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Matrilinearidade no Tambor de Mina

O artigo discute a intersecção entre religião, direito, cultura e gênero no contexto do Tambor de Mina, uma religião afro-brasileira originária do Maranhão. A pesquisa, baseada em uma revisão bibliográfica, explora a organização matrilinear dessa religião e como ela foi influenciada por pressões externas ao longo do tempo. O Tambor de Mina é caracterizado por sua estrutura matriarcal, mas enfrenta desafios com a crescente ascensão masculina na hierarquia religiosa.

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Matrilinearidade no Tambor de Mina

O artigo discute a intersecção entre religião, direito, cultura e gênero no contexto do Tambor de Mina, uma religião afro-brasileira originária do Maranhão. A pesquisa, baseada em uma revisão bibliográfica, explora a organização matrilinear dessa religião e como ela foi influenciada por pressões externas ao longo do tempo. O Tambor de Mina é caracterizado por sua estrutura matriarcal, mas enfrenta desafios com a crescente ascensão masculina na hierarquia religiosa.

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RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS: A ORGANIZAÇÃO MATRILINEAR DO TAMBOR


DE MINA DO MARANHÃO1

AFRO-BRAZILIAN RELIGIONS: THE MATRILINEAR ORGANIZATION OF THE MARANHÃO


MINE DRUM

João de Deus Carvalho Filho*

Resumo:
Religião, direito, cultura e gênero são categorias que representam dimensões da vida social que
aturam na realidade de maneira coemergente. O tema proposto pelo presente dossiê, proporciona
uma discussão contemporânea sobre várias temáticas que contemplam essas quatro categorias.
Para esse trabalho foi priorizada, sem, é claro, deixar de fora da discussão, nenhuma das dimensões,
a religiosidade, a cultura e o gênero, que serão trabalhadas na realidade do Tambor de Mina. O
Tambor de Mina é uma religião de origem afro-brasileira que surge no Maranhão a partir da cultura
social e religiosa de negros escravizados que foram trazidos para o referido estado, sobretudo da
região de Daomé, atual Benim. As principais casas de Tambor de Mina, data ainda do período da
escravidão, e são, a da Casa das Minas e a Casa de Nago, de origens Jeje-Nago. Metodologicamente,
o trabalho constitui-se como uma revisão bibliográfica sobre a temática, epistemologicamente
guiado pelas prerrogativas metodológicas da história e da antropologia.
Palavras-chave: Religiões Afro-brasileiras. Gênero. Matrilinearidade. Tambor de Mina.

Abstract:
Religion, law, culture and gender are categories that represent dimensions of social life that act in
reality in a coemergent way. The theme proposed by the present dossier, provides a contemporary
discussion on various themes that contemplate these four categories. For this work, it was
prioritized, without, of course, leaving out of the discussion, none of the dimensions, religiosity,
culture and gender, which will be worked in the reality of the Tambor de Mina. Tambor de Mina is
a religion of Afro-Brazilian origin that arises in Maranhão from the social and religious culture of
black enslaved who were brought to that state, especially from the Daomé region, now Benin. The
main houses of Tambor de Mina, still dating from the period of slavery, are the Casa das Minas and
the Casa de Nago, of Jeje-Nago origins. Methodologically, the work is constituted as a bibliographic
review on the theme, epistemologically guided by the methodological prerogatives of history and
anthropology.
Keywords: Afro-Brazilian religions. Genre. Matrilinearity. Drum of Mine.

***

1
Enviado em: 25.09.2020. Aceito em: 26.12.2020.
*
E-mail: jobiten@[Link]

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Introdução

Religião, lei, cultura e gênero são categorias que representam várias dimensões da vida
social que atuam de forma simbiótica na vida real. A temática apresentada neste volume fornece
discussões contemporâneas sobre vários tópicos que abrangem essas quatro categorias. Para este
trabalho é priorizado, claro que não se excluem o âmbito da discussão, religião, cultura e gênero,
que forneceram cabedais para compreender a realidade do Tambor de Mina.
O Tambor de Mina é uma religião de origem afro-brasileira que surge no Maranhão a partir
da cultura social e religiosa de negros escravizados que foram trazidos para o referido estado,
sobretudo da região de Daomé, atual Benim. As principais casas de Tambor de Mina, data ainda do
período da escravidão, e são, a da Casa das Minas e a Casa de Nago, de origens Jeje-Nago.
Para compreender a estrutura e a organização social do Tambor de Mina, foi relevante que
se trabalhasse com um conceito fundante dessa estrutura, que é o de gênero. Nesse sentido, o
presente artigo divide-se em dois tópicos.
O primeiro versa sobre uma discussão mais ampla, com relação ao contexto social em que
se constituiu o tambor de Mina, contexto esse marcado pela hegemonia dos princípios dogmáticos
e paradigmáticos das Religiões Cristãs, sobretudo, da Religião Católica. Além disso, serão
demarcados os principais conceitos que conduzem a análise da realidade do Tambor de Mina.
Metodologicamente, o trabalho constitui-se como uma revisão bibliográfica sobre a temática,
epistemologicamente guiado pelas prerrogativas metodológicas da história e da antropologia.
O segundo tópico será exclusivo para trabalhar a realidade do Tambor de Mina e sua
constituição enquanto uma religião matriarcal, para demonstrar que a sua estrutura vem sendo
revista ao longo dos anos, a partir das pressões de outras manifestações religiosas de seu contexto.

Organização social e política da religião

Para que se possa compreender a forma de organização de determinada religião, é de suma


importância que se esteja atento a forma estrutural da sociedade e/ou cultura na qual essa religião
constituiu-se ou retirou seus principais axiomas, dogmas e paradigmas cosmológicos, sociais,
políticos (normativos) e/ou culturais. Mircea Eliade, procura no prefácio de seu texto, passear pelas
várias formas de conceituar a religião, em diferentes contextos históricos, políticos e sociais.
Segundo o autor:

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Atualmente, os historiadores das religiões estão divididos entre duas orientações


metodológicas divergentes, mas complementares: uns concentram sua atenção
principalmente nas estruturas específicas dos fenômenos religiosos, enquanto outros
interessam-se de preferência pelo contexto histórico desses fenômenos; os primeiros
esforçam-se por compreender a essência da religião, os outros trabalham por decifrar e
apresentar sua história.2

Não se procura nesse trabalho, fazer uma história da religião, mas se adota aqui, o mesmo
posicionamento do segundo grupo de historiadores, portanto, a análise sobre o Tambor de Mina,
será feita através do estudo de seu contexto histórico. Marshall Sahlins contribui com essa
perspectiva ao defender o uso da história para compreender as mudanças ocorridas na estrutura
social. Segundo o autor, ao analisar os contatos entre as culturas distintas, o pesquisador pode
compreender alguns aspectos que possibilitaram a reestruturação social, sendo assim, observar a
organização social do Tambor de Mina contextualmente, demonstrara que as relações de gênero,
mudam de acordo com as relações estabelecidas entre essa manifestação religiosa com outras
manifestações religiosas e com as várias dimensões da vida social.3
Ao longo dos vários períodos históricos, políticos e sociais pelo qual passou o Brasil, os
princípios basilares da organização do Estado Nacional, estiveram ancorados nos paradigmas e
dogmas da igreja católica, tendo como principal finalidade, catequisar a população em princípios
cristãos e, automaticamente, erradicando as outras manifestações religiosas, em especial, oriundas
das culturas indígenas e das afro-brasileiras.
Compreender essa estrutura é importante, porque verifica-se a influência da religião na
construção da organização social de uma sociedade. O Brasil, até a constituição republicana de 1888
caracterizava-se como Estado Teocrático, pois adotava legalmente os princípios dogmáticos e
paradigmáticos de uma religião, que, como foi dito, da religião católica. Essa relação intima com a
religiosidade cristã, refletiu na estruturação das diversas dimensões da vida social brasileira, como,
por exemplo, na constituição dos sistemas educacionais, na relação entre os gêneros, na
fiscalização, criminalização e opressão de manifestações culturais, e em especial, religiosas que não
seguiam os preceitos cristãos.
O Estado brasileiro a partir da referida constituição é caracterizado como um Estado
Nacional moderno que pauta sua tomada de decisões em princípios laicos, no sentido de que, o
Estado é governado a partir de princípios da racionalidade e não religiosos como acontecia, segundo
Cury, com os Estados Monarcas e, segundo Foucault, com os Estados soberanos. O conceito de

2
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 11.
3
SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2003. p. 25-37.

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laicidade começa a ser discutido ainda na era medieval. Com isso, o “laico traduz a presença de uma
oposição, bastante nítida em face da concepção cosmológica e teocêntrica predominante em toda
a vida sociocultural no Ocidente cristão”4, sendo assim:

No interior da era histórica medieval, abrangida pela já aludida concepção cosmológica e


teocêntrica, há uma distinção entre o religioso que está investido de ordens sacras
(sacerdos, sacerdotis do latim) e o comum das pessoas que não as receberam. Estas últimas
são membros do povo (laós/laói) fiéis à doutrina religiosa cristã, embora vivendo em um
espaço também denominado de profano. Ou seja, os que não são religiosos, no sentido de
que não estão investidos das ordens sacras e que vivem no cotidiano da vida comum, são
laicos.5

Ainda seguindo a perspectiva histórica emerge da ideia de laicidade, ou pelo menos do que
é laico, desenvolvida por Cury que:

Abstraindo-se do termo leigo o sentido de pessoa que não domina um assunto, laico é o
que vive no espaço fora ou diante do outro espaço, o sagrado (religioso) e, como tal, dele
se distingue. Mesmo que o laico seja um fidelis (fiel e crente), ele não é um religioso (sacer
ou kléros) porque se volta como homo (homem enquanto ser humano) às coisas da vida
secular (mundana) tais como negócios, trabalho, vida matrimonial, esportes, entre outros.
Essa relação de congruência entre estes dois espaços convivendo dentro de uma mesma
comunidade sofrerá significativas alterações com o advento da Modernidade.6

Sousa diz que:

É na Europa, especificamente na França, que o princípio de laicidade do Estado tem seu


nascedouro, [...] tendo como ponto de partida a revolução política (século XVIII) e seus
ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Campesinos, a esquerda radical e a massa
popular extirparam, não sem conflitos, o regime absolutista monárquico, rompendo com os
privilégios feudais, aristocratas e, sobretudo, clericais. A natureza do período moderno dar-
se-á pela ruptura epistemológica balizada pela religião e seus dogmas, e em seu lugar
assume-se a confiança na racionalidade, na ciência e na tecnologia (imbuídas no contexto
da expansão do capitalismo industrial), como base filosófica o movimento iluminista dos
séculos XVII-XVIII. Assim, o projeto perpassa pelo abandono do modelo teocrático de
governo, desmonopolizando a religião (em geral do catolicismo) deste direito, passando
para um Estado autônomo jurídica e politicamente.7

O Núcleo de Antropologia da Política (NuAP) procura, por meio das concepções nativas,
demonstrar que a política é uma dimensão da vida social que está em um constante processo de
construção nas relações sociais, culturais e religiosas. Com isso, entende-se que "a religião,
enquanto sistema hierarquicamente organizado, articula-se com a política, enquanto poder, com a

4
CURY, C. R. J. Ensino religioso na escola pública: o retorno de uma polêmica recorrente. Revista Brasileira de
Educação, Rio de Janeiro, n. 27, p. 183-191, 2004. p. 42.
5
CURY, C. R. J. Por uma concepção do estado laico. In: CUNHA, L.; LEVY, C. (Orgs.). Embates em torno do Estado laico.
São Paulo: SBPC, 2018. p. 42.
6
CURY, 2018, p. 42.
7
SOUSA, Denis Alves de. Educação não formal e religiosidade: outro front para o debate de laicidade do estado. 2014.
149f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-Graduação da Faculdade Educação, Universidade Estadual de
Campinas, São Paulo, 2014. p. 25.

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ética porque normatiza e controla as condutas humanas e sociais"8, buscando a" normatização das
condutas individuais e coletivas com vistas a obtenção de benefícios e bençãos no presente e no
futuro post-mortem"9. A regulamentação e regulação das ações dos indivíduos pode ser
caracterizada como uma dimensão da moralidade, mas acima de tudo, como uma dimensão política.
A premissa de liberdade de culto e escolha de crença, assegurado pelo Estado, por muito
tempo não fez parte das prerrogativas do aparelho estatal brasileiro, aparecendo, especificamente,
a partir da promulgação da CF/88. A religião aqui passa para o domínio individual, da livre escolha
de crença e fica a cargo do Estado garantir esse direito, assim como propõe o inciso VI do Art. 5º da
Constituição Federal de 1988, onde diz que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença,
sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos
locais de culto e a suas liturgias”10. Essa regulamentação, que assegura o direito à manifestação
religiosa.
O Tambor de Mina, que é objeto de pesquisa desse artigo caracteriza-se por se constituir,
como uma religião afro-brasileira, especificamente, afro-maranhense, que se estrutura a partir de
elementos presentes em culturas africanas, em especial, a Jeje e a Nagô, oriundas do antigo reino
do Daomé, atual Benin. Como vai ser melhor explanado no decorrer do texto, o Tambor de Mina é
constituída como uma religião politeísta, que cultua, várias entidades sobrenaturais, como, por
exemplo, os Voduns, os Orixás, Encantados, etc. Esse elemento estruturante, diferencia-se
substancialmente da crença no sobrenatural da religião católica, que se caracteriza como uma
religião monoteísta. Essa forma de crença, está ligada a questão do gênero, pois segundo Sousa:
As religiões monoteístas são todas patriarcais: Deus é homem, seus líderes religiosos
também são homens. O judaísmo não tem rabinas, o catolicismo não tem papisa, episcopisas,
sacerdotisas e diaconisas; raras igrejas protestantes têm pastoras, episcopisas; os muçulmanos
também excluem a mulher do comando religioso [...] Faz-se mister enfatizar que a religião sintetiza
as regularidades, as características presentes nos sistemas sociais. Dado o seu caráter sagrado e
dogmático, a religião reproduz e retrata as relações de poder, a moral e os princípios axiológicos de
uma sociedade.11
Como ficara claro no decorrer do texto, a organização social, política e religiosa do Tambor
de Mina, sustenta-se em princípios matriarcais, onde a mulher tem papel de destaque no sistema
hierárquico de cada terreiro. Todavia, essa estrutura vem sendo reconstruída ou, ao menos,
questionada e revisada, a partir da ascensão dos homens na hierarquia e nos postos de poder. A
reestruturação da organização social do Tambor de Mina está estritamente relacionada ao
sincretismo que aconteceu entre essa manifestação religiosa em específico, e as manifestações
religiosas de seu contexto, em São Luís do Maranhão, sobretudo, com o Catolicismo Popular e com
a Cura.
Observando a realidade das relações entre os indivíduos que participam, nas múltiplas
funções que existem (isso será aprofundado no tópico 2) no Tambor de Mina e na Religião Católica,
o gênero é uma categoria que emerge com frequência, objetivando a estruturação hierárquica,
dividindo e atribuindo direitos, deveres, funções, acesso a determinadas dimensões rituais e
organizacionais. Em suma, distribui o poder dentro da estrutura segmentar crescente, sendo que,

8
SOUSA, 2014, p. 121.
9
SOUSA, 2014, p. 117.
10
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: [Link]
ccivil_03/constituicao/[Link]. Acesso em: 10 ago. 2020. [n.p.].
11
SOUSA, 2014, p. 122.

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no Tambor de Mina, as mulheres e os homossexuais são privilegiados e ocupam os cargos mais altos
na hierarquia, enquanto na religião católica, apenas os homens ocupam cargos de poder e
organização.
Até o momento, verifica-se que quatro conceitos se articulam e demonstram que as
religiões são organizadas de distintas maneiras: matriarcado, patriarcado, politeísta e monoteísta.
Esses conceitos formam dois polos de uma dicotomia, onde a igualdade e/ou desigualdade de
gênero pode ser pontuada e caracterizada como uma dimensão política de distribuição de direitos,
deveres e poder nos sistemas hierárquicos.

O Tambor de Mina e o Matriarcado

O Tambor de Mina é uma Religião que surge em São Luís, capital do estado do Maranhão
e está estritamente ligada aos negros africanos que foram trazidos escravizados para o Brasil. O
Tambor de Mina segue um calendário rígido e bem elaborado para cultuar as famílias de entidades
sobrenaturais que compõem seu panteão sagrado, no qual, podemos destacar quatro grandes
categorias de entidades sobrenaturais, que são: “Voduns ou Orixás; Gentis ou fidalgos; caboclos,
tobossis e meninas (princesas e outras)”12. Existem algumas Casas de Tambor de Mina mais
conhecidas em São Luís, que são as Casas: Casa das Minas-Jeje de origem Daomehana e a Casa de
Nagô de origem Nagô. Segundo Ferretti:

O Tambor de Mina é uma religião de origem africana que, em outros estados, é denominada
como: candomblé, Xangô ou umbanda. Nele, as entidades cultuadas, de origens africanas e
de outras procedências, são organizadas em famílias, os sacrifícios de animais são reduzidos
e o transe com entidades espirituais é muito discreto.13

Como fica claro na citação, as entidades cultuadas nos terreiros ou casas de Tambor de
Mina, são oriundas da África, mas também de outros contextos, como, por exemplo, da Europa. A
referência feita a cada uma das famílias de entidades é realizada por meio do termo nação,
principalmente nos terreiros de origem Nagô e:

No Maranhão, três casas construíram sua identidade tomando especialmente como


referência uma “nação africana”: a Casa das Minas-Jeje, a Casa de Nagô e a Casa Fanti-
Ashanti. De acordo com a tradição oral, as duas primeiras foram fundadas bem antes da
promulgação da “Lei Áurea” (em 1888), que aboliu a escravidão no Brasil, e teriam quase a
mesma idade: a Casa das Minas, por Maria Jesuína, dahomeana que teria entrado no
Maranhão como contrabando; e a Casa de Nagô, por duas africanas: Josefa (nagô) e Joana
(cambinda ou “agrono”) que, segundo alguns, era de Angola (Oliveira, 1989: 32). A Casa
Fanti-Ashanti foi aberta com o nome de “Tenda de São Jorge Jardim de Ueira” em 1958, por
Euclides Ferreira, ligado ao Terreiro do Egito, matriz da Mina fanti-ashanti (já
desaparecido).14

Como observa-se, as duas casas mais antigas e conhecidas em São Luís do maranhão, foram
idealizadas e construídas por mulheres, inclusive, o Terreiro do Egito. Essa característica não é
peculiar aos terreiros desse estado, mas se mostra presente, em várias outras religiões afro-
brasileiras, como, por exemplo, no Candomblé da Bahia. Mundicarmo Ferretti diz que:

12
FERRETTI, M. Pureza Nagô e as Nações Africanas no Tambor de Mina do Maranhão: Brasil. Ciências Sociais e Religião,
Porto Alegre, ano 3, n. 3, p. 75-94, 2001. p. 75-94.
13
FERRETI, Sérgio Figueiredo. Repensando o sincretismo. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2013. p. 47.
14
FERRETTI, 2001, p. 77.

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O Tambor de Mina é constituído predominantemente por mulheres. Nas casas mais antigas
e tradicionais, a liderança é sempre feminina e, em algumas, só mulheres podem receber e
dançar com as entidades. Atualmente há muitos terreiros dirigidos e com a participação de
homens, embora com predomínio do número de mulheres. Nas casas de culto de matriz
africana do Maranhão definidas como Tambor de Mina a mulher, além de ser maioria,
costuma ter posição muito elevada, o que nem sempre ocorre em outros contextos da
sociedade brasileira marcada pelo machismo. Essa posição vantajosa da mulher é também
encontrada no Candomblé da Bahia e em outras denominações religiosas afro-brasileiras.15

A autora em sua explanação demostra que a organização hierárquica do Tambor de Mina


está estruturada a partir da questão do gênero. Diferente das religiões monoteístas e patriarcais,
como exemplo, as religiões cristãs, mais difundidas no território brasileiro que são constituídas
como uma religião matriarcal, que:

Apesar de alguns autores questionarem atualmente a existência desse matriarcado nos


terreiros mais antigos da Bahia, afirmando que o crescimento do poder feminino ocorreu
mais nos terreiros jeje-nagô do que nos bantu ou principalmente após a abolição da
escravidão, a ideia de que o matriarcado está ligado à origem e à essência das religiões afro-
brasileiras é bastante afirmada entre pesquisadores e lideranças religiosas.16

A forma de organização matriarcal configura uma forma específica de descendência linear,


onde os grupos de linhagem são formados tendo como referência a mulher. Todavia, existe um
conflito entre a matrilinearidade17 e a patrilinearidade, no que se refere a organização dos
indivíduos e a organização das entidades sobrenaturais. Ferretti atesta que na maioria dos terreiros
de Tambor de Mina, as nações e/ou famílias das entidades são chefiadas por entidades masculinas:

Nas casas de culto de matriz africana da capital maranhense o “status” das entidades
espirituais femininas contrasta bastante com o das mulheres e parece reproduzir melhor a
ideologia machista dominante na sociedade brasileira, em especial, no Nordeste. Além das
entidades femininas serem numericamente inferiores (hoje, por exemplo, nenhuma das
vodunsis da Casa das Minas recebe entidade feminina) ou de terem menor visibilidade nos
toque de Mina (incorporarem menos frequentemente do que as masculinas), quando
recebidas nos rituais realizados em sua homenagem, raramente permanecem “em Terra”
até o encerramento dos toques, como geralmente ocorre no Tambor de Mina com os
voduns, nas casas mais antigas, e, nos outros terreiros, com as entidades masculinas
(voduns, gentis e caboclos).18

É relevante termos isso em mente porque nessas representações os grupos marcam suas
identidades distinguindo-os de todos os outros que estão fora da linhagem. Nas religiões que
citamos no começo de nossa explanação observamos que suas origens são diversas, por exemplo, a
Casa das Minas, tem sua origem Jeje- Dahomeana, enquanto, a Casa de Nagô tem origem Nagô. Por

15
FERRETTI, 2001, p. 1.
16
PARÉS, Luis Nicolau. O triângulo das Tobosi uma figura ritual no Benim, Maranhão e Bahia. Afro-Ásia, Salvador, n.
25-26, p. 177-213, 2001. p. 181.
17
Um pressuposto importante nas análises dos grupos de parentesco matrilineares versus patrilineares é a de que a
família é uma unidade básica e universal da sociedade. Outro pressuposto importante da teoria de parentesco diz
respeito à função da linhagem na sociedade: se funcionam como um grupo que toma efetivamente decisões, então,
tem que haver diferenças internas de autoridade, ou seja, nem todos os membros podem ter igual autoridade
(NARCISO, 2013, p. 10).
18
FERRETTI, 2001, p. 79-80.

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outro lado, a Casa de Mina Vodun Toy Lissá agrega essas duas origens étnicas do Tambor de Mina e
acrescenta ainda uma terceira, que é a linhagem da Mata Codoense, ou kabinda.
A Casa de Mina Vodun Toy Lissá coordenada por Heraldo, descende da Casa Toya Jarina de
São Paulo, que por sua vez descende do terreiro do Egito. Essas informações são válidas, pois
observamos que por um sistema de linhagem matrilinear, matriarcal, ou por uma descendência
genealógica os grupos constroem suas identidades, e elencam marcadores diacríticos, que, por
exemplo, as distingue de outras religiões afro-brasileiras, o que as legitimam como grupos religiosos
do Tambor de Mina.
Dizemos mais uma vez que é relevante demonstrar a linhagem como um sistema
legitimador de um grupo, mas não a tomaremos aqui, como uma questão determinista, pois
acreditamos que, a linhagem é apenas mais um mecanismo de legitimação usada pelos grupos de
um vasto campo de possibilidades que os mesmos encontram para se aproximar e desaproximar de
elementos simbólicos e materiais de outros grupos fora de sua linhagem, que também sirvam para
os legitimarem enquanto uma coisa ou outra.
Para entendermos isso, é pertinente trazermos para o debate conceitual, as reflexões feitas
por José Carlos Gomes dos Anjos sobre o conceito de encruzilhada, ou linhas cruzadas, que para ele:

A linha cruzada permite propor a substituição do conceito de sincretismo religioso pela


noção de cruzamento, e a partir desta, analisar como o pensamento afro-brasileiro absorve
as diferenças. Nos terreiros de Linha Cruzada pode-se dizer que são cultuadas três religiões,
ou na linguagem êmica, três linhas: o Batuque ou Nação (culto aos Orixás), a Umbanda ou
linha dos caboclos, e a Gira, linha dos exus. No entanto, cada uma dessas linhas tem seus
rituais e cerimônias independentes, espacial e temporalmente.19

Nessa citação sobre o trabalho de Dos Anjos, Kosby nos transporta para os terreiros da
Cidade de Porto Alegre no Rio Grande do Sul, mas podemos analisar a partir dessa conceituação, os
terreiros de Tambor de Mina, e em específico a Casa coordenada por Heraldo, pois, como vimos, a
Casa de Mina Vodun Toy Lissá, parte de três linhagens étnicas religiosas diferentes, e em seus cultos,
existe uma demarcação que separa, por exemplo, o ritual para os Voduns, dos rituais dos cablocos.
Esse cruzamento, ou essa linha cruzada, transcende os limites dos rituais, pois a cosmovisão
religiosa dá sentido as ações nas relações sociais, Esse relato devido ao fato de Heraldo, em algumas
conversas informais, explanar que todas as ações de tomadas de decisões de grandes proporções
consulta seus guias espirituais20, com isso ele afirma que erra menos. Assim, as relações que os
membros da Casa de Mina Vodun Toy Lissá têm com outros grupos também é de cruzamento, pois
eles não se unem de maneira definitiva com outros grupos, partem de agregações que são
reversíveis, ou seja, unem-se e são separados de acordo com as demandas do contexto.
Ferretti demonstra que o sincretismo entre Tambor de Mina e Catolicismo Popular, na Casa
das Minas Jeje- Dahomeana acontece de maneira similar a teoria das linhas cruzadas, como, por
exemplo, no ritual de averekete, sicretizado com São Benedito. Nesse Ritual os ritos realizados são
feitos de maneiras separadas. Em primeiro momento, são referentes ao Vodun averekete, enquanto
num segundo momento, são realizados para São Benedito.

19
KOSBI, Marília Floôr. No território da linha cruzada: a cosmopolítica afro-brasileira. História em Revista, Pelotas, v.
12-13, [n.p.], 2006. [n.p.].
20
Entidades sobrenaturais que cada pessoa tem no seu panteão sobrenatural individual e que atuam como
orientadores.

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O que interessa para essa discussão é que a relação entre as diferentes cosmologias
religiosas pode ou não passar por um processo de sincretismo amplo. Todavia, observa-se que os
preceitos existentes em manifestações religiosas dominantes politicamente, afetam na estrutura de
outras manifestações, como o Tambor de Mina.

Considerações finais

Foi de extrema relevância compreender a constituição da organização social do Tambor de


Mina de maneira histórica e conceitual, porque permitiu observar as mudanças em sua estrutura.
O Estado brasileiro por muito tempo caracterizou-se como um Estado que detinha em seus quadros
oficiais uma religião, a católica, religião que se constituiu como uma instituição estruturada de
maneira patriarcal, e sobretudo, como uma religião monoteísta.
Esses princípios dogmáticos e paradigmáticos fizeram com que existisse no Brasil uma
desigualdade de gênero, onde as mulheres e os homoxessuais fossem tidos como gêneros inferiores
aos homens. Por outro lado, o Tambor de Mina constitui-se como uma religião matriarcal e
politeísta, tendo as mulheres posições de comando na hierarquia política e religiosa. Todavia, como
foi explanado essa situação vem mudando.
Religiões de linhas cruzadas ou sincréticas, o Tambor de Mina foi influenciado pelos
princípios patriarcais e heteronormativos presentes no seu contexto social e em outras religiões,
como a católica e a Cura. Ressalta-se que as mudanças estruturais ocorrem a partir da fricção entre
os segmentos de uma sociedade.

Referências

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Protestantismo em Revista | São Leopoldo | v. 47, n. 01 | p. 161-170| Jan./Jun. 2021


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