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Enquanto Bowie cantava The Next Day da forma espetacular como sempre fez, eu parei de
extrapolar minha euforia por um segundo, me viro e pergunto pra ela: “tá gostando?”. Ela não
me respondeu verbalmente, mas só continuou saltitante e intensa, sorridente e bêbada do
meu lado e do lado de muita gente, no meio de todo mundo, no meio de ninguém, no meio do
nada. Pra mim nada mais existia, e só a letra da música me fazia falar no “and the next day,
and the next, and another day! “, expelida junto das poses e caras de Bowie que falavam da
mesma forma “here I am!”, quando tudo se resumiu ao meu fone de ouvido a medida que o
retirei, e me afastei da utopia em questão de segundos, ouvindo seu barulho de sonho cada
vez mais distante, quando comecei a fazer o que melhor sei fazer: olhar para o teto e abraçar a
realidade.
No meio do nada se escondem coisas incríveis. Talvez no nada se encontre tudo, e olhando pro
branco do teto eu conseguia ver dragões, super-heróis, animais e até rostos humanos. Acima
do teto devia brilhar uma noite límpida, e no meio dessa noite de sexta-feira talvez também
fosse possível encontrar pessoas vestidas para se divertir, ou bebendo, ou só se divertindo, ou
só vivendo suas próprias vidas, ou só curtindo com seus amigos ou namorados ou amantes.
Talvez em algum lugar da noite alguém realmente estivesse em um show incrível (claro, não
tão incrível quanto um show do David Bowie) com a melhor companhia que colheu dos anos.
Era bem possível que se encontrasse todas essas pessoas em algum local na metade da Terra
agora coberta por sombras, assim como também era bem possível que se encontrasse outros
exemplos de mim, só olhando para o teto e imaginando coisas loucas e estranhas, porque
imaginar coisas loucas e estranhas olhando para o teto é muito melhor do que imaginar coisas
loucas e estranhas olhando para dentro de si mesmo, mas isso era tão inevitável quanto a
respiração, o amor ou o desejo de morrer. Inevitável como o ato de olhar para o teto e olhar
para dentro de mim mesmo vir a se tornar minha marca, o que me torna eu, me torna único
junto dos iguais a mim, igualmente excluídos de toda a brincadeira, de toda a bebida, de toda
a felicidade. Em alguns momentos eu me convencia de que era bom não ser igual, à medida
que se divertiam a base de álcool eu me divertia a base de livros. Em outros momentos eu me
convencia de que não podia ser convencido.
Como toda mente que não pode ser convencida, a minha concluiu uma coisa: não faz sentido
viver. O sentido de tudo sumiu ao meu olhar como pontos a distância assim que meus óculos
foram jogados com força no chão, assim como livros, filmes, amor, pouco amor. No fim tudo
vira cacos, e os livros assim como os filmes viram cinzas, e o amor, no fim, são só as cinzas de
um carnaval pouco intenso. No fim, minha mente se recusa a ser convencida, pois já se cansou
no debate consigo mesma. No fim, isso é tudo o que eu odeio em mim mesmo. No fim, me
questionar, revirar-me em paranoias, esmiuçar o sentido das coisas é o presságio da desgraça
maior e a primeira das anormalidades que me isolam do mundo, dos amigos que nunca
conheci e das noites incríveis que nunca tive. Dos amigos que não possuo e das noites que não
olhei nos olhos. No fim, eu não queria pensar nem nos fins nem nos começos, nem nos
sentidos e nem nos paradoxos, e só viver, só viver de forma que eu sorrisse sem razão
aparente ou menos, simplesmente ter doses cavalares de felicidade por um dia ou dois, por
uma hora ou duas, por dois segundos ou três, que me façam querer viver mais mil anos na
expectativa de ter esses segundos de novo. Eu só queria estar lá, com as outras pessoas, sendo
como elas, aproveitando minha vida como elas, junto delas, tendo amigos assim como elas
têm, tendo uma vida onde o sentido é não se preocupar com o sentido das coisas, mas sim
viver. E mesmo que eu não pudesse estar lá, simplesmente aceitar a forma como vivo, e viver
bem mesmo assim, débil, já seria de bom grado. “Não posso viver dessa forma” e “eu sempre
enlouqueço, penso demais e estrago tudo, dentro e fora de mim mesmo” são verdades que às
vezes me trazem conformismo e fôlego para viver do meu jeito. Outras vezes fixam na minha
mente a perturbação, a questão, a dúvida, o ódio a mim mesmo: “por que eu não posso ser
feliz, ou normal, ou ter amigos, ou só ser alguém como todo mundo?”. Fixam na minha mente
a sensação de que, por mais que eu tenha um ou dois amigos, eu sempre serei insuficiente,
sempre serei menos que qualquer outro amigo que esse alguém tenha, simplesmente por não
conseguir frequentar os lugares que ele frequenta, me divertir como ele se diverte, ser intenso
como ele consegue ser intenso. Estar com ele sempre, mais nos momentos de felicidade do
que de tristeza. No fim, eu sempre serei isso, insuficiente. Eu sempre serei assim, pensando
demais sobre tudo, chicoteando minhas costas com minhas deficiências, sempre à beira de um
precipício, fechando os olhos e começando a deslocar o peso do corpo.
Em queda livre no precipício, só me resta olhar o céu ou o chão. Olhar o destino religioso das
boas almas que deixaram seu corpo ou o destino concreto de todas as gotas de sangue de
qualquer um que salte de um penhasco. Porém, em uma percepção do mundo fria e sem
cores, é impossível distinguir as árvores das nuvens, e olhando para a morte ou para a vida
sem saber a que olho, escolho entre cobrir meu rosto com um travesseiro ou fazer qualquer
coisa no celular, e uma lástima de otimismo me fez preferir descobrir o que acontece no
planeta fútil do qual não faço parte por pura deficiência. Na política tudo ia mal, no futebol
havia desfalques para o jogo de domingo. Alguns amigos do Facebook que não tenho a menor
ideia do que fazem ali postavam e viviam suas vidas, como eu viveria se estivesse no lugar
deles. Outros fazem coisas que nem me dou o trabalho de entender. Fotos, fotos, garotas
lindas e homens gostosos, anúncios de compra de carros, motos, ingressos para festas e
shows... Alguns amigos comentando em fotos de seus outros amigos, falando com outros
amigos ainda sobre coisas desse mundo que não me encaixo. Alguns que até tentei contatar
pra conversar sobre essa minha tristeza profunda e continuo tentando desde ontem, mas que
por algum motivo não pode me responder mas pode trocar comentários no Facebook. Alguns
poucos que eu imaginei ainda há poucos momentos cantando Rebel Rebel comigo (por que eu
insisto em usar o plural?). Pode simplesmente ignorar minha existência e tomar conta do que
interessa: a sua própria vida, a sua própria diversão, com amigos que realmente tenham uma
vida, que realmente proporcionam diversão e com quem se quer realmente estar e ser feliz,
“se quer realmente” e se esforça por causa disso. Eu não mereço esforço.
Eu não mereço tempo. Eu sou um personagem coadjuvante desse filme que pode morrer a
qualquer momento que ninguém sentiria falta, ou que talvez finjam sentir falta, pois todo
mundo faz falta por um tempo quando morre, até que se esqueça e se continue vivendo com
quem realmente sempre importou desde o começo, quem realmente se queria ter por perto
desde o começo. Às vezes parece que me esqueço ou talvez eu ignore esses fatos e tento ser
amigo das pessoas para que elas sejam minhas amigas em troca. As colocar entre minhas
prioridades pra ver se fico entre as prioridades delas. Torná-las pessoas do qual quero estar
perto pra ver se me torno uma com o qual elas querem compartilhar sua presença. Engano,
enganos, ledo engano, ledos enganos. Agir dessa forma me coloca na vida dessas pessoas
como um peão de xadrez, que se usa muito nos momentos cruciais, mas que na hora da
vitória, do deleite, se lança ao sacrifício para a glória de reis e rainhas. Eu odeio ser trocado.
Sempre fui trocado. Ontem, hoje, sempre será assim, assim como sempre foi, e dessa vez não
foi diferente.
“Mas e todo o amor jurado, toda a amizade prometida, toda a intimidade que se criou, os bons
momentos? O que está acontecendo? Por que ela faz isso? Por que ele faz isso? Por que eles
fazem isso? Você já teve certeza de que era importante várias vezes, e aparentemente foi”
grita uma voz na minha consciência, do qual respondo “aparentemente fui! Aparentemente, e
nos fins, nas vitórias, nos xeque-mates eu sou deixado de lado! Como sempre! Como agora!
Como antes! As pessoas não querem e não merecem um estúpido antissocial como eu!”, e
ninguém discute comigo com tanto ímpeto quanto eu discuto comigo mesmo. Tornar a pensar
na desgraça que sou pra mim mesmo e quão indesejável sou me foi como uma troca de tapas
com a minha consciência, e meus suspiros interrompidos para não fazer barulho e acordar
meus pais que dormiam no outro quarto só me enchiam de mais lágrimas, e lágrimas, como
todo fraco faz várias vezes na vida, como todo estúpido faz dezenas de vezes.
Mas depois as coisas foram se normalizando. O céu nublado na minha cabeça se condensou
em chuva pra depois ficar claro, e foi quando pude ver as estrelas. É muito ruim sair em dias
chuvosos (e o que eu sei sobre sair do quarto?). Acreditei por um tempo estar sendo injusto
com meus poucos amigos. Acreditei estar sendo dramático. Acreditei sentir prazer e felicidade
que, em contrapartida, jamais poderá ser compartilhada entre as pessoas “superficiais”. O
mundo se dividiu de maneira fascista na minha cabeça, e por um momento me vi como um
americano, mas, no fim, resolvi as coisas como na Itália.
No caminho até a cervejaria, fui olhando através do vidro do táxi todas as pessoas que
estavam na rua naquela hora. Imaginei-me assassinando-as de várias formas usando uma faca.
A lâmina prateada atravessava o crânio, retirava o coração, dilacerava pulmões, seios, pernas,
pênis. Esquartejava. Eu me imaginava o próprio Hannibal Lecter, com um olhar penetrante que
parece de interesse, sabedoria, classe, mas que no fim é apenas o olhar de um tigre
observando sua presa. Depois, por deliciosos momentos, esqueci de tudo e me senti como se
estivesse indo na cervejaria beber cerveja. Senti-me comum, saindo de casa a essa hora da
noite. Realmente, era o que eu estava fazendo. Eu estava indo me encontrar com amigos, me
divertir, esquecer toda essa carga depressiva, esquecer o que eu sou ou esquecer de pensar no
que eu sou.
Chegamos. Paguei o táxi. Desci. Observei se ele estava lá. Parecia estar sentado em uma mesa
com alguns lugares vazios. Certamente era ele, com toda a certeza do mundo. Seria muita
coincidência não ser. É claro que era ele, é claro. Ele logo ali, eu aqui, pronto, perfeito, na hora
e no local certo. Na hora correta que não sei dizer qual é, pois atirei o celular contra a parede
antes de sair de casa. E então me sentei na sombra de uma árvore e me veio imediatamente à
memória: “o que eu faço aqui? Esse não sou eu! Esse não sou eu!”, e por vários momentos me
passou pela cabeça que eu estaria estragando a minha vida. “Mas que vida?”. Não é possível
responder a essa pergunta.
Um futuro provavelmente promissor e, a curto prazo, pobre, estava ao meu alcance. Cursar
engenharia em uma universidade federal em outra cidade era iminente. Mas cursar pra quê?
Com que propósito, se o meu Eu vai comigo? Se o ser humano vai continuar o mesmo, isolado
como sempre, rejeitado como sempre, à margem da felicidade... como sempre, em um local
que não vou ter sequer uma amizade dogmática pra problematizar, nem amigos de enfeite pra
usar no grupo do WhatsApp.
Algumas dezenas de minutos chorando. Olhares curiosos alheios recuperaram o meu olhar,
que por orgulho passou de arrasado pra arrasador, de beta para alfa, de agente passivo para o
dominante da situação. Olhar fixo, certeiro, ainda com algumas lágrimas escorrendo e um “eu
nunca estive melhor” pra uma garota simpática e irritante que eu devia conhecer de algum
lugar. Sentados no recinto aberto, eles pareciam esperar por alguém, meio inquietos, o que
explicaria os locais vazios. O meu “objetivo” decide se afastar do ambiente para fumar. Para
fumar. Parecia perfeito pra ele assim como parecia perfeito pra mim, e o momento M chegou
pra ele assim como o momento M chegou pra mim. Lá, naquele local, naquela sombra ao lado
da entrada estava ele, fumando, distraído, e ver aquela cena me encheu de ódio meio sem
razão, me encheu de vontade de ver a cabeça dele separada do corpo, de ver a família e
amigos dele chorando a dor de uma morte sem sentido. Isso logo me lembrou dos amigos que
eu ainda amo, da família que, apesar de tudo, eu ainda amo. “E se você estiver errado? É isso
mesmo que você quer? Vai fazer essa merda mesmo?”, e isso fez valer minha viagem, pois
finalmente, por alguns segundos, eu calei a voz da minha consciência: peguei a faca na
mochila, olhei fixamente para o alvo e comecei a andar.
Cada passo parecia carregar quarenta quilos, vinte em cada pé, mas que eu carregava com
rapidez e firmeza, além de uma face que misturava choro, raiva e coragem. A cada passo eu
parecia mais perto do êxtase de me livrar de um peso gigantesco, de substituir minha dor por
uma loucura qualquer, ou pelo deleite de saberem que eu existo e também causo dor,
também sou relevante, ou por saber que, por um bom tempo lembrariam que eu estava aqui,
do lado de todo mundo esperando receber algum valor, algum reconhecimento, algum amor,
onde fui recebido com caras internas de nojo e amores meio estranhos. E lá estava eu, a dois
passos do paraíso ou do inferno, pois quem não diferencia árvores de nuvens não diferencia
fogo e céu.
Com uma expressão onde pela primeira vez a raiva e o ódio superaram a fraqueza e o choro,
um único golpe lateral na carótida, rápido o suficiente pra ele não conseguir expressar defesa.
Eficiente o suficiente pra esguichar sangue na minha blusa, no meu rosto, em tudo, e,
estranhamente, a sensação imediata não foi de prazer, mas de desespero, total desespero. Ver
o sangue é desesperador. Ver um olhar morrendo a metros de distância é desesperador. Ver
um homem sendo assassinado é desesperador. Ser assassino é desesperador. O lado chorão
dominou de novo, dessa vez com mais força, e tentei a todo o custo tapar o ferimento que
criei e fechar o esguicho de sangue. “Meu deus, o que você fez!”, disse a voz ao sair do coma –
“você estragou a sua vida, de novo, seu estúpido, como quer que alguém te ame?” -, mas eu
estava banhado em sangue demais pra pensar em uma resposta, e o corpo no chão e as
primeiras pessoas que apareceram em volta só me encheram de mais desespero. Chamaram a
polícia, a ambulância e me seguraram, temendo uma possível fuga. Por que eu mataria em um
local público se tivesse a intenção de fugir?
Meu choro e desespero só aumentaram, e olhar aquilo que eu fiz só me fez entrar em total
pânico, até que as pessoas que o “assassinado” estava esperando chegaram, e provavelmente
se questionaram “mas o que tá acontecendo aqui?”. Entre as pessoas, pude ver que o post no
Facebook se confirmou, e ela estava lá, não cantando Starman comigo, mas aterrorizada com
um assassinato em uma noite de sexta, até o momento em que ela percebeu o que aconteceu:
eu, coberto de sangue, em desespero, com um cadáver no chão – “o que aconteceu?! O que
aconteceu?! Eu conheço ele, ele é meu amigo, ele nunca faria isso! O que houve?” – até que
ela ouviu chorando uma explicação simples mas contundente de que sim, seus olhos deduzem
a verdade e, depois de uma contemplação melancólica da realidade – “meu, por que você fez
isso? Por que? Eu não tô entendendo”, entre outros dizeres desgastantes de quem não está
disposta a aceitar a realidade. Pois é, eu também não estava disposto a aceitar a realidade,
mas vê-la chorando tanto e em tal desespero me fez questionar: talvez ela realmente seja
quem diz ser, provavelmente me ama e é a melhor amiga que já tive, e eu reagi matando
provavelmente um amigo que ela teria ainda pra várias noites, baladas, mas que mais
provavelmente ela vai se lembrar quando, religiosamente, for fazer sua oração antes de
dormir, logo antes de olhar para a parede e se lembrar de mim.
Quanta estupidez. Ela não estava chorando por mim, estava chorando por ele, e chorar
também não significa nada, não muda nada, não muda o fato de eu ter sido inúmeras vezes
trocado, ignorado, ter tido a presença tratada com desdém sempre diante de algo muito maior
que eu não poderia e não posso lhe entregar, nunca. Quanta estupidez. Um momento de
desespero não anula a sensação de ter sido trocado, seja em momentos de alegria ou
momentos em que realmente precisava de algo pra me agarrar ou um corpo amigo pra
abraçar.
Um show do David Bowie não faz o menor sentido. Talvez ela preferisse pole dance na
estrutura metálica da arquibancada de um rodeio ou algo do gênero: o inconfundível sertanejo
universitário.
Uma tragédia. A trágica morte de um amigo que, subitamente, se tornou um assassino, porém,
em termos, deixou de ser “trouxa”. “Você estragou a sua vida”, me disse a minha mãe. Preferi
não a responder verbalmente, mas uma análise mais profunda de mim extrairia a resposta
perfeita: “que vida? Que vida?”.
Sádico-aristocrata