UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Departamento de História
Prof. Dr. Rodrigo Goyena Soares
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1º semestre 2025 – FLH0341
H ISTÓRIA DO BRASIL IMPÉRIO
HISTORY OF THE B RAZILIAN EMPIRE
Unidade II – A constituição da hegemonia conservadora
7. A hegemonização do projeto saquarema (1845-1862)
KRAUSE, THIAGO; GOYENA SOARES, Rodrigo. Império em disputa. Coroa,
oligarquia e povo na formação do Estado brasileiro (1823-1870). Rio de Janeiro:
Editora FGV, 2022. Capítulo 4: “Pax escravocrata, 1848-1862”.
VILLELA, André A. The Political Economy of Money and Banking in Imperial
Brazil, 1850-1889. London: Palgrave Macmillan, 2020. Capítulo 2: “From
Plurality of Issue to Monopoly and Back: 1850-60”.
I] A Regência(1831-1840)
O período que se estende de 7 de abril de 1831, quando da abdicação de Dom Pedro
I, a 23 de julho de 1840, quando da investidura de Dom Pedro II, constituiu
verdadeiro laboratório de experiências políticas (MOREL, 2003):
o Implementou-se aquilo que desde a independência era controverso entre
liberais e conservadores: a descentralização.
o Foi período de formação de partidos exclusivamente brasileiros.
Caracterização do período
Expulsos os portugueses, o Brasil atravessou até 1840 período de agitação política
e social, à semelhança do que ocorrera na América hispânica.
Se a centralização do Primeiro Reinado garantiu a unidade territorial tão cara a José
Bonifácio, a Regência dava lugar ao caos que caracteriza os anos de formação do
Estado nacional – ou pelo menos assim afirmou a historiografia do Instituto Histórico
e Geográfico Brasileiro (IHGB) no pós-1840.
Pouco mais de um século se passou para que uma releitura marxista da Regência
vislumbrasse nas sedições provinciais um movimento de classes agindo contra a
opressão do centro dirigente, o Rio de Janeiro.
o Para essa historiografia dos anos de 1970, a Regência não foi caótica, mas
republicana.
II] A nova ordem política
Com o Parlamento em recesso, formou-se a Regência Trina Provisória em 7 de abril
de 1831.
o Duraria até 7 de junho do mesmo ano, quando se convocariam eleições na
Assembleia Geral do Império, para formar uma Regência Trina Permanente.
Rito previsto na Constituição de 1824.
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o Pela formação de 7 de abril, quando se convocaram às pressas deputados
e senadores, o senador Vergueiro, o senador Carneiro de Campos e o
brigadeiro Francisco de Lima e Silva eram os novos regentes provisórios.
Anistiaram os presos políticos, e suspendeu-se
temporariamente o Poder Moderador, o que significava que
a Câmara de Deputados não poderia ser dissolvida.
o Em 7 de junho, era eleita a Regência Trina Permanente: confirmava-se o
brigadeiro Francisco de Lima e Silva na regência, mas os outros dois foram
substituídos por João Bráulio Muniz e por José da Costa Carvalho.
O avanço liberal (1831-1837)
o Entusiasmo com a abdicação.
o Nos primeiros meses de Regência, irrompem rebeliões denominadas “tropa
e povo”:
Eram soldados pobres de baixa patente e pequenos funcionários
comprometidos com a expulsão dos portugueses.
Rebeliões ocorrem no RJ, CE e PE: localidades de maior
presença portuguesa.
Primeiras reformas:
o 1831: criação da Guarda Nacional (inspiração em sua homóloga francesa).
Reequilibrar as forças no seio do Exército.
A cúpula de comando do Exército era composta por
portugueses.
Limite de 10 mil homens para o Exército.
Guarda Nacional: formada por eleitores com renda de 200 mil réis
(Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Pernambuco) e de 100 mil réis
(demais localidades): eram proprietários brasileiros em defesa de
suas posses, de suas localidades.
Manutenção da ordem.
Preservação do orçamento.
o Nomeação do padre Antônio Feijó para o ministério da Justiça:
Avanço liberal em marcha acelerada:
1832: criação do Código do Processo Criminal:
o Habeas corpus e juiz de paz.
Juiz de paz: eleito em base municipal, subordinando a
Guarda Nacional, também de formação local.
1834: Ato Institucional (única reforma constitucional no
período):
o Votado pela Câmara de Deputados.
o Assembleias Provinciais tornam-se Assembleias
Legislativas Provinciais: capacidade legislativa.
o Município neutro do Rio de Janeiro.
o Suspensão do Poder Moderador e do Conselho de
Estado.
o Criação da Regência Una: 4 anos de mandato.
o Feijó torna-se Regente Uno.
Mas!
Presidentes de Província nomeados pelo Regente Uno.
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Senado permaneceria vitalício.
Caso Bernardo Pereira de Vasconcellos:
o Liberal na década de 1820, Bernardo Pereira de Vasconcellos foi redator do
Ato Adicional e franco expoente dos benefícios da descentralização.
o Final de década de 1830:
Fui liberal; então a liberdade era nova no país, estava nas aspirações
de todos, mas não nas leis, o poder era tudo: fui liberal [...] Os perigos
da sociedade variam; o vento das tempestades nem sempre é o
mesmo: como há de o político, cego e imutável, servir no seu país?
(...) Agora é preciso fazer parar o carro da revolução” (Sessão
parlamentar de abril 1838).
o O quê levou Bernardo Pereira de Vasconcellos a mudar de posição?
Autonomia provincial vs. Rio de Janeiro.
Rebeliões
Quais foram as rebeliões regenciais?
o As que veicularam protestos populares: reprimidas
veementemente.
Foram as sedições populares.
o As que veicularam ideias governativas (revoltas
elitistas, em sua maioria): repressão mais branda.
Foram forças centrífugas.
Todas reprimidas, no entanto, o que reconforta a tese que
dissocia a Regência de uma experiência republicana.
Por que o Império não se esfacelou durante a Regência?
o Dissidências entre os insurretos.
o Severa repressão.
o Liberais e conservadores, malgrado as discordâncias a respeito da
descentralização, não renunciaram à unidade territorial.
o Regresso conservador.
III] A Farroupilha (1835-1845)
• Por que a Farroupilha se tornou a questão espinhosa por excelência da Regência e
do início do Segundo Reinado?
• Posição geográfica.
• Relações políticas e econômicas com a região do Prata.
• Farroupilha irrompe em 1835, quando Rosas assume o poder na
Confederação Argentina.
– Dos 75 mil habitantes do Uruguai, 14 mil eram exilados
argentinos.
• Sequestro da política externa.
• O quê caracterizou a Farroupilha:
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• Conflito de interesses.
• Estancieiros: economia do gado não respeita fronteiras.
– Criação do Uruguai causa desconforto para gaúchos.
– Estancieiros brasileiros, nomeadamente, o jovem alfares
Manuel Osório, possuem terras no Uruguai.
– Identidades comuns no que se refere à formação das elites.
– Lei Bernardo Pereira de Vasconcellos (1828):
» gado brasileiro no Uruguai passa a ser tributado.
• Charqueadores: estabelecidos na região litoral e setentrional do RS.
– Maior aproximação com eixo produtivo fluminense.
– Relação de mútua dependência.
• Como estoura a revolta?
• Indicação para presidente do RS (Antônio Fernandes Braga).
• Charqueadores mantêm-se fiéis ao Rio de Janeiro, mas
estancieiros, não.
• Rio de Janeiro vs. cavalaria gaúcha.
• Personagens e guerras farroupilhas:
• Internos:
• Bento Manuel: participou da Guerra Cisplatina do lado do Império.
– Apoiou Bento Gonçalves, mas com eclosão da Farroupilha rejeita
investidas de Bento Gonçalves contra o Rio de Janeiro.
• Batalha do Fanfa, 1836: Bento Manuel vs. Bento Gonçalves.
– Tropas imperiais tomam Porto Alegre.
• Bento Gonçalves: responde à derrota na Batalha do Fanfa com a
Proclamação da República de Piratini.
– Mas é preso pelas tropas imperiais.
• Externos:
• Manuel Oribe, no Uruguai, assume o poder pelo Partido Blanco em 1835
em detrimento de Fructuoso Rivera, do Partido Colorado, aliado do
Brasil.
• Juan Manuel de Rosas:
» Refundar Virreinato del Rio de la Plata.
• Para líderes gaúchos, Oribe poderia auxiliá-los a escoar a produção de
gado via Montevidéu, já que o Rio Grande do Sul estava cercado por
mar e por terra.
– Dos 75 mil habitantes do Uruguai, 25 mil tinham ascendência
brasileira.
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• 1835-1838: aliança entre gaúchos, uruguaios e argentinos.
– Bento Gonçalves escapa da prisão (na Bahia) e volta para
o RS.
– Bento Manuel troca de lado!
• 1838: gaúchos retiram apoio de sua cavalaria a Oribe, já que o Presidente
uruguaio estava mais interessado ganhar a Grande Guerra (1839-1851)
contra os colorados.
– Oribe cede passagem ao gado argentino no Uruguai:
desconforto para gaúchos.
• 1838, Tratado de Cangüe: Bento Gonçalves aproxima-se das dissidências uruguaias
e argentinas:
• Encontro de Paissandu.
• Estratégia de Rosas:
• Aproximação com o Rio de Janeiro.
• Para Império, era neutralizar Rosas no Prata e pôr fim à Farroupilha.
• Fructuoso Rivera, líder colorado no Uruguai, era visto pelo Brasil
com desconfiança devido às alianças com a Farrapos.
• Para Rosas, aliança com o Império daria maior poder de barganha contra
possível aliança franco-inglesa que o obrigasse a abrir os rios platinos à
navegação internacional.
• Objetivo da aliança: pacificar o Uruguai e o RS.
– Rosas forneceria cavalaria ao Império, para lutar contra os
gaúchos.
– O Império bloquearia Montevidéu, para sufocar Rivera.
» 1843: Tratado militar contra Rivera.
» Rosas não ratifica o tratado!
• Era maneira de ganhar tempo:
• Conseguira debelar as pressões
dissidentes.
• Afronta a Pedro II!
• Como o Império posicionou-se, então, frente a Rosas?
• Aproximação com os gaúchos!
• Concessões.
– 1844: Assume partido liberal no Rio de Janeiro.
» Melhores entendimentos com os gaúchos e com os
colorados.
» 1845: Paz de Poncho Verde.
• Império deveria assumir dívidas gaúchas.
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• Farrapos deveriam ser incorporados ao
Exército imperial resguardando seus postos
hierárquicos.
• Privilégios alfandegários para produção
gaúcha no Uruguai.
• Bento Manuel troca de lado mais
uma vez!
• Reconhecimento da independência do Paraguai (1844).
• Envio da missão Miguel Calmon du Pin e Almeida à Europa, em 1844
também:
• Objetivo era assinar acordo militar com a França e a Inglaterra
contra Rosas.
– Fracasso!