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Historiografia da Independência do Brasil

O documento aborda a história do Brasil independente entre 1808 e 1815, destacando a formação do Estado Imperial e as interpretações historiográficas sobre o processo de independência. Discute as relações de poder, a estrutura social e as políticas econômicas da época, além de analisar a escravidão e suas implicações na construção do Estado. O texto também menciona eventos significativos, como a chegada da Coroa portuguesa ao Brasil e as mudanças administrativas e culturais que ocorreram nesse período.

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O documento aborda a história do Brasil independente entre 1808 e 1815, destacando a formação do Estado Imperial e as interpretações historiográficas sobre o processo de independência. Discute as relações de poder, a estrutura social e as políticas econômicas da época, além de analisar a escravidão e suas implicações na construção do Estado. O texto também menciona eventos significativos, como a chegada da Coroa portuguesa ao Brasil e as mudanças administrativas e culturais que ocorreram nesse período.

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas


Departamento de História
Prof. Dr. Rodrigo Goyena Soares
e-mail: [Link]@[Link]
1º semestre 2025 – FLH0341

H ISTÓRIA DO BRASIL INDEPENDENTE I


HISTORY OF THE B RAZILIAN EMPIRE

2. O processo de independência I (1808-1815)


 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. “A interiorização da metrópole”. In:
__________. Interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda,
2005.
 NEVES, Lucia Bastos Pereira das. “Estado e política na independência”. In:
GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil Imperial, 1808-1830. Vol I. Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
 CARIELLO, Rafael e PEREIRA, Thales Zamberlan. Adeus, Senhor Portugal.
São Paulo: Companhia das Letras, 2022. Capítulo 1: “A crise inaugural”.

A historiografia sobre a formação do Estado Imperial

 Interpretações de matriz weberiana

o Os donos do poder – Raimundo Faoro (1958)


 Estado instrumentalizado por interesses particulares de um estamento.
 Que atua consoante interesses subjetivos distantes de uma
racionalidade de mercado.
 Estamento imperial não tem alma capitalista.
 Clivagem fundamental:
o O estamento político – os donos do poder – vs. o restante
da sociedade.
 Império seria obra de um estamento de acesso restrito, porque
caracterizado preponderantemente pelo status político e social, e
não pelo poder econômico.
 Estamento não é elite:
o Elite pressupõe organização política heterônoma:
 Concentrada, mas aberta à renovação intra-elite.

o O Minotauro Imperial – Fernando Uricoechea (1978)


 Labirinto do Império é a contradição entre a extensão do poder privado e a
centralização administrativa.
o Extensão do poder privado é a prova da natureza quase
feudal do Brasil, pelo menos em seus momentos iniciais.
 Para Uricoechea, o Minotauro, que detém a chave do labirinto, é a Guarda
Nacional:
 Metade pública, metade privada, a Guarda Nacional é o vínculo
privilegiado entre poder público e poder privado.
 Desenvolvimento do Estado imperial não respondeu a apelos
tipicamente burgueses, baseados na representação classista de
interesses capitalistas.
o Para Uricoechea, houve compromisso entre a burocracia
estatal e o poder latifundiário, para que este ampliasse o
acesso ao Estado.

1
 Ordem não poderia ser estamental, mas tampouco
de classes sociais abertas ao credo liberal.

o A construção da ordem – José Murilo de Carvalho (1980)


 Relativiza o estamento fechado de Faoro.
 Longevidade da elite imperial deveu-se, mormente, à constituição
de uma estrutura de poder menos rígida do que a estamental.
o Há mecanismos de homogeneização.
 Mas também houve mecanismos de cooptar
inimigos potenciais e de fazer concessões a grupos
economicamente dominantes.
o Autonomia do projeto da elite política imperial frente aos
grandes proprietários rurais.
 Reconhece, no entanto, uma dialética da
ambiguidade:
 Tão logo a elite imperial terminasse seu
acúmulo primitivo de poder, ela conduziria
a nave do Estado à erradicação do
cativeiro.
o Dialética da ambiguidade é esse
jogo de espera e destruição.

 Interpretações de matriz marxista

o Caio Prado Jr., Evolução Política do Brasil (1933):


 Grupos politicamente dirigentes não estariam desvinculados dos
economicamente dominantes.
 Aburguesamento da classe senhorial.
 Tornando-se menos autárquica e encastelada em pretéritas
instituições patrimonialistas.
o Controle político do Estado não seria decorrência de uma pluralidade de atores que
competiriam pelo poder em posições relativamente iguais.
 Mas o resultado da imposição dos interesses uma classe econômica.

o Ilmar Rohloff de Mattos, O tempo saquarema (1987)


 Constituição do Estado imperial examinada à luz da formação da classe
senhorial.
 Intervenção deliberada sobre os rumos imperiais.
o Ação no mundo das relações de produção e naquele que
estabelece mecanismos para reproduzir essas relações de
produção.
 Classe senhorial:
o Formação histórica particular que teve seus
comportamentos e valores moldados na escravidão, em
particular naquela praticada no Vale do Paraíba, e em
íntima conexão com a construção do Estado e ordem
imperial.
o Classe senhorial não se formava apenas em seu fazer
econômico, mas no seu modo de vida, habitus, formas de
ser, sentir e agir.

Derivações na agenda historiográfica sobre a escravidão

 Corrente agencial-escravista (a partir da década de 1980)


o Contra docilização alegada por Gilberto Freyre (1933) e contra coisificação de
FHC (1962):
 Repensar conceito de violência:
 Admitindo espaço de negociação entre escravo e senhor.
o Estratégias de sobrevivência.
o João José Reis e Eduardo Silva.

2
 Há conflito, mas há negociação também: é
acordo sistêmico.
 Escravo ator de sua história
 Sidney Chalhoub:
o Recusa a coisificação e vê agência escrava, que incide
na política.

 Corrente estrutural-globalista (a partir da década de 1990):


o Dale Tomich, Pelo prisma da escravidão (2004):
 Segunda escravidão:
 Escravidão em interação com a construção de Estados
nacionais e com a expansão internacional do mercado
capitalista.
 Segunda escravidão se expande no momento da crise da
escravidão colonial, com a Revolução Haitiana.
 Segunda escravidão não seria o inverso histórico do
capitalismo.
o Pressupõe, ao contrário, a existência da escravidão
como condição para a reprodução capitalista.
o Duas bifurcações:
 Ricardo Salles, E o vale era o escravo (2008)
 Bacia do Paraíba – e além –, organizada em torno da
escravidão, grande propriedade e exportação do café, foram
centrais na conformação socioeconômica, política e cultural do
Império.
o Especificidades nacionais.

 Rafael Marquese (a partir de 2010)


 Concorda com Salles, desde que a escravidão nacional seja
pensada em consonância com a reabilitação global do cativeiro.
o Especificidades internacionais.

1. Brasil, sede do Estado monárquico português

1.1. As relações interestatais europeias de 1808

3
 18 Brumário: fim do Diretório e início do Consulado.
 Napoleão torna-se primeiro-cônsul.
 1804: Aclamado Imperador.
o Livre iniciativa britânica vs. capitalismo intervencionista francês.
 Inglaterra busca ligar-se à Áustria, à Rússia e a Prússia, contra
Napoleão.
 1805: Trafalgar.
o Lord Nelson e a esquadra inglesa.
 Resposta à derrota francesa em Trafalgar:
 Bloqueio Continental, decretado em Berlim (1806).

 Posição portuguesa: aderir ou não ao Bloqueio de Berlim?


o Aliança com França e Espanha, para reverter as perdas econômicas do
Tratado de Methuen (Pombal)?
o Aliança com a Inglaterra, para garantir proteção militar contra possível
expansionismo napoleônico?
 Posição da Dinamarca
o Tradicional aliada da Inglaterra, mas adere ao bloqueio.
o 1807: Bombardeio de Copenhague pela esquadra inglesa.
 Portugal alia-se à Inglaterra contra o bloqueio continental.

 Resposta napoleônica:
o Tratado de Fontainebleu, 1807, assinado entre Bonaparte e Manuel de Godoy.
 Quais foram as cláusulas?
o Espanha cede passagem, em seu território, para tropas francesas,
que não teriam, portanto, de invadir Portugal pela via marítima.
o Napoleão divide o Portugal em dois principados e um reino.

4
 1808: transmigração da Coroa bragantina para o Rio de Janeiro.
o Reabilita-se o projeto de dom Rodrigo de Souza Continho.
o Vasto e poderoso Império

2. A política interna joanina e a interiorização da metrópole

 Ineditismo da partida da Coroa portuguesa para a América.


o Escolta da frota britânica.
 Primeira parada: Salvador, após rápida escala nas ilhas Madeira.
 Segunda parada: Rio de Janeiro.
 Chegam reinóis: burocratas e administradores.
o Mas também músicos e artistas.

 Primeiras medidas administrativas:


o Pastas ministeriais
 Substituição da pasta dos Negócios do Reino pela dos Negócios do
Brasil, que passa a incluir a Fazenda e o Real Erário.
 Rodrigo de Souza Coutinho assume a pasta dos Negócios
Estrangeiros.
 Criação das Juntas de Comércio e de Agricultura.

o Medidas jurisdicionais
 Criação de Tribunais Superiores.
o Tribunal da Mesa do Desembargo do Paço:
jurisdição sobre todas as capitanias.
 Elevação do Tribunal de Relação do Rio de
Janeiro à Casa de Suplicação.
o Medidas coercitivas
 Criação da Intendência-Geral de Polícia.

o Políticas culturais
 Criação de Imprensa Régia (1808).
 Criação do Museu Real (1808): estudar a botânica e a zoologia local.
 Criação de Escolas de Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro
(1813).
 Criação da Real Biblioteca (1814).
 Criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios (1816).
 Abertura dos portos para missões científicas: Cook e Humboldt
(geografia); e Saint-Hilaire e o Barão Von Langsdorff (ciências
naturais).
 Missões artísticas:
o Austríaca: Spix e Martius.
o Francesa: Debret, Taunay e Grandjean de
Montigny.

o Contratação de funcionários locais.


 Novos servidores públicos.

 Caracterização da sociedade brasileira

o Unidade ou fratura?

5
 Títulos nobiliários outorgados a comerciantes de grosso trato como
retribuições ao auxílio financeiro prestado.
 Em troca, ainda, isenções fiscais.
o Essas isenções fiscais passam a pesar nas capitanias.
 Para elas, o Rio de Janeiro parecia substituir Lisboa, não havendo
mudança real da condição colonial.
 Coleta tributária ficava no Rio de Janeiro: magra redistribuição.
o Maior mal-estar: Pernambuco.
 Acumulava um dos maiores superávits comerciais do Império.
 Maior parte do fisco advinha das alfândegas.
 Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte unem-se ao
descontentamento pernambucano.
o Contrastes:
 O Rio de Janeiro urbaniza-se, mas o Brasil é rural.
 A nova capital recebe imigrantes, que contrastam com as
populações negras.
 3.817.000 brasilienses.
 1.043.000 brancos e 1.930.000 negros escravos.
 526.000 eram pardos e negros libertos.

2.1 A economia no período joanino

 XVIII: expansão do mercado interno consumidor e produtor.


o Rio Grande do Sul: gado.
 Exporta para Rio de Janeiro e Bahia.
o Rio de Janeiro e Bahia: tecidos e escravos.
 Exportam para mercados sulinos.
o São Paulo: cana de açúcar.
o Pernambuco, Maranhão, Paraíba, Piauí: gado, algodão, açúcar.

 Principais vias de integração econômica:


o Rio São Francisco.
o Tropeiros de SP a RJ.
o Rota da serra de MG a RJ.

Atividades econômicas no século XVIII

6
Fonte: THERY, Hervé e APARECIDA DE MELLO, Neli, Atlas do Brasil: disparidades e dinâmicas do território, 2a
edição, São Paulo: EdUSP, 2008, pp. 39

 Ao desembarcar no Rio de Janeiro, Dom João encontrou uma economia menos


dependente de Portugal do que imaginava.
o Mercado interno.
o Burguesia comercial.
o Proprietários rurais.

 Ação de Visconde de Cairu, José da Silva Lisboa.


o Abertura dos portos às nações amigas
 Ato de 1808: mercadorias importadas por navios estrangeiros
seriam taxadas em 24% ad valorem, e aquelas trazidas por
embarcações portugueses, em 16%.

 Resposta inglesa:
o 1810: Tratado de Comércio e Navegação.

7
 Os produtos importados por intermédio de embarcações inglesas seriam
taxados em 15% ad valorem.
 Acordo tem validade de 15 anos.
o Um ano inteiro de desajuste tarifário entre Portugal e
Inglaterra!
 Fica proibida a exportação de bens como açúcar, café e
produtos similares aos das colônias britânicas para a
Inglaterra.
 Pelo resto, Inglaterra distribuiria internacionalmente bens
exportáveis brasileiros.
o Comércio de reexportação autorizado.

o 1810: Tratado de Aliança e Amizade.


 Ingleses passam a ter jurisdição especial no Rio de Janeiro e
magistrados especiais para julgamentos contra britânicos.
 Compromisso com a extinção gradual do trato negreiro.

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