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Efeitos dos Probióticos na Saúde Intestinal

A dissertação de Pedro Miguel Soares de Matos aborda o papel dos probióticos na saúde do hospedeiro, destacando sua eficácia na manutenção do equilíbrio da microbiota intestinal e na prevenção de patologias. Os probióticos, como Lactobacillus e Bifidobacterium, demonstraram benefícios em condições como diarreia aguda, mas a evidência para outras aplicações terapêuticas ainda é limitada. O trabalho conclui que, apesar do potencial dos probióticos, a recomendação de seu uso deve ser cautelosa devido à variabilidade nos estudos e na seleção das cepas.

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Efeitos dos Probióticos na Saúde Intestinal

A dissertação de Pedro Miguel Soares de Matos aborda o papel dos probióticos na saúde do hospedeiro, destacando sua eficácia na manutenção do equilíbrio da microbiota intestinal e na prevenção de patologias. Os probióticos, como Lactobacillus e Bifidobacterium, demonstraram benefícios em condições como diarreia aguda, mas a evidência para outras aplicações terapêuticas ainda é limitada. O trabalho conclui que, apesar do potencial dos probióticos, a recomendação de seu uso deve ser cautelosa devido à variabilidade nos estudos e na seleção das cepas.

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Dissertação

Mestrado Integrado em Medicina

Probióticos
Autor: Pedro Miguel Soares de Matos

Orientador: Prof. Dr. José Manuel de Carvalho Tojal Monteiro

Porto, Junho de 2010


Largo Prof. Abel Salazar, 2. 4099-003 Porto
Probióticos

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao Exmo. Prof. Dr. Manuel José de Carvalho Tojal Monteiro, orientador da minha tese,
pelo apoio, dedicação e disponibilidade durante a sua elaboração.

Agradeço igualmente todos os conhecimentos que me transmitiu, resultado desta colaboração,


com repercussões na minha formação académica.

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Probióticos

RESUMO

Introdução: Os probióticos são microrganismos vivos administrados para manter o equilíbrio da


microbiota intestinal, sob a forma de suplementos dietéticos ou preparados farmacológicos.
Actualmente emergem como agentes profilácticos e terapêuticos em determinadas patologias.

Objectivo: Este trabalho pretende efectuar uma revisão bibliográfica da literatura científica
actual sobre o papel dos probióticos na saúde do hospedeiro.

Desenvolvimento: Os probióticos promovem o equilíbrio da microbiota intestinal, pela produ-


ção de substâncias bacteriostáticas e através da competição com os patógenos e suas toxinas pela
adesão ao epitélio intestinal. Os seus efeitos fisiológicos, imunológicos e anti-patogénicos no
hospedeiro, obtidos por mecanismos de acção variados mas não consensuais, parecem ter benefí-
cio na prevenção e tratamento de alguma patologia gastrointestinal e extra-intestinal, de carácter
inflamatório, infeccioso e neoplásico.

Conclusão: Os probióticos demonstraram eficácia, sobretudo, no tratamento da diarreia aguda


por rotavírus e "pouchite". Devido às limitações dos estudos realizados, sobretudo impostas pela
qualidade e quantidade da amostra e da selecção probiótica, os resultados para outras patologias
como diarreia associada a antibioterapia, diarreia do viajante, infecção por Clostridium difficile,
Síndrome do intestino irritável, colite ulcerosa, doença de Crohn, carcinoma do cólon e candidía-
se vulvovaginal não permitem, actualmente, a recomendação do seu uso como solução profilática
ou terapêutica.

Palavras-chave: Probióticos, microbiota intestinal, hospedeiro, mecanismo de acção, patologia


gastrointestinal e extra-intestinal, Lactobacillus spp., Bifidobacterium spp., Saccharomyces bou-
lardii.

I - INTRODUÇÃO estimulam a proliferação de bactérias bené-


ficas em detrimento de outras potencialmen-
Os probióticos são microrganismos te prejudiciais ao hospedeiro, reforçando os
vivos que, quando integrados na alimentação, seus mecanismos de defesa.
são classificados de alimentos funcionais A segurança, especificidade, resis-
por beneficiarem a saúde do hospedeiro com tência e compatibilidade dos probióticos são
risco reduzido de causar doença no consu- factores essenciais para poderem ser admi-
midor [Badaró et al. (2009)]. As culturas nistrados como suplementos dietéticos ou
probióticas podem ser usadas com fins pre- preparados farmacológicos, em quantidade
ventivos e terapêuticos porque, ao competi- intra-específica e variedade inter-específica
rem pela colonização da mucosa intestinal e capazes de aumentar a probabilidade de
produzirem substâncias bacteriostáticas, colonização intestinal.

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Probióticos

De entre os probióticos mais usados microbiológicos de Louis Pasteur, que, para


estão as bactérias lactoacidófilas dos géne- além do seu papel fundamental como agen-
ros Lactobacillus e Bifidobacterium, e uma tes causadores de doença, determinadas bac-
levedura não patogénica, a Saccharomyces térias, nomeadamente as produtoras de ácido
boulardii [Williams (2010)]. láctico presentes no leite fermentado, pode-
Um número crescente de ensaios riam ter efeitos benéficos na saúde humana.
clínicos tem documentado o potencial dos O primeiro microrganismo usado com esse
probióticos na prevenção e/ou tratamento de objectivo, e descoberto por este microbiólo-
doenças infecciosas - particularmente gas- go russo em 1905, foi o Lactobacillus bul-
trointestinais e relacionadas com o rotavírus, garicus [Rautava e Walker (2009)].
mas também urogenitais-, de diarreia secun- Desde esta descoberta e depois de
dária ao uso de antibióticos, da intolerância várias estirpes serem usadas em ensaios clí-
à lactose, de doenças inflamatórias intesti- nicos, decorreram três décadas até surgir, no
nais, do carcinoma do cólon, de doenças ano de 1935, o primeiro produto probiótico
atópicas, de patologia da cavidade oral e no comercialmente disponível, um leite fermen-
reforço do sistema imunológico. tado contendo Lactobacillus casei [Rautava
Este trabalho pretende elaborar uma e Walker (2009)].
revisão sobre os diversos mecanismos de Derivado do grego e significando
acção dos probióticos e os benefí- pró-vida, o termo probiótico foi proposto em
cios/limitações da sua aplicação na saúde 1965 por Lilley para se referir a qualquer
humana. organismo ou substância produzida por um
micróbio com um efeito positivo no balanço
II - DESENVOLVIMENTO microbiano intestinal. Era uma definição
denunciadora dos efeitos benéficos destes
1- Definição e evolução histórica agentes por modulação microecológica
intestinal. Há mais de duas décadas, Fuller
Nos últimos anos, o interesse pelo definiu probiótico como suplemento alimen-
consumo e investigação dos probióticos tar à base de microrganismos vivos, com
aumentou substancialmente, sendo acompa- efeitos benéficos no equilíbrio intestinal
nhado por uma crescente evidência clínica a [Fuller (1989)].
suportar alguns dos benefícios atribuídos ao Variadas definições de probióticos
uso destes agentes. O seu amplo consumo e foram publicadas nos últimos anos. Embora
potencial terapêutico têm uma longa história, sem referência aos microrganismos intesti-
sustentada por dados científicos suficiente- nais, mas em conformidade com a medicina
mente sólidos, mas que não evitaram serem baseada na evidência, a Organização Mun-
vistos durante muito tempo como alternati- dial de Saúde definiu probióticos como
vas terapêuticas e usados no anedotário cien- microrganismos vivos que ingeridos em
tífico. quantidades suficientes promovem efeitos
Elie Metchnikoff propôs, posterior- benéficos no hospedeiro [Sanders (2003)],
mente aos revolucionários ensinamentos

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Probióticos

definição actualmente aceite internacional- ções peristálticas, doença neoplásica e imu-


mente. nodeficiência são exemplos de enfermidades
sistémicas capazes de alterar o padrão da
2 - Microbiota intestinal microbiota intestinal [Mitsuoka (1997)].
O leite materno cria um ambiente
O ser humano vive num meio con- favorável para o crescimento das espécies de
taminado por bactérias e em simbiose com Bifidobacterium (B. bifidum, B. longum
estes microrganismos para conseguir sobre- infantis, B. breve), típicas do lactente e
viver. raramente encontradas no adulto. O aleita-
Uma microbiota saudável conserva e mento artificial faz com que o predomínio
promove a ausência de doença, sobretudo do das bifidobactérias seja dissipado dando
tracto gastrointestinal [Saad (2006)]. É o lugar a um ecossistema complexo de bacté-
resultado de uma mistura dinâmica micror- rias anaeróbias e anaeróbias facultativas. A
gânica, única para cada indivíduo, variável idade influencia a capacidade de aderência
ao longo do tracto e mesmo entre a mucosa das bifidobactérias e o seu número diminui
e o lúmen intestinal, resultado da interacção ao longo da vida. O envelhecimento das
entre factores genéticos, ambientais e dieté- paredes intestinais, com a consequente
ticos [Bedani e Rossi (2009)]. diminuição da motilidade gástrica e estagna-
Ao nascer o intestino é estéril. A ção do conteúdo intestinal, leva ao aumento
colonização resulta da exposição a diferen- das bactérias putrefactivas [Chierici et al.
tes espécies de microrganismos das regiões (2003)].
vaginal e perineal materna e do meio A microbiota intestinal, predominan-
ambiente [Vanderhoof e Young (2004)]. Se temente anaeróbica estrita e localizada no
o parto resultar de cesariana, a colonização cólon, compõe-se de cerca de 1014 micror-
intestinal é retardada e da exposição à ganismos, pertencentes a mais de 1000
microbiota ambiental, resulta uma composi- espécies bacterianas diferentes, que mantêm
ção mais rica em bactérias anaeróbias e bac- uma relação de simbiose, comensalismo ou
teróides, diferenças que podem persistir pelo patogenicidade com o hospedeiro [Williams
menos nos primeiros seis meses de vida (2010)]. Espécies bacterianas anaeróbias
[Vaarala (2003)]. estritas correspondem a 97% do conteúdo
Depois do tipo de parto e da exposi- bacteriano gastrointestinal normal. Os géne-
ção ao meio ambiente, a alimentação é o ros anaeróbios mais comuns são os Bacte-
factor que mais influencia a colonização e o róides, Bifidobacterium, Eubacterium,
equilíbrio entre as bactérias benéficas e Fusobacterium, Clostridium e Lactobacillus.
patogénicas do hospedeiro. Outros factores, No que diz respeito aos aeróbios, encontra-
como prematuridade, baixo peso ao nascer, mos as bactérias entéricas gram-negativas
introdução precoce da alimentação, carga ([Link] e Salmonella spp) e os cocos gram-
genética e uso de antibióticos orais, são positivos (Enterococcus, Staphylococcus e
também importantes no estabelecimento Streptococcus). Fungos como a espécie
desta microbiota [Vaarala (2003)]. Altera- Candida albicans fazem também parte da

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Probióticos

microbiota normal. Géneros como Bifido- enfermidades com impacto na saúde e bem-
bacterium e Lactobacillus são benéficos estar do indivíduo [Vanderhoof e Young
para o hospedeiro [Bedani e Rossi (2009)] e (2004)].
colonizam preferencialmente o cólon e o
íleo terminal, respectivamente [Charteris et 3 - Propriedades dos probióticos
al. (1998)].
O estabelecimento da microbiota Para serem bem sucedidos nas suas
intestinal normal durante o período neonatal funções, os probióticos devem possuir
é de crucial importância no desenvolvimento determinadas características que resultem
do tecido linfóide intestinal, do sistema em efeitos benéficos mensuráveis na saúde
imunológico e da função de barreira do do hospedeiro.
intestino, com consequências nos processos Para tal desidrato, devem ser especí-
infecciosos, agudos ou crónicos, e nas pato- ficos e compatíveis com o hospedeiro, com
logias atópicas, contribuindo para a saúde um histórico de não patogenicidade e segu-
desde os primeiros anos de vida até a velhice rança para uso humano; devem ser capazes
[Yamashiro et al. (2004)]. de resistir ao meio físico aquando da passa-
A microbiota simples, instável e gem pelo tubo digestivo, nomeadamente ao
mutável da infância, adquire complexidade e pH ácido e à acção biliar; devem estar aptos
estabilidade na idade adulta, para regressar, a aderir e colonizar a mucosa intestinal rapi-
por razões ainda não explicadas, às caracte- damente, interagindo com outras espécies;
rísticas iniciais. Estas mudanças, lentas e devem ser metabolicamente activos no intes-
sequenciais, respeitam uma ordem biológica tino, capazes de estimular o sistema imune e
característica e influenciada por três grandes produzir substâncias anti-microbianas, ao
vectores: genéticos, ambientais e sociais mesmo tempo que primam pela ausência de
[Chierici et al. (2003)]. genes determinantes na resistência aos anti-
A comunidade bacteriológica com- bióticos [Saad (2006)].
plexa que compõe a microbiota intestinal, a Devido à diferente sensibilidade
qual inclui espécies autóctones (adquiridas inter-hospedeiro, duas ou mais espécies dife-
sobretudo no primeiro ano de vida e coloni- rentes na composição de um mesmo produto
zadoras em permanência) e outras espécies aumentam não só a probabilidade de coloni-
alóctones (com origem exógena, em trânsito zação, como também a possibilidade de uma
temporário pelo tracto gastrointestinal), acção sinérgica na supressão de espécies
exerce fundamentalmente funções metabóli- patogénicas.
cas, tróficas e de protecção [Cucchiara e Para beneficiar o hospedeiro, tem
Aloi (2009)], além de um papel nutricional enorme relevância o processo de fabrico dos
no aproveitamento de elementos da dieta probióticos, o seu armazenamento e a sua
que poderiam ser perdidos pela excreção incorporação nos produtos alimentares, para
[Cummings e Macfarlane (1997)]. Alterar a que as suas propriedades se mantenham ao
sua composição pode ser uma nova forma de longo do tempo, sem perda de viabilidade e
abordar tratar e prevenir determinadas funcionalidade. Assim, são importantes os

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Probióticos

probióticos com boas propriedades tecnoló- génicas com consequentes alterações pato-
gicas, com boa capacidade de multiplicação lógicas. Pelo menos dois mecanismos
e apropriados a produção em larga escala. mediados pelos probióticos mantêm o
Boas propriedades sensoriais, tais como tex- balanço microbiótico intestinal e evidenciam
tura e aroma adequados, são pré-requisitos o seu potencial preventivo e terapêutico: a
para veiculação do produto até ao hospedei- produção de substâncias bacteriostáticas,
ro [Saad (2006)]. como bacteriocinas, ácido e peróxido de
A selecção da estirpe probiótica hidrogénio [Servin (2004)] e a inibição
óptima ou combinação de diferentes estirpes, competitiva da adesão epitelial do intestino.
a selecção do hospedeiro susceptível de Em alguns casos, os probióticos podem
beneficiar com o seu uso, a dose do trata- mesmo desalojar bactérias patogénicas e
mento e sua duração são factores de enorme suas toxinas, previamente aderidas ao epité-
relevo para atingir populações suficiente- lio [Candela et al. (2005)].
mente elevadas e de importância fisiológica As bacteriocinas, pequenos péptidos
para o consumidor [Charteris et al. (1998)]. antimicrobianos produzidos por Lactobacil-
Os probióticos mais usados são as lus spp., têm um estreito espectro de acção e
bactérias lactoacidófilas, especialmente Lac- são sobretudo tóxicas para as bactérias
tobacillus spp. e Bifidobacterium spp., e gram-positivas, ao criar poros na sua mem-
uma levedura não patogénica, a Saccha- brana plasmática ou intervir nas vias enzi-
romyces boulardii [Williams (2010)]. máticas de algumas espécies. Algumas estir-
pes de Bifidobacterium spp. são produtoras
4 - Mecanismos de acção de uma bacteriocina semelhante, capaz de
actuar quer nas bactérias gram-positivas,
Os probióticos são largamente usa- quer nas gram-negativas [Collado (2005)]. A
dos como suplementos dietéticos para um levedura Saccharomyces boulardii produz
aporte nutritivo adicional, ao melhorar a uma protease que diminui a acção das toxi-
digestão e absorção de alguns nutrientes por nas A e B do Clostridium difficile [Casta-
parte das células intestinais do hospedeiro. gliuolo (1999)].
Em contraponto, um estudo de Bartram et al. Estirpes de Lactobacillus spp .e Bifi-
sugere que a microbiota intestinal é relati- dobacterium spp. produzem ácido láctico,
vamente estável e, como tal, geralmente não acético e propiónico, o que reduz localmente
é afectada pela administração de probióticos o pH e inibe o crescimento de uma grande
[Bedani e Rossi (2009)]. Mesmo perante tal variedade de patógenos gram-negativos,
cenário e apesar de não ser conhecido com com o consequente equilíbrio da microbiota
exactidão, diversas explicações para o intestinal. Existe um estudo que relata a
mecanismo de acção dos probióticos têm sinergia de mecanismos: a diminuição do pH
sido propostas. do meio pelo ácido láctico permeabiliza a
A interrupção no circuito microbióti- membrana das bactérias gram-negativas,
co-hospedeiro do tracto gastrointestinal pode permitindo a acção de outras substâncias
levar ao sobrecrescimento de bactérias pato- anti-microbianas [Rautava e Walker (2009)].

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Probióticos

Os probióticos competem tanto pelos auto-imunidade. As doenças alérgicas estão


nutrientes, como pela adesão ao epitélio associadas a um desequilíbrio na relação
intestinal, modulando a microbiota intestinal entre as linhagens de linfócitos T helper
no sentido de diminuir as bactérias patogé- (Th1/Th2) a favor de Th2, com a produção
nicas e suas toxinas [Bedani e Rossi (2009)]. de interleucinas (IL-4, IL-5, IL-10 e IL-13)
A adesão, ao promover a resistência ao trân- favorecedoras dos mecanismos de atopia
sito intestinal e consequente interacção [Christine et al. (2004)], seguida pela secre-
duradoira com o epitélio, prolonga a activi- ção de imunoglobulinas (IgE e IgA) e recru-
dade metabólica e o contacto com o tecido tamento dos mastócitos e eosinófilos que
linfóide intestinal, mediando efeitos imunes medeiam a maioria dos sintomas alérgicos
locais e sistémicos [Badaró et al. (2009)]. A [Winkler et al. (2007)]. Ora, os probióticos,
integridade do epitélio intestinal é funda- ao actuarem sobre os receptores TLR2,
mental para a manutenção das suas funções TLR3 e NOD, podem modelar a resposta
de barreira e respostas cito-protectoras. Da imunológica e reduzir a actividade alérgica
estimulação probiótica sobre os mecanismos e auto-imune. Dessa forma estimulam as
biológicos intracelulares epiteliais resultam células mononucleares a produzir citoquinas,
respostas protectoras, nomeadamente a resti- como INF- γ, IL-2 e IL-12, com o conse-
tuição da barreira epitelial danificada, com quente aumento da activação dos macrófa-
estabilização das junções celulares e dimi- gos e das células B e produção de IgG anti-
nuição da sua permeabilidade, a produção de génio-específica [Christine et al. (2004)]. De
substâncias bactericidas (por exemplo, a destacar a acção dos probióticos sobre o
angiogenina 4) e proteínas protectoras sistema imunológico sem desencadear uma
(como a β-defensina, um péptido que previ- resposta inflamatória prejudicial. Como nem
ne a aderência e invasão bacteriana) e o blo- todas as estirpes lactoacidófilas são igual-
queio da apoptose celular induzida pelas mente eficazes, o consumo concomitante e
citocinas (factor major na resposta inflama- actuação sinérgica de Lactobacillus spp. e
tória intestinal) [Sartor (2002)]. Bifidobacterium spp. podem aumentar a
Outra área potencial para a aplicação resposta imune [Saad (2006)].
clínica de probióticos é no alivio sintomático
abdominal relacionado com o trânsito e 5 - Uso e benefício dos probióticos
motilidade colónica anormal e com o sín-
drome do intestino irritável [Camilleri Numerosas vantagens para a saúde
(2006)]. Isto, porque alguns probióticos são associadas ao uso de probióticos,
intervêm na regulação dos receptores µ- nomeadamente relacionadas com patologia
opióides e canabinóides das células epite- gastrointestinal, urogenital e atópica. Apesar
liais intestinais, modulando e restaurando a de uns benefícios se encontrarem, no
normal percepção da dor visceral [Rous- momento, mais bem documentados do que
seaux (2007)]. outros, nem sempre a relação uso-benefício
Canche-Pool et al. em 2008 sugeri- é tida em conta na hora de usar estes produ-
ram uma associação entre probióticos e tos. Os efeitos descritos devem ser limitados

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Probióticos

às estirpes analisadas em cada estudo e não mesalazina) [Williams (2010)]. Guarner et


extrapoladas e generalizadas para a espécie al. em 2008 referiram que a Escherichia coli
ou para outros probióticos [Badaró et al. Nissle pode ser o equivalente a mesalazina
(2009)]. para manter a remissão da colite ulcerosa.
Para além de prolongar os períodos remissi-
5.1 - Patologia gastrointestinal vos, esta terapêutica é bem tolerada, não
interfere com outros tratamentos farmacoló-
5.1.1. - Doença inflamatória intestinal gicos nem exacerba a sintomatologia. Na
As doenças inflamatórias do tracto indução e manutenção da remissão da doen-
digestivo potencialmente beneficiadas pelo ça de Crohn ou na prevenção da sua recor-
uso de probióticos incluem colite ulcerosa, rência pós-operatória, os resultados não são
doença de Crohn e "pouchite". Actualmente, consensuais [Lamousé-Smith e Bousvaros
cresce a evidência que o estado inflamatório (2009)]. Guslandi et al. em 2000 sugeriram
intestinal coexiste com uma microbiota que Saccharomyces boulardii pode ser bené-
comensal diferente da normal e cuja mudan- fica na manutenção da remissão da doença.
ça pode estar implicada na patogénese da Também para Marteau et al. em 2006, o uso
doença. Contudo, é difícil concluir se a alte- de outra espécie como Lactobacillus john-
ração da microbiota conduz ao estado infla- sonii não se revelou eficaz para o mesmo
matório ou se este se apresenta primaria- objectivo. Segundo Guarner et al. em 2008,
mente e predispõe o hospedeiro a essa alte- não existe evidência que sugira benefício
ração. Mais especificamente, um aumento dos probióticos na manutenção da remissão
populacional de Escherichia coli enteroade- na doença de Crohn.
sivas e entero-hemorrágicas, no caso da coli- "Pouchite" é uma inflamação inespe-
te ulcerosa, e uma redução de Bifidobacte- cífica do reservatório ileal, construído cirur-
rium spp., no caso da doença de Crohn, con- gicamente por anastomose ileo-anal, após
tribuem para o estado inflamatório destas proctocolectomia. Este quadro de etiologia
doenças [Williams (2010)]. desconhecida, caracterizado pelo aumento
Diversos estudos demonstraram da frequência de evacuações e espasmos
haver benefício da terapêutica probiótica na abdominais, pode estar associado à diminui-
doença inflamatória intestinal [Quigley ção de Lactobacillus spp. e Bifidobacterium
(2007)], nomeadamente na colite ulcerosa e spp. em detrimento de outros géneros bacte-
"pouchite". A terapêutica com uma estirpe rianos e tem sido alvo de investigação na
não patogénica da espécie Escherichia coli, tentativa de comprovar o papel dos probióti-
com a levedura Saccharomyces boulardii ou cos, nomeadamente a mistura complexa de
com o complexo probiótico VSL#3, por si probióticos VSL#3, na manutenção dos
só ou como adjuvante de outro tratamento, períodos de remissão e diminuição das
pode ser uma alternativa efectiva na colite recaídas. Os probióticos, quando presentes
ulcerosa, nomeadamente em pacientes into- em altas concentrações e de espécies dife-
lerantes ou refractários à terapia corticoeste- rentes, mostraram eficácia tanto na preven-
róide ou formulações 5-ASA (por exemplo, ção da instalação da "pouchite", como na

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Probióticos

abordagem terapêutica da recaída e recor- cos podem desempenhar um papel funda-


rência desta enfermidade [Guarner et al. mental na abordagem desta patologia, pro-
(2008)]. Diversos estudos revelam que o uso porcionando uma alternativa interessante ao
de VSL#3 tem um papel significativo na uso de antibióticos.
manutenção do período de remissão [Gion-
chetti et al. (2000); Mimura et al. (2004)]. 5.1.2. - Diarreia
Em contraste com estes resultados encoraja- Por mais de um século, pesquisas
dores, um ensaio clínico envolvendo Lacto- sugeriam que culturas bacteriológicas vivas,
bacillus GG não revela qualquer benefício como as encontradas no iogurte, podiam
deste probiótico como terapia primária da ajudar a tratar e prevenir a diarreia. No
"pouchite" [Kuisma et al. (2003)]. entanto, a re-hidratação e re-alimentação não
Outro dado importante reside na deixaram de ser as pedras basilares no tra-
relação próxima entre a terapêutica probióti- tamento da gastroenterite infecciosa aguda.
ca e a motilidade gastrointestinal. O padrão Os probióticos, sobretudo estirpes de
desta motilidade regula a composição Bifidobacterium spp. ou Lactobacillus spp.,
microbiológica do tracto, que por sua vez, cujas propriedades anti-diarreicas são inves-
em sentido inverso e indirectamente por tigadas sensivelmente desde 1960, adminis-
modulação do sistema nervoso entérico, trados como suplementos medicamentosos,
influencia a primeira. parecem diminuir a duração destes episódios
Alguns estudos em adultos revelaram em cerca de 24 horas, mas com efeito profi-
eficácia dos probióticos no alívio da sinto- lático modesto na diarreia adquirida na
matologia álgica na doença inflamatória comunidade. Os resultados revelam a sua
intestinal, como mostra um estudo recente eficácia ao diminuir a frequência e duração
que atribui a estirpes específicas de Lacto- destes episódios, sobretudo em crianças
bacillus spp. a capacidade de induzir a infectadas por Rotavírus [Van Niel et al.
expressão de receptores µ-opióides e cana- (2002)]. Para Canani et al. em 2007, outros
binóides no intestino, provocando o efeito probióticos como Saccharomyces boulardii
analgésico similar à morfina [Rousseaux não afectaram significativamente a duração
(2007)]. e gravidade da diarreia aguda na criança,
No que diz respeito à própria nutri- embora parecessem prevenir, apesar da
ção do hospedeiro, a enzima lactase, produ- inconsistência dos resultados, o sobrecres-
zida por microorganismos probióticos como cimento do Clostridium difficile e a recor-
o Streptococcus thermophilus e a subespécie rência da infecção por este agente. Em con-
Lactobacillus elbrueckii bulgaricus, permite traponto e segundo Guarner et al. em 2008,
ao hospedeiro degradar a lactose no estôma- existe evidência sugestiva que Lactobacillus
go e no intestino e assim evitar os sintomas GG e Saccharomyces boulardii previnem a
de intolerância [Guarner et al. (2008)]. diarreia aguda no adulto e na criança. Uma
Como se torna evidente que a meta-análise revelou que esta diminuição se
microbiota intestinal está implicada na verifica quando esta levedura é administrada
doença intestinal inflamatória, os probióti- concomitantemente com vancomicina,

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Probióticos

metronidazol ou ambos. A mesma meta- probióticos podem actuar. Dentro da com-


análise revela que Lactobacillus GG e Sac- plexa microbiota intestinal, as bactérias lac-
charomyces boulardii reduzem significati- toacidófilas são capazes de beneficiar este
vamente a frequência da diarreia aguda após quadro, por mecanismos pouco elucidados
antibioterapia [McFarland (2006)]. até ao momento, mas que podem incluir
Na diarreia associada a antibioterapia alterações metabólicas da microbiota intesti-
existe evidência significativa da eficácia de nal, alterações quimico-fisiológicas do cólon
Saccharomyces boulardii, tanto em adultos e ligação/degradação de potenciais carcino-
como em crianças. Outro estudo revela a génios [Bedani e Rossi (2009)].
eficácia de Lactobacillus casei na diarreia O efeito carcinogénico é provavel-
por Clostridium difficile [Guarner et al. mente influenciado pela actividade das
(2008)]. enzimas β-glucoronidase, nitrorredutase e
De qualquer modo, e porque os estu- azorredutase. Bifidobacterium spp. e Lacto-
dos têm sido muito direccionados para diar- bacillus spp. têm baixa actividade enzimáti-
reias causadas pelo Rotavírus, em popula- ca conversora de pré-carcinogénios em car-
ções relativamente estáveis e saudáveis (em cinogénios, ao contrário dos Bacteróides spp.
contraponto com o contexto da prevenção de e Clostridium spp.. Desta forma, a redução
diarreia aguda não relacionada com antibio- de microrganismos produtores de enzimas
terapia nos países em desenvolvimento) e pró-carcinogénicas podem beneficiar o hos-
sem grande ênfase na dosagem dos probióti- pedeiro [Bedani e Rossi (2009)].
cos, torna-se difícil a avaliação da eficácia Goldin e Gorbach estudaram os efei-
dos probióticos nas enfermidades diarreicas, tos da ingestão de Lactobacillus acidophilus
nomeadamente ao nível do tratamento. sobre as enzimas acima referidas. Este estu-
Na prevenção da diarreia do viajante, do mostrou um declínio significativo na
os resultados dos estudos efectuados sobre o actividade das mesmas, embora sugerindo a
uso e benefício dos probióticos são incon- necessidade de consumo contínuo do pro-
clusivos, possivelmente devido à variabili- biótico de forma a evitar um efeito reverso.
dade de destinos e às estirpes seleccionadas Estas bactérias diminuem igualmente a con-
para investigação [Williams (2010)]. tagem de outras espécies putrefactivas, tais
como coliformes, possivelmente envolvidas
5.1.3 - Carcinoma do cólon na produção de promotores tumorais e pré-
Diversos metabolitos bacterianos são carcinogénios. Similarmente, a ingestão de
carcinogénicos, como por exemplo os feca- Bifidobacterium longum e de Lactobacillus
pentanos, as nitrosaminas, as aminas, a casei revelaram reduzir significativamente a
amónia, entre outros. Por esta razão, surge o actividade da β-glucuronidase [Bedani e
possível interesse pelos probióticos que, ao Rossi (2009)].
modularem a microbiota intestinal, podem Embora com resultados promissores
diminuir as bactérias associadas a doença sobre os efeitos anti-carcinogénicos dos
colónica. Neste processo surge a discussão probióticos, o número limitado de ensaios
sobre a etapa da carcinogénese na qual os em humanos torna prematura a sua reco-

11
Probióticos

mendação para prevenção do carcinoma do No tratamento da asma, os probióti-


cólon. cos não têm revelado a mesma eficácia. Nes-
ta enfermidade, e através do equilíbrio
5.1.4. - Erradicação de H. pylori supracitado entre as linhagens das células T
Uma meta-análise sugere que a tera- helper, a utilidade destes agentes poderá
pia coadjuvante com antibióticos e probióti- confinar-se à sua prevenção. A confirmar-se
cos na erradicação da infecção por Helico- este papel, e tendo em conta a fácil acessibi-
bacter pylori pode ser eficaz. A acção do lidade aos probióticos e a possibilidade de
probiótico isoladamente não tem evidência introdução na dieta em idades precoces, os
científica de suporte [Guarner et al. (2008)]. probióticos podem ser factores interessantes
num método passivo de prevenção primária,
5.2. - Patologia extra-intestinal com potencial benefício para a saúde pública
[Cabana (2009)].
5.2.1. - Doenças alérgicas Aproveitando o facto da microbiota
A composição da microbiota intesti- intestinal ser menos estável na infância, os
nal difere entre indivíduos atópicos e não probióticos podem adquirir um papel impor-
atópicos e entre indivíduos oriundos de paí- tante na modelação do seu perfil e conse-
ses industrializados ou em desenvolvimento, quentemente interferir no desenvolvimento
por exemplo. Apesar de não ser consensual, das doenças alérgicas. Como resultado, estes
diversos estudos relacionaram esta composi- agentes podem conduzir a um fenótipo Th
ção com o desenvolvimento de doenças não associado a condições atópicas.
alérgicas por desequilíbrio na relação dos
linfócitos Th1/Th2 em favor da linhagem 5.2.2. - Saúde oral
Th2 - favorecedora dos mecanismos de ato- Os primeiros ensaios clínicos, ran-
pia e auto-imunidade. Os probióticos inibem domizados e controlados, revelaram que os
a resposta da linhagem Th2, estimulam a probióticos podem controlar a cárie dentária
produção de citocinas como por exemplo em crianças devido à sua acção inibitória
IFN-γ e IL-2, aumentam a activação de contra estreptococos cariogénicos
macrófagos e estimulam as células B a pro- [Stamatova e Meurman (2009)].
duzir IgG. Nas crianças com doença atópi- Em relação à doença periodontal foi
cas ou alergias alimentares, a ingestão de detectado num estudo recente que, a preva-
probióticos provoca um aumento na produ- lência de Lactobacillus spp. na cavidade oral,
ção de INF-γ e supressão de IgE, IL-5 e IL- particularmente Lactobacillus gasseri e Lac-
10 [Folster-Holst et al. 2009]. tobacillus fermentum, era maior entre os
Os probióticos reduzem a frequência participantes saudáveis do que entre os
do eczema ectópico, a sua extensão e seve- pacientes com periodontite crónica. Vários
ridade, efeito esse que se prolonga para além estudos têm demonstrado a capacidade do
da infância nas crianças de alto risco [Fols- Lactobacillus spp. de inibir o crescimento de
ter-Holst et al. (2009)]. patógenos periodontais, incluindo P. gingi-

12
Probióticos

valis, Prevotella intermedia e A. actinomy- Lactobacillus iners. Uma alteração na


cetemcomitans [Koll-Klais et al. (2005)]. microbiota normal em sequência, por exem-
Por outro lado, o Streptococcus sali- plo, de antibioterapia de largo espectro com
varius, considerado um probiótico comensal consequente sobrecrescimento de Candida
da cavidade oral, foi detectado com maior albicans, pode causar infecções sintomáticas,
frequência entre as pessoas sem halitose. incluindo candidíase vulvovaginal. Uma
Esta espécie produz bacteriocinas que, ao revisão bibliográfica agrupa três estudos
diminuir o número de bactérias produtoras sobre o uso de probióticos, mormente os
de componentes voláteis de enxofre, têm Lactobacillus spp., na restauração da micro-
uma acção preventiva ou terapêutica na hali- biota prévia e tratamento da infecção ou
tose [Bonifait et al. (2009)]. prevenção da recorrência. As limitações
No que diz respeito ao desempenho metodológicas dos estudos, designadamente
probiótico em relação às infecções fúngicas amostras pequenas, controlos inadequados e
orais não há evidência científica suficiente. não duplamente cegos, não permitem con-
Probióticos em gomas e pastilhas cluir sobre a eficácia destes agentes nestes
foram estudados de forma a tentar encontrar quadros patológicos [Williams (2010)].
um veículo mais eficaz que os produtos lác-
teos para aplicação oral. Apesar de actual- 6 - Doses e produtos
mente não ser ainda possível recomendar
directamente o seu uso, a evidência científi- Os probióticos estão disponíveis
ca indica que a terapia com probiótico pode como suplementos dietéticos e produtos
ser uma realidade na medicina oral do futuro fermentados de uso diário como leite e
[Stamatova e Meurman (2009)]. iogurtes, por exemplo. A quantidade, quali-
dade e pureza destes produtos é variável em
5.2.3. - Doença cardiovascular razão da dificuldade no controlo de qualida-
A ingestão de probióticos parece de de microrganismos vivos. Dessa forma,
influenciar a concentração lipídica sérica, apenas os produtos avaliados em estudos
reduzindo os níveis de colesterol total, de humanos controlados devem ser recomenda-
colesterol LDL e de triglicerídeos [Saad dos [Kligler e Cohrssen (2008)].
(2006)]. No entanto, os poucos estudos clí- A sua eficácia depende da capacida-
nicos e de curta duração existentes não per- de intrínseca para resistir à passagem pelo
mitem assegurar o efeitos destes agentes na tracto gastrointestinal e colonizar a mucosa
diminuição do risco e prevenção da doença intestinal, a partir de uma ingestão regular
cardiovascular [Guarner et al. (2008)]. que permita manter concentrações eficazes
de organismos vivos e viáveis. Este número
5.2.4. - Infecções genito-urinárias mínimo de microrganismos a ingerir para
Na mulher saudável em pré- obter efeito benéfico não é consensual, mas
menopausa, o microrganismo predominante a probabilidade de colonização intestinal é
da microbiota vaginal é o Lactobacillus spp., directamente proporcional à quantidade
especialmente Lactobacillus crispatus e ingerida destes microrganismos. Segundo

13
Probióticos

Charteris et al. em 1998, o consumo diário intervalo de 2 horas entre as tomas destas
de probióticos com cerca de 109-1010 UFC substâncias [Williams (2010)].
por cada 100 gramas de bioproduto permite Os efeitos adversos mais comuns são
atingir concentrações fisiologicamente acti- a distensão e flatulência. Aumento da sede e
vas a nível intestinal de 106-107 UFC/g. obstipação foram pontualmente associados a
Com a evolução da investigação novos con- Saccharomyces boulardii [Williams (2010)].
ceitos foram surgindo. Para Guarner et al. Infecções sistémicas incluindo sépsis,
em 2008, a dose varia com a estirpe e o pro- endocardite por Lactobacillus spp. e abces-
duto. Além disso, a eficácia de uma estirpe sos hepáticos por Lactobacillus GG, foram
numa determinada dose não constituí evi- descritas e relacionadas com o uso destes
dência para extrapolar seus efeitos para a probióticos. Segundo Williams em 2010,
saúde em dose mais baixa. A mesma estirpe uma bacteriemia provocada por Lactobacil-
probiótica não é eficaz para todos os indiví- lus spp. tem um risco estimado inferior a
duos ou até para um mesmo individuo em 1/1000000, mas estados de imunossupressão,
diferentes fases da doença. A selecção do pré-hospitalização, algumas co-morbilidades
probiótico dependerá sempre da indicação e pré-antibioterapia aumentam a predisposi-
clínica [Saad (2006)]. ção [Salminen (2004)]. O risco de se desen-
A tabela 1, adaptada de [Williams volver uma fungemia, tendo como agente
(2010)], relaciona o probiótico e a sua dosa- etiológico a levedura Saccharomyces bou-
gem com algumas indicações clínicas trata- lardii, é cerca de 1/5600000, risco esse
das no capítulo "Uso e benefício dos probió- potenciado em doentes críticos e estados de
ticos". imunossupressão, segundo Williams em
2010. Foi igualmente referida, por Munoz et
7 - Efeitos adversos, contra-indicações e al. em 2005, como agente etiológico de fun-
limites gemia em pacientes com cateter venoso cen-
tral.
Partindo da própria definição, a pre- Até à data não há relato de sépsis por
sença de microrganismos vivos nas prepara- Bifidobacterium spp., facto suportado pela
ções probióticas levanta a possibilidade de baixa patogenicidade destes probióticos,
infecção ou colonização patogénica. Quando nem contra-indicações descritas [Boyle
ingeridos por via oral, os probióticos são (2006); Kliger (2008)].
geralmente seguros e bem tolerados, tendo A maioria destas bacteriemias e fun-
um risco muito baixo de causar infecções gemias respondem bem à antibioterapia e
[Kligler e Cohrssen (2008)] e de propiciar a terapêutica anti-fúngica [Williams (2010)],
geração de patógenos mais agressivos e mas o Saccharomyces boulardii perde eficá-
resistentes [Badaró et al. (2009)], especial- cia ao interagir com os anti-fúngicos admi-
mente se usados por indivíduos saudáveis. O nistrados simultaneamente [Munoz et al.
uso concomitante de probióticos e antibióti- (2005)]. Segundo Saarela et al. em 2000,
cos retira eficácia aos primeiros, devendo os apesar de muitas estirpes lactoacidófilas,
pacientes ser alertados para respeitar um sobretudo as de Lactobacillus spp., serem

14
Probióticos

resistentes a determinados antibióticos, essa Dada a possibilidade das estirpes probióticas


resistência normalmente não é mediada por com plasmídeos de resistência transferirem
plasmídeos e como tal não é transmissível. estes factores para bactérias patogénicas,
Relação entre a indicação clínica e o probiótico de escolha com a respectiva dosagem
Indicação Probiótico Dose e regime recomendado
Diarreia infecciosa aguda Lactobacillus rhamnosus GG (LGG) 1010–1011 UFC 2x/dia durante 2–5 dias
na criança
Lactobacillus reuteri 1010–1011 UFC, 1x/dia durante 5 dias
Diarreia associada a Saccharomyces boulardii 4x109–2x1010 UFC 1x/Dia durante 1–4 semanas
antibioterapia 6x109–4x1010 UFC 1x/dia durante 1-2 semanas
LGG 2x109 UFC 1x/Dia durante 5-10 dias

Lactobacillus acidophilus e Lactobacillus bulgaricus 5x109 UFC 1x/Dia durante 7 dias

L. acidophilus e Bifidobacterium longum 1011 UFC 1x/Dia durante 21 dias

L. acidophilus e Bifidobacterium lactis


Infecção por Clostridium S. boulardii 2x1010 UFC (1g) 1x/dia durante 4 semanas
difficile associado a vancomicina e/ou metronidazole

Diarreia do viajante LGG 2x109 UFC 1X/dia a iniciar 2 dias antes da


partida e manter durante a viagem
S. boulardii
5x109–2x1010 UFC 1X/dia a iniciar 5 dias antes
da partida e manter durante a

Síndrome do intestino VSL#3 9x1011 UFC 1x/Dia durante 8 semanas


irritável
Bifidobacterium infantis 35624 106–1010 UFC 1x/Dia durante 4 semanas

LGG 8–9x109 UFC 1x/Dia durante 6 semanas


Colite ulcerosa activa Escherichia coli Nissle 1917 5x1010 2x/dia até remissão (máximo 12 semanas)

S. boulardii 250 mg 3x/dia durante 4 semanas + mesalazina

1.8x1012 UFC 2x/dia durante 6 semanas + terapia


VSL#3 convencional

Doença de Crohn S. boulardii Terapia de manutenção: 1g 1X/dia durante 6


meses + mesalazina
"Pouchite" VSL#3 Terapia de manutenção: 1.8x1012 UFC 1Xdia
durante 9-12 meses

Prevenção de doença LGG 1010 UFC 1Xdia durante 2-4 semanas


atópica

Candidíase vulvovaginal LGG 109 UFC 2X/dia durante 7 dias

L. rhamnosus GR-1 e Lactobacillus fermentum RC-14 109 UFC 2x/dia durante 14 dias

L. acidophilus 108 UFC 1x/dia durante 6 meses


Tabela 1, adaptada de "Williams (2010)".

não devem ser usadas como probióticos. rados com fármacos, rigor à regulamentação
O carácter de suplemento dietético no seu uso e fabrico. Em contraponto com
atribuído aos probióticos subtrai, se compa- os estudos actualmente existentes, heterogé-

15
Probióticos

neos e metodologicamente limitados (varia- cas necessárias para actuarem em benefício


bilidade nas estirpes seleccionadas, na dose do hospedeiro, estes agentes demonstraram
e na duração do tratamento probiótico), eficácia na prevenção e no tratamento de
estudos futuros, envolvendo o controlo de diversas condições médicas, particularmente
qualidade de microrganismos vivos, reque- no tratamento da "pouchite" e diarreia aguda,
rem ensaios clínicos com amostras ajustadas mais comummente devida a rotavírus. Os
e com duração superior, proporcionadoras probióticos reduzem a frequência, extensão
de melhor avaliação da eficácia destes agen- e severidade do eczema ectópico mas no
tes [Williams (2010)]. tratamento da asma, os resultados foram
Durante anos catalogados de produ- decepcionantes. É necessária mais investi-
tos alternativos, os probióticos foram alvo gação para esclarecer o papel dos probióti-
de uma recente e rápida investigação e apli- cos na prevenção ou tratamento da diarreia
cação clínica. Compreender os mecanismos associada a antibioterapia, da diarreia do
que estão na origem destes efeitos adversos viajante, da infecção por Clostridium diffici-
permitirá um uso mais adequado destes le, do síndrome do intestino irritável, da
agentes. No futuro poderemos ser confron- colite ulcerosa, da doença de Crohn e da
tados com a era farmacobiótica, enriquecida candidíase vulvovaginal. O mesmo se passa
com microrganismos geneticamente modifi- com a prevenção do carcinoma do cólon,
cados, componentes celulares e ainda molé- apesar dos resultados promissores.
culas biologicamente activas e produzidas Estes estudos são muitas vezes limi-
pelos próprios microrganismos [Quigley tados metodologicamente, sobretudo no que
(2009)]. concerne à qualidade e quantidade da amos-
tra, à selecção probiótica e também à dura-
III - CONCLUSÃO ção de investigação, advindo desses factos
resultados insuficientes e/ou não consen-
Um século após ser introduzida a suais.
noção de que as bactérias, a nível intestinal, A microbiota intestinal é uma fonte
podem promover a saúde, os probióticos de imunomodelação a explorar no futuro
começam a abandonar um carácter alternati- para fins terapêuticos e preventivos de várias
vo, emergindo como uma abordagem pre- enfermidades. É previsível um papel impor-
ventiva e terapêutica fundamental em tante da genética e da engenharia molecular
determinadas patologias. A racionalidade do numa futura era farmacobiótica.
seu uso baseia-se na capacidade destes agen-
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