OBAX
Quando o sol acorda no céu das savanas, uma luz fina se
espalha sobre a vegetação escura e rasteira. O dia aquece,
enquanto os homens lavram a terra e as mulheres cuidam dos
afazeres domésticos e das crianças. Ao anoitecer, tudo volta a
se encher de vazio e o silêncio negro se transforma num ótimo
companheiro para compartilhar boas histórias.
Ali morava a pequena Obax.
Para uma criança, viver numa paisagem como
aquela pode ser perigoso. Mas Obax não tinha medo.
Corria pela planície em busca de aventuras e depois
retornava com os olhinhos brilhantes. As histórias
eram muitas. Ela já havia caçado ovos de avestruz,
conhecido elegantes girafas, apostado corrida com
antílopes e enfrentado ferozes crocodilos.
Ninguém se importava. Obax vivia muito
solitária. Tinha poucos amigos e inventar aquelas
histórias devia ser a sua melhor brincadeira.
Uma vez, Obax contou ter visto cair do céu uma
chuva de flores.
— Nossa! E você se molhou? — caçoaram as crianças.
— Onde foi isso? — duvidaram os mais velhos.
— Calma, gente! É por isso que ela está tão cheirosa — disse a mãe, abraçando a filha.
As histórias, como contam os contadores na África, são sagráveis, mas algumas
invenções de Obax eram demais. Todos riram.
— Como poderiam chover flores onde pouco chove água?
Obax, muito triste, correu pelas savanas e jurou nunca mais contar suas aventuras.
Mas guardar aquilo tudo para si mesma não era bom. Então, ao tropeçar numa
pequena pedra em forma de elefante, Obax teve uma grande ideia. Partiria pelo mundo
afora, pois em algum lugar ela haveria de encontrar novamente uma chuva de flores.
Sabendo como, onde e quando, ela poderia provar a todos
que sua história era verdadeira.
Claro, o trajeto seria lento, difícil e tortuoso se ela
não tivesse pedido ajuda a seu grande amigo,
Nafisa, um elefante que havia se perdido da
manada e vivia sozinho pelas savanas.
Nafisa se abaixou e Obax subiu em suas
costas para uma longa aventura.
Seguiram por estradas de areia que pareciam não ter fim. Subiram e desceram
montanhas. Atravessaram a nado rios e mares. Conheceram também grandes aldeias e
cidades. Obax e Nafisa viram chuva de água, chuva de pedras, chuva de estrelas, chuva de
folhas quando o vento estava agitado e, nos lugares mais frios, viram chuva de flocos de
algodão.
Quando perceberam, eles haviam dado a volta ao mundo e estavam novamente no
ponto de partida, a savana, mas não encontraram sequer uma chuva de flores.
Era madrugada quando regressaram à aldeia.
Em casa, os mais velhos estavam aflitos com o sumiço de Obax. Mas se fartaram de
alegria ao vê-la entrar e contar as novidades.
A menina tagarelava sem parar.
— Você deu a volta ao mundo
nas costas de um elefante? — duvi-
daram os mais velhos.
— E ele veio com você? —
debocharam as crianças.
— Essa menina conta cada
história — brincou a mãe, ajeitando os birotes em sua cabeça.
Porém, desta vez, Obax não se entristeceu. Nem poderia.
Nafisa provaria tudo.
— Vamos lá fora — disse ela.
Ao saíram da cabana não viram nada. Nem perto, nem
longe. Nem mesmo uma pegada se espalhava pela areia. Só
havia no chão uma pequena pedra em forma de elefante.
— Você é mesmo boa de histórias — disse um menino.
— Nós quase acreditamos.
Obax ficou furiosa e enterrou a pedra no chão para
que ninguém nunca mais zombasse de suas aventuras.
Na manhã seguinte, um bater de asas chamou a
atenção de todos. Milhares de pássaros riscavam o céu
das savanas.
No lugar onde Obax havia enterrado a pedra havia
nascido um imenso Baobá. Mas não era um Baobá como
os outros. Era grosso e forte como um elefante. Seu
tronco enrugado parecia estar desenhado em pequenos
detalhes. Sua copa estava repleta de flores coloridas e
pássaros nunca vistos por ali. Ninguém acreditava no
que os olhos viam.
Quando a pequena Obax se aproximou da árvore,
os pássaros bateram as asas numa agitação tão forte que
as flores começaram a cair, enchendo os olhos da
menina do mais puro brilho. Era uma chuva de flores que
forrou a aldeia com um tapete de pétalas perfumadas.
Depois daquele dia, todos passaram a prestar
atenção nas histórias de Obax. Ela cresceu forte como o
Baobá. E na sua chuva de lembranças estava Nafisa, seu
grande amigo.
Hoje, quem se encosta no tronco dessa árvore sagrada procurando repouso, é capaz
até de sonhar com as suas aventuras.
André Neves
Obax
S. Paulo, Brinque-Book Ed., 2017