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Pacto de Silêncio: Espionagem e Intrigas

O documento narra a história de uma espiã chamada Brigitte Montfort, que retorna a Nova Iorque e é rapidamente envolvida em uma trama de espionagem relacionada à morte de diplomatas e um encontro misterioso entre um diplomata russo e um representante da ONU. A CIA desconfia que o russo, Anatol Gregoriev, pode estar envolvido em atividades suspeitas e decide enviar Brigitte para investigar o encontro. O enredo se desenrola com a espiã se disfarçando e se preparando para descobrir as intenções de Gregoriev.

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Pacto de Silêncio: Espionagem e Intrigas

O documento narra a história de uma espiã chamada Brigitte Montfort, que retorna a Nova Iorque e é rapidamente envolvida em uma trama de espionagem relacionada à morte de diplomatas e um encontro misterioso entre um diplomata russo e um representante da ONU. A CIA desconfia que o russo, Anatol Gregoriev, pode estar envolvido em atividades suspeitas e decide enviar Brigitte para investigar o encontro. O enredo se desenrola com a espiã se disfarçando e se preparando para descobrir as intenções de Gregoriev.

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© 1973 – LOU CARRIGAN

Pacto de Siléncio
Ilustração de Benicio
® 400130/431013
A misteriosa morte de dois diplomatas, um americano e
um russo, faz a CIA e o MVD pactuar o um tipo de
silêncio mortal. E, em cena, sempre com muito charme e
inteligência, a inigualável agente “Baby” revelando um
esquema chinês de compra de diplomatas da ONU para
facilitar a entrada da China.

CAPITULO PRIMEIRO
Rosas na chegada... má noticia à vista

O avião procedente de Paris aterrissou no Kennedy


International Airport, às cinco e dez da tarde. Às cinco e
meia, a senhorita Brigitte Montfort, cidadã norte-americana
que regressava à pátria depois de curta permanência no
estrangeiro por razões de turismo (entenda-se espionagem),
estava pronta para tomar um táxi que a levasse à sua
residência, o luxuoso apartamento no vigésimo andar do
Crystal Building, na Quinta Avenida, Nova Iorque.
Como bagagem, trazia apenas uma mala e uma maleta
vermelha com florzinhas azuis. A mala seguia nas mãos do
carregador do aeroporto, que se encarregaria de arranjar um
táxi. A maleta, verdadeiro arsenal de truques mortíferos, era
sempre carregada por sua dona.
Atraindo todas as atenções, por sua beleza inigualável, a
espiã mais perigosa do mundo foi andando atrás do
carregador, até sair do prédio onde, à luz do sol da tarde,
seus encantos continuavam fazendo estragos perante o
elemento masculino que tivera a sorte de estar presente no
aeroporto. Nem todos os dias podiam contemplar uma
pequena como aquela. Nem, sequer, todos os anos. Os
afortunados cavalheiros, seguramente, nunca mais veriam
uma beleza igual, embora vivessem quinhentos mil anos.
Porque todos sabem: existem mulheres muito bonitas, mas
apenas em certos detalhes. Umas podem ter olhos
maravilhosos. Outras, talvez, seios divinos. Inumeráveis
dispõem de bocas e narizes bonitos.
Algumas são donas de pernas sensacionais e pronto...
Mas a senhorita Montfort reúne, sozinha, todos os
encantos imagináveis: olhos azuis, enormes, lindíssimos;
um corpo absolutamente escultural; uma boca de sonho,
uma elegância espantosa, um sorriso celestial; um...
— Um momento... — disse ela, voltando-se para o
carregados. — Não chame táxi algum, por favor. Estou
vendo um amigo à minha espera, com o carro.
O empregado do aeroporto não viu o menor
inconveniente em aceitar a situação. Principalmente diante
da magnanimidade da gorjeta recebida. Lamentou, apenas,
deixar de andar perto da passageira com as pernas mais
bonitas do mundo. Pôde, em troca, contemplá-la, alguns
segundos, de frente, e achou que saiu ganhando,..
Voltou-se duas vezes, enquanto se afastava, depois de
ter pousado a mala no chão, e viu um homem parar junto à
jovem procedente de Paris. Calculou que sua admiração
talvez pudesse aborrecê-la e seguiu, em busca de outros
passageiros que precisassem de seus serviços.
Enquanto isso, a senhorita Montfort, sorrindo
docemente, recebia um belo buque de rosas vermelhas das
mãos do homem e murmurava:
— Ainda bem... Rosas. Isto significa que não traz más
notícias para mim, Johnny.
— Realmente — sorriu o homem. — Trouxe uma e
talvez ache interessante.
— Ah! Fale de uma vez.
— O senhor Pitzer explicará tudo. Está à nossa espera,
no carro.
— Pois vamos para lá.
Johnny, o espião que auxiliava Charles Pitzer na direção
do setor Nova Iorque da CIA, cujo centro de comando
ficava numa floricultura, pegou a mala da agente “Baby”, a
cosmopolita, eficientíssima, perigosíssima espiã do Grupo
de Ação, e indicou o caminho, perguntando:
— Tudo bem na Europa?
— Agora sim. Mas as coisas podiam ter ficado feias,
Johnny.
— Que aconteceu, afinal?
— Gravarei a informação, esta noite. Entregarei a fita ao
tio Charlie, amanhã, e todos ficarão sabendo de tudo. Só
posso adiantar uma coisa: um comando... especial esteve a
ponto de causar aborrecimentos a muita gente1.
— Você, sozinha, encarregou-se do comando.
— Sozinha, exatamente, não — riu ela. — Os russos me
ajudaram.
— É mesmo?
— Por que esse espanto?
— Bem... Não sei. Tem razão: não devo ficar surpreso.
De você, devemos esperar qualquer coisa. Inclusive, tornar-
se amiga dos russos.
— Que têm os russos de mau?
— Nada, esperamos — riu Johnny, balançando a cabeça.
— Afinal, o assunto que nos preocupa relaciona-Se com
1
ver SUPERCOMANDO
eles. Alguma coisa estranha está acontecendo ou vai
acontecer. Mas, por favor, não pergunte mais nada. Espere o
senhor Pitzer explicar tudo, sim?
— Okay.
Dois minutos depois, chegaram junto ao carro, cio qual
Charles Pitzer desceu, estendendo a mão para Brigitte
Montfort.
— Voltou, como sempre — murmurou. — Bem-vinda
ao lar, Brigitte.
— Obrigada, tio Charlie riu ela, beijando-lhe as faces,
em vez de apertar a mão estendida
— ... e obrigada pelas rosas.
— Escute — protestou Johnny — as rosas foram idéia
minha e nem sequer me deu a mão...
— Oh, que injustiça! — tornou a rir a divina espiã. —
Vamos repará-la.
Beijou Johnny nas duas faces e, enquanto o espião
tomava lugar ao volante, fora de si, ela entrou no banco de
trás, seguida por Charles Pitzer. Este fechou a porta e
Johnny suspirou:
— Fui beijado por um anjo.
— Porque foi um bom menino — tornou a rir Brigitte.
— E os meninos bonzinhos recebem prêmios.
— Quer dizer que o chefe também é um bom menino?
Brigitte olhou para Pitzer. Este resmungou qualquer
coisa e, com um gesto vago, deu a entender a Johnny que
iniciasse a marcha.
— Não diga que está zangado, tio Charlie. Bem... talvez
a culpa seja dos russos, não é mesmo?
— De um russo — murmurou Pitzer.
— Ah! Uma pergunta: há microfones neste carro?
— Microfones em meu carro?! — protestou Pitzer. —
Claro que não!
— Então, por favor, entremos no assunto. Estou muito
cansada e gostaria de chegar em casa o quanto antes, para
tomar um banho e dormir doze horas seguidas. Entregarei o
relatório gravado, amanhã. Okay?
— Está bem. Mas... não sabia que ia voltar tão cansada,
portanto... Bem, o assunto não tem tanta importância assim
para impedi-la de descansar, Brigitte. Como você ia voltar,
pensei que talvez pudesse dar uma mãozinha.
— Que expressão boba: dar uma mãozinha... Vou ter
que cortar uma das mãos e entregar a vocês?
Johnny riu e Pitzer pigarreou novamente, dizendo:
— Está de muito bom humor, para uma pessoa tão
cansada... Não devia ter vindo incomodá-la. O caso é muito
simples e nós podemos...
— Explique de uma vez e veremos o que se pode fazer.
Que é que há com os russos?
— Com um russo — insistiu Pitzer. — Chama-se Anatol
Gregoriev e é um dos diplomatas da embaixada russa em
Nova Iorque, destacado para servir nas Nações Unidas.
— Personagem importante?
— Bastante. Bem, Anatol Gregoriev parece ter alguma
coisa para nos dizer.
— A nós... aos americanos?
— Sim.
Brigitte refletiu um instante, antes de perguntar:
— Então Anatol Gregoriev entrou em contato com, a
CIA?
— Não. Conosco, não... Marcou encontro com um de
nossos representantes nas Nações Unidas, um tal Weston
Lomax. Encontro meio misterioso... num motel de New
Jersey.
— Lomax e o russo Gregoriev vão encontrar-se num
motel? — exclamou Brigitte, levantando as sobrancelhas.
— Para que?
— Eis a questão: que pode querer Gregoriev de um
representante americano? Além disso, num motel: o Vila
Motel. Já observamos o local. É muito discreto, sossegado...
Lugar ideal para acontecerem coisas, sem os vizinhos
perceberem. Principalmente à noite.
— O encontro será à noite?
— Esta noite, às nove. Nosso representante, o senhor
Lomax, aceitou o convite, mas apressou-se a informar o
serviço de segurança e este, por sua vez, nos passou a
informação. Isto é, passou-a a Washington e de lá, é claro,
veio cair em nosso setor. Já falei com o senhor Lomax.
— Que diz ele de tudo isso?
— Não faz a menor idéia do que o russo possa querer
com ele. Já se viram várias vezes, na ONU, é claro.
Encontraram-se, casualmente, nas lanchonetes do prédio,
mas pouco conversaram. O essencial, entre representantes
que trabalham na ONU.
— Em resumo, o senhor Lomax ficou intrigado com o
encontro marcado pelo russo Gregoriev.
— Exatamente. As relações existentes entre os dois não
dariam para tanto, O que inquietou mais Lomax, porém, foi
o fato de Anatol Gregoriev pedir para ser discretíssimo e
não comentar com ninguém.
— Ah, sim! Que sabemos sobre Gregoriev?
— Nada.
— Não há, sequer, suspeitas de que se dedique à
espionagem?
— Isso, nunca se sabe. Em nosso setor, porém, jamais se
ocupou de atividades diferentes do seu trabalho na ONU.
— Talvez queira vender alguma informação — sugeriu
Brigitte.
— Já pensamos nisso. Falei com Lomax e este, depois
de refletir um pouco, concordou. Por que não? Também
pode ser o contrário. Gregoriev talvez queira comprar
alguma informação de Lomax.
— Oh, compreendo! Bem, de qualquer modo, tio
Charlie, não parece caso da minha envergadura, não acha?
O melhor é deixarmos os dois comparecerem ao encontro,
para ver o que acontece. Não creio que uma coisa dessas
exija a interferência da agente “Baby”... que acaba de
chegar, cansadíssima, de uma longa viagem.
— Tem razão — concordou Pitzer. — Não devia ter
pedido sua ajuda.
— Não entendo que tipo de ajuda esperam de mim.
Nada posso fazer... Ou posso?
— Imaginamos, também, que podia ser uma armadilha
para Lomax. A atitude de Gregoriev é bem esquisita.
Quanto a Lomax, não é um dos delegados mais importantes,
mas é um dos mais jovens e mais destacados. Devemos
arriscá-lo, em troca de alguma informação que Gregoriev
nos possa fornecer?
— Que risco pode haver, num encontro entre dois
homens?
— Nunca se sabe. Bem, vamos levá-la até sua casa. Nós
mesmos cuidaremos deste caso.
— Pensava fazer outra coisa, tio Charlie? Pensava
utilizar-me?
— Bem, talvez você e Lomax pudessem instalar-se no
motel como um casal, esta tarde, e, na hora marcada, sob
sua supervisão, ele iria à cabana número nove encontrar-se
com o russo. Seria mais discreto que nossa presença nas
proximidades do motel. Os russos e os americanos sentem
nosso cheiro a milhas de distância.
— Então espera que haja mais russos por lá?
— Pela atitude de Gregoriev, não. Mas aprendi a não
confiar em pessoa alguma.
— Sendo assim — sorriu a espiã —, viverá muitos anos
mais. Está certo. Não quero saber de complicações. Irei com
Weston Lomax para o motel e farei com que tudo se passe
harmoniosamente. Onde está Lomax agora?
— À nossa espera.
— Disse que a. agente “Baby” ficaria com ele?
— Disse. Achei boa idéia e...
— Está bem. Não disse que a agente “Baby” é a
senhorita Montfort, espero, tio Charlie
— Que barbaridade! Claro que não!
— Neste caso, o senhor Lomax vai conhecer a agente
“Baby”, mas não precisa conhecer a senhorita Montfort.
Segure a maleta, por favor. Preciso das duas mãos para
colocar a peruca.
***
Weston Lomax apertou a mão da loura de olhos verdes,
observando-a curioso, e murmurou:
— Encantado. Ouvi falar a seu respeito em várias
ocasiões, senhorita... senhorita...?
— Lili Connors — sorriu ela. — Como sabe, senhor
Lomax, sou “Baby”, da CIA...
— Sim, claro. Foi de “Baby” que ouvi falar e não da
senhorita Connors.
— Já sou conhecida nos círculos diplomáticos?
— Sem dúvida — riu Lomax.
Ela o contemplou, sorrindo. Por muito que ele a
analisasse, não poderia saber que a senhorita Lili Connors,
na realidade, tinha cabelos negros e olhos azuis. Não podia
vê-la tal qual era. Ela, porém, via Weston Lomax tal qual
era, pois não podia disfarçar-se para lidar com a CIA. Lili
Connors, portanto, contemplava com atenção o elegante
diplomata da ONU: alto, bonitão, rosto inteligente e
simpático... embora houvesse uma certa dureza no olhar e
na boca. Um exemplar masculino bem aceitável,
aparentando trinta e cinco anos, mais ou menos.
Conheceram-se de um modo muito simples:
Johnny levara o carro até New Jersey. Lomax, em
companhia de outro agente da CIA, os esperava, numa das
avenidas, Pitzer indicou o carro e Brigitte encaminhara-se
para lá, depois do agente da CIA ter deixado Lomax
sozinho. Resultado: os dois estavam no carro, tendo Lomax
ao volante.
— Você é simpático — sorriu Lili Connors.
— Coisa muito comum, nos diplomatas.
— Obrigado. Seus amigos não vêm conosco?
— Não. Iremos sozinhos ver o camarada Gregoriev.
Tem certeza de que nunca houve qualquer coisa entre vocês
que os tenha unido... em determinado aspecto?
— Não pensei nisso — respondeu Lomax. — Bem, na
verdade, meu contato com ele tem sido muito pouco.
Tomamos café juntos, uma vez ou outra, na...
— Já me disseram. Bem, vamos ver o que acontece.
Daremos uma volta, calmamente, e, às oito e meia, nos
dirigiremos para o motel, onde nos hospedaremos sob o
nome de senhor e senhora Connors. Gosta? Às nove em
ponto, iremos ver o que deseja o russo...
— Então você vai comigo?
— Claro.
— Mas... Gregoriev recomendou-me discrição. Pediu-
me para não comentar com pessoa alguma.
— O russo pode pedir o que quiser, mas você fará o que
achar necessário, não é mesmo? Como entrou em contato
com você?
— Pelo telefone.
— Sabia seu número?
— Gregoriev? Não sei... Isso, porém, não seria
problema, pois meu nome está na lista telefônica.
— Claro. Esquisito... Segundo meu chefe, Gregoriev não
teve, até agora, nenhuma atividade, além da diplomática.
Nunca chamou a atenção sobre si... Não adiantou nada a
respeito do motivo dessa entrevista?
— Não. Bem, disse umas palavras estranhas que ainda
não consegui interpretar.
— Quais foram? Lembra-se delas?
— Não... Exatamente, não. Disse qualquer coisa
insinuando que eu ficaria informado, como ele também
estava...
— Como?
— Não entendi bem, já disse, e continuo sem entender.
Talvez esteja querendo pôr-me ao corrente de suas fontes de
informação.
— Talvez. Mas, sem saber quais foram as palavras de
Gregoriev, não posso fazer deduções, senhor Lomax.
— Não consigo me lembrar. Bem, ele explicará tudo,
não acha?

CAPITULO SEGUNDO
Tempestade na Montanha

As oito e meia, o senhor e a senhora Connors pediram


uma cabana no Vila Motel, situado num belo local, perto da
praia, de onde avistavam Manhattan e a estátua da
Liberdade. Pediram a cabana número dez, por insistência da
senhora Connors, que alegou ser seu número de sorte.
Conforme esperava, a número dez ficava em frente da
número nove, embora separadas por um amplo jardim.
A senhora Connors colocou-se à janela, com todas as
luzes da cabana apagadas, e ficou observando o outro lado
do jardim. Sentado junto a ela, Weston Lomax mantinha-se
calado e pensativo. Embora procurasse disfarçar, a esposa
notava seu nervosismo e sua inquietação.
Ouviram, finalmente, um carro se aproximar e a senhora
Connors agitou o bracinho direito, deixando à mostra o
reloginho de platina e brilhantes, de mostrador luminoso.
— Três minutos para as nove — murmurou. — Deve ser
Anatol Gregoriev.
— Gostaria de já ter terminado tudo — disse Lomax.
— Não vai demorar — garantiu ela, sorrindo. — Vamos,
nada de nervosismo. Lá está o carro. Veja se é Gregoriev
quem chega. Pode reconhece-lo?
— Não há muita luz, mas, se for ele, reconhecerei, é
claro.
O carro parou diante da cabana numero nove. As luzes
se apagaram e tudo ficou em silêncio, novamente.
— Que foi? — perguntou Lomax, inquieto.
— Por que o motorista não sai do carro?
— Psiu! Já vai sair.
Meio minuto depois, realmente, um homem saiu do
carro, olhando para todos os lados. Parecia indeciso. Apesar
disso, dirigiu-se para a cabana.
— É ele, sim — disse Lomax, em voz baixa. — É
Anatol Gregoriev.
— Tem certeza?
— Absoluta.
“Baby” concordou com a cabeça, sem perder de vista o
russo que havia chegado à porta da cabana número nove.
Subiu os degraus, parou e voltou-se, tornando a olhar em
todas as direções, com ar de inquietação.
— Não parece muito calmo — murmurou “Baby”,
sorrindo. — Talvez receie qualquer coisa de você.
— De mim? — espantou-se Lomax. — Neste caso, por
que marcou encontro comigo?
— Talvez receie ter sido seguido por alguém — tomou a
murmurar a espiã internacional. — Os russos possuem, em
Nova Iorque, um sistema de controle muito eficiente, para
vigiar seus diplomatas.
— Os russos vigiam os russos?
— Exatamente. E Gregoriev sabe disso. De qualquer
modo, se vejo, é porque tem certeza de que não foi seguido.
Mas não se resolve a entrar na cabana... Ali! entrou!
— Vamos então? — perguntou Lomax.
— Ainda falta um minuto para as nove — disse “Baby”.
— É preciso ser pontual. Além do mais, senhor Lomax, irá
sozinho.
— Mas você ....
— É melhor não o assustarmos. Se ele quer ver apenas o
senhor, irá sozinho. Mas... — abriu a maleta e tirou
qualquer coisa que entregou a Lomax, na escuridão. —
Tome este rádio de bolso. Sempre levo um, de reserva. Está
com o canal aberto e poderei ouvi-los. Não precisa fazer
coisa alguma. Guarde no bolso, assim como está.
Combinado?
— Claro... Bem, mas se você não vem... que vou dizer a
ele? Que atitude devo adotar?
— Correta e pacifica. Escute, com atenção e, seja qual
for a oferta que ele fizer, diga que irá transmiti-la a quem
possa dar uma resposta definitiva. Não diga NÃO, em
momento algum. Seja o que for, a resposta é SIM. Mesmo
se pedir dez milhões de dólares. Está claro?
— Mas... dez milhões de...
— Vá Jogo. Não se esqueça do que lhe disse. Um
momento: está armado?
— Não.
— Muito bem. Pode ir. E não acenda a luz.
Weston Lomax dirigiu-se para a porta e saiu.
Pouco depois, Brigitte o viu chegar à entrada da cabana
número nove. A espiã pegou outro rádio, na maleta, e abriu
o canal, balançando a cabeça, penalizada. Lomax fora, em
linha reta, para a cabana do russo. Não procurara disfarçar
nem um pouco.
Deixou o rádio na janela e continuou vigiando a cabana
fronteira, pronta para ouvir a conversa dos dois homens. Os
rádios ainda estavam com a onda de Atenas, onde havia
solucionado o caso do comando...
— Melhor — comentou. — Assim, é pouco provável
alguém captá-la.
Weston Lomax chegou à cabana, empurrou a porta e
entrou. A porta fechou-se, atrás dele. Brigitte ouviu o
pigarro de Weston Lomax, com toda a nitidez, e inclinou-se
para o rádio, a fim de perguntar o que estava acontecendo,
quando ouviu a exclamação do americano:
— Santo Deus!
— Lomax, que aconteceu?
— “Baby”, está ouvindo?
— Claro. Que aconteceu?
— Parece... que está morto... Está cheio de sangue...
caído no chão e tem...
— Não se mexa daí!
Fechou o rádio, pegou a pistolinha na maleta e saiu da
cabana, correndo para a outra. Em menos de seis segundos,
estava junto de Lomax, que parecia cravado no chão,
contemplando, apavorado, o russo Anatol Gregoriev,
estendido no chão, ensangüentado, com os olhos
arregalados e a boca crispada.
— Não se mexa — murmurou a espiã. — Não toque
nele...
Passou perto do russo e entrou no quarto. O ar suave da
noite chegou ao seu rosto. Aproximou-se da janela, aberta
de par em par, e olhou para fora, mas sem se debruçar. De
repente, deu meia-volta e foi para a sala. Ajoelhou-se junto
de Anatol Gregoriev e tocou-lhe o pescoço, com as pontas
dos dedos, contemplando os olhos estáticos do russo.
— Nada a fazer — murmurou, finalmente, voltando-se
para Lomax. — Está morto. Traga um cobertor.
Lomax engoliu em seco, incapaz de raciocinar. Brigitte
enrugou a testa e foi buscar o cobertor. Voltou com ele para
a sala e, ao entrar, notou a mudança da situação: havia mais
dois homens na cabana. Um deles, por trás do espantado
Lomax, que estava de braços bem levantados, e o outro,
perto do sofá, encarando-a fixamente, com uma pistola
apontada. Uma pistola com silenciador. Brigitte havia
guardado a pistolinha no decote e compreendeu que nada
poderia fazer. Sua atitude, porém, foi calma, quase amável.
— Russos? — perguntou.
Não obteve resposta. O que estava por trás de Lomax
empurrou-o para o sofá e obrigou-o a sentar. Ordenou a
Brigitte, por sinais, que se sentasse, também. Ela
concordou. Aproximou-se, antes, para cobrir o cadáver de
Gregoriev e foi sentar-se ao lado de Lomax, murmurando:
— Não o matamos. Meu amigo está desarmado e eu
tenho, apenas, uma pistolinha. Podem examiná-la, se
quiserem.
O que estava perto do sofá colocou-se por trás dela,
encostou a arma na nuca bem-feita da espiã e ordenou:
— Entregue.
Vagarosamente, pegando a pistola com as pontas dos
dedos, “Baby” tirou-a do decote e estendeu-a para trás. O
russo arrebatou-a, guardando-a no bolso. Voltou-se para o
companheiro, indicando, com um olhar, o cadáver. O outro
aproximou-se, levantou o cobertor e o examinou.
— Sim — exclamou. — Está morto. E ainda quente.
— É lógico. Entrou nesta cabana há três minutos.
Insistem em afirmar que não o mataram? — perguntou, com
ironia, o russo que examinava o cadáver, colocando-se
diante de Lomax e de “Baby”.
— Não fomos nós — respondeu a espiã, secamente. —
Quando cheguei, já estava morto e, como disse, meu amigo
não usa armas.
— Vamos verificar...
— Não usa — disse o outro. — Já o revistei, Val.
— Bem... Pode ter entrado, feito o serviço e escondido a
pistola.
— Por que iria fazer isso? — surpreendeu-se “Baby”.
— Vocês devem saber.
— Não o matei — protestou Lomax. — Quando entrei
aqui, estava estendido no chão, coberto de sangue. Em
seguida, chamei...
— Ele me chamou pelo rádio — cortou Brigitte
Montfort. — Meu nome é Lili Connors.
— Você deve ser Weston Lomax, não é? — perguntou o
russo, olhando em direção ao americano.
— Sim. Sou eu.
— Muito bem, senhor Lomax. Por que marcou encontro
com Anatol Gregoriev, nesta cabana?
— Eu marquei encontro com Gregoriev? — exclamou
Lomax, depois de um segundo de espanto. — Foi ele quem
me telefonou, pedindo-me para vir a este lugar.
“Baby” olhou para um e para outro, sem entender. Quem
teria marcado encontro com quem, afinal de contas?
— Não diga tolices — cortou o russo. — Você marcou
encontro com ele. O próprio Gregoriev nos disse.
— Mentira — protestou Lomax, furioso. — Ele me
telefonou, dizendo que precisava falar comigo sobre assunto
de meu interesse.
— Por que Gregoriev iria mentir para nós?
— Não sei. E quem são vocês, com os diabos? Onde
estavam? De onde surgiram? Estão armados... podiam ter
feito uso delas.
— Essa é boa! Sugere que tenhamos liquidado Anatol
Gregoriev?
— Só posso dizer uma coisa: não fui eu — respondeu
Lomax, contraindo a fisionomia.
— Esta conversa me parece muito inteligente, para ser
sincera — interferiu “Baby”, com amabilidade. — Estamos
diante de um caso estranho e devíamos raciocinar com mais
frieza. Vocês devem pertencer à espionagem russa, aposto.
— Pertencemos ao corpo diplomático de Nova Iorque —
disse um dos russos, depois de trocar um olhar apressado
com o companheiro. — Serviço de Relações Públicas. Está
claro?
— Claríssimo — sorriu “Baby”. — Muito bem: o senhor
Lomax pertence ao corpo diplomático norte-americano, na
ONU. Quanto a mim, sou do serviço de segurança da...
— Você é da CIA.
— Perfeito. Se são tão espertos, nada mais temos a dizer,
cavalheiros. Façam o que quiserem.
— Pode ter certeza disso. Em marcha.
— Para onde vamos? — perguntou Lomax.
— Não é para a embaixada russa — explicou “Baby”,
suavemente. — Seremos levados para um lugar mais
discreto, onde nos convencerão a dizer a verdade... A que
eles imaginam, é claro.
— É muito viva — disse Val. — Abra a porta, Oleg. E
cuidado com eles.
“Baby” levantou-se, mas Lomax continuou sentado,
pálido, olhando para os dois russos. Estava visivelmente
assustado e sem a menor vontade de se deixar levar para um
lugar onde pretendiam convencê-lo.
— Não pretendo mover-me daqui — disse com firmeza.
— Ora, não complique mais as coisas, Lomax —
exclamou “Baby”. — Devemos ficar satisfeitos, por nos
permitirem dialogar. Podiam ter reagido de um modo muito
menos agradável. Afinal de contas, acabam de assassinar
um dos diplomatas deles. Vamos.
— Eles querem nos matar — resistiu Lomax.
— Não diga tolices. Vamos conversar e verá como
chegaremos a um acordo.
— Se não foram vocês que o mataram — murmurou
Oleg.
— Um momento — disse a espiã. — Não vão procurar a
arma do crime, caso nós a tenhamos escondido?
— Vamos — respondeu Val, aproximando-se dos dois,
de arma apontada. — Se houver uma pistola escondida,
nesta cabana, alguém há de encontrar, garanto.
— E se alguém colocar uma pistola, aqui, enquanto
estivermos fora?
Não disse mais nada. Falou com tanta seriedade, tão
preocupada com o problema, que os russos não puderam
prever o ataque. Um ataque fulminante, incrível, feroz e
definitivo. “Baby” voltou-se para trás, enquanto falava, e,
acompanhando o movimento, a perna esquerda levantou-se,
de repente, numa velocidade fantástica. Oleg não teve
tempo de piscar um olho. Recebeu o pontapé no queixo o
bateu com a cabeça na parede, caindo sem sentidos.
Continuando a girar, “Baby” avançou para Val, que puxou o
gatilho, no momento exato em que a espiã lhe segurou o
pulso. A bala cravou-se na parede. Ato continuo, sem soltar
o braço do russo, “Baby” visou-se para a esquerda, puxando
Val, até colocá-lo de frente, com o braço dobrado e colado
ao peito. Numa rasteira precisa, derrubou o adversário, que
caiu de barriga, apoiando-se no quadril direito de Brigitte.
Sem soltar o braço do adversário, torcendo-o cada vez com
mais força, levantou a perna direita, num movimento
inesperado...
O russo dedicado às relações públicas saiu voando a
quase dois metros de altura, indo bater com a cabeça no
assoalho duro da cabana. O corpo estalou e a cabeça parecia
ter explodido... Quando abriu os olhos, teve uma bela visão
diante de si: a loura senhorita Connors estava à sua frente,
impávida, apontando-lhe seu próprio revólver.
— Pegue seu companheiro e sente-o no sofá — disse
ela, com um tom áspero. — Você, Lomax, pegue o revólver
do outro e vamos embora.
CAPITULO TERCEIRO
“Baby” não caça pássaros pequenos

Weston Lomax parou de olhar apalermado para a espiã e


tratou de reagir, agarrando o revólver de Oleg, enquanto Val
o levantava com dificuldade, contendo um gesto de dor.
— É melhor sentá-lo — disse Brigitte, com ar mais
amável. — Entregue-me o revólver, Lomax, e coloque o
russo no sofá.
O diplomata arrastou o russo desmaiado e sentou-o ao
lado de Val, que olhava Brigitte, fixamente.
— “Baby”? — murmurou, de repente.
— Sim — concordou ela. — Ponha as mãos nos joelhos
e não se mexa. Vamos esperar seu companheiro acordar,
para continuarmos nosso bate-papo... aqui mesmo.
— Então não foram vocês que mataram Gregoriev?
— Claro que não. Lomax, por favor, vá à nossa cabana e
traga minha maleta... e o rádio. Deixei no parapeito da
janela.
— Haverá mais russos lá fora? — assustou-se Lomax.
— Há? — perguntou Brigitte, encarando Val.
— Não.
A espiã fez um gesto e Lomax saiu meio inquieto, mas
voltou, sem novidades, com a maleta e o rádio de “Baby”,
que se sentou numa poltrona, contemplando Val, com ar
irônico.
— Agora me lembro... — sorriu. — Está com minha
pistolinha, colega. Pretende usá-la contra mim, se me
descuidar, hem?
— Não... e não acredito que você se descuide.
— Ah! Muito obrigada. Quanto à minha pistola, já que
de nada lhe servirá... pode entregar ao senhor Lomax, por
favor.
Continuou a encará-lo e Val compreendeu que, ao menor
gesto suspeito, receberia um balaço na cabeça. Tirou a
pistolinha e entregou-a a Lomax.
— Pode explicar como fez tudo isso? — perguntou
Lomax, devolvendo a pistolinha a “Baby”.
— Derrubar um homem muito mais forte que você, com
um simples pontapé... mandando-o pelos ares, como se
fosse uma pluma... Ainda não acredito no que vi!
— Viu um pouquinho de caratê e uma magistral
exibição do yama arashi, do judô. Sabe o significado de
yama arashi, em nosso idioma?
— Não...
— Significa: Tempestade na Montanha. Pratica algum
esporte, Lomax?
— Eu? Bem, um pouco de golfe, quando posso.
— Oh, golfe! É um esporte simpático — disse,
condescendente, a mais perigosa espiã do mundo. — Sei
qual é... aquele em que empurram umas bolinhas, com uns
bastões, não é?
— Esse mesmo.
— Muito bonito. Eu pratico judô e caratê. São mais úteis
para mim que o golfe, naturalmente. Bem — exclamou,
depois de mexer nos botões do rádio. — Tudo em ordem.
Onda setor Nova Iorque. Vou chamar...
Bip-bip-bip começou a emitir o rádio, mal Brigitte girou
o botão. Abriu o canal e ouviu, pelo pequeno aparelho, a
voz de Charles Alan Pitzer:
— “Baby”? Finalmente. Está bem?
— Muito bem, tio Charlie. Acalme-se.
— Estou chamando há mais de quinze minutos.
— Desculpe. O rádio estava com a onda de Atenas. Que
aconteceu?
— Dois delegados nossos das Nações Unidas foram
encontrados assassinados.
A voz de Pitzer ecoava com tal força que Val foi
obrigado a ouvir e empalideceu.
— Quem os assassinou? — quis saber Lomax, sem se
conter.
— Cale-se — cortou Brigitte, secamente. — Ouviu isso,
Val?
— Sim... mas não sei nada a esse respeito.
— Não? Vamos ver. Como foi isso, tio Charlie?
— Com quem está falando? — perguntou Pitzer. — Que
aconteceu aí?
— Explicarei depois.
— Estamos muito perto do motel e já nos preparávamos
para entrar, caso você não respondesse desta vez.
— Estou bem e não me apareçam aqui. Peguei dois
russos o não há necessidade deles ficarem conhecendo
vocês. Que aconteceu com nossos delegados?
— Ainda não sabemos. Foram encontrados há pouco
mais de uma hora, na estrada número 9, perto do Hudson
River.
— Quem os encontrou?
— Um casal. Parece ser um local onde os namorados
costumam passar alguns momentos... É só sair da estrada e
pronto. Podem ficar à vontade...
— Compreendo. Quando os namoradinhos iam se beijar,
viram os dois cadáveres... Há muita luz, por aí?
— Luz? Acho que não. Mas não havia necessidade.
Quando iam sair da estrada, o carro passou por cima de um
dos cadáveres e desceram para ver o que era... Levaram o
maior susto do mundo.
— É natural. Escute, tio Charlie, vá para lá. Veja o que
consegue descobrir e me comunique. Combinado?
— Bem... Diabos, se você está com os russos...
— Havemos de nos entender, descanse. Ah, outra coisa,
tio Charlie: sabe os nomes dos delegados?
— Robert Gaynor e Joseph Karpis.
Brigitte olhou rapidamente para Lomax, e o ouviu
pigarrear, com os olhos mais arregalados que nunca.
— Chamarei depois, tio Charlie — fechou o rádio e
ficou olhando para Lomax. — Que é que há com você?
— Gregoriev mencionou Karpis — exclamou o
americano.
— Como? — sussurrou “Baby”, revirando os olhos.
— Tenho certeza. Disse que eu ficaria sabendo como ele
conseguia informações e mencionou Karpis.
— Que disse ele?
— Não me lembro. Falou qualquer coisa sobre o
trabalho de Karpis, mas não me lembro exatamente...
— Não mencionou Gaynor?
— Não, não. Só Karpis.
Brigitte ficou pensativa, um instante. Parecia ter
esquecido a presença dos russos.
— Você conhecia Gaynor e Karpis, Lomax?
— Naturalmente.
Algum deles mencionou Gregoriev?
— Não. Bem, Gregoriev não era muito importante, entre
os russos. Talvez tivéssemos falado nele, como falamos de
muitos outros. Não me lembro.
— Gregoriev deu a entender que tinha negócios com
Karpis?
— Não — espantou-se Lomax. — Claro que não.
— E Gaynor?
— Também não. Nós, os delegados, só nos vemos nas
Nações Unidas e quase não conversamos.
— Mmm... Insiste em dizer que foi Gregoriev quem
marcou encontro com você aqui?
— Insisto, naturalmente.
— Mas não deve ser verdade.
— Que pretende insinuar? — empalideceu o delegado.
— Calma — sorriu a espiã. — Não disse que você
mentiu e, sim, que o enganaram. Tem certeza de que a voz
ao telefone era a de Gregoriev, quando marcou o encontro
aqui?
— Claro... Bem, disse que era Gregoriev... Nunca havia
falado com ele, pelo telefone. Quando me disse quem era,
aceitei. Além disso, pelo modo de falar, devia ser mesmo.
— Que quer dizer com isso?
— Bem, se uma pessoa envolvida em determinada
assunto me telefona e fala nele, eu acredito que seja a
pessoa. Se você me telefonasse amanhã, para falar sobre os
acontecimentos de hoje, eu acreditaria que era você quem
estava ao telefone. Se me falasse em filatelia, por exemplo,
eu poderia ficar intrigado. Talvez desconfiasse que não era
você quem estava ao telefone.
— Compreendo. Pelas palavras de Gregoriev, acha que
era ele.
— Seria capaz de jurar que sim.
— Muito bem. Então como explica o fato de Anatol
Gregoriev querer uma entrevista tão discreta com um
delegado norte-americano... e, ao mesmo tempo, avisar o
serviço de Relações Públicas da embaixada soviética desse
encontro? Qual é a sua opinião, colega? — perguntou,
voltando-se para Val.
— Não sei.
— Não pode dar sua opinião?
— Não. Oleg e eu só sabemos que nosso chefe de
serviço, na embaixada, nos mandou vigiar Gregoriev, pois
iria a um encontro marcado pelo delegado americano
Weston Lomax.
— Não é verdade! — gritou Lomax. — Foi ele quem
marcou comigo!
— Vamos, acalmem-se, queridos — aconselhou Brigitte.
— Estão vendo como há qualquer coisa esquisita em tudo
isso? Não acha, Val?
— Sou obrigado a admitir que está tudo muito confuso
— resmungou o russo.
— Quem avisou seu chefe de que Gregoriev tinha um
encontro aqui com Lomax? — perguntou Brigitte.
— O próprio Gregoriev.
— Não parece admissível — sorriu “Baby”, com
amabilidade.
— Quem mais poderia ter dito a meu chefe?
— Não sei. Mas você talvez saiba... Ou não?
— Está querendo que eu descubra para informá-la,
“Baby”?
— Seria uma bela maneira de demonstrar que somos
inteligentes, colega.
— Quer dizer que Oleg e eu podemos ir embora?
— Exato. E espero que não me guardem rancor... pela
Tempestade na Montanha.
Val resmungou qualquer coisa, em russo, e aproximou-
se do companheiro, sacudindo-o até vê-lo recuperar os
sentidos. Oleg ficou sentado, olhando para o compatriota,
como que hipnotizado. De repente, soltou uma exclamação
e levantou-se de um salto.
— Calma — disse Val, segurando o companheiro pelo
braço. — Estamos conversando, Oleg, e ela é “Baby”.
Os olhos de Oleg arregalaram-se ainda mais, voltando-se
para a espiã, que sorriu e o cumprimentou, levando o dedo à
testa.
— Olá, Oleg. Sente-se melhor?
— Não — murmurou em russo.
— Desculpe, querido — Brigitte ampliou o sorriso. —
Mas fui obrigada a fazer isso. Val o informará da
reviravolta que houve no caso, depois do senhor Lomax e
eu nos retirarmos... levando o cadáver de Anatol Gregoriev.
— Val levar o cadáver? — espantou-se Val. — Para
quê?
— Faço coleção. Tenho uma casa cheia de mortos e este,
tão ensangüentado, é muito decorativo.
— Não... está... falando sério — gaguejou Weston
Lomax.
Brigitte o observou e, voltando o olhar para os russos,
desculpou-se com um gesto:
— É apenas um delegado diplomático. Devemos ser
tolerantes com ele. Enrolem Gregoriev no cobertor, sim? Vá
buscar nosso carro, Lomax. Depois os três colocarão o
cadáver no porta-malas.
Os três homens executaram as ordens de Brigitte em
menos de seis minutos. Terminada a tarefa, voltaram para a
cabana e “Baby” devolveu os revólveres aos russos, depois
de descarregá-los.
— Também nos devolverá Gregoriev, suponho —
murmurou Val.
— No momento oportuno. Enquanto isso, tanto os
americanos quanto os russos devem manter segredo sobre o
caso. Não acham melhor?
— Não tomo decisões. Farei um relatório a meu chefe,
mas ele vai pensar que vocês mataram Gregoriev.
— É? Bem, vamos deixá-los aqui, para procurarem a
arma do crime. Digam ao seu chefe, depois, que “Baby” não
costuma sair para caçar pássaros tão pequenos como Anatol
Gregoriev.
— Direi a ele — sorriu Val, divertindo-se.
— Ótimo. Onde posso procurá-lo?
— Onde? — exclamou Val, surpreso. — Na embaixada
russa. Serviço de Relações Públicas. Chame Val Titov.
— Qual é seu horário de trabalho?
— Pode telefonar a qualquer hora.
— Trabalha demais — sorriu Brigitte. — Vamos,
Lomax.
Saiu da cabana, acompanhada pelo delegado americano.
Este, mal entraram no carro, perguntou:
— Para onde vamos?
— Para o necrotério — respondeu a espiã.
***
De acordo com a combinação feita pelo rádio, Pitzer a
estava esperando no necrotério. Dois agentes da CIA
levaram para o interior do edifício o cadáver de Anatol
Gregoriev e Pitzer, sem uma palavra, conduziu Brigitte e
Lomax ao depósito. Mandou retirar os delegados
americanos dos compartimentos, levantou os lençóis e
mostrou os corpos despidos. Joseph Karpis e Robert Gaynor
não ficaram encabulados, pois suas vidas haviam fugido
pelos orifícios feitos por diversas balas.
— Vão fazer a autópsia, daqui a pouco — informou
Pitzer. — Por isso, ainda não estão na geladeira.
— Já calcularam a hora da morte? — perguntou “Baby”.
— O legista da polícia só poderá dizer alguma coisa
depois da autópsia; mas acredita que tenham morrido entre
seis e seis e meia da tarde.
— Ou seja: foram mortos antes de Anatol Gregoriev.
— Claro... pois — vocês viram Gregoriev vivo às nove.
— Com toda a certeza. Já extraíram as balas?
— Ainda não, por causa da autópsia que será feita dentro
em pouco.
— Preciso das balas o quanto antes e também das que
mataram Anatol Gregoriev. Por isso, trouxemos o cadáver.
Quero saber tudo a respeito delas. Mande a Balística
examiná-la.
— De acordo. Um momento... Aí vem o médico para a
autópsia. Vamos para outra sala, esperar. Enquanto isso,
podemos trocar idéias sobre os acontecimentos.
— Não Conte comigo — exclamou Brigitte.
— Pelo menos, até recebermos as informações da
Balística. Até lá, vou dormir um pouco, se me deixarem.
— Está bem — concordou Pitzer.
— Vai dormir mesmo? — perguntou Lomax, espantado.
— Por que não? Estou exausta, senhor Lomax.
— Mas... Sim, compreendo... Bem, eu não seria capaz
de fechar os olhos... e dormir, muito menos! Duvido que
você consiga dormir, depois de tudo isso...
Dois minutos depois, Weston Lomax verificou que
estava enganado. A senhorita Lili Connors dormia,
tranqüilamente num dos sofás da sala de espera.
— Dormiu...
— Vamos — disse Pitzer. — Chegou nossa vez de
trabalhar, enquanto ela descansa. Tratemos de reunir a
maior quantidade de dados possível.
Saíram da sala e Pitzer fechou a porta à chave,
guardando-a no bolso, para surpresa de Lomax.
— Vai deixá-la trancada?
— Se ela quiser sair, sairá. Mas, por enquanto, é melhor
ninguém entrar ai, senhor Lomax.
CAPITULO QUARTO
Compositores prediletos

Weston Lomax compreendeu as palavras de Pitzer, três


horas depois, quando voltaram à salinha. Antes de entrar,
Pitzer disse:
— Sou eu, “Baby”.
Entraram e viram a espia sentada no sofá, com a
pistolinha em punho. Guardou-a no decote e deu uma
palmadinha nas almofadas. Pitzer foi sentar-se no lugar
indicado, enquanto Lomax se acomodava numa poltrona.
Brigitte, pegando a bolsa trazida por Pitzer, tirou um
sanduíche, deu uma mordida e perguntou:
— A garrafa térmica está com café?
— Sim.
— Ótimo. Bem — olhou o reloginho. — Estou em
forma, novamente, tio Charlie.
— Já recebemos o resultado da Balística. Anatol
Gregoriev não foi morto com as armas dos russos. As que
você me entregou são diferentes das que estavam no corpo
de Gregoriev... e no de Gaynor e Karpis. Isto é: os três
foram assassinados com as mesmas balas: dois revólveres
dos assassinos, logicamente. Nos três cadáveres há balas
dessas armas: um Browning e um Colt, ambos de calibre
pesado. Não foram encontradas na cabana número nove. Se
estavam lá, os russos as levaram. Creio que vamos
concordar num ponto: quando Gregoriev chegou à cabana,
os dois assassinos já estavam lá.
— Ou o assassino que usa dois revólveres — murmurou
“Baby”, abrindo a garrafa térmica.
— Talvez — vacilou Pitzer. — A meu ver, são dois
homens e vou dizer por quê. Quando Gregoriev chegou à
cabana, eles já estavam lá, há várias horas, esperando. O
russo entrou, eles o mataram e saíram pela janela do quarto.
Encontramos pegadas masculinas, do lado de fora, junto à
janela. Também as encontramos perto do local onde o casal
achou os corpos de Karpis e de Gaynor. As pegadas dos
dois lugares parecem ser dos mesmos homens. Saberemos,
com exatidão, quando terminarem os moldes. Quanto à
cabana, foi alugada, pela manhã, por um homem barbado e
gordo, que assinou o registro com o nome de Smithson. O
FBI nos está ajudando a procurar impressões na cabana e
nos avisará, quando terminar de comparar com as existentes
nos arquivos. As impressões serão enviadas para os nossos
arquivos, naturalmente.
— Não conseguiremos coisa alguma, desse jeito —
garantiu Brigitte.
— Também acho. Mas não perdemos nada, trabalhando
nesse sentido. Bem, passemos agora aos delegados
americanos. Robert Gaynor era casado e tinha um filho de
onze anos. Karpis era solteiro e morava na Rua 57 Leste,
número 615, apartamento 11 C. Estamos interessados na
folha de serviço de ambos. Johnny está, neste momento,
amolando o chefe dos dois delegados diplomáticos e vai
telefonar quando acabar de conversar com ele. Em resumo,
isso é tudo.
— E, em resumo, também, sabemos, apenas, que dois
homens assassinaram Gaynor e Karpis, por volta das seis da
tarde, e, depois Anatol Gregoriev, às nove da noite.
— Os russos podem, muito bem, ser os assassinos —
murmurou Lomax.
— Por que pensa assim? — perguntou Brigitte, sorrindo.
— Podem ter acabado com Karpis e com Gaynor, indo,
em seguida, para a cabana, esperar Gregoriev. Mataram-no
e saíram pela janela. Esconderam as armas e voltaram, pela
porta. Foi quando nos surpreenderam. Trouxeram
revólveres diferentes, é claro. Não lhe parece possível?
Brigitte e Pitzer trocaram um olhar de compreensão.
— Já pensamos nessa hipótese, senhor Lomax — disse
Pitzer —, mas tudo isso nos parece excessivamente
elaborado. Seria uma boa teoria, tratando-se de assassinos
comuns. Não serve, para um par de espiões soviéticos.
— Espiões? Mas eles disseram..
— Relações Públicas — Brigitte quase soltou uma
gargalhada. — Francamente, Lomax. Os camaradas não iam
dizer que estavam nos Estados Unidos espionando. Seriam
expulsos, na mesma hora. Não. Dois espiões teriam
liquidado Gregoriev e dado o fora. Para que complicar a
vida? E tem mais: sabiam que Gregoriev ia àquela cabana
encontrar-se com você, não é?
— Parece.
— Parece, não. Tinham absoluta certeza e queriam que
ele fosse, para poderem ficar sabendo o que você poderia ter
para dizer ao delegado russo...
— Eu? Não tenho nada para dizer aos russos! Foi
Gregoriev quem marcou o encontro comigo, não esqueça!
— Não me esqueço, mas também não me esqueço da
versão dos russos. É totalmente oposta. Disseram que você
marcou encontro com Gregoriev.
— Não é verdade. Eu, apenas...
— Acalme-se. Tudo será explicado, no momento exato,
vai ver. Como ia dizendo, não foram os russos que mataram
Gregoriev. Não. Para fazer isso não tinham necessidade de
deixar você chegar até a cabana.
— Bem... Parece lógico, realmente...
— Portanto, não foram Val e Oleg os assassinos. Mas,
sejam eles quem for, sabiam que Gregoriev iria à cabana.
Os dois homens mataram Karpis e Gaynor e foram esperar
por Gregoriev, para matá-lo também. Isso lhe sugere
alguma coisa?
— Não... Não estou entendendo mais nada.
— Pois está bem claro: alguém queria que nem Karpis
nem Gaynor e nem Gregoriev pudessem dizer qualquer
coisa.
— Que poderiam dizer? Além disso, um era russo e os
outros dois, americanos. Que relação poderia existir entre
eles?
— O problema não é esse — sorriu “Baby”, friamente.
— Por que assassinar um russo e dois norte-americanos
que, aparentemente, nada tinham em comum... salvo a
posição de delegados na ONU? Poderíamos partir desta
pergunta. E então...
Então soou a campainha da porta, que se abriu, em
seguida. Brigitte sacou a pistolinha, instintivamente, mas
sorriu, tornando a guardá-la no seio. Não atiraria no
ajudante de Pitzer, no Johnny de Nova Iorque, que sempre a
presenteava com rosas vermelhas.
— Olá, Johnny — saudou, carinhosa.
O ajudante de Pitzer também sorriu, atirou um beijo com
a mão e fez sinal a ela e ao chefe, para que se
aproximassem. Os três cochicharam, durante quase meio
minuto, mantendo Lomax fora do raio auditivo. “Baby”
disse qualquer coisa, finalmente. Pitzer e o ajudante
concordaram e ela foi até o telefone colocado na mesinha
do centro. Discou um número, sorrindo secamente, e
esperou alguns segundos, antes de dizer:
— Desejo falar com Val Titov, por favor. Relações
Públicas.
— Sim, obrigada. Eu espero... — alguns segundos se
passaram e a espiã aproveitou para acabar o segundo
sanduíche. — Val? Aqui fala Lili Connors. Lembra-se de
mim?
— ...
— Oh, muito agradecida! Pode informar alguma coisa,
conforme combinamos?
— ...?
— Sim, compreendo... Muito interessante.
— ...?
— Oh, sim... Acredito, sim, colega. Escute, Val, vou lhe
pedir um favor e suplico que o atenda: podemos usar uma
mentirinha nisso tudo?
— ...
— Devemos simular um acidente com Ana Greg.
Diremos o mesmo a respeito de nosso pessoal, compreende?
— ...
— Com que objetivo? Ora, Val... Para que procurarmos
complicações diplomáticas ou de qualquer outro tipo?
Nós...
— ...
— Um momento, um momento. Olhe, colega — disse
“Baby”, friamente. — Já devia saber que, nem sempre,
minha atitude é boa para todos. Pense bem. Podem passar
pelo necrotério, para apanhar o corpo de Greg quando
quiserem e, depois, façam o que achar melhor.
— ...
— Está brincando? Ora... Nós também tivemos duas
perdas, não foi?
— ...
— Como? — Brigitte ficou paralisada. — Só vendo?
Isso é formidável! Nada mais simples: quando vierem
buscar Ana Greg, podem ver os nossos, na geladeira. Sabe
de uma coisa? Vocês e sua guerra-fria podem ir para o
diabo que os carregue! — desligou com um gesto violento e
voltou-se para os americanos, bufando de raiva: — Viram
só? Estúpidos! Não acreditam que tivessem assassinado
nossos delegados. Pretendem dar publicidade do fato e
exigir investigações pelo assassinato de um diplomata
russo... Não têm nada a ocultar e pretendem prosseguir,
enfrentando todas as conseqüências.
— Imbecis! — rosnou Johnny.
— Que história é essa de guerra fria? — resmungou
Pitzer.
— O chefe de Val deve ser um cretino. Disse que não
vai mudar de opinião e que este caso talvez nos leve,
novamente, aos piores tempos da guerra fria. Nada de
pactos. Isso, veremos... Senhor Lomax, insiste em dizer que
foi Ana Greg... quero dizer, Anatol Gregoriev, quem lhe
telefonou?
— Não mudo de opinião, nem que me queimem vivo —
afirmou Lomax.
— Bem — sorriu a espiã. — Sabe como se inteiraram de
que Gregoriev ia à cabana número nove do Vila Motel? Por
intermédio de um bilhete escrito a máquina. O bilhete
estava assinado por Anatol Gregoriev.
— Fantástico! — exclamou Johnny. — E vamos
acreditar nisso, “Baby”?
Brigitte Montfort tomou um gole de café, pensativa,
acendeu um cigarro, pegou sua maleta e apontou para a
porta.
— Primeiro, vamos ouvir um cavalheiro, Johnny.
Venha, Weston.
— Como? — gaguejou Lomax. — Vou com vocês?
— Claro. Sua presença é necessária, no momento. Sabe
quem está à nossa espera no carro?
— Não...
— Johnny foi buscá-lo, em casa, O chefe de Karpis, de
Gaynor... e seu também, é lógico.
— Mr. Ashendem está esperando por nós?
— Exato. Venha, embora talvez não goste do que ele
disso.
— Que foi?
Brigitte sorriu, saindo da sala de espera. Pouco depois,
os quatro deixaram o necrotério e Johnny apontou o carro.
Entraram, Johnny ao volante, Lomax ao lado dele, Brigitte e
Pitzer, no banco de trás, um de cada lado do homem que
esperava e, ao qual, Lomax cumprimentou, um tanto
preocupado:
— Boa-noite, senhor...
— Olá, Weston. Estamos metidos numa embrulhada,
rapaz.
— Sim, senhor... Bem, para ser franco, não estou
entendendo nada.
— Já vai entender.
Mr. Ashendem, depois de contemplar Brigitte, atônito,
voltou a cabeça para Pitzer.
— Já nos conhecemos, não é mesmo?
— Estivemos juntos, em algumas ocasiões — murmurou
Pitzer, de má vontade. — Apresento-lhe a senhorita Lili
Connors.
— Tenho a impressão de conhecê-la de algum lugar,
senhorita Connors...
— É possível, Mr. Ashendem. Talvez nós tenhamos
encontrado nas praias de Miami.
— Claro... A senhorita me lembra alguém, mas...
— Mr. Ashendem, meu ajudante disse que o senhor tem
algo muito importante para comunicar à CIA — cortou
Pitzer.
— Sim — Ashendem pareceu ficar abatido, de repente.
— Devia ter recorrido, há algum tempo, ao nosso serviço de
segurança, pelo menos... Bem, tudo isso é muito delicado e
queria, primeiro, estar seguro...
— Seguro... de que?
— Bem... — o diplomata parecia mortificado. — Já que
a CIA está interferindo, talvez o que vou dizer sirva para
alguma coisa. É muito desagradável e não gostaria que...
— Fale de uma vez, Mr. Ashendem — resmungou
Pitzer.
— Sim... Bem, há algumas semanas tenho a certeza de
que alguém está tomando dados de nossa posição
diplomática, em todos os aspectos, sobre as questões a
serem debatidas na ONU..
— Que pretende dizer com isso, exatamente?
— Bem... eu...
— Mr. Ashendem está querendo dizer que alguém do
nosso grupo das Nações Unidas está vendendo informações
— murmurou Brigitte. — Aos russos, por exemplo. Não é
isso, Mr. Ashendem?
— Sim, sim — respondeu ele, mordendo os lábios e
baixando a cabeça.
— Pelo amor de Deus — exclamou Lomax.
— Não é possível, senhor!
Todos os olhares se voltaram para Weston Lomax, que
havia empalidecido.
— Sinto muito, Weston — murmurou Mr. Ashendem,
balançando a cabeça. — Estava quase seguro... Agora,
porém, não há mais dúvidas.
— Por que tem tanta certeza? — quase gritou Lomax. —
O senhor nos está acusando, a mim e a seus colaboradores,
de...
— Acalme-se — disse Brigitte. — O negócio não é com
você, Lomax. Não compreende que o caso começa a se
esclarecer e tudo indica Karpis e Gaynor?
— Que... está querendo dizer? — murmurou Lomax,
como se tivesse levado uma pancada na cabeça.
— Na nossa opinião, a coisa começa a ficar mais clara.
Poderia dizer, até, que Anatol Gregoriev marcou encontro
com você, no motel.
— Sabia disso? — perguntou Lomax, encarando Pitzer,
sem acreditar.
— Segundo fui informado por Lili, você garantiu que
Gregoriev mencionou o nome de Karpis... Tem certeza?
— Sim. Absoluta.
— Gregoriev também disse que poderia explicar como
estava sendo informado.
— Sim, mais ou menos...
— Bem, seremos obrigados a acreditar que Joseph
Karpis e Robert Gaynor eram traidores, senhor Lomax. Vou
explicar: Karpis e Gaynor estavam vendendo informações
aos russos e Anatol Gregoriev sabia disso. Resolveu, por
sua vez, ganhar algum dinheiro, passando informações aos
americanos... Entre os americanos que conhecia, escolheu o
senhor. Marcou encontro no Vila Motel, depois de ter
alugado a cabana número nove.
— Mas... Gregoriev não usava barba e...
— Por e tirar uma barba é a coisa mais fácil do mundo
— resmungou Pitzer. — Alugou a cabana, com o nome de
Smithson, usando barba postiça e enchimento nas roupas,
talvez... Mas os russos do serviço de vigilância devem tê-lo
visto e passaram a segui-lo o resto do dia. Viram você e a
senhorita Connors entrarem na cabana... Não o conhecem,
mas já o tinham visto nas Nações Unidas. Calcularam
facilmente: Anatol Gregoriev deseja vender alguma coisa
aos americanos. Como Gregoriev, por sua vez sabia que
dois americanos estavam vendendo informações aos russos,
a coisa se complicou. A primeira informação que Gregoriev
daria, seriam os nomes dos traidores americanos...
— Agora compreendo por que mencionou Karpis...
— Exato. Mas voltemos aos russos. Sabiam que
Gregoriev ia encontrar-se com você. Isso não lhes convinha.
Não podiam limitar-se a deter Gregoriev... Não. Deviam
cortar o mal pela raiz. Esperaram, portanto, Gaynor e
Karpis saírem das Nações Unidas e marcaram encontro com
eles, na estrada. Os dois foram, pois trabalham para os
russos, e os russos os mataram... Como sabiam que você iria
ao encontro com Gregoriev, resolveram tirar partido da
situação. Se assassinassem Karpis e Gaynor, apenas, o caso
se complicaria. Encontraram, pois, um modo de aparar as
unhas dos investigadores americanos. Os dois russos
esperaram Gregoriev na cabana, acabaram com ele e
fugiram pela janela. Quando você chegou, já estava morto.
A senhorita Connors apareceu e os russos entraram em
cena, acusando os americanos pelo assassinato do diplomata
soviético.
— Por que complicariam tanto as coisas?
— Já disse. Para meterem os americanos numa
enrascada, garantindo, assim, nosso silêncio sobre o
assassinato de Karpis e Gaynor, porque você ou outros
americanos mataram Anatol Gregoriev.
— Ora... isso não faz sentido, porque os russos negam-se
a guardar silêncio, como acabaram de dizer à senhorita
Connors. Pretendem publicar a notícia do assassinato de
Gregoriev...
— Foi o que disseram, esta noite — murmurou Pitzer,
secamente. — Quando Lili telefonar de novo, terão pensado
melhor e aceitarão o pacto de silêncio ou pelo menos de
discrição. Aposto um milhão de dólares... Dirão que o
cidadão soviético Anatol Gregoriev faleceu num acidente.
Nós devemos fazer o mesmo, quanto a Karpis e Gaynor. É
exatamente o que eles querem. Eliminaram três homens
perigosos para eles e nada acontecerá, nem a CIA ficará
sabendo de coisa alguma. Compreendeu, agora, senhor
Lomax?
— Sim... sim... E o bilhete? Os russos disseram que
Gregoriev enviou um bilhete, informando o encontro
marcado comigo.
— Qual bilhete, coisa nenhuma, meu amigo —
exclamou Pitzer, bufando. — Não existe! Bem, os russos
devem ter redigido um, é claro, para nos mostrar; mas é
falso. Você escreveria um bilhete para a CIA, por exemplo,
se tivesse um encontro com um russo, para vender
informações sobre seu trabalho diplomático sob a direção
de Mr. Ashendem?
— Claro que não — espantou-se Lomax.
— E então? Gregoriev era idiota?
— Não... Mas... tudo isso é uma sujeira... Traidores
americanos, traidores russos, assassinatos... E os russos são
cínicos... Não esperam que aceitemos essas mentiras.
Devem saber que acabaremos compreendendo tudo, como
realmente aconteceu.
— Naturalmente. Sabem que nós sabemos.
— E vamos permitir que ajam à vontade? Assassinaram
três homens...
— Um pouco de guerra-fria e um pacto de silêncio.
— Um pouco de... Isso não pode ficar assim! Os
assassinatos.
— Assassinatos? — surpreendeu-se Pitzer. — Que
assassinatos?
— Dos nossos delegados!
— Delegados? De que está falando?
— De quê? — gritou Lomax. — Dessa nojeira de
espionagem!
— Espionagem? — sorriu Johnny, cinicamente.
— A noite está linda — disse Lili Connors.
— Seria melhor me levarem para casa — sugeriu Mr.
Ashendem, delicadamente. — Estava ouvindo música e
gostaria de continuar, já que nada aconteceu.
— Nada aconteceu? — vociferou o incrédulo Weston
Lomax. — Não é possível que vocês...
— Qual é seu compositor predileto, Mr. Ashendem? —
interessou-se “Baby”, enquanto Johnny dava partida ao
carro.
— Korsakov, sem dúvida. E o seu, senhorita Connors?
— Ainda não me decidi. Há tantos fabulosos... Korsakov
é um deles, naturalmente. Um de meus preferidos, sim, mas
adoro Albeniz e Tchaikovsky.
— Oh, Tchaikovsky... Quem não gosta dele? Um mestre
entre os mestres. Uma de minhas últimas aquisições
fonográficas.
— Santo Deus! — murmurou Weston Lomax, abismado.
— Para sempre seja louvado — acrescentou Lili
Connors.

CAPITULO QUINTO
Queriam impedir a saída para o campo...

— Bom-dia — sorriu a loura espetacular. Weston


Lomax, de pijama e roupão, ficou abismado, diante da
visitante. À luz do dia parecia mais bonita, mais jovem,
mais atraente. Uma maravilha!
— Senhorita Connors... Que faz aqui?
— No corredor?
— Oh! Oh, desculpe! Entre, por favor. Está tudo
desarrumado... Costumo ser mais organizado, mas...
— Não se preocupe — riu ela. — Ontem à noite, quando
nós o deixamos no vestíbulo, parecia esgotado. Logo, deve
ter levantado tarde. Além disso — olhou ao redor com uma
expressão aprovativa —, está exagerando. Tem um
apartamento bonito, limpo... Um diplomata não poderia
viver como um... espião. Como passou a noite?
— Muito mal — sussurrou Lomax. — Para dizer a
verdade, quase não consegui dormir. Essa história de
espionagem e os...
— O quê?
— Oh, claro! — sorriu Lomax, desanimado.
— Não aconteceu nada. Telefonei, há pouco, para Mister
Ashendem, pedindo para me dispensar do trabalho, hoje.
— Eu sei.
— Sabe? — espantou-se Lomax.
— Também falei com Mister Ashendem, esta manhã,
para informá-lo de uma porção de coisas. Ontem à noite,
enquanto vocês se retiravam, para descansar, nós, os
espiões, continuamos trabalhando. Para dizer a verdade,
ainda não dormi, até agora.
— Não diga! Parece tão... descansada, bem disposta...
— É uma das vantagens de ser tão bonita...
— De ser...? Oh, claro!
— Não me acha espetacular?
— Sim, sim, naturalmente — Lomax começou a rir. —
Acho sim, senhorita Connors, mas não estou habituado a
ouvir as próprias mulheres me dizerem que são lindas...
— Detesto a falsa modéstia, compreende?
— É claro... Bem, perdoe-me recebê-la assim. mas não
esperava visitas. Ainda não tomei banho... Que porção de
coisas tinha para dizer a Mr. Ashendem? Posso saber?
— Pode — suspirou Lili Connors, deixando-se cair
numa poltrona da sala de estar, com ar fatigado. — Vim,
expressamente, para lhe dizer e deixá-lo com a consciência
tranqüila.
— De que se trata? — perguntou Lomax, sentado em
outra poltrona e oferecendo cigarro a Brigitte.
— O mais importante — disse ela, soltando a primeira
baforada — refere-se aos russos. Tornei a telefonar para
Val, esta madrugada, e insisti que devemos agir com
prudência, no caso. Concordou comigo.
— Concordou? Então os russos não dirão nada? Vão
simular o acidente com Anatol Gregoriev...?
— Exatamente.
— Isso significa que eles sabem que estamos informados
de tudo e aceitamos as coisas como estão. Não queremos
saber de confusão, tal como eles planejaram?
— Realmente. Em espionagem, meu querido amigo, às
vezes ganhamos... às vezes perdemos. Desta vez, o pessoal
da CIA saiu perdendo. Tempos melhores virão.
— Claro... Que mais?
— Estivemos no apartamento de solteiro de Joseph
Karpis e foi o suficiente.
— Que quer dizer?
— Desistimos de revistar a casa de Robert Gaynor. Por
mais incrível que isso lhe pareça, tivemos este... gesto de
consideração para com a viúva e o órfão de Gaynor.
— A viúva e o órfão... — Lomax empalideceu.
— Não tinha pensado nisso?
— Não
— Pois nós pensamos. De qualquer modo, seria
desnecessário revistar a casa de Gaynor. Encontramos
algumas coisas no apartamento de Karpis.
— Que coisas? — perguntou Lomax, levantando-se.
— Um caderninho com um código. Neste momento,
deve estar sendo analisado na Central da CIA... e uma
câmara fotográfica escondida num relógio de pulso que
Karpis guardava no cofre. Confirmação completa: Karpis e
Gaynor trabalhavam juntos para os russos. Obtinham
microfotos com o reloginho e também informações orais,
que transmitiam com o código do caderninho... Bem, não
creio que se interesse em saber detalhes... e sim, os fatos.
Morreram dois traidores americanos e um russo. Foi pena
os russos terem percebido a jogada de Anatol Gregoriev.
Você perdeu a oportunidade de obter informações valiosas
do delegado soviético... e, para demonstrar sua boa fé,
Anatol diria que Karpis e Gaynor estavam trabalhando para
os russos.
— Compreendo... Sabe de uma coisa? Nunca mais
tomarei café com os russos, nos bares das Nações tinidas.
— Compreendo sua atitude. Bem... que tal irmos
embora?
— Para onde?
— Para o campo? Não gosta do campo?
— Sim... gosto...
— Não para um campo de golfe. Olhe, Weston, eu
compreendo seu estado de espírito. Por isso, quando Mr.
Ashendem me disse que não ia trabalhar hoje, resolvi ajudá-
lo a esquecer tudo isso. Vamos para o campo. Almoçaremos
por lá, jogaremos pedrinhas no rio, colheremos flores...
Precisamos aproveitar a primavera... e a vida.
— Não devia... incomodar-se, por minha causa.
— Não considero incômodo qualquer coisa que possa
fazer pelos meus amigos, Weston. Vamos, anime-se: flores,
ar puro, sol, um almoço especial, o rumorejar dos riachos...
— Não consegue convencer-me — riu Lomax.
— Já devia estar convencido — resmungou Lili
Connors, com graciosidade. — Que preciso fazer, ainda,
para convencê-lo? Beijá-lo?
— De todas as sugestões, essa foi a mais atraente — riu
o delegado americano. — Mas não exijo tanto sacrifício...
— Então... conforma-se com o campo?
— Exato. Visto-me em dois minutos. Com licença, sim?
— Naturalmente — murmurou Lili, levantando-se,
também, e abraçando-o pelo pescoço. — Quanto ao beijo...
não me parece um sacrifício....
Weston Lomax ficou petrificado, quando os lábios de
Lili se colaram aos seus. Mas logo reagiu. Aceitou o beijo e
enlaçou o corpo curvilíneo da espiã, sentindo-a vibrar
durante as carícias... Tinha a impressão de já estar no
campo... Sentia o perfume das flores, aspirava o ar puro e
ouvia o canto dos pássaros... Tudo isso, enquanto durou o
beijo.
— Foi sacrifício? — perguntou ela, suspirando ao
afastar-se dele, com os lábios trêmulos.
— Não — sussurrou Lomax.
— Então... podemos repetir a experiência...
Lomax tornou a apertar a cintura da pequena e saboreou,
mais uma vez, o gosto daqueles lábios vermelhos e macios,
como pétalas de uma flor exótica... Ela gemeu suavemente,
correspondendo ao beijo com tal doçura que os ouvidos de
Lomax começaram a zumbir, suas funções começaram a se
alterar... Apertou-a, ansioso, e murmurou com a voz
abafada:
— Se não formos depressa... não sairemos mais, Lili.
— Prefere o campo a ficar sozinho comigo? —
sussurrou ela.
— Prefiro... as duas coisas. Todas as espiãs são como
você?
— Oh, não — riu “Baby”. — Sou a pior de todas!
— É mesmo? Se é a pior, a partir deste momento só
quero lidar com espiãs... desse tipo.
Riram. Lomax beijou-a pelo pescoço e afastou-se,
sacudindo a cabeça.
— Vou me vestir. Considere-se em casa.
— Obrigada. Ah, Weston, como está seu carro?
— Meu carro? Bem. Por quê?
— Vim de táxi.
— Iremos no meu, é claro. Não me demoro.
Lili Connors sorriu. Mandou um beijinho com as pontas
dos dedos e tornou a sentar-se.
***
Quinze minutos depois, chegaram à garagem subterrânea
do edifício onde Lomax morava. Saíram do elevador, de
mãos dadas, e o delegado apontou o carro com a mão livre.
— É aquele. Lamento não ser conversível. Gostaria de
correr pelo campo, sentindo o perfume das flores com mais
intensidade.
— Não sei se seria adequado, para um carro com chapa
diplomática.
— Ora, os diplomatas também têm direito aos melhores
perfumes e às melhores flores, não acha?
Lili Connors ia responder, mas imobilizou-se ao ouvir o
motor de um carro próximo ser ligado. Olhou na direção do
ruído e enrugou a testa, aborrecida. Afinal, para dar partida
a um carro, não havia necessidade de fazer tanto barulho...
— Weston! — gritou, de repente. — No chão!
O diplomata ficou petrificado, sem entender a atitude da
espiã. Ao gritar, porém, Lili Connors o empurrou com
força, derrubando-o e caindo por cima dele, muito perto de
um dos carros ali estacionados e em cuja carroçaria foram
bater algumas das balas atiradas do veículo recém-posto em
marcha.
— Por aqui, por aqui — gritou Lili, arrastando-se e
levando consigo sua maleta vermelha.
Weston Lomax acompanhou-a rodeando o carro,
enquanto o outro dava a volta e se dirigia para eles, fazendo
a curva para a rampa de salda. Pôde ver o motorista
manejando o volante com a mão direita, enquanto a
esquerda empunhava um revólver. Na janelinha de trás,
outro homem, também armado, tornou a atirar. Lomax
gritou, vendo as balas atingir o carro, passando por cima de
sua cabeça. O motorista também atirou e a bala espatifou os
vidros do carro que servia de proteção.
Procurando proteger-se ainda mais, Lomax viu Lili
Connors tirar da maleta vermelha a pistolinha de cabo de
madrepérola, preparada para repelir a agressão. Nova rajada
de balas, porém, obrigou-a a continuar entrincheirada,
enquanto os pneus do carro inimigo cantaram na rampa de
subida. O motorista devia ter deixado de atirar e “Baby”
tentou novo contra-ataque. O da janelinha de trás não
descansou e as balas passaram raspando pela cabeça da
espiã, obrigando-a a encolher-se novamente.
Só achou prudente abandonar a trincheira quando o
carro desapareceu na rampa. Com um gesto de
aborrecimento, “Baby” desistiu de agir e abaixou-se, junto a
Lomax, perguntando:
— Você está bem?
— Sim... Acho... acho que sim... Mas não compreendo...
— Queriam matar-nos, é evidente. É melhor sairmos
daqui, antes que apareça algum curioso. Vamos para seu
carro, depressa.
— Não — gritou Lomax. — Podem estar à nossa espera,
lá em cima.
— É arriscado demais para eles — negou Lili. —
Devem estar se afastando daqui, a toda a velocidade.
Vamos.
— Não... não... não...
— Ora, deixe de ser criança, querido. Que está
querendo? Ver a polícia cair em cima de nós e nos obrigar a
uma porção de explicações? Precisamos dar o fora. Fizemos
um pacto de silêncio com os russos. Trate de reagir!
Segurou-o pelo braço, puxando-o com força, e
conseguiu obrigá-lo a levantar-se. Levou-o para o carro, no
momento exato em que um empregado descia correndo pela
rampa de acesso.
— Eu dirijo — disse Lili. — Dê-me as chaves. Vamos!
Entraram no carro e Lili deu a partida com tal violência
que o empregado recuou, colando-se à parede, para deixar o
veículo passar.
— O empregado está me chamando — gaguejou Lomax.
— Conhece meu carro... Vai avisar à polícia!
— Eu cuido disso.
— Mas não precisamos fugir. Podemos...
— Podemos e devemos é desaparecer daqui e nos
escondermos onde ninguém descubra.
O carro chegou à rua, com excesso de velocidade, e Lili
foi obrigada a diminuir a marcha, com uma freada seca. Em
poucos segundos estavam incorporados ao tráfego nova-
iorquino e Lili soltou um suspiro de alívio.
— Quer abrir minha maleta, por favor — pediu da.
Lomax colocou-a nos joelhos e abriu-a, olhando para
todos os lados, enquanto Lili observava a retaguarda, pelo
retrovisor.
— Parece que ninguém nos segue — disse, colocando a
pistolinha na maleta e pegando um maço de cigarros, de
onde tirou um e colocou entre os lábios, disposta a fumar;
mas não o acendeu. No fim de alguns segundos, uma voz de
homem fez-se ouvir por intermédio do maço.
— Pronto?
— Sou eu, Johnny.
— Oh, a divina espiã! — exclamou Johnny, satisfeito.
— Que aconteceu? As rosas já murcharam?
— Não é um chamado social, querido. Quiseram matar-
me há poucos minutos. Isto é, quiseram matar a mim e a
Lomax. Felizmente, percebi a tempo. Não sei como
conseguimos sair desta. Tio Charlie está aí?
— Sim, na loja. Quer que chame?
— Não. Posso dizer a você o que desejo, Johnny. Vão ao
edifício onde Lomax mora e resolvam tudo sem escândalo.
Talvez o empregado da garagem tenha chamado a polícia.
Dêem um jeito para o caso não se espalhar, combinado?
— Sem dúvida. Mas você...
— Continue ouvindo. Vi a chapa do carro do qual os
dois homens nos atacaram. Era um Dodge, número AXC
2936, de cor escura... Mande todos os agentes disponíveis
do setor procurar o carro, imediatamente. Se o encontrarem,
não façam nada. Avisem-me, apenas. Está claro?
— Sim, sim. Onde é que você estará?
— No campo.
— Onde?
— No campo. Mas poderei receber o chamado de vocês,
pois vou colocar o suplemento do rádio.
— Muito bem. Que vai fazer no campo?
— Esperar e... sentir o perfume das flores. Acha ruim?
— Acho formidável. Quanto mais longe estiver de Nova
Iorque, melhor poderemos agir... Olhe, há uma coisa que
não entendo, “Baby”. Quiseram matá-la?
— Exato. Bem, a Lomax e a mim.
— Sei...
— Por que diz sei, nesse tom?
— Você compreende, querida. Não precisamos de
explicações. Mais alguma coisa?
— Por enquanto, não. Até logo, Johnny.
Desligou o rádio, guardou-o na maleta e voltou-se para
Lomax, dizendo que podia fechá-la.
— Era a mim que queriam matar — murmurou, com
olhar fixo e muito pálido.
— Claro... Queriam matar a nós dois...
— Aos dois, não! Só a mim. E não me tome por um
idiota. Seu amigo Johnny também compreendeu... não foi?
— Bem... É possível, Weston. Em Nova Iorque ninguém
conhece minha identidade de espiã. Além disso, estou um
pouco disfarçada. Por que iriam querer matar-me? E, se
quisessem, não precisariam esperar-me na sua garagem.
Deviam estar à sua espera, meu querido. É o mais lógico,
não acha? Mas não fique preocupado. Darei um jeito nessa
confusão. Confie em mim.
— Queriam matar-me — murmurou Lomax. — Por
quê?
— Não sei. Mas garanto uma coisa: quando os espiões
saem para matar não é por um simples capricho. Há alguns
meio loucos, mas são poucos, felizmente. Devemos
imaginar que tinham motivos para desejar sua morte.
— Eram russos?
— Como posso saber? Seria absurdo... Val Titov e eu
fizemos um pacto de silêncio e isso acarreta uma série de
coisa.... Os russos? Ficaria surpresa vendo-os complicar a
situação...
— Mas... então... se... se não foram os russos?
— Não posso afirmar. Disse, apenas, que me parece uma
tolice e uma temeridade da parte dele.. Afinal de contas,
estão em território estrangeiro e o pessoal da CIA pode
estragar o jogo. É claro que não podem ter sido os russos!
Acalme-se. Vamos para o campo, como havíamos
projetado. Enquanto nos acalmamos meus companheiros
começarão a agir, garanto.

CAPITULO SEXTO
Dupla perseguição

Os agentes do Setor Nova Iorque, porém, não puderam


corresponder à confiança que “Baby” depositava neles. Pelo
menos, quanto à eficiência e rapidez. Às cinco da tarde,
ainda não a haviam chamado pelo rádio e Brigitte começava
a sentir-se inquieta, apesar da beleza e da tranqüilidade da
paisagem. Conforme haviam planejado, almoçaram num
restaurante pelo caminho, perto de Mount Kisco, e seguiram
depois, de carro, até Peekskill, à margem do rio Hudson,
onde ficaram apanhando sol e conversando. Diante deles,
do outro lado do rio, estendia-se a mancha verde do
Palisades International Park.
— Meus companheiros estão demorando a chamar —
disse Lili Connors, impaciente, consultando o reloginho de
pulso.
— Deve ser difícil encontrar um carro, em Nova Iorque
— murmurou Lomax.
— Para uma pessoa sozinha, sim. Mas não para a CIA.
Já deviam ter alguma noticia...
— Talvez tenham escondido o carro numa garagem ou
num estacionamento particular. Se isso aconteceu, seus
amigos estão perdendo tempo.
— Pode ser... Ei, Weston, está distraído?
— Estava pensando... Por que quiseram matar-me? Não
sou nada... Não represento coisa alguma...
— Engana-se, querido. Às vezes, ouvimos ou vemos
qualquer coisa, à qual não damos importância, mas que é
importante para outras pessoas. Por exemplo: você entra
num bar, senta-se ao balcão e dá urna olhadela ao redor,
pedindo um café. Nada mais simples, não acha?
— Claro.
— Não vê nada de especial. Quadros, um espelho,
garrafas, cadeiras, um telefone... e a cara dos outros
fregueses. Isso nada significa para você. Um dos fregueses,
porém, é uma pessoa que não devia estar ali. Talvez esteja
com uma mulher com quem não é casado ou falando com o
representante de uma empresa rival nos negócios...
Qualquer coisa. Essa pessoa, percebendo que você a viu,
fica aborrecida.
— Por quê?
— Porque você pode torná-la a vê-la, dois ou três dias
depois, em circunstâncias diferentes, e lembrar-se de tê-la
visto naquele bar, falando com alguém. Se fosse outra
mulher, você compreenderia, se o encontrasse ao lado da
esposa, por exemplo.
— Então devo ter visto ou sei qualquer coisa capaz de
comprometer uma pessoa?
— Na minha opinião, sim.
— Talvez você pense que sou um traidor, como Karpis e
Gaynor... e que, por isso, querem eliminar-me, antes da CIA
descobrir.
— Pensei, sim — admitiu “Baby”, rindo. —Mas afastei
tal idéia, querido. Se você fosse um traidor, a esta hora
estaria tão morto quanto Karpis ou Gaynor. Não teria
vivido, além das seis horas de ontem.
— Então como desconfia de mim?
— Não seja bobo — murmurou ela, com doçura. — Já
disse que pensei, mas afastei a idéia. Compreenda uma
coisa: eu precisava examinar todas as probabilidades. Sou
uma espiã, meu amor, e não uma datilógrafa ingênua e boa
que acredita em tudo. Tenho visto tanta coisa, nos últimos
dez anos, que só descanso quando tenho certeza absoluta.
Aprendi a fio confiar na sorte; a não confiar em nada e em
ninguém. É triste, concordo, quase desesperante mas, se não
fizesse isso, não estaria viva...
— Se desconfia de mim, não quero...
— Está ficando chato com essa ladainha — murmurou
ela, deitando a cabeça no peito dele e lhe acariciando os
cabelos. — E está estragando a tranqüilidade desta tarde tão
bonita.
— Se você acha...
Lili Connors não o deixou continuar. Uma vez mais seus
lábios colaram-se aos de Lomax. que foi obrigado a enlaçá-
la pela cintura.
Bip-bip-bip-bip-bip...
“Baby” separou-se, às pressas, de Lomax e sentou-se
tirando o rádio de bolso, do decote.
— Pronto? — exclamou.
— Alô — resmungou a voz de Johnny. — Não deve
estar muito satisfeita com nosso trabalho, hem?
— Nem sempre saímos ganhando — murmurou ela. —
Nada?
— Ainda não. O carro parece ter sido engolido pela
terra. Mas tenho uma coisa para lhe dizer... Depois pode me
xingar à vontade...
— Não costumo fazer essas coisas — respondeu a espiã,
enrugando a testa. — Fale de uma vez.
— Bem... Dirigi a procura do carro mas sem o menor
resultado. O resto, porém, ficou arranjado. Abafamos o
caso. Quanto a isso, pode ficar descansada. Há uma hora,
mais ou menos, achei conveniente dar uma olhadela no
apartamento do senhor Lomax...
— Para quê? — espantou-se Lili Connors, observando
Lomax, que ficou preocupado ao ouvir as palavras de
Johnny.
— Não sei. Palpite, talvez... ou por me sentir irritado.
Queria justificar o tempo... Fui para lá e encontrei... dois
microfones.
— Em meu apartamento? — exclamou Lomax,
empalidecendo.
— Ah, senhor Lomax! Está aí? Sim, em seu
apartamento.
— Não pode ser... É impossível...
— Por quê, senhor Lomax?
— Acalme-se — disse “Baby”. — Tudo deve ter uma
explicação mais tarde ou mais cedo Johnny: que tipo de
microfones? Russos?
— Não. Americanos.
— Está bem. Mais alguma coisa?
— Não.
— Continuem procurando o carro.
— Okay. Lamento não ter nada melhor para dizer,
“Baby”.
— Adeus.
“Baby” desligou o rádio e ficou pensativa, enquanto
Weston Lomax olhava para ela como se estivesse
hipnotizado.
— Não compreendo... Por que estão fazendo tudo isso
comigo?
— Precisamos ir embora — disse ela, de repente.
— Para onde?
— Para um lugar seguro, Weston. Não entendeu? Havia
microfones em seu apartamento. Alguém escutou nossa
conversa e sabe que estamos fora de Nova Iorque, no
campo... Por isso meus companheiros não encontraram o
carro. Enquanto procuram na cidade, o carro deve estar à
nossa procura, no campo.
— Quer dizer... — murmurou Weston Lomax, lívido.
— O campo é muito grande, querido. Talvez nunca mais
nos encontrem... prefiro levá-lo para um lugar mais seguro.
Do jeito que as coisas estão, é mais garantido ficar em Nova
Iorque. Tenho um esconderijo na cidade. Ninguém o
conhece e tenho usado pouquíssimas vezes. Vamos para lá e
agora mesmo. E farei mais — tornou a pegar o rádio. —
Johnny?
— Sim, “Baby”. Fale.
— Parem de procurar o carro, por enquanto. Venham
todos para a rodovia estatal número 9, o quanto antes.
Precisamos de escolta, para voltar a Nova Iorque.
— Voltar a...? Mas... Oh, como sou idiota! Os
microfones!
— Pare de se lamentar e cumpra minhas ordens.
— Imediatamente.
“Baby” guardou o rádio e levantou-se, apontando a
colina onde haviam deixado o carro. Chegaram, minutos
depois, arquejantes. A espiã observou os arredores, de
pistola em punho, mas não havia o menor perigo. O campo,
realmente, é muito grande...
— É melhor você dirigir — disse “Baby”. — Ficarei
preparada, para o caso de sermos atacados. Acalme-se. As
probabilidades de nos encontrarem são mínimas, querido.
Não fique nervoso e dirija com cuidado. Estarei vigilante.
Pouco depois, chegaram a Ossining, atravessaram a
cidadezinha e seguiram, em velocidade moderada, para o
sul para Nova Iorque, silenciosos e preocupados. “Baby”
olhava, seguidamente, para trás. Numa das vezes, contraiu a
fisionomia...
— Tenho a impressão de ver um carro nos seguindo —
murmurou. — Não tinha visto antes. Devia estar fora da
estrada. Mas não é o Dodge... é outro!... Não acelere!
Talvez seja, apenas, casualidade. Acalme-se, por favor,
Weston... Não! Acelere! Acelere!
Lomax soltou um grito e meteu o pé no acelerador. O
carro deu um pinote, correndo em disparada. Brigitte olhou
pelo espelho retrovisor. O outro carro também havia
aumentado a velocidade.
— Vão nos alcançar...
— Não. Seu carro é mais possante. Além disso, vou dar
uma lição, da qual nunca mais se esquecerão. Ou melhor,
vão esquecer logo, pois os mortos não guardam
recordações...
Tirou da maleta um pequeno tripé de alumínio. Encaixou
no suporte um objeto semelhante a um secador de cabelo e
introduziu pela abertura uma esfera metálica que tirou de
uru pote de crome facial. Baixou totalmente o vidro a seu
lado e debruçou-se para fora, apoiando o secador de cabelo
no ombro esquerdo... Os dois carros estavam correndo a
toda velocidade, tornando a pontaria mais difícil. Um
homem surgiu na janelinha do outro carro, de revólver na
mão.
Zuuuummm — ouviu Weston Lomax. Olhou,
instintivamente, pelo retrovisor, e viu tudo, com a maior
nitidez. Uma chama elevou-se diante do outro carro e
“Baby” soltou um palavrão, furiosa por ter errado o alvo. O
tiro, apesar de tudo, fez com que o carro perseguidor
derrapasse, para evitar o buraco aberto no asfalto, indo em
direção As árvores que margeavam a estrada. O motorista,
porém, conseguiu dominar o veículo e voltou ao centro da
pista. Tornou a perder o controle, freando de repente, e o
carro tombou para a margem da estrada, saindo da fita de
asfalto, e passou raspando por uma árvore, indo bater num
dos que vinham pela contramão.
— Tivemos sorte, apesar de tudo — exclamou Lili
Connors. — Diminua a velocidade.
— Devíamos...
— Diminua, já disse! Quer que a Patrulha Rodoviária
nos mande parar? Não precisamos correr desse jeito!
Lomax olhou, espantado, para aquela pequena
espetacular e inquietante. Num minuto, parecia a garota
mais suave do mundo e, de repente, se transformava,
enfrentando qualquer perigo, com o maior sangue-frio.
Diminuiu a velocidade e passou a mão pela testa empapada
de suor frio...
— Estou... sendo perseguido... Querem matar-me, de
qualquer jeito.
— Conseguiremos chegar ao meu esconderijo —
garantiu “Baby”. — Lá, ninguém nos encontrará. Enquanto
você estiver... Que foi? — exclamou ao ver o gesto de
pavor do diplomata.
— O Dodge! — gemeu Lomax. — O Dodge está ali,
atravessado na estrada.
— Passe pelo lado. Há espaço suficiente.
— Não posso... Não posso dominar o volante.
A colisão com o Dodge grená atravessado na estrada
parecia inevitável. “Baby”, porém, colocou o pé esquerdo
em cima do pé direito de Lomax, que estava freando, e o
ajudou. Os pneus chiaram no asfalto e o carro do delegado
americano parou a menos de dois metros do Dodge. Dois
homens surgiram na estrada, um de cada lado da pista, de
revólver em punho, prontos para atirar.
— Abaixe-se — gritou “Baby”.
A pistolinha de cabo de madrepérola passou raspando
pelo nariz de Lomax e emitiu um ruído abafado: plop... O
homem à esquerda do carro do delegado soltou um gemido
e pulou para trás, largando o revólver, enquanto Brigitte
“Baby” Montfort voltava-se, com uma velocidade incrível,
para a outra janelinha... O carro estremeceu, ao receber a
primeira bala do adversário da direita. Soltou um grito,
porém, ao ver o rosto da loura espetacular surgir na janela,
de pistolinha em punho.
Plof.
Outro grito, outro salto para trás: o segundo inimigo
desapareceu, rolando pela sarjeta.
— Marcha à ré! — gritou Brigitte. — Vamos, Weston,
marcha à ré!
— Não podemos... passar...
— Podemos, sim! Marcha à ré!
Weston Lomax obedeceu, cada vez mais pálido, com as
mãos crispadas. O carro com placa diplomática recuou, em
disparada, freou em seco e avançou, tentando passar pelo
espaço existente entre o Dodge e a beira da estrada. “Baby”
soltou uma exclamação de raiva e, passando o braço pela
frente do rosto de Lomax, tornou a atirar.
O primeiro inimigo do Dodge, que se levantava,
empunhando o revólver, tomou a gritar e levou as duas
mãos ao estômago, caindo de bruços. Weston Lomax
parecia uma estátua de gesso, rígido, crispado... mas
conseguiu passar pelo Dodge. Em seguida, pisou no
acelerador com vontade. Brigitte olhou para trás e pegou o
radinho de bolso.
— Johnny!
— Fale — responderam imediatamente.
— Fomos atacados duas vezes, na estrada. Devo ter
morto dois homens. Não tenho certeza. Mais para trás, nas
proximidades de Ossining, há um carro espatifado de
encontro a uma árvore... Os ocupantes não devem ter
sofrido coisa alguma, garanto... Recolham todos e levem
para onde possamos interrogá-los. E lembre-se: o pacto de
silêncio continua... por enquanto.
— Está bem... Você foi ferida... ou...?
— Não, não. Estamos bem. A que altura você está?
— Deixamos para trás os limites da cidade. Entramos na
rodovia número 9, há poucos minutos.
— Falta pouco para nos cruzarmos então. Mas não
parem! Continuem em direção aos carros e vejam se resta
alguém com vida. Precisamos deles. E, Johnny... não me
chame. Entrarei em contato com você quando tiver chegado
ao meu esconderijo.
— Adeus, Johnny — desligou o rádio e olhou para
Lomax, forçando um sorriso. — Viu só? Nem meu pessoal
conhece o esconderijo. Ninguém nos encontrará, se nos
deixarem chegar, é claro.

CAPITULO SETIMO
Abrigo seguro em plena Nova Iorque

Conseguiram chegar, Weston Lomax dirigira seguindo


as indicações de Lili Connors e não sabia onde estava, pois
não conhecia aquela parte da cidade. “Baby”, sim, conhecia
e muito bem. Mal o carro parou diante de uma porta que só
poderia ser de garagem, desceu e correu para ela, usando a
chave que havia tirado do fundo falso da maleta. A porta
levantou-se, numa só peça, e a espiã colocou-se de lado,
fazendo sinal a Lomax para avançar com o carro. Entrou e,
em seguida, tomou a acionar o comando elétrico; e a porta
desceu.
Escuridão total. Mas durou apenas alguns segundos. A
espiã acendeu a luz e aproximou-se do carro, Inclinando-se,
para observar Lomax, imóvel, com os olhos arregalados,
segurando o volante com as mãos crispadas.
— Chegamos — sorriu ela.
— Onde estamos? — perguntou ele, voltando a cabeça
para Lili e passando a língua pelos lábios secos.
— Não interessa. Venha, vamos tomar qualquer coisa...
Deve estar com a garganta seca.
Ela mesma abriu a porta para Lomax sair. Apagou as
luzes, depois de acender as de um longo e estreito corredor.
Apagou-as, também, quando abriu a porta do fundo.
Entraram numa sala ampla, bem mobiliada, com tapetes,
livros, televisão, vitrola, telefone, bar...
— Não imagina o privilégio que a agente “Baby” acaba
de lhe conceder, trazendo-o para cá... Nem meus amigos
mais íntimos conhecem este lugar, querido.
— Quem morava aqui?
Ninguém. Venho para cá, quando não quero ser
localizada. Que vai beber? Mmm... A ocasião merece uma
garrafa de champanha Dom Perignon 1955.
— Oh! Excelente. E não custa barato.
— Não costumo usar coisas baratas — sorriu a divina
espiã. — A não ser, quando é necessário. Mas o Perignon
sai muito barato, para mim. Um amigo de Paris me manda
seis caixas, de três em três meses. Foi um pacto, o preço por
certos serviços prestados2.
— Que serviços?

2
ver MOMENTO DECISIVO, número 149 desta coleção.
— Resolvi um probleminha para ele. O espião dele
estava sempre sendo esperado e isso não era bom. Assunto
liquidado e esquecido... ou quase. Gosta com cerejas?
— O quê?
— O champanha — Brigitte colocou-se diante dele,
enrugando graciosamente a testa. — Que é que há com
você? Parece alucinado, meu amor.
— Desculpe. Não estou acostumado a ser perseguido. É
horrível... Você não parece impressionada...
— Se contasse minha vida, você ficaria de cabelos
brancos — riu Brigitte. — Mas esqueça isso e vamos
saborear nosso champanha. Com cerejas. Que tal um pouco
de música?
— Não sei se poderei apreciar — murmurou Lomax. —
Mas estou gostando de seus esforços para me acalmar. Não
sou covarde, Lili, mas...
— Compreendo — disse ela, enlaçando o delegado pela
cintura. — É preciso nos acostumarmos a tudo. Talvez, aí,
você saiba enfrentar a situação. Não é fácil nos
acostumarmos com a idéia de que um cara nos persegue,
disposto a acabar com nossa vida... Não é fácil... Não pense
mais, por favor, Weston. Tratemos de descansar ....
esquecer tudo isso.
— Está bem... Obrigado, Lili.
Ela o beijou na boca, mas afastou-se logo, exclamando:
— Ia me esquecendo o champanha!
Foi para o bar, rindo, e tirou uma garrafa com cuidado e
colocou as taças na curva do bar. Arruinou tudo numa
bandeja e olhou para Lomax, dizendo:
— Sente-se no sofá. Eu sirvo.
— Não vai chamar seu amigo Johnny?
— Às seis e meia. Vamos dar um pouco de tempo ao
coitado. Chamarei às sete horas.
— Por que esperar?
— Porque estou com sede — riu a divina.
***
— Johnny?
— Ah, “Baby”! Esperava sua chamada antes...
— São sete em ponto. A esta hora, segundo meus
cálculos, já deve ter respostas para minhas perguntas.
Acertei?
— Sim... Bem, há noticias boas e más. As boas:
conseguimos controlar a situação. O pacto de silêncio
prossegue inalterável. Ah, pegamos um dos ocupantes do
Dodge, vivo!
— Ótimo! — exclamou a espiã. — Formidável, Johnny!
E... quais são as más notícias?
— O outro cara do Dodge está morto. Quanto aos do
segundo. carro, escaparam todos. Mas ficamos com o carro
e já estamos investigando.
— Excelente trabalho! Embora fosse mais fácil
interrogar o sujeito que agarraram, não concorda?
— Sim, mas ainda está sem sentidos. Um de nossos
médicos cuida dele. Parece não ser coisa grave. Viverá.
— Azar o dele. Quando poderemos interrogá-lo?
— Não sei. Um momento, vou perguntar ao médico —
houve uma pausa de dez minutos e a voz de Johnny tomou a
ser ouvida: — Ainda esta noite, segundo informações do
doutor, o sujeito estará em condições de falar.
— Não diga?! Mais uma boa notícia.
— Que devemos fazer? Apertamos as cravelhas do
camarada?
— Não... Deixem comigo. Onde estão?
— Subsetor 12-21.
— Perfeito. Estarei aí, dentro de meia hora, no máximo.
Até logo, Johnny.
Brigitte desligou o rádio e ficou pensativa, segurando a
taça de champanha com a outra mão. Sorriu de repente,
guardou o rádio e tomou o último gole. Olhou para Lomax
que, por sua vez, a observava fixamente.
— Vamos ao tal lugar chamado subsetor 12-21? —
perguntou ele.
— Você, não.
— Vai deixar-me aqui, sozinho?
— Tem medo? — riu ela.
— Não... Não é isso... Estou ficando acostumado... Mas
que vou fazer?
— Descanse. Tem tudo aqui, Lomax. Deixarei meu
rádio sobressalente. Se acontecer alguma coisa, chame
imediatamente... Mas nada acontecerá. Fique aqui e não
telefone para ninguém, dizendo onde está...
— Como poderia dizer, se nem eu mesmo sei?
— É melhor assim — tornou ela a rir. — Não estamos
metidos numa brincadeira, querido. Ponha isso na cabeça.
Estão à sua procura, para matá-lo; logo, é melhor ficar aqui,
quietinho, e não entrar em contato com ninguém... Só
comigo, pelo rádio, em caso de absoluta necessidade. Esta
claro, Weston?
— Sim...
— Então vou sair. Posso usar seu carro?
— Naturalmente. Mas... talvez seja perigoso para você...
— Isso não me preocupa. Volto logo.
Encaminhou-se para a porta à direita do bar e
desapareceu do outro lado, tornando a fechá-la. Weston
Lomax ficou pensativo, profundamente preocupado.
Sacudiu a cabeça, como se quisesse afastar pensamentos
sombrios, e encheu a taça com o resto do champanha.
Olhou para o pote com cerejas e sorriu... O sorriso, porém,
durou pouco.
— Por quê? — murmurou, intrigado. — Por quê?
Seis ou sete minutos depois, quando a porta por onde
“Baby” havia desaparecido tornou a abrir-se, Weston
Lomax assustou-se, pulando da poltrona, ao ver à sua frente
uma velhinha elegante, de cabelos brancos, apoiada a uma
bengala de castão de prata.
— Mais calmo? — perguntou a velha, com. a voz de Lili
Connors. — Sou eu, querido.
— Mas... é inacreditável...
— Mas não impossível. É um de meus disfarces
favoritos. Sabe por que, meu rapaz?
— Por que? — murmurou Lomax, sendo obrigado a
sorrir.
— Porque todo mundo trata bem às velhinhas. Ajudam a
atravessar a rua, dão lugares nos ônibus, são amáveis com
elas... De modo geral, é assim. Outra coisa: quem pode
imaginar que uma velha que mal se agüenta de pé faça isso?
Ao pronunciar a última palavra, a velhinha deu um pulo
para cima, colocando a bengala em posição horizontal e,
tirando da mesma uma longa lâmina de aço, encostou-a na
garganta de Lomax.
Weston Lomax empalideceu mais uma vez e ficou
imóvel, com a respiração suspensa.
A velhinha afastou a ponta do estoque e tornou a guardá-
lo na bainha formada pela bengala.
— Weston... — sussurrou. — Por favor, não se esqueça:
nada de querer sair, nada de telefonemas... Sim?
— Sim — disse ele, engolindo em seco. —Descanse...
— Até logo... Oh, não se importa de beijar uma velha?
Lomax estava tão impressionado que não conseguiu
mover-se. Foi ela quem o beijou. Depois, pegando a maleta,
meteu-a num forro de veludo negro, escondendo a cor
original, e dirigiu-se para a porta do corredor.
— Pensando bem... — decidiu, voltando-se, antes de
sair. — Não usarei seu carro. Não devemos correr o menor
risco, quando podemos evitar. Au revoir, Monsieur.

CAPITULO OITAVO
Alfaiataria de alta classe

Henry Chiw desligou o telefone de sua alfaiataria em


Mulberry Street, Chinatown, o Bairro Chinês de Nova
Iorque, e ficou contemplando a própria imagem no espelho
onde os fregueses elegantes se admiravam, quando vinham
experimentar os ternos.
— Mau negócio! — murmurou Chiw. — Muito mau!
Não podiam ter feito isso, sem ordem minha... Estou
cercado por um bando de cretinos...
Olhou ao redor, vendo na loja apenas seu auxiliar de
confiança, o velho Tin Siu. Os outros alfaiates já tinham ido
embora. Tin Siu nunca tinha pressa de sair, porque morava
sozinho e sentia-se melhor enquanto estava na alfaiaria...
Henry Chiw tornou a pegar o fone, discou um número e
esperou que atendessem.
— É você, Lukas? — perguntou Chiw.
— ...
— Shearer está aí?
— ...
— Venham, imediatamente, para a loja... Não usem a
porta da frente... Explicarei depois. Não é assunto para se
falar pelo telefone... embora haja imbecis que façam isso.
Entrem pela porta do beco. Não precisam bater. Estarei
esperando.
— Já disse que venham e pronto. Agora mesmo.
Refletiu um instante, depois de desligar, e chamou o
velho empregado.
— Tin Siu...
— Que é, Henry? — respondeu o ancião, parando de
arrumar os ternos nos cabides.
— Preciso resolver uns problemas, no escritório. Você
se importa de ficar mais alguns minutos, enquanto acabo?
— Claro que não, Henry.
— Receberá comissão dobrada se vender algum terno, a
esta hora — sorriu Chiw, com amabilidade.
— Oh, obrigado, Henry! Não fico por causa disso. Gosto
de estar na loja...
— Eu sei... eu sei... Mmm... Ah, Tin Siu, talvez apareça
uma senhora de cabelos brancos, de óculos, querendo
comprar qualquer coisa... Usa bengala e é muito elegante.
Se aparecer, diga que estou no Joe’s, tomando café...
— Vai tomar café?
— Não. Vou para meu gabinete, lá dentro. Preste
atenção, Tin Siu: você dirá que estou no Joe’s, mas não é
verdade. Diga que vai me chamar e saia da loja. Dê a volta
pelo beco, entre pela porta de serviço e me avise. Entendeu?
— Sim, Henry.
— Outra coisa: se a senhora chegar com vários homens
ou se vierem vários homens, sem a senhora, desligue este
telefone. Só isso.
— Não falo nada para você?
— Não. Quando pegar o fone, eu ouvirei o ruído lá da
extensão do escritório e ficarei sabendo que só vieram os
cavalheiros.
Henry Chiw encaminhou-se para os fundos da loja, onde
ficavam a oficina e o depósito cheio de peças de tecido. Os
manequins estavam com os ternos em execução. Sem
acender a luz, pois conhecia a loja centímetro por
centímetro, Henry Chiw chegou ao seu gabinete, de onde
podia vigiar a oficina, ou sair, sem ser visto, usando a porta
do beco.
— Não acredito que nada disso vá acontecer —
murmurou, pensando na dama de cabelos brancos. — Mas é
melhor estar prevenido. Os outros não pensam... eu, porém,
penso demais... Pensar é bom...
Entrou no gabinete, sentou-se à sua mesa e acendeu um
cigarro, pensativo. Consultou o relógio duas vezes e, seis ou
sete minutos depois, levantou-se e foi para junto da porta de
serviço, por onde entravam e safam os empregados. Ficou
olhando pela fresta e, segundos depois, abriu a porta, dando
entrada a dois homens. Levou-os para o gabinete,
acomodou-se em seu lugar e indicou duas poltronas aos
recém-chegados.
— Que está acontecendo — perguntou Lukas.
— Vocês tentaram matar Weston Lomax?
Lukas e Shearer trocaram um olhar e o último disse,
irritado:
— Você nos ordenou, por acaso?
— Eu, não.
— Então por que iríamos fazer isso? Já trabalhamos,
ontem.
— Sim — sorriu Chiw, inexpressivamente. — E fizeram
um bom serviço, matando os dois americanos e o russo.
— Sempre trabalhamos bem — afirmou Lukas. — Está
acontecendo algum... imprevisto?
— Sim — Chiw coçou a nuca. — Mas não consigo
entender direito. Só vocês dois trabalham para mim nesse
caso e se não foram vocês... que tentaram matar Weston
Lomax... quem foi? E por quê?
— Não sabemos, Chiw. Você nos paga para liquidarmos
alguém, de vez em quando. Cumprimos suas ordens e ai se
encerra nossa participação... Portanto, não venha com
perguntas idiotas. Somos assassinos profissionais e é só.
Henry Chiw tornou a ficar pensativo o Shearer
resmungou, no fim de alguns segundos:
— Diga alguma coisa... Tem algum trabalho para nós ou
podemos ir embora?
— Não... Fiquem. Preciso de vocês. Vão acompanhar-
me a um. lugar. Estão armados?
— Naturalmente. Quando você nos chama, pegamos os
revólveres, porque só nos telefona quando há trabalho.
— Desta vez, será fácil... espero. Fiquem aí, enquanto
pego umas coisas. Iremos no meu carro.
— Muito bem — disse Lukas, dando de ombros.
Shearer não se deu ao trabalho de responder. Acendeu
um cigarro e esticou as pernas, observando Henry Chiw. O
chinês abriu o cofre, mas não tirou nada de dentro. Meteu a
mão e retirou-a, tornando a fechar o cofre. Foi até a outra
parede e apertou qualquer coisa, no chão, com a ponta do
pé. Lukas e Shearer foram obrigados a abandonar a atitude
indiferente, mantida até então. Ouviram um ruído muito
leve e um pedaço da parede afastou-se, deixando à vista
uma pequena abertura.
Os dois assassinos se entreolharam, compreendendo que
o maquinismo para abrir aquele cofre não estava no cofre.
Chiw meteu a mão no buraco aberto na parede e de lá
retirou as caixas metálicas onde guardava seu arquivo
organizado com tanta cautela... e com tanto dinheiro
enviado da China. Naquelas caixas estavam os microfilmes,
os dispositivos e uma lista de nomes de diversas
nacionalidades. Nomes de diplomatas de vários países que,
por dinheiro, trabalhavam para Henry Chiw ou que haviam
trabalhado, antes de se afastarem de seus cargos nas Nações
Unidas. Mesmo depois de afastados da ativa, o chinês
mantinha contato com eles, obrigando-os a continuar o
trabalho em favor da China...
Um excelente arquivo, com os nomes de traidores do
mundo inteiro, organizado por Henry Chiw. Subornava os
delegados, enquanto serviam em Nova Iorque, e, assim,
semanalmente, enviava informações para a China, a fim de
ajudá-la a conseguir seu ingresso nas Nações Unidas. O
serviço secreto chinês devia muito ao modesto alfaiate sino-
americano... que, por causa da imprudência de um de seus
colaboradores, estava vendo em perigo todo o seu trabalho.
Precisava, portanto, colocar o arquivo em segurança. Levá-
lo para o chefe, residente em New Haven, e ficar em
expectativa.
Se tais precauções fossem desnecessárias... se tudo não
passasse de um alarma falso... melhor. Poderia voltar e
prosseguir, tranqüilamente, com seu trabalho.
Enquanto Henry Chiw recolhia, cuidadosamente, seu
arquivo, na loja, o velho Tin Siu atendia um freguês. Ou
melhor, uma freguesa. Entrara sozinha, muito sorridente,
bonita, simpática, jovem... Espetacular. Não. Aquela
pequena de olhos azuis e cabelos escuros e compridos não
podia ser catalogada como uma anciã.
— Boa-noite — disse ela, com amabilidade.
— É o senhor Chiw?
— Não, senhorita. Sou empregado dele. O mais antigo.
Mas... só vendemos roupas para cavalheiros...
— Oh, eu sei! — riu ela, mais encantadora que nunca.
— Quero dar um terno a meu marido e um amigo me falou
na alfaiataria do senhor Chiw. Garantiu que ele é um
gênio... É mesmo?
— É muito bom alfaiate — concordou Tin Siu. — Mas
não a ponto de fazer um terno para seu marido, sem tomar
as medidas.
— Trouxe tudo anotado. Pedi ao alfaiate onde ele
costuma vestir-se. Quero fazer uma surpresa para meu
marido, compreende? Há o inconveniente do senhor Chiw
não poder fazer as provas... mas saberá contornar o
problema, sem dúvida. Ele não está?
— Bem... está ocupado, no momento, resolvendo um
negócio, no gabinete... De qualquer modo — Tin Siu
aproximou-se do telefone — vou avisá-lo.
A bela freguesa colocou a mão diante dos olhos do velho
chinês... Olhos que se arregalaram muito quando viram a
pistola apontada por aqueles dedos delirados.
— Não se incomode — sorriu a divina. — Também
quero fazer uma surpresa ao senhor Chiw.
— É... um assalto? — murmurou Tin Siu, abrindo mais
os olhos.
— Mais ou menos. Você é um velhinho simpático e não
deve ter nada com isso. Logo, não complique sua vida.
Volte-se.
Tin Siu obedeceu, assustado. Era pobre e vivia sozinho,
mas tinha amor à vida. Mal deu as costas para Brigitte
Montfort, esta colocou a mão esquerda no pescoço do
chinês, com os dedos voltados para baixo. Uma leve pressão
foi o bastante para o velho Tio Siu cair no chão, sem
sentidos... puxando o fone do gancho, num movimento
involuntário.

CAPITULO NONO
Um presentinho para os russos

Henry Chiw ia fechar a pasta com o arquivo, quando o


telefone fez um leve ruído, indicando que alguém mexera
na extensão da loja. O chinês voltou-se para o aparelho,
com uma expressão de alarma alterando suas feições
orientais. Levantou-se de um salto e murmurou:
— Vamos... Depressa! E preparem as armas. Vejam se
há alguém lá fora..
Lukas e Shearer, profissionais cem por cento,
compreenderam o que o cliente esperava deles. Chiw não
acabara de dar as ordens e já estavam de revólveres em
punho. Saíram correndo do gabinete, seguidos pelo alfaiate,
dirigindo-se para a porta que dava para o beco.
Lukas foi o primeiro a chegar. Abriu-a com um
empurrão, olhou para os dois lados e informou:
— Podemos ir!
Saiu na frente, seguido por Shearer, deixando o chinês
por último. Henry Chiw ainda não tinha posto os pés na rua,
quando uma voz firme soou à retaguarda dos fugitivos:
— Não se mexam....
Lukas não obedeceu às ordens. Tinha um revólver na
mão e, armado, sentia-se capaz de qualquer coisa. Voltou-
se, levantando a arma, e pôde ver duas chispas de fogo,
seguidas dos tiros silenciosos: plop, plop, plop, plop... A
cada tiro, Lukas recebia uma bala que o fazia recuar,
estremecer, vibrar... até cair de bruços, morto, no meio da
calçada...
Shearer também não teve sorte, Correu para junto do
companheiro, compreendendo que ia morrer se não se
afastasse, com rapidez. Quis render-se, quis gritar para não
atirarem, mas...
Uma porção de homens surgiu na rua e os tiros ecoaram
novamente. A cada um deles, Shearer estremeceu, pulou,
recuou, até cair no meio fio, tão morto quanto suas vítimas.
Henry Chiw foi o único que conseguiu frear a corrida
para a porta. Desviou o corpo, no último instante, colando-
se à parede. Deu meia-volta e seguiu em direção à loja. Por
lá, talvez conseguisse sair. Era uma possibilidade remota,
mas devia tentar. Teve sorte. Não encontrou homem algum
na oficina e sim uma mulher. Uma mulher jovem e bonita,
sem a menor semelhança com uma velhinha de cabelos
brancos.
— Quieto, Chiw!
Uma idéia passou pela cabeça do chinês: estava diante
de uma mulher... podia vencê-la em poucos segundos e
fugir... Atirou a pasta em cima dela, com toda a força. A
mulher soltou uma exclamação e novos tiros ecoaram pela
oficina. A bala acertou a pasta, uma fração de segundo antes
de chocar-se contra a mão da desconhecida. A pasta e a
pistolinha caíram no chão e Chiw completou o contra-
ataque, com um pontapé dirigido ao ventre da adversária.
As mãos dela desceram, frenéticas, cruzando-se sobre o
local atingido, aparando o golpe que a teria derrubado, caso
não tivesse os músculos do ventre tão bem treinados pela
prática do judô.
Suportando o golpe, a mulher teve reflexo suficiente
para agarrar o tornozelo do chinês, segurando-o com
firmeza, enquanto com a perna esquerda deu-lhe uma
rasteira, numa impecável demonstração de uchi gari.
Resultado: Henry Chiw caiu de costas, batendo com a
cabeça no chão.
— Afaste-se, “Baby” — disse uma voz, vinda dos
fundos da oficina. — Vamos.
— Não atirem, Johnny. Eu o quero vivo!
Frase perfeitamente compreensível para Henry Chiw,
que não estava disposto a enfrentar a morte. Levantou-se de
um salto, acertando um murro horripilante no rosto da espiã
mais perigosa do mundo... “Baby” afastou-se, como uma
porta que se abre, num perfeito taisabaki. Segurou o pulso
do chinês, com a maior facilidade. Girou, colocando o braço
do adversário sob a axila, com o cotovelo voltado para
cima, e deu um puxão no pulso, levantando-o para o queixo.
Henry Chiw soltou um gemido quando o waki gatame
quebrou seu braço em dois lugares, como se fosse um palito
de fósforo... Era demais para ele. Demais para qualquer um.
Caiu de joelhos, quase desmaiado, e sua má sorte se
completou: ao apoiar as mãos, uma delas pousou na
pistolinha usada pela espiã, segundos antes. Um grito de
alegria saiu da garganta de Chiw, enquanto seus dedos se
fechavam, empunhando a arma. Levantou-a, voltando-se
para aquela mulher assustadora...
Por um instante, por um milésimo de segundo, Henry
Chiw estava certo de que ia matá-la. No milésimo de
segundo seguinte, porém, o pé de “Baby” acertou a cabeça
do chinês, derrubando-o, definitivamente, de costas, no
momento exato em que a luz da oficina se acendeu.
Vários homens apontaram as armas para Chiw, mas este
não se mexeu. Um deles ajoelhou-se, para examinar o
chinês. Não demorou muito. Voltando a cabeça para
“Baby”, murmurou:
— Morto.
— Falta de sorte — resmungou Brigitte. — Como foram
as coisas, pelo outro lado?
— Matamos dois homens.
— Tragam para cá, fechem as portas e revistem toda a
casa... Com cuidado, rapazes. Você, Johnny, venha comigo
e traga isso.
Johnny de Nova Iorque, o simpático espião da casa de
flores que sempre presenteava “Baby” com rosas
vermelhas, pegou a pasta de Henry Chiw e foi para o
gabinete do chinês, seguindo a pessoa a quem mais
admirava no mundo.
A pessoa sentou-se na cadeira de Chiw e apontou a
mesa, dizendo:
— Ponha aí. Vamos ver o que contém.
***
Oleg Mavitchian ficou alguns segundos observando a
cabana do Vila Motel e, voltando-se para o companheiro a
seu lado, no carro, murmurou:
— Não estou gostando, Val.
— Pare com isso, Oleg. Se “Baby” quisesse matar-nos,
não iria marcar encontro aqui. Já nos conhece. Sabe que não
podemos enganá-la e sabe que pertencemos ao MVD. Não é
uma armadilha.
— Os arredores devem estar cheios de agentes da CIA.
— Claro. Nós faríamos o mesmo. Bem, vamos para lá.
— Qual... essa história de ir desarmado para a cabana...
Val Titov não deu resposta. Sacou o revólver e guardou
no porta-luvas. Estendeu a mão ao companheiro que, com
um grunhido, lhe entregou a arma. Saíram do carro e foram
para a cabana número 10. Subiram os degraus da varanda e
iam bater à porta... mas esta abriu-se, antes do tempo.
— Boa-noite, Val... Oleg... — sorriu a loura espetacular,
com um brilho diferente nos olhos verdes. — Obrigada por
terem vindo. Entrem.
— Está sozinha? — perguntou Titov, entrando com
Oleg, que olhava, inquieto, para todos os lados.
— Aparentemente — tornou a sorrir Brigitte Montfort.
— Sentemo-nos para conversar. Qual dos dois me oferece
um cigarro?
Val Titov, com um sorriso sombrio, ofereceu os seus.
“Baby” tirou um, acendeu e apontou o sofá, onde os russos
se sentaram.
— Não nos engana — disse Oleg. — Isto aqui está cheio
de amiguinhos seus...
— Apenas os imprescindíveis — riu ela. — Insisti para
só nos trás estaríamos presentes, mas não consentiram. Por
que será que todos gostam tanto de mim?
— Devem ter suas razões — comentou Titov.
— Então de que se trata?
— Estão armados?
— Deixamos no carro.
— Okay. Tenho um presentinho para vocês.
Pegou a maleta vermelha, colocou-a sobre os joelhos
alucinantes e, de dentro dela, tirou um gravador. Entregou-o
aos russos, juntamente com um cartão. Oleg apressou-se a
ler.
A agente ““Baby”” da CIA tem o desgosto de
comunicar ao MVD soviético a existência de
traidores em seu corpo diplomático nas Nações
Unidas. Informa, também, os nomes de delegados
afastados do serviço ativo da ONU, mas que
continuam colaborando com o serviço secreto
chinês.
Esta comunicação é idêntica à recebida por
outros países, a respeito de seus diplomatas
traidores, e é absolutamente verdadeira e
fidedigna. É mais uma gentileza de sua colega.
“Baby”
(A relação dos nomes está no verso) Saudações.

Os dois russos, muito pálidos, examinaram o verso do


cartão e, à medida que iam lendo os nomes ali escritos, num
total de oito, sua palidez ia aumentando, até transformar-se
numa brancura cadavérica.
— Como conseguiu esta informação? — perguntou Val
Titov, guardando o cartão.
— No arquivo de um chinês.
— Muito bem... Mas que tem tudo isso a ver com a
morte de Anatol Gregoriev?
— Devem ter observado que o nome de Gregoriev não
figura na lista, pela simples razão de que ele não era um
traidor. E a prova é que os informou do encontro a realizar-
se neste motel. Vocês, pelo jeito, receberam o bilhete antes
do tempo previsto por Gregoriev e vieram na frente, para
ver o que estava acontecendo. Não foi assim?
— Sim, já lhe disse — rosnou Titov.
— Insistiu nisso, em seu segundo telefonema, naquela
madrugada. Acreditei em você, Val. Se não estava mentindo
Anatol Gregoriev não tinha motivos para enganar vocês.
Logo, Lomax marcara encontro com ele, aqui. O americano
negou, categoricamente, é lógico, pois Gregoriev estava
morto e não poderia desmenti-lo.
— Compreendo. Mas por que Lomax marcou encontro
com Gregoriev?
— Para matá-lo.
— Por quê?
— No começo, eu também fiquei meio desorientada.
Depois de ouvir certa explicação de meu chefe, porém, foi
que cheguei a essa conclusão e disse comigo mesma:
“Baby”, queridinha, desde quando o lógico é, ao mesmo
tempo, a verdade? Era tudo tão lógico que a CIA devia
pensar: Robert Gaynor e Joseph Karpis estavam traindo os
Estados Unidos. Anatol Gregoriev ia tornar-se traidor da
Rússia e seu primeiro passo seria denunciar os traidores
americanos à CIA ou a Lomax, com quem marcara
encontro. Vocês, russos, que deveriam estar vigiando
Gregoriev, ficaram sabendo de tudo. Resolveram, primeiro,
eliminar Karpis e Gaynor, evitando que comprometessem
algum russo, caso a CIA os agarrasse. Mataram, em
seguida, o traidor Anatol Gregoriev, aproveitando a
circunstância do encontro com Lomax, para comprometer
os americanos, acusando-os dos três assassinatos. Freavam,
assim, nossas investigações e acusações. Era tão lógico que
só podia ser falso. Mr. Ashendem, diplomata cujo nome
devem conhecer.
— Conhecemos muito bem. Que tem ele?
— Um momento, por favor. Mr. Ashendem sabia, com
certeza, que alguém estava roubando informações do
departamento dele. Não sabia quem era, exatamente. Deu a
entender, porém, que estava disposto a descobrir o traidor...
— Quem é?
— Calminha... Daqui a pouco ele vai aparecer ali, na
porta do quarto, empurrado por um de meus companheiros.
Mas vamos analisar o caso. Como eu estava dizendo, o
traidor assustou-se e tratou de se comunicar com o chinês
que pagava pelas informações.
— Um momento. Os traidores não eram Karpis e
Gaynor?
— Não — disse Brigitte, empalidecendo. — A verdade é
outra. Foram, como Gregoriev, vítimas de um plano. Plano
que vou explicar agora mesmo. O chinês devia apreciar os
serviços do traidor e resolveu conservá-lo, em lugar de
eliminá-lo, evitando comprometer-se. Muito bem. O traidor
chamou Gregoriev e marcou encontro aqui, às nove da
noite. Karpis e Gaynor foram levados para fora da cidade,
às seis, sendo eliminados e abandonados num lugar deserto
onde, porém, seriam encontrados sem grandes dificuldades.
A morte dos dois e a de Gregoriev nos levaram a uma
solução... Sabemos, agora, que era uma solução falsa. O
plano era o seguinte: enquanto nos conformávamos,
aceitando tal solução, o traidor continuaria vivo e disposto a
prosseguir no trabalho para o chinês.
— Bom plano — murmurou Oleg.
— Sim. Mas lógico demais — sorriu Brigitte,
secamente. — Pelo menos, para mim. Pensei, então, que
alguém estava, realmente, roubando informações dos
documentos de Mr. Ashendem, mas... por que deveriam ser
Karpis e Gaynor? Podia ser outra pessoa, inteligente, bem
apoiada... Qual a pessoa envolvida no caso que continuava
com vida?
— Lomax — exclamou Val Titov.
— Exato. Ele, porém, sabia que tudo saíra bem. Logo,
seria difícil fazê-lo confessar. Então eu pensei: Querida, por
que não assusta um pouco nosso amiguinho Lomax?
— Assusta-lo? Como?
— Depois de deixar Weston em casa, eu e meus
companheiros ficamos três horas sentados... antes de lhes
telefonar pela segunda vez. Fui visitar Lomax, esta manhã.
Mostrei-me carinhosa com ele... até começarem a nos
atacar.
— Quem?
— Meus rapazes — sorriu “Baby”. — Passamos o dia
representando uma série de agressões... Fomos atacados na
garagem, na estrada, puseram microfones no apartamento
de Lomax... Estiveram. muito bem... representando cenas de
morte, quando minhas balas passaram por cima da cabeça
deles... espatifaram um carro, de encontro a uma árvore...
Preciso dar um prêmio aos meninos, pela comédia tão bem
interpretada... Atuação magnífica, acreditem.
— Qual era o objetivo de tudo isso? — perguntou Val
Titov.
— Assustar Weston Lomax. Ele sabia, perfeitamente,
que nem a CIA nem os russos tinham motivos para matá-lo.
Quem sobrava? O chinês, naturalmente. Talvez tivesse
resolvido eliminá-lo, por estar preocupado com sua captura
pela CIA. Consegui convencer Lomax de que o amava... e
de que o chefe chinês estava disposto a acabar com ele.
Quando vi que estava convencido, levei-o para certo lugar,
garantindo que estaria seguro, e recomendei que não
telefonasse para pessoa alguma.
— E ele telefonou — exclamou Oleg Mavitchian.
“Baby” tornou a sorrir, pegou o gravador que pousara no
braço da poltrona e ligou-o. Ouviram o toque de um
telefone e, em seguida, uma voz apressada:
— Alfaiataria Chiw’s.
— Quero falar com Chiw, imediatamente.
Reconheceram claramente a voz de Lomax.
— Um momento. Vou chamar.
Uma pausa e logo outra voz se fez ouvir.
— Alô?
— Chiw? Sou eu W. L.
— Está louco? Não devia ter ligado para mim. Temos
nosso sistema de contato...
— É urgente. Alguém está tentando matar-me. Serão
você e seus homens, por acaso?
— Deixe de ser idiota! Por que iria fazer isso? Podia ter
dado essa ordem, antes, e não o fiz. Pelo contrário.
Preparei tudo para afastar de você qualquer seus peito,
vinda do seu departamento, não foi?
— Escute, a agente “Baby” está cuidando do caso.
Dizem muita coisa dela e isso me assusta. Acabou de sair
daqui, disfarçada de velha: vestido negro, cabelos brancos
e uma bengala. Os companheiros da CIA agarraram um
dos caras que quiseram matar-me e ela vai interrogá-lo. Se
for um de vocês...
— Nada tenho a ver com isso, já disse. De onde está
telefonando?
— Não sei. Um lugar de Nova Iorque que eu não
conheço. “Baby” trouxe-me para cá. Ela me protege e
confia em mim.
— Pare de fazer tolices. Acalme-se. Não faça nada e
deixe que ela se mexa. O homem que agarraram não é dos
meus. Nada descobrirão. Continue com seu jogo e não
entre em contato comigo durante dois meses. Eu o avisarei.
— Está bem.
— Adeus.
— Adeus.
Fim da conversa. “Baby” parou o gravador e encarou os
russos, sorrindo friamente.
— Esse cara é um imbecil — exclamou Oleg
Mavitchian. — Não pensou que você podia ter preparado a
gravação?
— Previu tudo... Quando ele telefonou, a CIA já estava
com os gravadores prontos e localizaram a pessoa com
quem Lomax estava falando... — completou Val Titov.
— Bom trabalho! Digno de você... Que vamos fazer
agora?
— Vocês?... Permitem um conselho? Partam para
Moscou imediatamente e entreguem ao Diretório a lista de
traidores... e nunca mais ponham os pés nos Estados
Unidos.
— Que acontecerá com Weston Lomax? — perguntou
Oleg.
— Oh, ia esquecendo dele! — Brigitte Montfort elevou
o tom de voz: — Johnny, empurre-o aqui para a sala e pode
ir embora. Deixe dois rapazes, apenas, e você sabe por quê.
A porta do quarto foi aberta e Weston Lomax apareceu
aos tropeções, pálido, de olhos arregalados, encarando
fixamente a loura espetacular que o havia enganado com
beijos e sorrisos. Sorrisos doces, ternos, apaixonados...
Naquele momento, porém, o sorriso de Lili Connors parecia
uma rajada de vento frio, envolvendo Weston Lomax.
— Olá, querido — murmurou a espiã. — Ouviu tudo?
Não dei explicações antes porque seria obrigada a repeti-las,
para os russos, e não gosto de falar muito. Tem alguma
coisa a dizer?
— Que... vai fazer... comigo? — gaguejou Lomax.
— Pergunta mais boba... Vou matá-lo, naturalmente!
— Não...
— Não? Por sua causa, dois diplomatas norte-
americanos foram assassinados ontem. E um russo. Do
russo, nada sei. Os americanos, porém, estavam trabalhando
para a pátria. Um deles tinha esposa e filho... Não pensou
nisso? Não pensou, também, que estava vendendo sua
pátria, seus amigos, seus irmãos, por um dinheiro nojento?
Vamos, vamos... Que pode esperar, além da morte?
— Não.. Não pode matar-me... Prenda-me, se quiser...
Mande-me para um tribunal...
— Para que perder tempo e dinheiro em julgamentos?
Basta puxar o gatilho — e a pistolinha de cabo de
madrepérola surgiu na mão delicada da espiã — e
pouparemos gastos, aborrecimentos... e vergonha. Morra,
traidor!
Plof,..
Segundos depois, os russos, impressionadíssimos,
deixaram de olhar o cadáver de Weston Lomax, estendido
no tapete, e voltaram-se para a espiã mais perigosa do
mundo.
— E não se esqueçam — disse ela. — Fizemos um pacto
de silêncio a respeito deste caso camaradas: boa-noite!

FINAL
Um castigo compensador

— Estava à sua espera, ontem — insistiu Frank Minello,


aos berros. — Fiquei aqui, como um idiota, até às dez da
noite!
Brigitte Montfort, sentada como uma rainha numa
poltrona do salão de seu luxuoso apartamento, olhou as
unhas bem-feitas, com um gesto majestoso de indiferença.
— Sinto muito, Frankie. Perdi o avião em Paris, já disse,
e só hoje consegui voltar...
— Podia ter telegrafado, avisando desse contratempo!
— É mesmo — suspirou a diviníssima espiã. — Olhe,
estou mentindo e isso me arrasa a consciência. Não perdi o
avião. Cheguei ontem à tarde, querido, e precisei
desembaraçar a mais espantosa rede de espionagem chinesa,
nas Nações Unidas...
— Ainda quer me gozar! — bufou Minello. — Pretende
enganar-me como se eu fosse chinês?
— Mais ou menos, querido — riu “Baby”. —A você,
porém, não vou quebrar um braço nem pretendo matá-lo
com um pontapé... Também não vou assassiná-lo, como se
fosse um miserável traidor... Não. Isso seria pouco, para
você. Vou impor um castigo muito maior.
— Um castigo? Para mim? Qual é?
— Ficará sem falar durante... uma hora, pelo menos.
Tomaremos champanha, ouviremos musica ou leremos
qualquer coisa... Permitirei, enquanto isso, que continue
gozando de minha encantadora companhia. Pode até dançar
comigo, porém, se romper o pacto de silêncio, irá embora
no mesmo instante. Okay?
Frank Minello, o mais querido amigo da espiã
internacional, conseguiu, finalmente, fechar a boca. Sorriu,
esfregando as mãos de contentamento. Sentou-se numa
poltrona. pondo os pés enormes em cima da mesinha. Ficou
olhando, com a adoração de sempre, para a mulher mais
bela do mundo... apertando os lábios, para não falar e ser
obrigado a ir embora.
Para ficar ao lado de Brigitte Montfort, ele seria capaz
de passar o resto da vida sem abrir a boca, se fosse
necessário.
E, na verdade, valia a pena.

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