhar.
— O quê?
— Casais que ficam juntos por anos e ainda têm carinho um pelo
outro.
32
Leon ficou em silêncio por um momento, como se absorvesse aquela
ideia.
Então, olhou para ela com um sorriso leve.
— Você acha que a gente pode ser assim um dia?
Jung virou o rosto para encará-lo e, sem hesitar, sorriu de volta.
— Eu acho.
Leon passou um braço sobre os ombros dela, puxando-a para mais
perto.
O toque foi quente, firme, envolvente.
Jung sentiu a pressão suave da jaqueta dele contra sua pele e se
permitiu relaxar.
Naquele momento, tudo ainda era simples. Tudo ainda era certo e
ela não via motivo para questionar isso.
O caminho de volta para casa foi feito de mãos dadas, em silêncio
reconfortante.
Cada passo parecia desacelerar o tempo, como se a noite quisesse
se prolongar só um pouco mais.
— Harim conseguiu duas passagens pra Coreia — Jung disse, depois
de um tempo, sua voz tranquila rompendo o silêncio suave. — Pro
Ano Novo.
Leon virou o rosto para ela, interessado.
— Sério?
— Aham — ela assentiu com um sorriso pequeno. — Eu e Harim. Só
nós duas. Vamos passar alguns dias com a minha família... Eu tô
morrendo de saudade da Há Yeon. Ela tá crescendo tão rápido, e eu
só vejo por vídeo.
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Leon caminhava com as mãos no bolso, pensativo. Só as duas? Do
outro lado do mundo?
Mas então ele olhou para Jung.
O brilho no olhar dela, a forma como falava da irmã com tanto
carinho. Ela estava feliz.
E isso bastava.
— Você vai amar voltar lá amor. Vai ser bom pra você — ele disse,
com um sorriso que deixava claro que estava tentando esconder o
aperto no peito.
Ela o observou com atenção.
— Você acha mesmo?
— Acho. E se eu conseguir, vou tentar comprar uma passagem
também. Quem sabe passo o Ano Novo em outro fuso horário?
Jung deu uma risada pequena, mas sincera
— E se não conseguir?
Leon olhou para ela com suavidade.
— Ainda assim, vou estar com você. Nem que seja por mensagem,
por chamada, por pensamento. Não importa onde você esteja, eu vou
estar por perto.
Ela parou por um instante na calçada e o encarou, com os olhos mais
calmos do que palavras poderiam descrever.
Havia algo naquele instante que parecia conter o mundo.
Ele não era apenas um namorado. Ele era casa.
Era silêncio quando o caos apertava, era presença quando tudo o
resto desaparecia.
Jung segurava sua mão com força leve, como quem segura o agora
sem pressa do depois.
34
Eles não precisavam de promessas grandes, nem de declarações
diárias. O amor deles era construído no pequeno: no olhar trocado
enquanto caminhavam, no som confortável do silêncio
compartilhado, no toque sutil que dizia “eu tô aqui” mais alto que
qualquer frase.
Leon olhava pra ela como se estivesse sempre descobrindo algo novo.
Como se o fato de tê-la ali, exatamente daquele jeito, fosse um
presente raro que ele não queria desperdiçar.
E Jung… Jung sentia que podia respirar com ele.
Que podia ser leve.
Que não precisava ter medo de se afundar, porque ele estaria ali,
firme, constante.
Não havia garantias sobre o futuro. Mas, naquele momento, havia
amor.
E isso era suficiente.
— Eu te amo em silêncio às vezes — ela confessou, num sussurro.
Leon virou o rosto devagar, como se não quisesse perder o peso
daquela frase flutuando entre os dois.
O sorriso que se formou em seus lábios era contido, mas cheio.
— Eu sempre escuto.
35
CAPÍTULO 4
NA DEFENSIVA
A semana na NYC Uni passou como se o tempo estivesse com pressa.
As aulas se atropelavam, as entregas pareciam infinitas, e a
primavera já mostrava sinais de querer se firmar — com brisas mais
quentes e árvores espalhando folhas verdes pelas calçadas do
campus.
Mas, para Hannah, algo continuava fora do lugar.
Desde a vez que trocaram de palavras na sala de aula, Louis parecia…
diferente. Não exatamente distante. Tampouco mais próximo. Mas
havia um certo tipo de presença nele que começava a acompanhá-la
mesmo quando ele não estava por perto.
Ela o via em pequenos detalhes. No corredor da sala de aula,
encostado contra a parede com os fones no ouvido. No refeitório,
rindo baixinho de algo que um dos amigos dizia. Ou cruzando com
ela em silêncio no pátio, com um leve levantar de sobrancelha que
sempre fazia o estômago dela reagir antes da mente.
Ela odiava que isso estivesse acontecendo.
Não fazia sentido — não com alguém que parecia se divertir tanto a
provocando, mesmo que agora estivesse um pouco mais contido. Ele
ainda lançava aqueles olhares cheios de intenção, ainda dizia frases
dúbias que faziam as bochechas dela esquentarem. Mas tudo estava
mais... controlado. E, talvez por isso mesmo, ainda mais difícil de
ignorar.
Foi então que, no meio daquela sexta-feira quase sufocante, Jung
apareceu ao lado de Hannah com o celular na mão e um sorriso
impossível de ignorar.
— Você não vai acreditar no que vai rolar hoje — disse, empolgada.
36
Hannah levantou os olhos do caderno. Estavam sentadas na
escadaria atrás do prédio principal, o lugar preferido para fugir do
caos do intervalo.
— Se for mais um daqueles rolês aleatórios que você arruma em cima
da hora, vou fingir que estou gripada.
— É uma festa. Daquelas boas. Vai ter bebida, música, gente bonita…
— disse Jung, com os olhos brilhando de empolgação.
— Posso fazer essas coisas em casa. Com menos multidão e mais
diversão — rebateu Hannah, erguendo uma sobrancelha, entediada
de propósito.
— Ai, Hani, qual é! Você sabe que essas são as festas. Se você quer
conhecer gente, fazer amigos — ou outros tipos de conexão — esse
é o lugar — disse Jung, dando ênfase nas palavras como se fosse
uma especialista no assunto.
Hannah rolou os olhos com força, mas mordeu o canto do lábio. Ela
não era exatamente fã de multidões. Nunca foi. O barulho, o
aglomerado, as interações forçadas... normalmente, tudo isso já
bastava para que ela dissesse “não” sem pensar duas vezes. Mas,
por algum motivo, uma parte dela considerava a ideia mais atraente
do que deveria dessa vez.
— Não sei… — murmurou, indecisa.
— Louis vai — disparou Jung, como quem joga a última carta na
mesa.
Hannah ergueu os olhos imediatamente.
— Eu deveria mudar de ideia agora?
— Amiga, por favor vai! — implorou Jung, já agarrando o braço dela
com aquele olhar de quem não aceitava um “não”.
Hannah ficou em silêncio por um segundo, digerindo as palavras. Não
queria ir até lá só pra ter que lidar com as inevitáveis provocações de
Louis — aquele jeito misterioso e cínico de sempre, as frases meio
37
soltas, os olhares que pareciam atravessar... tudo isso mexia mais
com ela do que gostaria de admitir.
Mas, por outro lado… ela também não queria abrir mão de uma noite
divertida com Jung. E, sendo bem honesta consigo mesma, uma
parte teimosa dela — talvez a mais silenciosa, mais perigosa — queria
ver Louis naquela festa.
— Tá — respondeu, soltando o ar com um meio sorriso. — Eu vou.
O foco de Hannah era apenas se divertir. Estar ao lado dos seus
amigos, rir, dançar, aproveitar a música e uma bebida gelada.
Mas a vida — e o coração — raramente seguem o roteiro que a gente
traça.
E, às vezes, uma simples decisão como essa pode mudar tudo.
A biblioteca estava silenciosa demais para uma tarde tão abafada. O
ar parecia estagnado, como se até o tempo tivesse decidido tirar uma
soneca ali dentro.
Hannah tamborilava os dedos contra a bancada com impaciência, o
som seco preenchendo o vazio entre os estalos de teclas que não
respondiam.
— Aí, que ódio — murmurou, dando um leve soco na mesa. — Você
poderia me ajudar um pouco, não acha?
Apontou o dedo para a tela travada como se esperasse que ela,
magicamente, se arrependesse da própria teimosia.
Ela precisava daquele maldito livro de literatura para terminar o
trabalho antes do prazo. Mas o terminal parecia mais interessado em
exibir uma tela cinza pálida do que qualquer título útil.
Frustrada, jogou o corpo contra a cadeira, os ombros afundando no
encosto.
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— Tão gentil com tecnologia — disse uma voz familiar ao lado dela.
Ela não precisou olhar. Já conhecia aquele tom: provocador, calmo,
e com aquele leve traço debochado que parecia viver à espreita da
menor brecha.
— Louis. — disse o nome como quem resmunga diante da chuva. —
Você mora aqui ou tá me seguindo?
Ele deu um passo à frente, apoiando-se casualmente de lado na
bancada, como se o ambiente fosse dele.
— Eu diria que foi o destino, mas achei que você não fosse do tipo
que acredita nessas coisas.
Ela cruzou os braços devagar, mantendo os olhos fixos na tela — ou
tentando manter.
— E você parece ser do tipo que se mete onde não foi chamado.
— Só quando vale a pena. — respondeu com um meio sorriso, aquele
que brincava nos cantos dos lábios e fazia parecer que ele sabia de
algo que ela não.
Ela revirou os olhos, mas o canto da boca cedeu, traindo um leve
sorriso.
— Se for tentar ajudar, o sistema travou. Tô a dois cliques de jogar
o teclado pela janela.
Louis seguiu o olhar dela até o monitor, arqueou uma sobrancelha e
perguntou:
— Qual livro?
— O Morro dos Ventos Uivantes.
Ele assentiu, sem mais perguntas. Em silêncio, caminhou até a seção
de literatura, os passos seguros e lentos. Em poucos segundos,
esticou o braço e pegou o exemplar na prateleira mais alta, como se
já soubesse exatamente onde estava.
— Tá aqui.
39
Ela piscou, surpresa.
— Você sabia exatamente onde estava?
— Já li. — respondeu, entregando o livro com naturalidade.
Ela pegou com cuidado, os dedos roçando brevemente os dele.
Foi rápido. Mas foi o suficiente para seu corpo reagir antes que ela
tivesse tempo de impedir. Um arrepio subiu pelo braço, e o coração
deu um salto idiota no peito — ridículo, pensou.
Ela afastou os dedos depressa, como se aquilo tivesse sido acidental.
Porque tinha sido.
— Obrigada.
— É só um livro. Não precisa agradecer. — disse ele, mas o olhar fixo
nela dizia outra coisa.
Ela apertou o livro contra o peito como um escudo — precisava de
algo entre eles.
Algo físico. Algo que dissesse “é só isso”. Porque o olhar dele... estava
começando a dizer outra coisa.
E ela odiava que isso a deixasse tão alerta.
— Mas eu quero — respondeu, séria, sem desviar o olhar.
Louis a observou com mais atenção agora. O interesse nos olhos era
evidente, mas não havia urgência. Era um convite silencioso.
— Você sempre é assim tão... arredia com todo mundo ou eu sou o
sortudo?
Ela revirou os olhos, e sentiu os lábios ameaçarem ceder a um sorriso
— mas conteve.
“Não dá trela”, ela se lembrou. “Ele só quer brincar com você.”
— Só com quem acha que charme é atalho pra intimidade.
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Por um instante, Louis ficou em silêncio. O olhar dele não recuou.
Pelo contrário, mergulhou mais fundo. Ele não rebateu. Apenas a
observou.
Hannah sentiu o estômago dar um leve nó — era diferente. Aquele
olhar não era invasivo, mas presente. Era como se ele a estivesse
lendo... e gostando da leitura.
Ela desviou o olhar rapidamente, fingindo se interessar pelas
lombadas dos livros nas estantes.
Cruzou os braços outra vez, defensiva.
— Você não parece ser do tipo que se importa com os outros.
Louis deu um leve sorriso, mais contido.
— Talvez eu não seja. — fez uma pausa. — Mas tudo tem suas
exceções.
Ela mordeu o lábio, como se tentasse conter uma resposta que nem
sabia ao certo qual seria.
— Você é insuportável.
— E você tenta parecer menos interessada do que está.
Ela travou o corpo por um instante, como se a frase tivesse
encontrado uma fresta e se alojado ali dentro.
Mas não respondeu.
Louis sorriu de novo, discreto, e deu um leve passo para trás.
— Mas tudo bem. Pode continuar tentando.
Hannah apertou o livro com mais força contra o peito.
— Você se acha demais.
— Um pouco. — disse ele, inclinando levemente a cabeça, os olhos
ainda presos nos dela. — Mas só quando estou certo. Laurence.
Ela parou, mas não virou.
41
— Vai ler o livro todo de uma vez ou só usar pra tentar fingir que eu
não te deixo nervosa?
Ela girou lentamente o corpo pra encará-lo, o rosto impassível, mas
o olhar... o olhar queimava.
— Você não me deixa nervosa.
Ele arqueou a sobrancelha, satisfeito.
— Então tá bom.
Ela deu as costas e saiu, com passos firmes e controlados.
Ele era irritante. Arrogante.
Charmoso demais para o próprio bem.
E o pior de tudo: ela estava começando a gostar de se irritar com ele.
E isso... era um problema.
Algo ali já tinha começado — e nenhum dos dois ia admitir tão cedo.
Louis ficou ali, parado entre as estantes, observando o caminho por
onde Hannah tinha acabado de sair. O som dos passos dela ecoava
ainda por alguns segundos, até desaparecer completamente no
silêncio acolchoado da biblioteca.
Ele suspirou.
— Ela me odeia... — murmurou com um canto de sorriso. — Ou
quase.
Passou uma das mãos pelos cabelos, bagunçando os fios já
desalinhados.
Ela era difícil. Arisca. Do tipo que, quanto mais tentava disfarçar o
incômodo, mais entregava os detalhes. E Louis gostava disso — desse
jogo silencioso, dessa luta interna que ela fazia questão de esconder.
Mas o que ele não esperava era que fosse tão difícil manter a própria
máscara.
42
Por fora, tranquilo.
Por dentro, um caos.
Ela o provocava com a maneira como mordia o lábio sem perceber.
Como encarava de volta, desafiando. Como desviava o olhar dois
segundos depois, sem conseguir manter o contato por mais tempo
do que o necessário.
E era aí que ela errava.
Porque nesses dois segundos, ele via tudo.
Sentou-se em uma das poltronas vazias, girando a caneta que pegou
do bolso como distração.
Ele já tinha se envolvido com outras garotas antes. Já tinha conhecido
muitas. Mas tinha algo nela que parecia quebrar as barreiras. Algo no
jeito dela que bagunçava as defesas que ele tanto prezava manter.
Talvez fosse o olhar. Ou a língua afiada. Ou o fato de que ela não
caiu no charme dele tão facilmente como as outras.
Hannah resistia.
E essa resistência... provocava algo que Louis não sabia nomear.
Era como tentar ignorar um incêndio do outro lado da rua —
impossível, mesmo quando você sabe que é perigoso se aproximar.
Ele olhou para o livro que ainda estava sobre a bancada: um
exemplar idêntico ao que entregara a ela.
Pegou o volume e o folheou sem real atenção, os olhos varrendo as
páginas, mas os pensamentos presos naquela última troca de
olhares.
No sorriso contido dela.
No cheiro doce que pairou no ar depois que ela se afastou.
Na risada presa que tentou esconder, como se sorrir pra ele fosse
admitir algo que ela ainda não queria aceitar.
43
Louis fechou o livro com um estalo abafado e apoiou os cotovelos nos
joelhos, a cabeça pendendo levemente para frente.
Passou a mão pelos cabelos, como se quisesse afastar o que sentia
junto com os fios que caíam sobre os olhos.
Ele não queria gostar dela.
Talvez fosse só curiosidade. Ou uma vontade esquisita de quebrar o
muro que ela mantinha entre os dois.
Talvez ele só quisesse ser amigo. Estar perto.
Mas mesmo isso parecia errado.
Não era o momento. Talvez nunca fosse.
Ele havia construído suas barreiras com os estilhaços do que perdeu
— e aprendeu a se manter ali, atrás delas.
Mas o problema… é que ela já estava em cima dessas barreiras, sendo
um brilho impossível de ignorar do lado de dentro.
Ele respirou fundo, encarando o livro fechado entre as mãos.
Queria não sentir. Queria conseguir manter tudo sob controle, como
sempre fazia.
Mas toda vez que olhava pra ela… tudo desmoronava um pouco.
— O que você tá fazendo, Louis… — murmurou pra si mesmo, num
sussurro baixo demais pra ser ouvido, mas alto o bastante pra ecoar
dentro dele.
Louis ainda encarava o exemplar fechado, girando-o lentamente
entre os dedos como se esperasse que o livro lhe entregasse uma
resposta. Mas não era sobre o livro. Nem sobre a biblioteca. Nem
sobre aquele final de tarde abafado que deixava tudo mais lento.
Era sobre ela.
44
— Você vai ficar encarando esse livro até ele virar fumaça? — disse
uma voz conhecida atrás dele.
Louis ergueu os olhos devagar lentamente por já reconhecer a voz
do melhor amigo.
Evan estava ali, largado na cadeira ao lado como se já estivesse ali
há tempos. O boné virado pra trás, o jeito despretensioso de sempre.
Mas o olhar atento. Ele sempre via além da superfície.
— Nem vi você chegar — Louis admitiu, colocando o livro de lado.
— Eu percebi. Você tá num universo paralelo aí. — Ivan o observou
com atenção. — O que tá rolando?
Louis deu de ombros, tentando disfarçar, mas o movimento saiu
mais lento do que o normal.
— Só... pensando.
Evan arqueou uma sobrancelha.
— Louis. Você não é muito de pensar já tem tempo. Fala logo o que
foi.
O silêncio durou alguns segundos antes que Louis soltasse o ar
devagar, apoiando os cotovelos nos joelhos outra vez.
— Você lembra quando eu disse que estava tudo sob controle?
— Sempre. — Evan respondeu rápido. — Só que você fala isso quando
não tá.
Louis soltou um riso curto, quase triste. Seus olhos vagaram pelas
estantes da biblioteca antes de voltarem pro amigo.
— Talvez… só talvez... algo esteja escapando desse controle.
Evan se endireitou na cadeira.
— Conheceu alguém?
Louis ficou em silêncio por um tempo. Depois assentiu, com um gesto
pequeno.
45
— Não exatamente. Mas ela... já tá ocupando parte do meu espaço
como se eu já a conhecesse. E o pior: nem sabe disso.
Evan franziu o cenho.
— Isso é ruim.
— Não sei. — Louis passou a mão na nuca. — Eu só não vou me
perder. Não de novo.
O amigo cruzou os braços, sério.
— Louis... depois daquilo tudo, você tentou seguir em frente várias
vezes. E nenhuma funcionou. Você sabe que colocou um cadeado
bem firme aí dentro. Não é porque ela mexe com você que você tem
que se jogar sem pensar.
Louis assentiu, encarando o nada.
— Eu sei e não estou me jogando, não intencionalmente. As vezes,
parece que só de olhar pra ela... já fui longe demais.
Evan o observou em silêncio por alguns segundos. Então, relaxou os
ombros e soltou um suspiro.
— Não sei cara... Você passou por muito pra conseguir ficar suave
agora. Só não quero que você se machuquei de novo. Ou pior,
machuque ela.
Louis o olhou, com a expressão pesada de tristeza e o olhar
carregando a dor de saber que mesmo sem conhecê-la, algo tinha se
conectado o suficiente pra que ele não quisesse vê-la sofrer.
— Mas também não quero que você viva preso a essas barreiras e
cadeados, cara. Se alguém tá conseguindo atravessar isso aí, talvez
seja porque vale a pena ver o que tem do outro lado.
Louis ficou quieto por um instante. Reconsiderando as palavras.
Depois, pegou o livro de novo, mas sem abrir.
A conversa batia fundo demais em lugares que ele preferia não
acessar. Mas com o Evan era assim. Não precisava esconder.
46
— Ela parece me tirar do eixo. E eu nem sei se isso é bom ou ruim.
Evan deu um leve sorriso.
— Se você soubesse, não seria novidade. E se não fosse novidade...
talvez não valesse a pena.
Louis soltou um riso baixo, mais sincero agora. Jogou a cabeça para
trás, olhando o teto.
— Você virou poeta agora?
— Não. Só tô mais maduro que você, claramente. — deu uma
cotovelada leve no ombro dele.
— Vai se ferrar. — Louis respondeu com um riso, mas os olhos ainda
carregavam aquele peso silencioso.
— Eu não quero machucar ninguém. Mas também não sei se consigo
parar.
Evan parou ao lado da cadeira, olhando o amigo com uma expressão
mista de preocupação e compreensão.
— Então, talvez seja hora de descobrir o que exatamente você tá
sentindo… antes de deixar isso crescer mais.
Louis assentiu devagar, e cumprimentou o amigo que já se afastava
dizendo que tinha mais aulas pela frente.
E ali, sozinho outra vez, com o livro ainda em mãos e o peito apertado
por sensações novas, Louis se pegou murmurando para si mesmo:
— Acho que eu tô lascado.
47
CAPÍTULO 5
A SÓS
Aquela noite tinha uma definição clara: um caos eletrizante.
A boate no centro de Myrtle Ave pulsava como um organismo vivo.
Luzes neon piscavam em sincronia com a batida intensa da música,
refletindo-se nas superfícies metálicas e lançando sombras frenéticas
que se moviam junto com a multidão. O chão de mármore escuro
parecia absorver o calor do ambiente, enquanto o ar carregava um
coquetel de sensações—álcool forte, cigarro impregnado e perfumes
caros que competiam por espaço e se tornavam parte da atmosfera
sufocante.
O lugar era amplo, mas paradoxalmente claustrofóbico. O teto alto,
adornado com estruturas iluminadas, contrastava com a pista lotada,
onde corpos se entregavam ao ritmo desenfreado da música. O som
reverberava pelo chão e vibrava no peito, uma pulsação ininterrupta
que tornava impossível escapar da energia do lugar.
Para Hannah, aquilo era um desastre meticulosamente orquestrado.
Ela observava tudo com uma expressão indiferente, um véu de
desapego que tentava mascarar sua inquietação. O calor do ambiente
grudava na pele, tornando cada movimento um esforço consciente.
— Isso está longe de ser uma festa — murmurou para si mesma,
deslizando discretamente pelos cantos menos caóticos do salão.
Jung apareceu ao seu lado, exuberante como sempre, segurando um
copo com um líquido transparente e sorrindo como se aquilo fosse a
melhor noite de suas vidas.
— Você precisa relaxar — disse, estendendo o copo para Hannah.
Hannah franziu a testa, sentindo o cheiro doce da bebida antes
mesmo de tocá-la.
48
— Relaxe você. Eu já tinha desistido de vir a muito tempo, não queria
estar aqui.
Jung revirou os olhos, mas seu sorriso permaneceu intacto.
— Ah, não seja exagerada. Essa é uma festa incrível! Você só não
sabe se divertir.
Hannah olhou ao redor, soltando um suspiro impaciente.
— Isso aqui é uma mistura de balada com caos absoluto.
Jung riu, balançando a bebida em sua mão.
— E é exatamente por isso que é incrível! Olha essas pessoas, olha
essa energia!
Hannah cruzou os braços, permanecendo impassível. Sentia a música
como uma presença física, empurrando-a para dentro do turbilhão,
mesmo sem querer.
Jung se inclinou levemente, como se quisesse vender uma ideia que
sabia ser irresistível.
— Quer saber? Se você não quer dançar, pelo menos experimenta
um drink decente.
Hannah suspirou, já prevendo que não sairia vitoriosa daquele debate
— Tá bom. Mas depois eu vou embora.
Jung sorriu, vitoriosa, puxando Hannah até o bar enquanto a música
vibrava pelo corpo delas.
O bar era um refúgio do frenesi. As luzes ali eram mais suaves,
criando um contraste entre o caos da pista e aquele espaço
reservado, onde pessoas se encostavam no balcão em busca de um
momento de pausa. O cheiro de madeira polida misturava-se ao
aroma alcoólico das garrafas expostas, criando um ambiente quase
sofisticado em meio ao descontrole da festa.
49
Hannah se acomodou em um dos bancos altos, sem entusiasmo. Jung
já havia desaparecido, arrastada pela euforia das suas músicas
favoritas.
Um garçom se aproximou, sorrindo de forma profissional.
— O que deseja?
Ela olhou para as garrafas expostas nas prateleiras iluminadas atrás
dele. As cores vibrantes dos rótulos capturaram seu olhar por um
instante.
— O que você recomenda?
Antes que ele respondesse, uma voz baixa e arrastada cortou o
momento:
— Uísque.
Hannah virou o rosto para a ponta do balcão.
Louis Kalvin. Inacreditável.
Ele não olhou diretamente para ela—apenas girava o copo entre os
dedos, como se aquele pequeno gesto fosse mais envolvente do que
qualquer outra coisa acontecendo ao redor.
Hannah semicerrou os olhos.
— Eu posso escolher sozinha.
Louis sorriu de canto, sem erguer o olhar.
— Que bom, Laurence — Ele ergueu o copo para o garçom, indicando
que o pedido era para ele mesmo.
Hannah quis enterrar a cabeça em algum lugar. A presença dele
sempre vinha acompanhada de um peso estranho, uma tensão
silenciosa que a irritava e, ao mesmo tempo, a prendia.
Bufou, irritada.
— Você continua insuportável.
Ele finalmente a encarou.
50
Não de forma direta, mas estudando cada detalhe dela, como se
tentasse decifrar um enigma. Interessado.
— É mesmo?
Hannah desviou o olhar, incomodada. A pele sob sua blusa parecia
ainda mais quente. O som ao redor parecia amortecido por um
instante.
— Esquece.
O garçom entregou o copo cheio para Louis, que tomou um gole de
seu drink sem se preocupar em continuar a conversa.
Hannah soltou um suspiro, desgostosa, e se levantou para sair dali.
— Não vai pedir nada? — perguntou o garçom.
— Não, obrigada. Perdi a vontade.
Ela saiu do bar, misturando-se novamente à multidão em busca de
Jung. Encontrá-la entre tantas pessoas não seria fácil—1,50 de altura
eram um desafio em meio ao turbilhão.
A noite estava apenas começando.
E, pelo visto, não seria fácil.
Depois de algumas longas horas, Hannah já não aguentava mais. Ela
conseguiu achar Jung, mas a amiga não parava de dançar e beber,
enquanto ela só queria ir para casa. Passou todo aquele tempo
sentada em um sofá num canto escuro e discreto da boate,
observando Jung extravasar sua energia. Vez ou outra, a menor
dispensava algum cara inconveniente sem hesitação.
Mas isso nem era o pior. O verdadeiro problema era lidar com o olhar
dele. Louis.
Algumas vezes, ele atravessava o salão, e os olhos dela o
encontravam todas as vezes, mesmo que ele sequer percebesse sua
presença. Como agora. Ele passou por um canto mais vazio da boate
e Hannah o acompanhou com o olhar, sem que ele notasse. Até que
desapareceu de sua vista.
51
— Você vai ficar aí quanto tempo? Já tá começando a parecer
decoração da festa — Jung brincou, aumentando o volume da voz.
— Há-há. Muito engraçado.
Jung riu, virando-se novamente para a festa.
Mas Hannah não ficaria mais sentada ali. Realmente já se sentia uma
peça imóvel naquela bagunça. Decidiu se mover.
Caminhava pela lateral do salão principal, tentando ignorar os casais
que se beijavam sem pudor e os grupos que riam alto, embalados
pelo álcool.
O ambiente parecia apertá-la.
Era sufocante.
O cheiro de bebida misturado ao perfume forte no ar tornava tudo
ainda mais intenso. Quase opressor.
Hannah precisava de um momento longe daquela confusão.
Seus olhos percorreram o ambiente até encontrar uma porta discreta
no canto, meio escondida entre as cortinas pesadas que decoravam
a boate. A música estridente parecia vibrar em seus ossos, tornando
cada segundo ali insuportável.
Sem pensar muito, ela seguiu até lá, empurrando a porta e entrando
em um espaço diferente.
O som ainda ecoava, mas abafado.
O ambiente era menor, uma sala reservada com sofás de couro
escuro e uma mesa baixa no centro, decorada com copos
abandonados e garrafas semi-vazias. O cheiro de álcool ainda pairava
no ar, misturado ao odor sutil de madeira polida e couro envelhecido.
O leve chiado da eletricidade nos holofotes criava uma trilha sonora
quase fantasmagórica, somada às batidas amortecidas da música da
boate.
As luzes suaves projetavam sombras amplas no chão, iluminando
apenas o suficiente para transformar tudo num convite ao mistério.
52
Hannah soltou um suspiro aliviado.
— Finalmente um lugar respirável.
Sentiu os ombros relaxarem um pouco. O frescor da sala era um
contraste bem-vindo ao calor sufocante da pista de dança. Ela se
recostou contra a parede por um instante, fechando os olhos, apenas
para sentir o peso do cansaço se espalhar por seu corpo.
Mas seu momento de paz foi curto.
O som de passos ecoou atrás dela.
Hannah se virou rapidamente, seu coração acelerando por instinto.
Ao ver quem era, pensou que teria sido melhor ter ficado de costas.
Ou, melhor ainda, não ter entrado ali.
— Sabia que você não combinava com a pista de dança.
A voz veio baixa e arrastada, carregada de um tom provocativo que
exigia atenção sem precisar de esforço.
Hannah fechou os olhos por um instante.
Ótimo.
Ela fez questão de não esconder o desgosto ao ver Louis encostado
no batente de uma outra porta do outro lado da sala, que dava para
uma varanda. Os olhos escuros estudavam cada detalhe dela com
uma calma irritante.
Ele não parecia apressado.
Nunca parecia.
E isso a incomodava.
— Você com certeza tá me seguindo — rebateu, cruzando os braços.
Louis inclinou a cabeça de leve.
Um gesto pequeno. Uma resposta silenciosa.
53
Hannah rolou os olhos e se virou para a porta, já se preparando para
sair dali. Ficar no mesmo ambiente que ele nesse momento não era
a melhor escolha de vida.
Mas, assim que tentou girar a maçaneta, percebeu que ela não se
movia.
Franziu a testa e forçou um pouco mais.
Nada.
A porta estava trancada.
O desconforto se instalou instantaneamente. A irritação veio como
uma onda quente.
Hannah se virou para Louis, cerrando os olhos.
— Me diz que isso é alguma brincadeira idiota sua.
Ele ergueu as mãos, como se estivesse sendo encurralado pela polícia
militar e se defendendo de que não teve nada a ver com aquilo.
— Eu só entrei. Você que fechou.
Hannah passou uma mão pelo rosto, frustrada. Sentia o calor subindo
pelo pescoço, a respiração um pouco mais curta.
Louis permaneceu encostado na porta, observando seu nervosismo
sem qualquer urgência em resolver o problema.
— Você vai ficar aí parado ou vai ajudar?
Ele não respondeu de imediato.
Só a olhou.
Longamente.
Ela não estava mais conseguindo fingir que ele não mexia com ela,
pelo menos não para si mesma. Aquele olhar profundo e misterioso.
O sorriso enigmático.
Isso a incomodava.
54
Alguém que ela viu tão poucas vezes e mal conhecia já despertava
tantos sentimentos.
Hannah suspirou derrotada ao perceber que a porta realmente não
abriria. Cruzou os braços e bufou, mas seus olhos foram diretamente
para a outra porta na qual Louis se encostara
— Já tentei. Também não abre — ele disse simplista.
Hannah cerrou os dentes.
— Ótimo. Presa aqui com você. Isso é exatamente o que eu queria
para a minha noite.
Louis soltou um riso baixo e se sentou no sofá empoeirado de forma
despreocupada.
— Eu não reclamaria.
Hannah estreitou os olhos.
— Eu estou reclamando.
Ele inclinou a cabeça, como se ponderasse a resposta dela.
Mas não disse nada.
O silêncio se arrastou entre os dois por alguns instantes, apenas o
som abafado da música da boate preenchendo o ambiente.
Hannah olhou ao redor, examinando as garrafas sobre a mesa e os
móveis elegantes.
Se estivesse ali com qualquer outra pessoa, talvez o espaço até fosse
agradável.
Mas estar ali com ele tornava tudo mais difícil.
Louis percebeu seu incômodo e pegou um copo vazio sobre a mesa,
girando-o entre os dedos sem pressa, o olhar perdido em algum
ponto invisível no chão.
Até que, sem aviso, ele perguntou:
— Qual é o seu problema comigo?
55
Hannah piscou, surpresa pela pergunta direta e repentina.
Ela cruzou os braços, endireitando a postura.
— Todos.
Louis não sorriu.
Não provocou.
Só observou.
Hannah sentiu um incômodo com isso.
— Bom, pra começar… você é insuportável.
Louis riu.
— Você diz muito isso. Preciso de algo mais específico.
Hannah estreitou os olhos.
— Você se acha demais.
— Isso é uma crítica ou uma constatação?
Ela o ignorou.
— Acha que todas as mulheres no planeta querem você.
Louis arqueou uma sobrancelha, fingindo considerar.
Ela bufou.
— Viu? É isso que eu tô falando! Você é egocêntrico.
Louis sorriu e fez uma expressão defensiva, como se falasse “mas eu
não disse nada”, apoiando um cotovelo sobre o braço do sofá.
— Mas você não tá na lista, né?
Hannah o encarou por um instante, sem esconder o desgosto.
— Prefiro beber ácido.
Louis riu de novo, dessa vez um pouco mais alto.
56
E aquele momento foi um tiro no peito.
Ela nunca o tinha visto rir de verdade. Sempre foram sorrisos
simples, calculados. Mas dessa vez… foi diferente. E teria sido melhor
que fosse como antes.
Porque agora, ela sabia que não conseguiria esquecer aquele riso
nunca mais.
Estava começando a se tornar a sua coisa preferida.
Ela esperava que ele tivesse alguma resposta ensaiada. Uma
piadinha, talvez. Algo ridículo que a fizesse revirar os olhos, suspirar
de exaustão e lembrar por que não deveria gostar daquele maldito
sorriso.
Mas não foi assim.
— Você sabe da minha existência há apenas duas semanas... — disse
ela, olhando para um ponto fixo à frente, sem encará-lo diretamente.
— E em duas semanas você conseguiu cruzar meu caminho uma
quantidade de vezes... irritante — continuou, num tom quase casual.
— E mexeu comigo todas as vezes.
Houve uma breve pausa. O peso da última frase flutuou no ar entre
eles, denso e inesperado.
Louis a olhou de lado, surpreso, como se não esperasse por aquele
tipo de confissão.
— Mexi, é? — perguntou, arqueando uma sobrancelha e deixando um
sorriso sarcástico surgir no canto dos lábios.
Hannah congelou por um instante. Só então percebeu o que havia
dito — e como havia dito.
— Não... não desse jeito. Você só... só me tirou do sério — tentou
corrigir, tropeçando nas palavras, desviando o olhar, como se
pudesse encolher a própria existência.
O silêncio que veio depois foi incômodo. Intenso. Ela sentia o coração
acelerado, a garganta seca, e as mãos inquietas apertando levemente
57
o tecido da própria blusa. Queria desaparecer. Ou gritar. Ou talvez
as duas coisas ao mesmo tempo.
Louis, no entanto, parecia calmo. Observava-a com aquele olhar que
sempre parecia saber mais do que dizia. E então, quando ela já
achava que ele deixaria o momento morrer, ele arriscou:
— Tem certeza de que não quer me conhecer melhor?
O ambiente congelou.
Hannah virou lentamente o rosto em sua direção, como se os
músculos obedecessem a um comando incerto. Seus olhos
encontraram os dele. Fixos. Diretos. Sem escapatória.
Esperava qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa.
Menos um flerte.
Isso foi um flerte. Certo? Ou ela estava entendendo tudo errado?
Não, não podia ser.
— Eu quero conhecer você, Hannah Laurence — disse ele, com um
sorriso que parecia simples, mas carregava camadas demais para
serem lidas de uma vez só.
Ela tentou decifrar o que havia naquele sorriso, na entonação do seu
nome, na leveza da frase. Mas ele era bom em esconder. Havia
sentimentos ali, sim — muitos, talvez. Só que ela não conseguia
identificar nenhum. Ele era um mistério. E ela odiava isso. Odiava o
quanto queria entender.
Com certeza, com ele era o contrário. Louis, mesmo sem demonstrar
nada de forma óbvia, devia estar vendo com clareza o efeito que
causava nela. E agora sim — agora ele tinha mexido com ela de
verdade. De várias maneiras.
Hannah não conseguiu esconder. Sua respiração estava mais curta.
Seus olhos ainda fixos nos dele. Uma vulnerabilidade nítida
atravessava seu semblante.
Os dois permaneceram ali, se encarando.
58
Louis, com seu ar simplista e enigmático, parecia alheio ao caos que
provocava.
Hannah, inquieta, travava uma guerra silenciosa entre o coração e a
razão.
Até que ele desviou o olhar ao perceber que ela não tinha resposta
no momento. Enfiou a mão no bolso do jeans, puxando o celular.
Começou a mexer no aparelho com calma, os dedos deslizando pela
tela como se nada tivesse acontecido. Como se aquele momento
entre eles tivesse sido apenas mais um diálogo sem importância.
E então ele levou o celular ao ouvido.
— Oi. Sobe no antigo escritório. A porta emperrou — disse, olhando
de soslaio para Hannah, que agora desviava o olhar, tentando
controlar a enxurrada de sentimentos que ameaçava transbordar.
Ela já não o encarava. Estava tentando disfarçar a surpresa, a
confusão, e principalmente a inquietação do próprio coração. Uma
parte dela queria perguntar o que aquilo tudo significava. A outra
queria sair correndo.
— Tá. Não demora. Valeu — finalizou ele, desligando e guardando o
celular no mesmo bolso.
— Você estava com o celular funcionando esse tempo todo? —
perguntou Hannah, tentando soar neutra.
— Sim — respondeu ele, com a mesma naturalidade irritante de
sempre.
— Fala sério — ela retrucou, cruzando os braços, levemente irritada.
— Você não perguntou nada.
Ela apenas o olhou com um misto de desprezo e exaustão, como se
dissesse você é insuportável sem precisar de palavras. Ele sorriu,
como se soubesse.
59
Alguns minutos se passaram até que passos do lado de fora
anunciaram a chegada de alguém. A maçaneta girou. A porta
finalmente se abriu.
Hannah não esperou. Nem olhou para trás. Simplesmente atravessou
a saída com passos rápidos, como se quisesse fugir de si mesma.
Fugir dele. Daquela conversa. Daquele sorriso que ainda ecoava na
sua cabeça.
Louis ficou ali. Sozinho. Com sua própria presença. E seus
pensamentos — que agora eram muitos.
Com certeza, aquela noite estaria marcada para os dois. De um jeito
ou de outro.
60
CAPÍTULO 6
DISTÂNCIA MÍNIMA
Existem dias que começam errados antes mesmo de começarem de
fato.
Dias em que você acorda já sentindo que tudo será um desastre —
e, como um relógio perfeitamente sincronizado com o caos, tudo
realmente desmorona.
A manhã de Hannah foi exatamente assim.
O despertador tocou tarde demais. O café da manhã foi substituído
por um gole apressado de água. O trânsito estava infernal, e
quando finalmente chegou à universidade, já estava atrasada para
a primeira aula.
O seminário que deveria ter preparado? Um fiasco.
O trabalho em grupo? Um desastre ainda maior.
Seus colegas simplesmente ignoraram suas partes, e ela teve que
fazer tudo sozinha. No fim, apresentou o trabalho sem ajuda e
ainda teve que ouvir o professor reclamar sobre a falta de
organização e responsabilidade do grupo.
Aquilo tudo estava um porre.
Hannah estava sentada no gramado, organizando a redação que iria
apresentar na primeira aula da tarde.
Demorou quase uma semana para terminá-la e se dedicou ao
máximo para que ficasse impecável — pelo menos ao seu ver. O
professor Richard era rigoroso, então ela precisava que ele
enxergasse a perfeição que via em seu próprio trabalho.
Passava e repassava as folhas, analisando cada palavra diante de
seus olhos.
61
Talvez fosse um pouco perfeccionista.
Depois da quinta vez relendo sua redação desde a primeira linha, se
levantou, apanhou suas coisas, colocou os fones — Trust Issues, do
Drake — e seguiu de volta para dentro do prédio. Cantarolava baixo
em algumas partes da música, distraída.
Parou em seu armário para guardar alguns materiais que não usaria
nas aulas posteriores. Livros, cadernos, apostilas...
Cada vez mais envolvida na música, não percebeu que alguém se
aproximou e parou no armário ao lado—um que estava vazio há
meses.
Continuou organizando suas coisas.
Quando terminou, fechou o armário e se virou para seguir até o
refeitório. Mas assim que deu um passo, sentiu seu corpo se chocar
contra alguém.
O impacto foi forte o suficiente para fazê-la perder o equilíbrio por
um instante. Suas coisas caíram no chão, espalhando-se pelo
corredor.
Ela respirou fundo, tentando reunir forças para reagir. Mas então,
viu.
Sua redação. No chão.
Totalmente rasgada e amassada. Provavelmente pisoteada pela
multidão de alunos que passava pelo corredor.
Hannah congelou.
Pode parecer exagero, mas considerando o turbilhão de imprevistos
catastróficos que enfrentou desde cedo, chorar naquele momento
era uma possibilidade real. O estresse não tinha mais espaço para
ocupar.
Agora transbordava como dor de cabeça.
62
— Você está bem? — a voz masculina soou.
Hannah subiu o olhar e encontrou os olhos do indivíduo. Seu
coração acelerou por um instante. E sua mente se esqueceu, por
um momento, da situação caótica que estava enfrentando.
Louis.
Já havia uma semana desde que se falaram na boate.
Após aquele dia, Hannah não conseguia pensar em outras coisas
sem lembrar das palavras de Louis.
“Eu quero conhecer você, Hannah Laurence”
Foi uma semana agitada. Ainda assim, não o tinha visto na escola
até esse momento.
Não dava para dizer que ele era o responsável por derrubar suas
coisas — ela estava distraída demais e não prestou atenção que
havia alguém à sua frente.
Mas ainda era irritante.
— Você acabou de estragar a redação que levei quase uma semana
para terminar. — Seu tom de voz saiu baixo e lento, mas carregado
de irritação.
Louis ergueu uma sobrancelha, despreocupado.
— Não teria como eu fazer isso, já que estava parado.
Hannah soltou um riso curto.
Não porque achou graça. Mas porque estava prestes a explodir.
— Precisa de ajuda? — Ele se inclinou para ajudá-la.
Mas Hannah levantou a mão em um gesto claro para que ele
parasse. Subiu o olhar e o encarou. Por um instante seu ritmo
cardíaco modificou.
— Não, eu faço sozinha. Pode ir.
63
Louis obedeceu por partes. Se distanciou , mas permaneceu ali,
observando-a pegar os papéis e organizá-los nas mãos, um por um.
Percebeu a irritação no tom de voz dela.
— Por que você está tão estressada?
Hannah suspirou, exausta.
— Inacreditável... — murmurou. — Eu precisava entregar essa
redação na primeira aula!!
Sua voz se alterou, arrancando olhares das pessoas ao redor. Mas
talvez não fosse apenas pela redação.
Talvez fosse pelo fato das palavras que Louis disse na boate
naquela noite—e depois sumiu de repente. Ela sabia que não tinha
dado uma resposta certa sobre aquilo, mas ainda assim...
Por que ele fez parecer que estava tão interessado, se para ele era
um grande tanto faz?
Ele não apareceu e nem a procurou por dias. Ela não entendia por
que se importava tanto com isso.
Ou talvez não se importasse. Talvez estivesse apenas confusa e
curiosa sobre tudo.
Hannah se recompôs e ajeitou suas coisas nas mãos.
Respirou fundo pela milésima vez.
— Deixa pra lá. Não foi culpa sua.
Louis a olhou, confuso pela mudança repentina de humor.
Mas então, sorriu.
— O que vai fazer com isso? — Apontou para os pedaços de papel
que um dia foram uma redação.
— Mágica, para ver se volta ao normal.
Louis riu.
64
Dessa vez, sem sarcasmo.
Hannah ficou encantada novamente por aquele sorriso. Por um
instante, esqueceu das dúvidas e frustrações. Foi contagiada a rir
junto.
Estava pronta para ir embora, mas ele segurou seu braço,
impedindo-a.
— Se por acaso precisar de ajuda, me procura na quadra. Passo a
maior parte do tempo lá.
A frase foi dita de maneira simplista e curta.
Mas para Hannah, foi algo grande. Uma resposta indireta e tardia
em forma de simpatia.
Uma informação útil. Como se ele soubesse que eles se veriam mais
vezes. Como se ele quisesse vê-la mais vezes.
Pela expressão no rosto, ele parecia querer dizer mais do que disse
naquelas palavras.
Hannah gostou disso.
Ela não sabia por quê. Mas gostou.
Balançou a cabeça em concordância e seguiu seu caminho sem
olhar para trás.
Talvez vacilasse com um sorriso satisfeito no rosto se olhasse para
ele novamente.
Hannah caminhava pelo campus após um dia cheio, sem um destino
certo.
Depois do incidente com a redação, teve que enfrentar o professor
e ouvir seus sermões por longos minutos até que ele finalmente
cedesse um horário extra para que ela entregasse o trabalho.
Isso a fez permanecer na escola por mais tempo do que o normal.
65
Em dias tranquilos, sem imprevistos com redações, suas aulas iam
até as 16h.
Agora eram 17h30 e ela passeava pelo campus, aguardando o
professor ter um tempo para recebê-la.
Ao mesmo tempo, tentava afastar os pensamentos que insistiam
em girar em torno de Louis.
Mas que, sem perceber, numa direção automática do seu
emocional, seus passos a levaram até a quadra.
Ela parou ao lado das grades altas que separavam a arquibancada
do espaço de jogo, observando de longe.
Louis estava lá.
Exatamente como disse que estaria.
Jogava basquete com alguns amigos, mas diferente dos outros, que
riam e trocavam provocações entre si, ele parecia completamente
focado no jogo.
Cada movimento era preciso. Cada passo, calculado.
O som da bola batendo contra o chão era ritmado, quase hipnótico.
Ele se movia com uma confiança silenciosa, como se soubesse
exatamente o que estava fazendo sem precisar pensar.
Hannah cruzou os braços, observando-o por um instante.
Ele era bom. Muito bom.
O jeito como ele segurava a bola, como analisava o espaço antes de
avançar, como desviava dos outros jogadores sem esforço—tudo
parecia natural, como se o jogo fosse uma extensão dele.
E isso a incomodou.
Como ele conseguia ser tão despreocupado enquanto ela ainda
tentava entender o que diabos estava acontecendo entre eles?
66
Louis pegou a bola, fez algumas jogadas—muito boas, por sinal—
mas antes de arremessar, olhou na direção dela.
Hannah estacou assim que o viu na quadra.
Louis a percebeu quase no mesmo instante — e, ao contrário do
que esperava, não sorriu logo de cara. Seu olhar segurou o dela por
um segundo a mais do que o necessário.
Sem dizer nada, virou o corpo, arremessou a bola de uma distância
improvável… e acertou.
A galera comemorou com gritos e tapas nas costas, mas ele não se
envolveu.
Continuava olhando pra ela.
Hannah desviou o olhar rápido, cruzando os braços como se aquilo
não significasse absolutamente nada. Mas sentia, sim, o calor
subindo pelo rosto.
Louis fez sinal de tempo, limpou o rosto com a toalha pendurada no
ombro e veio andando até ela.
— Veio me ver jogar? Que honra. — disse, com aquele sorriso de
canto que parecia sempre saber mais do que dizia.
— Eu estava só… passando. — rebateu, direta.
— Passando por dentro da quadra? Coincidência bem planejada.
Ela rolou os olhos.
— Você tem resposta pra tudo, né?
— Quase tudo.
Hannah arqueou a sobrancelha, sem sorrir. Mas o canto da boca
ameaçou mexer.
Ele se sentou num dos bancos da arquibancada e bateu com a
palma ao lado, chamando-a.
67
Ela hesitou, mas acabou sentando. Com uma distância mínima —
aquela que eles fingiam que não notavam.
— Então? — ele perguntou. — Conseguiu terminar a redação ou tá
enrolando o professor?
— Eu terminei… com muita dor e sofrimento.
— Sofrimento? Por minha causa? — ele levou a mão ao peito,
teatral. — Me sinto lisonjeado.
— Você é muito convencido.
— A gente precisa ser bom em alguma coisa, não é? — ele deu de
ombros. — E eu sou péssimo em matemática.
Ela riu, de verdade dessa vez. E ele sabia que aquele sorriso havia
acabado de garantir o dia.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, observando o movimento
da quadra. O braço dele quase encostando no dela. Quase.
— Você vai ficar até mais tarde hoje? — ele perguntou, casual.
— Até umas 18h30, por quê?
— Nada. Só curioso.
— Você faz muitas perguntas.
— Só com gente difícil de entender.
Ela lançou um olhar de canto, desconfiada.
— E você acha que me entende?
— Acho que você faz questão de parecer difícil. — ele respondeu,
tranquilo. — Mas não sei se é tão complicada assim.
— Talvez eu seja só educadamente inacessível.
— Isso é só o que você quer que eu pense.
Hannah balançou a cabeça, prendendo o riso.
— Você fala demais.
68
— Mas você escuta. — ele rebateu, e dessa vez, foi impossível
conter o sorriso.
O silêncio se instalou, confortável demais para dois que ainda
fingiam ser estranhos. Hannah manteve o olhar fixo em algum
ponto adiante, como se observar o movimento lá fora fosse mais
seguro do que encará-lo.
Ela queria manter as defesas erguidas, repetir para si mesma que
ele poderia ser como todos os outros — alguém que brinca, que vai
embora, que não fica.
Mas, de alguma forma, aquele espaço ao lado dele estava ficando
fácil demais de ocupar. Natural
Louis também a observava de lado, e o canto da boca dele curvou
em resposta ao sorriso que ela, mesmo tentando esconder, deixou
escapar.
Um sorriso que, para ele, foi resposta o bastante.
Mas havia um problema.
E se se ela abrisse a porta, mas ele não quisesse entrar?
Minutos se passaram.
Louis tentava, em vão, fazer sua mente acompanhar o corpo e se
focar no jogo. Mas os pensamentos só o levavam a ela.
Hannah já havia ido embora. Não muito depois que ele voltara à
quadra. Mas mesmo com sua ausência, era como se estivesse ali —
circulando pela mente dele como se tivesse deixado parte de si
impregnada no ar.
Era confuso. Louis não estava acostumado com isso.
Com alguém bagunçando sua cabeça sem permissão. Com o corpo
reagindo por conta própria, movendo-se até ela automaticamente —
como se obedecesse a uma ordem silenciosa, interna,
desconhecida.
69
Ele não entendia como, em meio a tanta coisa ao redor, seus olhos
só conseguiam enxergar ela.
Mesmo que seu coração seguisse firme, blindado… outras partes de
si respondiam com uma urgência desconcertante.
E isso o incomodava profundamente.
O desconforto de sentir. De ser tocado, mesmo sem ser tocado.
Louis evitava olhar na direção por onde Hannah havia saído, como
se o simples ato pudesse entregá-lo — para os outros, ou pior, para
si mesmo.
Respirou fundo, mantendo os olhos fixos nos colegas.
Não no jogo.
Não nela.
Mas sua mente não estava ali. Não de verdade.
— Tá distraído hoje. — disse Justin, surgindo ao lado dele com uma
garrafinha de água.
Louis continuou calado.
Justin era seu amigo há tempo suficiente pra saber quando o
silêncio era mais verdadeiro que qualquer resposta.
— Vi você conversando com ela outro dia.
Louis ergueu uma sobrancelha, devagar, sem virar o rosto.
— Ela quem?
Justin soltou uma risada breve.
— Não se faz de burro. Aquela garota de agora pouco.
Louis apenas voltou a olhar pra quadra. Quase como se o nome
dela fosse perigoso demais pra ser dito.
— Ela parece legal. E bonita.
Silêncio.
70
— Inteligente também. Gosto disso.
O maxilar de Louis travou só por um segundo.
Justin continuou:
— Vocês estão ficando?
— Não.
— Se conhecendo, então?
Louis soltou um suspiro leve pelo nariz.
Queria que fosse fácil assim. Dar um nome. Colocar numa caixa.
Mas não era.
— A gente conversa, só isso.
Justin assentiu, tranquilo.
— Bom, de qualquer forma... — ele hesitou por um segundo —
estava pensando em chamar ela pra sair.
Louis piscou uma vez. Lentamente.
— O quê?
— Não hoje. — Justin riu, tentando deixar a fala casual. — Só achei
que ela parece boa demais pra desperdiçar uma tentativa.
O coração de Louis bateu forte. Uma mistura de incômodo com
irritação
“Boa demais”
Isso soou como um insulto para os ouvidos de Louis.
Mas ele não deixou transparecer. Ainda não.
— Não sabia que você estava nessa vibe romântica agora.
— Nem é isso. — Justin deu de ombros. — Mas tem gente que
aparece e a gente sente vontade de tentar. Só isso.
71
A frase caiu como um estalo seco no meio do peito de Louis.
“A gente sente vontade de tentar.”
Mas por que justo agora? Por que com ela?
E por que... A vontade de quebrar o nariz dele?
— Justin. — ele falou, agora olhando diretamente pro amigo.
O tom era baixo. A expressão, neutra. Mas o olhar... O olhar dizia
tudo.
— Fique longe dela.
Justin arqueou uma sobrancelha, confuso.
— Calma, cara. Você acabou de dizer que não estão ficando...
— Não te interessa. — Louis respondeu, sem desviar o olhar. —
Fique longe dela mesmo assim.
Justin o olhou por um tempo.
O silêncio entre eles se estendeu, carregado.
E então, ele assentiu uma vez, devagar.
— Tudo bem...
Louis desviou o olhar, sentindo o próprio coração ainda acelerado e
se gastou bruscamente.
Subiu os degraus da arquibancada sem dizer mais nada, as mãos
cerradas nos bolsos da calça.
Chamaram por ele da quadra.
Ele ignorou.
Não sabia por que aquilo o afetava tanto. Era só uma garota. Uma
garota com quem ele mal conversava.
Uma garota que ainda nem fazia parte da vida dele.
Mas mesmo assim...
72
A ideia de outro alguém se aproximando dela fazia algo dentro dele
ruir.
Como se estivesse perdendo algo que nem era seu.
E ele não estava gostando disso. De não saber como parar.
73
CAPÍTULO 7
DESCOMPASSO
Jung caminhava pelo corredor da administração com passos rápidos
e irritados.
Ela não gostava nem um pouco de burocracias. Odiava regras rígidas.
E, acima de tudo, odiava ser chamada na direção por algo tão
insignificante.
Mas lá estava ela, segurando um papel de advertência, porque
aparentemente não assistir uma das aulas do seu plano de estudos
era um problema sério.
— “Isso pode ser prejudicial para sua formação acadêmica, senhorita
Jung.” — Ela imitou o tom formal da coordenadora, revirando os
olhos.
Era só uma aula de Filosofia e Pensamento Crítico.
Nada contra essa matéria, mas considerando o que trabalharia no
futuro, ela simplesmente não via necessidade de estar ali. Ainda
assim, se quisesse evitar mais problemas, teria que assistir à aula
hoje.
Suspirando, Jung dobrou o papel e enfiou no bolso da jaqueta antes
de seguir para a sala.
Enquanto caminhava pelos corredores, observou os alunos dispersos,
alguns indo para suas próximas aulas, outros apenas conversando
pelos cantos.
Ela não queria estar ali.
Mas já que precisava, que fosse rápido.
Ao chegar em frente à sala, Jung observou o ambiente silencioso,
com apenas o som de algumas conversas baixas entre os alunos e o
arrastar das cadeiras contra o piso.
74
O cheiro de café misturado com papel velho pairava no ar, típico de
salas onde professores acumulavam materiais didáticos há anos.
O professor já estava lá, organizando alguns papéis sobre a mesa.
Assim que Jung entrou, ele ergueu o olhar e sorriu de forma
profissional.
— Ah, você deve ser a nova aluna da turma.
Jung sorriu de volta de forma educada.
— Algo assim.
O professor gesticulou para que ela se aproximasse.
— Pessoal, essa é Jung. Ela vai acompanhar nossas aulas a partir de
agora.
Alguns alunos olharam rapidamente para ela, outros nem se deram
ao trabalho de reagir.
Jung não se importava, mas também pensou que seus novos colegas
poderiam ser mais simpáticos. A maioria demonstrou o contrário.
Ela apenas acenou de forma casual e procurou um lugar para se
sentar.
Foi então que viu ele.
No fundo da sala, um garoto estava sentado no canto, olhando pela
janela.
O único que não deu atenção ao professor.
Ele parecia absorto em seus pensamentos.
Havia uma cadeira vazia ao lado dele, então Jung seguiu até lá e se
sentou.
O garoto nem se mexeu com sua presença.
Ela achou estranho, mas então notou o fio dos fones por baixo do
capuz dele.
75
Ele parecia alheio ao mundo ao redor, completamente entretido em
sua música e na vista pela janela.
Jung sorriu.
Ela adorava um desafio social.
Com um gesto rápido, cutucou o braço do garoto.
Ele deu um leve sobressalto, virando-se para ela com uma expressão
de estranheza.
Seu primeiro pensamento foi: “Uau, que olhos!”
Ele parecia ser bem alto pela maneira que estava sentado, e seu físico
era forte. Mas seu rosto era como de um anjo.
Pele clara como a neve, cabelos escuros e enrolados, algumas
mechas caindo sobre o rosto.
E seus olhos—castanhos super claros, quase cor de mel.
Jung piscou, surpresa por um instante, mas logo recuperou sua
energia habitual.
— Oi! — disse, animada.
Ele franziu a testa levemente, ainda tentando entender a abordagem
repentina.
Tirou um dos fones e respondeu baixo:
— Oi.
Jung apoiou o cotovelo na mesa e inclinou levemente a cabeça,
analisando-o.
Depois, estendeu a mão para ele.
— Meu nome é Kim HaJung. Mas todo mundo me chama de Jung, ou
só Ju. Entre outros apelidos que não vêm ao caso. — Ela falou rápido,
dando uma leve pausa para respirar antes de continuar.
Dylan olhou para sua mão estendida por um instante antes de apertá-
la.
76
Sua mão era enorme comparada à dela.
E ele notou.
— Qual seu nome?
Ele hesitou por um segundo, mas respondeu de forma gentil:
— Dylan. Dylan Madox.
Jung permaneceu o observando com os olhos bem abertos—ou o
máximo que conseguia abrir por suas características asiáticas—
indicando que esperava mais informações.
Dylan soltou um pequeno sorriso e acrescentou:
— Meus amigos me chamam de Madmax.
Jung arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Madmax? Tipo, o videogame?
Dylan sorriu, envergonhado.
— É, eu sei…
— O que foi? Eu gostei! — Jung sorriu de volta, ainda mais simpática.
Dylan relaxou um pouco.
— Você é nova aqui?
— Não, já estou aqui há um tempo. E você?
Ele tirou os fones completamente, demonstrando mais atenção à
conversa.
— Sou de Berkeley, mas me mudei pra NY. Entrei na universidade há
apenas algumas semanas.
— E como tá sendo a experiência?
Dylan soltou um pequeno sorriso.
— Ainda me perco no campus. É bem maior do que as universidades
da minha cidade.
77
Jung riu.
— É, aqui pode ser um completo labirinto pros novatos. Mas pra sua
sorte, eu conheço cada canto desse lugar. Posso te apresentar
qualquer dia.
Dylan ergueu as sobrancelhas, surpreso por encontrar alguém tão
simpática e disposta pela primeira vez nessas semanas.
— Sério? Seria daora.
Ele sorriu, demonstrando sua empolgação.
— Você é de algum comitê de boas-vindas da universidade?
Jung riu, soltando um pequeno barulho que tentou disfarçar depois.
Dylan riu junto, achando graça na atrapalhação dela.
— Não, não. Só sou muito enxerida.
Dylan soltou uma gargalhada baixa, mas ainda assim chamando
alguns olhares ao redor.
Jung gostou do jeito dele.
Tímido, mas não fechado.
Reservado, mas receptivo.
Ela sentiu que poderia quebrar essa pequena barreira com facilidade
e ajudá-lo a se enturmar.
Mas antes que pudesse continuar puxando assunto, o professor olhou
na direção deles e franziu o cenho.
— Jung, Dylan. Se puderem guardar a conversa para depois da aula,
eu agradeço.
Jung soltou um riso curto e ergueu as mãos em rendição.
— Foi mal, professor.
78
Dylan apenas acenou de forma discreta e olhou para Jung, que já
estava totalmente voltada para a aula, pegando seus livros e canetas
na bolsa.
Ele observou o jeito despreocupado dela, a naturalidade com que se
adaptava ao ambiente.
E sorriu.
Ele tinha gostado de Jung.
Da maneira como ela parecia não sentir timidez nem vergonha de
nada.
E, sem perceber, estava permitindo que algo se desenvolvesse dentro
de si.
Seus olhos não se desviaram dela, mesmo depois da conversa ter
terminado.
Após algumas aulas da manhã, Jung saiu da sala sem pressa,
sentindo que o tempo tinha passado mais rápido do que esperava.
Ela ainda tinha um tempo antes da próxima aula, então decidiu ir até
o refeitório.
O cheiro de comida quente e café recém passado preenchia o
ambiente, misturado ao burburinho das conversas e ao som das
bandejas sendo colocadas nas mesas.
Ela procurou por um instante, até que avistou Hannah já sentada,
comendo com Evan — que também era o melhor amigo de Hannah.
E consequentemente de Jung também.
Evan era alto, mas não tanto. Sua pele era escura, e seu cabelo era
bem baixo. Seu físico era forte, mesmo sem academia—
provavelmente resultado dos treinos de basquete que fazia. Ele era
do time da universidade.
Sem pensar duas vezes, Jung se aproximou e se jogou no banco ao
lado de Hannah.
79
— E aí, como foi sua noite? — perguntou, pegando um pedaço da
batata frita de Hannah sem cerimônia.
Hannah fez uma expressão para conter o sorriso.
Ela lembrou de Louis.
Da conversa curta e super normal que tiveram, mas que, de alguma
forma, tinha mexido com ela.
Ainda assim, não ia falar sobre isso para Jung.
Se mencionasse Louis, Jung entenderia que havia algo entre eles. Ou
pior, que Hannah gostava dele.
— Fiquei até as 18h. Depois Evan me levou pra casa de moto.
— Foi um favor, que eu com certeza vou cobrar — Evan disse,
apontando para Hannah.
Jung riu e revirou os olhos.
— Você só quer se exibir porque tem moto.
— E você só reclama porque não tem.
— Eu não preciso de uma moto pra ser incrível.
— Não, mas precisa de mim pra te dar carona.
Jung bufou, pegando mais batatas da bandeja de Hannah.
— Você é insuportável.
— E você é folgada.
Hannah apenas observava os dois, rindo baixo.
Eles sempre se perturbavam desse jeito.
Jung fingia ter ciúmes de Evan, já que Hannah, por fazer as mesmas
aulas que ele, acabava sendo mais próxima.
Mas então, enquanto brincavam, Jung viu Dylan passando pela mesa
com sua bandeja nas mãos.
80
Ela se levantou de repente.
— Já volto.
Sem dar explicações, seguiu até ele.
Dylan estava prestes a se sentar quando Jung puxou a cadeira à sua
frente e se jogou no assento, o que o assustou levemente.
Ela riu.
Por mais que fisicamente tivesse uma aparência masculina, suas
reações e expressões eram meigas.
Seus olhos castanhos claros tinham um brilho tranquilo.
Jung o achava fofo.
Até se assustando.
— Como foi sua última aula? — perguntou, animada.
Dylan piscou, ainda se recuperando da abordagem repentina.
— Foi tudo bem. Só não gostei da voz da professora.
Ele fez uma pausa para se acomodar e acrescentou:
— Parece o comercial da Top Therm.
Jung caiu na risada.
— Todo mundo fala isso!
Dylan sorriu, gostando da reação dela.
— Você teve muitas aulas depois?
— Nossa, sim. Tive todas possíveis. E já, já tenho mais.
— Eu não tenho mais aulas hoje.
— Vai ficar por aqui?
— Acho que sim. Na biblioteca.
Jung arqueou uma sobrancelha, interessada.
81
— Gosta de ler? — Ela sorriu.— Tô cada vez mais gostando de você.
Aquela frase afetou Dylan.
Seu coração acelerou.
Por mais que soubesse que ela não tinha dito daquela forma, ele não
conseguiu evitar imaginar como seria se fosse na intenção que ele
pensou.
Dylan nunca teve muitos amigos, muito menos com garotas.
Nunca viveu um romance.
E ter uma garota como Jung querendo conhecê-lo mais, se
aproximando por vontade própria, fazia ele se sentir bem.
Muito bem.
Ele se despertou de seu transe rapidamente ao perceber que ela
esperava uma resposta.
— Sim, gosto. — disse baixo e, reunindo coragem, tentou algo. —
Você pode passar lá se tiver algum horário livre. Não sei…
Jung sorriu.
— Boa ideia!
Dylan fez uma expressão surpresa e empolgada ao mesmo tempo,
tentando conter sua animação atrás de um simples sorriso.
Foi então que Jung viu Hannah e Evan a esperando na saída do
refeitório, depois de chamarem sua atenção rapidamente.
— Tenho que ir agora. Mas qualquer coisa passo lá!
Antes de sair, Jung se despediu de Dylan com um sorriso.
— Até mais, Mady.
Dylan piscou, surpreso.
Ela tinha acabado de dar um novo apelido para ele.
82
E, por algum motivo, isso o fez especial. Feliz por alguém tê-lo
acolhido.
E por esse alguém ser tão linda.
Jung atravessava a área aberta com passos firmes, segurando a alça
da mochila, enquanto olhava o celular, ponderando.
Por um instante, pensou seriamente em ir direto pra casa. Estava
cansada. O dia tinha sido longo, cheio de aulas, e seu humor não era
exatamente o mais sociável naquele momento.
Pegou o celular e abriu a conversa com Leon.
“Amor, pode vir me buscar?”, digitou.
A mensagem mal foi entregue e a resposta veio rapidamente.
“Tô chegando.”
Ela suspirou, guardando o celular no bolso da jaqueta jeans. Então,
sem muito pensar, levou a mão de novo ao bolso, cogitando enviar
uma mensagem pra Dylan. Algo como “Fica pra próxima, tá?” ou
“Acho que não vai dar hoje.”
Mas percebeu, de repente, que... não tinha o número dele.
Parou no meio da calçada, olhando pro nada.
— Aish... — resmungou pra si mesma, cruzando os braços.
Por mais que tentasse convencer a si mesma de que não devia nada
a ele — “Nem foi um convite oficial, só uma ideia jogada” —, a
consciência pesava. E se ele realmente estivesse esperando?
Olhou na direção da biblioteca, que ficava a poucos metros dali, logo
depois do pátio principal. O prédio de fachada antiga, com janelas
altas de vidro fosco, parecia ainda mais silencioso àquela hora.
Mordeu o lábio inferior, pensativa.
83
“Só uma passadinha. Só pra conferir. E se ele não estiver, eu volto e
pronto.”
Sem nem perceber, já estava cruzando o pátio em passos rápidos.
Ao empurrar a pesada porta de vidro da biblioteca, foi recebida por
um cheiro de livros antigos, madeira encerada e uma brisa gelada do
ar-condicionado. O silêncio quase absoluto era quebrado apenas pelo
som das teclas dos computadores, algumas páginas sendo viradas e
o leve arrastar de cadeiras.
Seus olhos percorreram o ambiente, escaneando as mesas até que…
lá estava ele.
Da mesma maneira como de antes, próximo à janela, com o capuz
sobre a cabeça e os fones enfiados nos ouvidos. Só que, dessa vez,
ao invés de olhar pro vazio, Dylan segurava um livro aberto nas
mãos, completamente absorto na leitura.
Jung não pôde evitar sorrir. Ele parecia exatamente igual mais cedo:
levemente curvado sobre a mesa, uma perna esticada pra frente e
outra dobrada, balançando no ritmo da música que, provavelmente,
ele escutava.
Ela o observou por alguns segundos, sem pressa. Tinha algo quase
cativante naquele jeito distraído, alheio ao mundo. Quase como um
garoto perdido no próprio universo particular.
Se aproximou devagar, pisando leve sobre o piso de madeira, mas...
— Boo! — disse, puxando o encosto da cadeira à frente dele e se
jogando nela.
Dylan levou um susto visível. Arregalou os olhos, quase deixando o
livro cair, e tirou um dos fones apressadamente.
— Caramba... — soltou, colocando a mão no peito — Você tem um
problema sério com sustos, sabia?
Jung explodiu em uma risada curta, levando a mão à boca, tentando
não ser repreendida pelos olhares da bibliotecária mais ao fundo.
84
— Desculpa, não resisti.
Ele respirou fundo, ajeitando o capuz que quase escorregou com o
susto, e balançou a cabeça, segurando um sorriso.
— Isso é algum um prazer esquisito em assustar os outros?
— Talvez. — respondeu, apoiando os braços na mesa, se inclinando
um pouco — E aí, tá estudando ou só fingindo?
Dylan ergueu o livro, mostrando a capa.
— Na verdade... tentando ler. Mas admito que passei mais tempo
olhando pela janela.
Jung riu baixo. Seus olhos analisavam cada detalhe dele, desde as
mechas cacheadas que escapavam do capuz até as mãos, que
seguravam o livro com os dedos longos e um pouco trêmulos, talvez
pelo susto.
Por alguns segundos, eles ficaram apenas se olhando. Um daqueles
silêncios que não são desconfortáveis — pelo contrário, carregam
uma estranha leveza, como se o mundo lá fora tivesse diminuído o
volume.
Mas o som do celular de Jung vibrando quebrou tudo. Ela olhou a tela
e suspirou.
— Minha carona chegou.
Dylan ajeitou a postura, tentando disfarçar a pequena decepção que
imediatamente invadiu seu rosto.
— Ah... é, claro.
— Você vai? — ela perguntou, se levantando, ajeitando a mochila nos
ombros.
Ele hesitou por meio segundo, então fechou o livro e colocou dentro
da mochila.
— Na real... acho que vou sim. Já deu por hoje.
85
Eles saíram juntos, atravessando o corredor da biblioteca e
empurrando as portas de vidro, que rangiam levemente. O vento lá
fora agora estava mais frio, e algumas nuvens começavam a
esconder o sol, deixando o fim de tarde mais cinza.
Conversavam baixo, rindo de alguma piada que ela tinha feito —
sobre o quanto ele parecia um NPC quando ficava olhando pela
janela.
Mas assim que dobraram a esquina do prédio, Jung viu o carro preto
já encostado no meio-fio, e, de braços cruzados, apoiado na lataria,
estava Leon.
O sorriso que estava no rosto de Dylan foi, pouco a pouco, se
desfazendo.
Leon não sorria. Sua expressão era fria, dura. Seu olhar não parecia
apenas de quem esperava — parecia de quem avaliava, julgava e
desaprovava.
Dylan percebeu imediatamente.
Jung acenou pra Leon com um sorriso automático, ignorando o clima
estranho que, claramente, pairou no ar.
— Bom... é isso. — disse, se voltando pra Dylan — A gente se vê,
Mady.
E, antes que ele respondesse, ela se inclinou rapidamente e deu um
selinho no canto da boca de Leon — sem muita cerimônia, como
quem faz isso por costume, sem pensar.
O mundo de Dylan parou por um segundo.
Seus olhos ficaram presos naquela cena. Sua mão, que estava no
bolso, apertou o tecido da calça, sem nem perceber.
Jung se virou pra ele, sorrindo e acenando com a mão.
— Tchau!
86
Dylan, completamente travado, demorou tanto pra processar que
sequer conseguiu retribuir o aceno. Apenas ficou ali, observando
enquanto ela entrava no carro e a porta se fechava.
O motor ronronou e, aos poucos, o carro sumiu dobrando a rua.
Dylan ficou parado, encarando o vazio, até soltar um suspiro pesado
e enfiar as mãos nos bolsos.
Mas, mesmo tentando se convencer de que aquilo não significava
nada... não conseguia ignorar aquele nó desconfortável no peito.
E muito menos... aquela sensação incômoda que Leon tinha deixado.
Ele definitivamente não gostou daquele cara.
Nem um pouco.
87
CAPÍTULO 8
SOB A PELE
O som dos pneus deslizando sobre o asfalto preenchia o espaço
dentro do carro como uma trilha sonora incômoda. Do lado de fora,
o céu começava a se dourar nas bordas, tingindo o painel em tons
quentes e suaves.
Lá dentro, o silêncio era mais gelado.
O motor roncava baixo, mas para Jung, parecia amplificado — talvez
porque nenhum dos dois tentava competir com ele.
Leon dirigia com uma das mãos no volante e a outra apoiada na
porta. Os dedos tamborilavam ritmadamente, quase distraídos, mas
havia uma rigidez nos ombros que não passava despercebida. O olhar
estava fixo na estrada, mas parecia não ver nada além da própria
linha de pensamento.
Jung, no banco do carona, rolava o feed no celular, alheia por alguns
instantes ao clima tenso. Mas com o tempo, o silêncio foi ficando
espesso demais para ser ignorado.
Ela ergueu os olhos, franzindo levemente a testa.
— Tá tudo bem? — perguntou com leveza, puxando de volta a
atenção dele.
Leon piscou mais devagar do que o normal, como se estivesse
recalculando uma rota interna.
— Uhum — respondeu, curto.
Ela o observou por mais um segundo, mas preferiu não insistir. Deve
ser só cansaço, pensou. Ou dor de cabeça.
Alguns segundos depois, ele falou de novo — dessa vez com um tom
tão casual que pareceu ensaiado.
— Engraçado...
88
Ela virou o rosto na direção dele, desconfiando.
— Nunca te vi tão... empolgada com alguém — completou, ainda
olhando adiante, a voz soando calma demais.
Jung franziu um pouco mais a testa, sem entender bem onde aquilo
ia dar.
— Han? — soltou uma risada leve. — Sobre o quê?
— O garoto. Da biblioteca.
— Ah, o Mad? — ela disse, rindo. — Na verdade o nome dele é Dylan.
Mas chamam ele de Madmax, acredita? Achei hilário.
Ela continuou rindo sozinha, sem notar o silêncio que crescia ao lado.
— Dylan... Entendi — disse Leon, com um meio sorriso que não
chegou aos olhos.
Ela percebeu a pausa, então olhou de relance pra ele.
— Mas por quê, amor?
— Nada não — respondeu. — Só achei curioso você tão confortável
com alguém fácil assim. Acho que não lembrava o quanto você é
sociável.
— Ah, sei lá... Achei ele gente boa, meio deslocado. Um pouco
engraçado até. E estudioso. Ele sempre fica sozinho, achei chato
deixar ele lá daquele jeito, sabe?
Leon apertou o volante, os nós dos dedos ganhando um leve tom
pálido.
— Gente boa...
Jung não notou o veneno que escorava discretamente nessas
palavras. Nem o olhar lateral rápido ou a tensão que percorreu a
mandíbula dele.
— É — disse, voltando pro celular sem notar o desconforto. — Só
isso.
89
Leon manteve o sorriso, tranquilo.
— Pode ser que vocês virem amigos também. Seria legal —
acrescentou Jung, distraída.
“Também...”
— Seria ótimo... — ele repetiu, com um tom gentil. Mas seus
pensamentos não pareciam acompanhar esse sorriso.
O caminho até em casa foi curto, mas carregado de um silêncio que
nenhum dos dois nomeou. Quando chegaram, o céu já estava tingido
de laranja profundo, e a fachada do prédio parecia absorver o fim do
dia numa calma silenciosa demais.
Leon destrancou a porta do apartamento com um “chegamos” gentil,
abriu espaço para ela passar e soltou um beijo demorado em sua
têmpora, como fazia sempre.
Os gestos estavam lá. Mas estavam… automáticos.
Jung deixou a mochila no canto do sofá, alongando os braços com
um leve bocejo.
— Tô exausta — disse ela, tirando os tênis.
Leon fechou a porta com calma e deixou as chaves no aparador. O
tom de voz era o de sempre.
— Quer café?
— Você pergunta como se eu algum dia tivesse dito não.
— Certa vez você disse “tô de TPM, me traz chá de camomila” — ele
rebateu, já indo pra cozinha.
— Isso foi uma fase muito sombria — respondeu Jung, rindo sozinha
indo em direção ao quarto.
Aquilo fazia parte da rotina. Ele sempre preparava café no fim do dia.
Mesmo com os pensamentos embaralhados, seus movimentos foram
90
mecânicos e precisos: filtro no lugar, colheradas exatas, água na
medida.
Mas em vez de esperar o cheiro subir, Leon ficou parado, apoiado na
pia, olhando fixo para o rejunte do azulejo como se tentasse resolver
um enigma secreto entre as linhas.
“O sorriso dela foi normal. Ela sempre sorri desse jeito. Sempre foi
leve com todo mundo.”
O café borbulhou, e ele só percebeu quando o aroma quente e
familiar começou a preencher a cozinha.
Quando Jung voltou, envolta na toalha, ele a observou com a caneca
na mão. O olhar deslizou pelos ombros dela. Um meio sorriso brincou
nos lábios. Entregou a caneca como de costume, mas por dentro,
algo se firmava. Como se aquele gesto dissesse: aqui, tudo ainda é
meu.
Ela pegou a xícara e se apoiou na bancada, estreitando os olhos com
diversão.
— Pronto pra mais um daqueles banhos estratégicos?
Leon respondeu com um olhar demorado, indo em sua direção. Os
braços já envolvendo a cintura dela com naturalidade ensaiada. E a
beijou.
Pra ela, era um beijo luxuoso. Aquele tipo de carinho confiante que
ele oferecia com frequência. Um carinho inteiro. Quente. Familiar.
Mas pra ele, era outra coisa. Um lembrete silencioso. Um selo.
Ela é minha.
No chuveiro, a água quente misturava os cheiros de shampoo e
intimidade. Ele passava os dedos nos ombros dela com uma calma
antiga, tão comum que beirava a coreografia.
Beijos no pescoço. Toques nos cabelos. A voz leve como sempre.
Por dentro, no entanto, a mente dele fervia.
91
“Só gente boa.”
“Mad.”
“...Amigos também.”
Ele repetia baixinho no fundo da consciência, como se tentar escutar
de novo cada palavra pudesse mudar o sentido.
Leon pegou o frasco de shampoo e esfregou com delicadeza,
enquanto olhava a prateleira lotada de produtos.
— Três máscaras e um condicionador? Qual a lógica?
— A lógica é que cabelo bom exige prioridade orçamentária.
Ele sorriu. Apertou a nuca dela de leve, em um gesto carinhoso.
Beijou o ombro. Fez tudo como sempre.
Mas sentia-se assistindo a si mesmo de fora do corpo.
Presente em cada detalhe, exceto nos próprios pensamentos.
Mais tarde, já de camiseta larga e com as pernas cruzadas no meio
da cama, Jung se jogou entre os travesseiros mexendo no celular.
Leon deu um beijo suave na testa e sorriu.
— Vou passar no escritório rapidinho. Prometo não sumir.
— Vai revisar o mundo lá?
— Não, só um contrato. Meia horinha.
Ele foi.
Sentou diante do notebook, a tela acesa refletindo nos olhos parados.
As mãos repousavam inertes no colo. Os ombros, relaxados demais.
O rosto, impassível.
Mas não abriu nenhum arquivo.
Por dentro, nada estava quieto.
Gente boa.
Mad.
92
E mesmo com todas as luzes acesas na casa, ele sentia como se
dentro dele... algum interruptor tivesse começado a falhar.
No quarto, o ventilador girava devagar. As luzes da luminária
pintavam o ambiente com tons mornos, e o cheiro de lavanda do
aromatizador preenchia o ar de forma sutil.
Jung estava deitada de lado na cama, o celular no ouvido e um braço
embaixo do travesseiro.
— Não te vi depois da segunda aula à tarde — disse Hannah do outro
lado da linha. — Onde você foi?
— Tive que resolver outro problema na direção — respondeu Jung,
mexendo nos próprios fios de cabelo. — Depois fiquei presa em umas
aulas... e antes de ir, acabei indo pra biblioteca.
— Biblioteca? Você nunca vai lá
— É.. Fui encontrar com o Dylan.
Houve uma pausa.
— Dylan? O garoto do refeitório?
— Esse mesmo — disse Jung, sorrindo.
— Nunca tinha visto ele. Desde quando vocês são amigos?
— Sei lá... Ele é novo aqui. A gente conversou na aula e foi tranquilo.
Ele é legal.
— E você lembrou dele no caminho pra casa? Sua capacidade social
me impressiona.
— Uhum. Ele parecia meio isolado. E, vamos combinar, ser solitário
na facul é a pior coisa.
— Nem me fala — disse Hannah, rindo leve.
93
— Então eu perturbei ele um pouco e ele acabou me chamando pra
ficar na biblio por um tempo. Como eu ainda ia esperar o Leon...
achei que não faria sentido só ir embora
— Hmm — respondeu Hannah com aquele tom que não era acusação,
mas... acompanhava.
— Que foi?
— Nada. Só... ele se sentiu confortável com você logo de cara?
Jung riu.
— Sim, ué. Eu sou ótima — brincou, rindo de si mesma. — E você
fala como se eu tivesse adotado o garoto.
— E não adotou?
— Ai, para. Ele só tava lá. E sei lá... achei ele fofo.
Ela mordeu o lábio logo depois que falou.
Como se pudesse engolir aquela palavra de volta.
— Fofo? — repetiu Hannah, já rindo.
— Não nesse sentido! — disse Jung, rindo junto. — Tipo... fofo de
tranquilo, sabe?
— Aham... — disse Hannah. — Bom, vou ficar de olho nesse Dylan
aí.
— Me respeita, garota! Eu só gosto de ajudar as pessoas.
— E ajudou bastante o fofinho — respondeu em tom de brincadeira.
— Às vezes o “fofo” não é só fofo... é esperto também.
— Hannah!
As duas caíram na risada. Jung se virou de barriga pra cima, rindo
alto, batendo as pernas no colchão.
Tão entretida, tão à vontade, que não notou.
A porta estava entreaberta. E, atrás dela, alguém ouvia.
94
Parado.
Imóvel.
O olhar vazio. Maxilar travado. Mãos cerradas em punhos, como se
segurasse algo invisível.
E naquele exato momento… algo dentro dele não quebrou.
Só ficou mais nítido.
“Dylan…”
O som da chamada encerrando soou baixo no quarto. Jung deixou o
celular na mesinha, se ajeitando entre os travesseiros. Pegou o livro
que estava na cabeceira, acendeu apenas a luz suave do abajur e se
perdeu nas páginas, tentando afugentar o sono que ainda não vinha.
O ambiente estava calmo, o ventilador rodando preguiçosamente,
espalhando aquele cheiro doce do aromatizador de lavanda.
O clique da maçaneta rodando fez seus olhos desviarem do livro por
um segundo. Leon entrou. Não disse nada. Apenas caminhou direto
pro banheiro, com a porta entreaberta, revelando seu reflexo no
espelho enquanto escovava os dentes.
Jung voltou os olhos pro livro, tentando focar, mas algo no silêncio
dele pesava diferente.
Do banheiro, Leon a observava. Os olhos corriam cada detalhe do
corpo dela. A pele clara, macia, que ele conhecia tão bem. A forma
como a camiseta — na verdade, uma das dele — subia sutilmente
nas pernas, deixando as coxas completamente expostas. A calcinha
rendada branca, simples, mas que pra ele parecia feita sob medida
pra provocar exatamente o que provocava agora.
O cheiro dela, mesmo à distância, parecia preencher todo o cômodo.
Doce. Quente. Familiar.
E só dele.
95
Leon cuspiu a espuma, lavou a boca e, antes de sair de vez, se apoiou
no batente da porta do banheiro. Braços cruzados no peito, o ombro
pressionado contra a madeira.
Ficou ali. Só... olhando.
Ela não percebeu de imediato. Mas, quando sentiu aquele peso
invisível de alguém a observando, ergueu o rosto, encontrando o
olhar dele.
Silêncio.
Jung, lentamente, fechou o livro, colocando-o na bancada ao lado.
Espelhando o jeito dele, deixou o corpo relaxar, cruzando uma perna
sobre a outra, como quem também queria observar.
Leon arqueou de leve uma sobrancelha, sentindo o peito expandir. O
olhar ficou mais pesado. Mais intenso. Como se os olhos dele
traçassem cada linha, cada curva, como quem memoriza. Como
quem grava na pele — ainda que só com os olhos.
Sem quebrar o contato, levou as mãos até a barra da própria camisa
e a puxou pra cima, arrancando-a num único movimento, jogando-a
pra dentro do banheiro.
Jung engoliu seco.
O som que não saiu da garganta ficou preso ali, junto do suspiro que
ela não quis deixar escapar.
O abdômen definido, o peito largo, os ombros fortes, os braços
tatuados — tudo nele parecia proposital demais. Ele sabia do efeito
que causava. Sabia, e agora não fazia questão nenhuma de disfarçar.
Ela via aquele corpo todos os dias. Dormia nele, acordava nele, mas...
não. Nunca se acostumaria. Nunca seria menos do que
esmagadoramente hipnótico.
Leon percebeu. Cada micro expressão dela não passava
despercebida. E um sorriso soprado escapou dos lábios dele.
96
Calmo. Lento. Deliberado.
Enfiou as mãos nos bolsos da calça e começou a andar na direção
dela. Cada passo era silencioso, mas pesado. Como se, a cada
movimento, ele deixasse claro quem conduzia aquela dança não dita.
O som dos passos no tapete parecia ecoar direto no corpo de Jung,
que, mesmo sem querer, sentiu-se arrepiar inteira.
Quando ele parou diante dela, não disse nada. Só olhou. Olhou como
quem não pedia permissão. Olhou como quem deixava claro, em
silêncio, que tudo ali era dele.
O ar ficou mais quente. Mais denso. E, pela primeira vez naquela
noite, o silêncio não era desconforto. Era convite.
— Por que tá me olhando assim? — ela tentou soar casual, mas a voz
saiu mais baixa, quase trêmula.
Leon se abaixou um pouco, apoiando uma das mãos no colchão,
inclinando-se até que seus rostos ficassem perigosamente próximos.
Os olhos dele ardiam. Calmos por fora. Incendiando por dentro.
— Porque eu posso — respondeu num sussurro rouco, que mais
parecia um arranhão na pele.
O sorriso torto que veio em seguida foi a sentença final.
E o resto...
O resto ficou nas entrelinhas que só eles sabiam ler.
97
CAPÍTULO 9
COLORINDO O INVISÍVEL
A sala 204 estava vazia.
As luzes apagadas deixavam os monitores com aquele brilho
esverdeado, meio fantasmagórico, de telas em standby. O ar-
condicionado chiava baixo, como um sussurro insistente.
Na última fileira, esticado entre duas cadeiras, Louis dormi, ou fingia.
O braço dobrado sob a cabeça, os pés cruzados, respirando devagar.
Ele gostava daquele lugar. Ali ninguém pedia nada. Ninguém falava.
E, principalmente… ninguém o olhava como se tentasse entender
mais do que ele estava disposto a mostrar.
Então, quando escutou o leve rangido da porta abrindo, não se
moveu. Só abriu os olhos devagar.
E viu ela.
Viu Hannah entrando como quem já conhecia aquele território. Fones
no ouvido. Cantarolando baixinho, balançando os ombros como se
dançasse pra si mesma.
— You’ve got that James Dean daydream look in your eye... —
sussurrou, sorrindo para ninguém.
Louis permaneceu onde estava. Quieto. O olhar fixo, pesado, como
se ela tivesse acabado de se tornar a única coisa existente no mundo.
Ela não o viu. Girava nos próprios passos, distraída, com aquela
leveza de quem acredita estar sozinha. Pousou a mochila numa
cadeira mais à frente, tirou um fichário, abriu o estojo. Riu de algo
no celular.
Então, virou-se, andando até o interruptor.
E o viu. Os olhos dela o encontraram no fundo da sala. Imóvel,
respirando.
98
O choque foi imediato. Ela levou a mão ao peito, arrancando um lado
do fone.
— Mas que... — arfou. — Sério?! Você tava aí esse tempo todo?
— Uhum — a voz dele saiu baixa, rouca, como quem estava mais
acordado do que parecia.
— E você achou legal ficar aí parado? Tipo um psicopata com
diploma? — a voz dela tentava soar indignada, mas havia mais
nervosismo do que raiva ali.
Louis ergueu uma sobrancelha, sem sair da posição.
— Você tava... inspirada.
Ela cruzou os braços, mas não se moveu. Só ficou ali, firme,
mordendo o lábio inferior, sem saber se estava mais constrangida ou
irritada.
— E você... sempre é esse tipo de assombração silenciosa?
— Só quando a cena vale a pena.
A garganta dela apertou. O dedo deslizou sem perceber pela capa do
fichário que segurada, desenhando linhas invisíveis.
Ele, enfim, se ergueu. Primeiro só apoiou os cotovelos na mesa,
depois deixou o corpo deslizar na cadeira, com os braços cruzados.
Com aquela postura largada que parecia descaso, mas transbordava
presença.
— Você sempre dança quando acha que tá sozinha? — perguntou, a
voz mais grave, mais baixa, arranhando levemente no fim.
Ela respirou fundo. Tentou controlar o sorriso que insistia em surgir.
— Você tem que parar de fazer tantas perguntas.
— Tenho que começar a afirmar agora? Se for assim, diria que você
dança muito bem.
— Eu sei, obrigada. Mas você sempre observa em as pessoas assim?
Em silêncio?
99
Ele inclinou a cabeça, deixando o olhar deslizar lentamente por ela —
do rosto aos pés.
— Só quando gosto do que vejo.
Por um segundo, o mundo pareceu encolher. Hannah desviou o olhar.
Fingiu mexer no fichário, no celular, em qualquer coisa que não fosse
ele. Mas a mão tremia.
— Eu vou fingir que você não disse isso — murmurou. Irritada por
ele agir dessa forma nada simples de entender.
— Pode fingir. — A voz dele caiu uma oitava. — Eu finjo o tempo
todo.
Ela respirou fundo, tentando controlar o ritmo acelerado do próprio
peito. Então, caminhou até a cadeira, se sentou. De costas pra ele.
De propósito.
Mas não fazia diferença. E os dois sabiam disso.
Algumas horas se passaram, mas, curiosamente, o ambiente parecia
congelado no tempo. Tudo seguia exatamente igual… pelo menos por
fora. Por dentro, havia uma guerra travada em silêncio.
Louis passara esse tempo inteiro fingindo — mal — que fazia qualquer
outra coisa além de observar Hannah. O jeito como ela franzia a testa
quando sublinhava algo, como mordia levemente o lábio inferior ao
tentar entender um trecho, até o jeito em que mexia o pé embaixo
da cadeira... absolutamente tudo nela tinha se tornado um ímã pros
olhos dele.
Já havia desistido faz tempo de fingir que estava ali por outro motivo
além dela.
Do outro lado, Hannah lutava. Lutava bravamente contra a vontade
quase incontrolável de olhar pra trás. De confirmar se ele ainda
estava ali. Se a olhava. Se respirava daquele jeito que parecia soprar
direto na nuca dela, mesmo com metros de distância.
100
A tensão era tão palpável que parecia um terceiro elemento na sala.
Mas, com o passar dos minutos, ambos cederam. Não totalmente,
mas o suficiente pra aceitar aquela estranha presença como
companhia. Louis acabou se rendendo ao cansaço, se ajeitando no
canto e cochilando. Hannah, por sua vez, afundou os olhos nos livros,
rabiscando anotações que, se fosse honesta, nem sabia se faria
sentido depois.
Até que...
O toque repentino do celular fez seu coração despencar. O som
preencheu a sala como um alarme disparado no meio da madrugada.
Hannah praticamente pulou na cadeira, quase derrubando o marca-
texto. Com mãos trêmulas, atendeu sem nem olhar o visor, só queria
desesperadamente que aquele barulho parasse. O primeiro
pensamento foi: “Pelo amor de Deus, que não acorde Louis.”
— Amigaaa, onde você tá? — a voz escandalosa de Jung explodiu no
fone.
Hannah apertou o aparelho contra a orelha, abaixando a cabeça,
quase se encolhendo.
— Escondida do mundo... ou estudando na sala de informática. Tanto
faz...
— Ah sim. Você sumiu, mulher!
— Só... só queria um lugar mais reservado.
— Ué... por que você tá sussurrando desse jeito?
Ela mordeu o lábio, olhando discretamente pra trás, conferindo se
Louis continuava dormindo.
— É que... tem... alguém dormindo aqui. Não queria acordar, só isso.
— Alguém? Quem? — o tom ficou imediatamente mais afiado. — É
um garoto?
— Jung, pelo amor de Deus... calma. É só... só o Louis.
101
Silêncio. Curto, mas o suficiente pra Hannah saber que do outro lado
uma sobrancelha estava se arqueando perigosamente.
— VOCÊ TÁ COM O LOUIS?! SOZINHA? SÓ VOCÊS DOIS?!
— Shhhhh! Menos, Jung! Menos! Não tem nada demais, ele tá
dormindo, eu tô estudando, é isso. Só isso!
— Sei... sei... tranquilo... Não tá mais aqui quem acha isso
maravilhoso.
— O quê?
— Nada, nada... Continue aí, linda flor do campo, do jardim e da
horta inteira.
Antes que Hannah respondesse, ouviu passos. Rápidos.
Direcionados. E, em seguida, a maçaneta se moveu.
— Tá, tá! Depois a gente se fala! Beijos, tchau! — desligou quase
atropelando as palavras.
A porta se abriu e um garoto entrou como quem tinha total certeza
de que aquele espaço era dele. Boné jogado pra trás, tênis que
parecia ter vivido guerras, corrente meio torta no pescoço. O tipo de
cara que transbordava confiança... ou pelo menos fingia muito bem.
Assim que cruzou a porta, os olhos bateram diretamente em Hannah.
Só nela.
— Opa... Não esperava encontrar você. — disse, olhando pros lados,
como se esperasse encontrar mais alguém. — Achei que essa sala
vivia vazia... Mas é ainda melhor
Hannah não ergueu nem o olhar.
— Considere como se estivesse vazia— respondeu, seca.
Ele sorriu de lado, meio divertido, meio folgado.
— Tava procurando o Louis. Você viu?
O nome dele apertou algo no peito dela. Mas manteve o olhar firme
no caderno.
102
— Não vi ninguém. — A mentira saiu quase num sussurro.
Louis, no fundo, abriu discretamente um dos olhos. Só pra confirmar
se tinha ouvido direito. E tinha. O maxilar travou instantaneamente.
Mas permaneceu imóvel, assistindo... ouvindo.
O garoto se aproximou. Sem pedir. Sem cerimônia. Puxou uma
cadeira, virou de lado e se apoiou, invadindo descaradamente o
espaço dela.
— Hannah né? Estudando o quê?
Ela respirou fundo, sustentando a compostura.
— Não é do seu interesse. Ou não é do meu falar pra você.
— Uu. Bravinha, gosto assim.
Justin se inclinou passeando os olhos pelo livro sem permissão.
— História moderna? Pesado, hein? — riu, passando a língua no lábio
inferior. — Chato com força.
Ela arqueou uma sobrancelha, sem olhar.
— Depende do ponto de vista.
— É... tudo depende — rebateu, inclinando o corpo, o joelho quase
tocando o dela. — Mas olhando pra você... não parece muito o tipo
que curte se trancar pra estudar.
Ela soltou um riso curto. Sem humor.
— E você não parece muito bom em fazer suposições.
Ele riu, inclinando mais o boné.
— Interessante...
Enquanto isso, lá no fundo, o corpo de Louis parecia uma mola
comprimida. Cada palavra daquele diálogo batia nele como se fosse
uma provocação direta. O músculo do maxilar pulsava visivelmente.
A respiração ficou mais pesada. Controlada. Mas pesada.
103
Ele apertou os dedos contra o braço, os nós dos dedos ficando
brancos.
— Você... vai sair hoje? — insistiu o garoto, ajeitando o boné, agora
encarando ela de um jeito nada sutil.
Hannah mordeu a parte de dentro da bochecha.
— Se fosse, não seria com você.
— Que desperdício... — sorriu, mordendo o lábio. — Ia te chamar pra
uma boate nova. Luz baixa... som alto... clima bem diferente
E foi nesse exato segundo...
CRASH!
A cadeira de Louis tombou pra trás com um estrondo seco e violento.
Hannah se virou tão rápido que quase derrubou o fichário. Justin se
encolheu no mesmo instante, como se só agora percebesse que
havia... companhia.
E não qualquer companhia.
Louis estava de pé. Alto. Ombros firmes. Mandíbula travada. O olhar?
Gélido. Cruel. Cortante como uma navalha. Tão fixo em Justin que
parecia atravessá-lo.
Deu passos lentos. Calculados. Cada pisada reverberava na sala
inteira. Parou perto o suficiente pra obrigar Justin a recuar meio
passo, mesmo fingindo que não.
— Achei que tinha sido bem claro... — a voz de Louis cortou o ar,
baixa e afiada como lâmina. — Quando pedi pra você ficar longe.
O silêncio caiu pesado, como um soco abafado no peito.
Justin forçou um riso que morreu antes de se formar por completo.
— Foi mal, cara... eu nem sabia que...
— Sabe agora. — O tom não mudou. Só endureceu.
104
Justin hesitou, o olhar oscilando entre Louis e Hannah, como se
buscasse um ponto de apoio. Mas ela estava ali, quieta, recuada...
atrás de Louis.
Sem precisar dizer, já havia tomado um lado.
— Olha... você disse que não tinha nada entre vocês. Por que eu não
poderia? Acho que ela quem deveria decidir, não?
Foi ali que algo quebrou em Louis e sem aviso, avançou.
Ele cruzou o espaço em dois passos e agarrou Justin pela gola,
empurrando-o contra a parede com força. O impacto reverberou pela
sala.
— Você acha que isso aqui é um jogo? — rosnou, os olhos escurecidos
de raiva.
A mão na camisa de Justin apertava com força, o maxilar travado, os
punhos tremendo.
— Acha que pode falar o que quiser, chegar em quem quiser ?
O rosto de Justin ficou tenso. Não ousou reagir. Mas Hannah, sim.
O susto foi maior do que esperava.
E no automático. Instintivo. Ela se aproximou rápido, e sem pensar,
tocou a mão de Louis. Não apenas tocou — segurou, apertou com
firmeza, como se pudesse conter a fúria que saía por cada poro dele.
— Louis... Não faça isso. — ela sussurrou, tão baixo que talvez nem
o ar ousasse carregar.
E ele... obedeceu. Sem entender por quê. Só obedeceu. Soltou o ar,
a tensão. Soltou o ódio que fervia. A raiva ainda pulsava... mas a
força sumia. Seu punho se afrouxou. A tensão dos ombros também.
E então, devagar, Louis soltou Justin, que escorregou contra a parede
tentando recuperar o fôlego, visivelmente humilhado.
— Desaparece daqui — ele disse, sem elevar o tom, mas com uma
firmeza que gelava a espinha.
105
Justin ajeitou a gola da camisa, lançou um último olhar hesitante para
os dois — mais confuso do que ofendido — e saiu, sem dizer mais
nada.
Hannah largou as mãos dele com rapidez, como se tivesse encostado
em algo proibido.
Ela não sabia por que fizera aquilo. Não tinha tempo de pensar. O
coração ainda batia errado. Os olhos tentavam fugir da pergunta que
agora martelava sem dó:
“Ficar longe.”, “Deixei claro.”
Claro o quê? Ficar longe de quem? Por quê?
Seu cérebro disparava perguntas que ela não estava nem perto de
querer, nem de conseguir responder.
Louis se virou devagar. Seus olhos encontraram os dela, mas Hannah
desviou — rápido demais para ser indiferente.
E então ele se aproximou.
Puxou uma cadeira ao lado dela e se sentou.
Perto demais.
Ela sentiu o cheiro dele. Sentiu o calor da pele mesmo sem encostar.
O braço dele roçou de leve no dela, e mesmo assim, era como se
uma tempestade silenciosa se formasse dentro dela.
Ele parecia calmo agora.
Como se nada tivesse acontecido.
Apoiado na mesa, de lado, ele a olhou com um meio sorriso lento,
arrastado, provocativo, e disse com aquela voz rouca que parecia
feita sob medida pra bagunçar pensamentos bem trancados:
— Vai me olhar assim sempre que eu defender você?
Hannah manteve o olhar firme por um segundo... depois desviou,
irritada consigo mesma por ainda sentir o coração disparado. Não só
106
por ele. Mas pela cena inteira. Pela intensidade. Pelo fato de ter
segurado a mão dele — e ele ter deixado.
— Não precisava de defesa, muito menos de dois garotos se matando
por nada.
“Por tudo Hannah. Você é tudo”
Louis notou a respiração dela mais curta, o jeito como os ombros
ainda estavam tensionados. A expressão meio fechada, como quem
queria dizer mil coisas, mas também queria sumir dali.
— Você sublinha tudo isso... e depois lembra mesmo? — perguntou,
dirigindo o ambiente a algo mais leve.
Ela piscou, piscou de novo, tentando ligar os pensamentos.
— É... às vezes... mais pelo ritual do que pela eficácia.
Ele riu baixo, um riso quase rouco, quase proibido.
— Ritual de colorir papel... curioso.
Ela virou, tentando parecer desafiadora. Só tentando.
— Você entenderia... se tentasse.
Ele sustentou o olhar firme, sem pressa. E... sorriu. Não com os
lábios. Com os olhos.
— Talvez eu prefira que você me explique — respondeu, e o ombro,
ah... o ombro dele, roçou no dela de propósito.
O coração dela bateu tão alto que, por um segundo, ela teve certeza
que ele ouviria.
— Sem chance... Também tô meio perdida nisso aqui — rebateu,
forçando a voz a soar casual, quando na verdade ela queria era sair
correndo... ou pular no colo dele. Não sabia exatamente.
Ele riu.
— História?
— História.
107
— É... dentro do possível, é a menos pior.
Ela riu de verdade, pela primeira vez em minutos. Soltou aquele riso
que enchia o peito e fazia o mundo parecer melhor. E, naquele
instante, Louis percebeu que era oficialmente refém daquele sorriso.
E de tudo que vinha junto.
Ela respirou fundo. Talvez sem perceber. Talvez só pra dar conta do
que estava sentindo.
— Então... — puxou o fichário — você pode estudar comigo. Quem
sabe descobre que colorir papel é legal.
Louis sorriu largo. Sorriso que não dava pra fingir. E respondeu, sem
nem pensar:
— Tá legal.
Até que Hannah percebeu que estava prendendo a respiração.
E, por algum motivo idiota, não sabia como soltar.
Foi quando ele desviou os olhos da folha, só por um segundo —
rápido, certeiro — que ela cedeu.
Quase imperceptível. Mas ele percebeu.
De novo.
E sorriu.
Não aquele sorriso escancarado, zombeteiro, que ele costumava usar
pra provocar.
Não.
Um sorriso pequeno. Íntimo. Que nem chegou aos lábios, mas
acendeu nos olhos, no jeito como ele apertou levemente o queixo,
como se segurasse... algo.
Ele jogou o lápis sobre a mesa, se ajeitando na cadeira.
— Então... — começou, puxando a apostila pra mais perto. — Analisa
isso aqui. Página nove. — apontou com o dedo — Não entendi essa
108
parte. E, sinceramente, tô há meia hora fingindo que tá fazendo
sentido... só pra não parecer burro.
Ele arqueou uma sobrancelha, segurando o riso.
— Sério? Você? Fingindo entender? Que cena rara...
Ela sorriu se rendendo a tentativa dele de a perturbar.
— Nem todo mundo nasceu pra ser gênio — Disse em zombaria —
Alguns precisam de recursos. Tipo... as caras de paisagem que você
é profissional em fazer— ela cruzou os braços, inclinando o queixo,
debochada.
— Eu? — Ele gargalhou jogando a cabeça pra trás levemente.
Depois segurou o olhar, como se aceitasse o jogo dela. — Mas você
poderia me ajudar, também né? Pela paz mundial... ou, sei lá... pela
caridade. Via de mão dupla.
Ela respirou fundo, segurando o sorriso bobo que teimava em
escapar.
— Tá... — puxou o livro pra ela. — Vamos lá.
Ele se inclinou, bem mais perto do que precisava. O ombro já se
encostando no dela, o cheiro dele misturando perfume amadeirado,
hortelã e alguma coisa que ela não sabia nomear, só sabia que agora
estava gravado na memória dela.
Louis correu os olhos pela página, os dedos longos acompanhando a
linha.
— O que significa a cor laranja?
— Algo que eu não entendi e talvez desista de tentar.
Ele riu novamente. Achou engraçado a forma como ela lidava com
suas confusões acadêmicas.
— Acho que aqui...— começou, apontando para uma linha em laranja
— o autor usa o termo “ruptura” de um jeito meio... simbólico, sabe?
109
Tipo... quando algo acontece, algo que muda... você não volta mais
pro que era antes. Nem se quiser.
Hannah desviou o olhar da folha, encarando o perfil dele.
— Isso é interpretação... ou palpite poético? — a voz dela saiu meio
baixa.
Ele virou o rosto, encontrou os olhos dela mais perto do que ele
lembrava estar. E por um segundo... esqueceu da resposta.
Mas disfarçou, claro. Louis nunca dava o braço a torcer tão fácil.
— Isso é... — passou a língua pelos lábios, pensando —... o que eu
entendi. Mas... posso mentir, se isso te ajudar a decorar.
Ela riu, inclinando a cabeça.
— Não sei se isso conta como método eficiente de estudo, viu.
— Depende... — ele deu de ombros, os olhos ainda nela. — Você
aprende melhor ouvindo a verdade... ou ouvindo o que quer ouvir?
Ela piscou.
Demorou um segundo pra processar. E outro pra decidir se
respondia... ou fingia que não entendeu o que ele quis dizer.
Escolheu rir. Era mais seguro.
— Você é muito... Fora da curva. — balançou a cabeça, olhando de
volta pra folha.
Enquanto Louis pensava “Sim, estou completamente fora da minha
curva e não sei se quero voltar
— Vamos focar, Louis.
Ele suspirou aceitando a ordem.
— Tá, tá... foco.
E, de repente, ficaram assim.
110
Por alguns minutos, só... ficaram lendo e comentando. Dividindo o
tipo de silêncio que não era desconfortável.
Era aquele silêncio bom. Quente. Que, de alguma forma, fazia
sentido.
Hannah nem percebeu exatamente quando a tensão deixou seus
ombros.
Só percebeu que, quando respondeu o último comentário dele com
um:
— Não sei... acho que você tem razão — o tom saiu leve.
Natural. Natural demais.
Como se já tivessem feito isso mil vezes. Como se aquilo — essa
conversa, essa cumplicidade, esse jeito de se encaixar nas pausas
um do outro — fosse algo antigo.
Fosse... deles.
E ele?
Do outro lado, só... olhava. Mais tempo do que precisava. Mais tempo
do que deveria.
E sorria.
Mas não com os lábios.
Com os olhos.
E ela percebeu, mas não disse nada.
Nem ele.
Porque, às vezes, as coisas mais óbvias do mundo são as que a gente
mais tenta fingir que não estão acontecendo.
111
CAPÍTULO 10
REPLAY DE OLHARES
A aproximação entre Hannah e Louis acontecia como um fio que se
esticava aos poucos, quase imperceptível, mas constante.
Desde a conversa na sala de informática, os dois tinham passado a
trocar mensagens com mais frequência. Algumas sobre assuntos
sérios, outras aleatórias — uma piada interna aqui, umas piadas
internas ali — mas todas carregavam aquele tom fácil de quem se
entende sem esforço. Era quase inevitável. Eles simplesmente
estavam... se encontrando.
Agora que a escola estava em semana de recesso, as coisas
desaceleraram ainda mais. Era quarta-feira, e Hannah estava
hospedada na casa da Jung desde a segunda — um costume antigo
das duas em épocas de feriado ou folga, sempre aproveitando os dias
para colocar séries em dia, fazer máscaras faciais aleatórias e
planejar mundos impossíveis enquanto pintavam as unhas.
Dessa vez, porém, havia um detalhe novo na programação: o jogo.
Na terça, enquanto jogavam pipoca na boca uma da outra e discutiam
se valia a pena assistir novamente um filme coreano de três horas,
Hannah recebeu uma mensagem.
Era de Louis.
Ele dizia que teria um jogo amistoso na quarta, contra outro colégio
da cidade. Nada oficial, mas com arquibancada cheia, torcida
barulhenta, e aquela adrenalina que ele fingia não sentir, mas que
sempre deixava escapar. Ele a convidava para assistir, casual, como
se fosse algo normal. Como se o simples fato de chamá-la não tivesse
o poder de revirar alguma coisa dentro dela.
Ela respondeu com um “vou ver” e um emoji qualquer, mas por
dentro… já tinha decidido que sim.
112
Agora, era quarta-feira.
O sol entrava em tiras pela janela do quarto da Jung, iluminando o
espelho grande encostado na parede. As duas estavam se arrumando
com preguiça e conversa fiada. Hannah penteava o cabelo enquanto
Jung testava batons em sequência.
— Vai assim mesmo? — Jung perguntou, arqueando uma sobrancelha
ao olhar a amiga de cima a baixo.
— O que tem? — Hannah ajeitou o cabelo num coque solto. — Tô
básica. É só um jogo, não um desfile.
— “Só um jogo”, diz ela, usando aquela blusa azul que
milagrosamente combina com os olhos e um batom que você só usa
quando quer impressionar alguém.
— Para, Jung — bufou, pegando a mochila. — Eu só quero estar
apresentável numa arquibancada lotada de adolescentes suados
gritando por uma bola.
— Aham. Apresentável pra ele — respondeu, apontando o pincel de
iluminador no ar. — Eu te conheço, Hannah. Desde a época em que
você achava que lip balm era maquiagem.
— A gente é amigo, Jung. Amigo. Ele me chamou porque... sei lá,
porque a gente tem se falado bastante. Só isso. — tentou dizer com
firmeza, mas o olhar desviando para o chão entregava o resto.
Jung cruzou os braços e sentou-se na cama, dramática.
— Amigos, claro. Super normal amigos ficarem trocando mensagens
até uma da manhã, rindo sozinhos pro celular. Super normal ele
sempre se oferecer pra carregar sua mochila ou ficar te esperando
depois da aula, mesmo quando não tem motivo nenhum.
— Ele parou com isso, aliás — murmurou Hannah, pegando o celular
na cômoda. — Agora ele tá mais... normal. Menos confuso. A amizade
tá mais estável. Sem aquele joguinho de provoca e foge.
— E você acha que isso é bom?
113
Hannah ficou em silêncio por um segundo a mais do que gostaria.
Antes que respondesse, Leon apareceu na porta do quarto usando
um conjunto de moletom preto e uma camiseta branca por baixo. O
cabelo ainda úmido, despretensiosamente bagunçado. Ele segurava
dois pares de tênis nas mãos.
— Amor, qual desses aqui faz mais estilo “tô arrumado sem me
esforçar”?
Jung nem precisou pensar.
— O branco com detalhe azul. O outro parece que você fugiu da
academia.
— Fechou. — Ele deu um joinha, lançou um beijo no ar e
cumprimentou Hannah com um aceno. — Estamos indo?
— Daqui a pouco — respondeu Jung, orgulhosa. — Primeiro a gente
precisa fingir que não se importa com o que tá vestindo, mesmo
tendo passado meia hora escolhendo.
Leon riu e sumiu de novo pelo corredor.
— E esse é o meu homem — declarou Jung, voltando-se para Hannah.
— Despojado, estiloso, comprometido. Um verdadeiro patrimônio
emocional.
Hannah gargalhou.
— Você é insuportável.
— E você tá nervosa. Mas finge que não. — Jung cruzou os braços.
— Tá pronta?
Hannah pegou o celular e a bolsa
— Pronta. Mas só porque vamos ver um jogo. Nada mais.
Jung ergueu uma sobrancelha.
— Claro. Só um jogo. E se tiver replay de olhares, é só imaginação.
Hannah saiu empurrando a amiga pelo ombro, rindo, mas com o
coração batendo num ritmo que tinha pouco a ver com esportes.
114
O carro deslizava pela avenida, com a música rolando baixa no fundo
— alguma playlist indie que Jung escolheu, como sempre fazia
questão de monopolizar quando estava no banco da frente.
Hannah estava no banco de trás, olhando o caminho pela janela,
completamente perdida nos próprios pensamentos. Cada curva da
estrada parecia uma extensão do nó que fazia no estômago dela. A
conversa com Jung na noite anterior esclareceu algumas dúvidas…
mas deixou o dobro de perguntas no lugar.
O carro seguia tranquilo, com Leon concentrado no volante,
segurando o riso das besteiras que Jung falava sem parar.
— Sério, amor… você não tá entendendo! Eu vi um vídeo que o cara
errou o passe de bola, tropeçou no próprio pé, caiu, e ainda jogou o
tênis na torcida! — Jung gargalhava, empolgada.
— Uhum... você já me contou isso três vezes, amor. — Leon
respondeu, segurando o riso.
— É que foi MUITO engraçado! — ela ria mais ainda, segurando no
braço dele. — Se o Louis cair assim hoje, eu MORRO!
Hannah nem reagia. Só apoiou o queixo na mão, olhando a rua
passar. O peito apertado.
“Você tá exagerando, Hannah. De verdade. Não tem nada demais
acontecendo aqui.” Ela olhou pela janela, tentando manter o foco na
rua que passava. “É só amizade. Um comentário ou outro, umas
piadinhas... ele é assim com todo mundo.” Tentou rir de si mesma,
mas soou sem graça.
“Você só tá lendo coisa onde não tem. Não começa com essas
viagens.”
Mas por mais que ela repetisse isso mentalmente… não colava.
O ginásio não era qualquer quadra escolar. Era uma quadra
semiprofissional, enorme, com estrutura de campeonato:
115
arquibancadas lotadas, telão, caixas de som e gente demais pra algo
que deveria ser “só” um jogo colegial.
— Uau... isso aqui parece até campeonato estadual. — comentou
Jung, com os olhos arregalados.
Leon guiou as duas até a entrada.
— Vai na frente. Eu vou atrás pra garantir que ninguém pise em
vocês. — disse, brincando com o tom meio protetor, meio fofo de
sempre.
Jung puxou Hannah pela mão, empolgada.
— Ali! Achei o lugar que ele falou! — apontou, levando a amiga até
os bancos mais baixos, quase no nível da quadra, separados apenas
por uma grade de proteção.
Mas Hannah não tava exatamente focada no assento. Os olhos
varriam o ginásio, inquietos. Procurando ele.
Sentou-se meio desconfortável, ajeitando a bolsa no colo, mordendo
o lábio. Tentava disfarçar, olhar pro outro lado, puxar papo com a
Jung... mas, na verdade, escaneava cada canto do ginásio.
E então…
A porta lateral da quadra se abriu.
Louis entrou seguido pelos outros jogadores do Time — caminhar
largo, despreocupado, confiante como quem nem percebe que tá
sendo observado. Ou percebe, e gosta.
O uniforme amarelo e azul parecia feito pra ele, mesmo sendo
enorme. A bermuda larga descia até os joelhos, a camiseta sobrava
nos ombros, mas os braços… os braços definidos apareciam como se
o tecido não tivesse autoridade pra esconder nada.
O cabelo preso por uma tiara preta deixava o rosto inteiro à mostra.
E o jeito como ele andava... não era só andar. Era presença.
Hannah travou. O coração, esquecendo como batia. Quando o olhar
dele encontrou o dela, tudo ao redor pareceu perder som.
116
Ele segurou o olhar. Intenso. Direto. Sem vergonha nenhuma. E,
como se não fosse nada, lançou uma piscadinha torta.
Hannah tentou — com todas as forças — disfarçar. Forçou uma
expressão de ironia, mas ficou tão evidente… que só piorou.
— Ai. Socorro. — pensou.
Louis se aproximou da grade. Não dava pra chegar muito perto, mas
foi o bastante
O olhar cravado nela — até que, só então, desviou pra cumprimentar
Jung.
— E aí, Toco? — riu, levantando o queixo.
— Oi mastro! Lembra do Leon? — Jung se levantou, dando um
soquinho no braço dele por cima da grade. — Novidade fresquinha:
ele também curte um basquete.
Louis analisou Leon, que observava tudo em silêncio.
— E aí, cara. — disse com um sorriso maroto. — Bom gosto pra
esporte você já tem.
Os dois riram de forma simples, e Leon cumprimentou Louis com um
aperto de mão firme.
— Sabe que essa aqui — apontou pra Jung — tem energia demais
pra pouco espaço, né?
Leon segurou o riso, meio desconcertado.
— Cara... você não faz ideia.
Louis retribuiu com um sorriso, mas logo voltou o olhar pra Hannah.
De novo.
— Ei, drama queen — chamou, fazendo um gesto com a mão.
Ela estreitou os olhos com desgosto pelo apelido. Cruzou os braços,
já erguendo a sobrancelha.
— Já falei pra não me chamar assim.
117
— Eu sei. Por isso eu chamo.
Ela bufou, mas ficou parada. Sem admitir, claro, que aquilo — o jeito
que ele olhava, o jeito que ele falava — a fazia perder o fio de
pensamento por alguns segundos.
— Chega aqui — insistiu ele.
— Pra quê? — respondeu, no tom mais blasé que conseguiu reunir.
Mas, no fundo, já estava de pé.
Deu alguns passos até a grade, mas ficou a uma distância
estratégica.
Segura, neutra. Ou, ao menos, era a desculpa que contava pra si
mesma.
Louis a olhou dos pés à cabeça. Sem pressa. Sem filtro. Como se
cada detalhe dela merecesse ser arquivado.
Hannah vestia uma saia plissada preta, lisa, que balançava
levemente conforme ela se movia. Um boddy tomara que caia azul —
cortesia de Jung, que a obrigou a escolher algo que combinasse com
as cores do time. Resultado: ambas estavam de blusa azul. Nos pés,
um tênis branco, simples, casual. A bolsa preta de alça pendia no
ombro, contrastando com a pele escura que parecia refletir as luzes
do ginásio. Seu cabelo estava solto. Os cachos, menos definidos que
de costume, mas ainda assim... absurdamente bonitos.
E ela sentiu. Sentiu o olhar dele como uma corrente elétrica na pele.
Mas só ergueu uma sobrancelha, fingindo tédio.
— Vai ficar me olhando ou quer dizer alguma coisa?
— Tô só vendo se você veio arrumada pra me dar sorte ou pra me
distrair.
Hannah travou a mandíbula, tentando segurar o surto, riso e o rubor.
— Eu vim porque fui coagida.
— Ah, claro. — Louis sorriu. — Totalmente contra a vontade.
118
Ela virou os olhos, cruzando os braços.
— Você é ridículo.
— E você fica linda emburrada.
Hannah engoliu seco. O coração deu um salto involuntário. Ele
sempre soube provocar — com palavras, com gestos, com olhares.
Mas aquilo estava fugindo do roteiro habitual. Aquilo não era só
provocação de amigo. Tinha algo a mais, um passo além do
permitido.
Ela soltou um riso curto. Baixo. Tentando rir da situação, tentando rir
de si mesma, tentando fingir que não sentiu o que sentiu.
— Vai se aquecer logo... antes que eu comece a torcer pro outro time.
— Ih… — ele piscou, a voz mais baixa agora, quase íntima. — Não
arrisca. Você ia sentir saudade.
Ela abriu a boca pra responder, mas nenhuma frase veio. Então
desviou o olhar, ajeitou a alça da bolsa no ombro e deu um passo pra
trás — como se precisasse daquela distância de volta.
E ele percebeu. Mas não disse nada.
Só sorriu mais uma vez, como quem também tentava se convencer
de que aquilo era só uma brincadeira.
O jogo já tinha acabado fazia um tempo. O ginásio, que antes parecia
um caldeirão fervendo de energia, agora estava quase vazio. As luzes
mais fracas, o som dos passos ecoando no piso, e os poucos grupos
de pessoas se dispersando aos poucos.
Mas eles ainda estavam lá.
Leon, Jung e Hannah esperavam na porta lateral do ginásio, por onde
os jogadores costumavam sair.
— Eu te falei... — Leon comentou, apertando Jung contra ele. — Eu
te falei que essa blusa não ia te esquentar. Tá congelando agora, né?
119
— Cala a boca... — respondeu, com a voz meio tremida, se
encolhendo mais dentro do casaco dele. — Eu só subestimei o vento,
tá?
— Aham. — Ele puxou ela mais pra perto, envolvendo-a com os
braços fortes, ignorando o fato de estar só de camiseta, com os
braços expostos no frio. — Continua falando. Assim eu me distraio do
fato de estar congelando por sua causa.
Jung riu, aquele riso abafado no peito dele, e começou a tagarelar
sobre qualquer coisa. Ela falava, e Leon fingia não se importar, mas
os olhos seguiam atentos — cuidando dela como quem cuida da coisa
mais preciosa que tem.
Hannah, um pouco mais afastada, segurava o celular nas mãos. Vez
ou outra, checava as horas tentando disfarçar o misto de ansiedade
e nervosismo que queimava no peito.
Então ele apareceu.
Surgiu no corredor de saída com aquele jeito natural, descontraído,
como se nem tivesse acabado de destruir um time inteiro no jogo.
Calça de moletom branca, camiseta rosa, casaco combinando com a
calça. As ondas loiras do cabelo ainda úmido denunciavam que tinha
tomado banho. A mochila pendurada em um dos ombros.
Ele ria de algo enquanto conversava com dois ou três caras do time.
Mas, ao ver o trio esperando, acenou, se despediu dos outros e veio
em direção a eles.
Hannah congelou — e não foi por causa do frio. Era impressionante
como ele parecia ainda mais intimidante a cada dia.
Porque, por mais que se falassem quase todos os dias, por mais
próximos que estivessem, ainda assim havia algo desconcertante
naquele jeito dele. Tudo parecia acontecer com intensidade, mas sem
esforço.
120
Ele veio caminhando em direção ao grupo com passos calmos, firmes
— como quem não tem pressa, mas sabe exatamente onde quer
chegar.
Os olhos dele encontraram os de Hannah antes mesmo de qualquer
cumprimento. Foi rápido, direto. Um segundo a mais e talvez ela
tivesse desviado o olhar, mas não deu tempo. Estavam presos.
— E aí? — Louis falou, parando a poucos passos deles. Os olhos
percorreram todos, mas voltaram rápido demais pra ela.
Hannah deu um sorriso leve, ensaiado, e balançou a cabeça como
quem diz “Oi”, mas não confiava na própria voz pra falar.
— Finalmente, né? — Jung comentou, soltando-se do abraço de Leon.
— A gente já tava quase congelando aqui fora.
— Vocês que são fracos — ele riu, ajeitando a alça da mochila. — Ou
é o drama de sempre?
— Drama é a Hannah. — Jung apontou com o queixo, provocando. —
Tá congelando há quinze minutos, mas não fala nada.
— Tô bem. — Hannah respondeu rápido demais, abraçando o próprio
corpo.
Louis arqueou uma sobrancelha, desviou o olhar pro casaco dele e,
sem dizer nada, tirou e estendeu pra ela.
— Não precisa. — ela murmurou, com um meio sorriso sem graça.
— Só aceita. — disse ele, a voz mais baixa, quase que uma ordem só
pra ela.
O tecido ainda morno passou pelas mãos dela, e o cheiro familiar —
entre o sabonete e o desodorante dele — fez seu estômago virar. Ela
vestiu devagar, como se colocar aquele casaco fosse mais íntimo do
que qualquer toque.
Leon, percebendo o clima, resolveu cortar a tensão.
— Então, bora? A pizzaria ainda tá aberta, né?
121
— Bora. — Jung falou, animada, puxando Leon pela mão. — A gente
vai na frente. Louis, leva ela com você.
Hannah arregalou os olhos.
— O quê? Por quê?
— Porque eu sou a que organiza tudo, ué. — Jung sorriu, cínica. —
Você quer discutir? Tá cansada, e já que não está sentindo tanto frio
assim.
— O que isso tem a ver ?
— Tchauzinho Hani — disse já se afastando com os dedos dançando
pra ela
Logo, ela e Leon desapareceram no carro, sumindo pela rua úmida.
Hannah ficou ali. Estática com toda aquela cena. Vendo Louis ir até a
moto — uma máquina preta, brilhando sob as luzes alaranjadas da
rua.
Ele colocou o próprio capacete, depois pegou outro e estendeu pra
ela.
Ela não se mexeu.
— Anda. — disse ele, balançando o capacete.
— É sério isso?
— Você conhece ela, não dá pra tentar entender. Só segue o fluxo.
“Só segue o fluxo”
— Você é insuportável, sabia? — murmurou, quase pra si.
— Eu sei disso. Você fala sempre. — ergueu uma sobrancelha,
sorrindo de canto.
Ela respirou fundo, pegou o capacete, quase sem acreditar. Com as
mãos trêmulas pelo frio, tentou colocar sozinha. Mas, antes que
conseguisse, Louis já estava à sua frente, segurando-a pelos ombros.
122
— Deixa eu ver. — a voz saiu baixa. Rouca.
Os dedos dele tocaram os encaixes do capacete e Hannah prendeu a
respiração. Ele verificou com calma, ajustou as laterais... e, mesmo
com o capacete, ela sentia.
Sentia os olhos dele nela.
Analisando. Explorando. Calmamente.
Por alguns segundos, tudo ficou em silêncio. Só eles dois.
— Sobe, Zangado. E segura firme, não pretendo ir devagar.
“Não pretendo ir devagar.”
Ela jurava que as pernas perderam a força.
— Dá pra parar de me chamar com esses nomes?
— Tá, tá. . Sobe logo. — provocou, com um sorriso aberto nos lábios.
— Ou eu vou te colocar aí.
Ela subiu na moto, meio trêmula. Mas antes que racionalizasse
qualquer coisa, Louis jogou a mochila na frente do corpo, ajeitou as
mãos nos guidões e girou o acelerador, leve.
— Segura. — disse mais firme, sem olhar.
E foi automático. As mãos dela deslizaram pela cintura dele.
Apertaram.
O motor rugiu e seguiu pela rua escura.
O frio do vento e o calor dele eram um contraste agradável. A rua
molhada refletindo os postes e o que eles não diziam.
“Segue o fluxo, Hannah”
123
CAPÍTULO 11
ANTES DO ERRO
O trajeto até a pizzaria foi rápido. O frio da noite fazia o vidro do
carro embaçar levemente, enquanto a moto de Louis seguia na
frente.
A moto cortava a rua com velocidade constante, e o vento frio batia
no rosto de Hannah, bagunçando os pensamentos mais do que os
cabelos.
Ela mantinha as mãos espalmadas nas laterais da jaqueta dele, quase
como se tivesse medo de se permitir segurar de verdade. Quase
como se tocá-lo de novo fosse confirmar tudo o que tentava negar.
Louis não disse nada. Mas sentia. Sentia o jeito contido com que ela
se mantinha distante, mesmo colada em suas costas. E isso o corroía
por dentro.
Em uma das curvas, ela precisou apertar um pouco mais as mãos na
cintura dele, e ele cerrou o maxilar, como se aquele gesto simples
tivesse o poder de desarmar todas as suas defesas.
Hannah percebeu.
Soltou quase no mesmo instante.
“Idiota. Você é uma idiota”, pensava. “Nem devia estar aqui. Nem
devia ter deixado ele colocar o capacete. Nem devia ter aceitado esse
casaco. Nem…”
Mas o cheiro dele ainda grudava no tecido. E o calor das costas dele
a alcançava como se o próprio corpo estivesse desmentindo todas as
desculpas.
Assim que chegaram, estacionaram praticamente juntos. A fachada
da pizzaria era pequena, mas aconchegante — com luzes amarelas
quentinhas, paredes cobertas de quadros e um cheirinho de queijo
derretido que já escapava pelas frestas da porta.
124
— Bora, que eu tô morrendo de fome! — Jung anunciou, saltando do
carro como se fosse correr uma maratona.
— Achei que fosse desmaiar de frio, agora é de fome. — Leon
comentou, trancando o carro e arrancando uma risada dela.
Louis tirou o capacete e passou a mão pelos fios loiros, desalinhando
ainda mais o cabelo já bagunçado. Olhou pra Hannah, que lutava com
a trava do dela.
— Tá viva aí ou eu preciso chamar resgate? — perguntou com o típico
sorriso de canto.
— Mais ou menos. — ela respondeu, finalmente tirando o capacete e
ajeitando o cabelo, tentando manter a pose. — Achei que ia voar em
umas três curvas.
— Exagero. — ele riu. — Você tava com um piloto experiente.
— Uhum. Uma aventura daquelas. — rebateu, cruzando os braços,
sem esconder a ironia.
— Mas sobreviveu. Isso que importa.
Eles entraram no restaurante e foram imediatamente engolidos pelo
calor e pela movimentação vibrante do lugar. O som de conversas
sobrepostas preenchia o ambiente — vozes animadas, risadas soltas,
o tilintar de talheres contra pratos, e o barulho constante do forno
sendo aberto e fechado lá nos fundos. O cheiro era reconfortante:
massa assando no ponto, queijo derretido, molho de tomate fresco
com aquele toque de orégano que grudava na memória como
lembrança de domingo em família.
As paredes em tijolinhos aparentes davam um ar rústico e
aconchegante, iluminadas por luzes amareladas penduradas em fios
grossos. Quadros emoldurados com fotos antigas de pizzarias
italianas e utensílios antigos decoravam os cantos. Um grupo de
crianças fazia bagunça perto de um fliperama, rindo alto a cada ponto
marcado. Perto da porta, um garçom equilibrava duas bandejas
cheias de fatias escorrendo queijo, desafiando as leis da física a cada
passo.
125
Eles escolheram uma mesa mais ao fundo, afastada do tumulto
central, mas ainda dentro do calor acolhedor do restaurante. Era uma
daquelas mesas amplas, em “L”, com sofás de couro macio e
acolchoado, que afundavam a gente sem pedir permissão. Jung se
jogou em um dos cantos com a empolgação de sempre, puxando
Hannah junto como se aquilo fosse parte de algum ritual entre as
duas.
Hannah sorriu, mesmo sem perceber, enquanto se acomodava no
canto, as pernas ainda tentando se ajeitar entre as almofadas fundas
e o calor bom que vinha de dentro do restaurante. Do outro lado,
Leon se sentou com aquela naturalidade silenciosa de quem pertence
a qualquer lugar onde Jung esteja. Esticou o braço por trás da cadeira
dela sem pensar, distraído com o movimento ao redor, mas a
proximidade entre os dois parecia algo moldado pelo tempo —
espontânea, tranquila, confortável.
Louis foi o último a sentar, ajeitando o casaco no encosto da cadeira
antes de se encostar, os olhos analisando o cardápio, mas também
deslizando pela mesa, pelos amigos, e — por fim — parando
brevemente em Hannah, como se aquilo também fosse parte da
rotina.
Assim que os cardápios chegaram, a discussão começou.
— Se alguém sugerir pizza de milho com ervilha, pode sair daqui
agora. — Jung decretou, séria.
— Misericórdia. Quem em sã consciência faz isso? — Hannah riu alto,
jogando a cabeça pra trás.
— Acredite, existe. — Leon apontou, rindo junto. — E pior: gosta.
— Crime gastronômico. — Louis balançou a cabeça, apoiando o
cotovelo na mesa com aquela postura relaxada de quem tava
completamente em casa.
Entre uma piada e outra, foram escolhendo os sabores — metade da
mesa puxando pro lado tradicional, a outra votando em combinações
ousadas. A conversa foi deslizando com facilidade, migrando de
126
assunto como quem pula de uma pedra pra outra em um rio: histórias
bizarras da escola, filmes ruins que assistiram só pra rir, brigas
inúteis de grupo no WhatsApp, e até quem dormia em posições
esquisitas.
— Louis com certeza dorme abraçado no travesseiro igual criança. —
Jung declarou, cheia de convicção, segurando o riso.
— Claro que não. — ele rebateu, ofendido de mentirinha. — Durmo
igual adulto. No máximo de lado… meio atravessado… chutando o pé
da cama, talvez.
— Aham. — Hannah cruzou os braços, sorrindo de canto. — E com a
boca aberta.
— Eu ouvi isso. — Louis apontou pra ela, olhos semicerrados, mas
com o sorriso escapando.
Os olhos de Louis encontraram os dela sem pressa. Sem aquela
malícia exagerada de antes. Era um olhar mais firme, direto, como
se dissesse “eu te conheço”. Hannah sustentou, quase sem piscar,
tentando fingir que não era nada demais — mas o coração já batia
descompassado.
Ela arqueou uma sobrancelha, desafiadora, tentando manter a pose
de sempre, como se dissesse: “você que começou”. Ele respondeu
com aquele sorrisinho torto de canto de boca que ela odiava... e
adorava ao mesmo tempo.
Jung e Leon seguiam conversando, rindo de outra coisa qualquer —
mas eles dois nem ouviram. Estavam ali, presos um no outro, num
silêncio tão barulhento que doía.
Até que Hannah desviou o olhar, limpando a garganta e mexendo no
guardanapo, como quem precisava sair dali por um instante. Louis
apenas voltou a se recostar, pegando o copo e bebendo como se nada
tivesse acontecido.
O garçom chegou, anotou os pedidos de pizza e bebidas, e logo a
mesa estava recheada: copos suando, pratos sendo passados de um
lado pro outro, pedaços de pizza desaparecendo rápido demais. O
127
cheiro de queijo derretido, massa assada e orégano pairava no ar
como um abraço morno. As luzes amarelas refletiam nos copos,
criando pequenos reflexos dourados que dançavam conforme as
mãos se moviam. O som abafado das conversas ao redor criava uma
bolha de conforto, como se o mundo lá fora tivesse ficado em espera.
Leon e Jung não paravam. Se cutucavam, provocavam, riam com
cumplicidade. Aquele tipo de relação caótica e divertida que só
floresce quando a intimidade já virou lar.
Louis estava recostado no banco, braços jogados de maneira
relaxada sobre o encosto, um sorriso distraído brincando nos lábios.
Observava tudo com aquele jeito de quem parece desinteressado,
mas nota mais do que deixa transparecer.
Hannah ria de algo que Jung tinha contado, cobrindo a boca com a
mão como se o riso pudesse ser contido. Leon fingia indignação,
colocando a mão no peito como se tivesse sido profundamente
ofendido, e os três riam ainda mais.
— Tá vendo como eu sou tratado? — Leon apontou pra pizza. — Eu
pago e ainda viro piada.
— A gente só ri porque a verdade dói — Jung respondeu, empurrando
um pedaço pra ele.
Louis riu, olhando de lado.
— Amor é isso aí, cara. Leva na esportiva. Se não aguenta, nem
entra.
— Falou o especialista — Jung rebateu com um sorrisinho provocador,
apoiando o queixo na mão. — Inclusive... me diz aí, Louis. Já amou
alguém de verdade?
A mesa silenciou como se alguém tivesse puxado o freio de
emergência.
Leon arqueou a sobrancelha, surpreso com a ousadia da pergunta.
Hannah tentou disfarçar um riso nervoso, abaixando os olhos — mas
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o coração parecia ter despertado, atento a cada milímetro do que
viria.
Louis demorou.
Os dedos deslizaram devagar pela borda do copo, os olhos fixos no
líquido escuro ali dentro, como se buscassem uma saída no fundo do
refrigerante.
— Já. — disse, por fim. A voz baixa. Rasa. Sem qualquer entonação.
— E foi exatamente por isso que eu aprendi a não repetir o erro.
A frase caiu como chumbo no meio da mesa.
Jung franziu a testa, abrindo a boca pra responder, mas hesitou. Leon
apenas observava, quieto. Hannah, por sua vez, sentiu algo travar
dentro do peito. Como se o ar tivesse mudado de peso.
Ela tentou parecer descontraída. Forçou um sorriso sem dentes,
cruzando os braços, e rebateu com leveza ensaiada:
— Nossa... Parece que alguém morreu
Ele olhou pra ela.
E, por um segundo, o Louis que ela conhecia desapareceu. No lugar,
estavam olhos opacos, opacos demais. Duros. Não de raiva, mas de
quem construiu uma muralha pra não ser atravessado.
— Não alguém. — respondeu. A voz saindo firme, mas baixa, como
se contivesse mais do que dizia. — Eu só aprendi que tem coisa que
parece bonita no começo… mas não vale tanto a pena
A atingiu. Mais do que ela imaginava que atingiria. Como se algo
tivesse quebrado em câmera lenta.
Hannah riu, mas não soou como um riso. Era quase um soluço
disfarçado.
— Obrigada pela aula de otimismo.
Ele sequer hesitou.
129
— De nada. — disse, com aquele tom frio que deixava claro que ele
tinha se fechado. — Melhor do que alimentar expectativa no que é
óbvio que nunca vai dar certo.
Silêncio. O tipo de silêncio que pesa.
Jung e Leon trocaram um olhar discreto, como se tivessem visto algo
que não deveriam. E Hannah... Hannah desviou o olhar rapidamente,
pressionando os lábios e engolindo o que sentia como se isso fosse o
suficiente pra não transbordar.
Ela não conseguia explicar
Como se ela tivesse feito errado em acreditar, mesmo que por um
segundo, que poderia existir um “algo a mais” ali.
Ela sentiu. A quebra. A frustração que veio como uma onda fria. Mas
talvez... ele só estivesse sendo ele. O Louis que provoca todo mundo.
Que fala com todas. Que não promete nada.
A feição dela mudou. O sorriso morreu. E a única que notou primeiro
foi Jung — que, disfarçadamente, cutucou a perna da amiga por baixo
da mesa.
— Então, amiga... Vai dormir lá em casa hoje? — disse, com o olhar
que pedia desculpas em silêncio
Hannah entendeu. Mas o incomodo era muito grande. E, com o rosto
mais sério do que quando chegou, respondeu baixo:
— Não, vou pra minha casa.
Por um segundo, o tempo estalou — como vidro sendo riscado.
A conversa parou. O barulho ao redor continuava, mas parecia
distante, abafado. A luz amarela do ambiente perdeu o calor. Tudo
ficou meio torto, como se o ar entre eles tivesse mudado de
densidade.
Louis ergueu o olhar, devagar e encontrou o dela.
Ela não desviou. Olhou de volta, firme. Como se estivesse dizendo
coisas demais sem pronunciar nenhuma.
130
E ele entendeu
Aquilo tudo — os olhares, o clima, a confusão — tinha crescido
depressa demais. Forte demais. Real demais. Como uma onda que
engole antes de dar tempo de respirar. E, sem perceber, eles
estavam sendo arrastados. Um gesto aqui, uma provocação ali. Um
olhar que durava um pouco mais do que devia. Uma proximidade que
já não cabia mais na desculpa da amizade.
Louis sentia o chão ceder. Não era só a presença dela. Era a forma
como ela o olhava. Como ria diferente das piadas dele. Como parecia
enxergar mais do que ele deixava mostrar. Isso o desarmava. O
deixava exposto demais. Vulnerável demais. E ele sabia exatamente
onde esse caminho podia levá-lo — já tinha ido antes. Já tinha se
perdido antes. E, ainda que cada pedaço dela gritasse que era
diferente, ele não confiava mais no próprio julgamento. Por isso,
quando a tensão ficou intensa demais, ele fez o que sabia fazer:
recuou. Machucou antes que fosse machucado.
E Hannah, por outro lado, sentiu como se tivesse dado um passo em
falso num chão que parecia seguro até então. Ela não queria admitir,
nem pra si mesma, mas no fundo, bem no fundo, tinha começado a
esperar. Esperar algo. Qualquer coisa. Um avanço, um sinal, um
risco. Porque ele fazia parecer que era possível. Que podia ser real.
Mas, de repente, tudo foi cortado. Com frieza, com dureza. Como se
nada tivesse existido. Como se ela tivesse interpretado tudo errado.
O barulho da pizzaria sumiu ao redor dela. E mesmo sem dizer uma
palavra, o olhar que trocou com Louis falou tudo. Era um olhar cheio
de mágoa. De frustração. De decepção. Mas também de
entendimento. Ela sabia. Ela entendeu. Ele estava fugindo. De novo.
E talvez, fosse melhor assim. Melhor do que se permitir acreditar
mais um pouco.
Louis a encarou, e naquele instante, viu exatamente o que causou.
Viu o quebrou sem querer — ou talvez querendo. A expressão dela
era contida, mas o olhar… o olhar dizia tudo. E ele sentiu o peso da
própria covardia. Mas se calou. Porque era mais fácil fingir que nada
estava acontecendo do que lidar com o que, claramente, estava.
131
E então, naquele instante congelado entre olhares e silêncios, tudo
desacelerou. Como se o universo tivesse puxado o freio. Como se,
por um segundo, eles tivessem lembrado que estavam indo rápido
demais. Forte demais. Em uma direção que nem sabiam nomear. E
agora... não sabiam o que fazer com isso.
132
CAPÍTULO 12
PALAVRAS NÃO DITAS
O frio mordia, mais áspero do que nas noites anteriores. Em frente à
pizzaria, o vazio quase absoluto — apenas uma ou duas lâmpadas
amareladas tentavam, em vão, afastar a escuridão. A rua úmida
espelhava os postes em listras trêmulas de luz, como se até a calçada
carregasse alguma incerteza. O som abafado da cidade parecia vir de
muito longe, como se o mundo tivesse colocado um cobertor em cima
do caos só por um instante.
Hannah saiu primeiro em passos curtos e pesados carregando o
coração nas passadas. Os braços cruzados no peito, como armadura.
O maxilar duro, segurando palavras que ainda não tinham nome.
Louis veio logo atrás, arrastando aquele jeito despreocupado — calmo
demais pra alguém que, por dentro, não era. Jung seguia encolhida
no casaco de Leon, os olhos semicerrados. Ela praticamente derretia
nele, apoiada com a confiança de quem encontrou abrigo. Leon,
sempre sério, mantinha a atenção nela como se estivesse protegendo
algo precioso do vento que cortava
— Acho que devíamos marcar mais vezes. — Leon comentou.
— Sim! Mas de preferência de dia. Acho que ainda não me acostumei
com o frio… — respondeu Jung, rindo baixinho.
Todos riram um pouco, menos Hannah, que parecia presa no próprio
mundo.
Leon se aproximou de Louis, estendendo a mão com um sorriso
sincero.
— Foi bom te conhecer, cara.
Louis apertou a mão dele, puxando pra aquele toque que vira meio
abraço de ombro.
133
— Digo o mesmo. — sorriu de canto. — A gente tem que marcar
alguma coisa qualquer dia. Só nós dois.
— Fechou. — Leon confirmou, dando um tapinha no ombro dele.
Em seguida, Leon puxou Jung pela cintura, envolvendo os ombros
dela com um braço — com o tipo de carinho que parece conter o
mundo inteiro, como se ela fosse o centro de alguma paz silenciosa.
— Tchau, tchau, Lulis... — Jung disse com a voz arrastada, meio
sonolenta, meio confortável demais no abraço.
Eles acenaram para Louis e se afastaram, rindo baixinho,
cochichando segredos que só existiam no idioma particular de quem
se gosta de verdade.
Hannah começou a andar na direção deles, como quem segue o
caminho mais óbvio — ou o único que fazia sentido. Jung foi a
primeira a perceber.
— Ei… aonde cê vai?
— Pra casa. Com vocês, eu... — respondeu no automático, como se
a pergunta nem fizesse sentido.
Jung soltou uma risadinha curta, rápida, que dizia mais do que
qualquer explicação. Olhou de relance para Leon, depois para Louis,
e por fim voltou a encarar Hannah — já com aquele olhar que entrega
que vem bomba.
— Não, minha querida. Você veio com ele… — Jung apontou
discretamente na direção de Louis. — Vai voltar com ele.
Fez um gesto sutil com a cabeça, quase teatral, como quem joga a
responsabilidade no ar pra ver quem se atreve a pegar. Leon, ao lado,
parecia alheio ao subtexto — ou apenas bom demais em fingir que
estava.
— É que eu e o Leon ainda temos um lugar pra passar antes… — ela
disse, desviando o olhar.
— E eu não podia ir junto?
134
— Não. Coisa de casal. Né, amor? — virou-se para Leon e lhe deu um
cutucão no braço, num tom meio provocativo.
Leon pareceu despertar de um cochilo interno.
— A-ah… é. É sim. Casal. Eu e ela. — confirmou, atropelando as
palavras, engolindo o desconforto.
— Jung...
— Beijos, amiga!
Hannah lançou um olhar para Leon, uma súplica muda por socorro.
Mas ele apenas sustentou o silêncio, com um olhar triste, como quem
pede desculpas por compactuar.
Ela os observou em silêncio, os olhos seguindo enquanto entravam
no carro e desapareciam.
Soltou um suspiro longo — não pra aliviar, mas pra se manter de pé.
Virou-se devagar.
Louis ainda estava ali. Imóvel. O olhar cravado nela. Não de raiva.
Nem de culpa. Mas algo entre os dois — denso e antigo — que
nenhum dos dois queria nomear.
Quando ela finalmente o encarou, sem uma palavra sequer... ele
enfiou as mãos nos bolsos do moletom, tentando esconder o aperto
no peito.
— Quer tanto assim fugir de mim? — disse num tom leve demais pra
dor que carregava.
Hannah demorou. Mas virou o rosto, encarando-o como quem analisa
uma rachadura antiga numa parede que antes era forte.
— Não sou eu quem tá fugindo, Louis.
Aquilo o atingiu como uma lâmina. E ela sabia.
— Se você tem algo pra dizer, diz logo. Não precisa fazer tanto drama
por nada.
135
— Nada? — a voz dela falhou de leve, surpresa com o descaramento.
— Nada, Louis?
A frustração explodiu.
Como ele não via? Como podia ser tão cego às próprias atitudes?
Os olhares longos, as provocações sem contexto, os cuidados
espontâneos. Tudo gritava que havia algo ali. Mas no fim… ele fazia
parecer que era tudo imaginação dela. Um exagero. Uma leitura
emocional de uma mente que queria sentir demais.
Talvez fosse isso. Talvez fosse só ela mesmo.
— Você... — a voz dela engasgou — ...você age como se nada disso
tivesse peso. Como se o problema fosse só eu.
— Hannah…
— Não. — ela ergueu a mão. — Você me aproxima. Me olha como se
visse algo que nem eu vejo. Mas no segundo seguinte... se fecha.
Some. Desvia. E quando eu tento entender, sou eu quem tá criando
coisa na cabeça?
Ele hesitou. O silêncio virou o ar entre eles.
Ele sabia. Ela sabia.
— Você se importa demais com coisas pequenas. — ele disparou.
Frio. Cortante. — Vá por mim... não vale a pena.
Os ombros dela cederam. Um colapso silencioso.
O olhar... não tinha mais raiva. Tinha algo pior. Desapontamento.
— Ah. Então é isso? O erro foi me importar?
— Estamos vivendo o que todo mundo vive na faculdade. Uma
amizade. Você é legal... — ele desviou os olhos — ...mas até a
amizade acaba depois daqui. Ninguém fica.
— É isso? — ela riu. Um riso amargo. — Então todo mundo pra você
é só isso? Passageiro? Descartável?
136
Ele queria dizer que não. Que ela não era. Mas ele não podia.
— Você deveria aprender também. Pensar demais no pouco faz a
gente se afogar sem perceber.
— E você virou mestre em nadar raso, né?
Louis sustentou o olhar. Mas ela já estava indo embora por dentro.
— Você é um idiota.
— Eu sei.
— Um idiota gigante.
— Eu sei. — respondeu, a voz baixa. Quase um pedido de socorro.
E por um segundo… só um… ela viu.
No fundo daqueles olhos que evitavam se entregar, havia uma dor.
Uma vontade. E uma prisão.
Mas idiotas não mudam.
Ela bufou, ajeitou a alça da bolsa no ombro e virou as costas.
Ele continuava ali, encostado na moto. Com a pose de quem não
sente nada. Mas era só fachada. Era sempre fachada.
Passou a mão pelo cabelo, desviou o olhar. Depois estendeu o
capacete na direção dela.
— Sobe. Está ficando tarde.
Ela nem se deu ao trabalho de encará-lo.
— Eu não quero ir com você.
— Para de fazer birra e sobe na moto.
— Não é birra. Eu só me recuso a fingir que tá tudo bem... quando
não tá.
— Que ótimo. Mas agora não tem outra opção.
— Eu me viro.
137
— Vai ficar aqui esperando milênios até algum Uber aceitar essa
corrida?
Silêncio.
Ela olhou pro chão, pro céu, depois pra ele.
E odiou. Odiou saber que ele estava certo.
Pegou o capacete devagar.
— Isso aqui não muda nada. — murmurou.
— Não tô tentando mudar. — ele respondeu, já virando pra subir na
moto.
Ela subiu atrás dele sem dizer mais nada, e sentou com o corpo
rígido, afastado. As mãos seguraram a camisa dele dessa vez por
necessidade, não por escolha.
A cidade escura deslizava nos olhos dos dois. Mas dentro deles… Tudo
era ruído.
Ela sentia a garganta arder. As lágrimas quentes caindo sem som,
manchando o pano do moletom dele e ele sentia também. Claro que
sentia. Mas não disse nada.
Porque talvez… fosse mesmo melhor assim
A moto desacelerou diante da casa, como se até o motor soubesse
que o fim estava perto demais. Não havia vento, apenas o frio —
aquele frio cortante, úmido, que entrava pelos ossos e tornava o
silêncio mais alto do que o som do motor tinha sido segundos antes.
Louis desligou a moto com movimentos contidos, meticulosos, como
se atrasar o inevitável fosse possível. O clique do botão, o fim do
ruído, a quietude repentina — tudo pesava demais. Ficou ali, com os
dois pés no chão e o capacete pousado no colo, enquanto observava
Hannah se soltar da garupa com rigidez.
Sem dizer uma palavra, tirou o capacete com pressa. Alguns fios de
cabelo grudaram no rosto, colando na testa, nas bochechas, nos
cílios. Com as mãos trêmulas, tentou ajeitar o cabelo, mas era inútil
138
— não era só o cabelo que estava bagunçado. Era tudo. A noite, os
sentimentos, o que havia (ou não havia) entre eles.
Louis continuava ali, imóvel. A respiração curta, o corpo inteiro em
suspense. O capacete ainda em suas mãos, como se fosse algo mais
importante do que realmente era. E quando ela estendeu o dela, os
dedos dos dois se tocaram por um segundo a mais do que o
necessário. Um segundo que pareceu prometer alguma coisa que
nenhum dos dois teve coragem de dizer em voz alta.
Eles se olharam — rápido, direto, profundo. O tipo de olhar que
poderia mudar tudo, se houvesse tempo, se houvesse coragem, se
houvesse qualquer migalha de fôlego emocional sobrando. Mas não
havia.
Ela se afastou. Um passo. Dois. Três. Com a cabeça baixa, o corpo
endurecido, os olhos fixos na própria porta como se aquilo fosse tudo
o que restava a ser feito. Não olhou pra trás. Mas a cada passo, uma
pergunta se formava dentro dela. E ele sentia. Sentia as perguntas
não ditas pairando entre os dois como vapor no frio — invisível, mas
presente.
Louis a observava como se a presença dela ainda estivesse ali,
grudada no ar, nas paredes da casa, na calçada molhada. Viu seus
dedos vacilarem ao abrir o portão, como se estivessem em dúvida
entre abrir e voltar. Mas ela abriu. Entrou.
Louis permaneceu onde estava. Parado, com os olhos fixos no ponto
exato onde ela esteve, como se ainda pudesse vê-la. Como se, de
algum modo ingênuo, ela pudesse voltar. Que voltaria, se ele apenas
esperasse mais um segundo.
Mas ela não voltou.
O quarto estava mergulhado em penumbra, exceto pelo feixe tímido
de luz que atravessava a persiana entreaberta — vindo do poste da
rua. A toalha ainda pendia do varal improvisado na porta. O chuveiro,
139
desligado havia poucos minutos, ainda deixava no ar o vapor morno
de um banho apressado.
Hannah caiu na cama como quem se desmancha, os músculos enfim
cedendo ao cansaço, mas o corpo ainda em alerta, como se o
descanso estivesse ali… mas distante. Usava um pijama qualquer, os
cabelos presos num coque torto. O peito subia e descia com a
irregularidade de quem tinha acabado de correr — não fisicamente,
mas por dentro.
Tentou puxar o ar com força. Uma daquelas respirações que a gente
faz achando que vai empurrar pra fora tudo que nos pesa. Mas não
saiu. Porque mágoa, frustração, raiva e aquele tipo de decepção que
a gente finge não sentir... não cabem num suspiro só.
Passou as mãos pelo rosto com força, como quem tenta apagar a si
mesma. Apertou os olhos, franziu o cenho. Queria sumir. Se esconder
de si mesma.
— Parabéns, idiota — murmurou pra ninguém, com a voz rouca de
exaustão. — Você agiu feito uma criança.
Porque, no fundo — naquele lugar que ela nunca confessava pra
ninguém — ela ainda se perguntava se ele realmente tinha feito algo
tão grave. Se não era só mais uma das muitas vezes em que ela
interpretou sinais demais, sentiu demais, esperou demais de alguém
que... talvez nunca tivesse prometido nada.
“Você se entregou por quê, Hannah? Por um olhar torto? Por um
casaco emprestado? Por meia dúzia de palavras não ditas?”
Fechou os olhos e suspirou.
Na tentativa de distração, pegou o livro no criado-mudo. As páginas
estavam marcadas, a história era boa, mas... a cabeça dela estava
tão barulhenta que até o silêncio da leitura parecia gritar. Leu o
mesmo parágrafo três vezes. E ainda assim não sabia do que se
tratava. Desistiu.
140
A mão foi até o celular. Instintiva. Automática. Ela jurou pra si mesma
que era só pra desligar. Só pra rolar uma tela até cair no sono. Só
pra esquecer.
Desbloqueou.
Instagram.
Primeiro story: uma pizza mal cortada, com a legenda “crime
gastronômico”. Riu, mas foi um riso breve, mecânico.
Segundo: alguém desafinando Adele num karaokê qualquer.
Provavelmente a cantina da escola. Um clássico que normalmente a
faria gargalhar. Mas hoje... não.
Terceiro: Louis.
A imagem era escura, mal focada, e ainda assim, ele parecia
impossível de ignorar. Um close lateral dele, sentado casualmente
sobre o tanque da moto. A camisa rosa-clara refletia a luz quente do
poste da rua, criando um brilho suave que cortava a sombra ao redor.
Mas não foi isso que fez o coração dela parar por meio segundo.
Foi o fundo.
Borrado e discreto. Mas inconfundível.
A fachada da casa dela. A moldura exata da janela do seu quarto.
Iluminada. Como agora.
A legenda?
“Algumas luzes a gente apaga pra não ver o que não pode encarar.”
Ela sentiu o mundo parar por alguns segundos. O ar ficou mais
pesado. O peito apertou como se alguém tivesse fechado uma mão
invisível ao redor de seus pulmões.
Louis achava que tinha sido sutil. Que dava pra disfarçar. Que era só
uma frase poética encaixada numa foto despretensiosa. Mas Hannah
sabia, o nível em que ela conseguia entender o silêncio dele estava
se intensificando. Conhecia cada traço da própria rua, cada rachadura
do próprio muro. Reconheceu o ângulo. O reflexo. O momento.
141
Era sobre ela.
E, mesmo sem dizer o nome dela, ele disse tudo.
Sentiu o calor subir pelo pescoço, não de vergonha, mas de uma raiva
misturada com algo que ela não queria nomear. Um querer. Uma
vontade de jogar o celular na parede. De mandar um áudio xingando
ele até o sobrenome. De perguntar o que ele queria. De bater nele.
De abraçar. Tudo junto.
Bloqueou a tela com força. Encostou o celular no peito, ainda sentada
na beira da cama. Ficou ali. Só respirando. Só tentando não se perder
mais dentro dela mesma.
Mas também não sabia o que sentir.
O peito ainda arfava como se as palavras não ditas tivessem peso
físico, esmagando costela por costela. A frustração ainda queimava
nas pontas dos dedos. A mágoa ainda latejava na boca do estômago.
Mas de alguma forma sutil ela se sentiu aliviada por não perde-lo de
alguma forma.
Porém a dor ainda era viva. Por que ele mesmo sem querer, estava
fazendo de novo. Dando algo que não iria sustentar
E pra quem já não esperava mais nada… isso era quase tudo.
A casa estava mergulhada no silêncio habitual da madrugada, exceto
pelo ronco já distante da moto que ele acabara de desligar. O som se
dissolvia no ar frio, como se o mundo, lá fora, já tivesse virado as
costas. Louis encostou a moto no canto da garagem com movimentos
lentos, quase automáticos, e ficou parado por um momento. Os
ombros caídos. A testa franzida. O olhar perdido no chão de cimento
riscado.
Respirava fundo, mas o ar parecia denso demais para aliviar o peito.
Ainda sentia o vento da rua nos braços, como se a noite insistisse em
se agarrar a ele. O moletom carregava um perfume que não era seu
142
— e por isso mesmo doía tanto. Era doce, leve, inconfundível. E ele
sabia. Sabia que aquele cheiro não voltaria com facilidade. Não
depois daquela noite.
Entrou em casa sem acender as luzes do corredor. A escuridão já lhe
era familiar, confortável até. Jogou as chaves no aparador com um
som seco que ecoou mais alto do que deveria. Um aviso. Uma
acusação. Foi direto para o quarto, e quando acendeu a luz amarela,
ela não aqueceu nada. Apenas realçou as sombras.
Largou o capacete sobre a escrivaninha, meio de lado, mas seus olhos
foram direto para o celular largado no canto da cama. Como um ímã.
Como uma promessa não cumprida.
Ainda conseguia sentir a hesitação do momento em que parou a moto
naquela esquina, com o farol iluminando a fachada da casa dela. O
dedo no botão da câmera, os olhos na janela com luz acesa. Apontou
para o céu, depois para a casa.
E clicou.
Não sabia o que queria dizer com aquela foto. Ou talvez soubesse,
mas odiava admitir.
Porque quando se tratava de Hannah, tudo nele travava. As palavras,
os gestos, até o impulso de ir atrás. E mesmo assim, publicou.
“Algumas luzes a gente apaga pra não ver o que não pode encarar.”
A legenda era como ele: fria por fora, caótica por dentro.
Parecia genérica. Parecia casual.
Mas se ela visse — e ele sabia que veria — ela entenderia. Ela sempre
entendia.
Jogou-se na cama com o peso de quem não queria mais sustentar o
próprio corpo. O colchão cedeu sob ele, mas não trouxe nenhum
conforto. Levou o braço aos olhos, abafando a claridade morna do
abajur, tentando calar a própria cabeça. Mas ela não se calava. Nunca
se calava.
143
As imagens da noite voltavam em flashes desordenados: o jeito como
ela desceu da moto sem olhar pra trás, o som da chave virando na
fechadura com raiva contida, o silêncio que gritou entre os dois, como
se até o ar tivesse medo de existir naquele espaço.
Por que ele fazia isso?
Por que criava essa ponte instável entre eles só pra depois recuar?
Por que toda vez que ela chegava perto demais, ele se escondia atrás
de sarcasmos, brincadeiras, silêncios?
Ela merecia mais. Muito mais do que essas migalhas de sentimento
disfarçadas de desinteresse.
E ele sabia disso.
Sabia que o erro era dele. Sempre foi. Não era sobre ela não ser
suficiente. Era sobre ele não se sentir suficiente. Não conseguir ser
inteiro, nunca. Não saber lidar com alguém que o via tão
profundamente, a ponto de reconhecer suas rachaduras antes
mesmo que ele soubesse que elas estavam ali.
O peito doía. Mas era aquela dor covarde, que machuca e se esconde.
A dor de quem sente demais e age de menos.
Hannah era luz. Daquelas que queimam, mas aquecem.
E ele... era só alguém que aprendeu cedo demais a apagar as
próprias.
Fechou os olhos.
Não por cansaço.
Mas como quem, por um instante, desejava não ser ele.
144
Capítulo 13
O som agudo da campainha cortou o ar abafado do apartamento de
Evan, ecoando por entre as paredes nuas e os cantos entulhados de
caixas. O lugar, normalmente minimalista demais pra quem passava
ali mais de cinco minutos, agora parecia um campo de batalha em
meio a reformas apressadas: havia poeira suspensa no ar,
ferramentas largadas em cima do sofá, embalagens plásticas
amassadas pelo chão e rolos de fita adesiva pendendo como
serpentes dormindo.
Evan estava na cozinha, com os braços cobertos de pó branco até o
cotovelo, tentando encaixar uma prateleira nova entre dois armários
velhos, amaldiçoando mentalmente a si mesmo por não ter pensado
nisso antes. Todo feriado, por tradição, ele visitava a família em ****
— uma cidadezinha minúscula que ficava longe demais de Nova York
e próxima demais de onde ele nunca quis realmente voltar. Mas,
naquele ano, quis fazer diferente. Quis trazer a mãe e a irmã pra
conhecerem sua vida de adulto na cidade grande, sua “rotina
independente”, como ele mesmo dizia.
Só que, ao olhar ao redor, era evidente que ele havia superestimado
o próprio espaço — e subestimado o olhar crítico da mãe, uma mulher
que analisava cortinas como quem avalia caráter. O apartamento,
pequeno, impessoal e frio, era o completo oposto do que ela chamaria
de “lar”. E ele sabia disso. Sabia que ouviria sobre a falta de tapetes,
sobre os móveis que não combinavam, sobre as paredes brancas
demais. E sabia que precisava deixá-lo minimamente apresentável
em menos de dois dias.
Foi então que, sem qualquer cerimônia, intimou Louis a ajudar. E lá
estava ele, ajoelhado no meio da sala, empilhando caixas com a
paciência de quem já desistiu de reclamar. Usava um moletom velho,
as mangas erguidas até o cotovelo, os cabelos caindo ligeiramente
sobre os olhos, o semblante concentrado demais — ou distraído
demais, talvez tentando manter a mente longe do nome que ele se
proibia de pensar.
145
A campainha tocou de novo.
— Abre lá, mano — pediu Evan, sem nem virar o rosto.
Louis soltou um suspiro contido, levantando-se com a lentidão de
quem sentia que aquilo, de algum jeito, ia ser difícil. Os passos dele
ecoaram pelo chão de madeira, e ao girar a maçaneta, não estava
pronto. Nem um pouco.
Hannah segurava uma sacola com algumas compras. Seus olhos
encontraram os dele cravados nela. Por um momento, ficou
desconcertada — e ainda mais quando reparou que ele estava sem
camisa. A respiração falhou por um segundo.
“Ai meu Deus... Senhor dos homens gostosos “
Os olhos dela percorreram, involuntários, cada linha sutil daquele
abdômen, o jogo das sombras destacando os traços definidos,
mesmo na leveza do corpo magro. Os ombros marcados, a clavícula
aparente, a pele levemente úmida, como se ele tivesse acabado de
sair do banho ou de mais um turno de trabalho... A luz que entrava
pela janela lateral o emoldurava como uma pintura acidental — viva,
real e impossível de ignorar.
E então ela viu.
A tatuagem. Bem ali, no abdômen esquerdo, de linhas finas, uma
frase escrita indecifrável, mas com traços riscados em cima
O calor subiu pelo pescoço de Hannah como se tivesse sido puxado
por um ímã. Um ímã enorme, sexy e intimidante. Engoliu seco, num
gesto quase imperceptível. Louis percebeu.
146
Ergueu uma das sobrancelhas, discreto, com aquele meio sorriso que
não era exatamente um sorriso — era mais uma provocação muda.
Um canto de lábio que dizia tudo sem dizer nada.
“Está olhando? Quanto mais vai olhar?”
Ela tentou disfarçar. Virou o rosto como quem se lembrava
subitamente de uma responsabilidade urgente do outro lado do
cômodo. Mas os olhos voltaram, traidores, mesmo que por um
segundo. Era como se a presença dele puxasse os dela de volta com
gravidade própria. Houve um silêncio. Longo demais para ser
educado. Tenso demais para ser casual.
O silêncio entre eles parecia amplificar tudo: a tensão contida, o
desejo mal disfarçado, a mágoa antiga. Uma sinfonia muda, cheia de
notas não ditas.
Louis pigarreou baixo — um som seco, rouco, com o poder de quebrar
feitiços.
Hannah piscou e o encarou, rápido demais, como quem foi pega. O
rosto agora fechado, tentando esconder que por dentro ainda tremia.
Como se, numa tentativa desesperada, pudesse apagar da memória
a imagem recém-gravada... mas já era tarde demais.
O choque silencioso entre os dois durou segundos demais. O tempo
suficiente para que ambos sentissem a pontada incômoda da tensão
que ainda pairava entre eles.
147
Hannah ergueu uma sobrancelha, como se dissesse “vai ficar me
olhando muito tempo ou vai abrir espaço?”. E Louis, meio sem
reação, deu um passo para o lado, abrindo passagem sem dizer uma
palavra.
Ela entrou com o que parecia ser tranquilidade. Mas quem prestasse
atenção de verdade veria o jeito como os ombros dela estavam
erguidos — rígidos — ou como a respiração era controlada, como se
ela contasse mentalmente os segundos para não deixar transparecer
nada.
O ambiente já estava carregado antes de ela entrar. Mas agora... era
como se o ar tivesse engrossado. Louis permaneceu na porta por um
momento a mais, observando-a cruzar a sala como se não tivesse
deixado marcas na vida dele, como se os últimos dois dias não
tivessem sido uma tempestade silenciosa dentro de cada um deles.
— Ah, que bom que você chegou! — Evan surgiu no corredor com um
sorriso largo, mas que murchou no exato instante em que percebeu
a eletricidade pairando no ar. Os olhos dele alternaram entre Louis e
Hannah, captando o silêncio espesso, quase audível, que já tomava
conta do apartamento. — Trouxe as coisas?
— Sim, estão aqui… — respondeu Hannah, entrando no apartamento
com a sacola nos braços e o semblante firme, embora os olhos
denunciassem o desconforto.
Louis, que até então estava agachado, empilhando algumas caixas
no canto da sala, apenas voltou à sua tarefa sem dizer uma palavra.
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Nem sequer lançou um olhar em sua direção. O maxilar dele estava
travado. Hannah percebeu.
— Ótimo. — Evan pigarreou, como quem tenta quebrar o gelo.
Antes que ele desaparecesse pelo corredor novamente, Hannah deu
alguns passos apressados e o alcançou, puxando-o discretamente
pelo braço. Fez isso com cuidado, quase se esgueirando, depois de
se certificar que Louis não a escutaria dali.
— Você não disse que o Louis ia estar aqui. — sussurrou, o rosto
sério, a voz entre dentes.
— E você também não avisou que ia trazer uma tempestade junto.
— retrucou Evan, no mesmo tom, arqueando uma sobrancelha com
sarcasmo.
Antes que ela pudesse responder, a voz de Louis cortou o ambiente,
firme e direta:
— Onde você vai colocar isso? Seria melhor montar já no lugar.
Ambos se viraram para vê-lo parado ao lado da pilha de peças da
estante. Ele não olhou pra ninguém. Só mantinha o foco no móvel
desmontado, os braços cruzados e o semblante indiferente. Hannah
engoliu seco.
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Evan lançou um sorrisinho irônico pra ela, como quem diz “boa sorte”,
e seguiu até Louis para orientá-lo. Hannah caminhou até a bancada
da cozinha, onde largou as sacolas com um suspiro longo. Observou
o caos à sua volta: a sala cheia de caixas, ferramentas espalhadas,
plásticos bolha estourados pelo chão, o manual de instruções aberto
como se fosse um mapa de guerra. O apartamento inteiro estava um
pandemônio — o reflexo perfeito da tensão entre ela e Louis.
— Tá. — disse Evan, analisando o que ainda precisava ser montado.
Passou os olhos pelos móveis pela metade, pelas peças de madeira
encostadas e pelos parafusos soltos. — Oh, pecinha de lego… —
resmungou, já se afastando.
Hannah bufou alto com o apelido, cruzando os braços.
Evan sorriu, sem nem olhar pra trás.
— Ajuda o Louis com essa estante. Vou ajeitar o quarto de hóspedes
e o banheiro.
Ela lançou um olhar de puro cansaço na direção dele, mas não
respondeu. Louis já estava ao lado da pilha, abaixado, separando os
encaixes com precisão mecânica. Quando os olhos dele encontraram
os dela — ainda que por um instante — havia ali a mesma exaustão.
Não só física, mas emocional.
Nenhum dos dois disse nada. Só se encaram brevemente, como se
estivessem ambos tentando calcular o quão doloroso aquilo ia ser.
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Então, silenciosamente, seguiram até a sala, onde a estante os
aguardava como um castigo silencioso, cheia de peças, farpas, quinas
e manuais em três idiomas. Era quase cômico. Se o clima entre eles
já não estivesse no limite, talvez até rissem da situação.
Mas não riram.
Não ainda.
•••
O tempo passou mais rápido do que esperavam. Entre tentativas
frustradas de entender o manual e peças que pareciam nunca se
encaixar, Louis e Hannah já estavam mais próximos — física e
emocionalmente. Ainda não havia risos soltos nem toques
despreocupados, mas a tensão havia mudado de tom. Estava mais
branda. Mais carregada de uma eletricidade diferente.
Os dois estavam agachados no chão, um de frente pro outro, cada
um de um lado da estante desmontada. Hannah segurava uma das
bases com as duas mãos, enquanto Louis, inclinado pra frente,
tentava ajustar os parafusos com uma chave de fenda, apoiado nos
joelhos.
— Segura firme aí, senão vai soltar de novo — disse ele, com a testa
levemente franzida, concentrado.
— Tô segurando, você que tá forçando torto. — rebateu Hannah,
fazendo um bico involuntário.
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Ele ergueu uma sobrancelha com uma expressão debochada.
— Ah, claro. Porque você é especialista em montagem agora, né?
Ela rolou os olhos, mas o canto da boca já ameaçava um sorriso.
— Melhor que você, com certeza.
Nesse momento, Louis tentou se levantar levemente para buscar um
parafuso do outro lado da caixa de ferramentas, que estava atrás
dele. Ele girou o corpo, ainda meio agachado, com uma das mãos
apoiada no chão, e acabou esbarrando no encaixe frouxo da base que
Hannah segurava. A peça rangeu de repente, desestabilizando o
apoio dela.
Assustada, Hannah soltou a peça e tentou se inclinar pra trás, mas o
desequilíbrio fez seu corpo tombar pra frente — exatamente na
direção dele.
Louis estava meio ajoelhado, com um dos pés no chão e o outro
joelho dobrado, quando ela caiu por cima dele. O peso do corpo dela
o empurrou de vez pra trás, e os dois acabaram caindo juntos no
tapete da sala, com ele de costas e ela completamente por cima dele.
— Viu? Eu disse! — Hannah soltou, rindo entre o susto e o sarcasmo.
— Eu falei que isso não ia dar certo!
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— A culpa é sua! Você que se mexe igual uma doida! — retrucou
Louis, rindo também, tentando se apoiar com os cotovelos atrás do
corpo, sem sucesso.
— Você que derrubou a peça!
— Você que largou!
Ambos riram. Riram alto. Da situação, do tombo, de si mesmos. Por
alguns segundos, parecia que tudo ali era só uma queda engraçada
entre dois amigos que tinham voltado a se falar. Uma cena leve,
quase infantil, como se tudo estivesse bem de novo.
Mas então... o riso sumiu.
Os dois perceberam — ao mesmo tempo — a posição em que
estavam.
O corpo dela estava encaixado sobre o dele de forma íntima demais
para a casualidade. Um joelho entre as pernas dele, o outro dobrado
ao lado da cintura. Os braços dela apoiados ao lado da cabeça dele,
e seus rostos… perigosamente próximos. O nariz dele a centímetros
da curva do pescoço dela.
O riso morreu nos lábios de Hannah.
Louis engoliu seco.
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Ela sentiu. Sentiu a pele quente dele sob a blusa fina que usava. O
abdômen nu dele — firme, definido — queimando contra o seu corpo
como se houvesse uma fogueira acesa entre os dois. As mãos dele
estavam em sua cintura, como por reflexo, como se o lugar delas
fosse ali desde sempre. As veias saltadas dos braços, os dedos meio
abertos pressionando levemente a lateral do corpo dela.
E então… Louis olhou.
Os olhos dele desceram — apenas por um segundo — para o decote
da blusa dela, que, na queda, escorregou levemente pelo ombro,
revelando parte do sutiã e mais pele do que ela pretendia mostrar. A
pele do pescoço dela estava a centímetros do rosto dele. E o cheiro...
O cheiro era quase um feitiço. Floral, doce, úmido. Como se a pele
dela tivesse sido feita pra ser sentida exatamente assim, tão perto.
Ela tentou se mover, mas o movimento só fez piorar. O quadril roçou
o dele de leve. Louis prendeu a respiração.
Hannah também, com um sobressalto quase imperceptível.
Os olhos dele voltaram para os dela, e por um segundo inteiro —
longo demais pra ser inocente — eles apenas se olharam.
Ela pensava: meu Deus, eu vou perder minha sanidade aqui dentro.
Ele pensava: se eu me mover, eu vou morrer.
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Foi ele quem, mais uma vez, rompeu o feitiço. Limpou a garganta,
um som seco e contido que ecoou alto demais no silêncio repentino.
— Você... tá bem? — perguntou com a voz baixa, rouca, tentando
manter os olhos no rosto dela.
— Tô — respondeu Hannah, rápido demais. A voz levemente trêmula,
como se seu próprio corpo ainda não tivesse entendido que era pra
sair dali.
Ela se ergueu devagar, o rosto quente, a respiração contida. Louis se
sentou também, passando a mão pelos cabelos como se buscasse
concentração em outro lugar qualquer.
— Foi só um acidente — murmurou ela, ajeitando a blusa.
— É... só um acidente. — respondeu ele, com um leve sorriso contido,
como quem tentava convencer a si mesmo.
Voltaram à estante rapidamente, mas mesmo que o mundo fingisse
que nada aconteceu... Os corpos não sabiam mentir tão bem quanto
as palavras.
Porque até ali, tudo entre eles se resumia a olhares demorados,
gestos silenciosos, insinuações sutis escondidas entre provocações.
Era uma conexão que se sustentava em algo tênue e ainda não
nomeado — um sentimento confuso, uma atração mal disfarçada,
uma necessidade quase ingênua de estar por perto.
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Mas agora... agora era diferente.
Havia um novo elemento entre eles. Um novo campo de força, mais
perigoso e mais intenso. O desejo. Não só aquele que acende o
coração, mas o que aquece a pele. O que pulsa no toque, no roçar
acidental, no cheiro que se grava na memória. O desejo que se instala
no corpo e transforma até o silêncio em algo elétrico.
••••
A estante finalmente estava montada. O caos do apartamento agora
era um pouco menos caótico — as caixas vazias encostadas num
canto, a poeira ainda dançando à luz fraca da luminária, e a mesa
com as compras do jantar já parcialmente organizadas.
Os três estavam jogados no sofá, como sobreviventes de uma guerra.
Evan com as pernas esticadas no pufe, Louis meio afundado num
canto com o cabelo todo bagunçado, e Hannah no meio, abraçada a
uma almofada como quem segura um troféu de resistência.
— Eu oficialmente odeio parafusos. — Evan decretou, soltando um
suspiro dramático.
— Você odeia tudo que exige mais de três minutos de paciência. —
Hannah retrucou, o olhar sarcástico enquanto se abanava com um
folheto qualquer.
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— E você é a garota mais mandona com uma chave de fenda que eu
já conheci. — Louis completou, com um sorriso de canto e um brilho
debochado nos olhos.
— E você é o cara que mais fala e menos ajuda. — ela rebateu,
cutucando a perna dele com o pé.
Ele segurou o pé dela e fingiu que ia morder.
— Cuidado. Isso é considerado agressão entre colegas de equipe.
— Ah, desculpa. Esqueci que você é sensível. — respondeu, dando
uma risadinha.
— Eu sou um príncipe, na verdade.
— Príncipe que nem armário consegue montar sozinho?
— Ei! — ele fingiu ofensa. — Eu montei metade!
— A metade que ficou torta. — Evan zombou, rindo enquanto se
levantava. — Vou buscar alguma coisa pra gente comer. Tô com fome
real. Não sumam enquanto eu estiver fora, crianças.
Quando Evan desapareceu no corredor, o silêncio se instalou por um
segundo. Mas não era mais aquele silêncio carregado, tenso. Era um
silêncio confortável, cúmplice, como um intervalo entre risos.
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Hannah ainda abraçava a almofada, os olhos fixos em algum ponto
da parede.
— Cansada? — Louis perguntou, num tom tranquilo.
— Exausta. — ela respondeu, virando o rosto na direção dele. — Mas
até que foi divertido... no final das contas.
— A parte em que você quase me prensou como papel foi realmente
divertida.
Ela riu sentindo o rosto esquentar ao lembrar de toda sensação, seus
olhos percorreram o abdômen dele mais uma bez. Abdômen agora
coberto por uma camiseta branca.
Mas diante de tudo, ela riu, dessa vez sem peso, sem raiva, sem
cobrança.
— Louis...
— Hm?
— É bom estar de boa com você de novo.
Ele a olhou por um segundo a mais do que o necessário. E sorriu. Um
sorriso genuíno, leve, quase agradecido.
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— Também acho.
Os dois ficaram ali, rindo de alguma coisa boba logo em seguida —
sobre como Evan parecia uma tia quando reclamava, ou como o
manual da estante parecia ter sido escrito em código.
Como se fossem melhores amigos desde sempre.
Como se nunca tivessem brigado.
Como se não estivessem, por dentro, sentindo o mundo prestes a
mudar de novo — mas escolhendo, só por agora, aproveitar a
calmaria.
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