# **Relato do Processo – Trabalho de Percurso Repetido**
O trabalho começou como uma proposta de registro e observação, mas, para mim, se
tornou algo muito mais profundo. A cidade, com seus **contrastes, texturas e marcas**,
revelou não apenas seu espaço físico, mas também sua capacidade de evocar memórias e
emoções de forma inesperada.
A proposta inicial era simples: **observar e registrar artisticamente o percurso diário dos
alunos de casa para a faculdade**. O objetivo era entender como a repetição desse
caminho poderia revelar detalhes antes despercebidos e como o desenho poderia servir
como um meio de investigação e expressão. Rapidamente, ficou evidente a diversidade das
experiências entre os colegas. Alguns capturaram percursos mais extensos e variados,
observando a arquitetura, o fluxo das ruas e as pessoas, enquanto outros, como eu,
focaram mais nos **detalhes e nas sensações** que emergiam ao longo do trajeto. Esse
contraste foi muito interessante, pois me permitiu perceber diferentes formas de
representação e exibição do percurso.
Meu trajeto é relativamente curto, **apenas sete minutos dirigindo**, o que me levou a
prestar atenção em aspectos que antes passavam despercebidos. Ao longo da repetição do
caminho, notei que **o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo e um grafite ao lado
dele** se tornaram os elementos mais marcantes para mim. Inicialmente, eram apenas
parte do cenário urbano, mas, conforme os dias passaram, percebi que aquele trecho do
percurso despertava uma memória pessoal dolorosa: **a perda do meu avô, que faleceu há
cinco anos por conta da doença**. Esse momento do caminho se tornou, para mim, um
símbolo de uma conexão inesperada entre o presente e o passado.
Comecei registrando o percurso com **fotos feitas pelo celular**, já que estava dirigindo e
não conseguia parar para desenhar no momento. Essas imagens serviram como base para
os meus primeiros esboços, feitos posteriormente no papel. No entanto, logo senti que
apenas essa abordagem não era suficiente para transmitir ao espectador a complexidade
das sensações que aquele trajeto despertava em mim. O papel, sozinho, **não captava a
materialidade da cidade, a solidez das construções, a aspereza do asfalto ou o impacto
emocional daquele trecho específico do percurso**.
Foi então que decidi **expandir o projeto e explorar diferentes materiais**. Além do papel,
escolhi **madeira e asfalto**, pois ambos estavam diretamente ligados ao meu percurso e
às minhas percepções sobre ele.
A escolha da madeira surgiu porque, ao analisar meus esboços, percebi que **muitas das
minhas representações do caminho se conectavam às obras em construção espalhadas
pela cidade e à presença da natureza em meio ao ambiente urbano**. A madeira carrega
essa dualidade: pode remeter tanto ao crescimento e à transformação quanto a uma certa
rigidez e permanência.
Já o **asfalto**, além de ser o solo real sobre o qual percorro esse trajeto diariamente,
também trouxe uma sensação muito forte relacionada ao **trânsito intenso e imprevisível de
São Paulo**. Ele representa o movimento constante, a rapidez e, ao mesmo tempo, os
momentos de pausa forçada, como quando o carro para em um semáforo ou fica preso em
um congestionamento. Trabalhar com esse material me permitiu trazer mais fisicalidade ao
projeto e expressar a experiência do percurso de uma forma mais sensorial.
A repetição do trajeto e sua tradução para diferentes materiais **mudaram completamente
minha relação com esse caminho**. O que antes era apenas um deslocamento rotineiro
passou a ser **um espaço de observação e reflexão**, onde cada detalhe poderia carregar
um significado mais profundo.
Além disso, observar os trabalhos dos meus colegas me fez perceber como cada um
experimenta seu trajeto de forma única. Enquanto alguns exploraram a grandiosidade da
cidade e a complexidade de percursos longos, outros, assim como eu, se concentraram em
elementos específicos que evocavam memórias e sentimentos pessoais.
No final, esse trabalho **foi além do simples registro de um percurso**: tornou-se um
exercício de percepção, memória e expressão artística. Ele me ensinou que, ao repetirmos
um caminho, sempre há algo novo a ser descoberto—seja na cidade ao nosso redor ou
dentro de nós mesmos.