Aula 03 — 14 de Abril de 2023 - ponderação de princípios conflitantes: resolvida
PRINCÍPIOS DO ESTADO DE DIREITO mediante a criação de regras de prevalência, o
que faz com que os princípios sejam aplicados
- norma é gênero, regras e princípios, espécie; também ao modo tudo ou nada (não obstante,
→ há norma, mas não dispositivo…: ex. entre regras, uma saia do ordenamento, entre
segurança jurídica ou certeza do direito; princípios permaneçam dentro);
→ há dispositivo, mas não há norma…; → “daí a definição de princípios como
→ um dispositivo, várias normas…; deveres de otimização aplicáveis em
vários graus segundo as possibilidades
→ vários dispositivos, uma só norma.
normativas e fáticas (...)”.
- controle de constitucionalidade: verifica se
- Prof. Humberto Ávila segundo CANARIS:
uma lei, portaria ou regulamento é conforme à
constituição. Se um ato normativo subordinado - “busca a distinção entre regras e princípios em
está de acordo com o ato normativo superior; outra direção, encontrando-a em primeiro lugar
no fato de as regras terem diretamente a
- o que acontece quando o dispositivo normativo
descrição de um comportamento ou atribuição
e textual, em si, não é inconstitucional, mas
de competência como objeto, visando apenas
apenas uma interpretação ou aplicação? –
indiretamente à obtenção de um fim, ao passo
declaração de inconstitucionalidade parcial sem
que os princípios visam, de forma muito inversa,
redução de texto: o mínimo do dispositivo sobra,
diretamente à consecução de um fim e influem
mas proíbe uma das possíveis interpretações (a
só indiretamente em modos comportamentais
qual é inconstitucional);
ou nas atribuições de competências para tal”;
- RONALD DWORKIN: regras são aplicadas
→ regra determina comportamentos;
ao modo tudo ou nada (ou as normas são
aplicadas ou não são, sem meio termo); → contudo, os princípios determinam
finalidades, as quais podem orientar na
- “os princípios, ao contrário, não determinam
interpretação de regras!
absolutamente a decisão, mas somente contêm
fundamentos, os quais devem ser conjugados - princípios: explicitam valores da comunidade*;
com outros fundamentos provenientes de outros - os princípios são valores superiores, com o
princípios. Daí a afirmação de que os princípios, objetivo de nos unir. Muito dificilmente alguém
ao contrário das regras, possuem uma dimensão estará contra um princípio máximo e, se não
de peso (...), demonstrável na hipótese de colisão concordar, é muito provável que esteja flertando
entre os princípios, caso em que o princípio com com a tragédia e contra a democracia:
peso relativo maior se sobrepõe ao outro, sem → Art. 17 da CF: é livre a criação, fusão,
que este perca sua validade”; incorporação e a extinção de partidos
→ sopesamento de princípios! políticos, resguardados os princípios da
- ROBERT ALEXY: princípios seriam “espécie soberania nacional, da democracia,
de normas jurídicas, em que são estabelecidos do pluripartidarismo, dos direitos
deveres de otimização aplicáveis em vários graus fundamentais da pessoa humana [...]
por meio de possibilidades normativas e fáticas”; TIRANIA DOS VALORES? – Carl Schmitt
- ademais, ele também destaca a dimensão de - “é tarefa do legislador e da lei por ele decretada,
peso. A aplicação de um princípio sujeita-se a estabelecer a mediação por meio de regras
uma cláusula: “Se no caso concreto um outro mensuráveis e aplicáveis e impedir o terror da
princípio não obtiver maior peso”; atuação imediata e automática dos valores. É
→ um princípio deverá ser preferível uma tarefa difícil, que faz compreender porque
integralmente, ao menos naquele caso. os grandes legisladores da História, de Licurgo e
Sólon até Napoleão, tornaram-se figuras míticas. fundamentais que, em larga medida de tempo e
Se aqui o legislador falha, não há ninguém que espaço, são parte do seu ser e do seu pensamento,
possa substituí-lo”; e do sentido da sua própria identidade. São parte
→ Schmitt parte da afirmação de Max do que faz deles humanos.
Scheler de que fazer uma afirmação
negativa a uma coisa negativa, resulta PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS E
em algo positivo — Schmitt defende que BLOCO DE CONSTITUCIONALIDADE
os valores não podem eliminar um ao - o Bloco de Constitucionalidade, na França,
outro de forma arbitrária. Quando determina que junto à Constituição, outras
princípios e valores conflitam, só tem um instituições também auxiliam a identificar a
sujeito que pode resolver o problema, constitucionalidade de determinada lei/norma:
democraticamente falando: o legislador;
→ o Conselho Constitucional francês
- a lei é o lugar certo para o sopesamento e geralmente se refere “aos princípios e
balanceamento dos valores; regras de valor constitucional” para
- a lei é a forma do direito. Fora daí, é cada um designar normas de nível constitucional,
por si e, no limite, pode ser uma guerra de todos cujo respeito se impõe à lei.
contra todos — humildade do Judiciário! - Constituição brasileira de 1988, Título I - “Dos
- BERLIN: dois conceitos de liberdades; princípios fundamentais”, Artigo 1º menciona
1. liberdade negativa: direito individual, como fundamentos da República Federativa:
esfera da individualidade, que o Estado - a soberania;
não pode se envolver — desenvolve - a cidadania;
melhor o pluralismo da pessoa humana; - a dignidade da pessoa humana;
2. liberdade positiva: direitos políticos, - os valores sociais do trabalho e da livre
participação individual na comunidade iniciativa;
— isso pode acabar virando um poder - o pluralismo político.
totalitário: a vontade coletiva é perfeita, - Art. 4° e princípios das relações internacionais
ainda que a minha opinião individual da República Federativa Brasileira;
seja contra. Resulta na total absorção da - existem mais regras do que princípios na CF;
pessoa na coletividade.
- qual prevalece: uma regra constitucional ou um
- pluralismo, com a medida de liberdade negativa princípio constitucional? — a regra, pois ela é
que implica, parece para BERLIN um ideal mais sempre mais específica do que o princípio.
verdadeiro e mais humano que os objetivos
daqueles que buscam nas grandes estruturas
disciplinadas autoritárias o ideal do autocontrole ESTADO DE DIREITO
positivo das classes, dos povos ou de toda a - não somos governados por pessoas específicas,
humanidade. É verdadeiro porque reconhece mas por leis — fruto do constitucionalismo;
que os fins humanos são múltiplos, nem todos - princípios do Estado de Direito: (i) legalidade;
comensuráveis e estão em permanente conflito. (ii) igualdade; e (iii) justicialidade.
É mais humano porque não priva as pessoas, em 1. LEGALIDADE: Art. 5º, inciso II: “ninguém
nome de um ideal remoto ou incoerente, do que será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma
elas descobriram indispensável para suas vidas coisa senão em virtude da lei”;
como seres humanos que se autotransformam de
- os cidadãos podem fazer tudo aquilo que seja
modo imprevisível. Escolhem entre fins últimos
compatível com a lei (compatibilidade legal); o
porque suas vidas e seus pensamentos estão
poder público só pode fazer aquilo que é
determinados por categorias e conceitos morais
previsto em lei (conformidade legal). A - Classificação americana (Thomas M. Cooley)
seguridade tributária é ainda mais detalhada, mas e variantes brasileiras: normas constitucionais
a mais restrita de todas é a legalidade penal. podem ser: (1) self-executing: completas, com
2. IGUALDADE: Artigo 5º, caput. “Todos são hipótese e conclusão (norma e sanção); ou (2)
iguais perante a lei, sem distinção de qualquer non self-executing: incompletas, sem hipótese
natureza, (...)” Inciso I: “homens e mulheres são ou conclusão, carecendo que seja externamente
iguais em direitos e obrigações”; regulamentada. São ineficazes e não podem nem
ao menos se considerar a sua aplicação;
→ libertas si aequa non est, ne libertas
quidem est – liberdade que não é igual 1. Rui Barbosa: auto-executáveis ou não;
não é liberdade. 2. Pontes de Miranda: bastantes em si ou
- Art. 6º: políticas públicas – visam a igualdade; não bastantes em si.
1. prospectividade: visa o futuro;
2. controlabilidade: exercício do controle
de constitucionalidade das leis e normas;
3. proporcionalidade: lei que faz o juízo
de sopesamento dos princípios. Etapas:
a. adequação: a lei escolheu a forma
adequada para resolver o caso?
b. necessidade: dada a gravidade do
problema, a solução escolhida é
suficiente para superá-la?
c. proporcionalidade stricto sensu:
juízo de valor final, para avaliar se
a decisão escolhida não sacrifica
um valor constitucional.
EFICÁCIA DAS NORMAS
CONSTITUCIONAIS
- Art. 5°: as normas definidoras dos direitos e
garantias fundamentais têm aplicação imediata
– está se falando, neste caso, sobre EFICÁCIA!
- “uma norma só é aplicável na medida em
que é eficaz. Assim, eficácia e aplicabilidade das
normas constitucionais constituem fenômenos
conexos, aspectos talvez do mesmo fenômeno,
encarados por prismas diferentes: aquela como
potencialidade; esta como praticidade”;
- se a norma não dispõe de todos os requisitos
para aplicação aos casos concretos, falta-lhe
eficácia, não dispõe de aplicabilidade. Esta se
revela, assim, como possibilidade de aplicação.
Para que haja essa possibilidade, a norma há que
ser capaz de produzir efeitos jurídicos;