ESQUADRO E COMPASSO
Rui Bandeira
Talvez o mais conhecido dos símbolos da Maçonaria seja o que é constituído por um esquadro, com as pontas
viradas para cima, e um compasso, com as pontas viradas para baixo.
Como normalmente sucede, várias são as interpretações possíveis para estes símbolos.
É corrente afirmar-se que o esquadro simboliza a retidão de caráter que deve ser apanágio do maçom. Retidão
porque com os corpos do esquadro se podem traçar facilmente segmentos de reta e porque reto se denomina o
ângulo de 90 º que facilmente se tira com tal ferramenta. Da retidão geométrica assim facilmente obtida se
extrapola para a retidão moral, de caráter, a caraterística daqueles que não se "cosem por linhas tortas" e que, pelo
contrário, pautam a sua vida e as suas ações pelas linhas direitas da Moral e da Ética. Esta caraterística deve ser
apanágio do maçom, não especialmente por o ser, mas porque só deve ser admitido maçom quem seja homem livre
e de bons costumes.
É também corrente referir-se que o compasso simboliza a vida correta, pautada pelos limites da Ética e da Moral.
Ou ainda o equilíbrio. Ou a também a Justiça. Porque o compasso serve para traçar circunferência, delimitando um
espaço interior de tudo o que fica do exterior dela, assim se transpõe para a noção de que a vida correta é a que se
processa dentro do limite fixado pela Ética e pela Moral. Porque é imprescindível que o compasso seja manuseado
com equilíbrio, a ponta de um braço bem fixada no ponto central da circunferência a traçar, mas permitindo o
movimento giratório do outro braço do instrumento, o qual deve ser, porém, firmemente seguro para que não
aumente ou diminua o seu ângulo em relação ao braço fixo, sob pena de transformar a pretendida circunferência
numa curva de variada dimensão, torta ou oblonga, assim se transpõe para a noção de equilíbrio, equilíbrio entre
apoio e movimento, entre fixação e flexibilidade, equilíbrio na adequada força a utilizar com o instrumento. Porque
o círculo contido pela circunferência traçada pelo instrumento se separa de tudo o que é exterior a ela, assim se
transpõe para a Justiça, que separa o certo do errado, o aceitável do censurável, enfim, o justo do injusto.
Também é muito comum a referência de que o esquadro simboliza a Matéria e o compasso o Espírito, aquele
porque, traçando linhas direitas e mostrando ângulos retos, nos coloca perante o facilmente percetível e entendível,
o plano, o que, sendo direito, traçando a linha reta, dita o percurso mais curto entre dois pontos, é mais claro, mais
evidente, mais apreensível pelos nossos sentidos - portanto o que existe materialmente. Por outro lado, o compasso
traça as curvas, desde a simples circunferência ao inacabado (será?) arco de círculo, mas também compondo formas
curvas complexas, como a oval ou a elipse. É, portanto, o instrumento da subtileza, da complexidade construída, do
mistério em desvendamento. Daí a sua associação ao Espírito, algo que permanece para muitos ainda misterioso,
inefável, obscuro, complexo, mas simultaneamente essencial, belo, etéreo. A matéria vê-se e associa-se assim à
linha direita e ao ângulo reto do esquadro. O espírito sente-se, intui-se, descobre-se e associa-se portanto ao
instrumento mais complexo, ao que gera e marca as curvas, tantas vezes obscuras e escondendo o que está para
além delas - o compasso.
Cada um pode - deve! - especular livremente sobre o significado que ele próprio vê nestes símbolos. O esquadro,
que traça linhas direitas, paralelas ou secantes, ângulos retos e perpendiculares, pode por este ser associado à
franqueza de tudo o que é direito e previsível e por aquele à determinação, ao caminho de linhas direitas, claro,
visível, sem desvios. O compasso, instrumento das curvas, pode por este ser associado à subtileza, ao tato, à
diplomacia, que tantas vezes ligam, compõem e harmonizam pontos de vista à primeira vista inconciliáveis, nas
suas linhas direitas que se afastam ou correm paralelas, oportunamente ligadas por inesperadas curvas, oportunos
círculos de ligação, improváveis ovais de conciliação; enquanto aquele, é mais sensível à separação entre o círculo
interior da circunferência traçada e tudo o que lhe está exterior, prefere atentar na noção de discernimento (entre
um e outro dos espaços).
E não há, por definição, entendimentos corretos! Cada um adota o entendimento que ele considera, naquele
momento, o mais ajustado e, por definição, é esse o correto, naquele momento, para aquela pessoa. Tanto basta!
O conjunto do esquadro e do compasso simboliza a Maçonaria, ou seja, o equilíbrio e a harmonia entre a Matéria e
o Espírito, entre o estudo da ciência e a atenção às vias espirituais, entre o evidente, o científico, o que está à vista, o
que é reto e claro e o que está ainda oculto ou obscuro. O esquadro é sempre figurado com os braços apontando
para cima e o compasso com as pontas para baixo. Ambas as figuras se opõem, se confrontam: mas ambas as
figuras oferecem à outra a maior abertura dos seus componentes e o interior do seu espaço. A oposição e o
confronto não são assim um campo de batalha, mas um espaço de cooperação, de harmonização, cada um
disponibilizando o seu interior à influência do outro instrumento. Assim também cada maçom se abre à influência
de seus Irmãos, enquanto que ele próprio, em simultâneo, potencia, com as suas capacidades, os seus saberes, as
suas descobertas, os seus ceticismos, as suas respostas, mas também as suas perguntas (quiçá mais importantes
estas do que aquelas...) a modificação, a melhoria, de todos os demais.
Tantos e tantos significados simbólicos podemos descobrir e entrever nos símbolos mais conhecidos da
Maçonaria... Aqui deixei, em apressado enunciado, alguns. Cada um é livre, se quiser, de colocar na caixa de
comentários, o seu entendimento do significado destes símbolos, em conjunto ou separadamente, ou apenas de um
só deles. Todos os significados simbólicos são bem-vindos! Cada um é também livre de, se quiser, nada partilhar,
guardando para si,as conclusões que nesse momento tire. Tão respeitável é uma como outra das posições. Este
espaço é livre e de culto da Liberdade. Afinal de contas, tanto o esquadro como o compasso estão abertos... abertos
às livres opções, entendimentos e escolhas de cada um!