0% acharam este documento útil (0 voto)
487 visualizações92 páginas

Aventura e Mistério em Las Vegas

O documento narra a entrada de Sam Browell em um cassino em Las Vegas, onde ele se diverte jogando e interagindo com mulheres, enquanto é seguido por um homem misterioso. A história se intensifica quando uma jovem chinesa apunhala o seguidor de Browell, revelando um enredo de espionagem e assassinato. A trama se desenvolve com a introdução de Brigitte Montfort e Frank Minello, que se envolvem em uma investigação sobre a morte de um agente da CIA em Las Vegas.

Enviado por

adegue73
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
487 visualizações92 páginas

Aventura e Mistério em Las Vegas

O documento narra a entrada de Sam Browell em um cassino em Las Vegas, onde ele se diverte jogando e interagindo com mulheres, enquanto é seguido por um homem misterioso. A história se intensifica quando uma jovem chinesa apunhala o seguidor de Browell, revelando um enredo de espionagem e assassinato. A trama se desenvolve com a introdução de Brigitte Montfort e Frank Minello, que se envolvem em uma investigação sobre a morte de um agente da CIA em Las Vegas.

Enviado por

adegue73
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

© 1979 – LOU CARRIGAN

LA REBELIÓN DE LOS ESPIAS


Tradução de Luiz Oswaldo Cunha
Ilustração de Benicio
Colaboração de Sérgio Bellebone
® 530704[28]
PRELÚDIO EM LAS VEGAS

Sam Browell entrou no cassino “Red & Black” com a


expressão despreocupada, alegre, de quem se dispõe a
arriscar uns quantos dólares para se divertir, sem nenhuma
esperança de sair de lá transformado em milionário. Aliás
esta história de se ficar milionário em uma noite de jogo em
cassino é muito pouco verossímil.
De início, foi até o balcão, onde tomou um uísque “on the
rocks”, olhando a seu redor. Como sempre, o ambiente era
animado e tenso. Ouviam-se vozes em todos os tons, risos, o
som das máquinas caça-níqueis, exclamações de desencanto,
tinir de fichas, o girar das roletas... Uma bonita lourinha
olhou-o e sorriu ao captar seu olhar. Sam Browell também
sorriu, olhando-a de cima a baixo. Ela trajava uma espécie de
maiô vermelho e meias pretas, que lhe modelavam as bonitas
pernas. Após o duplo sorriso, ela compreendeu que não
havia mais nada a fazer e, após dar de ombros, continuou sua
busca daquela noite. Com discrição, claro.
Browell virou-se, terminou seu uísque e dirigiu-se para
uma das máquinas caça-níqueis, onde, sem a mínima sorte,
deixou ficar algumas moedas.
Depois foi a uma das roletas, onde também,
imperturbável, como se já soubesse o que lhe ia acontecer,
perdeu uma pequena quantidade de dólares. Em seguida
comprou cigarros e fósforos de outra garota igualmente em
maiô vermelho e meias pretas, continuando sua sorridente
peregrinação pelo luxuoso cassino. Não só dava a impressão,
mas devia ser realmente o homem menos preocupado do
mundo, já que em nenhum momento se deu conta do outro
que o não perdia de vista um só segundo.
O outro também era alto, atlético, atraente. Tinha olhos
claros, olhar vivo, perspicaz. Como Browell, dedicava-se a
introduzir moedas nas máquinas caça-níqueis, menos
interessado ainda em conseguir a pequena fortuna que de um
momento para outro podia cair-lhe nas mãos. Também
fumava, mas fazia uso de um isqueiro. E, coisa curiosa,
quando Browell sorriu para a primeira garota, ele acendeu
um cigarro, tendo o cuidado de que o isqueiro ficasse de
frente para ela. Acendeu outro cigarro com o isqueiro
apontando para a garota que tinha vendido cigarros e
fósforos a Sam Browell... De fato, acendeu muitos cigarros,
o isqueiro sempre apontando para tudo ao redor do homem
que lhe parecia interessar.
O objeto de seu interesse continuava indo de um lado
para outro, mostrando sorridente atenção por tudo quanto via
e nenhum interesse especial por coisa alguma.
Até que, ao chegar junto a uma das mesas de roleta, viu
uma linda jovem chinesa, sentada à direita do croupier, com
um pequeno monte de fichas à frente.
A chinesinha, num vestido de noite azul-claro de gola
alta, estilo túnica, tinha os cabelos negros cortados de
maneira quase geométrica, com uma franjinha sobre a testa.
A pele parecia de porcelana. Toda ela, muito linda, era uma
deliciosa bonequinha.
Sam Browell, do outro lado da mesa, olhava-a. O olhar
dela, inexpressivo, cravou-se no homem do constante
isqueiro. Depois, também inexpressivamente, olhou para
Browell e moveu a cabeça num gesto negativo com todo o
jeito de casual. Ele franziu um pouco a testa, como
decepcionado. E isso foi tudo.
A jovem pareceu esquecê-lo por completo. Por duas
vezes mais tornou a olhar para o homem que o vigiava da
ponta da mesa. Dir-se-ia que só ela se dera conta de sua
manobra. Como quer que fosse, pouco depois recolheu suas
fichas, foi trocá-las e abandonou o “Red & Black”.
Sam Browell ficou ainda uns dez minutos contemplando
os giros da bolinha branca sobre a roleta. Em seguida, após
um sorridente olhar às beldades que jogavam, aos ostensivos
indivíduos de grandes chapéus texanos, aos turistas de
gravata e ao imperturbável croupier, afastou-se da mesa.
Foi novamente ao bar, tomou outro uísque com gelo e
distribuiu mais moedas por três das máquinas caça-níqueis.
Por fim, sempre com o seu ar de bom rapaz que se diverte
como que por norma, abandonou o cassino.
Saiu à Strip, a rua central de Las Vegas, onde
praticamente se desenvolve toda a vida da cidade. Há outras
ruas, claro, mas não só carentes de importância por sua
extensão como por seu conteúdo. Na verdade, tudo está na
Strip: bares, cinemas, clubes noturnos, restaurantes, hotéis e,
sobretudo, cassinos. Cassinos, cassinos, cassinos...
Anunciados com luzes de todas as cores: “Saara”,
“Flamingo”, “Tally-Ho”, “New Frontier”, “Thunderbird”,
“Riviera”, “Sands”, “Hacienda”... Por isso a cidade é
chamada “A Lata de Lixo da Nação”.
Mas, pelo menos, é uma lata de lixo que parece sempre
muito limpa, exteriormente, e onde as pessoas costumam
divertir-se, casar e divorciar à grande. Afinal, talvez Las
Vegas não seja uma lata de lixo, mas acontece que todo o
lixo do mundo se empenha em concentrar-se lá.
Possivelmente pensando em tudo isso, Sam Browell
caminhou alguns minutos pela Strip, sempre tranquilo, como
se não estivesse submerso naquele oceano de cores e vícios.
E atrás dele, naturalmente, o tal homem alto, atlético, de
perspicazes olhos claros.
Sempre atrás de Sam Browell, mas com tamanha perícia
que ninguém poderia desconfiar sequer.
E quando o seguido enfiou por uma das curtas ruas
laterais, atrás dele, qual sua sombra, lá foi o seguidor.
Fora dos luminosos limites da Strip, a coisa mudava
consideravelmente. Tudo era mais discreto, mais calmo.
Realmente, quase ninguém circula pelas ruas laterais,
sobretudo quando já é um pouco tarde.
Assim, naquela rua, pode-se dizer que só havia Sam
Browell... e o homem que o acompanhava colado à parede,
vez por outra metendo-se num portal escuro.
E foi justamente ao meter-se num desses portais que lhe
aconteceu algo inesperado. Entrou de costas, olhos sempre
fixos em Sam Browell. E então estacou brusco, seus olhos se
arregalaram e de sua boca brotou um gemido abafado,
enquanto uma crispação terrível alterava-lhe o rosto.
Caiu para frente, ficando deitado de bruços sobre a
calçada solitária.
Três segundos depois, da profundidade daquele portal,
apareceu a chinesinha da roleta. Sua mão direita empunhava
ainda o estilete manchado de sangue. Agachou-se junto ao
homem e, tranquilamente, tornou a cravar-lhe a lâmina nas
costas, à altura do coração. Mas o homem nem sequer
estremeceu, pois o primeiro golpe tinha sido definitivo e
pouco lhe importaria receber muitos outros mais.
A chinesinha virou-o, tirou-lhe o isqueiro e levantou-se.
Depois, em passinhos miúdos, muito femininos e
delicados, afastou-se dali, em direção à Strip.
UM
Uma pista que não podia ser mais clara

— Olá! — saudou Frank Minello com seu vozeirão. —


Bom-dia, rainha do mundo! Você está...? Santo Deus! Deus
santíssimo, tem piedade de mim!
— Quer café, Frankie? — ofereceu, sorridente, Brigitte
Montfort.
Estava sentada no sofá e vestia um baby-doll
semitransparente, capaz de fazer qualquer um gritar de puro
entusiasmo. As pernas, de uma beleza aniquiladora,
totalmente nuas, ofereciam-se aos olhos arregalados de seu
colega no “Morning News”, jornal em que ela trabalhava
quando nada existia que valesse a pena de ser espionado no
planeta e arredores.
— Perguntei se você quer café, Frankie.
Este deixou-se cair numa poltrona, murmurando com voz
lastimosa:
— Eu só queria morrer...
— Não diga tolices, querido. Por muito que tardemos a
morrer, sempre é cedo demais. E a vida é tão bela.
— Para mim é um nojo. Morte! — chamou, erguendo
tragicamente os braços. — Vem e leva-me contigo, que este
mundo sem o amor de Brigitte não passa de um lodaçal
nauseabundo!
— Peggy — disse Brigitte à sua empregadinha, que
entrara atrás de Minello após abrir-lhe a porta do
apartamento —, traga café para o Frankie, por favor.
— O que necessito é um cordial... — afirmou ele. —
Melhor: um desses filtros mágicos das feiticeiras para
esquecer amores impossíveis.
— Terá que contentar-se com café — riu Brigitte —, pois
a Peggy não é nenhuma bruxa. Veio buscar-me para irmos
ao jornal?
— Sim, como sempre que você está em Nova Iorque.
Mas muito me alegro por constatar que ainda não se vestiu.
— Visto-me num instante. Estava dando uma olhadela ao
nosso amado matutino, que todas as madrugadas chega-me
pontualmente. Mas não encontrei nada de importância.
— Como não? — protestou Minello, chefe da Seção
Esportiva. — E minha reportagem?
— Que reportagem?
— Diabo! A da luta entre Joe Frazier e esse pobre rapaz
que se colocou ao alcance de seus punhos!
— Ah, sim. Li. Muito boa, como sempre. Você é
excelente repórter, Frankie. Mas quem eu gosto de ver no
ringue é Muhammad Ali.
— Cassius Clay? Engraçado! Também eu. Tenho a
impressão de que...
Emudeceu ao ver surgir precipitadamente Peggy, que
murmurou algumas palavras quase ao ouvido de sua patroa.
Esta assentiu com a cabeça e levantou-se.
— Volto já, Frankie.
— Mas... que está acontecendo?
— O tio Charlie quer me falar pelo rádio de emergência.
— Ah! Esse velho abutre! Por que você não o manda para
o inferno? Ele nunca a chama para nada que preste...
— Está bem, está bem... Irei ver o que quer.
E Frank Minello encontrou-se sozinho no living, pois as
duas mulheres tinham-se precipitado para o corredor.
Mas poucos minutos depois Brigitte tornava a aparecer.
Olhando-a, ele se deu conta de que algo verdadeiramente
grave estava acontecendo, ou já acontecera. Sem lhe dizer
nada, ela voltou a sentar-se no sofá e ficou pensativa,
sombria. Estava muito pálida.
Minello passou a língua pelos lábios, depois foi sentar-se
junto a ela e tomou-lhe ternamente a mão.
— Brigitte... — murmurou. — Que tem você?
Ela olhou-o, pestanejou, suspirou fundo.
— Quer vir comigo a Las Vegas, Frankie?
Este sentiu que uma bomba acabava de estourar dentro de
seu peito.
— Para nos casarmos? — perguntou num fio de voz.
— Bem. Poderemos passar por marido e mulher.
— Oh... — Minello perdeu por completo a voz.
— Como você sabe, nunca preciso de ninguém, mas em
Las Vegas não chamarei nenhuma atenção se parecer uma
jovem recém-casada em viagem de recreio com seu
maridinho.
— Mas, de recreio mesmo, não haverá nada, hem?
— Não. Acontece que...
— Não precisa dizer — atalhou ele. — Eu sei. Essa
expressão já vi em você todas as vezes que o velho abutre
lhe comunica que mataram um dos seus Johnnies... Não é
isso?
— Sim, é isso mesmo, Frankie. Assassinaram um Johnny
com duas punhaladas nas costas.
Minello olhou os olhos de Brigitte, tornados subitamente
frios, como se fossem de gelo. E sentiu que estremecia
enquanto murmurava:
— Deus tenha piedade do assassino.
***
O movimento no aeroporto de Las Vegas é de uns cem
aviões diários, mas o homem que esperava no espaçoso
vestíbulo com vista para o deserto só reagiu, após mais de
duas horas de espera, quando os alto-falantes anunciaram a
chegada do voo 707, da “Transamerican”, procedente de
Nova Iorque.
Aproximou-se das vidraças, assistiu à chegada do avião e
depois, calmamente, dirigiu-se à saída dos voos nacionais.
Quando, minutos mais tarde, os passageiros começaram a
aparecer, seu olhar fixou-se imediatamente na belíssima
jovem de olhos azuis, que trazia na mão esquerda uma
graciosa maletinha vermelha.
— Aí está — murmurou.
Mas a certeza diminuiu consideravelmente quando o
passageiro que vinha atrás, tomando o braço da jovem,
indicou a saída. Um tanto desconcertado, o homem que
esperava olhou para os outros passageiros. Seria possível que
entre aquela gente houvesse uma mulher ainda mais formosa
que a que acabava, de ver? E, além disso, a maletinha
vermelha adornada de minúsculas flores azuis... Bem, podia
ser uma coincidência, claro, pois a agente “Baby” sempre
trabalhava sozinha, mas...
Os maravilhosos olhos azuis fixaram-se diretamente nele
e, então, ainda não muito convencido, o homem resolveu
aproximar-se do par. Fez o possível para conseguir um
sorriso cortês.
— Perdão — murmurou —, espero uma pessoa que
chegaria neste voo e, pelos sinais que me deram...
— Johnny? — perguntou a jovem dos olhos azuis.
— Sim, sim... É você?
— Sou “Baby”. Este é Frank Minello.
— Ah... Um dos nossos?
— Se fosse um dos nossos, eu o teria apresentado como
Johnny, simplesmente. Frankie não pertence à CIA. É meu
amigo pessoal. O mais querido de meus amigos.
Johnny-Las Vegas estendeu a mão ao jornalista.
— Prazer... — tornou a olhar para Brigitte. — E qual vai
ser a atuação dele no caso?
— Eu sou o marido — disse Minello.
O agente da CIA ficou estupefato. Mas logo
compreendeu e assentiu com a cabeça.
— Parece-me uma boa ideia. Venham. Tenho o carro aí
perto.
Pouco depois, já instalados no carro e a caminho de Las
Vegas, Brigitte rompeu o silêncio:
— Como aconteceram exatamente as coisas, Johnny?
— Não é possível saber exatamente — replicou o espião,
que ia sozinho no banco dianteiro. — O corpo foi encontrado
por um homem que voltava para casa. Estava estendido na
calçada. De início, o homem julgou-o embriagado, drogado
ou coisa parecida. Também podia ser que tivesse sofrido um
assalto, ao sair de algum cassino. Depois, quando quis ajudá-
lo a levantar-se, teve as mãos manchadas de sangue. Então,
avisou a Polícia. O FBI meteu-se no assunto, identificou-o
como agente da CIA e deu-nos o aviso: Richard Morton
tinha sido apunhalado pelas costas numa das ruas de Las
Vegas, perto da Strip. A Central comunicou-se com San
Francisco, onde Morton servia. E de San Francisco fomos
enviados três agentes, enquanto também era avisado o chefe
do Setor Nova Iorque. Fui incumbido de receber você.
Alugamos uma cabana num motel, que poderá ocupar sem
dar explicações a ninguém. Cabana 11, “Happy Motel”.
— De acordo. Alguma pista?
— Hã-hã — assentiu Johnny.
— Temos uma pista? — surpreendeu-se Brigitte.
— E melhor não poderia ser. Sabemos quem matou nosso
companheiro.
Ela estava perplexa.
— E para que me enviaram aqui, se vocês já sabem quem
matou Johnny?
— São ordens da Central. Como lhe disse, somos três
aqui, todos procedentes de San Francisco e, portanto, colegas
de Morton. Não nos causaria nenhum desgosto vingar nosso
companheiro.
— Compreendo. Bem... quem o matou?
— Um certo Samuel Browell. Está alojado num prédio de
apartamentos, o “Sunset Rooms”, por trás da Strip. Claro,
mantemo-lo sob vigilância constante.
— Ah... E eu tenho que matá-lo, simplesmente?
— Talvez você prefira deixar isso por nossa conta, o que
muito nos alegrará... embora matar um russo possa causar
sérias complicações no momento.
— Um russo? — exclamou Frank Minello. — Mas não
disse que se chama Samuel Browell?
— Seu verdadeiro nome é Igor Javlenko. Faz tempo que
está fichado na Central como agente do MVD, mas sem
sofrer restrições. Nunca tinha feito nada que valesse a pena.
— Mas se sabiam que era um espião... — começou
Minello.
— Sempre é melhor deixar que continuem no país os
espiões que já conhecemos, Frankie, pois se os expulsarmos
virão outros novos — explicou Brigitte. — Pelo menos, os
residentes já estão localizados e identificados. E, no caso
atual, o camarada Javlenko vai ter motivos para se lamentar.
— O FBI está pedindo para encarregar-se do assunto —
disse Johnny, com irritação.
— O FBI? — sobressaltou-se Brigitte. — E por quê?
Com que direito...?
— De certo modo, eles não deixam de ter razão. Alegam
que, se o assassino de Morton é um agente russo radicado
nos Estados Unidos, o assunto pode ter relação com a
segurança nacional.
— São muito espertos, sem dúvida — resmungou
Minello. — Mas ninguém vai impedir Brig... a agente
“Baby” de resolver este assunto. Você verá, amigo.
— Ao que parece, o FBI sabe muito mais que nós sobre
tudo isto — Johnny deu de ombros. — Seus agentes enchem
Las Vegas e, nos cassinos, muitos trabalham como
croupiers. Um destes, que trabalha no “Red & Black”,
assegura ter visto Morton lá pouco antes que o matassem.
Quando lhe mostramos fotos de Igor Javlenko, isto é, de
Samuel Browell, disse que também o vira, ao mesmo tempo
que Morton. A coisa, como já disse, não pode estar mais
clara: Igor Javlenko é o nosso homem.
— E onde está ele agora? — perguntou Brigitte.
— Já lhe disse: nos “Sunset Rooms”.
— Continua em Las Vegas?
— Sim, sim.
— Não é muito esperto — comentou Minello.
— Em Washington — informou Johnny — o FBI e a
CIA discutem para ver quem se encarrega do assunto.
Enquanto isso, Browell, ou Javlenko, continua passeando
tranquilamente por Las Vegas. Deve ter nervos de aço.
— Sem dúvida — admitiu Brigitte. — Mas se não
entendi mal, Richard Morton era da equipe de San Francisco.
Nesse caso, que fazia ele aqui?
— Veio justamente seguindo Javlenko. Este pertence ao
grupo russo de San Francisco e Morton cuidava dele. Há
dois dias, avisou-nos que vinha a Las Vegas no mesmo avião
que o russo. Depois telefonou-nos daqui dizendo que
Javlenko não estava fazendo nada especial, que talvez
estivesse simplesmente tirando umas férias, mas que, de
qualquer modo, continuaria vigiando-o, salvo se lhe
déssemos ordem em sentido contrário. Nosso chefe de setor
achou que Morton não perdia nada vigiando Javlenko em
Las Vegas e autorizou sua permanência aqui, mas sem
comprometer nossos homens nesta cidade e sem entrar em
contato com eles, salvo em caso de extrema necessidade. A
notícia seguinte que tivemos de Morton foi a de sua morte...
Estamos chegando. Você poderá vê-lo, “Baby”.
— Não. Prefiro que não me vejam na funerária, Johnny.
Leve-me até o pessoal do FBI. Depois, Frankie e eu nos
arranjaremos sozinhos.
Johnny-Las Vegas olhou-a pelo retrovisor, na verdade
surpreendido. “Baby” negando-se a ver o cadáver de um de
seus Johnnies? Na CIA todos sabiam do carinho que ela
dedicava a todos os seus companheiros, quer os conhecesse
ou não.
— Muito bem... — murmurou. — Você manda. Que
fazemos nós, os três de San Francisco?
— Nada. Não façam absolutamente nada. Fiquem à
espera de minhas possíveis instruções, apenas. Ninguém tem
que fazer nada, só eu.
— Ah... Claro, temos ordem de obedecê-la em tudo e
assim faremos, mas... Vejamos o que dizem os do FBI a
respeito de você se encarregar deste assunto sozinha.
***
O inspetor Orville Cranston, chefe da Delegacia do FBI
em Las Vegas, levantou- se ao ver entrar Brigitte Montfort,
recém- anunciada pelo interfone e acompanhada por um
indivíduo que não conhecia, além daquele seu outro
companheiro.
— É um prazer, miss Montfort — con-templava-a com
curiosidade. — Sente-se, por favor.
— Obrigada. Minha visita será breve, inspetor Cranston.
— Ninguém a está apressando — sorriu cortesmente
Cranston. — A rivalidade entre a CIA e o FBI não implica
maus modos. Além disso, tal rivalidade tem muito de
invencionice, não lhe parece?
— Nesse caso, talvez faça a gentileza de ceder-nos o
assunto do assassinato de um de nossos companheiros. E de
um modo total.
Orville Cranston pestanejou.
— Já a conhecia de nome, miss Montfort, o que não é
estranho. Mas ignorava que a nossa mais famosa jornalista
trabalhasse para a CIA.
— Vai nos ceder voluntariamente o caso? — insistiu
Brigitte.
— Mmm... Com franqueza, não sei se dependeria de
mim...
— Tem linha direta para Washington, não?
Ela indicou os dois telefones que havia sobre a mesa do
inspetor.
— Sim, com efeito.
— Eu poderia utilizar um telefone público, mas gostaria
que o senhor não complicasse também as coisas quanto a
este aspecto. Pode pôr-me em contato com Washington?
— Olhe, miss Montfort...
— Quero falar com Clarence Hadaway, chefe do
Departamento de Contra-Espionagem do FBI.
— Conheço muito bem Hadaway — grunhiu Cranston —
mas...
— Vamos — Brigitte levantou-se, rapidamente imitada
por Minello e Johnny-Las Vegas. — Falarei com Clarence
por qualquer telefone público. Bom-dia, inspetor.
— Espere, espere... Diabo, não seja tão drástica. Eu
apenas...
— Não sou drástica. Mas tampouco gosto de perder
tempo. Sim ou não?
Após hesitar um instante, Cranston desenganchou um dos
telefones. Segundos mais tarde, passava-o a Brigitte, que
perguntou:
— Clarence?
—...!
— Sim, sou eu.
—...?
— Muito bem, obrigada... Quê?
—...
— Ah... Novamente obrigada. Muito me alegra que você
tenha gostado de meu artigo sobre mister Hoover. Mas não
teria conseguido que fosse tão interessante sem a sua ajuda.
Clarence, estou em Las Vegas, como já sabe.
—...?
— Exatamente. Já esperava que você compreendesse.
—...
— Ótimo. Obrigada, querido... Até a vista. Sim, sim,
falará com ele agora mesmo.
Passou o aparelho a Cranston, que adotou um tom muito
sério.
— Diga, mister Hadaway.
—...
— Sim, senhor... Sim.
—...
— Compreendo, naturalmente. Obrigado, mister
Hadaway. Até outra vez. Direi a ela. Adeus... — desligou e
ficou olhando com mais curiosidade ainda para Brigitte.
— De acordo, miss Montfort: o caso é completamente
seu.
— Muito obrigada.
— Não agradeça a mim, mas a Hadaway, cujas ordens
são indiscutíveis no FBI. Ao que parece, ele está convencido
de que não precisará de nenhuma ajuda para resolver este
assunto, mas incumbiu-me de oferecer-lhe toda a
colaboração de que possa necessitar.
— Agradeço. Terei presente seu oferecimento. Bom-dia,
inspetor Cranston.
Minello e Johnny despediram-se também, e os três
abandonaram a sala. No corredor, Johnny comentou:
— Esse cara do FBI tem em que pensar para todo o resto
do dia — sorriu. — E eu também. Julguei que você só fosse
o dodói da CIA, mas vejo que estava enganado.
— É preciso ter amigos até no inferno, Johnny.
— No inferno? Bem, a turma do FBI é encrenqueira, mas
não devemos exagerar... Que fazemos, meus companheiros e
eu?
— Esperem meu possível chamado, simplesmente. Já fui
bem clara neste sentido: nada de seguir-me, vigiar-me,
proteger-me...
— Para isso estou eu aqui — Minello encheu o peito.
Johnny olhou atento para “Baby”. Estava visivelmente
preocupado, mas também não ignorava que sua atitude só
podia ser uma.
— O que você mandar. Aqui tem a chave da cabana.
DOIS
Aulinha de espionagem

Frank Minello fechou a porta da cabana do “Happy


Motel”, olhou ao redor e disse:
— Um ninho encantador para uma deliciosa lua-de-mel,
não lhe parece?
— Ajude-me a procurar algum microfone — replicou
Brigitte.
O jornalista ficou estupefato.
— Um microfone? Mas... se esta cabana foi alugada pela
própria CIA! Como pode você suspeitar que... Pensa acaso
que esse Johnny não seja autêntico, mas algum espião
soviético disfarçado...?
— Pare, pare, Frankie. Johnny é um agente da CIA, disso
não tenho a menor dúvida. Mas as coisas não estão nada
claras.
— Por Deus! Mas se você foi informada de tudo logo ao
chegar! Como pode dizer que as coisas não estão claras?
— Acho que não foi esse Javlenko quem matou o outro
Johnny.
Frank Minello sentia-se perdido entre nuvens negras.
— Como? — quase gritou.
— Claro que pode ter sido ele, mas... talvez não. Inclino-
me a crer que não... Mas se foi ele, pode haver microfones
aqui. E também é possível que nos estejam vigiando
diretamente. Dê uma olhada pela janela.
O atônito Minello foi à janela, abriu as cortinas e
começou a dizer:
— Eu não vejo ninguém que...
— Feche essa janela! — mandou Brigitte.
— Mas você mesma disse...
Ela correu até lá, fechando a janela e as cortinas.
— Por Deus, Frankie, como pode você ser tão errado?
— Mas foi você quem pediu...
— Não se olha assim por uma janela quando pode haver
alguém espiando!
— Bom, se há alguém espiando, já sabe que estamos
aqui, portanto não tem grande importância que nos veja pela
janela.
— Não. Se há alguém espiando-nos, sabe que estamos
aqui, realmente, mas é melhor que esse alguém não saiba que
o sabemos aí fora.
— Ah... Puxa, você tem razão! Por que pensa que pode
haver microfone aqui?
— Se foi Javlenko quem matou Johnny, poderia haver
microfones.
— Mas... você não disse que não foi ele? — a cabeça de
Minello começou a doer.
— Acho que não foi ele, mas poderia ter sido.
Ele a olhou torvamente. Súbito, sentou- se no sofá da
saleta, acendeu um cigarro e resmungou:
— Não mexerei um dedo enquanto você não me explicar
isso. E gostaria de uma explicação que eu pudesse entender.
— De acordo — Brigitte sentou-se diante dele, numa
poltrona, e também acendeu um cigarro. — Vejamos...
Ponha-se você no lugar de Javlenko.
— Está bom: eu sou Javlenko. E agora?
— Você matou um agente da CIA, apunhalando-o pelas
costas... O que faria você, imediatamente depois?
— Limparia o punhal!
Brigitte fechou os olhos um instante, invocando sua
paciência.
— E que mais?
— Mmm... Certamente tomaria um avião que me levasse
o mais longe possível daqui.
— Okay. Pois Javlenko não partiu. Continua em Las
Vegas. Por quê?
Minello coçou a orelha.
— Talvez ele não tenha apunhalado Johnny —
murmurou.
— Seu coeficiente de inteligência vai melhorando,
Frankie. Essa é uma das possibilidades, com efeito. Mas
vamos supor agora que seja ele o assassino. Você é Javlenko
e foi quem matou Johnny. Naturalmente se dá conta das
consequências de seu ato: está nos Estados Unidos, rodeado
de policiais, agentes secretos, homens do FBI, autoridades de
toda espécie. E nem sequer escondeu o cadáver, mas deixou-
o numa rua da cidade. Como você sabe, as autoridades locais
não tardarão a identificar o morto como um agente da CIA e,
portanto, em questão de horas, Las Vegas vai encher-se de
Johnnies, à caça do assassino. Entretanto, você fica... Por
quê?
— Porque tenho acertado na roleta.
— Não. Um espião nunca é tolo. Se você fica é que não
tem outro remédio, pois o motivo que o trouxe aqui é
importantíssimo, só você pode levar a termo determinada
missão. Por isso fica. Está entendendo?
— Penso que sim. Ou não fui eu o assassino ou, se fui,
tenho que continuar aqui para atender a um assunto
importantíssimo.
— Exato. Você sabe que está arriscando a vida, mas tem
que ficar. O assunto é muito importante. Portanto, não é
possível realizá-lo sem um mínimo de precauções. E entre
essas precauções podemos incluir: vigiar as pessoas que
estiveram perto do cadáver de Johnny e, também, as pessoas
relacionadas com aquelas. Por exemplo, a vigilância sobre o
Johnny que nos esperou no aeroporto terá resultado no
conhecimento de que ele alugou esta cabana. Não importava
para quem. Com a cabana ainda desocupada, era preciso
colocar microfones, saber o que sabe a CIA sobre o
assassinato... E, naturalmente, não perder de vista um
instante todos os que estiveram perto do cadáver. Por isso
não quis ir vê-lo. Mas, lamentavelmente, se Javlenko matou
Johnny, ele e seus amigos russos, ou colaboradores de
qualquer nacionalidade, já sabem que você e eu temos algo a
ver com a CIA. E também nos vigiarão.
— E se não encontrarmos nenhum microfone?
— Então, é que Igor Javlenko não foi quem assassinou
Johnny. Mas se encontrarmos algum microfone, saberemos
com toda a segurança que o assassino é Javlenko e que seus
companheiros de apoio nesta missão nos vigiam.
— Sim, sim, claro, mas... Puxa vida! Se há microfones
aqui, devem ter escutado toda esta conversa!
— Decerto.
— Nesse caso, escaparão!
— Que o tentem — sorriu friamente Brigitte. — Isso me
agradaria bastante. Escapar quer dizer mover-se. E não só
Igor Javlenko se moveria, mas todos os outros. Ele está
vigiado e os outros, ao mover-se para escapar, se tornariam
mais visíveis que o sol. Sim, gostaria que houvesse
microfones por aqui e que Javlenko e os seus tentassem
escapar.
— Pois procuremos esses microfones — propôs Minello,
impressionado pela lógica de sua amiga.
Mas quinze minutos de minuciosa busca não deram
resultado algum. Não havia um só microfone. Tampouco
viram ninguém olhando pelas janelas da cabana.
— Quer dizer — concluiu Minello — que não é Javlenko
o assassino.
— É apenas uma teoria — murmurou Brigitte. — Agora
o que temos de melhor a fazer é comermos alguma coisa do
que vimos no refrigerador, depois dormirmos uma sesta. Um
espião nunca sabe quando poderá dormir durante o trabalho.
— Isso da sesta me parece estupendo — sorriu Minello
de orelha a orelha.
Meia hora mais tarde, entravam os dois no quarto.
Brigitte estendeu-se na cama, do lado da janela, sem se
despir.
— Assim você amarrotará o vestido — advertiu Minello.
— E não trouxemos bagagem.
— Podemos comprar tudo quanto precisarmos. Durma,
Frankie.
Ela fechou os olhos e Minello sentou-se na beira da cama,
contemplando-a. Depois tirou os sapatos e engoliu em seco.
— O suplício de Tântalo... — resmungou. — Quase
preferia não ter vindo com você... Está me ouvindo, Brigitte?
Ela certamente não ouvia, pois não reagiu. Olhando-a
atento, Minello convenceu-se: a espiã mais perigosa do
mundo tinha simplesmente adormecido.
Observou-a durante mais dois minutos, imóvel. Ela
parecia uma menina inocente. E, na verdade, o era. Uma
inocente menina que, com toda a certeza, alguém quereria
matar em Las Vegas, tal como o haviam tentado em tantas
partes do mundo...
— Só passando por cima do meu cadáver — murmurou o
jornalista.
Sacou uma enorme automática, foi dar uma olhada pela
janela do quarto e depois, pistola na mão, sentou-se numa
das poltronas.
Sim, só passando por cima de seu cadáver.
***
— Já levaram o corpo? — perguntou Brigitte, mantendo
o radinho diante da boca.
— Já — respondeu Johnny, a voz tornada algo metálica
pelo aparelho. — Como você não o quis ver, a ordem foi de
sepultá-lo imediatamente no cemitério local.
— Está bem. Suponho que você se tenha encarregado de
tudo isso. Que fazem nossos companheiros?
— Continuam vigiando Javlenko, pois você não deu
contraordem a respeito.
— Dou essa contraordem agora. Vigiem-no até ver que
eu me encarrego dele. Depois vocês todos se limitem a
manter-se na expectativa. Onde está Javlenko agora? E o que
faz?
— Está em seus aposentos nos “Sunset Eooms”.
Impossível saber o que faz.
— Avisem-me quando saia e digam-me onde posso
substituí-los nessa vigilância. É só, Johnny.
Fechou o rádio, acendeu um cigarro e aproximou-se da
janela da saleta. Ainda não 0 terminara quando viu chegar
Minel- lo com o carro alugado, um bonito conversível, do
qual saltou sem abrir a porta, agilmente. Ela foi recebê-lo.
— Não devia ter alugado um conversível, Frankie.
— Não? Por quê? Sei que lhe agradam...
— Para passear, sim. Mas não quando estou trabalhando.
— E qual é a diferença? Os conversíveis também têm
motor, rodas, assentos...
— E muito espaço para dar passagem livre às balas, de
qualquer lado.
Minello empalideceu e, por uns segundos, não soube o
que dizer.
— Vou trocá-lo agora mesmo — murmurou por fim.
— Deixe estar.
— Claro que não! Haverá em Las Vegas alguma empresa
que alugue carros de combate?
***
Em Las Vegas não se alugavam carros de combate, mas o
que Minello alugara foi trocado por um tipo sedan, sem
objeção. Depois ele e Brigitte dedicaram-se a comprar coisas
de uso pessoal, inclusive duas maletas, algumas revistas,
cigarros... Tomaram um martini num barzinho simpático,
jantaram num luxuoso restaurante, passearam, arriscaram
algumas moedas em máquinas caça-níqueis...
Pelas nove e quinze, Brigitte afastou-se da mesa de roleta
em que estivera contemplando as jogadas dos tensos
apostadores. Tomou Minello pela mão, saíram do cassino e
caminharam até onde tinham deixado o carro. Uma vez
dentro deste, ela tirou o radinho do decote.
— Alô — atendeu.
— Javlenko saiu. Está passeando.
— Por onde?
— Pela Strip, naturalmente. Parece o homem mais
tranquilo do mundo. Neste momento está diante do
“Flamingo”.
— Okay.
Ela fechou o rádio, tornou a guardá-lo no decote e pôs o
carro em marcha. Um minuto depois, detinha-se perto do
“Flamingo” e tornava a utilizar o aparelho.
— Onde está ele agora?
— Um pouco mais abaixo. Olha a vitrina de uma
alfaiataria.
— Que tipo tem?
— Alto, ombrudo, quase louro... Usa um paletó
esportivo, cor clara. Calças cinza. Tem boa figura.
Enquanto ia recebendo o informe, Brigitte olhava ao
redor. Viu a alfaiataria e, diante da grande vitrina, o atlético
personagem.
— Já o localizei — disse. — Qual é o número do
apartamento dele nos “Sunset Rooms”?
— Número 23, segundo andar. Escute, “Baby”, estamos
pensando que você sozinha...
— Johnny, não quero que nenhum de vocês seja
encontrado numa rua com duas punhaladas nas costas.
Compreende?
— Sim, sim, mas...
— É só. Vocês podem retirar-se.
Fechou o rádio, guardou-o agora na mantinha vermelha e
tirou desta a pequena pistola de coronha de madrepérola, que
prendeu à coxa esquerda com uma tira de esparadrapo cor de
carne. Tudo isto sem perder de vista o homem da vitrina, que
começava a afastar-se.
— Ele vai escapar — alarmou-se Minello.
— Estou vendo, Frankie. Adeus.
— Adeus? Mas...
— Volte ao motel.
— Ao motel? Mas não é normal. Somos casados e...
— Bem, talvez o tomem por um marido complacente, que
deixa sua mulherzinha divertir-se um pouco por Las Vegas.
— Pois não me agrada o papel de complacente! —
protestou Minello.
— Se você fosse um espião, teria que aceitar coisas
piores.
— Diga-me: para que foi que você me trouxe aqui?
— Para algumas coisinhas. E o que disse a Johnny digo a
você: não gostaria que o encontrassem apunhalado pelas
costas.
— Mas isto é absurdo! Se formos os dois juntos, ninguém
imaginará que somos espiões...
— Para o que vou fazer não posso levar companhia,
querido. E se você disser mais alguma palavra, chamarei
Johnny para que o mande de volta a Nova Iorque,
empacotado. Está ouvindo?
— Você não passa de uma... de uma ingrata, Brigitte!
Ela o olhou, sorriu e beijou-lhe rapidamente o rosto.
— Adeus, maridinho querido — despediu-se.
Saiu do carro e foi atrás de Igor Javlenko tranquilamente.
Estava certa de que não tardaria a ter uma excelente
oportunidade de, “casualmente”, entrar em contato com o
espião soviético. Brigitte lembram-se de uma frase, ouvida
havia muito tempo, de um parlamentar brasileiro, um certo
Abelardo Jurema, com quem um dia viajou pela América do
Sul. Dizia ele que, em Política, o acaso é uma intenção
cuidadosamente disfarçada. Pois ali estava uma boa
oportunidade de praticar o acaso.
TRÊS
O contato “casual”

Sam Browell, isto é, Igor Javlenko, entrou no cassino


“Red & Black” com um sorriso nos lábios e dirigiu-se ao
bar. De costas para o balcão, tomou seu uísque com gelo,
contemplando com divertido interesse a multidão
heterogênea que enchia a sala. Para um verdadeiro russo, por
muito americanizado que o tornasse sua formação para
residente nos Estados Unidos, aquele era um espetáculo
entre maravilhoso e deplorável. A cobiça, a ânsia de uma
riqueza súbita, estava latente em todos os olhos, em todas as
expressões.
Dinheiro.
Mas, na verdade, é o dinheiro que move o mundo e tinha
que, pelo menos, resignar-se com isto. Afinal de contas,
estava em Las Vegas justamente por uma questão de
dinheiro. Dinheiro que outras pessoas queriam, em troca de
algo cujo valor para a Rússia podia ser incalculável.
Terminou seu uísque, foi a uma dos caça-níqueis e
começou a tentar a consecução da pequena fortuna, sem
nenhum interesse autêntico. E, como sempre acontece na
vida, seu desprendimento teve o prêmio merecido: a
máquina deixou ouvir um tilintar e, por sua abertura em
forma de concha, começaram a cair reluzentes moedas.
Atônito, ele ficou imóvel ante aquela chuva metálica, sem
saber o que fazer, até que ouviu a seu lado um riso alegre,
seguido de uma sugestão:
— Se não as quer, posso perfeitamente me encarregar
delas, amigo.
Virou a cabeça e quase sobressaltou-se ao ver a belíssima
jovem de maravilhosos olhos azuis, que o olhavam com
irônica amabilidade.
— Como é? Vai querê-las ou não? — tornou a rir a
adorável criatura.
Afinal, o espião russo conseguiu reagir.
— Claro que vou! — declarou. — Há varias noites estou
tentando e...
— Pena — lamentou ela. — Bom, só me cabe invejar-lhe
a sorte. Não acha que deveria reparti-la?
— Quer uma parte das moedas? — assombrou-se o russo.
— Não, não... Ouça — ela franziu a testa — por quem
me toma você?
— Bem, eu...
— Ia sugerir-lhe apenas que me convidasse para um
drinque... Mas um drinque decente. Champanha, por
exemplo. Mas, na verdade, você não me parece um tipo
muito simpático. Bonitão, sim. Mas não muito simpático.
O soviético riu.
— Pois mesmo não sendo simpático, eu gostaria que
aceitasse tomar champanha comigo. Mas não sei como fazer
para apanhar tudo isto...
— Vê-se que você é um novato. Não trouxe chapéu?
— Não.
— E lenço?
— Lenço, sim.
— Cadê?
Rindo, Igor Javlenko estendeu-lhe seu lenço, que ela
colocou aberto no chão. Depois começou a recolher as
moedas, no que foi imitada por ele. Recolhido todo o
dinheiro, ela juntou as quatro pontas do lenço e, levantando-
se, indicou o bar.
— Espero que peça uma boa marca.
— Não entendo muito de champanha, portanto, diga-me
qual prefere.
Pouco depois, diante do balcão, ambos erguiam suas
taças de “Perignon 55”.
— Por uma noite de sorte — brindou a garota.
— Okay — riu Javlenko —, embora isso não seja fácil
nestes cassinos. Mmm... Como é seu nome?
— Lili. E o seu?
— Sam.
— Muito bem, Sam. Que pensa fazer esta noite? Jogar
roleta, por exemplo?
— Não me agrada muito jogar. E nunca aposto muito
dinheiro.
— Ora vamos! — escandalizou-se ela. — Não deve falar
assim, depois de ter esvaziado uma dessas malditas
máquinas! E há outro detalhe muito importante: eu estou
com você.
— E isso que significa?
— Não compreende? Sou a sorte, homem, a sorte! Não
faz muito, um cavalheiro também me convidou para um
drinque. Sugeri-lhe fazer uma aposta nos dados, fomos lá e,
em menos de meia hora, quanto pensa você que ele estava
ganhando?
— Não sei — sorriu Sam.
— Mais de vinte mil dólares! Que acha?
— Acho formidável, claro.
— Claro que é formidável! Vamos... Eu serei a sua caixa,
de acordo?
— De acordo — topou ele.
Tomaram mais champanha, sem que Javlenko deixasse
de olhar a seu redor... e sem que a simpática e não pouco
descarada Lili parasse de falar um segundo. Depois voltaram
às máquinas caça-níqueis, onde não houve sorte em meia
dúzia de tentativas, pelo que a jovem insistiu em que deviam
jogar “pra valer”, arrastando-o até uma mesa de dados. Lá,
para seu assombro, o russo começou a ganhar, e tanto que
precisou fazer um verdadeiro esforço para controlar-se, para
recordar que não estava em Las Vegas para jogar dados.
Sorrindo, afastou-se da mesa e propôs:
— Vamos a outro lugar, Lili.
— Você está louco? — protestou ela. — Se é aqui que...!
— Os dados me aborrecem. Vamos a uma roleta, então.
— Bom... — ela ergueu o lenço, cheio agora de cédulas e
fichas. — Você é o capitalista, querido. Pois vamos àquela
mesa...
— Não. À outra — ele indicou-a. — Acho-a mais
simpática.
Lili olhou-o surpreendida, mas deu de ombros, tomou-o
pelo braço e foram para a mesa indicada pelo russo.
Colocaram-se lado a lado, no primeiro espaço que ficou
livre, e ela pôs diante dele um montão de dinheiro.
— No 7 — disse. — É o meu número de sorte.
— Está bem — murmurou Sam, distraído.
Lili olhou-o ainda a tempo de vê-lo desviar os olhos de
determinado ponto daquela mesa. E enquanto ele empurrava
o dinheiro para o número 7, contemplou a jovem chinesa, tão
bonita e delicada, que a julgar pelo último movimento de
suas pálpebras acabava de baixar a vista.
Imediatamente ela fez o mesmo. Depois, devagar, foi
erguendo as pálpebras. O justo para, sem que ninguém o
percebesse, observar a jovem oriental, cujo rosto se mantinha
imperturbável e que olhava a bolinha de marfim girar na
roda numerada.
— Façam o jogo, senhores — ouvia-se a voz do croupier.
— Façam o jogo.
Na imaginação de Lili começou a aparecer a jovem
chinesa, escondida na sombra e com um punhal na mão,
esperando. Passava um homem e a chinesinha ia atrás dele,
cravava-lhe o punhal, o homem caía, ela tornava a apunhalá-
lo... Uma espiã chinesa poderia agir assim, sem nenhuma
hesitação...
— Jogo feito, senhores.
A chinesinha estava recolhendo suas fichas. Lili sabia
que, ao terminar aquela jogada, ela ia-se embora... Sim, já
recebera instruções de Javlenko sobre o que deveria fazer,
portanto, retirava-se.
Olhou de relance o russo, que tinha os olhos fixos na
bolinha, e lentamente começou a afastar-se, levando o lenço
com o dinheiro ganho por ele, que não se deu conta da
manobra.
— Onze! — cantou o croupier. — Onze, ímpar,
vermelho...
Lili aproximou-se da máquina caça-níqueis diante da qual
estava um indivíduo de aspecto pouco próspero e atirou-lhe
nas mãos o lenço cheio de dinheiro.
— Está de sorte, amigo — sorriu. — Compre uma roupa
nova, uma passagem para bem longe de Las Vegas e procure
um emprego tranquilo, que assim viverá mais tempo.
Enquanto o homem pasmava, ela saiu rapidamente do
cassino, caminhou pela Strip a toda pressa e entrou em outro,
cujas luzes vermelhas e verdes piscavam febrilmente.
Quem saiu em primeiro do “Red & Black”, às pressas, foi
Igor Javlenko, olhando em todas direções, cenho carregado.
Permaneceu assim uns segundos, sem saber que a “sem-
vergonha” que acabava de roubá-lo contemplava-o
sorridente, de lugar seguro, pensando:
— Sinto muito, colega, mas a nova personagem deste
assunto me interessa muito mais que você.
Bruscamente, o russo deu de ombros, fez meia volta e
dispôs-se a voltar ao cassino, talvez com a esperança de que
a formosa e simpática Lili ainda lá estivesse, que tudo fosse
engano seu, que ela simplesmente tivesse ido ao toilette... No
amplo vestíbulo de reluzente mosaico vermelho e negro,
quase tropeçou com a jovem chinesa, que se desviou
agilmente e seguiu seu caminho, sem olhar sequer para ele.
Por sua vez, sem dar importância a ela, o homem do MVD
desapareceu no interior do “Red & Black”.
— Talvez esteja me enganando — murmurou Lili.
A garota chinesa seguiu para a direita do cassino e tomou
um carro, que pôs imediatamente em marcha. E não menos
imediatamente, Lili precipitou-se para a calçada, furiosa
consigo mesma por não ter contado com aquela
eventualidade. Fixou o olhar na placa do carro, enquanto
pôde distingui-la. Depois dirigiu-se aos carros estacionados
daquele lado e, resolutamente, entrou num conversível.
— Parece que não poderei evitar um destes...
Por sorte, a chave estava na ignição e, segundos depois,
ela partia atrás da chinesinha que tinha trocado um olhar com
o espião soviético. Podia equivocar-se, certamente, em cujo
caso teria estragado o estupendo contato “casual”
conseguido com Javlenko, mas parecia-lhe significativo que
ele tivesse voltado ao “Red & Black”, que tivesse querido
jogar justamente na roleta em que estava a jovem chinesa e
que, mais importante que tudo, ambos tivessem trocado um
olhar.
Se estava enganada, paciência.
Sempre lhe seria possível dedicar-se novamente a Igor
Javlenko.
***
Afinal, o carro conduzido pela chinesinha deteve-se no
pequeno jardim de uma vila de dimensões modestas. Quando
suas luzes se apagaram, o carro ficou imerso em sombras,
pois não se via mais que uma janela iluminada, do outro lado
da casa.
Lili deteve também seu carro, que conduzira a maior
parte do tempo com as luzes completamente apagadas. Sabia
que estava ao sul da cidade, perto de Henderson e a pouca
distância de Lake Mead.
Durante uns segundos, imóvel, permaneceu absorta,
contemplando aquela vila. Encravada no lago Mead estava a
Represa Hoover... Poderia esta ter qualquer coisa a ver com
aquela espécie de boas relações entre um espião russo e uma
chinesinha?
A ideia não lhe agradou em absoluto. Um russo, uma
chinesa...
— Estou perdendo tempo — disse para si mesma.
Afastou ainda mais da estrada o carro roubado, apanhou
sua maletinha e, através do campo, dirigiu-se para a vila, que
fazia parte de um pequeno grupo residencial.
Dois minutos mais tarde estava agachada entre uns
arbustos do pequeno jardim da vila, com a maleta aberta à
sua frente. Continuava havendo luz apenas numa janela,
diante da qual se postara. Montou com rapidez o fuzil de
alumínio, feito com um tripé de câmara fotográfica, e nele
introduziu um dos diminutos dardos-microfones que sempre
trazia na maletinha. Apontou para a moldura da janela e
comprimiu o gatilho. Não se ouviu nada. Nem o menor
estalido.
Depois sacou o pequeno receptor-gravador, que parecia
um simples rádio de pilha, e efetuou a conexão com o
microfone disparado. Colocou os auriculares, ouviu vozes...
e, ato contínuo, não pôde reprimir uma exclamação de
aborrecimento.
Estava ouvindo tudo o que se falava no aposento da
janela iluminada, mas não entendia uma só palavra: a
conversa desenvolvia-se em chinês...
***
— Afinal — disse Li King Pao —, os russos não têm o
dinheiro que pedimos pelo microfilme.
— Não... — confirmou a jovem chinesa. — Ainda não o
têm, Li.
— Isto não me agrada.
A encantadora chinesinha Tai Lo olhou seu recém-
chegado visitante. Quando saíra de Las Vegas, Li King Pao,
o tão esperado, ainda não chegara à cidade do jogo, quer
dizer, à pequena vila que ela alugara perto dali, em
Henderson. E súbito ele aparecia, cheio de pressa... O que,
aliás, era muito lógico. Aquele assunto tinha que terminar o
quanto antes.
Li King Pao devia ter uns sessenta anos, era miúdo e com
a cara mais impassível que jamais pudesse ser encontrada em
qualquer chinês. Vestia-se com naturalidade à europeia.
Impenetrável, sossegado, sempre muito dono de si, era
impossível alimentar a menor esperança de descobrir o que
ele estivesse pensando.
— A mim tampouco agrada — admitiu por fim Tai Lo.
— Sobretudo depois de matar aquele homem. A polícia e o
FBI encarregaram-se do caso, mas tenho a impressão de que
ele era da CIA.
— Assim sendo, não estaria só.
— Estava só. Pelo menos, na ocasião. Do que não resta a
menor dúvida é que vigiava Javlenko. Pareceu-me que,
dadas as circunstâncias, o melhor era eliminá-lo.
— É possível que fosse o melhor, Tai. Mas se não estava
só e, na verdade, a CIA interveio no assunto, devemos
compreender que Javlenko está agora sob o controle de
agentes americanos.
— Previ isso e deixei Kao Yun vigiando o russo. Se a
CIA o detiver, saberei que devemos desaparecer daqui mais
que depressa. Tenho tudo previsto.
— Previsto? Como?
— Consegui um helicóptero e o tenho em lugar seguro.
De qualquer modo, ele nos será útil para viajar até o México
quando Javlenko fizer o pagamento.
— Isso está bem — aprovou o velho King Pao. — Mas
continua existindo o perigo de Javlenko se encontrar sob
controle da CIA.
— Não foi culpa minha. Quando recebi seu recado,
procurei o agente russo que me pareceu indicar-se mais.
Marquei encontro com ele num restaurante do Bairro Chinês
de San Francisco e lá tivemos uma breve entrevista. Ficamos
de nos encontrar todas as noites no cassino “Red & Black”,
de Las Vegas, e vim para cá. Já lhe havia dito que não estava
de posse do microfilme e disse-me ele que não era problema,
pois tampouco poderia reunir facilmente três milhões de
dólares, mas que esperava dispor de tal soma dentro de
quatro dias, em Las Vegas. No que me diz respeito, posso
garantir-lhe que não cometi nenhuma falha. Mas não podia
evitar que Javlenko estivesse sob a mira da CIA...
— Isso é comum — murmurou King Pao. — Localiza-se
um espião e, em lugar de detê-lo, deixa-se que ele se
movimente. De um modo geral, obtém-se muito mais dele
por esse sistema que o detendo. Mas, seja como for, a morte
desse americano deveria complicar as coisas. Estranho que
nada tenha ocorrido depois. Você não se interessou por isso?
— Não me pareceu prudente. De nenhum modo quero
colocar-me em evidência, ou a algum dos homens que me
acompanharam até aqui. Insisto em que tudo o que fiz foi
mandar Kao Yun seguir Javlenko. Não o perde de vista um
instante, de modo que se algo ocorrer ao russo eu saberei
imediatamente para poder tomar as precauções adequadas.
— O razoável é que, se o americano seguia Javlenko, a
CIA esteja ao corrente. Em cujo caso, o menos que terá
pensado é que foi Javlenko quem matou seu agente.
— É possível, claro — admitiu Tai Lo.
— Portanto, devem estar vigiando-o.
— Provavelmente estão — sorriu a chinesinha.
Li King Pao também sorriu, levemente.
— Isso lhe parece engraçado? — perguntou.
— Bem, de certo modo... Se vigiam Javlenko, é que não
suspeitam de mim, mas dele.
— Portanto, estarão esperando descobrir o que veio ele
fazer em Las Vegas.
— Naturalmente. Mas não descobrirão. Imaginamos um
sistema bastante conveniente para a entrega do microfilme e
o recebimento do dinheiro, de modo que, mesmo vigiando
Javlenko, a CIA não se poderá dar conta de nada.
Compreenderá, isto sim, que Javlenko conseguiu seu
objetivo em Las Vegas quando o vir disposto a abandonar a
cidade. É possível que, então, caiam sobre ele e tirem-lhe o
microfilme. Mas a essa altura já estaremos longe daqui com
três milhões de dólares, o que, afinal de contas, é a única
coisa que nos interessa.
King Pao assentiu e perguntou:
— Que sistema é esse?
— Ele chegará ao “Red & Black” com o dinheiro num
pacote que deixará no bar, para ser entregue à jovem que o
pedir.
— Uma jovem chinesa?
— Claro que não! Também previ isso, Li. Ele dirá
somente que uma jovem virá pedir o pacote deixado por seu
marido, do qual acaba de se divorciar e que se chama Sam.
Uma vez lá deixado o pacote, ele se aproximará da mesa
onde costumo jogar roleta todas as noites, olhará para mim e
me fará sinal de que o dinheiro está pronto. Minutos depois
se colocará a meu lado e eu lhe entregarei o microfilme.
— Por que processo? De mão a mão?
A chinesinha riu, divertida.
— Nada disso. De maneira nenhuma quero que vejam o
menor contato entre nós.
— Mas verão você retirar o pacote que ele terá deixado
no bar.
— Tampouco. Se realmente a CIA está seguindo
Javlenko, não o deixará sozinho, de modo que, quando tiver
apanhado o microfilme e sair do cassino, irão atrás dele.
Após alguns minutos, eu retirarei o pacote, sairei e irei
diretamente onde está o helicóptero.
— Esperemos que tudo saia bem. Como entregará o
microfilme a Javlenko?
Sorrindo, Tai Lo abriu sua bolsa, tirou uma ficha do
cassino, mostrou-a ao velho chinês e depois, com a unha,
separou as duas faces, aparecendo entre elas um vão
diminuto. King Pao pareceu satisfeito.
— Ele sabe disto? — interessou-se.
— Claro. Eu a deixarei a seu alcance, ela a apanhará e irá
embora. Não é complicado, mas é eficiente. E discreto.
— De acordo. Esperemos que esse russo logo receba os
três milhões e que, se a CIA o está vigiando, não o incomode
até que você tenha em seu poder o dinheiro. Depois, que
façam o que quiserem com ele e com o microfilme... Nosso
único objetivo é conseguir o dinheiro. Pouco nos importa
que o microfilme Mao-Ni Ko Sung fique com os russos ou
com os americanos. Claro que a quem interessa realmente é
aos russos, mas pior para eles se não souberam fazer bem as
coisas.
— O mesmo penso eu. Por isso, a possibilidade de que
Javlenko esteja vigiado pela CIA parece-me secundária,
contanto que a situação se mantenha até que eu ponha as
mãos nos três milhões de dólares.
— Exato. Onde está o helicóptero?
— Não o saberia explicar a você. Mas não se preocupe,
pois iremos juntos até lá quando recolhermos o dinheiro.
Teve dificuldades na viagem?
— Nenhuma. Quando lhe mandei o aviso, já estava fora
da China e o resto não foi complicado.
— Mas em Pequim se terão dado conta de sua ausência,
podem mesmo estar suspeitando alguma coisa. Um homem
de sua importância em nosso serviço secreto não desaparece
assim... Devem suspeitar que você se apoderou de algum
segredo.
— Isso não importa. Eu também previ tudo, Tai. Quando
tivermos o dinheiro, faremos a partilha e cada um irá por seu
lado.
— É melhor, claro. Trouxe o microfilme Mao-Ni Ko
Sung?
— Você o terá amanhã, quando voltar a esse cassino de
Las Vegas.
— Não confia em mim? — sorriu Tai Lo.
Surpreendentemente, apareceu uma expressão de
assombro no enrugado rosto de Li King Pao.
— Claro que confio em você! — exclamou. — De outro
modo não a teria incumbido deste assunto. Não esqueça, Tai,
que conheço centenas de agentes nossos no exterior e
poderia ter recorrido a qualquer deles. Se recorri a você, foi
porque me pareceu digna de inteira confiança.
— Você é muito gentil. Talvez queira comer alguma
coisa...
— Já comi uns sanduíches no avião. O que mais me
convém agora é descansar.
— Compreendo. Amanhã à noite poderemos partir para o
México, espero. Não é possível que o MVD precise de mais
tempo para reunir três milhões de dólares.
— Bom, não é uma soma desprezível, parece-me —
sorriu King Pao.
— Claro que não — tornou a sorrir a chinesinha. —
Liang levará você ao seu quarto. Desejo-lhe um bom
repouso.
Li King Pao levantou-se e um dos três chineses que
tinham assistido à conversa, silenciosos, imperturbáveis,
sentados no outro extremo da sala, imitou-o, indicando o
corredor que conduzia aos quartos.
QUATRO
Os segredos da China

Havia já pelo menos dois minutos que Lili não captava


nenhuma voz, nem o menor som pelos pequenos auriculares
encaixados em seus ouvidos. Exceto o deslizar ia fita
magnética no aparelho.
Convencida de que não iam falar mais por aquela noite,
tirou os auriculares e recolheu tudo cuidadosamente,
enquanto procurava uma solução para o problema
apresentado: tinha ouvido os nomes de Mao, Javlenko e
interpretara corretamente a menção à CIA, mas, claro,
necessitava o quanto antes de uma tradução perfeita daquela
conversa em chinês, se quisesse saber do que tinham falado.
A ideia de recorrer ao FBI não lhe agradou, mas,
lamentavelmente, era o meio mais rápido de que dispunha.
Tinha apenas que ir ao escritório de Cranston, pedir-lhe que
a pusesse em contato com Hadaway e passar a este, pelo
telefone, sua gravação, que por sua vez seria regravada lá, de
modo que em poucos minutos ele poderia ditar-lhe a
tradução. Sim, era o meio mais rápido, não havia dúvida.
Ergueu-se um pouco, olhando para a janela onde havia
cravado o dardo-microfone. Deixá-lo ficar lá podia ser muito
conveniente, mas também haveria o perigo de que, por
casualidade, alguém da casa o pudesse ver pela manhã. O
melhor era retirá-lo.
Aproximou-se sigilosamente, desencravou-o e afastou-se
silenciosa como uma gatinha, quase invisível na escuridão. A
certa distância, deteve-se atrás de umas moitas, abriu a
maleta, guardou o microfone...
E justamente quando ia tornar a erguer-se, teve a
sensação de perigo, aquela sensação que tão bem conhecia.
Iniciou o movimento de virar-se, enquanto introduzia a mão
direita sob a saia, em busca da pistolinha...
A pancada ressoou em sua cabeça.
O mundo deu uma volta velocíssima, entre estrelas de
todas as cores imagináveis.
Depois, escuridão total.
***
Ficou contemplando as estrelas, agora novamente com
sua cor habitual, dourada, cintilante.
— CIA? — ouviu.
Virou a cabeça para aquele lado e viu a figura de um
homem junto a ela. Um homem que estava sentado no chão,
com as pernas cruzadas. Em sua mão percebeu uma pistola.
Por puro instinto, olhou para o outro lado e, com efeito,
havia lá outro homem, também com uma pistola na mão. À
luz das estrelas podia distinguir perfeitamente seus traços:
eram dois chineses.
Apertou um pouco as pernas e um dos homens emitiu
uma risadinha amável.
— Tomamos a liberdade de revistá-la, por isso
encontramos a pistolinha. Vamos ficar com ela como
lembrança deste encontro. Espero que isso não a aborreça.
— Há muitas coisas que me aborrecem infinitamente
mais, senhor... senhor...
— Joe Sing. Meu companheiro chama-se Tin Wo. E seu
nome qual é?
— Lili Connors.
— Ah. Então o passaporte que encontramos em sua
maleta com o nome de Brigitte Montfort deve ser falso. E
também deve ser falso o de Monique Lafrance, cidadã
francesa; bem como o de Nora Teasdale, cidadã inglesa...
Tão falsos como suas perucas, seus frascos de cosméticos,
enfim, todas essas interessantes coisas que há em sua
maletinha. Ou será que o nome falso é o de Lili Connors?
— A verdade é que todos os passaportes são falsos.
Todos. Mas não vejo em que possa incomodá-los chamar-me
Lili.
— Nada em absoluto. Trabalha para a CIA?
— Trabalho.
— Bem. Nesse caso, é muito possível que cheguemos a
um acordo, Lili. Somos agentes residentes do serviço secreto
chinês nos Estados Unidos.
— Ótimo — sorriu “Baby”. — Poderíamos jogar pingue-
pongue se eu contasse com algum de meus companheiros.
Os dois chineses riram amavelmente e ela ampliou seu
sorriso, enquanto analisava a situação. Não lhe tinham
amarrado as mãos, nem os pés. Estava com os movimentos
livres, mas estendida no chão, em pleno deserto e com um
homem armado de cada lado. O silêncio era total... E a
situação, muito pouco tranquilizadora.
— Estamos perto de onde você deixou seu carro —
adivinhou o chinês da direita. — Certamente nos será útil, já
que chegamos até aqui num táxi. Primeiro, porque o único
carro de que dispúnhamos no momento ficou à disposição de
nosso companheiro no aeroporto. Segundo, porque era mais
discreto seguir Li King Pao num táxi que num carro
particular.
— Quem é Li King Pao?
— Como? Não sabe? Mas se escutamos a conversa que
você mesma deve ter ouvido enquanto a gravava em seu
maravilhoso aparelho...!
— Eu a ouvi, mas não entendi. Ignoro o chinês.
— Oh. Bem, é compreensível. Então, claro, não pôde
inteirar-se do que falavam Li King Pao e sua cúmplice Tai
Lo.
— Não. Tai Lo é a chinesinha?
— É. Imaginamos que você a seguiu desde Las Vegas,
não?
— Sim.
— Bem. Nós chegamos aqui, como lhe disse, seguindo Li
King Pao, desde o aeroporto. Não havia nem dez minutos
que tinha chegado, em outro táxi. Estávamos na dúvida se
devíamos atacá-los sozinhos, pois supomos que haja mais
homens na vila, ou voltar a Las Vegas para avisar nosso
companheiro que está esperando os que chegarão de San
Francisco, quando de súbito vimos a jovem chinesa saltar de
um carro. E enquanto hesitávamos a respeito do que
convinha fazer, aparece você como uma... gata. Resolvemos
que, no momento, o melhor era deixá-la trabalhar. E valeu a
pena.
— Pode ser que vocês entendam tudo muito bem, mas eu
não estou entendendo nada!
— Vejamos... Li King Pao é um homem muito
importante em Pequim. Tem acesso a todos os segredos. Há
duas semanas desapareceu de lá e, já que tantas coisas
conhece dos segredos da China, imaginamos que tivesse
escapado para tirar proveito disso. Foi dado o alarma e
organizou-se intensa vigilância na costa ocidental dos
Estados Unidos. Realmente, hoje mesmo Li King Pao
chegou a San Francisco, procedente de Hong Kong. Mas, ao
pôr os pés no aeroporto, tomou outro avião, este com destino
a Las Vegas. Nossos companheiros de San Francisco nos
avisaram pelo telefone, recomendando-nos que, por
enquanto, simplesmente verificássemos onde se instalava.
Assim, quando ele chegou ao aeroporto de Las Vegas e
tomou um táxi, nosso companheiro ficou lá esperando nossas
notícias e os homens que chegarão de San Francisco. Nós, no
momento, temos a missão de regressar ao aeroporto, esperar
os de San Francisco e dizer-lhes onde está Li King Pao. Eles
decidirão.
— Devo entender que Li King Pao escapou da China com
algum segredo que pensa vender aos americanos?
— Não, não... A quem esse segredo interessa é aos
russos, que estão dispostos a pagar por certo microfilme
trazido pelo traidor Li King Pao a soma de três milhões de
dólares.
— Fiuuu...! — “Baby” emitiu um gracioso assobio. —
Três milhões de dólares! Que contém esse microfilme?
— Receia-se em Pequim que contenha praticamente todas
as conversas mantidas por Mr. Nixon durante sua
permanência na capital chinesa e, possivelmente, também
microfotos das decisões adotadas pela China sobre uma série
de assuntos, após a visita de Mr. Nixon.
— Deus! — exclamou Brigitte, com os olhos muito
abertos.
— Vemos que se dá conta da importância desse
microfilme. Claro, Li King Pao teve excelentes
oportunidades para obtê-lo.
E quanto aos russos, creio que três milhões de dólares por
semelhante informação nada representam. Não está de
acordo?
— Completamente. No Kremlin dariam saltos de alegria
se a pudesse obter, ainda que lhes custasse dez vezes mais!
— Sem dúvida. Por isso eu disse que poderíamos chegar
a um acordo: nem a você nem a nós interessa que a Rússia
tome conhecimento dos detalhes da visita de Mr. Nixon a
Pequim, das decisões bilaterais, das conclusões da China, da
modificação de certas linhas de conduta, de pactos secretos...
— Se estão me pedindo ajuda para conseguir esse
microfilme, podem contar comigo incondicionalmente.
— Muito bem. Claro, atacar agora com êxito essa casa
simplificaria tudo para todos, mas, como já disse, por
enquanto somos apenas três chineses em Las Vegas. Três
chineses do serviço secreto, entende-se.
— Posso conseguir, em alguns minutos, todos os homens
que desejem para atacar essa casa.
— Ah, perfeito...
— Mas, antes, desejaria saber o teor da conversa entre
essa jovem chinesa e Li King Pao.
— Isso lhe explicaremos com muito gosto — interveio o
outro. — A conversa foi a seguinte...
Uma vez traduzida a conversa entre King Pao e Tai Lo,
os dois chineses olharam para “Baby”, que se tinha sentado
e, como eles, estava com as pernas cruzadas. A expressão da
espioníssima internacional era fácil de analisar inclusive à
luz das estrelas.
— Parece que algo a afetou especialmente — disse Tin
Wo.
— Quero ser eu quem mate essa mulher.
— Tai Lo? Por quê?
— Ela apunhalou meu companheiro em Las Vegas. E
ninguém que elimine um de meus companheiros tem minha
permissão para viver. É algo que nunca perdoo.
Joe Sing e Tin Wo crisparam o rosto e suas mãos armadas
moveram-se um pouco, como adotando uma posição mais
defensiva... ou mais ameaçadora, que se confirmou quando,
de imediato, ambos puseram-se de pé, afastaram-se uns
passos e apontaram-lhe decididamente suas armas.
— Você é “Baby”! — quase gritou Joe Sing.
— Não diga tolices — murmurou Brigitte.
— Não pode ser outra.
— Bem, suponhamos que sou “Baby”... Que importância
teria isso? Numa ocasião como esta, o sensato é colaborar. O
contrário poderia significar que Igor Javlenko conseguisse
esse microfilme, com grande prejuízo tanto para os Estados
Unidos como para a China. Não é assim?
— É... Mas não queremos tratos com você!
— Não seja absurdo, Sing — replicou ela. — Às vezes é
preciso deixar certas questões de lado para resolver outras
muito mais importantes.
— Não, não... Todos nós do serviço secreto chinês temos
ordem de matá-la! E eu lhe direi uma coisa: estávamos
pensando realmente em aceitar sua ajuda e a de alguns de
seus companheiros para ir em busca do microfilme. Depois,
teríamos eliminado todos vocês, já que, como compreenderá,
não nos interessa que a CIA tome conhecimento de boa parte
do conteúdo do microfilme. Sim, Tin Wo e eu estávamos
pensando isso... Mas não. Com você não podemos correr o
menor risco. Trataremos de nos arranjar sem a ajuda da CIA.
E quanto a você, obrigado por ter conseguido esta gravação
para nós e... adeus!
Plop, soou abafada a pistola de Joe Sing.
Mas, então, a mais perigosa espiã do mundo já sabia que
ele seria o primeiro a disparar e, quando a bala saiu da
pistola, ela já estava em movimento.
E a uma velocidade espantosa. Seu salto para cima e para
o lado foi tão absolutamente fantástico, que Tin Wo também
errou o tiro, enquanto ela lhe caía em cima. O choque foi
terrível, mais que suficiente para que ambos tivessem rolado
pelo áspero terreno do deserto.
Mas “Baby” não tinha o menor desejo de ir ao chão
engalfinhada com o chinês, pelo que o segurou enquanto,
com uma rapidez fora de qualquer possível reação por parte
de Wo e Sing, passava para trás do primeiro, rodeando-lhe
com o braço esquerdo a cintura e levando a mão direita, por
baixo de sua axila, até sua mão armada.
Joe Sing gritou algo em chinês ao companheiro,
certamente que se afastasse, que se desembaraçasse dela,
enquanto movia a pistola procurando uma chance para
acertá-la. Enquanto isso, Tin Wo estava tentando soltar a
mão direita que ela segurava por trás e emitiu um grito ao
compreender que nunca o conseguiria, que aquela delicada
mão cravava-se em seu pulso como uma tenaz de aço.
Possivelmente devido à dor, apertou o gatilho da pistola, por
simples crispação nervosa.
E diante dele Joe Sing estremeceu quando a bala passou
roçando seus cabelos. Foi então que, querendo conservar a
vida fosse como fosse, ele cometeu o erro fatal de disparar
contra seu próprio companheiro, para que este não pudesse
prosseguir apertando o gatilho na direção em que “Baby” o
queria forçar, isto ê, contra ele.
Os resultados foram completamente opostos aos que Joe
Sing previra e desejara.
A bala disparada por ele, com efeito, atingiu o peito de
Tin Wo, mas com isto só conseguiu que o companheiro
perdesse as forças, de modo que “Baby” pôde então orientar
a pistola contra ele próprio, com toda a facilidade.
Gritando, compreendendo então seu engano, Joe Sing
continuou a disparar, indiferente a tudo, exceto encher de
balas aqueles dois corpos unidos num insólito abraço... A
cada disparo, o corpo de Tin Wo sacudia-se e, por certo, teria
caído, se “Baby” não o mantivesse fortemente seguro,
utilizando-o como escudo protetor, enquanto sua mão
deslizava-lhe pelo pulso até a pistola empunhada
crispadamente.
Quando a tocou, enquanto girava para ter sempre entre
ela e Sing o corpo de Wo, tropeçou numa pedra e os dois
caíram para trás.
Gritando de alegria, Joe Sing, de um salto, assumiu a
posição perfeita para disparar e...
Plop.
Plop.
As balas disparadas por Brigitte com a pistola de Wo o
atingiram na cabeça. Ele tombou de costas.
Brigitte ficou ainda uns segundos desnecessariamente
atenta. Finalmente, levantou-se. Olhou a pistola que tinha na
mão, limpou nela qualquer impressão digital sua e colocou-a
na de Tin Wo. Depois apanhou sua maletinha, certificou-se
de que tudo estava lá e, revistando Joe Sing, encontrou sua
pistola. Antes de dirigir-se a seu carro, olhou penalizada os
dois chineses mortos.
— Obrigada pela tradução, colegas — murmurou.
CINCO
Mais três milhões de dólares

— Frankie... Frankie!
Tal como imaginara ao não ver o carro diante da cabana,
acabou se convencendo de que Frank Minello não estava lá.
Em parte preocupada e em parte irritada com seu querido
amigo, recorreu ao radinho de bolso. Esteve ouvindo o bip-
bip de chamada, até que a voz de Johnny soou no aparelho,
um tanto rouca, sonolenta:
— Alô.
— Johnny, vocês viram o meu amigo?
— Minello? Não... Bom, na verdade estávamos
dormindo. Como você disse para não intervirmos em nada e
estivemos dois dias sem pregar olho...
— Compreendo. E acho que fizeram muito bem.
— Que há com Minello? Não está com você?
— Disse-lhe que voltasse à cabana, pois não o podia levar
comigo durante o contato que tencionava fazer com
Javlenko, mas não está aqui.
— Bom. Talvez tenha resolvido divertir- se em Las
Vegas, onde há de tudo que um homem possa desejar.
— Frankie jamais faria isso sabendo que participa de um
de meus trabalhos.
— Então não sei. Quer que o procuremos?
— Sinto muito ter que dizer-lhe isto, Johnny, mas eu lhe
agradeceria que o fizessem. É, porém, um favor especial, que
nada tem a ver com...
— Não diga tolices. Se isso é tudo o que podemos fazer
por você, vamos entrar em ação agora mesmo. Embora Las
Vegas não seja um simples lugarejo. Se está em algum
cassino, nós o veremos, mas se embarcou em alguma
aventura...
— Não, não. Essa possibilidade está descartada. Antes,
receio que se tenha metido em alguma encrenca. Quero que
o procurem, mas com muita prudência. E, enquanto isso,
pensem no modo de reunir, numa pasta, três milhões de
dólares.
Houve um breve silêncio. Por fim, a voz de Johnny, num
sussurro:
— Como foi que disse?
— Necessito três milhões de dólares antes de doze horas.
— Mas...
— Não me diga que em Las Vegas não há essa soma.
— Mas não vamos assaltar cassinos... Ou sim?
— Pouco me importa como a consigam, mas necessito
com toda a urgência dessa quantia. Máximo: doze horas.
Quando a tiverem, avisem-me. É só. Obrigada, Johnny.
Ela fechou o radinho, deixou-o sobre a cama e despiu-se.
Foi ao banheiro, sentou- se na banheira e abriu a água
quente, pensativa. Sim. As coisas se encaixavam, finalmente.
Primeiro, Li King Pao com o microfilme que agora sabia
chamar-se Mao-Ni Ko Sung. Enquanto isso, de acordo com
um contato anterior, Tai Lo procura um agente russo e
propõe-lhe a aquisição de tão importante material.
Imediatamente, o russo, Igor Javlenko, aceita e transporta-se
a Las Vegas, onde Tai Lo tem que reunir-se com Li King
Pao, que chegará com o microfilme. Também em Las Vegas,
Javlenko espera receber os três milhões de dólares para o
pagamento.
Por fim, Li King Pao chega com o microfilme, mas
aparentemente não se fia muito em Tai Lo, pelo que lhe diz
que o entregará no dia seguinte. Conclusão: Li King Pao tem
o microfilme escondido em algum lugar seguro e não se
desfará dele até o momento decisivo. Portanto, ir buscar por
mal o microfilme pode ter consequências desastrosas, pelo
que é melhor esperar até que, por sua própria vontade, o
chinês o tire de seu esconderijo. Modo de conseguir isto: que
Javlenko disponha o quanto antes dos três milhões de dólares
e, de qualquer modo, avise Tai Lo que tudo está preparado
para a transação.
Depois Tai Lo, a chinesinha que apunhalou Johnny pelas
costas, partirá num helicóptero, com o dinheiro e com Li
King Pao... Uma garota esperta. Mas, certamente, leva a
morte em seus calcanhares.
— Deveria ir matá-la agora — murmurou Brigitte.
Mas, na verdade, não era conveniente. A morte podia
esperar umas poucas horas...
— Mao-Ni Ko Sung... — divagaram os pensamentos de
Brigitte. — Claro. Como não o entendi logo? Na China
chamaram de No Ko Sung o Presidente Nixon. A entrevista
ou entrevistas dos dois chefes de estado devem estar
explicadas no microfilme. E muitas coisas mais. Bem...
Conseguir esse microfilme será formidável: poderemos saber
o que pensam realmente os chineses, que influência pôde ter
esse contato de cúpula, que possíveis variações em termos de
atitudes e ideias terá podido produzir na China com relação
aos Estados Unidos... Três milhões? É barato!
Ensaboou-se, tomou depois um chuveiro frio e voltou ao
quarto. Vestiu uma bata que tinha comprado em Las Vegas
aquela mesma tarde, acendeu um cigarro e sentou-se numa
das pequenas poltronas, olhando seu reloginho, colocado
junto ao rádio de bolso.
Franziu a testa.
— Esse pateta de Frankie... Onde se terá metido e o que
estará fazendo?
***
Frank Minello cuspiu sangue, depois cravou o olhar
apagado, inexpressivo, no homem que tomara a vez do outro
para espancá-lo. Tinham-no golpeado sem descanso,
machucando as mãos em seu duro rosto, mergulhando os
punhos em seu ventre, martelando-lhe as costelas...
Ele tinha a cara inchada, vermelha em certas zonas,
arroxeada em outras. O olho direito estava quase fechado,
ardiam-lhe as orelhas, tinha os lábios partidos por dentro. As
mãos estavam amarradas, por trás das costas da cadeira.
Diante dele, o espancador de turno. O outro, fatigado,
sentara-se na beira da Cama e contemplava-o entre amistoso
e divertido.
— Já vi tipos duros, mas como este nenhum. É o maior
teimoso do mundo. Olhe, amigo, é melhor que pense bem:
temos toda a noite por diante para esbordoá-lo até que
responda a nossas perguntas. Está me ouvindo?
Minello virou a cabeça para ele, pareceu sorrir, pôs a
língua de fora e fez:
— Prrrr!
O que estava de pé diante dele tomou a erguer o poderoso
punho, mas o outro levantou-se e se aproximou, sorrindo.
— Vamos, não seja idiota, homem. Não compreende que
a coisa é séria? Olhe, nós somos profissionais e, portanto,
estamos admirando você. Mas saiba que mais tarde ou mais
cedo nos dirá tudo o que queremos ouvir. Por que passar um
mau bocado, então? Vai responder às nossas perguntas?
— Prrrr!
— O que está fazendo é uma estupidez — riu o amável
personagem. — Podemos continuar nos revezando e você se
cansará muito antes que nós...
— Não percamos mais tempo — disse o outro — o ferro
só pode ser tratado a marteladas.
— Há uma coisa que devemos compreender — refletiu o
mais cordial. — Este homem só pode obstinar-se assim por
algo que valha muito para ele. Mais que sua própria vida, sua
integridade física... Tenho certeza de que, mesmo se o
fizermos em pedaços, não dará resposta a nossas perguntas.
Não por ele: está protegendo alguém. E parece disposto a
enfrentar qualquer coisa para isso. Verdade, amigo?
— Prrrr! — fez novamente Minello.
O espancador simpático puxou uma cadeira, sentando-se
diante do prisioneiro.
— Façamos um trato — propôs. — Você, a julgar por
seus documentos, chama-se Frank Minello. Bem, isto é tudo
o que sabemos a seu respeito. Diga-nos só uma coisa, que o
deixaremos tranquilo: que foi fazer no apartamento de Sam
Browell?
— Prrrr!
— Está se excedendo, Minello — advertiu o outro. —
Não somos pessoas que aguentem tolices. Fomos visitar o
nosso amigo Browell nos “Sunset Rooms” e quando batemos
na porta já tínhamos ouvido rumor em seu apartamento, pelo
que naturalmente julgamos que ele estivesse lá, mas
ninguém respondeu, fez-se silêncio absoluto. Então, fomos...
esperar em baixo, na rua. Pouco depois saiu você do prédio,
olhando para todos os lados, o que nos fez desconfiar.
Assim, metemo-nos no seu carro, pistola na mão, e o
trouxemos a este bangalô que alugamos ao chegar a Las
Vegas. Indiscutivelmente, você foi procurar alguma coisa na
morada de Sam Browell: o quê? E para quem você trabalha?
Seus documentos dizem que é jornalista, mas qualquer
profissão pode servir para ocultar outras atividades. Está me
entendendo, não é?
— Vá para o inferno! — rugiu Minello.
Recebeu um soco terrível e foi lançado para trás, com
cadeira e tudo. Bateu duramente com a cabeça contra o chão,
ao tombar, ficando imóvel.
Durante uns segundos, os dois homens estiveram
olhando-o torvamente. Por fim, o que o golpeara olhou para
o que era mais amável.
— Tomara que tenha fraturado o crânio — resmungou,
em russo.
— Não diga tolices. Este homem tem uma informação
vital para nós, Vladimir. Se estava nos “Sunset Rooms”, é
porque o camarada Javlenko foi descoberto. Mantêm-no sob
controle. E este homem quis aproveitar sua ausência para dar
uma olhadela às suas coisas.
— Você acha que ele é da CIA?
— Tenho quase certeza. Ou, pelo menos, será do FBI.
— Quer dizer que o assunto tornou-se mais difícil do que
parecia. Se Javlenko foi localizado, se está sob vigilância,
será melhor abandonarmos o caso.
— Não seria tão simples — murmurou Andrei. —
Javlenko pediu nada menos que três milhões de dólares. Tal
quantia deve fazer-nos compreender a importância do
objetivo.
— Por muito importante que seja esse objetivo, uma
coisa é certa: se nos aproximarmos de Javlenko, seremos
caçados também. De modo que não lhe podemos entregar o
dinheiro que trouxemos, nem perguntar-lhe nada... Ele não
dispõe de rádio e, quanto a chamá-lo pelo telefone, não
devemos nem pensar nisso.
— Porquê?
— Se o localizaram e o mantêm sob controle, seu
telefone está vigiado. Olhe, fomos entregar-lhe o dinheiro e
tropeçamos com este indivíduo. Creio que tivemos muita
sorte. Aproveitemo-la.
— Quer dizer que devemos abandonar Las Vegas?
— Podemos avisar Javlenko, dizer-lhe o que ocorre, pois
parece que o ignora, e ele que se arranje como puder. Seria
uma estupidez deixar-se caçar pela CIA em troca de algo que
nem sabemos o que é... e ainda por cima oferecer aos
americanos numa bandeja nada menos que três milhões de
dólares. Penso que deveríamos tentar o contato com
Javlenko.
— É uma loucura... Não se deve abusar da sorte. Esta vez
não fomos caçados porque mandaram este sujeito sozinho ao
apartamento dele, enquanto outros o vigiavam de perto. Seria
arriscadíssimo entrarmos em contato com ele, compreenda.
— Ele está esperando o dinheiro — Vladimir indicou o
armário.
Andrei dirigiu-se ao móvel e dele tirou uma velha maleta
de couro, que abriu. Continha três milhões de dólares. A
importância de um assunto de tal valor estava ao alcance de
qualquer compreensão. Eles tinham sido enviados com o
dinheiro, sem mais explicações, portanto, se regressassem
com ele dizendo que Javlenko fora envolvido pela teia de
aranha da CIA, ninguém poderia censurar sua atitude.
Certamente, a perder três homens e três milhões de dólares, o
MVD preferiria perder só um homem. Pior para este.
Entretanto... Bom, Andrei não ignorava que teria poucas
oportunidades como aquela de destacar-se aos olhos de seus
superiores. Deveria haver um meio qualquer...
— Em que está pensando? — Vladimir olhou-o com
intenção.
O amável Andrei sorriu simpaticamente.
— Acho que tive uma boa ideia — disse.
***
— Não tenho a menor ideia — afirmou Johnny. — Sinto
muito, mas não conseguimos nenhuma pista do seu amigo,
“Baby”. Olhe, atendendo ao seu pedido, trouxe-lhe o
dinheiro.
Brigitte assentiu, olhando a pequena maleta que ele tinha
deixado sobre o sofá ao entrar na cabana. Eram nove horas
da manhã, portanto, pedira aqueles três milhões havia pouco
mais de seis, e ali os tinha. Não importava como.
— Mas... e Frankie?
— Você sabe como é — tentou Johnny tranquilizá-la. —
Aqui se joga noite e dia, sem interrupção. Talvez Minello
tenha jogado até tarde, talvez tenha ganhado e celebrado...
Certamente estará para voltar aqui, depois de uma noite...
agitada.
Brigitte não respondeu. Tinha certeza de que aquilo era
impossível, mas seria inútil tentar convencer Johnny. Tão
inútil como tentar convencer a si mesma de que nada tinha
ocorrido a Frankie. E, claro, a ausência do amigo não podia
significar nada de bom para a missão e para ele próprio.
O agente da CIA mostrou-se inquieto.
— Bem... Que há para fazer?
— Nada.
— Nada? Não quero bancar o esperto com você, mas se
pediu esse dinheiro será para alguma coisa, não?
— Eu me ocuparei dessa parte.
— Você sozinha? Insiste nisso?
Brigitte pensou no Johnny chamado
Morton, que já baixara ao túmulo. Em Frank Minello,
cujo paradeiro desconhecia...
— Sim, eu sozinha.
— Nós não pretendemos lhe servir de estorvo, mas
pensamos que poderíamos segui-la, protegê-la... Com toda a
discrição, naturalmente.
— Não... Não, Johnny, obrigada.
— Que pensa fazer?
— Prosseguir com meu jogo. Todos estamos fazendo
nosso jogo. Esperemos que o meu seja o melhor.
— Possivelmente será o melhor, mas; não esqueça que
neste assunto intervém o serviço secreto chinês e o MVD. E
que...
— Não esqueço nada. Será melhor que você volte para
junto de nossos companheiros e que todos continuem
esperando instruções minhas. E lembre-se que intervindo
sem ordem minha poderão complicar as coisas.
— Está bem — Johnny levantou-se. — Vamos dedicar-
nos a descansar esperando seu chamado. Até então.
“Baby” ficou sozinha na cabana e, durante mais de dez
minutos, permaneceu pensativa. A ideia de reunir todos os
Johnnies que pudessem deslocar-se rapidamente a Las Vegas
e atacar com eles a pequena vila onde estavam Li King Pao e
Tai Lo tornou a ocorrer-lhe, mas uma vez mais foi
descartada. Li King Pao tinha escondido o microfilme ao
chegar, sobre isto não havia dúvida. Talvez não confiasse
muito em Tai Lo, apesar de suas palavras. Em tais
condições, atacar seria absurdo. Claro que poderiam
facilmente vencer os chineses reunidos naquela vila, mas
certamente isso daria lugar a que King Pao, ou por cair
morto ou por negar-se a revelar onde o escondera, não lhes
facilitasse a consecução do microfilme.
— Só posso fazer uma coisa — resolveu —: seguir meu
próprio plano.
Meia hora mais tarde, saía da cabana.

SEIS
Um acordo com o MVD

Igor Javlenko, entre surpreendido e interessado,


contemplou a mulher de cabelos louros, olhos escuros,
volumoso busto, horrível vestido e grossos óculos que tinha
batido na porta de seus aposentos.
— Que deseja? — perguntou.
— Posso entrar, mister Browell?
Ele entrecerrou as pálpebras. Havia algo de familiar
naquela mulher que parecia ter uns quarenta anos.
Certamente já a vira em algum lugar de Las Vegas.
— Creio que está enganada... — sorriu.
— Naturalmente procura outro Browell.
— Não, não. Procuro o senhor mesmo — ela ergueu a
maleta que trazia na mão esquerda. — Estou absolutamente
segura.
— Bem... Entre, por favor.
Ele afastou-se e a mulher entrou, olhando para todos os
lados. Mas havia pouco o que olhar, já que o aposento era
modesto, pequeno. Um armário, duas cadeiras, uma velha
escrivaninha, a cama e o banheiro.
— A espera terminou — disse ela.
— Sim? — Javlenko olhava-a com curiosidade. — A que
espera se refere?
Ela colocou a maleta sobre a cama, abriu-a e indicou seu
conteúdo. Igor Javlenko aproximou-se, viu a enorme
quantidade de cédulas americanas e manteve-se uns
segundos imóvel.
— Suponho que não será necessário contar — murmurou.
— Não — disse a mulher, agora em russo. — São
exatamente três milhões de dólares, camarada Javlenko. Não
era a soma que estava esperando?
— Com efeito — replicou ele, também em russo. —
Francamente, vocês não se deram muita pressa, camarada...
— Galina... — sorriu ela. — Galina Cherkova. Deve
compreender que reunir três milhões de dólares não foi fácil.
— Sim, claro... Compreendo, mas já estava ficando
nervoso.
— Duvidava de que poderia dispor do dinheiro?
— Quase começava a duvidar... Por outro lado, meu
contato ainda não recebeu a mercadoria, tampouco, o que me
deixa bastante preocupado. Tenho a impressão de que o solo
começa a arder sob meus pés.
— Sei o que é isso — sorriu Galina. — Já experimentei
algumas vezes a mesma coisa. E quando tal acontece, o
melhor que se pode fazer é terminar com o assunto e sumir o
quanto antes. Acho que deveria informar seu contato de que
já tem dinheiro. Talvez isto o decida a admitir que também já
está de posse da mercadoria.
— Poderia ser. Mas não se trata de um homem, como
parece estar pensando: é uma mulher.
— Ah... Bem, não creio que isso tenha importância.
— Mas não sabia?
— Não. Disseram-me que trouxesse o dinheiro aqui, sem
mais explicações. Tudo o que tenho a fazer é entregar-lhe
esta maleta, depois levar a mercadoria a San Francisco.
— Tem que levar a mercadoria? Por que não eu mesmo?
— Javlenko franziu a testa.
— Não sei. Só sei é que, quanto antes terminarmos,
melhor será. Avise seu contato que...
— Não posso fazer isso, pois ignoro onde está.
Tampouco dispomos de meio algum para estabelecer
comunicação, salvo o de todas as noites, no cassino “Red &
Black”.
— Isso quer dizer que temos que esperar a noite?
— Exato: inevitavelmente.
— Bem. É uma contrariedade, mas enfim... Teve algum
contratempo?
— Nenhum. Nada digno de menção. E estou começando
a aborrecer-me em Las Vegas. Você veio de San Francisco?
— Vim. Cheguei há poucos minutos.
— Sozinha?
— Claro.
— Você deve ter nervos perfeitos — sorriu o espião. —
Não é nada tranquilizador fazer uma viagem transportando
tanto dinheiro.
— Não havia fronteiras a cruzar.
— É verdade. Suponho que deverá procurar alojamento.
Ou ficará aqui mesmo?
— Talvez seja o mais conveniente.
— Não sei... Bom, pensaremos nisso. Traz alguma
instrução especial de San Francisco?
— Já lhe disse tudo.
Igor Javlenko assentiu com a cabeça.
— Quem lhe deu o dinheiro para mim? Korvanoff?
— Quem? — sorriu Galina.
— Korvanoff.
— Creio que não ouvi direito Ou talvez esteja
propositalmente me fazendo de surda, camarada Javlenko.
Sabe muito bem que, salvo quando imprescindível à
identificação, nunca utilizamos nossos nomes russos.
— Sei, claro — riu Javlenko. — Já tomou seu café?
— Sim, no avião.
Ele assentiu, depois olhou outra vez o dinheiro com
expressão divertida... e preocupada. Ainda com o olhar fixo
na maleta, disse:
— Andrei.
A porta do banheiro se abriu e Andrei entrou no quarto,
pistola na mão. Cravava o olhar em Galina, que, após crispar
levemente o rosto, sorriu.
— Olá, Andrei! — saudou-o, de excelente humor.
— Olá, camarada Galina — sorriu também o simpático
russo. — Como vai?
— Otimamente. Não sabia que Igor estivesse
acompanhado em Las Vegas.
— Pois como vê, aqui estou eu. Vim justamente trazer-
lhe três milhões de dólares.
— Ah, sim? — ela abriu muito os olhos.
— Que coincidência! Eu também. Não é surpreendente?
— Surpreendente?
— Bom, parece que nossos chefes quiseram ter certeza de
que Igor disporia do dinheiro e o enviaram duas vezes.
Andrei pôs-se a rir, enquanto Javlenko olhava um tanto
inquieto Galina Cherkova, cuja desfaçatez revelava-se
formidável.
— Camarada Galina, vou pedir-lhe um favor — disse
gentilmente Andrei —: ponha as mãos na cabeça, vire-se de
costas e fique quietinha. De acordo?
Ela tornou a sorrir, deu de ombros e obedeceu. Andrei
passou a pistola para a mão esquerda, enquanto Javlenko
sacava também a sua. O primeiro colocou-se atrás dela e
começou a passar-lhe a mão pelo corpo. Tornou a rir ao
passá-la pelos avultados seios, cuja natureza podia
surpreender um pouco: eram postiços, de espuma. Também
havia uma camada de recheio rodeando a cintura e os quadris
de Galina Cherkova, que se conservava absolutamente
imóvel.
Ao passar a mão por suas coxas, Andrei sentiu o volume
da pistolinha. Levantando-lhe a saia, arrancou-a de um
puxão, depois se colocou diante dela.
— Não se canse mais — sugeriu —: baixe os braços.
— Obrigada. Você é muito amável.
— Procuro ser, sempre que possível. Olhe, Galina, não
temos nenhum interesse especial em recorrer a processos
desagradáveis, mas queremos saber qual o seu sistema de
trabalho. Segundo o que você disser, faremos uma coisa ou
outra.
— Meu sistema de trabalho costuma ser suave, Andrei...
sempre que possível.
— Muito bem. Creio que chegaremos a um acordo
conveniente para nós e para você, pois decerto quererá sair
viva desta pequena encrenca em que se meteu.
— Gostaria muitíssimo.
— Você é da CIA?
— Sou.
— Conhece um cara chamado Frank Minello? Ah, por
sua expressão, vejo que sim.
— Que aconteceu com ele?
— Por enquanto, nada. Embora merecesse um desgosto
muito sério por meter o nariz onde não era chamado. Devo
dizer-lhe que, para um agente da CIA, ele me pareceu
bastante inábil.
— Frankie não é da CIA, como lhes deve ter dito.
— Não, não, ele não disse nada. A única coisa que fez foi
“prrrr!”... e receber alguns golpes. Mas compreendemos que
devia ser da CIA, ou do FBI, e como aqui esteve mexendo
nas coisas de Igor...
— Que idiota! — exclamou Galina. — Eu lhe disse que
não fizesse nada, que fosse para a nossa cabana do motel... É
verdade que esteve aqui?
— É. Trata-se de um homem teimoso, duro de roer...
Mas, claro, ficamos de sobreaviso. Compreendemos que Igor
estava sob controle e, como tinha que falar com ele para dar-
lhe o aviso, tive uma ideia vulgar, mas boa: ontem à noite
aluguei um carro, fui dar umas voltas e esta manhã regressei
a Las Vegas, procurando alojamento... aqui nos “Sunset
Rooms”. Foi o modo mais seguro de falar com Igor. E
estávamos falando quando você bateu. Parece realmente que
Igor está num bom aperto, não?
— Eu diria que sim — sorriu Galina.
— Pois teremos que arranjar um modo de resolver isso. E
pergunto se você estaria disposta a ajudar-nos.
— Em troca da vida de Frank Minello, estou.
— Muito bem. Há alguém à sua espera aí fora?
— Não.
— Tem certeza? Porque se vamos iniciar um tiroteio...
— Já me mataram um companheiro, por isso afastei os
outros, para não complicar as coisas.
— Mataram um da CIA? — saltou Javlenko.
— Sim. E foi sua amiguinha Tai Lo. Ignorava isso?
— Claro que ignorava.
— Ela cravou-lhe um punhal pelas costas. De início,
pensamos que tinha sido você.
— Ela fez isso?
— Deve ter percebido que meu companheiro vigiava
você e isto pareceu-lhe perigoso... para ela. Decerto
compreendeu que você seria caçado, mas quer o dinheiro e
espera consegui-lo antes que a CIA possa detê-la. Depois
partirá e o que acontecer com você não é coisa que a
preocupe. No caso de você ser detido antes de lhe entregar o
dinheiro, ela só terá que ir a outro lugar e fazer novo contato
com o MVD, para tornar a oferecer o microfilme Mao-Ni Ko
Sung.
Igor Javlenko olhou seu camarada Andrei e deixou-se
cair na beira da cama, abatido.
— Tudo fracassou, então. Se a CIA sabe...
— A CIA, não — corrigiu Galina —: eu. Além disso,
estou capacitada a tomar qualquer decisão e podemos fazer
um acordo à base de duas concessões por parte de vocês.
— Que concessões?
— Primeira: que deixem Frank Minello partir. Segunda:
que me facilitem o modo de matar pessoalmente Tai Lo. Não
peço mais.
— E em troca...?
— Vocês dirão.
Olhou-os serenamente. Súbito, uma expressão de
assombro apareceu no rosto de Andrei.
— Seria fantástico... — murmurou. — Sim, fantástico!
— A que se refere? — perguntou Galina.
— Estou pensando que você pode ser “Baby”.
— Sim, sou “Baby”.
Javlenko saltou de pé e, em sua precipitação para
apontar-lhe a pistola, quase deixou cair esta. “Baby” olhou-o
sorridente. Andrei tinha dado um assobio de assombro.
Visivelmente impressionado, murmurou:
— Agora, mais que antes, creio que podemos chegar a
um acordo.
— Por que não? — aceitou “Baby”.
— Mas não vamos discuti-lo aqui.
— Onde você quiser, camarada.
— Olhe, se você mentiu e lá embaixo há agentes da CIA,
tudo terminará mal para alguns de nós.
— Estou sozinha.
— Arriscaremos tudo nessa carta. Apanhe a maleta e a
caminho: vamos ter uma pequena conferência no bangalô.

SETE
Uma troca impossível

Frank Minello deu um salto com cadeira e tudo quando a


mulher loura de olhos escuros, recém-chegada em
companhia de Andrei e Javlenko, inclinou-se para ele e deu-
lhe um beijo na testa.
— Mas...!
— Calma, querido. Tudo vai bem.
— Tudo vai bem! — vociferou ele. — Apanhei mais
pancada que um burro empacado por não querer dizer nada
de você! E agora...
— Tranquilize-se. Eles são russos. É muito possível que
cheguemos a um acordo. Posso desamarrá-lo e cuidar um
pouco dele? — perguntou, virando-se para Andrei.
— É todo seu — concordou o russo. — E muito me
alegro por não o ter eliminado.
Ela olhou-o fixamente por trás dos grossos óculos.
— É bem possível, Andrei, que esse tenha sido o ato mais
conveniente de sua vida.
— Estimo saber disso. Creio que há uma pequena
farmácia no banheiro. E enquanto você cuida do seu amigo,
nós estudaremos o assunto para ver que espécie de acordo
podemos propor-lhe.
Brigitte assentiu com a cabeça e foi ao banheiro, sem que
os russos revelassem qualquer intenção de vigiá-la.
Retiraram-se para um canto e começaram as deliberações,
Andrei tomando a iniciativa:
— Eu vejo as coisas assim: por enquanto, ela não mentiu
a respeito de que mais agentes da CIA o estejam vigiando,
Igor. Se isto é absolutamente certo e a situação puder
manter-se assim, não haverá problema. Devemos ter em
conta, porém, todos os imponderáveis e o mais lógico destes
consiste em que, por falta de notícias de “Baby”, ou por
algum sinal de alarma convencionado, seus companheiros
tornem a localizar e vigiar você.
— Isso é o mais provável — murmurou Javlenko.
— Em tal caso, parece que só temos duas alternativas:
partir agora mesmo ou prosseguir com o assunto, você indo
receber o microfilme.
— Até às dez da noite não o poderei fazer.
— Não importa o tempo. Enquanto tivermos “Baby”
conosco, não sofreremos ataque algum. Estaremos a salvo
enquanto a vida dela depender de nós. Então, esta noite você
vai ao cassino levando o dinheiro, conforme combinou com
seu contato, recebe o microfilme e...
— Mas se os da CIA, por falta de notícias de “Baby”,
voltaram a controlar-me, certamente me deterão.
— Isso é possível. Se eles aproximarem-se de você, não
ofereça resistência: deixe que o agarrem.
— Você está...!
— Espere. Ao sair do cassino, deixe cair o microfilme...
Qual é o sistema?
— Ele me será entregue dentro de uma ficha oca.
— Ah, ótimo! Bem, você sai do cassino, deixa cair essa
ficha e segue seu caminho, de regresso ao apartamento.
Estarei à sua espera fora do cassino, apanharei a ficha e virei
para cá. Se ninguém o incomodar, simplesmente recolha suas
coisas e tome o primeiro avião para qualquer parte. Depois
continuará a viagem para Moscou. Isso não representaria
nenhum problema para você. Se tudo acontecer assim, deixe
no aeroporto um recado para Ralph Groves, meu nome
americano, dizendo que tudo foi bem. Se mais tarde, quando
eu for receber esse recado no balcão de Informações, lá não
houver recado nenhum, ficarei sabendo que você caiu em
poder da CIA. Mas já estaremos de posse do microfilme.
— E eu nas garras da CIA.
— Nós temos “Baby” — sorriu Andrei.
— Acha que aceitariam trocá-la por você?
Igor Javlenko olhou seu camarada Andrei com expressão
de pasmo. Depois sorriu, enquanto Vladimir assentia
energicamente.
— É uma solução formidável, Andrei! Deste modo,
teríamos o microfilme e todos poderíamos voltar à Rússia. A
CIA não teria dúvida em trocar “Baby” por Igor. De
qualquer modo, teria perdido o microfilme...
— Bem, Igor: que diz você?
— Parece-me possível — admitiu Javlenko.
— Possível? Você só terá que esperar a noite. Levará,
então, o dinheiro ao cassino. Nada lhe pode acontecer.
Absolutamente nada. Talvez os da CIA o retenham por
alguns dias, mas... que importa isso?
— De acordo. Não vejo outra solução, com franqueza.
— Pois está falado. Será melhor você sair daqui agora
mesmo. E não se esconda. Se resolveram vigiá-lo
novamente, convém que o encontrem, que se mantenham
tranquilos... Compreende?
— Claro. Bem, até à noite.
Igor Javlenko partiu e Vladimir esfregou as mãos.
— Foi uma ideia estupenda, Andrei! E sem risco para
ninguém.
— Não estou tão certo disso — murmurou Andrei,
soturno.
— Como? Se você mesmo disse que...
— Esqueça o que eu tenha podido dizer. O que interessa
neste assunto é o microfilme. E quando a CIA se decidir a
agarrar Igor, talvez nós já o tenhamos. Mas o pobre Igor...
— O pobre Igor? Mas se o trocarmos por...
— Esqueça isso. Se no Diretório soubessem que tínhamos
trocado um dos nossos pela agente “Baby”, nos cortariam a
cabeça, ou pouco menos.
— Que está dizendo?
— Não compreende? Não haverá troca, Vladimir.
— Mas...
— Está bem, a mim isto aborrece tanto quanto a você,
mas tenho certeza de que no Diretório preferirão que
fiquemos com “Baby”. Acha que nos felicitariam se a
trocássemos por um simples agente como nós?
— Mas, se não a trocarmos, a CIA ficará com Igor...
— O Diretório dará um jeito de trocá-lo por algum outro
agente americano. Tal como eles conhecem alguns
elementos nossos, também conhecemos elementos deles. É
só caçar um e propor a troca à CIA.
— Andrei, isso será uma sujeira para com o Igor...
— Você sabe de alguma atividade de espionagem que
não seja uma sujeira?
— Não é justo... Não é justo fazer isto com ele...
— Escute: você quer tomar a direção do assunto e
enfrentar depois as consequências de seus atos, quando
chegarmos a Moscou?
— Não... Não.
— Então chega de conversa. Vamos ver que trato
fazemos com “Baby”.
Aproximaram-se dela, que estava acabando de colocar
umas tiras de esparadrapo no rosto de Minello, cuja
expressão não podia ser mais sorumbática. Esperaram que
terminasse, ofereceram-lhe um cigarro e, quando ela sentou-
se no sofá junto a Minello, disse Andrei:
— Esta é nossa proposta, “Baby”: você ficará aqui, com
seu amigo e conosco; se tudo sair bem e Javlenko conseguir
escapar com o microfilme, deixaremos os dois neste bangalô,
amarrados e amordaçados, até que consigam soltar-se por
seus próprios meios. Se tudo sair mal e seus companheiros
da CIA caçarem Javlenko, você procurará um modo de pôr-
se em contato com eles e dizer-lhes que o devem deixar
partir, senão nós a mataremos. Está claro?
— Está.
— Aceita?
— No que me diz respeito, sim. Mas pode estar certo de
uma coisa, Andrei: a CIA não soltará Igor Javlenko enquanto
vocês não me soltarem.
— Buscaremos uma solução para isso — assentiu Andrei.
— Mas, naturalmente, nós também queremos todas as
garantias.
— Terão, quanto à libertação de Javlenko, as mesmas que
tenha a CIA quanto à minha. Uma troca ou se faz seriamente
ou não se faz.
“Baby” desviou o olhar para Vladimir e a expressão deste
não lhe agradou. Imediatamente compreendeu que algo não
encaixava na proposta de Andrei. E não teve que se esforçar
muito para compreender a verdade, mas quis certificar-se:
— Se meus companheiros detiverem Javlenko, claro que
lhe tirarão o microfilme.
— Não se preocupe com isso, é um detalhe que já
consideramos.
— Bem, de qualquer modo, sua proposta me parece
generosa, Andrei. Não precisava fazer nenhum acordo
comigo, já que sou sua prisioneira.
— Digamos que é apenas nossa convidada. Vamos passar
o dia aqui, conversando tranquilamente. Mas, claro, sem
nenhuma espécie de truques: tire todo esse disfarce, por
favor.
Ela mordeu os lábios, mas compreendeu que não devia
deixar-se enganar pela amabilidade do espião russo. Assim,
tirou a peruca, os óculos, os recheios... e olhou para Andrei,
que sorriu.
— As lentes de contato também.
Brigitte deixou a descoberto seus maravilhosos olhos
azuis. Os dois soviéticos olharam-na como fascinados,
enquanto ela, imperturbável, ajustava ao corpo o vestido
agora muito largo e afofava o cabelo. Frank Minello, cara
inchada, um olho coberto, com tiras de esparadrapo por toda
parte, cravava seu único e furibundo olho servível num e
noutro russo. Finalmente virou-se para Brigitte.
E esta captou sem erro o pensamento do amigo: agora o
MVD ia dispor de sua descrição completa, o que era o
mesmo que uma sentença de morte, ou, pelo menos, um
rapto e uma viagem bem custodiada a Moscou, onde sua
vida se transformaria num inferno... enquanto durasse. E o
que queria Minello era atacar. Atacar naquele momento,
houvesse o que houvesse, para evitar-lhe um tão negro
futuro.
Brigitte moveu negativamente a cabeça, sorrindo.
— Não, Frankie — disse simplesmente. — Esperaremos.
Os russos compreenderam tudo com estas palavras e
Andrei sorriu amistosamente.
— Por sorte para todos nós — disse —, você é mais
inteligente que seu amigo, “Baby”.
— E muito mais que você, pedaço de idiota — rugiu
Minello. — Se fosse esperto, não a teria obrigado a mostrar-
se tal como é. Até hoje, ninguém que a tenha visto como é
realmente...
— Cale-se, Frankie.
— Calar-me por quê? A situação não pode estar mais
clara! Estes espiões de araque...!
— Não menospreze nunca um espião, Frankie —
aconselhou Brigitte. — Estou certa de que o colega Andrei,
enquanto esperamos, irá pensando no que realmente lhe
convém. E talvez, se tiver sorte, chegue a uma conclusão
conveniente... para ele, claro.
— Está me ameaçando? — perguntou o russo.
— Não. Mas uma coisa lhe digo, Andrei: se algo me
acontecer, você não sairá vivo dos Estados Unidos. Pense
bem.
— Como você disse, temos tempo — o russo deu de
ombros. — E, pensar é bom. Melhor que falar, Minello.
Tenha isto em conta. Se não calar a boca, Vladimir terá
muito gosto em tornar a submetê-lo a tratamento.
— Ele que venha — Minello levantou-se punhos em
riste. — Que venha esse cretino, agora que estou com as
mãos livres!
— Amarre-o, Vladimir — disse sossegadamente Andrei.
— Não quero complicações.
— Amarrar-me? — grunhiu Minello. — Gostaria de ver
isso!
Andrei apontou a pistola para a cabeça de Brigitte e
repetiu:
— Amarre-o, Vladimir. E a ela também. Assim estaremos
muito mais tranquilos.
Frank Minello olhou a pistola apontada para a cabeça de
Brigitte e baixou as mãos. Não tinha mais nada a dizer, na
verdade.
OITO
A dança dos milhões

— São quase sete horas — disse Andrei — e não houve


nenhuma novidade. Esperemos que durante as três que
faltam...
Então houve uma novidade.
As palavras de Andrei foram cortadas pelo som
inesperado de vidros partidos e, em seguida, enquanto os
dois russos viravam-se sobressaltados para a janela
despedaçada, de lá vieram os abafados estalidos de vários
disparos feitos com silenciador.
Os dois, que tinham levado a mão às suas armas, nem
sequer chegaram a empunhá-las. Estremecendo a cada
balaço que recebiam, gemendo, crispando-se, saltando para
um e outro lado, acabaram por cair, mas não sentiram a
queda, pois já estavam mortos quando chegaram ao chão.
Brigitte apressara-se a saltar do sofá, interpondo-o entre
seu corpo e a janela. Minello a imitara e ambos ficaram
juntos, atados de pés e mãos, olhando-se. Após o ruído da
vidraça e dos tiros, sobreveio um silêncio estranho, tenso.
Minello olhou os russos e murmurou:
— Os da CIA devem ter encontrado...
— Não são da CIA os que atiraram, Frankie.
— Como não? Se mataram os russos...!
— Cale-se.
Ouviram mais ruído de fragmentos de vidro caindo no
chão, depois um baque surdo. Um homem tinha entrado pela
janela, da qual pelo menos mais outro havia disparado contra
Andrei e Vladimir. Ouviram agora a maçaneta da porta,
depois pisadas, aproximando-se.
Minello ficou atônito quando a formosa jovem chinesa
apareceu em seu campo visual. Em seguida viu os três
chineses que a acompanhavam. Finalmente olhou para
Brigitte, que estava pálida e tinha os lábios apertados.
— Como é isso? — perguntou a chinesinha. —
Pensávamos que você fosse russa... Não é?
Brigitte não respondeu. A jovem dirigiu-lhe um olhar
sorridente e perverso, disse alguma coisa em sua língua e
Brigitte e Minello foram novamente colocados no sofá por
dois dos homens. Depois, a um sinal da chinesinha,
arrastaram os cadáveres de Vladimir e Andrei para um dos
quartos.
Enquanto isso, a jovem foi à maleta, abriu-a e sorriu
encantadoramente ao ver os maços de cédulas americanas.
Tornou a fechá-la e, ainda sorrindo, virou-se para Brigitte.
— Parece que algo não encaixa — disse com
tranquilidade; virou-se para um dos chineses. — Kao Yun,
encarregado de vigiar Javlenko para avisar-me se eu tivesse
que escapar de Las Vegas a toda pressa, veio dizer-me esta
manhã que uma mulher tinha levado uma maleta ao russo e
que, com outro homem, ela e ele vieram para cá. Isso me deu
o que pensar e, como Kao Yun disse que Javlenko, ao sair,
não levara a maleta, concluí que o dinheiro continuava aqui
e, assim, vim buscá-lo. Mas encontrá-los amarrados me
surpreendeu. Não compreendo bem.
— Nisso eu lhe levo vantagem — disse Brigitte.
— Sim?
— Compreendo bem sua jogada: quis ficar com o
dinheiro, simplesmente, sem entregar o microfilme. Suponho
que Javlenko irá esta noite em vão ao “Red & Black”: você
não estará lá.
— Claro que não. Para que, se já tenho o dinheiro e posso
vender o microfilme a algum agente de qualquer outra
nacionalidade, em qualquer outro lugar? Ou talvez aos
próprios russos, na Europa... Veremos. O certo é que, agora
que Javlenko já não me poderá pagar, deixou de interessar-
me em absoluto. Mas vocês me interessam. Você, em
especial... Não é a mulher que, a noite passada, esteve com
ele no “Red & Black”?
— Sou.
— Bem, tudo parece confirmar que é russa, não? Mas
neste caso, por que amarraram os dois?
— Não somos russos.
Tai Lo pestanejou e seus olhos negros brilharam daquele
modo perverso.
— Não são russos... Então, são americanos. Claro!
Imagino que tenha havido um pouco de agitação com a
morte de um dos seus. Mas continuo sem compreender. Se
você é americana, por que foi levar a maleta com três
milhões de dólares a Javlenko?
— Queria convencê-lo de que era russa, para que ele
conseguisse o quanto antes o microfilme e me entregasse.
Recorri ao dinheiro da CIA.
— Muito inteligente. Mas os russos se deram conta, não?
— Sim, porque o dinheiro que ele esperava já tinha
chegado.
Tai Lo tornou a pestanejar.
— Significa isso que há outros três milhões de dólares
dando voltas por aí, então?
— Javlenko os tem. Estes são da CIA. Os do MVD estão
com ele, para lhe serem entregues esta noite em troca do
microfilme.
A chinesinha ficou pensativa. Seus Olhos oblíquos não
tinham expressão alguma. Pouco a pouco, porém, o sorriso
perverso voltou aos seus lábios.
— Creio que Javlenko volta a interessar-me.
— Compreendo. Serão seis milhões em lugar de três.
Intimamente, Brigitte sentia-se aborrecida consigo
mesma. Desde que Tin Wo e Joe Sing lhe haviam traduzido
a gravação, na noite anterior, sabia que um chinês chamado
Kao Yun vigiaria Javlenko. Se em vez de silenciar isto aos
russos ela o tivesse dito, talvez a situação não se tornasse tão
crítica como agora. Dos russos, o pior que podia recear era
que conseguissem levá-la a Moscou; mas daquela
chinesinha...
Quando tornou a olhá-la, deu-se conta de que Tai Lo
estava adivinhando parte de seus pensamentos. Pelo menos,
os referentes à sua morte iminente.
— Como compreenderá, terei que matar os dois — disse
a chinesa. — Mas não aqui. Ocorre-me uma ideia muito
melhor. Se os russos souberem de tudo isto, pensarão que foi
a CIA quem matou esses dois. Inclusive Javlenko pensará
assim, quando se inteirar... se viver para isso. Um confronto
entre a CIA e o MVD, eis tudo. Enquanto isto, vocês serão
enterrados em algum lugar longe daqui e ninguém saberá
mais nada a respeito de ambos. Assim, poderei partir
tranquilamente e conservando a amizade dos russos, pois
Javlenko dirá que foram os da CIA que mataram seus
companheiros.
— Perfeito — assentiu Brigitte.
— Não é mesmo? — sorriu a chinesinha.
— Sem a menor dúvida. Depois de matar-nos, você pode
ir ao “Red & Black” entregar o microfilme a Javlenko,
receber c dinheiro e partir no seu helicóptero com Li King
Pao.
— Mas então me conhece? E conhece Li King Pao? Está
a par de tudo?
— Absolutamente de tudo.
— Pois é muito esperta. Tão esperta que poderia ser a
própria “Baby”... — uma súbita expressão de surpresa
apareceu nos olhos de Tai Lo. — Não! Não me diga que...!
— Eu não digo nada. Você está dizendo tudo.
— Ah! De modo que você é “Baby”! Quer dizer que
tenho diante de mim cinco milhões de dólares...
— Parece que hoje é o seu dia de sorte. Conseguir onze
milhões de dólares nunca foi fácil para ninguém, num só dia.
Tai Lo olhava-a incrédula. Em sua mente várias ideias se
cruzavam: matá-la ali mesmo, cortar-lhe a cabeça e vendê-la
ao serviço secreto chinês? Ou vendê-la aos russos? Ou levá-
la viva e arrancar-lhe segredos da CIA que podiam valer
mais de cinco milhões de dólares? Ou...?
Virou-se de súbito para seus homens, deu umas ordens e
saiu do bangalô. Um dos chineses levantou Brigitte e
colocou-a sobre os ombros, enquanto Minello, embora
amarrado, iniciava um ataque torpe, que outro chinês cortou
pela raiz, golpeando-o com a pistola na cabeça.
Os outros dois carregaram-no para o carro dos russos, em
cujo porta-malas já fora colocada Brigitte. Atiraram-lhe
Minello em cima, sem contemplações e fecharam o capô. Os
três chineses subiram ao carro e afastaram-se. Pouco mais
além, apareceu outro carro, no qual ia Tai Lo, que lhes fez
um sinal, e os dois carros rodaram para Henderson, rumo à
pequena vila, onde esperava King Pao.
***
Li King Pao tinha perdido sua impassibilidade chinesa,
sem a menor dúvida.
— Então, isso significa que vamos obter seis milhões de
dólares, não três?
— Exatamente — sorriu Tai Lo.
— Ótimo... ótimo! Quando vai ao cassino buscar o
dinheiro de Javlenko?
— Quando você me entregar o microfilme, naturalmente.
— Oh... Oh, sim! — riu ele. — Tem razão. Vou buscá-lo
agora mesmo... Mas, diga-me: que pensa fazer com “Baby” e
seu amigo?
— Não sei... Preciso pensar com calma. Você tem alguma
ideia?
— No momento, não. Claro, entregá-la aos russos nos
proporcionaria mais cinco milhões... Mas isso poderia trazer-
nos dificuldades. E, quanto ao que me diz respeito, poria de
lado desde já a possibilidade de fazer qualquer trato com os
nossos. Eles sabem perfeitamente que os traí, mas, como
tomei minhas precauções, isto não me preocupa, pois nunca
poderão encontrar- me. Quanto a você, talvez saibam alguma
coisa, talvez não, embora devam ter compreendido que
dispus de alguém aqui, nos Estados Unidos. E quando derem
pelo seu desaparecimento, chegarão a conclusões perigosas.
Não a aconselharia a tratar com os nossos. E com os russos...
Não sei. Claro que são quinze milhões de rublos, mas
conviria pesar muito bem os prós e contras.
— Bom, haverá tempo para isso. No momento, o que
interessa é ir buscar esses três milhões que Javlenko tem para
mim.
— Para nós — sorriu King Pao.
— Foi o que quis dizer. São oito horas apenas, mas
convém que você me entregue o microfilme e que eu siga
para Las Vegas. É melhor que eu chegue a tempo de dar
umas voltas, para ver se está tudo em ordem.
— Acha que a CIA possa estar perto de Javlenko? Se já o
vigiavam...
— Sei que não teremos contratempos — Tai Lo indicou
Brigitte. — Ela se encarregou de tudo, portanto não haverá
dificuldades. Inclusive Javlenko poderá escapar... e dizer em
Moscou que a CIA eliminou dois de seus companheiros.
Li King Pao, sorrindo, saiu da casa. Regressou dois
minutos mais tarde e colocou na mão de Tai Lo uma
pequena cápsula de plástico.
— Aí o tem — murmurou. — O microfilme Mao-Ni Ko
Sung. Os russos terão um colapso de alegria.
— Sem a menor dúvida. Onde o guardou?
— Escondi-o no jardim ao chegar, ontem à noite. Nunca
se sabe o que pode acontecer. Não que desconfiasse de você,
mas...
— Pois fez mal.
— Como?
— Fez mal em não desconfiar de mim. Foi muito mais
prudente ontem à noite do que agora. Pois se já tenho o
microfilme... de que me serve você?
Li King Pao tinha agora o rosto cor de clara de ovo. Na
mão direita de Tai Lo aparecera uma pistola e, antes que ele
pudesse reagir, dois pequenos clarões brotaram da ponta do
silenciador, sublinhados por duas detonações abafadas. O
velho chinês estremeceu, arregalou os olhos, levou as mãos
ao peito e caiu sem um gemido.
A chinesinha olhou então para Brigitte, que permanecia
imperturbável.
— Surpreendida, “Baby”?
— Nem um pouco. Já a definira como uma assassina.
— E se eu a deixar viva, não se surpreenderá?
— Nem assim.
— Mas deve estar se perguntando por que não a mato.
— Não sinto a menor curiosidade por você nem pelos
seus pensamentos.
— Quer dizer que, como espiã, considera-me inferior,
não é isso?
— Espiã? — sorriu Brigitte. — Não seja vaidosa. Você
tem de espiã o mesmo que eu de chinesa.
Tai Lo olhou para Minello, que para surpresa de Brigitte
continuava inconsciente, estirado no chão.
— Falaremos disso quando eu voltar — disse por fim a
chinesa. — Se não fosse porque a prefiro conservar viva até
ter certeza de que poderei escapar no helicóptero, você não
viveria nem um segundo mais. Se, porém, me ocorrer
alguma dificuldade com a CIA, convém que você esteja
viva.
Dito isto, ela encaminhou-se para a porta com seus quatro
homens.
— Kao Yun virá comigo agora — disse no limiar. —
Apanhe o dinheiro dos americanos e leve-o para o
helicóptero. Espere lá até às dez horas, depois volte aqui para
buscar Wun, Tao e Liang. Quero que todos estejam no
helicóptero quando eu regressar. Entendido?
— E esses dois?
— Eu os matarei na volta. Se não voltar, lembrem-se que
ela vale muito para a CIA e que poderiam trocá-la por mim.
Têm alguma dúvida?
— Não.
— Bem. Enquanto isso, não saiam da casa para nada.
Para nada, está claro?
— Está.
— Vou subir e trocar de roupa, para ir ao cassino. Espere-
me no carro, Kao. Iremos a Las Vegas com o carro dos
russos e o deixaremos lá. Você irá a pé buscar o helicóptero
e eu tomarei um táxi para voltar. É só.
Tai Lo subiu a seu quarto, trocou de roupa e depois abriu
completamente o armário para tirar uma das malas que lá
havia. Colocou-a no chão, junto da cama, abriu-a, tirou
algumas peças de roupa e deixou a descoberto a tremenda
carga explosiva que continha, assim como o mecanismo de
relojoaria, que ligou com movimentos seguros e hábeis.
Olhou seu relógio fez um cálculo e colocou o ponteiro
marcando dez menos dez. Com aquela carga não restariam
nem os alicerces da vila.
Fechou a mala, empurrou-a para debaixo da cama e saiu
do quarto. Um minuto depois, reunia-se com Kao Yun, que a
esperava ao volante do carro dos russos. Sem o menor
comentário, partiram para Las Vegas, cujas luzes coloridas
divisavam refletindo-se no céu.
Estavam na metade do caminho quando a chinesinha
lançou uma exclamação de sobressalto e, em seguida,
ordenou:
— Pare! Pare, Kao!
Este obedeceu, deteve o carro o mais possível para a
direita e virou-se para ela.
— Que...?
Plop, plop, plop.
Três clarões brilharam, vermelhos, no interior do carro.
Kao Yun foi impelido contra a porta a seu lado e lá ficou,
olhos muito abertos e fixos em Tai Lo. Estava tão morto
como o mais antigo de seus antepassados. Súbito, caiu para o
lado e a chinesa se afastou, saindo do carro. Rodeou-o, abriu
a porta junto ao volante e foi empurrando o cadáver pelo
assento, até fazê-lo cair fora do carro e rolar até uma valeta.
Ninguém o poderia ver antes que amanhecesse.
Tai Lo sentou-se ao volante e continuou a viagem para
Las Vegas, em busca de outros três milhões. Quando os
tivesse, não restaria a menor pista dela, pois a vila já teria
explodido com todos os seus ocupantes. Pena que não
pudesse matar também Igor Javlenko, mas, enfim, nenhum
plano pode ser absolutamente perfeito.
Pensou em Las Vegas, no jogo, nas roletas e sorriu. Ela,
sim, estava fazendo um jogo formidável, infalível.
E sem arriscar nada, ao contrário de qualquer outro
jogador.
Ela, simplesmente, ia ganhar sem fazer nenhuma aposta.
Tinha, tão-somente, que recolher os ganhos e partir.

NOVE
Jogar e perder

Deviam ser dez horas menos quinze quando Igor


Javlenko saiu de seu modesto apartamento levando um feio
pacote feito com sólido papel de embrulho, que ninguém
poderia supor contivesse três milhões de dólares.
Como nas noites anteriores, percorreu lentamente a Strip,
passeando, de modo que às dez estivesse diante da mesa de
roleta do “Red & Black” escolhida por Tai Lo para a troca de
olhares significativos. Se tampouco aquela noite ela tivesse
recebido o microfilme, a situação se tornaria insustentável.
Principalmente porque não achava nenhuma graça na
possibilidade de ser caçado pelos homens da CIA. E, se as
coisas continuassem assim, eles não tardariam a mover-se,
devido justamente à falta de notícias de “Baby”.
Deteve-se de súbito, sobressaltado, ao ouvir o surdo
estrondo. Como um trovão distante... Ainda, ao virar-se
rapidamente, teve tempo de ver, para leste, aquela intensa luz
que por um instante fez empalidecer todas as de Las Vegas.
E, como ele, a multidão que transitava pela Strip virou-se,
olhando para o céu, onde rapidamente havia brilhado aquele
clarão enorme. Ao seu redor, todo o mundo começou a fazer
comentários e conjeturas: parecia uma explosão, tinha sido
na Represa Hoover, talvez se tratasse de uma explosão
atômica acidental, que podia ter causado centenas de vítimas
entre as Forças Armadas...
Javlenko sorriu e desinteressou-se dos comentários. Não
tinha tempo para formular hipóteses de nenhuma espécie. A
única coisa que queria era terminar aquele maldito assunto
de uma vez. Se o conseguisse, seria efusivamente felicitado
em Moscou, provavelmente o incumbiriam de missões mais
importantes...
Quando se deu conta, estava diante do “Red & Black”.
Entrou, enquanto consultava o relógio. Tinha tempo de fazer
o mesmo de sempre. Arriscou algumas moedas nas máquinas
caça-níqueis, tomou seu uísque com gelo, perambulou pelo
salão... Poucos minutos antes das dez deteve-se junto à mesa
de roleta onde, sentada, imperturbável como de hábito,
estava Tai Lo, jogando como se isto fosse a única coisa que
lhe importava na vida.
Em determinado momento ergueu o olhar, que pareceu
chocar-se com o de Javlenko. E este quase estremeceu
quando captou o discretíssimo sinal afirmativo... A
chinesinha trouxera o microfilme! Ela fez uma aposta, mas o
russo ficou como cravado no chão, esperando. Talvez não
tivesse interpretado bem o sinal...
— Façam o jogo, senhores, façam o jogo!
A bolinha estava dando voltas. Tai tornou a olhá-lo e ele
captou, agora sem dúvida alguma, o sinal afirmativo. Fez
meia volta e dirigiu-se ao bar.
Chegou diante do balcão e chamou um dos garçons.
— Diga, cavalheiro.
— Olhe, amigo, tenho a pedir-lhe um favor... Meu nome
é Sam. Mais tarde virá aqui uma jovem buscar este pacote. É
minha... Bem, foi minha mulher. Acabamos de nos
divorciar... Ela deixou comigo umas coisas, que pediu pelo
telefone, e combinamos que eu as traria aqui. Estão neste
pacote, que lhe peço para entregar a ela. Pode fazer isto? —
terminou, meio atrapalhado, deixando junto ao pacote uma
nota de vinte dólares.
— Certamente, cavalheiro — respondeu o garçom. —
Com o maior gosto. Como se chama a senhora?
— Oh, ela dirá que veio da parte de Sam, que eu devo ter
deixado um pacote aqui para lhe ser entregue, compreende?
— Compreendo muito bem, cavalheiro. Eu já me
divorciei três vezes.
— Oh! — perfeito em seu papel, Javlenko era a imagem
da afobação. — Espero não ter que passar três vezes pelo
que passei estes dias...!
— A gente se acostuma, cavalheiro.
— Não sei... Bom, adeus. E obrigado.
Dirigiu-se novamente para a roleta e, outra vez, seu olhar
encontrou o da chinesinha. Agora foi ele quem fez um sinal
afirmativo com a cabeça, e ela compreendeu: o dinheiro
estava à sua espera. Assentiu por sua vez e Javlenko rodeou
a mesa, até chegar junto dela. Dois ou três minutos mais
tarde, o homem ao lado de Tai Lo abandonou seu lugar e o
russo apressou-se a ocupá-lo, ficando de pé, à direita e um
pouco atrás dela, que estava contando suas fichas para a
jogada seguinte. Uma das fichas ficou separada das outras e
Javlenko deixou cair sobre ela uma nota. Quando recolheu
esta, a ficha foi recolhida também e, habilmente, passou a
um de seus bolsos. Com a testa umedecida de suor, ele
esperou que a bola terminasse de girar e, após verificar que
havia perdido, afastou-se, sempre com o aspecto de quem se
diverte a esmo, indo de um lado para outro, sem interesse
especial por nada.
Agora vinha a parte mais perigosa: se o detivessem ao
sair, azar. Se não, tinha apenas que voltar ao apartamento,
recolher suas coisas e abandonar Las Vegas... enquanto
Andrei, com o microfilme, partia para Moscou por outra
rota.
Já na rua, deixou cair a ficha com o microfilme. Não pôde
ver Andrei, mas sabia que ele estava ali. Tinha que estar ali,
vendo-o, observando-o. De boa vontade se teria virado, para
certificar-se de que seu companheiro apanhava o microfilme,
mas soube conter-se, caminhando sem virar uma só vez a
cabeça, em direção aos “Sunset Rooms”.
E enquanto ele se afastava, um homem foi até onde tinha
caído a ficha, apanhou-a e meteu-se num carro estacionado
junto à calçada fronteira.
Voltou-se para o assento de trás e estendeu a ficha.
— Aqui está — murmurou.
Uma linda mão feminina tingiu-se de todas as cores dos
anúncios luminosos ao adiantar-se para tomar a ficha.
Apareceu uma luzinha e a ficha foi partida em duas,
deixando ver o microfilme em seu interior.
— Muito bem, Johnny.
— Para você não dizer que nunca lhe sou útil! —
declarou Frank Minello.
— Frankie — disse Brigitte —, você é um amor. E como
sempre admito a verdade, afirmo que esta vez você esteve
sensacional. Até eu pensei que ainda estivesse desacordado,
na vila de Tai Lo.
Johnny-Las Vegas, no assento dianteiro, sorriu.
— Você é realmente invencível, “Baby”.
— Ouça, espião, menos blá-blá-blá! — resmungou
Minello. — Esta vez o herói fui eu, fique sabendo. Se não
fosse por mim, “Baby” e eu estaríamos estraçalhados, como
aqueles pobres chineses.
— Bom, bom...
— Nem bom, nem mau. Eu enganei os coitados... — pôs-
se a rir. — Enquanto eles pensavam que eu estava sem
sentidos, eu estava era soltando as mãos. E quando um deles
ficou ao meu alcance, parti-lhe a cabeça como uma noz!
— Mas penso que você não tenha feito tudo sozinho —
sorriu Johnny. — “Baby” também fez alguma coisa, não?
— Oh, ela também conseguiu desatar-se e me ajudou um
pouco...
— Como um pouco? — protestou Brigitte, rindo. —
Quando você atacou o primeiro chinês, os outros dois o
teriam liquidado se eu não saltasse sobre a pistola e os
abatesse, querido. Você eliminou um e eu dois, portanto
acho que ganhei.
— Mas se eu não tivesse iniciado a refrega...
— Tolice. Eu estava disposta a entrar em ação e
certamente teria feito melhor que você. Também sei soltar
minhas mãos de uma corda.
— Está bem! — gritou Minello. — De modo que, tudo
somado, você vai dizer que não lhe adiantou nada trazer-me
a Las Vegas.
— Isso não. Por uma vez, você me foi realmente útil,
Frankie. Mas eu queria que compreendesse bem...
— Ouçam, não é que eu tenha nenhuma pressa especial
— interveio Johnny. — Além disso, os dois me parecem
formidáveis. Mas gostaria de saber se vamos passar a noite
discutindo quem teve mais mérito dominando a situação na
vila, que, realmente, parece ter ido pelos ares. E também
gostaria de saber o que fazemos com Javlenko.
— Com Javlenko? — surpreendeu-se Brigitte. — Nada.
— Como, nada?
— Ele logo abandonará Las Vegas. Que faça boa viagem.
— Mas... é um espião russo!
— Dos bons. Eu me entendo, Johnny. Assim... passe livre
para Igor Javlenko.
— Vamos deixá-lo partir... de verdade?
— De verdade. E não creio que o coitado vá sentir-se
muito bem em Moscou... Mas, pelo menos, continuará vivo.
E merece viver. Simplesmente, esteve trabalhando, não?
Basta que lhe tenhamos tirado a presa. Por que tirar-lhe
também a vida? Ordem terminante: via livre até Moscou
para Igor Javlenko.
— Com todos os di...!
— Não gosto de ouvir maldições, Johnny. Por isso,
enquanto você se desafoga, vou cuidar de um pequeno
detalhe. Volto já.
— Vai ver a chinesinha, “Baby”?
— Claro.
— Não esqueça que ela tem três milhões de dólares, o
que não é coisa que se deixe perder.
— Certamente levou-os ao aeroporto. Terá com ela o
talão e, assim, quando o FBI intervier, só terá que fazer uso
dele para chegar ao dinheiro... e devolvê-lo a nós.
— Sim, claro. Mas não seria melhor que...?
— Não — cortou “Baby”. — Não há nada melhor do que
o que vou fazer. Até já.
Saiu do carro, atravessou a rua e entrou no “Red &
Black”, dirigindo-se diretamente à roleta que já sabia. Em
poucos segundos chegou lá e colocou-se quase em frente de
Tai Lo, que estava separando fichas para fazer sua última
aposta antes de partir.
— Façam o jogo, senhores... — disse o croupier.
A chinesa sorriu. Era divertido. Não arriscava nada,
nunca arriscava nada, mas ia ganhar.., Adiantou o montinho
de fichas que tinha separado e, enquanto o fazia, ergueu o
olhar.
O sorriso ficou como congelado em seus lábios quando
viu aqueles olhos azuis que a fitavam de um modo
implacável.
— Façam o jogo, senhores...
Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Sabia ler nos olhos,
sim. E aqueles olhos azuis que a fixavam... Como pudera ela
escapar?
“Baby” tinha colocado uma piteira de marfim entre os
lábios. E Tai Lo a viu soprar por ela. Simultaneamente,
sentiu uma leve agulhada no decote, entre os seios. E teve o
tempo justo de compreender que a morte, sob a forma de um
diminuto dardo envenenado, acabava de cravar-se em seu
peito. Ficou imóvel, olhos abertos. O croupier cantou a
jogada, mas Tai Lo já não o podia ouvir.
Evidentemente, ela também jogara alguma coisa... e tinha
perdido.
UMA GRANDE JOGADA

Charles Pitzer deixou de contemplar o microfilme


colocado no visor luminoso, moveu a cabeça e disse:
— Está escrito em chinês, claro, mas na Central o
traduzirão. Foi um trabalho excelente, Brigitte. Excepcional,
como sempre.
— O FBI nos devolveu os três milhões de dólares?
— Claro. Recuperamos os três milhões que tínhamos
resolvido investir e obtivemos outros três de lucro líquido.
— Não tão líquido assim... — murmurou Brigitte. — Há
um agente da CIA que jamais voltará a trabalhar.
— Bem, são coisas que acontecem. Sempre dolorosas,
sem dúvida, mas que precisamos aceitar.
— Sim... Sempre há coisas tristes e coisas divertidas. Por
exemplo: depois do rebuliço que teve lugar quando
perceberam que a chinesinha estava morta e a Polícia levou
seu cadáver, fui ao bar e disse a um dos garçons que era a
mulher de Sam. Ele avisou a outro, que veio ao meu
encontro com um pacote. Este continha os três milhões de
dólares dos russos. Ao entregá-lo a mim, disse o garçom: “A
gente vê cada coisa... Esse Sam deve estar doido! Divorciar-
se de semelhante bombonzinho...”
Pitzer e Minello riram.
— Uma coisa, tio Charlie — prosseguiu Brigitte —:
quero que você peça à CIA dez por cento desses três milhões
com que os russos nos obsequiaram. Como prêmio,
Pitzer contemplou incredulamente a melhor espiã de
todos os tempos.
— Você fala sério? Até agora nunca pediu nada...
— O prêmio não é para mim, mas para o Frankie.
Minello deu um salto em sua poltrona.
— Viva eu! — gritou. — Trezentos mil dólares! Nunca
em minha vida pus as mãos na décima parte disso...!
— Pois já é hora de que tenha uma pequena fortuna —
sorriu Brigitte. — Menos não merece o homem que salvou a
vida da agente “Baby”. Não concorda comigo, tio Charlie?
— Pessoalmente, este sujeito sempre me pareceu o
perfeito boboca... — resmungou Pitzer. — Mas pode contar
com os trezentos mil dólares de recompensa, Minello.
— Trezentos mil dólares! Meus! — o jornalista parecia
estar sonhando. — Trezentos formosíssimos mil dólares...
Agora sou um homem rico, não terei mais que trabalhar, não
terei mais que aturar..... Não, não: é demasiado para mim,
Brigitte.
— Não diga tolices — assombrou-se esta.
— Você vai aceitar esse dinheiro, Frankie!
— Mas é demais, querida... — ele deu as costas a Pitzer e
piscou um olho para Brigitte. — A verdade é que já tenho o
suficiente com seu amor.
— Com quê? — saltou Pitzer.
— Com o amor de Brigitte — Minello olhou-o
surpreendido, depois para “Baby”, piscando-lhe outra vez o
olho. — Mas como, querida? Você não contou ao tio Charlie
que nos casamos em Las Vegas?
— Não — disse ela, seriamente, mas rebentando de riso
por dentro. — Não pensei nisso, querido.
— Que o diabo me carregue... — rosnou Pitzer. — De
que vocês estão falando, pode-se saber?
— De nosso casamento — disse mansamente Minello. —
Casamos em Las Vegas, antes de voltar. Pensei que Brigitte
lhe tivesse...
— Isso não pode ser verdade! — vociferou o chefe do
Setor Nova Iorque da CIA. — Ora vamos...! Brigitte jamais
se casaria com um... um insignificante como você!
— Insignificante? — bradou Minello. — Olhe, sou mais
alto que você, mais forte, mais bonito, mais esperto, mais
tudo e... e... e...!
— E eu o amo com todo o meu coração — disse Brigitte,
abraçando-o.
Charles Pitzer, rubro de cólera, parecia a ponto de
rebentar. E quando saiu, gritando que não poria mais os pés
naquele apartamento enquanto não se divorciassem, Minello
e Brigitte riram finalmente à vontade, divertidíssimos.
— Acreditou! Ele acreditou! — rejubilou-se Minello. —
Oh-oh-oh...! Vinguei-me para sempre desse velho abutre!
— E logo será dono de trezentos mil dólares — disse
“Baby”. — Que vai fazer com tanto dinheiro, Frankie?
Ele ficou pensativo uns segundos. Peggy, que tinha
aparecido no living ao ouvir tanto escândalo, olhava-o tão
expectante como a própria Brigitte.
— Pois não sei... Na verdade, não sei para que diabo
quero eu tanto dinheiro. Tenho amigos, um trabalho que me
agrada, gente que me quer bem... e gente a quem quero
bem...
— Poderia ir jogá-lo em Las Vegas — sugeriu Peggy.
— Já sei! — inspirou-se ele. — Ouça. Brigitte: que tal se
com esse dinheiro construirmos um parque de diversões para
os meninos que você está sempre ajudando, aqueles que têm
as perninhas assim...?
— Para os meus meninos poliomielíticos, Frankie?
— Sim... Para eles, sim.
Brigitte Montfort olhou-o um instante, depois lançou-lhe
os braços ao pescoço e beijou-o nos lábios.
— Frankie — murmurou —-, você acaba de realizar a
melhor jogada de sua vida.

Você também pode gostar