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Produções Culturais Infantis e Diferença

O artigo analisa a relação entre infância, corpo e diferença em produções culturais infantis, focando em marcadores sociais como classe, gênero e raça, além da violência. A pesquisa foi realizada em escolas públicas de comunidades periféricas em São Luís do Maranhão e Sobradinho, utilizando desenhos e narrativas de crianças de nove a 11 anos. Os resultados revelam cotidianos marcados por desigualdade, refletindo as compreensões infantis sobre o corpo e a sociedade.

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Produções Culturais Infantis e Diferença

O artigo analisa a relação entre infância, corpo e diferença em produções culturais infantis, focando em marcadores sociais como classe, gênero e raça, além da violência. A pesquisa foi realizada em escolas públicas de comunidades periféricas em São Luís do Maranhão e Sobradinho, utilizando desenhos e narrativas de crianças de nove a 11 anos. Os resultados revelam cotidianos marcados por desigualdade, refletindo as compreensões infantis sobre o corpo e a sociedade.

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DOSSIÊ

“A gente brinca junto, mas nem liga que é cada uma de um jeito”:
produções culturais infantis e marcadores sociais da diferença
“We play together, but we don’t mind that each one is different”: children’s cultural
productions and social markers of difference
“Jugamos juntos, pero no nos importa que cada uno sea diferente”: producciones culturales
infantiles y marcadores sociales de la diferencia
Mayrhon José Abrantes Fariasa , Flávia Martinelli Ferreirab* ,
Adriano Lopes de Souzac 

Palavras-chave: RESUMO
Criança; O presente artigo teve como objetivo analisar a relação entre infância, corpo e diferença,
Vulnerabilidade representadas em produções culturais infantis que tematizam marcadores sociais de classe,
social; gênero e raça, somadas à categoria violência. O estudo recorre a registros de duas pesquisas
Diversidade cultural; desenvolvidas em escolas públicas de comunidades periféricas, uma na cidade de São Luís do
Violência. Maranhão e outra em Sobradinho, região administrativa do Distrito Federal. Fundamentando-se
em estudos da Sociologia do Cotidiano e dos Estudos da Infância, analisou-se, de forma
qualitativa, desenhos e narrativas de sete crianças, entre nove e 11 anos, dos contextos
pesquisados. As informações obtidas apresentam cotidianos permeados de desigualdade que
se inserem nas culturas infantis, forjando compreensões de corpo.

Keywords: ABSTRACT
Children; This article analyzed the relationship between childhood, body, and difference, as represented
Social vulnerability; in children’s cultural productions that address social markers of class, gender, and race, along
Cultural diversity; with the category of violence. The study draws on records from two research projects conducted
Violence. in public schools in suburban areas, one in São Luís do Maranhão and one in Sobradinho, an
administrative region of the Federal District. Based on studies from the Sociology of Everyday
Life and Childhood Studies, the drawings and narratives of seven children, aged nine to eleven
years, from the researched contexts were qualitatively analyzed. The obtained information
reveals daily lives permeated by inequality that are embedded in children’s cultures, shaping
their understandings of the body.

Palabras clave: RESUMEN


Niño; El artículo analizó la relación entre infancia, cuerpo y diferencia, representadas en producciones
Vulnerabilidad social; culturales infantiles que abordan marcadores sociales de clase, género y raza, junto con la
Diversidad cultural; categoría de violencia. El estudio recurre a registros de dos investigaciones desarrolladas en
Violencia. escuelas públicas de comunidades periféricas, en São Luís do Maranhão y en Sobradinho, región
administrativa del Distrito Federal. Basándose en estudios de la Sociología de la Vida Cotidiana
y Estudios Sociales de la Infancia, se analizaron cualitativamente los dibujos y narrativas de
siete niños, de entre nueve y once años, de los contextos investigados. La información obtenida
revela cotidianos permeados de desigualdad que se insertan en las culturas infantiles, forjando
comprensiones del cuerpo.

a
Universidade Federal do Maranhão. São Luís, MA, Brasil.
b
Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, Brasil.
c
Universidade Federal do Norte do Tocantins. Tocantinópolis, TO, Brasil.

*Autor correspondente:
Flávia Martinelli Ferreira
E-mail: flaviamartinelli@[Link]

Recebido em 16 de julho de 2024; aceito em 02 de setembro de 2024.


DOI: [Link]
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde
que o trabalho original seja corretamente citado.
Infância e marcadores sociais da diferença

INTRODUÇÃO do pré-estabelecido e de roteiros que só permitem ver


os cenários sob as mesmas perspectivas. Assim, ela visa
Os desenhos infantis são tomados como objeto observar as rotinas e as rupturas com especial atenção
de análise das produções culturais infantis, as quais à ação dos fatos quando, aparentemente, nada ocorre
expressam posicionamentos sociais construídos pelas (Pais, 2003).
crianças. Seu reconhecimento, portanto, nos permite
Em concordância com o pensamento do sociólogo
observar suas condições de produção (Gobbi, 2002, 2023).
belga Claude Javeau, Pais (1987) apontou o cotidiano
Algumas questões, neste sentido, precedem o desenho,
como uma categoria indistinta do social, que sedia
o que significa que há elementos estruturadores da
conflitos, tensões, crises e mudanças. Nesse bojo,
própria condição de produção das crianças, explicitando
o autor acrescentou que não podemos enfrentar
e/ou reforçando o status quo vigente, perpetuando
quaisquer nuances do cotidiano tentando apreendê-las
diferenciações e discriminações em nossa sociedade.
isoladamente. Sugeriu, com isso, a necessidade de uma
A entrada na escola influencia a construção dos teoria geral que possibilite a construção de categorias
desenhos infantis, na medida em que impõe um conjunto favoráveis à captação minuciosa dos sentidos do
de signos gráficos como flor, pássaro, casa, etc., resultando cotidiano (Pais, 1987).
na diminuição da diversidade e da riqueza temática em
Já os estudos da infância têm como objeto as
comparação com os desenhos realizados em casa, como
produções socioculturais oriundas do universo infantil.
aponta Mèredieu (1974). Por outro lado, o processo de
Reconhece, antes de tudo, a interpretação das crianças
escolarização também promove a difusão de estereótipos
sexuais e raciais que, decerto, podem ser retratados sobre o mundo, os significados que atribuem aos signos
nos respectivos desenhos infantis, os quais, somados e símbolos sociais e as maneiras como respondem
às falas das crianças e de seus familiares, acenavam à às diversas formas de interação, sejam elas entre
época para mudanças nas relações sociais estabelecidas pares ou com o universo adulto. Para tanto, dispõe de
entre os sujeitos (Gobbi, 1999). A antropóloga Neusa metodologias que aproximam o pesquisador das crianças,
Gusmão (1993), por exemplo, observou que as crianças buscando suas compreensões em relação às culturas que
negras do Campinho da Independência, Rio de Janeiro, as circundam (Sarmento, 2003; Delgado e Müller, 2005;
representavam os estigmas e estereótipos impostos pelo Corsaro, 2011).
universo branco em seus desenhos. A seguir, apresentaremos os aspectos metodológicos
Nesse cenário, pode-se articular que a representação que delinearam as pesquisas que serão colocadas
do corpo no universo infantil é um mecanismo em diálogo no presente artigo. Em seguida, serão
fundamental de linguagem e experimentação do mundo, apresentadas narrativas das crianças sobre seus
visto que através do movimento, as crianças evidenciam desenhos, analisadas a partir de três diferentes
formas e níveis diversos de diálogo corporal, à revelia marcadores sociais: classe, gênero e raça. Também
da permissividade adulta, construindo mecanismos de estarão reunidos elementos para pensar a violência
resistência, transgressão e criação (Arenhart, 2012). como categoria emergente das desigualdades sociais,
O presente artigo teve como objetivo analisar a relação bem como dos referidos marcadores. Por fim, reflexões
entre infância, corpo e diferença, representadas em a partir das produções culturais infantis estarão reunidas
produções culturais infantis. nas considerações finais deste trabalho.
Para tanto, recorremos à análise de desenhos ASPECTOS METODOLÓGICOS
e narrativas infantis produzidos em duas pesquisas
realizadas no Programa de Pós-graduação em Educação Em meados do século XIX, uma nova organização
Física, na Universidade de Brasília - UnB, em contextos geracional engendrou no campo da pesquisa duas
distintos: a primeira, desenvolvida em uma escola pública novas ciências, a psicologia e a pedagogia (Barbosa,
municipal, de ensino fundamental, alocada em uma 2014). Reúnem-se, neste período, contribuições como
região periférica do perímetro urbano da cidade de São a distinção entre crianças e adultos, a singularidade do
Luís – Maranhão; e a segunda, que teve como campo um pensamento da criança (não mais considerado inferior),
Centro de Atenção Integral à Criança e ao Adolescente a escuta das crianças e de suas conceitualizações, a
(CAIC), situado na região administrativa de Sobradinho descoberta das necessidades e interesses manifestados
– Distrito Federal (DF). por elas e o jogo como um elemento central de suas vidas
As pesquisas apresentam como tronco comum (Barbosa, 2014).
as culturas lúdicas infantis, utilizando aportes teórico- Os novos estudos da infância, além disso, apresentam
metodológicos de estudos do campo da sociologia uma reflexão crítica sobre as produções existentes no
do cotidiano e dos estudos da infância. O trabalho foi campo e sugerem outras configurações e bases teóricas
produzido buscando a aproximação dos sujeitos e suas que instigam a elaboração de novos procedimentos de
impressões em torno do mundo, com o objetivo de investigação. São as culturas infantis, nesse sentido,
“escavar o cotidiano”, termo caro à sociologia da vida que exigem perspectivas capazes de alcançar sua
quotidiana. Sublinha-se que a sociologia do cotidiano complexidade e interdisciplinaridade. Isto posto, importa-
perpassa por uma lógica de descoberta, buscando fugir nos sublinhar que as crianças não são seres meramente
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Infância e marcadores sociais da diferença

determinados pelas culturas, mas, agentes produtores degradação, desarraigo, entre outros (Fernandez e
de cultura (Cohn, 2005; Gaitán Muñoz, 2006; Pavez-Soto Oliveira, 2020). Todas estas expressões não sugerem
e Sepúlveda, 2019). uma teoria explicativa da urbanização desigual, mas
O presente estudo reconhece que as culturas expressões de fenômenos reais que serão analisados a
infantis são forjadas a partir do entrelaçar de outras várias partir dos desenhos infantis neste artigo.
culturas que carregam em si possibilidades heurísticas Para alcançar o objetivo delineado no presente
diferentes de compreensões da infância, do corpo e de estudo, recorreu-se a análise de um conjunto de desenhos,
marcadores sociais. Nesse sentido, tal como mencionado seguidos de narrativas, de sete crianças, com faixa-etária
alhures, recorremos aos aportes teórico-metodológicos entre nove e 11 anos, dos contextos pesquisados, os quais
da sociologia do cotidiano e dos estudos da infância, abrangiam um total de 105 crianças.
aliados ao referencial epistemológico compreensivo e Ressalta-se que o desenho infantil representa um
à abordagem qualitativa. As produções realizadas em importante meio de produção e expressão do cotidiano
campo, portanto, serão materiais empíricos primordiais por parte das crianças. Além disso, constitui-se enquanto
na captação dos eixos de comparação. registro histórico, que caracteriza as diversas formas
Os dados foram produzidos coletivamente com de viver a infância, em diferentes contextos e tempos
os/as participantes da pesquisa, entendidos/as como históricos (Gobbi, 2002). As narrativas sobre os desenhos,
protagonistas da mesma1. Tratam-se de crianças oriundas por sua vez, constituem material privilegiado para
de escolas situadas em comunidades periféricas, uma na pesquisar o cotidiano das crianças, entrelaçado com
cidade de São Luís do Maranhão e outra em Sobradinho, os marcadores sociais observados. Ora, considerando
região administrativa do Distrito Federal. que o ato de narrar é atribuir sentido às experiências
A cidade de São Luís é a capital do estado do (Kishimoto et al., 2007), pode-se articular que a narrativa
Maranhão, localizada na Região Nordeste do Brasil. permite à criança a exteriorização do conhecimento
O seu território está localizado na grande ilha de sobre si, além da construção de um processo de
São Luís, Golfo do Maranhão, banhado pelo Oceano reflexão e interpretação dos marcadores sociais, como
Atlântico. Apesar da riqueza na biodiversidade e na demonstraremos a seguir.
pluralidade cultural, de acordo com Lopes e Briceño-León Com efeito, as pesquisas que tratam sobre as
(2023), nas últimas décadas, São Luís enfrenta desafios culturas infantis sugerem a importância de atentar para as
relacionados à criminalidade. Conforme o IPEA-FBSP formas de uso dos seus diversos tempos e espaços. Assim,
(IPEA, 2021), São Luís está na 13ª colocação no ranking no presente estudo, buscamos compreender os enigmas
das cidades com maiores ocorrências de homicídios que circundam os próprios significados do cotidiano para
no Brasil, cujo perfil da maioria das vítimas são jovens as crianças, marcadas por produções que tematizam
do sexo masculino, negros e moradores de periferias. marcadores sociais da diferença. Portanto, o processo
Com efeito, compreende-se que esse cenário dialoga com de decifrar os enigmas das crianças não requer apenas
pontos críticos no que se diz respeito a problemáticas a mera caracterização das circunstâncias com as quais
mais amplas nos indicadores de pobreza no estado do elas interagem e experimentam seus espaços sociais.
Maranhão, dentre os quais, questões de infraestrutura É preciso atentar-se às suas narrativas e produções
básica (água potável, saneamento e tratamento de lixo), culturais, problematizando as tensões emergentes nos
baixos níveis de escolaridade, trabalho precatório, acesso espaços sociais em que elas vivem suas infâncias.
à renda, seguridade social, ascensão social, dentre outros
(Maas et al., 2022). PRODUÇÕES CULTURAIS INFANTIS QUE
O DF, por sua vez, conta com 33 Regiões TEMATIZAM AS DIFERENÇAS
Administrativas (RA), que apresentam altos níveis de
Além de representar um lugar de aprendizagens
desigualdade, sendo suas condições de urbanização,
de práticas e saberes, o cotidiano também representa
serviços e equipamentos, drasticamente desiguais entre
um campo de confrontações, que são (re)visitadas e
setores como o Lago e Park Way e as favelas de Pôr do Sol
tensionadas por parte das crianças. Conforme entende
e Sol Nascente hoje constituídas em nova RA (Fernandez
Brougère (2012), boa parte das culturas infantis são
e Oliveira, 2020). Ou seja, o contexto é de marginalidade
produzidas em espaços-tempos institucionais organizados
e segregação extrema no DF, abrangendo as RAs de
por adultos. Nessa linha de discussão, Corsaro (2011, p.
Sobradinho I e II. De acordo com os autores, são vários
32) alerta que as crianças não devem ser estudadas
os termos propostos e utilizados nas análises urbanas
tão somente nos rastros das culturas dos adultos, mas
sobre estratificação social em cidades latino-americanas
considerando as especificidades do que ele chamou
e do mundo: marginalidade, segregação, exclusão,
de cultura de pares, considerando “[...] um conjunto
fragmentação, segmentação, dispersão, atomização,
estável de atividades ou rotinas, artefatos, valores e
preocupações que as crianças produzem e compartilham
1
Corroborando o pertencimento e protagonismo das crianças em interação com os demais”.
nas pesquisas, os nomes mencionados no transcurso do Assim, para compreender o universo semântico
texto foram escolhidos por elas próprias. desses sujeitos, é necessária a aproximação de seus
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Infância e marcadores sociais da diferença

Figura 1. Desenho de Bob esponja (10 anos), tema: “O meu cotidiano é assim…”.
Fonte: Registros de pesquisa.

mundos para, assim, interpretar seus códigos, ajustando 2019), já que são produtos comerciais sujeitos à lógica da
o olhar adulto às suas formas particulares de interação. mercantilização e do consumo. De acordo com Csordas
Para tanto, analisaremos as produções elencadas a (1994), o próprio processo de incorporação da cultura
partir das categorias de classe social, gênero e raça, material2 retrata a relação entre o corpo e os ditames
como mencionado anteriormente. Vale ressaltar que as culturais. Outrossim, a classe social à qual pertencem
produções infantis podem entrelaçar estas categorias, podem condicionar sua participação em atividades
assim como reuniremos elementos para refletir sobre a específicas, limitando seu acesso a determinado objeto
violência como possíveis resultados das desigualdades da cultura material infantil. Esta limitação pode dar lugar
que emergem destes marcadores sociais. à necessidade de recorrer à imaginação para imitar
Nas produções observadas, evidenciaram-se noções estas práticas, como o caso de simulação do brinquedo
acerca das classes sociais e do acesso a um capital cultural da boneca Barbie, por exemplo, tal como ilustrado no
específico. A ideia de capital cultural, introduzida por desenho (Figura 2) e na narrativa de Lara.
Bourdieu (2007), desempenha um papel fundamental
na participação das crianças em atividades lúdicas e Eu com minhas amigas aqui na escola brincando de
jogos. O primeiro desenho representa um paradoxo barbie modelo [...] É só de mentirinha porque a gente
entre um espaço que poderia ser destinado para a prática não tem dinheiro pra ter boneca cara, de gente rica
de lazer, mas que, por descaso do poder público, tem [...] Pobre brinca do jeito que dá, né?! Mas a gente fica
muitas vivências minimizadas. Bob Esponja retratou a imaginando que aqui é um castelo e fica tudo mais
comunidade como um lugar de brincar, porém, frustrada legal [...]”. (Lara, 9 anos, São Luís - MA).
pelo excesso de barro e pela presença dos bandidos, Observa-se, nos registros acima, que meninos
conforme ilustrado na Figura 1 e explicado na sua e meninas em alguma medida são educados por
narrativa, descrita abaixo: seus brinquedos, de tal modo que a publicidade não
[Na minha comunidade] É tudo de ruim e tudo de bom. mede esforços para impregná-los com características
É bom porque é onde a gente mora e brinca, né? É ruim consideradas próprias da feminilidade ou da masculinidade
também porque tem muito bandido. Dá pra ouvir os (Roveri, 2019). A boneca Barbie, na análise da autora,
tiros lá de noite. Já vi muito sangue perto lá de casa, reforça uma forma sensível e passiva de se comportar,
pertinho da lixeira. Pobreza é de lascar [...] Desenhei contribuindo para consolidar conceitos arraigados
uma casa, uma rua, um carro. Fiz por fazer porque de domesticidade e beleza como inerentemente
ninguém brinca mais lá mesmo. Só tem barro e é cheio femininos, tal como destaca Roveri (2019). Neste caso,
de sujeira. Só as vezes eu que saio sábado pra brincar a boneca Barbie parece operar como um marcador de
com minha vizinha. Lá no Plano [Piloto], onde minha desigualdade, assinalando características desejadas
mãe trabalha é só o ouro. Tudo bacana, coisa de rico, e
aqui é essa feiúra. (Bob esponja, 10 anos, Brasília – DF). 2
A expressão “cultura material” é polissêmica, referindo-se
Assim, de forma semelhante aos espaços, os objetos tanto ao objeto de estudo quanto a uma forma de
também atuam como testemunhas dos processos de conhecimento, o que pode causar ambiguidades. Essa
hibridização cultural e globalização que influenciam ambiguidade também implica uma oposição à ideia de
o mundo das crianças (Martinez e Ames, 1997; Sills, cultura imaterial (Rede, 1996).

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Figura 2. Desenho de Lara (9 anos), tema: “Minha brincadeira favorita na escola”.


Fonte: Registros de pesquisa.

Figura 3. Desenho de Joseph (10 anos), tema: “Minha brincadeira favorita na escola”.
Fonte: Registros de pesquisa.

pelas meninas que talvez nunca sejam reconhecidas [Desenhei] eu e meus parceiros batendo um ‘fute’
nelas próprias. aqui na escola [...] só quebrada louca [...] Uma vez um
Para além disso, constructos simbólicos de maluco quase arranca minha canela. É coisa pra macho
feminilidades e masculinidades são representados doido mesmo [...] Do outro lado aqui, fiz as meninas
nas produções culturais infantis, em que as relações brincando das besteiras delas [...] Menina só brinca de
de gênero são mediadas por significados subjacentes, coisa cheia de frescura, com maquiagem [...] tô fora
muitas vezes, confundidas com a categoria sexo, em sua disso, tio. (Joseph, 10 anos, São Luís – MA).
restrita descrição da identidade sexual de menino ou
menina. No desenho de Joseph (Figura 3), por exemplo, Em nossa sociedade, histórica e culturalmente,
percebemos que ao brincarem entre si, as crianças gestos que remetem a virilidade são designados ao
lançam mão de elementos “generificados”, subsumidos sexo masculino e, por outro lado, trejeitos delicados e
em expressões que contribuem para compreensões que demonstram sensibilidade são associados ao sexo
antagônicas de gênero, estipulando fronteiras entre feminino. Ao atribuir algumas dessas características a
grupos e caracterizando o repertório das suas práticas um representante do outro sexo, a designação assume
corporais (Cruz e Carvalho, 2006). o caráter depreciativo, uma vez que é feita a exclusão
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simbólica do sujeito de seu grupo, a partir de um traço consigo desdobramentos não apenas para (re)pensarmos
identitário. No caso de Joseph, constata-se que o critério as definições de gênero (Figura 4), mas também de raça
de exclusão foi a virilidade para o jogo de futebol, que (Figura 5). Sobre este aspecto, o caso de Valentina nos
segundo o garoto, seria “coisa de macho”, enquanto a parece bastante ilustrativo. Trata-se de uma garota negra
maquiagem das meninas, adjetivada como “frescura”, que se autorrepresenta, em seu desenho, como sendo
seria algo tolo, e/ou de menor importância. branca, evidenciando a sua predileção pela beleza das
A discussão em torno da educação do corpo, nesse colegas, com traços fenotípicos diferentes do dela (todas
cenário, assume um papel de destaque, ao considerarmos brancas), o que, aliás, é ratificado em sua narrativa. Esta,
que o gesto é um importante veículo de interpretação denota uma aparente transição entre o mundo real e o
do cotidiano [informação suprimida pelos autores]. imaginário, bem como possíveis influências de padrões
Um exemplo a ser considerado é representado no desenho estéticos e raciais predominantes na sociedade em geral
de Beyoncè, que retrata ela e o colega dançando escondidos e/ou na comunidade em que ela está inserida.
no recreio de sua escola. Tal desenho traz à tona, de forma Aqui [no desenho] sou eu e minhas amigas da sala [...]
sutil, pontos de vista revestidos de preconceitos, em que o A gente tá brincando de modelo recreio, mostrando
imaginário em torno da sexualidade do colega é colocado nossos looks. Tô de megahair igual minha tia que mora
em xeque, pelo seu gosto pela dança.
em Fortaleza [...] Me desenhei assim [branca] porque
Eu desenhei eu e meu amigo de outra turma dançando eu fico mais bonita assim. Eu queria ser menos morena
escondidos no campinho na hora do recreio [...] A gente e com o cabelão comprido assim também [...] Acho as
sempre fica dançando funk lá quando os meninos meninas mais branquinhas tão lindas [...] Eu queria
vão jogar bola no pátio [...] Ele fica com vergonha de ser assim, loira [...] Nós somos diferentes né?! A gente
chamarem ele de gay, mas eu acho que ele é mesmo. brinca junto e nem liga que é cada uma de um jeito,
Nem gosta de jogar bola e de coisas de menino [...] Ele mas a gente fica fazendo de conta que é igual aquelas
rebola demais, sabe até fazer o quadradinho. Fico de famosas. (Valentina, 10 anos, São Luís – MA).
cara, tio. (Beyoncè, 10 anos, Brasília – DF).
Ao mencionar que ela e suas amigas brincam juntas
Le Breton (2006, p. 65) entende que as lógicas e não se importam com as diferenças entre elas, Valentina
sociais previstas na modernidade devem reconhecer destaca um aspecto positivo da diversidade e inclusão no
os significados que atravessam o corpo. Nessa trama, o ambiente escolar. Contudo, observa-se que a brincadeira
autor atribui ao corpo um lugar de inclusão, promovendo envolve a simulação de serem “famosas”, sugerindo uma
conexões entre os indivíduos e não suas distinções. possível influência de padrões de beleza presentes na
Sugere, com isso, que a sociologia do corpo representa mídia, os quais muitas vezes não prestigiam a negritude.
um caminho para o “[...] reconhecimento da relação com Evidencia-se que as crianças interpretam e
o outro na formação da corporeidade”. reproduzem de forma criativa o mundo adulto por meio
Com efeito, no contexto do presente empreendimento de uma dinâmica de representações de papéis, conforme
investigativo, constata-se que tal relação com o outro traz destacado por Sirota (2001). Dessa forma, a partir da

Figura 4. Desenho de Beyoncè (10 anos), tema: “O meu cotidiano é assim…”.


Fonte: Registros de pesquisa.

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Infância e marcadores sociais da diferença

interação com outras crianças ocorre a (re)significação alusivos à violência, expondo embates simbólicos que
do próprio cotidiano. É importante sublinhar que, nesse extrapolam esses próprios gestos e sintetizam uma rede
processo, o corpo se faz presente, pois, conforme aponta de significações [informação suprimida pelos autores].
Ferreira (2009, p. 6), ele “[...] está na base de toda a Nesse sentido, ancora-se a produção de MC Livinho
experiência social, enquanto mediador das relações, (Figura 6), em que o garoto relata uma cena de sua
das práticas, dos discursos, das apropriações do outro brincadeira favorita, batendo em um colega da escola.
e do mundo”. Minha brincadeira favorita aqui é de quebrar os vacilão
Sendo o corpo produto das relações e parte no pau [...] moleque que tem parente de outra facção.
fundamental no jogo social, quando abordamos as culturas Lá na rua essa brincadeira dá é morte [...] Um dia um
infantis, este mesmo corpo pode sediar experiências caboclo só olhou pra um amigo do meu tio e ele crivou
moduladas por roteiros de agressividade ou de gestos ele de bala. Lá na Cruzado brincadeira de facção é troca

Figura 5. Desenho de Valentina (10 anos), tema: “Minha brincadeira favorita na escola”.
Fonte: Registros de pesquisa.

Figura 6. Desenho de Mc Livinho (11 anos), tema: “Minha brincadeira favorita na escola”.
Fonte: Registros de pesquisa.

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Figura 7. Desenho de Coringa (11 anos), tema: “Meu cotidiano é assim…”.


Fonte: Registros de pesquisa.

de chumbo, facada [...]. (MC Livinho, 11 anos, São Luís Segundo Gomes et al. (2007), a violência pode ser
– MA). entendida como um fenômeno social que, historicamente,
atinge diversas culturas, dispondo de relação direta com
Quando brincam com roteiros de violência, as
o processo civilizatório. Dessa forma, caracteriza-se como
crianças lançam mão de expressões e linguagens que são
elemento estrutural da vida em sociedade que invade as
socialmente (re) construídas com características muito
instituições (incluindo a família e a escola), cerceando
particulares que, no olhar do adulto, podem ser entendidas
o comportamento dos indivíduos e modulando as suas
como atos exclusivos de agressão. Essas características várias formas de manifestação.
revelam diferentes faces do cotidiano, trazendo à tona
a capacidade das crianças de reinventarem o mundo ao Ademais, sob outro enquadramento de análise, não
redor [informação suprimida pelos autores]. podemos negligenciar o fato de que a negação de direitos
básicos como educação, saúde, segurança pública,
Por outro lado, Maffesoli (1984) acrescenta que a saneamento básico e lazer, interferem em larga medida
violência é gerada a partir de uma resposta à dominação na promoção da violência em comunidades periféricas
de poderes instituídos. Nesse caso, constata-se que a em todo país, incidindo no processo de educação do
influência das facções criminosas na comunidade povoa corpo de crianças e de jovens (Souza e Araújo, 2009).
o imaginário das crianças, repercutindo em aspectos
das próprias brincadeiras na escola. Outrossim, em CONSIDERAÇÕES FINAIS
outro contexto, o desenho de Coringa (Figura 7) retrata
uma cena de violência em sua comunidade, relacionada O objetivo do presente estudo foi analisar a
diretamente com o tráfico de drogas. relação infância, corpo e diferença, representadas em
produções culturais infantis, de crianças participantes
[Na minha comunidade] Só tem tiroteio, coisa de de duas pesquisas desenvolvidas em escolas públicas de
gangue. Os caras ameaçam e um não pode ir na comunidades periféricas, uma na cidade de São Luís do
quadra do outro por causa do tráfico de droga. Se for, Maranhão e outra em Sobradinho, região administrativa
morre, leva tiro. Numas casas só tem pura maconha, do Distrito Federal.
helicóptero voando, carro de polícia [...] Desenhei eu
Entender o cotidiano das crianças, dentro e fora
saindo de casa pra vir pra escola e vendo um ‘trafica’
da escola, perpassa antes de tudo a compreensão das
ser baleado [...] Aconteceu desse jeitinho aí. Tava mó
microrrelações, observando o comportamento dos atores
felizão e vi o cara levando tiro [...] voltei foi pra casa.
em interação e em diálogo com um plano macro, que
Minha avó quase morre de susto, coitada. Mandou eu
constitui a assimilação de grandes variáveis sociológicas
não ir pra escola. Graças a Deus. (Coringa, 11 anos,
como poder, ideologia, desigualdade, violência e controle.
Brasília – DF). De certo modo, são estas que oferecem contornos ao
A narrativa de Coringa destaca a presença constante processo de socialização e ritualização dos sujeitos em
de violência em sua comunidade, de tal modo que foi diversos espaços sociais.
necessário até mesmo evitar ir para a escola (um possível Seja na família, na comunidade e/ou na escola, as
local de refúgio e segurança) no dia do episódio narrado. crianças acessam valores, normas e condutas capazes
Trata-se de um dilema que, decerto, é enfrentado por de delinear suas compreensões de corpo. Desse modo,
muitas famílias em áreas de risco. buscamos compreender os marcadores sociais tematizados
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Infância e marcadores sociais da diferença

nas produções culturais infantis, manifestados pelo corpo Corsaro W. Sociologia da infância. Porto Alegre: Artmed; 2011.
em movimento nas referidas produções analisadas. Cruz TM, Carvalho MP. Jogos de gênero: o recreio numa escola
O estudo demonstrou que, dadas as especificidades dos de ensino fundamental. Cad Pagu. 2006;(26):113-43.
campos em tela, é possível promover reflexões a partir Csordas TJ. Embodiment and experience: the existential ground
de enquadramentos diferentes, mas que coadunam entre of culture and self. Cambridge: Cambridge University
si, sobretudo a partir da necessidade de reconhecer a Press; 1994.
proeminência dos atores sociais para a compreensão de Delgado ACC, Müller F. Em busca de metodologias
diferentes fenômenos e marcadores sociais. investigativas com as crianças e suas culturas. Cad Pesqui.
Em suma, as análises dos desenhos e narrativas 2005;35(125):161-79. [Link]
infantis das pesquisas apresentadas evidenciam que 15742005000200009.
ambos os territórios (a escola pública municipal, em São Fernandez FN, Oliveira GR. Brasília, entre as desigualdades e
Luís, e o CAIC, em Sobradinho) apresentam marcadores a exclusão social. Rev Baru. 2020;6(1):e7674. [Link]
significativos de classe, gênero e raça. Esses elementos org/10.18224/baru.v6i1.7674.
se manifestam claramente nos desenhos das crianças, Ferreira VS. Elogio (sociológico) à carne: a partir da reedição
refletindo e reforçando as dinâmicas sociais observadas do texto “As técnicas do corpo” de Marcel Mauss.
em cada contexto. Porto: Instituto de Sociologia, Faculdade de Letras da
Universidade do Porto; 2009.
Os desenhos escolhidos para análise são
Gaitán Muñoz L. Sociología de la infancia. Madrid: Síntesis;
representativos de um conjunto maior de produções que
2006.
também corroboram essas interpretações, demonstrando
Gobbi MA. Desenhos entre mundos: elementos para pesquisar
como as culturas infantis são permeadas pelas realidades
e tentar compreender as crianças a partir de seus pontos
sociais em que estão inseridas. Estes exemplos não
de vista. Polit Trab. 2023;57:135-63.
apenas revelam a percepção das crianças sobre o
Gobbi MA. Lápis vermelho é de mulherzinha: desenho infantil,
mundo ao seu redor, mas também reforçam a presença
relações de gênero e crianças pequenas. Pro-Posições.
de desigualdades, tornando visíveis as complexas
1999;10(1):139-56.
interseções entre culturas infantis, a sociedade e seus
Gobbi MA. O desenho da criança pequena: distintas
marcadores de classe, gênero e raça.
abordagens na produção acadêmica em diálogo com a
Espera-se que o presente estudo possa contribuir educação. In: Leite MI, editor. Ata e desata: partilhando
para uma melhor compreensão a respeito das culturas uma experiência de formação continuada. Rio de Janeiro:
infantis produzidas nos contextos educacionais correlatos Ravil; 2002. p. 93-148.
às cidades de São Luís - MA e de Brasília - DF, bem como Gomes NP, Diniz NMF, Araújo AJS, Coelho TMF. Compreendendo
estimular o aumento de pesquisas capazes de abranger a violência doméstica a partir das categorias gênero e
a pluralidade das produções culturais das crianças. geração. Acta. 2007;20(4):504-8. [Link]
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