Transcrição da Prova de Brasil Independente I - Prof. Dr. Rodrigo Goyena.
Pergunta 3.
A queda da monarquia em 15 de novembro de 1889 é explicada de formas variadas pela
historiografia ao longo do tempo. Entre as muitas vertentes apresentadas, algumas se
destacaram e ganharam uma certa notoriedade, tais quais a personalista: que via a atuação de
personagens específicos como D. Pedro II, Floriano Peixoto, Marechal Deodoro e etc,
considerando a inter-relação entre essas figuras a responsável pelos fatos de 15 de novembro.
As agendas partidárias, republicana e monarquista, também produziram as suas próprias
narrativas, na qual, visando legitimidade e apoio, se opunham uma à outra; Na medida que a
República tecia o cenário autoritário e violento dos anos monárquicos, essa última
“denunciava” o golpe, as maquinações militares e a insatisfação dos ex-cafeicultores
escravistas ligados a República. Entretanto, todas essas vertentes se prendem a um tempo
histórico curto e, como apontado por Emília Viotti da Costa, se prendem a personagens e
agendas partidaristas que não olham para estruturas mais amplas que escapam o nível
individual e ao tempo circundante a 15 de novembro de 1889. Na verdade, essa data guarda
relações mais profundas que retrocedem, em décadas, até o fim da Guerra do Paraguai
(1864-1870) e aos efeitos políticos, econômicos e questões sociais que se desenrolaram por
sobre o império nos anos de 1870 e 1880. Assim, se deve compreender uma crise mais
alargada do Império, iniciada em um cenário pós guerra do Paraguai que criava um cenário
cada vez mais latente entre os grupos e classes sociais que o compunham. Cenário esse que
contava com o surgimento de profundas contradições entre os seus componentes: monarquia,
cafeicultores, militares e classe média. As décadas de 1870 e 1880 serão marcadas pelos
atritos e contradições cada vez maiores frutos de um pós-guerra que montará um cenário
insustentável para a monarquia.
Com o final da Guerra do Paraguai em 1870, se dá início, sob a administração do gabinete do
Visconde do Rio Branco (conservador), uma série de medidas que buscavam reestruturar um
império que, nas palavras de muitos: “a guerra havia custado 10 anos”. Tal conflito, em
grande medida, foi financiado pela impressão de moeda e, principalmente, pela compra de
títulos da dívida pública. Para além da questão inflacionária que a impressão de dinheiro
gerou para o Império, os títulos da dívida pública somaram uma quantidade volumosa que
para serem pagos foram bancados pela contração de empréstimos com o meio internacional.O
mais importante disso é que os donos desses títulos eram cafeicultores do vale do Paraíba
fluminense, então desinteressados em suas lavouras/cafezais que estavam no final de sua vida
produtiva em virtude do esgotamento do solo, esse movimento de financeirização do vale
fluminense foi seguido por um movimento de deslocação do eixo produtivo dessa região para
São Paulo. A proximidade entre o Governo e o Vale Fluminense, em grande parte pela
relação econômica da dívida pública, mas também pela influência que os políticos dessa
região tinham, teve efeitos sobre São Paulo. Província essa que, na medida em que tomava a
cena da produção nacional de café, projetava interesses para a continuidade expansiva,
investimento, obtenção de crédito e infraestrutura que melhor atendesse a expansão da
cafeicultura para o oeste.
No entanto, os seus interesses não eram atendidos, pois para a realização dos seus projetos e
empreendimentos era necessário a obtenção de crédito por parte desses junto ao banco,
concentrados no Rio de Janeiro. Estes estavam negando o financiamento desejado, mas
continuaram a apoiar a cafeicultura declinante do vale fluminense que não era levada a frente
pelos seus próprios cafeicultores, que viam muito mais lucro na compra de títulos da dívida.
Esse impasse entre cafeicultores paulistas de um lado e Estado/Bancos de outro, fez um
núcleo de cafeicultores, especialmente o de Campinas, se mobilizar a encontrarem
alternativas em favor de seus projetos. Assim, se dá a fundação do PRP em 1873 que entre
outras pautas tinha o objetivo de buscar um grau de federalismo que permitisse a retenção de
sua arrecadação e implementar a autonomia provincial em contrair empréstimos
internacionais. Além disso, se buscaria, mesmo que de uma forma gradual, uma transição
para a mão de obra livre. Essa última movimentação, como aponta o pesquisador Rodrigo
Goyena, não se daria unicamente em função de uma questão contábil, mas parte de um
cálculo político que visava o desmantelamento da cafeicultura do Vale fluminense, ainda
presa a mão de obra servil, ganhando espaço no meio produtivo e no meio político, uma vez
que era o capital escravista, sediado no vale fluminense, o detentor das rédeas administrativas
que favoreciam a eles próprios.
A questão servil, que contornos muito mais paliativos e continuistas com a lei de do Ventre
Livre de 1871, não afetava apenas o setor da cafeicultura, que aproveitaria de suas cláusulas
para manutenção e uso do trabalho dos chamados “ingênuos”. Tal lei é encarada por atores
militares como continuidade de um projeto atrasado e retrógrado, conduzido por um núcleo
que, segundo eles, eram corruptos e privilegiavam os interesses particulares agrários e dos
fazendeiros. O projeto do horizonte militarista passava justamente pela emancipação da
população negra escravizada, em grande parte devido ao fato de que o Império utilizará a
libertos como soldados na frente de batalha na guerra do Paraguai, o que era em si uma
grande contradição, haja visto que um Império escravista fazia uso de ex escravos como
forma de se defender e libertar os escravos de outro país.
Aliado a isso, o projeto da caserna, então contrário a escravidão, ponto edificante para o
Estado e muitos cafeicultores, tinha como objetivo a industrialização do país que, para de dar
da forma como planejavam, seria feito escorada na conseção de crédito, ou seja, investimento
por parte dos bancos em pequenos/médios comerciantes e industriais, formadores de uma
classe média. Esse projeto em si já se mostrava diferente do estabelecido pelo Estado
Imperial e do plano republicano paulista (sedimentado na expansão e financiamento do café),
mas se aproximava de outros atores sociais livre e formadores da classe média, não
necessariamente como o ideal, mas como um caminho que permitisse legitimar um processo
de transformação conduzido pelos próprios militares. Essa agenda escorada em uma noção de
progresso, em partes devido a uma movimentação intelectual do positivismo internalizado
nas camadas militares, compreendia uma lógica etapista que precisava ser cumprida (saindo
de um estágio religioso para um “positivo”), tal processo figuraria também essa transição do
cenário atual monárquico (visto como atrasado e corrupto) para uma república que de fato
atenderia os anseios do povo e da “nação”, sempre abrangentes, da qual eles (os militares)
seriam os “verdadeiros representantes”.
Assim, se colocaram como ponta de lança de um processo que deveria trazer a modernidade o
mais rápido possível. Esse projeto, no entanto, se debatia com uma movimentação mais
gradual de estruturas que prezavam muito mais a continuidade do que por alterações e
mudanças. As reformas e iniciativas adotadas pelo Visconde do Rio Branco, tal qual a
reforma e a lei do “alistamento militar obrigatório” de 1874 refletiam isso. As pressões que
incidem sobre o Estado, aparentemente mobilizando ele para a renovação, na verdade
revelam continuidades, uma vez que a lei de 1874 deixava de fora da “obrigatoriedade”:
bacharéis e as classes altas, mantendo a obrigatoriedade as pessoas que sempre foram alvos
dela: as classes populares.
O que vai tomando forma nas décadas posteriores a Guerra do Paraguai é um cenário
permeado pelas contradições e formulações de diferentes projetos e perspectivas pelos
agentes e classes componentes do Império, fruto das implicações desse conflito levado a cabo
pelo Brasil. As medidas continuistas no campo escravista e centralizadoras (favorecendo o
Vale Fluminense) ou concentradoras no meio econômico levado pelo Estado Imperial se
choca com outras perspectivas da classe cafeicultora paulista (não favorecidas pelas medidas
imperiais) e os militares (com seu horizonte industrial). Essas últimas, também são
perpassadas pelas suas próprias particularidades que vão de encontro uma com a outra em sua
idealização e aplicação. O ambiente cada vez mais permeado pela contrariedade se torna
insustentável para o estado Imperial, onde mesmo caindo em 1889 não seria o suficiente para
acomodar os diferentes projetos e contradições nascentes no pós-guerra.