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Saúde Sexual de Mulheres Lésbicas em Manaus

Este estudo investiga a saúde sexual e o acesso aos serviços de saúde para mulheres lésbicas em Manaus, Brasil, através de entrevistas com dez participantes. Os resultados destacam a influência da heteronormatividade nas dificuldades de acesso e na percepção de prevenção de ISTs, além da necessidade de políticas públicas que reconheçam as especificidades dessa população. Conclui-se que a promoção da saúde sexual de mulheres lésbicas é essencial e requer um reconhecimento adequado por parte dos serviços de saúde.
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Saúde Sexual de Mulheres Lésbicas em Manaus

Este estudo investiga a saúde sexual e o acesso aos serviços de saúde para mulheres lésbicas em Manaus, Brasil, através de entrevistas com dez participantes. Os resultados destacam a influência da heteronormatividade nas dificuldades de acesso e na percepção de prevenção de ISTs, além da necessidade de políticas públicas que reconheçam as especificidades dessa população. Conclui-se que a promoção da saúde sexual de mulheres lésbicas é essencial e requer um reconhecimento adequado por parte dos serviços de saúde.
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Ciência & Saúde Coletiva

[Link] DOI: 10.1590/1413-81232024295.03512023


ISSN 1413-8123. v.29, n.5

Saúde sexual e acesso aos serviços para mulheres lésbicas 1

em Manaus, Amazonas, Brasil

TEMAS LIVRES
Sexual health and access to services for lesbian women in Manaus,
Brazil

Gabriela Rith Beltrão de Azevedo ([Link] 1


Munique Therense ([Link] 1
Sérgio Antônio Saldanha Rodrigues Tamborini ([Link] 1
Gabriel Ponce de Leão Almeida ([Link] 1
André Luiz Machado das Neves ([Link] 1

Abstract This study aims to understand the Resumo O estudo tem por objetivo compreen-
meanings related to sexual health and the de- der os significados relacionados à saúde sexual e
lineations that define the experience of accessing os contornos que definem a experiência de acesso
health services for lesbian women in Manaus, aos serviços de saúde para mulheres lésbicas de
Brazil. This study followed a qualitative approach, Manaus, Amazonas. Trata-se de uma pesquisa
counting on the participation of ten women who de abordagem qualitativa. Contou com a parti-
self-reported themselves as lesbians. Semi-struc- cipação de dez mulheres que se autoidentifica-
tured interviews were carried out and their anal- ram como lésbicas. Foram realizadas entrevistas
yses occurred through three thematic axes. The semiestruturadas e suas análises ocorreram por
first addressed the representations concerning meio de três eixos temáticos. O primeiro abor-
prevention and sexual practices, highlighting the dou as representações sobre prevenção e práticas
notion of fidelity in the relationship as a “protec- sexuais, destacando a noção de fidelidade no re-
tive factor”. Difficulties in the use of condoms in lacionamento como “fator de proteção”. Foram
relationships between two women were report- relatadas dificuldades no uso de preservativos em
ed. The second discussed heteronormativity and relações entre duas mulheres. O segundo discutiu
its effects on self-care, reporting the participants’ a heteronormatividade e seus efeitos no cuidado
difficulties in being understood and welcomed by de si, relatando as dificuldades de as participantes
health services. The third addressed the search for serem compreendidas e acolhidas pelos serviços de
one’s own knowledge as a care tactic, highlight- saúde. O terceiro abordou a busca do próprio co-
ing the importance of information and autonomy nhecimento como tática de cuidado, destacando a
for health promotion and prevention of Sexually importância da informação e da autonomia para
Transmitted Infections (STIs). It can therefore be a promoção da saúde e a prevenção de infecções
concluded that there is a need for public policies sexualmente transmissíveis. Conclui-se que existe
aimed at promoting the sexual health of lesbian a necessidade de políticas públicas voltadas para
women and the recognition of their specificities by a promoção da saúde sexual de mulheres lésbicas
health services. e o reconhecimento de suas especificidades pelos
Key words Female homosexuality, Sexual and serviços de saúde.
1
Universidade do Estado
do Amazonas. Av. gender minorities, Equity in access to health Palavras-chave Homossexualidade feminina,
Carvalho Leal 1777, Minorias sexuais e de gênero, Equidade no acesso
Cachoeirinha. 69065-001
aos serviços de saúde, Saúde da mulher
Manaus AM Brasil.
almachado@[Link]
Cien Saude Colet 2024; 29:e03512023
2
Azevedo GRB et al.

Introdução observada a literatura científica sobre o assunto,


tem-se a marginalização ou a invisibilidade des-
A assistência à saúde para mulheres lésbicas sa população, o índice insatisfatório de desem-
apresenta déficits tanto no acesso quanto na pres- penho no cuidado com a saúde da mulher6 e os
tação dos serviços. São problemas cujas existên- dados alarmantes sobre mortalidade materna7,
cia e permanência devem ser vistas dentro de um por exemplo. Dessa forma, busca-se inserir a
cenário que envolve aspectos políticos, econômi- pauta da saúde da mulher lésbica amazônida nas
cos, sociais, organizativos, técnicos e simbólicos1. agendas de saúde para LGBTQIA+, ampliando a
Neste artigo serão utilizados os conceitos de representatividade da região Norte para além do
gênero como construção social e o da heterosse- estado do Pará8.
xualidade compulsória e seus efeitos nos modos Face ao problema apresentado, este artigo
de assistência à saúde das mulheres lésbicas, por tem por objetivo compreender os significados
meio de uma racionalidade que pressupõe uma relacionados à saúde sexual e os contornos que
junção indissociável entre sexo, gênero e desejo, definem a experiência de acesso aos serviços de
pautada no modelo da heterossexualidade2,3. Tal saúde para mulheres lésbicas de Manaus, Ama-
pressuposição endereça consultas, encaminha- zonas.
mentos, prescrições, entre outras atividades, para
a persona da mulher cisgênero e heterossexual.
Sobre isso, um estudo3 apontou que tal raciona- Método
lidade mantém visível ou invisível aspectos do
processo saúde-doença, dando contornos espe- Trata-se de uma pesquisa exploratória e descriti-
cíficos à oferta de cuidado de profissionais de va, de abordagem qualitativa, na perspectiva da
saúde às mulheres lésbicas e bissexuais usuárias. teoria social e focada na descrição e compreensão
Considerando que o processo saúde-doença dos sentidos produzidos no cotidiano.
não se restringe à compreensão oriunda de uma A pesquisa de campo ocorreu entre julho de
perspectiva pautada no determinismo biológi- 2021 e maio de 2022, e teve como ponto de par-
co4, entende-se que o cuidado direcionado pelo tida um convite em forma de folder postado nas
modelo de sexualidade heterossexual e cisgêne- redes sociais Twitter e Instagram. Dessa forma,
ro pode produzir adoecimento à medida em que duas mulheres entraram em contato responden-
dificulta o acesso à assistência à saúde de quali- do o post do folder nas redes sociais. Ambas eram
dade. Dessa forma, tem-se, portanto, justificati- moradoras do município de Manaus, Amazonas.
va para se discutir e produzir conhecimento que Por meio delas, utilizou-se a técnica snowball9
entenda o fenômeno da assistência às mulheres para convidar e realizar a pesquisa com outras
lésbicas no âmbito nacional e regional, localizan- interlocutoras. Ao todo foram entrevistadas dez
do padrões de saber-poder que operam como mulheres lésbicas cis.
dificultadores ou facilitadores de expressões de O instrumento para levantamento dos da-
subjetividades e diversidades. dos foi um roteiro de entrevista semiestrutura-
Corroborando esse entendimento, Aline da, com temáticas que versaram sobre a situação
Bento5 afirma haver muito menos estudos refe- socioeconômica, a frequência da busca por con-
rentes à saúde de mulheres lésbicas do que de sultas generalistas e ginecológicas, a frequência
mulheres heterossexuais. Tendo em vista que as sexual, a parceira fixa, frequência de realização
mulheres lésbicas apresentam especificidades de exames e utilização de métodos de prevenção
quanto ao acesso à saúde e à permanência nos nas relações sexuais. De acordo com Minayo10, a
serviços3, isso pode interferir na integralidade da entrevista semiestruturada decorre de perguntas
atenção à saúde1,3, e por vezes sustentar práticas objetivas e subjetivas, em que o entrevistador
profissionais violentas, resultantes de um conjun- pode indagar as questões de forma livre sem se
to de aspectos sociais1, em cenários tanto público prender à indagação.
quanto privado3. Tais violências podem aumen- Essas entrevistas ocorreram nas dependên-
tar a chance de exposição das mulheres lésbicas cias da Universidade do Estado do Amazonas
ao adoecimento, dificultar o acesso aos serviços (UEA), mais especificamente no Espaço de Aten-
de saúde ou intensificar a ausência de prevenção dimento Psicossocial (EPSICO), e online, via
em saúde. Google Meet. A escolha desses locais ocorreu
A pesquisa se justifica pela necessidade de in- por meio da negociação com as interlocutoras,
serir a saúde da mulher da região Norte do país de acordo com suas disponibilidades de partici-
na pauta da agenda nacional de saúde. Quando pação na pesquisa: horários, dias da semana e lo-
3

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cais de preferência. A duração das entrevistas foi Foram construídos três eixos temáticos, que
entre 30 e 50 minutos. Todas tiveram os áudios descrevem as compreensões das mulheres lésbi-
registrados em dispositivos eletrônicos e foram cas relacionadas à saúde sexual e ao acesso aos
transcritas na íntegra. serviços: representações sobre prevenção e prá-
Nos dias que antecederam as entrevistas, fo- ticas sexuais; heteronormatividade e seus efeitos
ram mantidas conversas com as interlocutoras no cuidado de si; busca do próprio conhecimento
em redes sociais, como Twitter e Instagram, para como tática de cuidado.
negociar como seria o encontro. Por fim, o conta-
to com algumas participantes tornou-se comum Representações sobre prevenção
mesmo após a pesquisa. Tais momentos foram e práticas sexuais
conduzidos com um misto de zelo metodológico
e um cuidado na produção do vínculo, principal- As representações sobre prevenção são an-
mente por meio da demonstração de que a in- coradas na noção de seriedade de um relaciona-
terlocução na pesquisa não se restringiria a uma mento e na confiabilidade atribuída a uma relação
entrevista. Durante a realização do trabalho em estável. Essas representações tornam-se concre-
campo, percebeu-se que essas relações, socialida- tas com a não utilização de barreiras de proteção
des e preparo foram fundamentais para a quali- sexual, havendo penetração ou não. Ainda sobre
dade da interlocução mantida. formas de prevenção sexual, elas citaram as difi-
A análise das entrevistas foi realizada de for- culdades presentes no manejo de tecnologia de
ma concomitante à sua produção, na medida em prevenção, tal como o uso de preservativos volta-
que se identificavam as pistas no campo, as refle- dos para sexo entre duas mulheres.
xões sobre a literatura estudada e as reuniões dos Mas creio que é muito do tipo da seriedade do
pesquisadores da equipe. Utilizando a técnica de relacionamento, entendeu? (E1).
codificação temática, que permitiu identificar, No início, até que ficava meio em dúvida, ah!
analisar, interpretar e descrever padrões e regu- porque é uma relação entre duas mulheres, será
laridades por meio dos dados empíricos e das ex- é realmente necessário [uso de proteção sexual]?
periências em campo, foi possível a identificação Ainda mais que é uma relação fixa (E3).
dos conceitos e códigos presentes no material10. Não costumo usar proteção, pois tenho parcei-
Quanto aos aspectos éticos, as interlocutoras ra fixa, então não uso... se não tiver parceira fixa,
foram informadas sobre a justificativa, os objeti- com certeza acho necessário fazer uso das barrei-
vos e procedimentos da pesquisa e convidadas a ras, com certeza é necessário (E6).
assinar o Termo de Consentimento Livre e Escla- Em relação à barreira de proteção entre as
recido. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de mulheres, não tem uma certa proteção como entre
Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do homem e mulher, como o preservativo. Entre duas
Amazonas, sob Parecer nº 4.854.307, Certificado mulheres, o cuidado é conhecer o parceiro, saber
de Apresentação para Apreciação Ética (CAEE) se ela toma conta da saúde dela, a mulher não é
46823321.0.0000.5016. como o homem que tudo aparece, como cancro ou
uma doença venérea. Então isso aí entre duas mu-
lheres, é conhecimento e confiança (E7).
Resultados e discussão Entre as entrevistadas, destaca-se que a pre-
venção e as práticas sexuais ocorrem por uma
Participaram do estudo dez mulheres que se au- noção subjetiva de seriedade do relacionamento,
toidentificaram como lésbicas, com idades entre além da ausência de conhecimentos sobre técni-
20 e 48 anos, que tinham frequentado pelo me- cas de utilização de barreiras de prevenção às in-
nos uma vez algum serviço de atenção à saúde, fecções sexualmente transmissíveis (IST).
além de serem usuárias tanto da rede pública de Esses dados corroboram a pesquisa de Bar-
saúde quanto da privada. As participantes são na- bosa e Facchini11, que aponta que as mulheres
turais de Manaus, Amazonas. lésbicas apresentam percepções de que o envol-
Entre as participantes, oito autodeclararam- vimento com homens é mais propício a ocor-
se pardas, e duas, brancas. Quanto ao estado civil, rências de ISTs do que os com mulheres, que são
sete se declararam solteiras e três em relação ho- relatados como mais seguros.
moafetiva estável. A formação acadêmica variou Entre as dez participantes da pesquisa, nove
entre ensino superior completo e incompleto, e relataram dispensar o uso de métodos de preven-
as que tinham ensino superior incompleto ainda ção quando têm uma relação fixa e estável. Esse
estavam com os cursos em andamento. dado vai ao encontro de Gogna12, que identificou
4
Azevedo GRB et al.

em uma pesquisa que a busca da prevenção se- to sobre saúde sexual de mulheres lésbicas16 nem
xual por mulheres lésbicas ocorre por meio da investimento de políticas de governo e do setor
fidelidade presente nas relações e isso também privado para o reconhecimento das sexualidades
interfere na não utilização de uma tecnologia de lésbicas e sua saúde. O que existe atualmente é
prevenção de ISTs. O estudo de Pinto13 coincide construído por meio da criatividade da interlo-
com a fala das participantes, ao abordar a não cutora, de modo que a narrativa pareceu ter sido
existência do uso de preservativos entre mulhe- produzida por sua rede de sociabilidade, mas
res lésbicas, devendo-se pensar em outras estra- sendo significada como “gambiarra” ou “adap-
tégias para proteção sexual. tação”, nem sempre apropriada. Isso revela ainda
Através de políticas públicas, o Ministério da o sentido de como as práticas de prevenção são
Saúde, além de alguns movimentos de mulheres percebidas por ela como inseguras.
lésbicas, disponibilizava kits de proteção sexual Dessa forma, é possível encontrar vínculos
que dispunham de tesoura, cortador de unha e entre as falas deste estudo e o de Butler17, em sua
luvas14. Embora apresentasse uma solução para obra Vida precária, na qual este público é associa-
a prática de sexo seguro, havia vários entraves, do a um grupo que não consegue ser legitimado,
como difícil assepsia do material, transporte e até muitas vezes sequer enxergado. Tomando por
ocultação dos familiares. base a mulher lésbica, o simples ato de não ser
Outra pesquisa, com enfoque na área de se- vista, de não receber atenção na vertente da sexu-
xualidade e gênero, aponta um modelo de Estado alidade, colabora para sua vulnerabilidade de não
mais intervencionista sobre a proteção, mediante proteger seu corpo.
a escuta das mulheres com o objetivo de promo-
ver subsídios mais eficazes15. Embora a maioria Heteronormatividade e seus efeitos
das interlocutoras deste estudo dispensasse bar- no cuidado de si
reiras de prevenção nas relações ditas como mais
sólidas, elas se contradizem sobre o reconheci- Neste eixo temático são agrupados os senti-
mento de sua importância de maneira geral. dos produzidos entre as participantes e os pro-
Eu sei que o certo seria usar sempre, mas eu fissionais de saúde. Foi estabelecida uma ordem
não uso (E1). compulsória durante o atendimento clínico das
Não costumo usar métodos de proteção... é ne- pacientes, além de situações que despertaram
cessário (E2). desconforto e uma presente vulnerabilidade na
Essa seria uma pauta sobre a saúde sexual de resolução de problemas.
mulheres lésbicas, para que elas compreendam [...] eu mesma falo quando alguma pergunta
a importância de se fazer uso de tecnologias de é feita e eu sei que a resposta para ele entender a
prevenção. resposta eu preciso dizer sobre a minha orienta-
Ainda sobre a utilização de barreiras contra ção... como se eu tivesse grávida... digo que tenho
as IST, uma das dez entrevistadas citou que os um relacionamento homoafetivo... (E6).
métodos de proteção para mulheres lésbicas são [...] a gente já chega e o profissional da saúde
complicados, além da difícil manipulação para fala “ah! teu namorado”, a gente já percebe por aí
ser utilizado. que eles não conseguem nem perguntar qual a sua
[...] mas pra quem tem relação sexual com mu- orientação sexual, a gente já tira por aí que eles
lheres é mais difícil ainda porque o protetor para tiram conclusão e iniciam o procedimento (E7).
fazer sexo oral, não tem... e o que tem pra gente A fala da entrevistada E6 remete às reflexões
adaptar é o negócio de odonto que eu esqueci o de Butler² sobre a ordem compulsória da hete-
nome, mas como consegue isso? Aí a gente tem que rossexualidade. A narrativa revela a racionali-
partir pro outro lado da criatividade (E4). dade do médico: por ser mulher e procurar um
[...] como não tem um negócio voltado pra isso, ginecologista, ela mantém relação heterossexual.
acaba dependendo de gambiarra, então... mesmo A narrativa expressa por E6 é uma crítica à com-
que tu faça, não vai ser 100% apropriado... (E4). pulsoriedade desse tratamento, como se todas as
Das dez mulheres entrevistadas, nove infor- mulheres que entram em um consultório façam
maram não conhecer métodos de proteção sexu- parte de uma relação heterossexual, buscam mé-
al voltado para sexo entre mulheres lésbicas de todos anticonceptivos ou até mesmo tratamentos
maneira integral. Entretanto, uma participante para gravidez.
citou que conhece mais de dois métodos, porém Pelos relatos, observa-se que a maioria dos
sendo difícil executá-los. Esses achados corrobo- profissionais, quando realizam o atendimento,
ram o entendimento de que não há esclarecimen- acionam a presunção da heterossexualidade.
5

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Desse modo, pressupõe-se que todas as mu- Quando fui fazer exame Papanicolau não me
lheres são heterossexuais. Isso afeta de maneira perguntaram em relação a sexo e orientação se-
negativa o reconhecimento da diversidade sexu- xual (E3).
al e a promoção de saúde sexual e reprodutiva. Embora a maioria das interlocutoras tenha
Esses dados corroboram estudo18 de perspectiva realizado o exame preventivo, é relevante ressal-
foucaultiana19 que interliga a compreensão da tar que um estudo internacional22 e outro nacio-
sexualidade e seu reconhecimento por parte dos nal20 destacam que a questão de saúde da mulher
profissionais da saúde acerca de um certo poder lésbica está relacionada à baixa frequência de
entre os corpos, determinando a legitimidade ou exames preventivos. Os resultados revelam que
a ilegitimidade e, no caso das interlocutoras E6 e o ato de questionar essas mulheres quanto à sua
E7, a invisibilidade. orientação sexual e demonstrar profundidade
Desse modo, nota-se o efeito da heteronor- nos aspectos voltados à sexualidade e ao gênero,
matividade20 nas instituições, de modo que pode não sobrepondo as relações cisgêneras sobre as
propiciar a marginalização em relação à procura demais, pode promover o acesso e a permanência
de cuidados, o que pode conferir vulnerabilidade com mais qualidade e excelência.
às mulheres quando buscam saúde.
Entre as interlocutoras, os resultados cole- A busca do próprio conhecimento
tados indicam que as mulheres têm vergonha em saúde como tática de cuidado
de falar sobre sua sexualidade para médicos gi-
necologistas. As dez mulheres interlocutoras da Este eixo busca analisar as formas de acesso
pesquisa relataram que nunca foram perguntadas a autoconhecimento apresentadas pelas entrevis-
sobre sua sexualidade em consultas rotineiras, e tadas, que embora encontrem dificuldades para
quatro afirmaram que, mesmo sem o questiona- acessar informações de cuidado com a saúde,
mento, resolveram falar sobre o assunto. Entre as ainda conseguem por meios diversos atingir seus
dez participantes, três relataram medo, insegu- objetivos perante as normas vigentes.
rança e sensação de falta de abertura ao se de- Entre as dez participantes, três relataram não
parar com a reação do profissional em consultas conseguir um aproveitamento integral ou mes-
periódicas. mo parcial em consultas médicas. Elas buscam
[...] que eu tinha medo da reação do profissio- por conta própria meios não oficiais para auto-
nal, ano retrasado eu falei, senti um olhar diferen- cuidado em saúde (páginas de internet e rede de
te (E3). amizades de mulheres lésbicas com algum grau
Costumo ir ao ginecologista anualmente, não de instrução em saúde). Nesse momento, chama
me sinto aberta em falar minha sexualidade... atenção o estudo de Fraser23, que aponta que as
(E2). injustiças de reconhecimento levam a injustiças
Não me sinto nem um pouco segura em falar, na distribuição de recursos, resultando em má
tenho um pouco de receio de acabar sendo destra- estruturação da atenção básica, afetando direta
tada (E4). ou indiretamente o acolhimento dessas pessoas.
O apuramento desse resultado diverge da Nesse mesmo contexto, Starfield24 diferencia
cartilha “Mulheres lésbicas e bissexuais: direitos, o acesso, que se refere à utilização adequada dos
saúde e participação social”21, que orienta que a serviços de saúde e à acessibilidade que interliga
mulher lésbica precisa e deve ser informada que o usuário ao devido serviço. Logo, por causa de
vai ser atendida e examinada e ter vínculos com diversas barreiras, como a falta de estruturação e
o profissional de saúde, para que possa relatar sua o reconhecimento citado por Fraser23, as concep-
orientação sexual, caso queira. ções de acessibilidade e acesso ficam prejudica-
Sobre exames, entre as dez participantes, das para essa minoria.
seis já fizeram o exame Papanicolau. Essas inter- Esse eixo temático remete à noção de tática
locutoras relataram que, apesar de ser um exa- trabalhada na obra de Michel de Certeau25. A
me invasivo, não houve constrangimentos nem tática é compreendida como se fizesse parte do
questionamentos por parte do profissional que cabedal de astúcias de indivíduos, categorizan-
executou. do-a, então, como “a arte dos fracos”, na qual é
Quando eu fiz foi bem tranquilo, foi uma téc- possível transfigurar a seu favor e de modo si-
nica que teve esse contato comigo, me deu as ins- lente os sistemas disciplinares. Assim, as práticas
truções, foi gentil, tranquilo, só coletou mesmo, me cotidianas (estratégicas e táticas) configuram-se
vesti e pronto. Ela não me perguntou nada sobre como locais e espaços de competição, embates
ser ativa e nem sobre sexo (E1) e cisões que fortalecem e corrompem as costu-
6
Azevedo GRB et al.

meiras configurações do poder e do saber25. No cimento sobre a prática sexual e sobre como se
caso das narrativas das participantes, a busca do proteger diante de certas situações.
próprio conhecimento em saúde pode ser inter-
pretada como uma estratégia a seu favor frente ao
não reconhecimento de sua sexualidade quando Considerações finais
diante de um serviço de saúde:
Eu sei muito bem me proteger, porque eu sem- As compreensões das mulheres lésbicas sobre
pre tive essa responsabilidade sexual com quem me saúde sexual e acesso aos serviços de saúde foram
envolvo... (E7). caracterizadas neste estudo por meio de três eixos
[...] mas ela [profissional de saúde] não fa- temáticos. O primeiro trata das representações
lou nada sobre essa questão de usar preservativo, sobre prevenção e práticas sexuais, destacando
“se protege dessa forma, faz isso e isso...”, foi tudo que as participantes têm uma noção subjetiva de
olhando na internet e pesquisando (E3). fidelidade do relacionamento como “fator de pro-
Acho bom fazer exames, tenho amigos da área teção” e ausência de conhecimentos sobre as téc-
da saúde e conversamos muito sobre isso (E8). nicas de utilização de métodos barreiras de pre-
Ao serem indagadas sobre receber algum tipo venção às ISTs. O segundo eixo temático aborda
de educação em sexualidade durante as consultas, a heteronormatividade e seus efeitos no cuidado
as participantes relataram não haver uma conver- de si, ressaltando que as participantes sentem fal-
sa voltada para esse aspecto. As participantes aca- ta de um ambiente acolhedor e inclusivo, além de
bam pesquisando para buscar informações para sofrerem com o estigma, o preconceito e a invisi-
proteção, principalmente de cunho sexual. bilidade por parte dos profissionais de saúde, seja
É possível analisar nas narrativas das mulhe- em instituições públicas ou privadas.
res da pesquisa as relações de poder analisadas Por fim, o terceiro eixo discorre sobre a busca
por Foucault19, em que o conhecimento é um do próprio conhecimento como tática de cuidado,
produto das relações de luta, das relações de po- demonstrando que as participantes buscam infor-
der entre sujeitos e poderes. Logo, o indivíduo mações sobre saúde e cuidado por conta própria,
luta para sobreviver, embora não consiga se in- por meio da internet e de outras mulheres lésbicas.
serir de um modo normativo, buscando diversos Os resultados desta pesquisa apontam para
outros meios, condições, conhecimentos e táti- a importância de se pensar em políticas públicas
cas para o seu melhor bem-estar. Táticas como que promovam a inclusão e a equidade no acesso
estabelecimento de conhecimento por meio de aos serviços de saúde, tendo em vista a diversi-
terceiros e informações em folhetos em redes dade das identidades de gênero e orientações
sociais, podendo ser muitas vezes refutáveis, não sexuais. Além disso, é fundamental que os profis-
deixam de ser um modo de insurgência frente à sionais de saúde sejam capacitados para atender
tentativa de aniquilamento das sexualidades não às demandas específicas das mulheres lésbicas,
heterossexuais. garantindo um atendimento humanizado e aco-
Nos trechos citados, é evidente que elas rece- lhedor. Por fim, a pesquisa evidencia que as com-
bem apenas informações de proteção de cunho preensões de saúde sexual e as experiências no
heterossexual ou não recebem qualquer informa- acesso aos serviços de saúde são compatíveis com
ção nas suas experiências nos serviços de saúde. aquelas apresentadas por mulheres de outras re-
Todavia, mesmo que de maneira informal, as giões do Brasil, bem como a necessidade de inse-
participantes buscam, por meio de suas redes rir a pauta da saúde da mulher lésbica amazônida
de sociabilidades e pelas vias informais, conhe- nas agendas nacionais de saúde para LGBTQIA+.
7

Ciência & Saúde Coletiva, 29(5):1-8, 2024


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Artigo apresentado em 16/03/2023


Aprovado em 10/07/2023
Versão final apresentada em 12/07/2023

Editores-chefes: Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura


da Silva

CC BY Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons

Common questions

Com tecnologia de IA

Lesbian women in Brazil face cultural challenges such as pervasive heteronormativity and systemic issues like lack of inclusive health policies and professional training in sexual diversity. These lead to assumptions of heterosexuality in healthcare settings, inadequate representation in health policies, and a failure to address specific healthcare needs of lesbian women .

Lesbian women in Manaus, Brazil, face barriers such as heteronormative assumptions in healthcare settings, which lead to a lack of understanding and accommodation by health services. This can result in feelings of discomfort and vulnerability during clinical encounters. Professionals often assume heterosexuality, which affects the quality of care provided .

Compulsory heterosexuality manifests in healthcare interactions through assumptions made by health providers about patients' sexual orientation, often assuming heterosexual relationships. This can result in inappropriate or irrelevant care advice, such as contraceptive counseling without inquiring about sexual practices, reducing the quality of care and making lesbian women feel unseen .

Heteronormativity influences the healthcare experiences of lesbian women by creating a presumption of heterosexual relationships. This leads to inappropriate assumptions by healthcare providers, such as assuming a need for contraceptive advice or failing to inquire about sexual practices relevant to lesbian women. This presumption contributes to feelings of invisibility and can marginalize their specific healthcare needs .

Relationship fidelity is seen as a 'protective factor' among lesbian women because it is perceived to reduce the likelihood of exposure to STIs. Many lesbian women assume monogamy within committed relationships decreases STI risk compared to heterosexual relationships, leading them to forgo conventional preventive measures .

Factors contributing to the marginalization of lesbian women in healthcare settings include systemic heteronormative biases, lack of healthcare professional training regarding sexual diversity, and a general neglect of lesbian-specific health needs in health policies and services. This leads to inadequate health services and increased vulnerability .

The suggested public policy changes include recognizing the specific healthcare needs of lesbian women and developing targeted actions promoting sexual health. Policies should ensure that health services are inclusive, with trained professionals who understand the unique health challenges faced by lesbian women, promoting equity in access to health .

The limited understanding and use of preventive methods for STIs among lesbian women often result in reliance on relationship fidelity as a protective factor, which can be insufficient. This lack of preventive measure awareness can increase vulnerability to STIs due to an underestimation of risk in same-sex relationships, leading to poorer health outcomes .

Lesbian women's personal networks support their sexual health care by providing a source of information and shared experiences. These networks help in compensating for the lack of formal health education and services, allowing women to share knowledge, use alternative protection methods, and bolster self-reliance in health management .

Lesbian women in Manaus demonstrate autonomy in their sexual health care practices by seeking their own knowledge and resources for health promotion. They often educate themselves through non-official channels, use creative solutions for protection, and rely on their social networks to fill gaps left by healthcare services, showcasing self-reliance in managing their sexual health .

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