0% acharam este documento útil (0 voto)
1K visualizações91 páginas

A Espiã Baby e o Mistério do Suicídio

Brigitte Montfort, uma agente da CIA, investiga a suposta traição e tentativa de suicídio de seu chefe, Mr. Cavanagh. Ao receber a notícia de que ele se suicidou, Brigitte se vê em uma situação crítica, onde sua habilidade e coragem são necessárias para desbaratar uma organização internacional de corrupção. O documento narra a tensão entre os personagens e a urgência da situação, destacando a importância de Brigitte como a espiã mais perigosa do mundo.

Enviado por

adegue73
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
1K visualizações91 páginas

A Espiã Baby e o Mistério do Suicídio

Brigitte Montfort, uma agente da CIA, investiga a suposta traição e tentativa de suicídio de seu chefe, Mr. Cavanagh. Ao receber a notícia de que ele se suicidou, Brigitte se vê em uma situação crítica, onde sua habilidade e coragem são necessárias para desbaratar uma organização internacional de corrupção. O documento narra a tensão entre os personagens e a urgência da situação, destacando a importância de Brigitte como a espiã mais perigosa do mundo.

Enviado por

adegue73
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

© 1971 – LOU CARRIGAN

Sekreten Polizeiken
Ilustração de Benicio
® 500617/500702
O chefe do grupo de ação da CIA é encontrado
semimorto, com suspeitas de haver tentado o suicídio.
Evidências levam a acreditar ser ele um traidor.
Brigitte Montfort, a formosíssima agente “Baby”, a
mais letal espiã americana vai provar que seu chefe
não tentou se matar e muito menos é um traidor. Para
isso terá que desbaratar mais uma organização
internacional que alicia políticos corruptos pelo
mundo todo.

A MAIS PERIGOSA
ESPIA DO INUNDO
— Formidável... — aprovou Miky Grogan. —
Simplesmente formidável, Brigitte.
— Como sempre — disse Frank Minello.
— Não compreendo por que se surpreende, chefe.
Miky dirigiu um olhar perfurante ao responsável pela
Seção Esportiva do Morning News, jornal que dirigia e que
contava em seu quadro de redatores com nada menos :.e
Brigitte Montfort, a jornalista mais famosa da América e,
talvez, do mundo inteiro.
Brigitte sorriu, acendeu um cigarro e pôs- se a olhar o
teto, resignada. Já a saturavam brigas entre aqueles dois.
— E isso é de sua conta? — grunhiu Grogan.
— Bom... Todos sabemos que Brigitte é sensacional,
pelo que não deveria haver surpresa alguma por um artigo
seu ser formidável. Lembro-me, por exemplo, daquele
sobre...
— E não poderia lembrar-se de que está aqui para
trabalhar? — cortou Grogan, agora suavemente.
— Eu trabalho, chefe. Aliás, a propósito de trabalho...
— Você não faz nada! — explodiu Grogan. — Salvo
passar o dia atrás de Brigitte, dizendo-lhe; bobagens!
— Bobagens? — indignou-se Minello. — Olhe bem...
Olhe para ela!
Um tanto desconcertado, Miky Grogan olhou para
Brigitte, o que sempre valia a pena, claro.
— Está bem — armou-se de paciência.
— Já olhei.
— E reparou como ela está maravilhosa hoje?
— Naturalmente. E daí?
— Daí? Pois a uma criatura assim pode-se dizer tudo,
menos bobagens! Capta minha ideia, chefe? Se digo a
Brigitte: Ouça, raio de sol, válvula do meu coração,
angústia de minhas insônias, podemos jantar juntos? Isto
lhe parece uma bobagem?
— É você quem me parece bobo, não os elogios a
Brigitte.
— Aqui não há mais bobo que... que... que...!
— Que quem? Vamos, atreva-se! Diga! Quem é o único
bobo aqui?
— Mmm... O boy da minha seção, chefe.
— Pois eu lhe digo que ele é muito mais esperto que
você. E se não se largar daqui agora mesmo...!
— Quem se vai sou eu — suspirou Brigitte, levantando-
se. — Já assisti vezes sem conta a esta cena. Que ganhe o
que grite mais. Boa-noite.
— Um momento — opôs-se Grogan. — Não é você
quem deve se retirar, mas este cretino!
— Quem é o cretino? — ressentiu-se Minello.
— Você!
— Ah! Pensei que se referia a si mesmo e que...
— Está demitido! — vociferou Grogan. — De-mi-ti-do!
Fora daqui!
— Vamos, Frankie — interveio Brigitte —, deixe-nos
sós. E se me esperar aí fora sem uma só palavra mais,
aceitarei jantar com você esta noite.
Frank Minello abriu a boca, mas em seguida apanhou
sobre a mesa de Grogan um prendedor de papéis, abriu-o e
aplicou-o aos próprios lábios, que ficaram impossibilitados
de se mover. Olhou para Grogan, levou a mão aberta à
frente do nariz para fazer-lhe “fiau” e saiu da sala, enquanto
o rosto do irascível diretor do Morning News ia-se tornando
cor de púrpura.
— Calma — sorriu Brigitte. — Então gostou do meu
artigo sobre o falecimento de John Edgar Hoover?
— Hem? Ah, sim... Muito. E suponho que alguns dados
que você utilizou não estivessem ao alcance de qualquer
um.
— Claro que não. Vamos deixar que passem uns dias e
apresentarei ao público uma biografia, o mais completa
possível, de Patrick Gray, seu sucessor na direção do FBI.
Que tal?
— Estupendo! — entusiasmou-se Grogan.
— Combinado, então. Quando eu escrever essa
biografia, os outros jornais já o terão feito, mas não creio
que ninguém reúna os dados que eu conseguirei. Como se
costuma dizer: rei morto, rei posto. Mr. Hoover era um
tanto duro, mas todos estávamos acostumados a ele.
— Veremos o que acontece agora com o FBI.
— Que há de acontecer? Absolutamente nada. Embora
ninguém possa contestar os muitíssimos méritos do finado
diretor, uma organização como o FBI não experimentará
colapso algum por sua ausência. Ninguém é imprescindível,
querido Miky. De qualquer modo...
O telefone tocou e Grogan atendeu, dirigindo um olhar
de desculpa a Brigitte. Mas o chamado era para esta.
— Alô — atendeu ela.
— Que há?
— Sim, sim, estarei no terraço do Crystal Building
dentro de vinte minutos, claro, mas diga-me... — Ergueu a
cabeça, entre sobressaltada e surpreendida, para finalmente
murmurar, incrédula: — Desligaram.
— Era o assistente de Pitzer?
— Era. E me deixou falando sozinha... Tem que ser algo
urgentíssimo, algo terrível... Deus meu, espero que não
tenha acorrido nada de mal ao tio Charlie! Tenho que ir
imediatamente... — reenganchou então o fone e correu para
a porta, mas deteve-se em seco. — Oh, esse bobo do
Frankie está me esperando aí fora... Sairei pelas oficinas.
Adeus, Miky!
Saiu da sala, na verdade alarmada. Johnny, o assistente
do chefe do setor Nova Iorque da CIA, nunca a deixava
com a palavra na boca. Para dar mostra de tanta pressa e
descortesia para com ela, tinha que estar acontecendo algo
horrível... E, como sempre, recorria-se à agente ‘“Baby”, a
espiã mais perigosa do mundo, que estava disposta a bater
todos os recordes de velocidade para chegar o quanto antes
ao terraço do edifício onde tinha seu apartamento.
***
O ar agitou fortemente seus cabelos, quando apareceu no
terraço, preparado fazia tempo como um pequeno heliporto.
E lá, com a hélice em plena rotação, estava esperando o
aparelho que tantas vezes a tinha recolhido para levá-la com
a máxima urgência à Central da CIA em Langley,
Washington.
Inclinada, Brigitte foi rapidamente a ele, subindo a
bordo com sua pasmosa agilidade. Johnny estava nos
controles e, tão logo ela entrou, empreendeu o vôo.
— Johnny, que...? Tio Charlie! — exclamou ao ver este
sentado atrás. — Você está bem? Pensei...!
— Ele está bem — disse Johnny.— Mas ficou tão
impressionado que não podia falar. E muito menos para dar
a notícia a você.
— Que notícia?
— Mr. Cavanagh suicidou-se.
Ela ficou pálida como um cadáver. Tinha ouvido bem?
O helicóptero fazia um forte rumor... Em sua mente surgiu a
imagem de Cavanagh, o homem que chefiava, de Langley,
todos os agentes de ação da CIA. O homem que ela, anos
atrás, tinha salvo em Buenos Aires, o homem sério,
judicioso, sereno, inteligente, que jamais se alterava e que a
queria como sua própria filha, tal como Pitzer... Tinha
ouvido bem?
— Santo Deus! Que foi que você disse? — pôde
balbuciar por fim.
— Suicidou-se.
— Mr. Cavanagh?
— Sim.
— Não... Não, não.
— Um minuto depois de recebermos a notícia, comecei
a chamar pelo rádio de bolso. Suponho que você não o
levava. Liguei para seu apartamento e Peggy me disse que
você ainda devia estar no jornal.
— Mas... Deus, não pode ser... É impossível, Johnny! É
impossível!
— Não creio que seja uma brincadeira da Central,
francamente. Levaram-no para a nossa clínica, portanto
iremos diretamente lá, onde lhe darão detalhes. Nós só
sabemos que se suicidou. Sinto muito, “Baby”.
Esta olhou o silencioso e sombrio Pitzer, que estava tão
pálido como ela. Além de um dos chefes de Setor de
Cavanagh, estava ligado a este por muitos anos de amizade
e, também, pelo enorme carinho que ambos dedicavam
àquela jovem que tempos atrás tinha começado a arriscar a
vida sob suas ordens, respaldada pela poderosa CIA, mas
resolvendo sempre as questões de espionagem à sua
maneira, sempre de um modo genial, sempre forte,
implacável, audaz, sem medo de nada, nem de ninguém...
Com os anos, aquela jovem de olhos azuis se transformara
em “Baby”, a espiã mais eficiente e respeitada de todos os
serviços secretos do mundo...
Mas, naquele momento, vendo seus maravilhosos olhos
cheios de lágrimas, Charles Pitzer sentiu-se impressionado,
quase apavorado... Por que se enganar? Aquela jovem capaz
de matar um homem de um só golpe, de realizar as mais
extraordinárias façanhas, continuava sendo a mesma
criaturinha de olhos espantados que um dia resolvera iniciar
uma carreira incrível de constante luta em favor da paz
entre os povos, pela paz do mundo... Sim, por que se
enganar? Brigitte Montfort conservava o mesmo coração da
inexperiente jovem, inicial, que nem os mais terríveis
acontecimentos haviam conseguido insensibilizar.
— Tio Charlie... — gemeu ela. — Tio Charlie, nós o
perdemos!
Pitzer engoliu em seco. Tudo o que pôde dizer foi passar
um braço pelos ombros de Brigitte e atraí-la a si,
suavemente. Então a mais perigosa espiã do mundo,
começou a chorar.

CAPITULO SEGUNDO
Quem jura em vão vai de cabeça para o inferno

O agente Maxwell da CIA adiantou-se para o


helicóptero, tão logo a hélice deixou de girar, e estendeu a
mão a “Baby” no intento de ajudá-la a descer. Ela olhou-o
nos olhos e ele baixou os seus. Também seu rosto estava
alterado. Fazia anos que era assistente de Cavanagh e,
conhecendo este, ela não poderia surpreender-se com a
estima que o agente dedicava a seu chefe.
— Onde está ele, Johnny? — perguntou- lhe.
— Foi levado ao Centro Cirúrgico... mas não há nada a
fazer. Morrerá.
— Morrerá? Quer dizer que ainda vive?
— Sim. Mas não tenha ilusões...
— Ilusões? Vamos lá!
— Será melhor ficarmos na sala de espera. Tudo o mais
que fizermos só servirá para incomodar.
— Sim, sim... Você ouviu, tio Charlie? Ele ainda está
vivo!
— Disseram-me que se tinha suicidado — murmurou
Pitzer.
— E assim foi... — disse Maxwell. — Tomou todo um
tubo de barbitúricos.
— Isso é mentira! — quase gritou Brigitte.
— Bom... Infelizmente assim aconteceu, “Baby”.
Quando eu cheguei, encontrei-o estendido no living, sobre o
tapete. Junto a ele estava o tubo de barbitúricos, vazio. Na
verdade, pareceu-me que já estava morto, mas telefonei
para cá com urgência e foram buscá-lo. Um dos médicos
disse que ainda vivia, fizeram-lhe uma lavagem de
estômago na própria ambulância, injetaram-lhe não sei quê.
Continuam tentando salvá-lo, mas não parece haver
nenhuma possibilidade.
Brigitte pestanejou. Olhou seu reloginho, em silêncio.
Faltavam dez minutos para as doze da noite.
***
Pelas três e meia da madrugada, a porta dupla do Centro
Cirúrgico se abriu e apareceram seis homens, aspecto
fatigado, batas brancas amarrotadas. De uma das poltronas,
Brigitte olhou o mais velho deles. Levantou-se, sendo logo
imitada por Pitzer, Johnny e Maxwell. Do outro lado da
sala, três dos conselheiros das assembleias da CIA fizeram
o mesmo.
O médico-chefe olhou para todos, mas aproximou-se de
“Baby”.
— Ainda está vivo — murmurou. — Temos feito todo o
possível mas, francamente, não creio que se salve. E se
tivessem demorado cinco minutos a encontrá-lo, já estaria
morto a estas horas.
— Posso vê-lo?
— Isso não o prejudicará, penso eu. Nunca tive em mãos
um caso tão desesperado. Podemos considerá-lo noventa
por cento cadáver. Lamentável deveras.
Brigitte assentiu com a cabeça e dirigiu- se para a porta
dupla. Pouco depois, num quarto, via um jovem médico,
duas enfermeiras e, na cama, rodeado de aparelhos de toda a
espécie, Mr. Cavanagh... Suas feições pareciam peças
soltas, que se iam desencaixando e, ao vê-lo, tinha-se
forçosamente que pensar que estava morto. Ela ficou imóvel
a um lado da cama, contemplando aquela testa ampla, os
cabelos longos e grisalhos nas têmporas, os lábios
herméticos. Uma leve camada de suor fazia brilhar a
fisionomia do homem que era noventa por cento cadáver.
Numa tela junto ao leito, um pequeno ponto luminoso
deslocava-se horizontalmente e, vez por outra, elevava-se
uma polegada, produzindo-se no aparelho um breve pit-pit-
pit...
Por cerca de cinco minutos, ela ficou ali, contemplando
o homem deitado como se não houvesse no mundo nada
mais que fosse digno de sua atenção. Finalmente, virou- se
para o médico.
— Podemos fazer alguma coisa, nós, doutor?
— Não. E nós mesmos, muito pouco. Só poderemos
insistir no tratamento dentro de seis horas, senão
acabaríamos de matá-lo.
— Realmente ingeriu barbitúricos?
— Todo um tubo.
— Obrigada. Voltarei pela manhã.
Saiu do quarto e do Centro Cirúrgico. Novamente na
sala de espera, foi abordada pelos três conselheiros da CIA,
que a olharam preocupados.
— É uma situação bastante crítica, “Baby”.
— Crítica? — ela arqueou as sobrancelhas.
— Não me refiro apenas à vida de Cavanagh, mas
também a seu trabalho. Alguém terá que mantê-lo... De
maneira nenhuma podemos deixar o Grupo sem direção.
— Ele pode dirigi-lo, no momento — Brigitte indicou
Maxwell.
— Eu? — sobressaltou-se o agente secreto. — Não,
não... Seria demasiada responsabilidade para mim. Não me
sinto preparado, “Baby”.
O conselheiro dirigiu-se a Brigitte:
— Nós tínhamos pensado em você.
— Esqueçam.
— Mas você é a pessoa mais capacitada...
— Estão preterindo brutalmente Mr. Pitzer — contrapôs
Brigitte, áspera.
— Não é isso... — o homem passou a mão pela testa. —
Conhecemos de sobra a capacidade de Pitzer, mas não se
pode deixar sem direção o Setor Nova Iorque. Seria...
— Johnny pode dirigir esse setor. E que Mr. Pitzer dirija
o Grupo de Ação.
— Mas... por que não você? — insistiu o conselheiro.
— Porque eu tenho outras coisas que fazer. E acabou-se.
— Bem... — hesitou outro conselheiro.
— Que diz você, Pitzer?
— Eu respondo pelo meu assistente — replicou o chefe
do Setor Nova Iorque. — Considero-o capacitado a
substituir-me. Quanto a mim, se “Baby” sugere que eu
assuma a chefia do Grupo de Ação... Mas talvez o faça
porque guiei seus primeiros passos no campo da
espionagem.
A ninguém passou despercebido o tom cáustico de Pitzer
e durante uns segundos reinou silêncio no grupo. Por fim,
um dos conselheiros murmurou:
— Não é o momento de manifestar ciúmes profissionais,
Pitzer.
— Eu teria ciúmes de um idiota — replicou quase
violentamente este. — Mas se tivesse ciúmes porque
“Baby” iria dirigir o Grupo, o idiota seria eu. E não conheço
nenhum idiota que esteja há mais de vinte e cinco anos no
serviço secreto americano. Por outro lado, na idade em que
estou, todas as minhas ambições se limitam a sobreviver.
— Eu lhe direi uma coisa, tio Charlie — deslizou
Brigitte: — se por não assumir agora mesmo a chefia do
Grupo eu perder um único Johnny, nunca o perdoaria. E se
não me entendeu, repetirei com muito gosto.
— Entendi perfeitamente.
— Então, boa-noite a todos. Johnny, venha comigo.
— Eu? — surpreendeu-se o assistente de Pitzer.
— Voltará a Nova Iorque, no helicóptero. Você,
Maxwell, pode conseguir-me um carro agora mesmo?
— Posso, claro.
— Eu disse agora mesmo.
Maxwell saiu à disparada, enquanto Brigitte, em passo
normal, afastava-se do grupo de sombrios personagens.
Quando chegou à porta da clínica da CIA, Maxwell já a
esperava com um carro. Ela sentou-se a seu lado e disse:
— Em marcha.
— Bem... Mas para onde?
— Você encontrou Mr. Cavanagh, não?
— Sim...
— Pois leve-me lá.
***
O carro deteve-se diante do pequeno chalé, nas cercanias
de Langley, e Maxwell indicou-o.
— Chegamos. Nunca esteve aqui antes?
— Nunca.
— É pequeno... Porém mais que suficiente para um
homem só.
Apearam os dois e foram até a casa, no centro de um
gramado onde se erguiam algumas amendoeiras floridas.
Nas outras casas, todas distanciadas entre si, não se via uma
só luz.
— Você tem a chave?
— Tenho. Guardei-a quando o levamos.
Ele abriu a porta, entrou e acendeu a luz. Brigitte entrou
então, tornando a fechar. Havia de tudo no living: bar,
livros, alguns tapetes, quadros interessantes, bons móveis,
lareira, velhos troféus esportivos... Tudo de ótima
qualidade, tanto ali como no quarto, no banheiro, na
cozinha. Tudo refletia bom gosto e dinheiro para satisfazê-
lo. Mas havia certo desamparo ali. O desamparo de uma
casa que não é um lar, mas somente o local onde um
homem descansa sempre sozinho, sem ninguém que espere.
Brigitte deteve-se no limiar do segundo quarto,
contemplando algo assombrada as grandes gaiolas cheias de
pássaros.
— São canários — disse Maxwell.
Ela não saiu de seu assombro.
— E que fazem aqui?
— São dele... do chefe.
— De Mr. Cavanagh?
— Claro. Não sabia? Há alguns anos começou a dedicar-
se a isto. E, de certo modo, foram estes passarinhos que lhe
salvaram a vida, se conseguir recuperar-se.
— Os canários?
— Sim. Eu também tenho alguns, mas estou
praticamente começando agora...
“Baby” fitou-o e ele pareceu inibir-se um pouco,
desviando o olhar. Bem, por que se surpreender? Mr.
Cavanagh criava canários, Maxwell tinha começado a criá-
los... O próprio Número Um, seu amor, também se dedicava
a criar pombos-correios. Como era profunda a solidão
daqueles homens entregues de corpo e alma à espionagem!
Sorriu para Maxwell.
— Por que disse que estes passarinhos salvaram a vida
de nosso chefe?
— Tínhamos combinado que esta noite eu viria aqui,
pois ele concordara em me emprestar alguns livros sobre
criação de pássaros e mostrar-me a instalação de suas
gaiolas. Se não fosse por isso, eu não teria vindo e...
— E ele estaria morto a estas horas.
— Sem dúvida alguma.
— De quem foi a ideia dessa visita? Dele ou de você?
— Bem, na verdade, fui eu quem provocou o assunto,
pois ele tinha... tem várias obras que me interessam muito.
Assim, fiz com que me convidasse a vir aqui.
— Diga-me como e onde o encontrou.
— No living... — os dois dirigiram-se para lá. —
Cheguei em meu carro e bati. Sabia que ele estava me
esperando; além disso, vi luz nessa janela — indicou-a. —
Mas, depois de bater três vezes, como ele não abrisse,
pensei que talvez estivesse com os canários e por isso não
ouvisse minhas batidas. Depois pensei que talvez se
encontrasse indisposto... Por fim, dei a volta à casa.
— A porta estava fechada?
— Claro.
— A chave na fechadura, por dentro?
— Claro. De outro modo, eu...
— Sim.
— E você entrou por trás?
— Pela porta da cozinha, que estava apenas encostada.
— Ah!
— Encontrei-o estendido aí, de lado. No chão, vi o tubo
de barbitúricos. Pela posição de seu corpo, compreendi que
estivera sentado e caíra do sofá, para frente. Virei-o de
costas e examinei-o. Não pude-ouvir sua respiração.
Pareceu-me que estava morto, mas não hesitei em telefonar
para a clínica, recomendando a máxima urgência. Vieram
imediatamente; creio que nem cinco minutos haviam
decorrido. Eu lhes abri a porta e, quando fomos todos com
ele, tranquei-a e levei a chave. Da clínica avisei a Central,
pelo telefone. Pouco depois chegaram os três conselheiros e
disseram-me que certamente você logo viria para
encarregar-se do Grupo de Ação e que poderia precisar de
mim, pelo que fui esperar o helicóptero...
— Supõe-se que eu devia dirigir-me diretamente à
Central, não é assim?
— Eu tinha certeza de que você iria à clínica em
primeiro lugar.
— Sim. E que mais?
— Mais nada. Não tomei nenhuma iniciativa porque, já
que você ia chegar... Como vamos fazer?
— Está pensando em alguma investigação do tipo...
técnico, Maxwell? Quero dizer, procurar impressões,
indícios...?
— Para quê? — espantou-se o agente. — A coisa não
pode estar mais clara. Entretanto, não perderemos nada
buscando impressões que...
— Eu não vejo a coisa nada clara — disse Brigitte. —
Se Mr. Cavanagh queria suicidar-se, por que escolheu
justamente esta noite, sabendo que você chegaria? Tanta
pressa tinha de morrer, assim de repente? Mas faremos
outra coisa: primeiro que tudo, levar e lavar o tapete.
Maxwell ficou atônito.
— Levar e lavar... o tapete?
— É. Assim, quando ele voltar para casa encontrará tudo
limpo e em ordem. Quanto aos canários, espero que você
tenha a gentileza de cuidar deles.
— Não entendo bem... Oh, admiro sua fé em que o chefe
se salvará e, claro, cuidarei de seus canários o melhor
possível. Mas que significa isso do tapete?
— Venha comigo — foram os dois até o ponto do tapete
em que Cavanagh tinha caído e Brigitte apontou: —
Observe isto, esta mancha... Que diria você que é?
— Não sei... Uma mancha, eis tudo.
— E inconcebível num homem cuja casa é tão
escrupulosamente limpa. Agora, cheire-a.
Ainda assombrado, o agente obedeceu. Depois levantou
a cabeça.
— Eu diria que cheira a uísque.
— Também o digo. Recente, claro. Suponhamos que
Mr. Cavanagh estava sentado, esperando tranquilamente
você, tomando um uísque... Súbito, resolveu suicidar-se e
tomou os barbitúricos, frio e decidido como o magnífico
espião que é. Estava resolvido a morrer e, enquanto
esperava a morte, continuou tomando o uísque... Então os
barbitúricos começaram a fazer seu efeito. Ele, com o copo
ainda na mão, caiu para frente. O copo partiu-se,
manchando o tapete... Sim?
— Bom... Poderia ser, claro.
— Então quem limpou o tapete? Quem tentou remover a
mancha de uísque e recolheu os fragmentos do copo?
— Por Deus! Como não pensei nisso...? Pelo que você
está dizendo, poderíamos pensar que alguém o obrigou a
ingerir os barbitúricos!
— Podemos certificar-nos disso. Quero que todos os
agentes disponíveis, munidos de fotos de Mr. Cavanagh,
visitem as farmácias de Langley e arredores, Washington
inclusive. Se não houver homens suficientes, que seja
pedida ajuda ao FBI, ou à Polícia. Desejo saber antes do
meio-dia se Mr. Cavanagh foi a alguma farmácia para
adquirir esse tubo de barbitúricos.
— Pode deixar isso por minha conta — animou-se
Maxwell.
— Okay, Max. Quer saber o que penso que aconteceu,
na realidade? Mr. Cavanagh estava esperando você. Serviu-
se de uísque. Pouco depois bateram na porta e ele foi abrir,
convencido de que era você, mas eram outros homens...
— Outros? Não um só?
— Não. Para matá-lo, bastaria um. Mas para fazê-lo
ingerir os comprimidos, seriam necessários alguns. Três,
pelo menos, pois ele não é nenhum fracote. Conseguiram
dominá-lo, forçaram-no a engolir os comprimidos e
mantiveram-no seguro até estes começarem a fazer efeito.
Então fecharam a porta da frente por dentro e saíram pela
dos fundos, deixando-a encostada. A pergunta final é: por
quê?
— Diabo! Você não tem um cérebro, mas um
computador, “Baby”.
— Tolice! Nossa equipe teria chegado à mesma
conclusão. E não pense ela que, por eu ter vindo aqui, vai
ficar ociosa. Quero que todos os nossos investigadores
venham agora mesmo e examinem completamente a casa.
Quero impressões digitais, terra que tenha podido
desprender-se dos sapatos de quem veio, quaisquer
detalhes... Quero tudo. E também para o meio-dia.
Entendido, Max?
— Sim, sim, naturalmente.
— E mais uma coisa: quero que se faça correr a voz de
que Mr. Cavanagh se encontra fora de perigo, que dentro de
poucos dias estará perfeitamente bem.
— Mas isso não... não podemos saber com certeza...
— Os homens que vieram aqui, tampouco.
Johnny-Maxwell fitou com os olhos muito abertos a
mais astuta espiã do mundo.
— Ao meio-dia você terá tudo o que pediu, juro!
— Espero que sim — sorriu ela —, pois quem jura em
vão vai de cabeça para o inferno.
CAPITULO TERCEIRO
Tolices não impressionam

Às doze menos vinte da manhã, Johnny-Maxwell


apareceu na clínica e foi direto ao quarto de Cavanagh,
junto ao qual, sentada imóvel numa cadeira, estava “Baby”,
olhos fixos em seu chefe. Ela virou a cabeça ao ouvi-lo e
sorriu.
— Você não tem boa cara, Johnny — disse.
— Tampouco você parece ter dormido em leito de rosas
— replicou o agente; olhou para Cavanagh, pesaroso. —
Como vai ele?
— Estacionário. Às dez submeteram-no a novo
tratamento... Apuraram alguma coisa?
— Sim. Praticamente tudo.
Ela o olhou com suma atenção.
— E o que justifica esse ar sorumbático?
— É muito possível que o chefe não se tenha suicidado,
mas... quase vem a dar no mesmo.
— Comece pelo princípio, Johnny.
— Na casa não havia sinais de ninguém de fora, salvo os
nossos. A mancha do tapete era uísque. Admitiu-se que
alguém tenha podido entrar e ministrar-lhe à força os
barbitúricos, pois foi verificado que ele não os comprou em
nenhum lugar dos arredores.
— Muito bem. Que mais? Vamos, eu posso aguentar
qualquer coisa.
— Encontraram um pequeno cofre debaixo do
assoalho... — pareceu hesitar o homem da CIA. —
Naturalmente, foi aberto. Dentro havia dinheiro,
documentos pessoais do chefe, algumas lembranças do
tempo em que estava em plena ação... Bastante dinheiro.
— Quanto? — Brigitte entrecerrou as pálpebras.
— Cento e sessenta mil dólares.
— De modo que nosso chefe é rico... Terrivelmente.
— Também se encontrou isto.
Ele tirou um envelope do bolso e estendeu-o a Brigitte.
O envelope era da CIA e obviamente fora utilizado para
proteger o papel encontrado no cofre de Cavanagh.
No papel estava escrito, a máquina:
Cavanagh,
Já não lhe é mais possível recuar. Queremos os
informes que lhe pedimos e será melhor para todos
que nos atenda, como das outras vezes. Deve
compreender que não estamos dispostos a prescindir
de um colaborador tão importante como você dentro
da CIA. Tem só mais vinte e quatro horas.
Sekreten Polizeiken
— Que é isto de Sekreten Polizeiken? — perguntou
Brigitte.
— Não faço a menor ideia. Mas seja o que for, a coisa
não poderá estar mais clara para todos.
— Em que sentido?
— A Direção lançou brados aos céus. Estão sendo
revistos todos os informes que passaram ultimamente pelas
mãos do chefe, a fim de alterar tudo na medida do possível.
Pitzer esteve a ponto de sofrer um colapso e o chefão reuniu
seus assessores para ver quantas coisas podem ser mudadas
em tudo quanto Mr. Cavanagh manejou.
— Por quê?
— Porque evidentemente, durante algum tempo, Mr.
Cavanagh esteve traindo a CIA. E como é natural, a notícia
já circulou por toda a Washington, nos meios oficiais, quero
dizer, há muita gente assustada.
— Compreendo. O chefe do Grupo de Ação da CIA sabe
muitíssimo de tudo... e de todos.
— Você não parece muito impressionada.
— É que não o estou em absoluto. As tolices não
impressionam; quando muito, divertem.
— Acha, então, uma... divertida tolice que o chefe seja
um traidor, que tenha facilitado informações a essa Sekreten
Polizeiken?
— É mais que uma tolice, uma completa idiotice.
Primeiro, porque conheço Mr. Cavanagh. Segundo, porque
não é tão tolo para que estivesse vendendo informações a
alguém, depois sentisse remorsos e se suicidasse antes de
continuar vendendo-as. Muito bem Johnny, vá descansar
umas horas.
— O Conselho Diretivo está reunido na Central. Querem
ver você.
— Se me querem ver, que venham até cá.
— Como? — assombrou-se Maxwell.
— Podem vir a pé ou a cavalo, como prefiram.
— Você não compreende... Eles querem que... que...
— O que querem esses senhores e o que quero eu são
coisas diferentes. Vá dormir, Johnny. Você me deu o
recado. Não se preocupe mais. Exceto com uma coisa: passe
unha ordem de que a vigilância na clínica seja relaxada.
— Seja... relaxada?
— Sim. Que a metade dos agentes dela encarregados se
dedique, junto com todos os disponíveis, a descobrir algo
sobre essa Polizeiken. Sekreten Polizeiken... Suponho que
esse nome também tenha corrido por Washington.
— Claro.
— E ninguém sabe nada?
— Ninguém. Além disso, não foi identificada a língua a
que pertencem essas palavras. Claro, devemos deduzir que
o nome significa Polícia Secreta, numa mistura de algumas
línguas europeias... e algo de russo.
— Muito interessante. Gostaria que prosseguissem
estudando essas palavras, se possível.
— Mas devo dizer mesmo aos do Conselho que... que...?
— Sim. Arranje um rádio de bolso, ponha-o na onda do
Alasca e esteja atento a um possível chamado meu.
— Bom... — sorriu Maxwell. — Estou certo de que
ninguém vai se zangar por seguir ordens de você. Se a
situação não fosse tão trágica, acho que eu riria.
— Riremos no fim.
Johnny-Maxwell deu de ombros e saiu do quarto,
cruzando com uma enfermeira e o médico de turno. Este
pôs-se a examinar Cavanagh, enquanto a enfermeira
entregava a Brigitte uma bata da clínica, que ela vestiu
rapidamente, enquanto perguntava:
— Como está ele?
O médico demorou quase um minuto a responder. Ao
fazê-lo, parecia entre satisfeito e perplexo:
— Digamos que suas possibilidades aumentaram. Agora
está apenas uns noventa por cento morto. É surpreendente...
Do ponto de vista clínico, já deveria ter morrido.
— Nós, espiões, somos um tanto duros — sorriu
Brigitte. — Se aceita uma aposta, doutor: ele amanhã estará
com vinte por cento de probabilidades.
— Oxalá — sorriu o médico. — Bem, se precisar de
alguma coisa peça-a à enfermeira Wilkins.
— Estou muito grata a todos.
O médico saiu e a enfermeira sentou-se no outro lado da
cama.
— Não acha que deveria dormir um pouco? — sugeriu.
— Boa ideia — concordou Brigitte. Inclinou-se para
frente, apoiou os braços nos pés da cama de Cavanagh, pôs
a cabeça entre os braços e adormeceu, para espanto da
enfermeira... que se espantou mais ainda quando, três horas
mais tarde, embora parecendo profundamente adormecida,
miss Montfort abriu os olhos e endireitou-se, sem
sobressalto, ao ouvir abrir-se as portas de vaivém do Centro
Cirúrgico, no corredor. Portas absolutamente silenciosas
para a enfermeira, que não as tinha ouvido nunca.
Olhou os médicos e seus olhos fixaram-se num deles.
— Este é novo — disse.
— Regressou hoje de Nova Iorque — informou o
médico-chefe. — Ocupará o posto do Dr. Saunders.
— Ele pertence à nossa clínica e simplesmente esteve
fora uns dias, ou é completamente novo aqui?
— Esteve fora uns dias. Integra nossa equipe.
— Está bem.
Os três doutores aplicaram novo tratamento a Cavanagh,
enquanto o recém-chegado de Nova Iorque, bastante
constrangido, sentia todo o tempo sobre ele o olhar fixo da
belíssima jovem. Quando terminaram, o médico-chefe
moveu a cabeça com expressão admirada.
— Se resistir mais vinte e quatro horas, estará salvo —
disse. — Não compreendo...
— Resistirá.
— E você também? — sorriu ele.
— Oh, estou em perfeitas condições! Podem me mandar
algum alimento?
— O refeitório fica...
— Miss Wilkins pode ir lá se quiser. Eu comerei aqui.
Um sanduíche que o senhor preparará pessoalmente para
mim, doutor.
— Eu?
— Ninguém mais que o senhor, peço-lhe. E traga-o aqui,
pessoalmente, também.
O médico sorriu, divertido.
— Farei isso com muito prazer. Podem ser dois
sanduíches e uma cerveja? Assim faremos um lanche
juntos.
— Grande ideia, doutor.
***
Durante trinta e seis horas, miss Montfort esteve se
alimentando de sanduíches e dormindo com a cabeça
apoiada nos pés da cama de Cavanagh. As enfermeiras
foram-se revezando, sob sua estrita vigilância, que inclusive
começou a incomodar tanto a elas como aos médicos da
clínica. Ela não deixava passar o mínimo detalhe que não
estivesse dentro dos limites que fixara? Qualquer pessoa
que ali entrasse pela primeira vez tinha a impressão de
encontrar-se sob o olhar de um felino pronto para dar o
bote.
Por fim, na terceira noite que Cavanagh passava ali, já
com elevadíssima percentagem de sobrevivência, a espera
terminou. A tensa espera do felino que mal comia e dormia
deu resultado.
Deviam ser dez da noite quando dois homens de branco,
que Brigitte não conhecia, apareceram, um deles trazendo
uma cesta da clínica e outro um montão de toalhas.
Levantando-se imediatamente, ela se aproximou deles.
— Quem são vocês? — perguntou-lhes.
— Encarregados da limpeza, miss. Amanhã o ocupante
deste quarto deverá ser removido e viemos para deixar tudo
em ordem.
— Ah, muito bem! Miss Rawlings, quer vir um
momento? Vamos esticar um pouco as pernas, enquanto
eles fazem seu serviço. Suponho que tem cigarros.
— Tenho sim — respondeu a surpreendida enfermeira.
— Poderemos fumar no corredor. Vamos?
Verdadeiramente assombrada ante aquela mudança de
atitude da vigilante miss Montfort, a enfermeira concordou
de boa vontade com a ideia de caminhar um pouco e fumar
um cigarro. Saíram ambas ao corredor e, imediatamente,
“Baby” perguntou:
— Conhece esses dois?
— Não...
— Vá lá embaixo e avise os agentes de guarda que
estejam atentos, muito atentos.
— Mas...
— Faça o que lhe digo.
A enfermeira afastou-se e Brigitte empurrou com
cuidado ambas as portas do Centro Cirúrgico. Pela estreita
fenda, viu os dois homens, olhando-se. Eles assentiram
simultaneamente com a cabeça e foram para o quarto de
Cavanagh. Assim que sumiram de sua vista, Brigitte entrou,
sacando a pistolinha de coronha de madrepérola.
Quando chegou à porta do quarto, um dos homens tinha-
se inclinado, levantando a perna direita de sua calça e
deixando ver ali a longa faca, presa por dois elásticos.
Empunhou-a e deu um passo para a cama de Cavanagh...
Plop, soou a detonação abafada pelo silenciador.
A bala atingiu a nuca do homem, que lançou um leve
gemido e caiu de bruços, ficando imóvel. O outro tinha-se
virado rapidamente e seus olhos arregalados fixaram-se na
jovem da pistolinha.
— Pensei que já não viessem... — murmurou ela. — E
nunca deveriam ter vindo. Se puderam entrar, foi porque eu
mandei que a vigilância fosse relaxada. Não pensaram
nisso?
O homem passou a língua pelos lábios e não respondeu.
Seu olhar dirigiu-se à porta.
— Esqueça. Nunca sairá daqui. Tem alguma arma,
também você?
— Não.
— Ótimo. Seria imprudente, caso o revistássemos, hem?
Caminhe para mim, com os braços levantados. E devagar...
Você é dessa Sekreten Polizeiken?
O homem empalideceu. Súbito, saltou de cabeça, com
toda a sua força, contra Brigitte que se limitou a recuar um
passo e aplicar-lhe com a pistola, no occipital, um golpe que
o derrubou. Ele deu um grito, rodou para um lado e
começou a levantar-se.
Mais uma vez esteve na posição adequada e agora
recebeu um pontapé em plena boca, que lhe partiu alguns
dentes e fê-lo rolar pelo chão, o que não o livrou de outro
pontapé, este no estômago. Nem sequer pôde gritar. Ficou
crispado, a sangrando pela boca aberta, os olhos fora das
órbitas, o rosto lívido...
E Brigitte desferiu-lhe um terceiro pontapé, na base do
pescoço, fulminando-o definitivamente.
Quando vários agentes da CIA apareceram segundos
depois, ela contemplava friamente o falso faxineiro fora de
combate.
— Levem o morto ao depósito — disse.
— E este — indicou o espancado —, quero-o bem preso
à mesa de operação. Verei se tenho talento para a cirurgia...
Algum de vocês os viu entrar?
— Eu vi um deles — disse um dos agentes que estavam
se encarregando do morto.
— Este aqui. Faz quase meia hora isso. Mas você tinha
dado ordem para...
— Eu sei, Johnny. E vocês trabalharam bem. Ele veio a
pé?
— Veio.
— Neste caso, deve haver um carro não muito longe.
Quero que alguns de vocês procurem esse carro. Com
cuidado, pois pode haver outros homens nele. Quando lhes
parecer que encontraram o carro, voltem aqui para dizer-me
onde está.
— Só isso?
— Só. Se houver alguém no carro, que esse alguém não
os veja. A única coisa que quero é saber onde ele está.
— Entendido.
Os agentes que levaram o morto saíram com os outros,
menos dois, que foram prender o homem sem sentidos à
mesa de operação. Ao terminar, olharam para “Baby”, que
assentiu com a cabeça e dirigiu-se a um armário de vidro,
cheio de frascos. Procurou até encontrar o que desejava,
trouxe-o até o prisioneiro e, destampando-o, colocou-o sob
seu nariz.
O homem agitou-se, abriu os olhos, murmurou alguma
coisa e pareceu disposto a levantar-se. Então notou seus
braços e pernas amarrados na mesa e, finalmente, deu-se
conta de que junto a ele havia dois homens que o olhavam
com hostilidade. Virou a cabeça para o outro lado e crispou-
se, ao ver a formosa jovem de olhos azuis.
Ela afastou-se levando o frasco e voltou com um bisturi,
que reluziu intensamente ao ser erguido diante de seus
olhos, para depois assentar sobre seu pômulo direito. Ele
não sentiu nada, realmente. Mas em seguida deu-se conta de
que o pômulo sangrava e encheu-se de pavor.
— Só estava experimentando o fio do bisturi — disse a
jovem que o vencera com tanta facilidade. — E parece que
ele corta maravilhosamente. Agora quero que você saiba de
uma coisa: eu nunca me detive diante de nada.
Compreende?
O gogó do homem subiu e desceu. Ele olhou para os
dois agentes da CIA, novamente para a jovem e
empalideceu por completo.
— Penso que compreendeu — prosseguiu ela. —
Portanto, as coisas podem ser fáceis ou difíceis para você.
Fáceis, se responder às minhas perguntas. Difíceis, se não o
fizer, em cujo caso começarei por minha conta um curso
completo de cirurgia caseira. E fique prevenido de que não
estou brincando.
***
O homem que ocupava o banco traseiro do carro olhou o
mostrador luminoso de seu relógio e murmurou:
— Faz mais de uma hora que eles entraram lá... Estão
demorando demais.
O que se sentava ao volante virou-se para ele.
— A coisa não é fácil. Esse Cavanagh deve estar muito
bem vigiado. A CIA não se pode resignar a perdê-lo, agora
que foram encontrados o bilhete e o dinheiro, e sabem...
melhor dito, acreditam que ele estava cometendo traição.
Claro, vão fazer o possível para que sobreviva, a fim de que
lhes conte quanta informação e de que espécie nos passou.
— Se esse homem se salvar, ficaremos em apuros.
Naturalmente, dirá tudo e muito receio que lhe deem
crédito... Arriscamos cento e sessenta mil dólares nisto, mas
se ele continuar vivo, tudo terá sido em vão. Diabo, não
compreendo como não morreu com os barbitúricos! Nós o
forçamos a engolir todos e o mantivemos bem seguro até
que praticamente começou a agonizar...
— Sabemos muito bem que um de seus homens foi lá e
o encontrou a tempo.
— A tempo! Esse Cavanagh tem que ser forte como um
touro...
— Foi encontrado a tempo, eis tudo. Devíamos ter
ficado lá até certificar-nos de que... Aí vêm eles!
Apontou para a escuridão da estrada. Ao longe, viam-se
as luzes da clínica da CIA e, à frente destas luzes,
apareciam, correndo, dois homens vestidos de branco.
— Ligue o motor! — exclamou o outro.
— Parece que estão em dificuldades!
O do volante obedeceu. O outro sacou a pistola, baixou
o vidro da porta e gritou:
— Aqui! Depressa!
A recomendação era desnecessária, pois os dois homens
corriam a toda velocidade pela estrada. Estavam a menos de
quarenta metros do carro quando, atrás deles, brilharam
clarões de vários disparos... que não se ouviram.
Um dos que corriam lançou um grito, ergueu os braços e
caiu para a frente, rolando algumas vezes sobre si mesmo
até ficar imóvel. O outro pareceu tropeçar, tombou de
bruços e tornou a levantar-se. Quando reencetou a corrida,
arrastava a perna direita... A esta altura, oito ou dez homens
tinham aparecido atrás dos dois, também correndo e sem
deixar de fazer fogo.
— Foram descobertos! — gritou o do assento traseiro.
— Mas se os agarrarem vivos...
— Arranque!
O do volante obedeceu. E ao mesmo tempo em que o
carro começava a mover-se, o homem que corria arrastando
a perna deu um grito e deteve-se como se tivesse esbarrado
com uma parede. Levou ambas as mãos às cosais, deu uns
passos incertos e, súbito caiu fulminado.
Por trás dele, os oito ou dez estavam gritando algo,
fazendo um grande rumor naquele silencioso e sossegado
lugar. O carro já se desviava para a estrada próxima quando
os tiros começaram a ser dirigidos contra ele. O vidro
traseiro despedaçou-se em mil fragmentos e a carroçaria
vibrou, ao receber numerosos impactos...
Mas, fatalmente para o grupo de agentes da CIA, o carro
pôde escapar, dando boléus e trambolhões sobre o ondulado
terreno, até chegar à estrada. Uma vez lá, em poucos
segundos pôs-se completamente fora do alcance dos
homens que tinham chegado a pé atrás dos fugitivos.
CAPITULO OUARTO
Uma garota de vida alegre

O fato não pôde ser silenciado, pelo menos nos círculos


importantes de Washington: duas noites antes, dois homens
tinham conseguido introduzir-se na clínica onde o chefe do
Grupo de Ação da CIA estava lutando entre a vida e a
morte, morte que ele mesmo tinha querido provocar, e o
haviam esfaqueado, matando-o definitivamente e fugido em
seguida. Mas, pouco depois de abandonarem a clínica, um
dos agentes de vigilância fixara-se neles, dando-lhes ordem
de parar. Ambos correram, porém surgiram vários agentes
mais, que os perseguiram até perto do carro que
evidentemente os esperava no campo, não muito longe da
clínica. Durante a perseguição, compreendendo que aqueles
dois homens lhes poderiam escapar, os agentes tinham
atirado, matando a ambos. Mas o carro que os esperava
conseguira fugir.
Tudo isto era comentado com maior ou menor engenho,
com mais ou menos detalhes “fidedignos”.
E enquanto escutava seu informante, num dos corredores
do Capitólio, o simpático senador Wayne T. Madison movia
pesarosamente a cabeça.
— É uma história triste... — murmurou.
— Triste e lamentável.
Seu interlocutor olhou-o meio surpreendido, meio
irritado.
— Triste e lamentável? — grunhiu. — Eu diria que é
uma história exemplar, Madison.
— Em seu desenlace, positivamente. Mas refiro-me às
suas origens. O triste e lamentável é que um homem na
posição de Cavanagh tenha cometido traição. Quando
acontecem coisas assim, a gente se pergunta aonde vamos
chegar, em quem podemos confiar... E a conclusão é
desalentadora.
— Vistas as coisas desse modo, estamos de acordo.
Quanto a mim, ao dizer que era uma história exemplar,
referia-me ao fim de Cavanagh. Não sei que diabo será isso
de Sekreten Polizeiken, mas, pelo menos, mostrou ser
eficiente. Prevendo a possibilidade de que Cavanagh falasse
demais se o conseguissem salvar, resolveram eliminá-lo e
assim fizeram, embora isso lhes custasse dois homens.
Enfim, o ambiente está agitado em Washington: já tínhamos
a nova escalada no Vietnã, o bloqueio... e agora surge essa
de Sekreten Polizeiken. Veremos onde param as coisas.
— Imagino que a CIA fará todo o possível para
solucionar este assunto. Bem, Waldon, desculpe-me, mas
tenho um pouco de pressa: chegaram uns representantes de
meu Estado com um pedido que, aliás, não sei como
atender.
— Todos estão sempre pedindo alguma coisa — sorriu o
outro. — Até à vista, Madison.
Waldon afastou-se e Wayne T. Madison acendeu um
cigarro, antes de dirigir-se à saída. Era um homem alto,
forte, de quarenta anos, muito elegante e sóbrio. Excelente
figura, em suma.
Já estava perto de seu carro quando, de súbito, uma
garota loura de olhos escuros apareceu diante dele, olhando-
o fixamente. Madison sobressaltou-se e em seguida desviou
o olhar... Coisa um tanto surpreendente, pois a jovem era
digna da máxima atenção por parte de qualquer homem:
corpo magnífico e rosto belíssimo, embora um pouco
crispado numa expressão de angústia.
Madison quase correu para o carro, esquivando aquela
preciosidade. Entrou nele a toda pressa e, antes que ela o
pudesse alcançar, deu a partida.,
A garota ficou como cravada no chão. Depois seus
ombros se abateram e, lentamente, ela começou a caminhar
pela avenida, observada do alto da escadaria por um homem
de testa franzida, olhar alerta.
Quando ela chamou um táxi, o homem desceu
apressadamente a escadaria, chamou outro táxi e indicou o
que a levava...
***
— Isso foi há dois dias — informou o homem. — E a
partir daí, comecei a me interessar por ela, senhor Kubiken.
Por isso lhe enviei o nome da garota, para que o senhor a
investigue através de seus canais de informação. Conseguiu
apurar alguma coisa?
Após a pergunta, o homem que se tinha ocupado da
bonita jovem loura ficou olhando atentamente, um pouco
impressionado, seu visitante. E tinha motivos para sentir- se
impressionado.
Oskar Kubiken, com uns quarenta e cinco anos, era alto
e robusto, de ombros poderosos. Suas mãos, embora belas,
eram enormes, fortíssimas. Usava uma camisa de malha, de
gola alta, e, sob o paletó, o peito parecia ir arrebentar a
qualquer momento ambas as coisas. Porém o mais notável
nele era a cabeça, absolutamente redonda. Usava os cabelos
louros muito curtos, de modo que ficavam em destaque as
orelhas, grandes e carnudas. Os olhos eram de expressão
inteligente, claros a ponto de parecer de vidro. Quando ele
estava de bom humor, aqueles olhos eram extraordinários,
simplesmente. Quando não, tornavam-se frios como gelo,
inquietantes, aterradores.
Mas, felizmente para o homem, naquele momento Oskar
Kubiken estava bem humorado.
— Você trabalhou bem, Jarvis, muito bem — elogiou.
— Naturalmente, consegui informações sobre essa garota.
Mas vejamos antes o que mais aconteceu.
— Bem, ela foi com o táxi a um hotel barato, onde está
hospedada com o nome de Margie Jones, como consta de
meu informe. É do mesmo Estado que o senador Madison
representa e, nesse sentido, nada mais pude saber.
— Eu sim. Continue.
— Foi ao hotel e ficou lá até às cinco, quando tornou a
sair. Tomou outro táxi e mandou tocar para o hotel onde se
hospeda o senador, o “Rose Hotel”. Entrou e eu a segui. Foi
direta ao balcão da portaria, onde, depois de usar o telefone,
o encarregado lhe disse alguma coisa. Ela pareceu
aborrecer-se, depois saiu do hotel, mas ficou por perto,
esperando. Compreendi que tinha querido ver Madison, mas
que este ou não estava em seus aposentos ou não quisera vê-
la. O caso é que ela esperou. Pelas oito horas, Madison saiu
com outros dois homens. Ela o esteve olhando... Parecia
hesitar. Por fim, quando o senador afastou-se em seu carro
com os companheiros, ela voltou ao hotel onde está. E não
saiu mais até o dia seguinte, ou seja, ontem pela manhã,
cerca das onze. Voltou ao Capitólio. Madison saiu de lá as
doze e meia, mas esta vez não estava só. Acompanhavam-
no três homens, com os quais conversava animadamente.
Entretanto, sei que viu a garota...
— Pareceu-lhe que arranjou companhia para que ela não
se aproximasse?
— Exatamente.
— Que fez ela?
— Parecia desesperada. Madison foi-se embora em seu
carro, com os outros três. Almoçaram num restaurante e,
duas horas depois, voltaram ao Capitólio. Ela ainda estava
lá, esperando... Pude perceber o nervosismo, a preocupação
do senador. Ele entrou no Capitólio simulando não a ver
Quando, tornou a sair, ela continuava à espera.
— Não foi comer nada?
— Eu seria capaz de jurar que há dois ou três dias não se
alimenta. Está abatida, pálida... Mas é compreensível.
— Por que diz isso?
— Vai ver. Quando Madison tornou a sair do Capitólio,
ela esperou um pouco e outra vez tomou um táxi. A mesma
coisa da véspera: foi ao “Rose Hotel”, fez-se anunciar ao
senador, mas este não a recebeu. Ela saiu e foi para o seu
hotel. Pelas oito horas, deixou este e eu resolvi não a seguir,
mas dar uma olhadela em seu quarto...
— Espero que tenha feito as coisas devidamente, Jarvis.
— Claro. Nosso treinamento na Sekreten Polizeiken é
muito bom, senhor Kubiken Ninguém me viu entrar em seu
quarto. E lá, escondido no fundo de sua maleta, encontrei
um estojo com uma seringa para injeção hipodérmica. Essa
garota é morfinomaníaca, tenho certeza. Saí do hotel e
esperei-a. Quando voltou, parecia muitíssimo mais
tranquila, até alegre. Notava-se isso em seus gestos, sua
expressão... Pareceu- me que tinha conseguido morfina em
algum lugar. Subiu ao quarto, a toda pressa, com os olhos
brilhantes, radiante. Desceu meia hora depois e foi jantar
num restaurante docente. Parecia outra mulher.
— Bem. Creio que nos devemos interessar pelas
relações entre essa jovem e o senador Madison.
— Também me parece muito adequado. E como sei que
este assunto será atendido pelo senhor, não fiz nada a
respeito.
— Muito bem. E que fez ela hoje?
— Nada, tampouco. Não... perseguiu Madison. Dedicou-
se a passear.
— Parece que o relacionamento entre ambos está bem
claro, não? Quando ela precisa de morfina, persegue o
senador. Quando arranja morfina, esquece-o. Acha aceitável
esta teoria?
— Sim, senhor, sem dúvida.
— Mas se ela descobriu como conseguir morfina em
Washington, é possível que durante algum tempo deixe
Madison em paz. Pelo menos enquanto tiver dinheiro.
Quando este terminar, talvez torne a persegui-lo. O
interessante é saber positivamente se o senador lhe fornece
a droga ou simplesmente dinheiro. No caso de que a tenha
comprado sem que ele lhe desse o dinheiro, devemos pensar
que tem dinheiro, mas não facilidade para conseguir a
droga. E assim sendo, o que o senador Madison facilita a
essa jovem, logicamente, é morfina.
— Bom... Francamente, senhor Kubiken, não me parece
muito provável que um senador se dedique a vender
morfina...
— Não seja idiota! A coisa não é assim tão simples.
Claro, não vamos pensar que um senador venda drogas. O
que acontece é que tem de haver algo pessoal entre eles e
não creio que peque por excesso de imaginação ao supor...
Bom, na verdade é que não devemos desprezar a chance de
conseguir nada menos que um senador para a Sekreten
Polizeiken.
— Que descobriu a respeito dessa Margie Jones, senhor
Kubiken?
— Foi presa duas vezes por conduta escandalosa. Ao
que parece, é... ou era uma garota alegre, das que querem
viver intensamente. Depois se tornou mais comedida,
deixando de frequentar certos lugares e companhias. Mas,
inesperadamente, uma noite houve um tremendo escândalo
numa cidadezinha não distante daqui e a Polícia interveio.
Depois a coisa tornou-se confusa. Havia diversos homens e
mulheres naquele chalé, mas o caso foi abafado e, poucas
semanas após, as garotas voltaram a circular. Até dois dias
atrás, Margie Jones foi vista por lá. Depois desapareceu.
— Veio a Washington.
— Evidentemente. Atrás de Madison, que, por pouco
que pensemos, somos forçados a reconhecer como não
alheio à sua libertação.
— Bom... Não me parece absurdo que o senador seja um
desses homens que procuram diversões extras. É muito
possível que estivesse naquela noite no tal chalé.
— Pois vamos tentar... Seja o que for que esteja fazendo
agora, miss Jones terá que voltar esta noite ao seu hotel e
então...
***
Margie Jones entrou no quarto do modesto hotel,
acendeu a luz, fechou a porta e sorriu de um modo estranho,
entre divertida e hostil.
Deixou a bolsa sobre a cama, pendeu um cigarro e ficou
olhando para a porta. Quando soou a batida nesta, tornou a
sorrir. Descalçou-se rapidamente, tirou a muito justa blusa
de jérsei e foi abrir, colocando novamente o cigarro entre os
lábios.
Abriu muito os olhos, mostrando surpresa, ao ver aquele
extraordinário indivíduo de quase dois metros de altura e
cabeça redonda, que a contemplava com expressão amável.
— Miss Jones? — perguntou ele.
— Sim... — houve um brilho de alarma nos olhos dela.
— Que deseja?
— Posso entrar?
— Já ia deitar-me...
— Só a importunarei por uns minutos... E valerá a pena,
garanto-lhe.
— Quem é o senhor?
— Não sou da Polícia, nem do FBI, se isso a tranquiliza.
Insisto em que nossas relações só a favorecerão.
— Está bem... — ela hesitou. — Entre.
O homem entrou e, depois de fechar a porta, ela tornou a
vestir a blusa. Enquanto, isso, Oskar Kubiken a
contemplava com amabilidade um tanto sarcástica.
— Você é muito bonita... — murmurou. — Mas sou um
homem que sabe dominar-se muito bem. Comigo está a
salvo, nesse sentido.
Ela franziu a testa.
— Diga o que deseja. E quem é.
— Sou alguém que conhece uma boa parte de sua vida,
Margie. Claro, em apenas dois dias não se pode averiguar
tudo, mas...
— De que está falando? — inquietou-se ela.
Kubiken meteu a mão no bolso e tirou um montão de
notas de mil dólares que a jovem olhou como alucinada.
— Cem mil dólares — disse ele — para você.
— Para mim?
— Para você. Com esta soma, parece-me que poderá
adquirir morfina para bastante tempo. Além disso, se
continuar trabalhando comigo, ganhará o suficiente para
que nunca mais torne a precisar dela no futuro.
— Não... não sei o que está dizendo.. Eu...
— Se você quiser, posso fazer um resumo de sua vida,
mas agradeceria que me poupasse o incômodo. Para que
falar de algo que ambos sabemos perfeitamente? Olhe,
Margie, se eu quisesse prejudicá-la, me bastaria avisar o
FBI que em certo quarto de certo hotel há uma jovem com
uma seringa para injeções hipodérmicas em sua maleta...
Compreende? Mas o que desejo é que cheguemos a um bom
entendimento. E me parece — indicou as cédulas, sobre a
cama — que o estou demonstrando.
Margie Jones olhou uns segundos o extraordinário
indivíduo. Depois se sentou na cama, pegou o montão de
cédulas e, após contemplá-las longamente, perguntou:
— Que quer de mim?
Aproximando-se, Kubiken segurou-lhe um braço e
levantou a manga da blusa. Ela tentou retirar o braço, mas
dada a força tremenda de seu visitante, foi como se não
tivesse feito o menor gesto de rebeldia. E ele indicou os
pontinhos avermelhados na face interna de seu cotovelo.
— Injetou-se hoje? — perguntou.
— Não. Posso... posso esperar até amanhã... Solte-me...
— Quero-a em perfeitas condições quando realizar o
trabalho, Margie. E se só consegue isso quando está
drogada, eu mesmo lhe conseguirei a droga... Compreende?
— Sim, sim... Solte-me!
— Está bem — soltou-a. — Mas cuidado: nunca jogue
sujo comigo...

CAPITULO QUINTO
Bela demais para morrer

Wayne T, Madison fechou os olhos um instante quando,


uma vez mais, ao sair do hotel para jantar, viu a garota sob a
marquise. Felizmente, também uma vez mais tinha
arranjado companhia para fazê-la desistir de aproximar-se,
tal como havia acontecido em outras ocasiões.
Mas esta vez não foi assim.
Ela aproximou-se com expressão tímida, mas
evidentemente resolvida a abordá-lo. E enquanto ele
hesitava entre prosseguir e voltar ao hotel, apresentando
qualquer pretexto a seus companheiros, ela plantou-se à
frente dos três e disse:
— Olá, Mr. Madison.
Este não soube o que dizer. Seus dois amigos olharam
sorridentes a bonita loura e depois, um tanto surpreendidos,
viraram- se para o senador, que parecia petrificado.
— Não se lembra de mim, Mr. Madison? — perguntou
ela. — Sou Margie Jones, de...?
— Oh! Lembro-me, claro.
— Eu... eu queria falar com o senhor.
— Mas estou ocupado agora, miss Jones Se tiver a
amabilidade de esperar outro momento...
— De maneira nenhuma — protestou um dos amigos do
senador. — Ora essa, Wayne, não seja descortês por nossa
causa. Atenda à jovem. Nós esperamos no carro.
E sem lhe dar tempo de reagir, afastaram-se os dois,
deixando-os sozinhos. Madison viu-os se afastar, olhou a
garota e franziu a testa.
— Você está louca? — murmurou. — Há dias que a
vejo rondar por aqui, mas nunca pensei que se atrevesse a...!
— Wayne, eu preciso de você... — implorou ela. —
Preciso de verdade! Há dias encontrei alguém que me
vendeu um pouco, mas meu dinheiro acabou. E nem
consegui mais encontrar aquele homem, para pedir- lhe...
Preciso muito de você, Wayne!
— Está bem, calma — alarmou-se ele, pois Margie
começava a levantar a voz. — Acalme-se.
— Wayne, saí da cadeia há poucas semanas, não tenho
dinheiro, não tenho nada, ninguém a quem recorrer... Você
não pode que abandonar agora. Preciso da droga. E preciso
de você... Por favor!
— Não posso atendê-la neste momento. É impossível!
— Quando? Quando, Wayne?
— Não sei...
— Esta noite. Tem que ser esta noite, pois não posso
mais... Por favor, Wayne! Por favor!
— Pelo amor de Deus, cale-se!
— Por favor, por favor, por fav...
— Está bem, vou tentar! Mas não agora mesmo... Agora
não posso, Margie!
— Quanto vai demorar?
— Não sei... O menos possível, juro. Mas agora você
tem que ir. Suplico-lhe, Margie! Não queira complicar a
minha vida...
— É que preciso tanto, Wayne! Olhe: estou no River
View Motel, cabana 14... Não o quero prejudicar, juro, mas
preciso que me arranje a droga. Você tem que arranjá-la.
— Eu a levarei... — ofegou Madison.
— Esta noite mesmo, Margie.
— Esta noite? Esta noite, Wayne?
— Sim, sim, sim... Tenho que ir jantar agora, não posso
esquivar-me a esse compromisso. Mas logo que termine,
procurarei isso que precisa para levar-lhe imediatamente.
— Estou no Riv...
— Eu sei: River View Motel, cabana 14. Irei lá o quanto
antes possível. Por favor, agora vá, Margie.
— Está bem... Ficarei à sua espera.
— De acordo... Adeus.
Wayne T. Madison girou sobre si mesmo e foi reunir-se
com os homens que o esperavam no carro. Margie Jones
ficou como que cravada no chão durante uns segundos.
Depois, lentamente, começou a afastar-se, avenida abaixo.
Uns cento e cinquenta metros mais além, meteu-se de súbito
num carro, sentando-se junto a Oskar Kubiken. Jarvis logo
deu a partida, enquanto Kubiken, sorrindo amavelmente,
batia num joelho da jovem.
— Está feito — disse ela. — Prometeu ir ao motel...
— Muito bem — sorriu Kubiken. — Devolva-me o
aparelhinho.
Margie tirou um pequeno objeto metálico do decote e
entregou a ele, perguntando:
— É um... microfone?
— Um “ouvido mágico”, com efeito — assentiu
Kubiken. — Graças a ele pudemos gravar tudo.
— Gravar?
— Sim. Escute isto.
Mostrou-lhe o receptor, com gravador incorporado, que
pôs em movimento após fazer voltar a fita. Ela começou a
ouvir a própria voz:
— Olá Mr. Madison. Não se lembra de mim, Mr.
Madison? Sou Margie Jones, de...
— Oh! Lembro-me, claro.
— Eu... eu queria faiar com o senhor.
— Mas estou ocupado agora, miss Jones...

Depois disto, enquanto o carro rodava, Margie foi


escutando o resto da conversa entre ela e o senador. Quando
terminou, Kubiken deteve a marcha do aparelho e tornou a
olhá-la, sorridente.
— Que acha? — perguntou.
— Não sei. Parece coisa de... de espiões, ou algo assim.
— Algo assim — riu ele. — Bem, agora só tem que ir ao
motel onde a levamos esta manhã e esperá-lo na cabana que
alugou em seu nome. Quer dizer, nós a levaremos até perto
e você chegará a pé. Depois deixe a porta aberta, pois Jarvis
deverá entrar lá para trazer as últimas instalações.
Terminará muito antes que o senador tenha acabado de
jantar e você ficará sozinha. Mas não estaremos muito longe
e, se lhe interessa, saiba que tudo quanto vocês façam ou
digam será visto e ouvido por nós.
— Estarão nos vendo e ouvindo?
— Foi o que eu disse. Portanto, desempenhe bem o seu
papel, de modo que tudo saia absolutamente perfeito.
— Quando me dará o dinheiro e... a outra coisa?
— Terá o dinheiro quando terminar seu trabalho. Quanto
à outra coisa, o senador vai lhe conseguir, não duvide. E
será bom que ele encontre você esperando-o.
— É que... já começo a precisar...
— Melhor. Assim, sua atuação só se beneficiará.
Tranquilize-se. Dentro de poucas horas tudo estará
terminado e você terá cem mil dólares... E se me agradar o
seu modo de fazer as coisas, continuará comigo, ganhando
bastante dinheiro.
— Eu... farei o melhor que... que puder...
— Espero que sim. Não estamos acostumados a
fracassar, Margie.
— Que quer dizer?
— Limite-se à sua parte. E não esqueça nenhum detalhe.
***
Não esquecera nenhum detalhe. Tudo estava
perfeitamente preparado e, quando soou a cautelosa batida
na porta, ela foi abrir, vestindo apenas um baby-doll cuja
transparência era quase total.
— Quem é? — perguntou.
— Wayne.
Aberta a porta, ele entrou, fechando-a rapidamente.
Depois olhou para Margie e passou a língua pelos lábios.
Ela estava belíssima.
— Trouxe? — perguntou a garota. — Trouxe o que
pedi, Wayne?
Ele estendeu-lhe um pequeno pacote. Tomou-o com
mãos trêmulas e correu para o quarto. Quando o senador
entrou neste, lentamente, ela já tirara do estojo a seringa.
Tremiam-lhe tanto as mãos que, quando abriu o pacotinho,
quase o deixou cair. Madison aproximou-se por trás,
segurando-a pelos ombros.
— Calma — murmurou. — Quer que eu prepare a
injeção?
— Sim, oh, sim! Por favor!
— Olhe — sorriu ele: — não gostei que me tivesse
seguido até aqui, mas, já que o fez, não vejo motivos para
não celebrarmos... Como sempre, Margie, você sabe.
— Não... Agora não! Depois...
— Ora, minha querida... Enquanto preparo a injeção,
você já pode começar. Como sempre, lembra-se? E esta vez
será melhor, já que estamos sós, não como naquele chalé,
onde éramos vários a nos reunir. A solidão a dois é
deliciosa e...
— Wayne, não posso mais!
— Mas você sabe o que tem a fazer.
— Sim, sim... Farei!
Tirou o baby-doll e ficou diante dele, olhando-o
ansiosamente. Madison tornou a sorrir, aproximou-se e
beijou-a num ombro.
— Wayne... — gemeu ela. — Wayne, depois...!
— Está bem — ele afastou-se e começou a preparar a
injeção de morfina. — Temos que falar muito seriamente,
Margie. Você esteve presa e alguém poderia reconhecê-la,
se nos vissem juntos. A última vez conseguimos soltá-la e
às outras, mas foi com a condição de que deviam ir para
bem longe. Por isso não gostei que me seguisse a
Washington. Você tem que compreender, querida. Foram
muitos os escândalos e se a coisa continuasse, poderia
terminar mal para m... Muito mal. Um senador
comprometido com um grupo de garotas como você, entre
as quais havia menores. E as coisas que fazíamos... E as
drogas. Compreende que isso seria terrível para mim e para
alguns de meus amigos, Margie?
— Compreendo... — arquejou ela. — Mas, Wayne, por
Deus...
— Pronto — ele virou-se e estendeu-lhe a seringa cheia.
— Vá com calma, querida.
Ela tomou a seringa, soluçando, mas com pulso firme
cravou a agulha no antebraço, comprimindo o êmbolo.
Fechou os olhos e umas gotas de suor apareceram em sua
testa. Madison colocou-se atrás dela e abraçou-a pela
cintura, beijando-a nos ombros na nuca...
— Tudo vai bem, garota. Devagar... logo você estará mais
tranquila. E graças a mim, como tantas vezes. Espero que
saiba ser tão reconhecida como sempre, amorzinho...
Terminou? Venha, então.
Levou-a para a cama e estendeu-a. Margie ficou imóvel,
olhos fechados. Havia ainda alguma crispação em seu rosto,
mas pouco a pouco foi desaparecendo, substituída por uma
expressão de enlevo, de êxtase. Quando abriu os olhos e
olhou para Madison, sorriu deliciosamente.
— Wayne... — murmurou. — Wayne...
Ele estendeu-se a seu lado, acariciando-a.
— Bom... Agora tudo está bem, não é verdade, garota?
— Oh, Wayne, quanto sinto ter aborrecido você! Mas
precisava tanto de seu carinho...
— De meu carinho ou de morfina?
— Das duas coisas — murmurou ela docemente.
— Ah! Bom, já tem uma delas, vamos à...
— Levante-se — disse uma voz de homem, às suas
costas.
Wayne T. Madison estremeceu fortemente e levantou-se
de um salto. Seus olhos arregalados fixaram-se no homem
que, na porta do quarto, apontava-lhe um revólver. O
choque deixou-o sem poder falar ou reagir de qualquer
modo. Margie saiu da cama, foi ao armário e vestiu
rapidamente um roupão. Virou-se para Madison, que
continuava petrificado, feições alteradas.
— Porco asqueroso! — gritou-lhe. — Você e todos os
da sua laia não passam de uns porcos! Tanta
respeitabilidade e não são mais que uns canalhas, uns
malditos, indecentes que...!
— Mas que significa isto, Margie? — ofegou Madison.
— Porco, porco, porco...!
O senador apertou os punhos e avançou um passo para
ela. Mas Jarvis foi atrás dele e deu-lhe uma forte coronhada
nos rins, que o fez arquear-se, boca aberta, sentindo
dificuldade em respirar. Uma segundo coronhada, também
nos rins, derrubou-o sem sentidos.
Jarvis guardou o revólver e dirigiu um olhar torvo à
garota, que tinha empalidecido.
— Apanhe suas coisas. Vamos sair daqui agora mesmo.
— Sim, sim, sim...
E enquanto ela metia suas coisas na maleta, sem
esquecer a morfina que restada no pacote, Jarvis foi a um
canto do quarto e, de cima da barra que sustentava a cortina,
retirou a câmara cinematográfica, ainda funcionando.
Parou-a e olhou para Margie, que já fechava a maleta. Então
ele sacou o rádio de bolso, apertou o botão e disse:
— Estamos prontos, senhor Kubiken.
Guardou o rádio e dirigiu-se à saleta da cabana. Indecisa,
Margie seguiu-o, levando a maleta. Ele apagou todas as
luzes e ficou imóvel. Meio minuto depois, os faróis de um
carro iluminaram a janela.
— Vamos — disse Jarvis.
Diante da cabana estava o carro, mas Kubiken já passara
ao assento traseiro e Margie instalou-se a seu lado. Jarvis
pôs-se ao volante e, virando-se, passou a câmara a seu
chefe.
— Devíamos ter esperado que ocorressem mais coisas,
senhor Kubiken — murmurou. — Pelo que estávamos
ouvindo, podíamos ter obtido um filme tão completo, que...
— Temos o suficiente — cortou Kubiken.
— Vamos embora.
— Mas... e Wayne? — perguntou Margie.
— Quando despertar regressará mais que depressa ao
seu hotel — disse Jarvis. — Não lhe acontecerá nada por
enquanto. Isso a preocupa?
— Oh, por mim, que morra! Mas não gostaria que... que
a Polícia me procurasse. Viram-me falando com ele diante
do hotel e também algumas pessoas do motel me viram...
— Não se preocupe por nada. Vamos, Jarvis.
— Com ela? — pareceu surpreender-se Jarvis; depois
torceu um sorriso. — Bom, que diferença faz, afinal?
O carro estava deixando o motel e Maggie olhou
Kubiken, assustadíssima.
— Que... que foi que ele quis dizer...?
— Nada de importância. Simplesmente, que confiamos
em você. Vamos esperar para ver o filme, mas creio que
estará perfeito... Sente alguma coisa?
— Um pouco de frio... Estou só com este roupão.
— Por que não se veste?
— Sim, sim...
Com o carro em marcha, ela abriu a maleta, tirou alguma
roupa e despiu o roupão. Sentado junto, Kubiken olhava-a
inexpressivamente, enquanto ela ia se vestindo. Quando
terminou, Margie sorriu, tímida.
Também ele sorriu, feições um tanto rígidas. Sua voz
soou rouca:
— Você é muito bonita, Margie...
***
Meia hora depois, Jarvis parou o carro diante da
residência situada em terreno amplíssimo, cheio de altos
pinheiros. Margie pôde ver um momento a casa grande e
branca, quando os faróis do carro a iluminaram.
Acendeu-se a luz do pórtico ornado de colunas e a porta
foi aberta por um homem.
— Tudo bem — disse Jarvis.
— Naturalmente. Leve a maleta dela.
Kubiken e Jarvis apearam. O primeiro virou-se para
Margie, tomando-a pelo braço. E enquanto estes
caminhavam para o pórtico, Jarvis, munido da maleta,
chamou:
— Senhor Kubiken.
— Que é? — virou-se este.
— Tenho algo a lhe dizer.
Kubiken voltou e olhou-o, cenho carregado.
— Fale.
— Quer que eu me encarregue dela? — referia-se a
Margie, que se detivera, esperando.
— Não.
— Bem, não acho que o senhor deva se incomodar por
tão pouca coisa. Posso matá-la agora mesmo e levá-la no
carro, para um lugar conveniente, onde...
— Eu disse que não.
— Mas, senhor Kubiken, ninguém alheio à Sekreten
Polizeiken esteve nesta casa e se ela...
— Pretende dizer-me o que devo fazer?
— Não... — empalideceu Jarvis. — Não senhor!
— Então leve sua maleta e trate de revelar esse filme.
Quero vê-lo assim que ficar pronto. Estarei lá em cima, na
suíte.
— Com a garota?
— Claro.
— Ah! — sorriu Jarvis. — Estou entendendo. Divirta-
se!

CAPITULO SEXTO
Que importa para onde?

O filme terminou e um dos homens da casa acendeu a


luz. Depois todos ficaram olhando expectantes para Oskar
Kubiken. Mas, contrariamente ao que costumava acontecer,
ele não sorria com sarcasmo esta vez. Sua expressão era,
antes, sombria.
Seis homens ao todo, incluído Jarvis. E houve uma troca
de olhares entre eles. Depois um falou:
— Parece-me um material de primeira ordem, senhor
Kubiken.
Este olhou e seus olhos mudaram de expressão .
— Sim, sem dúvida, Romar. Façam as cópias habituais
para arquivo e remessa ao interessado... Você se
encarregará disto, Jarvis, pois ele já o conhece. Não há
razão para apresentar-lhe outros membros da Sekreten
Polizeiken.
— Farei isso com muito gosto — sorriu Jarvis. — E
seria preciso que ele estivesse louco para permitir que
enviássemos uma cópia à Casa Branca, por exemplo. Fará
tudo quanto lhe pedirmos, como os outros. Felizmente, o
mundo está mais que podre... Felizmente para nós, claro.
— Chamaram o helicóptero? — perguntou Kubiken.
— Não tardará a chegar. Certamente, antes do
amanhecer.
— Bem. Voltarei à base. Vocês prosseguirão com suas
operações respectivas... A propósito, Jarvis — olhou-o com
grande amabilidade —, pode começar a contar com o
prêmio correspondente ao senador Madison: no fim do mês
receberá um extra de cinco mil dólares.
— Muito obrigado, senhor Kubiken.
— Aqui ninguém precisa agradecer sorriu este. — Você
fez um bom trabalho e, portanto, mereceu o prêmio.
Continuem todos vigilantes. A Sekreten Polizeiken vai se
tornando mais numerosa, mas de nada serviria sermos
muitos, se não estivéssemos atentos. Nosso trabalho
específico consiste em encontrar personagens importantes
da política americana que estejam comprometidos em
alguma coisa, investigá-los, não perder detalhes de tudo o
que façam... Esta será nossa força no futuro.
— Posso fazer-lhe uma pergunta, senhor Kubiken? —
manifestou-se Varzos.
— Lógico.
— Convinha realmente relacionar a Sekreten Polizeiken
com o assunto desse chefe da CIA? Refiro-me ao bilhete
que colocamos...
— Compreendo. Bem, Varzos, a pergunta é interessante
e creio que lhe poderei dar uma resposta convincente. O
pior deste caso foi o investimento de cento e sessenta mil
dólares para convencer a CIA de que esse Cavanagh
estava... associado conosco. Podíamos ter feito isso sem
necessidade de mencionar a Sekreten Polizeiken, decerto.
Aparentemente, teria bastado convencer muitas pessoas de
que Cavanagh estava traindo a CIA, fosse com quem fosse.
Entretanto, mencionando nossa organização, procuramos
coagir moralmente os homens que já se acham sob nosso
controle. Os que já estão faz tempo no caso, e logo se
encontrará nessa situação o senador Madison, talvez
comecem a pensar na possibilidade de esquivar-se às nossas
ordens. Mas, súbito, um chefe da CIA suicida-se...
aparentemente. Dadas às circunstâncias, foi necessário
intervir depois de maneira direta, matando-o na clínica e
perdendo dois homens nessa operação. Evidentemente, tal
intervenção direta pode ter feito compreender a muitos que
o suicídio de Cavanagh foi preparado. Mas o importante é
ter ficado demonstrado que ele se negou a continuar
colaborando com a Sekreten Polizeiken e que esta não o
admitiu de maneira nenhuma. Matou-o de um ou de outro
modo e, deixando a descoberto que ele era um traidor,
manchou seu nome, anulou o bom trabalho que por muitos
anos esteve realizando para os Estados Unidos... Morto e
desonrado! Creio que é uma boa advertência a todos e que
todos já devem saber como age a Sekreten Polizeiken com
aqueles que se rebelam.
— Convencido, senhor Kubiken — sorriu Varzos.
— Mas — interveio outro — nós sabemos que esse
Cavanagh nunca trabalhou para nossa organização.
— Sim, nós sabemos — sorriu friamente Kubiken —,
mas ninguém mais. Para todos, ele colaborou com a
Sekreten Polizeiken.
Preparamos a coisa assim para causar desmoralização e
dar um exemplo do que podia ocorrer a quem pretendesse
rebelar-se. Agora, com a morte desse homem e a pecha de
traidor que pesa sobre ele, ninguém cometerá imprudências.
Todos compreenderão que se o fizerem morrerão
desmoralizados, que têm muito a perder e nada a ganhar.
Assim, continuarão sob nosso domínio... até que chegue o
momento.
— Quando chegará esse momento e o que pretendemos
exatamente? — perguntou Romar.
— O momento tardará ainda e o que pretendemos é tão
importante que, por enquanto, será melhor que vocês o
ignorem.
— Há outra coisa que não compreendemos — disse um
dos homens: — muitos políticos importantes já estão
comprometidos e, graças à nossa chantagem, podemos
dispor deles. Mas não lhes pedimos nada, não tiramos deles
um único dólar...
— Não é dinheiro o que falta à Sekreten Polizeiken —
quase riu Kubiken. E, claro, não dinheiro o que queremos.
Continuem trabalhando e, quando chegar o momento,
saberão tudo. Mas de uma coisa podem ter certeza: o
projeto é de tal envergadura que cada um de vocês, quando
tudo terminar, poderá considerar-se um rei.
E sem mais explicações, Kubiken abandonou a sala e
subiu ao primeiro andar, onde estavam os quartos. Entrou
no maior e mais luxuoso. Sem acender a luz, aproximou-se
da cama onde Margie parecia dormir placidamente. Via
somente o contorno do seu rosto e os cabelos espalhados
sobre o travesseiro. Sua respiração era lenta, compassada,
profunda. Ele acendeu a luz da mesinha de cabeceira e,
levemente, acariciou o rosto da garota adormecida, sem que
esta tomasse conhecimento de nada.
— Será melhor assim... — murmurou Kubiken. — Do
sono à morte. Nunca a esquecerei, mas não posso fazer
outra coisa...
Suas grandes mãos rodearam o pescoço de Margie e os
dedos fortíssimos crisparam- se. Então ela abriu os olhos, de
súbito. Kubiken ficou imóvel, como petrificado.
Margie olhou-o um instante, perplexa. Depois sorriu
docemente e abraçou-se a ele.
— Oskar, sonhei com você... E me sentia tão feliz... Mas
agora sinto-me mais feliz ainda, porque este momento que
estou vivendo não é um sonho... — alarmou-se
graciosamente, abrindo muito os olhos. — Ou é um sonho,
Oskar?
— Não... É a realidade.
Ela suspirou. Depois o puxou para si e beijou-lhe os
lábios.
— Então tudo é maravilhoso... — mas afastou-o,
olhando-o surpreendida. — Que faz você vestido? Vai
embora? — perguntou, alarmada. — Oskar, você vai me
deixar aqui, sozinha?
Kubiken passou a língua pelos lábios. Claro, tinha que
deixá-la, sim... E para sempre. O contrário seria uma
loucura. Tinha muitas coisas importantes a fazer, muito em
que pensar. Em sua vida não havia lugar para mulher
alguma...
— Por que me olha assim? — gemeu ela.
— Pensou em deixar-me, então. Oh, como pode você
fazer isso comigo...? Não está me ouvindo, Oskar?
Ele estava ouvindo o som de um helicóptero, cada vez
com mais clareza. Bem. .. Vinham buscá-lo, de acordo com
suas ordens. Tinha que tomar uma decisão. E esta só podia
ser a única razoável: matar aquela jovem e entregar a seus
homens o cadáver para que o levassem a qualquer parte...
Desvencilhou-se dos braços de Margie.
— Vista-se — disse-lhe bruscamente. — Temos que
partir o quanto antes.
— Sim, Oskar.
Ela se levantou e foi até onde estavam suas roupas,
começando a vestir-se com rapidez assombrosa. Kubiken a
olhava quase com hostilidade. Sentia-se irritado, porém
mais com ele mesmo. Margie nem sequer perguntara aonde
iam, o que talvez s tivesse decidido a matá-la...
— Não quer saber para onde vamos? — perguntou-lhe.
— Lá estarei com você, Oskar?
— Sim.
— Então que importa?
Som forte do helicóptero, pousando diante da casa.
Silêncio, agora. Margie já tinha acabado de vestir-se.
— Estou pronta, Oskar.
Tornou a olhá-la com hostilidade. Já estava pronta? Nem
sequer se penteava ou se pintava, essas coisas com que as
mulheres costumam perder tanto tempo. Olhou-a atento.
Estava simplesmente adorável. Tão adorável que ele se
deixou convencer por um pensamento: podia matá-la mais
adiante, quando ela não mais o interessasse.
— Vamos.
Ela tomou sua maleta e foi atrás dele. Embaixo, no
vestíbulo, os seis homens conversavam com o piloto do
helicóptero. Todos se viraram, atentos.
— Mandem a cópia para o arquivo, como de costume —
disse Kubiken, um tanto secamente. — Até a vista.
Um minuto depois, o helicóptero decolava, rumo à base
da Sekreten Polizeiken, levando o chefe desta... e uma
infeliz garota chamada Margie Jones, loura e de olhos
escuros.
A primeira etapa da viagem durou apenas uma hora. O
helicóptero pousou num pequeno aeródromo, onde os
esperava uma avioneta azul e vermelha, à qual se
transferiram para imediatamente retomar voo. Na veloz
avioneta, que precisou se reabastecer uma vez apenas,
permaneceram nada menos que seis horas, sempre voando
para oeste. Terminada essa etapa, em outro pequeno
aeródromo, passaram a outro helicóptero.
Já era quase meio-dia e Margie, que dormira durante a
maior parte da viagem na avioneta, dedicou-se a contemplar
o território que sobrevoavam. Bosques, bosques, bosques e,
em muitos pontos, neve. A faixa de um rio, brilhando ao
sol. Depois enormes montanhas nevadas...
Kubiken dirigia frequentes olhares à sua companheira,
cada vez mais irritado com sua falta de interesse pelo lugar
ao qual se dirigiam, ou àqueles que tinham sobrevoado.
Claro que uma pessoa com conhecimento do país e certo
preparo podia ter tirado conclusões, considerando a direção
sempre oeste assinalada pelo sol, a distância percorrida
segundo a velocidade em que iam... Mas, evidentemente,
tais preocupações não ocupavam o pensamento de Margie.
— Estamos chegando — disse de súbito o piloto.
Kubiken olhou para onde o homem indicara. E Margie
também. Ali não havia neve, o terreno era mais baixo e uma
grande extensão parecia dedicada exclusivamente a
pastagens. À medida que o helicóptero foi descendo,
começaram a avistar grandes rebanhos de ovelhas. Depois
distinguiram o rancho enorme, rodeado de currais. A casa
ficava no centro e, perto, viam-se alguns cavalos soltos;
Mas o que abundava eram ovelhas. Havia-as por toda a
parte.
Finalmente, o aparelho pousou diante da casa.
— Vai precisar de mim, senhor Kubiken? — perguntou
o piloto.
— Espero que não. De qualquer modo, revise o
helicóptero antes de retirar-se para descansar.
— Sim, senhor.
Kubiken virou-se para Margie, que sorria maravilhada.
— Que formoso lugar, querido! É um rancho?
— Claro.
— Seu?
— Sim. Vamos para a casa... Continua não querendo
saber onde está?
— Oh! Suponho que em Wyoming, mais ou menos...
Que diferença faz?
— Enganou-se um pouco — sorriu ele. — Mas, já que
não lhe importa, diremos que estamos em Wyoming.
No grande pórtico havia três homens, olhando-os
fixamente, sem ocultar sua surpresa. Antes de chegar diante
deles, Kubiken perguntou:
— Alguma novidade?
Dois dos homens moveram negativamente a cabeça. O
terceiro assentiu.
— Uma mensagem pelo rádio. Referente à nova...
aquisição.
— O Jarvis? — surpreendeu-se gratamente Kubiken.
— Sim, senhor. Já iniciou o contato direto com o
senador Madison. Mostrou-lhe o filme, Em particular,
naturalmente.
— Bem. Qual a reação do senador? Em poucas palavras,
Dutreval.
— Aceitou. Temos mais um sob o controle da Sekreten
Polizeiken.
— Excelente! Mas não podia ser de outra forma.
Suponho que nossa jogada com o homem da CIA, o tal
Cavanagh, tenha influído.
— Assim parece. Jarvis comunicou-nos que perdemos
dois homens nessa operação.
— Sempre ocorrem baixas... — murmurou Kubiken. —
Sobretudo quando não se trabalha bem. Deviam ter sido
mais cautos. De qualquer modo, antes mortos que
prisioneiros. Através deles, a CIA teria podido chegar a
Jarvis, ou a qualquer dos outros subchefes da zona de
Washington e, se tal coisa tivesse acontecido, nós seríamos
obrigados a fugir. Sinto ter que dizer isto, mas para nós foi
bom que os tivessem eliminado quando escapavam da
clínica... Não houve chamados do exterior?
— Nenhum.
— Bem. Vou descansar agora — virou-se para a
estupefata Margie e sorriu friamente.
— Mais alguma notícia sobre a garota chamada Margie
Jones?
— Pequenos detalhes complementares, que pouco
significam: onde nasceu, quando, nome dos pais, estudos...
Temos o informe pronto, se deseja vê-lo.
— Depois. Vou dormir até a noite e, então, examinarei
tudo. A propósito — sorriu divertido —, esta é Margie
Jones. Venha, Margie.
Como uma menina perdida, ela o seguiu ao interior da
casa, levando sua maleta. O mobiliário era modesto e velho,
inclusive tosco. Mas a casa era muito grande, com várias
alas e corredores que levavam a anexos.
Kubiken abriu uma porta, entrou e esperou que Margie o
fizesse. Tornou a fechar, tirou-lhe a maleta e disse:
— Este será nosso quarto.
Ela olhava para todos os lados, entre indecisa e ainda
muito surpreendida. Quando tornou a olhar para Kubiken,
este havia aberto sua maleta e estava retirando os maços de
cédulas. Contemplou-o em silêncio. Não parecia ter grande
interesse pelo dinheiro, mas sobressaltou-se quando o viu
apoderar-se do estojo que continha a seringa e as ampolas
de morfina que restavam no pacotinho fornecido por Wayne
T. Madison.
— Espero que não se importe que eu guarde o dinheiro.
— Não, o dinheiro, não... Mas, Oskar, você sabe que
preciso da droga...
— Tratarei de que não lhe falte, não se preocupe...
Acaso a deseja agora?
— Não. Posso esperar até amanhã...
— Sempre que precisar, peça-a.
— Preferia...
— Esqueça suas preferências — replicou asperamente
ele. — Aqui sou eu quem toma todas as decisões.
Ela parecia a ponto de chorar.
— Você está zangado comigo?
— Não. Mas até no vício deve haver certa disciplina.
— Como queira, Oskar.
— Está com sono?
— Não. Dormi durante a viagem e...
— Eu sei. Está bem, mas como não dormi e esta noite
terei muito o que fazer, descansarei agora.
— Você quer...?
— Falei em descansar, não em outra coisa. Você poderá
fazer o que quiser: passear, ouvir rádio, ver televisão... Mas
não abra nenhuma porta que esteja fechada, nem faça
perguntas a ninguém. Também não se afaste muito da casa.
Entendido?
— Entendido... Que vou fazer aqui, nesta casa, neste
lugar?
— Amanhã resolveremos a respeito. Mas, desde já fique
sabendo de uma coisa: aqui todo mundo trabalha, todo
mundo é útil. Que sabe fazer?
— Muitas coisas... e nenhuma.
— Examinarei depois a sua ficha completa e espero que
você tenha alguma habilidade especial.
— Eu pensei que... que você tinha me trazido aqui
como... como sua companheira...
— Isso também. Agora me deixe dormir. E não esqueça
o que lhe disse.
CAPITULO SETIMO
Praticamente desarmada

Não esqueceria absolutamente nada do que tinha visto,


embora na verdade não fosse muita coisa. Ovelhas, prados,
montanhas e homens, muitos deles à cavalo e
acompanhados de cães pastores que os ajudavam a guardar
os rebanhos. O clima era frio e isso pareceu ser a única
coisa que incomodou um tanto a formosa e simpática
Margie Jones, a qual aceitou agradecida um colete de couro
de um dos pastores montados.
Passeou a cavalo e a pé, não fez perguntas a ninguém,
nem abriu nenhuma porta que estivesse fechada. Entretanto,
tinha um ouvido excelente e uma vista perfeita, bem como
uma capacidade dedutiva que teria arrepiado os cabelos de
Oskar Kubiken se este pudesse ler seus pensamentos.
Mas Oskar Kubiken dedicou-se a dormir até às seis da
tarde e, depois de comer algo rapidamente na grande
cozinha do rancho, reuniu-se na sala com os três que Margie
vira no pórtico, à sua chegada. Pediu a ficha completa da
jovem e, após examiná-la detidamente, olhou para ela, que
estava sentada no tapete, diante da lareira, com cara de frio
e como alheia ao que pudessem falar os quatro homens.
— Consta aqui que você fez um curso de estenografia.
Ela virou-se, sorrindo timidamente.
— Sim, é verdade. Mas depois o trabalho não me
agradou.
— Por quê?
— Me aborrecia.
Os três homens sorriram, levemente irônicos. Kubiken
franziu a testa.
— Daqui por diante não a aborrecerá, garanto-lhe. Estes
são Colwak, Vanesky e Dutreval. Em minha possível
ausência, qualquer dos três poderá lhe dar ordens, embora
você fique diretamente subordinada a Dutreval. Ele lhe dirá
qual é seu trabalho.
— Tenho que trabalhar?
Dutreval soltou uma gargalhada e adiantou-se à resposta
de Kubiken:
— Procurarei fazer com que seu trabalho não seja
excessivo, miss Jones.
— Ela fará o que tem que fazer — grunhiu Kubiken. —
Mostre-lhe seu posto de trabalho, Dutreval.
— Não precisa de mim aqui? — este arqueou as
sobrancelhas.
— Não. Vanesky, Colwak e eu resolveremos o resto.
Dutreval assentiu e levantou-se, fazendo um sinal a
Margie, que o seguiu rapidamente, como assustada. Saíram
os dois e Dutreval conduziu-a a um dos quartos cuja porta
estivera fechada durante todo o dia. Abriu-a com uma chave
que trazia presa ao pescoço por uma corrente. Acendeu a
luz, fez Margie entrar e foi atrás dela, fechando a porta.
Margie olhava os aparelhos que havia no quarto. Claro,
um deles era um rádio de ondas curtas. Havia também três
telas de televisão, duas máquinas de escrever, um interfone
e o que devia ser um telex... Desconcertada, ela virou-se
para Dutreval.
— Tudo isto é necessário num rancho?
— Mais ou menos — sorriu ele. — O rádio nos informa
sobre as condições defenda das ovelhas, assim como o
telex. O interfone nos permite comunicação com todo o
rancho, sem necessidade de deslocar-nos continuamente de
um lado para outro. Pelas telas de televisão, podemos
controlar os arredores do rancho, pois às vezes, em pleno
inverno, há pequenas avalanchas que podem sepultar grupos
de ovelhas.
— Ah!
Dutreval parecia esforçar-se para conter o riso.
— Quanto às máquinas de escrever, logo deverá
acostumar-se com uma delas. Se o rádio chamar, utilize o
interfone para localizar-me. Se funcionar o telex, espere
simplesmente que a mensagem termine, arranque a tira de
papei e passe a máquina, com o maior espaço possível entre
as linhas. Também deverá chamar em seguida, para que eu
leia o que...
Súbito, sobressaltando os dois, justamente o telex
começou a funcionar, expelindo a tira de papel com
palavras escritas em inglês, mas que para Margie não
significara coisa alguma quando a arrancou, terminada a
mensagem.
— Mas... que diz aqui? — perguntou.
— Passe a máquina — riu finalmente Dutreval.
Assim fez ela, entregando-lhe depois o papel, no qual
transcrevera o conteúdo da tira:
Cento zero vinte cinco montanhas trezentos
altura celeste ovelhas dobro planície neves caos
quatorze vinte nove um mil oitocentos dois
bosques.

— Não sei se copiei bem. Eu...


— Está bem — sorriu Dutreval — não se preocupe.
Sentou-se à mesa e, debaixo das linhas
incompreensíveis, começou a fazer anotações. Quando
terminou, sorriu mais uma vez e levantou-se.
— É... é um código? — pareceu compreender Margie.
— Com efeito. Uma cifra comercial. Não se mova daqui
e continue atenta a tudo isto. Eu não demoro.
Saiu do quarto e voltou cinco minutos depois, sem o
papel escrito a máquina. Durante quinze minutos mais,
esteve dando explicações a Margie, que parecia fazer muito
esforço para compreender e reter tudo. Foram acesas as
telas de televisão e, com efeito, apareceram os pastos, em
três pontos diferentes, tão bem escolhidos que, daquele
quarto, praticamente, era possível controlar todos os seus
pontos de acesso.
Margie Jones parecia maravilhada.
— Está tudo muito bem organizado neste rancho, não é
mesmo?
— Sim — assentiu Dutreval. — E agora a deixarei
sozinha. Não se descuide de nada.
— Está bem... Tenho que ficar aqui muito tempo?
— Não sei. Mas aprenda a ter paciência. Até logo.
Novamente só, ela ficou imóvel, pensativa, durante uns
minutos. Depois foi colar a orelhinha à porta e, por fim,
sentou-se diante do rádio de ondas curtas. Ficou um instante
olhando-o, na dúvida. Súbito, decidiu-se: seus dedos
tocaram o dial de troca de onda. Ato contínuo, começou a
soar no quarto uma espécie de zumbido intermitente.
Em menos de um segundo depois, todo o rancho entrava
em ebulição. Ouviam-se vozes, exclamações, correrias.
Margie, sobressaltada, quis colocar de novo o dial na
posição costumeira e o sinal de alarma continuou soando
em toda a casa. Ainda não tivera tempo de corrigir seu erro,
quando a porta do quarto se abriu impetuosamente e
apareceu Oskar Kubiken, lançando chamas pelos olhos,
seguido de seus três homens de confiança, que estavam tão
pálidos como ele.
— Que está fazendo?
Margie levantou-se de salto e olhou-o com expressão
aterrada.
— Nada... — balbuciou. — Nada... Só toquei este... este
disco e...
A violenta bofetada atirou-a a um canto do quarto, onde
ficou estendida como um trapo, aparentemente sem
sentidos. Kubiken precipitou-se para o rádio, moveu
adequadamente o dial e o alarma deixou de soar. Depois
olhou a imóvel Margie e lançou uma imprecação. Saiu ao
corredor que estava cheio de homens ainda inquietos, e
indicou dois deles.
— Vocês. Entrem aí, levem essa mulher e matem-na.
Não quero saber mais nada a respeito dela... Nem sequer
onde enterraram seu cadáver.
— Sim, senhor.
Os dois homens agarraram Margie e levantaram-na do
chão.
— Não está se precipitando um pouco? — perguntou
Dutreval.
— Precipitei-me ao trazê-la aqui — replicou Oskar
Kubiken. — Isso demonstra que também eu posso cometer
erros.
— É muito bonita — sorriu Dutreval.
— Sim. Quis desfrutar um tempo de sua companhia
justamente por isso. Mas não vale a pena. No exterior terão
se alarmado com essa mudança de onda e mulher nenhuma
vale a reprimenda que vamos receber... Vou enfrentar essa
reprimenda. Chamarei para dizer que houve uma pequena
avaria, simplesmente. Você, enquanto isso, responda à
mensagem do telex: já estudamos a resposta.
— Está bem — murmurou Dutreval.
— E vocês, esperam o quê? Levem-na ao curral pequeno
e matem-na. Os outros, cada um aos seus afazeres.
As ordens de Kubiken foram obedecidas rapidamente.
Dutreval colocou-se diante do telex e começou a enviar a
mensagem, enquanto Kubiken atendia ao rádio, já na onda
adequada, dando explicações em inglês aos seus radio-
escutas. Explicações que foram aceitas de imediato. Quando
ele terminou, Dutreval estava ainda enviando sua resposta.
— Diabo! — resmungou. — Isto me ensinará a não
variar nunca, por nada nem por ninguém, minha linha de
conduta... Que há?
— Estou terminando... — murmurou Dutreval. — Tenho
que transmitir com cuidado para não errar o código.
— Bem. Revise depois a posição das sentinelas. Se
alguma não tiver recebido o sinal de normalidade, será
preciso avisá-la.
— De acordo.
Kubiken saiu do quarto e Dutreval terminou de enviar a
mensagem. Então saiu também, precipitadamente.
Segundos depois, deixava a casa e corria para o curral
pequeno. Já estava escuro, embora no alto das longínquas
montanhas nevadas ainda houvesse claridade.
— Será uma pena que morra assim... — raciocinava
Dutreval. — Oxalá eu chegue a tempo.
***
Margie Jones jazia no chão sujo do curral e os dois
homens a contemplavam com a testa franzida, um tanto
indecisos. Repentinamente, um deles sacou o revólver e
resmungou:
— Bom, vamos acabar com isto. Depois a enterramos
no...
Não pôde concluir. Ficou petrificado, sem fôlego, ao
receber no baixo-ventre aquele pontapé que lhe chegou do
solo. Lívido como um cadáver e praticamente tão
inutilizado como se na verdade o fosse, só pôde ver a jovem
levantando-se velozmente para enfrentar seu companheiro,
que soltou uma exclamação e quis empunhar sua arma.
O paralisado indivíduo viu o golpe que a garota desferia
com a mão direita contra a cabeça de seu companheiro. E
ouviu a testa deste estalar. Um estalido impressionante, que
o fez estremecer, que lhe permitiu reagir, enquanto seu
companheiro caía de costas, fulminado.
Ergueu finalmente o revólver, mas a garota agarrou-o
pelo pulso, ergueu-lhe o braço, passou por baixo e retorceu-
o, colocando-se às suas costas. Ele abriu a boca para lançar
o terrível grito de dor, quando a articulação de seu cotovelo
partiu-se como um graveto.
Mas tampouco para isto teve tempo. O outro braço da
garota loura passou por diante dele, incrustou-se em sua
garganta, puxando para trás, e a voz faltou-lhe, enquanto ele
deixava cair o revólver. E enquanto compreendia que aquela
jovem não era normal, experimentava nas virilhas a pressão
de suas pernas, pois ela lhe montara nas costas... O puxão
para trás, praticado pelo braço, era irresistível e ele
desmoronou de costas, ficando sobre sua adversária, que
nem seques gemeu. A mão direita foi em auxilio da
esquerda, dando-lhe mais força para exercer a pressão.
Um negrume total se formou diante dos olhos do
homem, sua cabeça deu voltas, um zumbido começou a
encher-lhe os ouvidos... E súbito tudo terminou. Seu
gemido surdo e continuo foi cortado. Só se ouvia o ofegar
da gata encarapitada em suas costas, que ainda apertou por
mais uns segundos. Depois o soltou, tirou-o de cima e
levantou-se. Apanhou os revólveres dos dois, enfiou um no
decote e, empunhando o outro, dirigiu-se rapidamente para
a porta do curral. Antes de sair, assomou cautelosamente a
cabeça... e retirou-a com vivacidade. Quase imediatamente
uma sombra apareceu na porta.
— Troy! — chamou o recém-chegado Dutreval. —
Onde...?
Sobressaltou-se, afogando-se com sua própria voz,
quando a silhueta feminina apareceu diante dele, com um
braço levantado. Não teve absolutamente tempo de reagir.
O braço baixou, o revólver golpeou-lhe a testa e ele chegou
num instante ao mundo dos sonhos.
Assim não pode assombrar-se, como sem dúvida teria
ocorrido, se tivesse visto a tímida, frágil e assustadiça miss
Jones tirar-lhe a pistola, jogá-la para o fundo do curral vazio
e, após coloca-lo vigorosamente de pé, carrega-lo sobre os
ombros com toda a facilidade.
***
Quando abriu os olhos, não pôde ver nada; tudo era
escuridão ao seu redor. Tudo, exceto a mancha clara que se
inclinava para ele. Quando compreendeu o que era,
recusou-se a acreditar... Podia ser, realmente, a loura cabeça
de Margie Jones?
— Parece-me que já acordou, Dutreval. Pode me ouvir?
— Sim, estou ouvindo-a.
— Será inútil você tentar mover-se. E muito menos
levantar-se. Amarrei-lhe as mãos e os pés com seu cinto e
pedaços de suas calças. Também com tiras de roupa, prendi
seu pescoço ao tronco de um abeto, pelo que nem sequer
poderá mover a cabeça. Compreende?
— Compreendo.
— Enquanto você estava desacordado, tirei a pólvora de
vários cartuchos e vou dizer-lhe quais são minhas intenções.
Se responder às minhas perguntas, chegaremos a um acordo
conveniente. Se não, espalharei a pólvora pelo seu rosto,
especialmente sobre os olhos, e a incendiarei com o seu
isqueiro.
— Não, não, não...!
— Garanto-lhe que não tenho vontade de fazer isso. O
que verdadeiramente desejo, e muito, é terminar logo com
este assunto e ir para um lugar onde não faça frio. Detesto o
frio, Dutreval. Você é francês?
— Não... Canadense.
— Ótimo. Vejamos como anda a nossa política de boa
vizinhança, okay? Por minha parte, acho você simpático e
lhe darei uma oportunidade de salvar a vida colaborando
comigo. Os dois homens que foram matar Cavanagh
fracassaram em seu intento; eu mesma matei um deles, pus
o outro numa mesa de operação, mostrei-lhe um bisturi e
praticamente não foi necessário nada mais para que o pobre
compreendesse. Assim, falou-me da Sekreten Polizeiken e
do homem que, para ele, era seu chefe: um tal Jarvis, que
sempre estava vigiando a zona do Capitólio em busca de
vítimas. Compreendi que esse Jarvis só podia ser um
intermediário e, para não alarmar a Sekreten Polizeiken, fiz
com que dois agentes da CIA se vestissem de faxineiros e
corressem para o carro que esperava os assassinos. Então
fingimos matá-los, os outros escaparam e, como seus
companheiros tinham aparentemente sido eliminados e
depois a CIA fez correr a notícia de que Cavanagh tinha
morrido, todos vocês se tranquilizaram... Está me seguindo,
Dutreval?
— Estou...
— O ato seguinte foi simular o enterro de Cavanagh,
enquanto este era levado a outro lugar. E também enquanto
isso, tendo já ouvido o homem da mesa de operação, eu
sabia que a Sekreten Polizeiken se dedicava a procurar
políticos e militares importantes cujas vidas não fossem
muito decentes. Obtinha provas de suas sujeiras, mostrava-
as a eles e, a partir de então, salvo se quisessem morrer ou
que todo o mundo se inteirasse de suas patifarias, ficavam
às ordens da Sekreten Polizeiken. Correto?
— Correto.
— Bem. Então a CIA conseguiu-me um parceiro para
que eu pudesse realizar minha jogada. Dezena de homens
pôs-se a localizar a pessoa cujas características eu indiquei.
Finalmente, escolhi o senador Wayne T. Madison para
secundar-me. E parece que nos saímos bem, os dois. Jarvis
se deu conta de que alfo ocorria, vigiou-me, chamando
Oskar Kubiken, fizeram-me uma oferta... Em resumo, o
senador, que é pessoa perfeitamente honrada, ficou preso
nas malhas da Sekreten Polizeiken; usando a identidade de
uma jovem chamada, Margie Jones, que de fato existe, mas
que foi temporariamente retirada de circulação pela CIA,
pude chegar, assim, a um escalão mais alto: Oskar Kubiken,
que afirma ser o chefe da Sekreten Polizeiken. Mas
deixaremos as perguntas para o fim da minha explicação
que é a seguinte: Cavanagh está salvo; a casa perto de
Washington sofre estreia vigilância da CIA, de modo; que
os seis homens que lá estão encontram-se dentro de um
círculo de ferro e serão detidos quando eu der a ordem;
enquanto alguns companheiros se dedicam a procurar
pessoas pouco decentes entre ocupantes de altos postos na
política dos Estados Unidos, outros têm-se empenhado em
rastrear-me durante todo o tempo e, assim, enquanto
voávamos de Washington para cá, diversas estações de
rádio e radar, avionetas e helicópteros estiveram sempre
indicando minha posição, de onde se depreende que, neste
momento a CIA já deve ter enviada algumas dezenas de
agentes ao meu encontro.
— Mentira... Mentira!
— Essa esperança só o prejudica, Dutreval. Mas pior
para você. Eu sei que quando conseguir; dar a ordem de
ataque pelo rádio deste rancho, tudo aqui será arrasado. Mas
antes vamos às perguntas, que deixei para o fim. Primeira:
para quem Oskar Kubiken trabalha?
— Não sei.
— Dutreval, a pólvora...
— Juro que não sei!
— Deixaremos isto pendente. Com quem vocês se
comunicam pelo rádio e o, telex?
— Pelo rádio entramos em contato com uma emissora na
costa do Pacífico. Pelo telex recebemos, em código,
informações sobre as pessoas que estão sob o controle da
Sekreten Polizeiken.
— Há um arquivo desses homens controlados por
vocês?
— Sim, no rancho... No quarto de Kubiken, mas não sei
exatamente onde. Lá ele guarda todos os seus papéis.
— Muito bem. Essa emissora da costa do Pacífico, por
quem é manejada? Pelos russos, talvez?
— Não sei. Sempre usamos o inglês nas comunicações.
— Entretanto, o nome Sekreten Polizeiken tem qualquer
coisa de russo, não lhe parece?
— Nunca me interessei por isso. Mas também se parece
com certas línguas centro-europeias.
— É verdade. Teremos que perguntar isso ao querido
Oskar, pois parece que é o único que sabe o que é
exatamente a Sekreten Polizeiken, para quem está
trabalhando, quais são seus objetivos finais... Você sabe
algo a respeito disto?
— Trabalho com Oskar por dinheiro, eis tudo. E os
outros também. Sou o chefe da Seção de Relações Públicas
do Interior. Vanesky é o chefe da Seção de Ataque. Colwak,
da Seção de Investigação.
— Isso deve significar que você recebe informes de
agentes como Jarvis, por exemplo, e passa-os a Oskar, que
manda Colwak averiguar tudo quanto possível sobre
determinado personagem. Se esse personagem convém a
seus planos, Oskar o procura pessoalmente e, por meio de
chantagem, deixa-o sob seu controle. Se algo não vai-bem,
a Seção de Ataque soluciona o problema, matando a quem
convenha... Não?
— Sim. Todos os homens que vêm a este rancho passam
a maior parte do dia como pastores e de noite assistem à
aula, por turnos. A cada um ensinamos suas funções dentro
da Seção a que Oskar os destina.
— Qual a nacionalidade desses homens?
— São de qualquer nacionalidade, inclusive americanos.
— Bem. Parece que a Sekreten Polizeiken é uma
organização perfeita em seu gênero. Imagino que vocês
tenham um bom número de... colaboradores.
— Há muita gente importante nos Estados Unidos que
tem do que se envergonhar — afirmou Dutreval.
— Sim... Em todo o mundo há gente suja, infelizmente.
Vocês localizam tais pessoas e as dominam. Mas para quê?
— Não sei. Kubiken diz que ainda não chegou o
momento. Tem seu arquivo, do qual constam todos esses
personagens, cada vez mais numerosos, mas diz que,
enquanto não chega o momento, devem ser deixados
tranquilos.
— O momento de quê?
— Não sei! Sei que pensa utilizá-los, mas ignoro em
quê. Faço meu trabalho, sou bem pago e espero o momento
em que, como diz Kubiken, possa viver como um rei.
— Ao que parece, Dutreval, há coisas que não posso
saber por meio de você. Primeiro: a nacionalidade dos que
dirigem a Sekreten Polizeiken. Segunda: a identidade de
todas as pessoas que lhe estão submetidas. Terceira: que
pretende a Sekreten Polizeiken exatamente com tudo isso?
— Não posso responder a nenhuma dessas perguntas.
— Mas Kubiken poderia, não é?
— Ele sim. Ele sabe tudo.
— Então o remédio será perguntar-lhe.
— Gostaria que se atrevesse a isso — riu ironicamente
Dutreval.
— Oh! Eu me atrevo a qualquer coisa. Verdade que, esta
vez, as circunstâncias não me são muito favoráveis: não
disponho de rádio de bolso nem de meu equipamento
habitual. Considero-me desarmada, pois para mim um
revólver não significa grande coisa. Mas, claro, não me
poderia arriscar a trazer minha maletinha com todos as seus
truques... Enfim, terei que me arranjar de um modo ou de
outro. Se conseguir aproximar-me do rádio de vocês,
poderei, trocando a onda, dar a ordem de ataque aos meus
companheiros...
— isso é mentira.
— Não seja idiota, Dutreval. Será que não compreende?
A Sekreten Polizeiken está a ponto de dissolver-se.
Desaparecerá sem deixar traço. É o que sempre acontece
quando eu intervenho. A propósito, ainda não me
apresentei: já ouviu falar de “Baby”, da CIA.
O canadense estremeceu, mais nada disse. Margie Jones
tornou a sorrir.

— Bom, você terá que me perdoar. Normalmente eu o


deixaria adormecido por dois dias com uma de minhas
ampolinhas de gás, porém, como já lhe disse, não tenho
aqui o meu material e...
— Vai... me matar...?
— Não. Amordaça-lo, apenas. Você será recolhido por
meus companheiros. E já não posso perder mais tempo, pois
quero ter uma conversa com Oskar... Abra a boca.
Ele abriu-a, mas foi para protestar. Foi o mesmo. Um
chumaço de pano nela entrou, depois uma tira concluiu o
solido amordaçamento.
CAPITULO OITAVO
Era possível tudo aquilo?

A luz das lanternas iluminava em cheio os dois homens


que estavam sendo examinados por seus companheiros.
— Troy está com a cabeça partida — informou o que
melhor examinara este.
— E Bokopoulos foi estrangulado — disse outro.
Oskar Kubiken estava lívido. Junto a ele, Colwak e
Vanesky não pareciam exatamente tranquilos. Outro
homem entrou no curral e murmurou umas palavras ao
ouvido do último que olhou para Kubiken.
— Dutreval não obedeceu à ordem de percorrer o
circuito de vigilância... — disse.
— Não foi visto por ninguém.
Kubiken refletia, sombrio. Era um desses momentos em
que seus olhos produziam pouco menos que terror.
Rodeando-o, os homens da Sekreten Polizeiken
permaneciam silenciosos, esperando inquietos a temível
reação do chefe.
Mas quando este reagiu, por fim, foi com uma calma que
assombrou a todos.
— As coisas podem ter acontecido de duas maneiras —
murmurou ele. — Ou Dutreval veio aqui e ajudou Margie
Jones, por motivos que não quero considerar, ou ela sozinha
pôde dar conta de Bokopoulos e Troy.
— Sozinha? — pasmou Vanesky. — Mas se os dois
eram justamente os melhores homens do grupo atual e...
Os olhos cristalizados de Kubiken se entrecerraram. E
pareceu a todos que seu enorme corpo estremecia.
— Há uma mulher nos Estados Unidos que podia ter
feito isto, e mais ainda... — o assombro de todos aumentou
à vista das gotas de suor que apareceram em sua testa. —
Mas seria uma espantosa casualidade que Margie Jones
pudesse ser essa mulher. Se é, pode ter liquidado os dois,
surpreendido Dutreval... e toda a culpa seria minha.
Advertiram-me seriamente e, se fui escolhido para esta
chefia, devo-o ao fato de que nunca me interessei por
mulheres... isso é, nunca me interessei pelas que conheci até
agora; entretanto...
Calou-se. Seus homens o olhavam sem se atrever a
pensar que a expressão de Oskar Kubiken, se não era de
medo, pelos menos parecia.
— Se algum dos carros tivesse saído — prosseguiu ele
— as sentinelas nos avisariam. De qualquer modo, vejam se
estão todos. E também os cavalos. Se estão todos, essa
mulher e Dutreval, sejam ou não amigos, encontram-se
perto daqui. Procurem os dois. Mas que alguns fiquem
vigiando o helicóptero. Não deixem ninguém se aproximar
dele, seja quem for...
Estremeceu, levantou a cabeça e todos o imitaram: no
alto do curral, ao mesmo tempo em que brilhava uma
luzinha vermelha, começou a soar aquele zumbido
intermitente de alarma.
— O rádio! — gritou Kubiken. — Quem ficou no rádio?
— Ninguém — respondeu Vanesky, tenso. — Quando
Torka veio dizer-nos que se Bokopoulos e Troy não
voltaram era porque...
— Quatro ao helicóptero! — ordenou Kubiken — Os
outros para a casa, imediatamente. Cerquem-na e atirem
contra quem quer que seja!
Houve dispersão geral, as carreiras. Quatro homens
precipitaram-se para o helicóptero escondido sob um
telheiro e os outros com Kubiken à frente, para a casa,
separaram-se, a fim de rodeá-la por completo, arma na mão.
Enquanto corriam para lá, perceberam que o alarma havia
deixado de soar e que as três luzes-piloto estrategicamente
colocadas no alto da casa se haviam apagado. Mas, apenas
cinco segundos depois tornaram a acenderem-se as luzes e o
alarma reencetou seu zumbido intermitente. Quando
estavam a uns cinquenta metros da casa, todas as luzes desta
se apagaram, de súbito.
A escuridão caiu sobre eles tão inesperadamente que
continuaram correndo, às cegas, tropeçando uns nos outros,
caindo, lançando imprecações...
— As lanternas! — vociferou Kubiken.
Vários feixes de luz perfuraram as trevas, iluminando
homens que se punham em pé.
— Para casa! — gritou Vanesky — Se cortaram a
corrente é que estão lá dentro!
Os feixes de luz dirigiram-se à casa, enquanto todos
retomavam sua corrida para lá, rodeando-a. Empunhando
uma das lanternas, Vanesky foi o primeiro a chegar à
instalação elétrica e soltou um palavrão ao ver arrancados
os cabos condutores. Pôs a lanterna na mão do homem que
vinha atrás e, com todo o cuidado, conseguiu fazer uma
ligação provisória. A luz voltou à casa, na qual ressoavam
gritos, correrias e ouvia-se a voz de Oskar Kubiken:
— Revistem tudo, olhem em todas as dependências, em
todos os cantos!
Por seu lado, ele correu ao rádio. Ali não havia
ninguém... mas a janela estava escancarada, deixando entrar
o frio da noite.
Kubiken estremeceu, mas não de frio... Uma mulher
sozinha podia fazer tudo aquilo? Ou teria mesmo Dutreval
se aliado com ela? Era absurdo admitir isto. Não... Ela
matara também o canadense, ou o prendera em algum lugar
seguro. E tinha voltado à casa, usado o rádio por cinco ou
seis segundos e mudado a onda, deixando novamente em
marcha o alarma, para ir depredar a instalação da luz.
Depois, enquanto todos entravam em tropel na casa, tinha
voltado ao quarto do rádio para escapar pela janela.
Era isto possível?
Ele colocou o dial na posição estabelecida e o alarma
cessou. O melhor era chamar imediatamente a estação
receptora, pedindo outra vez desculpas pela avaria. Sim, era
melhor não inquietar ninguém fora dali...
Estava a ponto de fazer o chamado quando, lá fora, com
toda a clareza, ouviu o galope de um cavalo.
Esqueceu imediatamente o rádio, lançando-se para o
corredor.
— Vanesky! — gritou. — Está fugindo a cavalo!
Apareceu Vanesky, com vários homens de sua Seção.
— Iremos atrás dela também a cavalo — disse. — De
noite...
— A cavalo não a alcançaremos nunca — interrompeu
um de seus homens. — Eu a vi montar esta manhã e sei que
o faz muito melhor que nós. Com os carros...
— Não seja estúpido! — grunhiu Vanesky. — Com os
carros nunca poderemos alcançá-la, se for para as
montanhas. O que devemos fazer...
— O que devem fazer — decidiu Kubiken — é sair atrás
dela agora mesmo, a cavalo, de carro e a pé... Usem todos
os meios, mas agarrem-na o quanto antes!
Os homens atropelaram-se para afastar-se pelo corredor,
enquanto Kubiken voltava ao quarto do rádio e demais
aparelhos. Olhando a janela aberta, pensava nos dois
homens mortos, no desaparecimento de Dutreval, no alarma
dado pelo rádio, na extinção das luzes, no cavalo que fugia,
nos giros e regiros que todos estavam dando em torno do
que parecia um fantasma...
— Tem que ser ela — murmurou. — Não sei como pode
acontecer, mas tem que ser ela...
Olhou o rádio, mas desistiu em seguida de fazer aquele
chamado. Se Margie Jones era quem ele temia, o melhor a
fazer era afastar-se dali o quanto antes.
Pensando nisso, enquanto fora se ouviam roncos de
motores e o galopar de cavalos distanciando-se, Oskar
Kubiken fez meia-volta e lançou-se pelo corredor.
Segundos depois entrava em seu quarto, indo diretamente
onde Margie Jones tinha deixado sua maleta. Abriu-a e
começou a atirar roupas par todos os lados. Arrancou-lhe a
tampa, rompeu-a, desprendeu o forro, examinou tudo... e
não encontrou nada. Nada que pudesse convencê-lo de suas
suspeitas. Apenas a maleta comum de uma mulher comum.
Foi até a cômoda, afastou-a com o forte puxão e apalpou
a parede, atrás. Encontrou uma pequena protuberância, que
apertou. Um retângulo se abriu na base da parede. Começou
a tirar maços de cédulas, que foi amontoando a seu lado.
Depois tirou uma pasta, na qual meteu um livro belamente
encadernado, que também tirou da parede. Guardou também
na pasta o dinheiro, fechou o vão aberto na parede, ergueu-
se, apanhou a pasta e dispôs-se a empurrar a cômoda.
— Olá, queridíssimo Oskar.
Da porta, Margie Jones apontava-lhe firmemente um
revólver.
Um arrepio percorreu o chefe da Sekreten Polizeiken, ao
ver a expressão dos olhos azuis de Margie... Azuis? Mas
não eram escuros? Azuis ou escuros, sua expressão era tal
que o gigantesco personagem sentiu-se incapaz de reagir.
— Por favor, atire a pasta ali, queridão. Espero que não
tenha esquecido nada.
— “Baby”? — perguntou ele, num murmúrio.
— Sim, você teve o grande privilégio de conhecer-me. A
pasta. Depois vá sentar-se na cama, bem no centro, com as
pernas cruzadas e as mãos em sua redonda cabeça.
Kubiken obedeceu. Sem deixar de olhá-la, ela apanhou a
pasta e foi sentar-se numa poltrona, sobre cujo braço direito
deixou o revólver. Abriu a pasta, contemplou
desdenhosamente o dinheiro e tirou o bonito livro. Um
sorriso apareceu em seus lábios rosados. Folheou o livro,
depois começou a lhe dar voltas entre as mãos, como
divertida. Finalmente, meteu uma unha sob o couro da
encadernação e levantou-o cuidadosamente por uma
extremidade. Aos poucos, arrancando-o... evitando que
caíssem no chão todos aqueles microfilmes bem estirados
que foram aparecendo...
Assentiu com a cabeça, guardou tudo de novo na pasta e
olhou para Kubiken.
— De acordo — disse. — Como nós dois sabemos tudo
isso dos homens de diversas nacionalidades treinados aqui
por vocês, vamos passar diretamente às três perguntas que
ficaram sem resposta em minha conversa com Dutreval.
— Está perdendo seu tempo — sorriu Kubiken.
— Primeira pergunta: todos estes microfilmes contêm
dados sobre os importantes personagens americanos que
estão sob o controle da Sekreten Polizeiken?
— Sim. Todos eles são puro lixo.
— Lamentavelmente. Mas a respeito da moralidade dos
mesmos, a CIA tomará as medidas que considerar úteis. É
assunto que não me compete, embora seja triste saber de
sujeiras como as que você pensou que havia na vida de
Wayne Madison...
— Tudo foi preparado por você?
— Tudo.
— Eu devia ter deixado que Jarvis a matasse... Ou matá-
la eu mesmo, na cama, quando tive seu pescoço entre
minhas mãos.
— Se tivesse apertado um pouco mais, você já estaria
morto. Duvida? Em primeiro lugar, eu não dormia. Em
segundo, não o abracei por ser você o homem de minha
vida, mas para que este anel — mostrou a mão esquerda —
estivesse em contato com sua nuca. Se tivesse insistido em
seu propósito inicial de matar-me, eu só precisaria apertar
um pouco para que a finíssima agulha envenenada saísse e o
matasse em menos de três segundos.
— Não é verdade...
Ela sorriu desdenhosamente.
— Segunda pergunta: que se propunha exatamente a
Sekreten Polizeiken com toda essa gente importante sob
suas ordens?
— Governar os Estados Unidos.
— Governar... onde? — surpreendeu-se “Baby”.
— Nos Estados Unidos.
— Ora essa... Você está doido?
— É um projeto que há anos está em marcha. SE
conseguir escapar daqui com vida, você constatará a
importância dos personagens que temos sob controle em
todas as esferas da vida política, militar, econômica e social
de seu país. Esses homens, sempre seguindo minhas ordens,
iriam tomando as grandes decisões americanas de acordo
com minha vontade.
— Um exemplo.
— Um exemplo? Muito bem. Suponhamos, para referir-
nos a algo atual, que se submetesse à decisão do Senado a
atitude a ser tomada no Vietnã: realizar a maior escalada
dessa guerra, ou retirar-nos totalmente de lá. Que pensa
você que aconteceria?
— O que você quisesse, talvez?
— Exatamente. Todos os personagens sob minhas
ordens votariam conforme eu lhes indicasse. Seria feito o
que eu decidisse. Mas em assuntos de tal envergadura,
talvez eu levasse ainda alguns anos para conseguir esse
poder. Entretanto, não seria assim quanto as decisões de
menor porte, que pouco a pouco iriam colocando a política
e a economia dos Estados Unidos em minhas mãos.
— Uma coisa você não teve em conta. Esses homens
que tem uma vida dupla podem ser sujos, mas não ao
extremo de trair sua pátria. Não lhe obedeceriam.
— Eu digo que sim. — tornou a sorrir Kubiken. —
Ignorando pertencer a um grupo numerosíssimo, dirigido
por mim, cada um deles acreditaria que seu voto, afinal de
contas, um só voto, em nada ou muito pouco poderia alterar
a decisão majoritária. Que poderia importar um único voto
de acordo com meu desejo? Mas ao mesmo tempo outros
muitos também pensariam assim e votariam como eu
mandasse, na ignorância de que tantos outros votos eram
iguais ao seu, não por casualidade, mas porque assim eu
decidira. E desse modo, com tempo, com paciência, os
Estados Unidos iriam ficando sob meu controle em suas
decisões nacionais e internacionais. Pouco a pouco este país
estaria na verdade governado por mim. Continuaria
havendo um presidente e os outros poderes, mas realmente
o governo seria exercido por mim...
“Baby” suspirou profundamente. Estava pálida, mas
serena, atenta, vigilante.
— Parabéns... — murmurou. — É o projeto de maior
envergadura que já chegou ao meu conhecimento.
— Disso não há a menor dúvida. Você pode imaginar?
— Kubiken adotou uma expressão sonhadora. — Os
Estados Unidos governados por um homem que ninguém
conheceria, mas que tomaria todas as decisões e as faria
valer por meio de seus títeres, que não conheceriam uns aos
outros, não saberiam que, todos juntos, estavam colocando
o país em minhas mãos...
— Isso não vai acontecer. Nunca.
— Pensa assim? Está bem, parece que por esta vez você
ganhou. Morrerei, você tem meus arquivos, poderá saber
tudo, desorganizar tudo... Por esta vez, venceu. Mas a
Sekreten Polizeiken sempre estará pendente sobre a cabeça
de vocês. Enquanto num país haja homens corruptos, a
Sekreten Polizeiken, cada vez mais poderosa, irá
descobrindo-os, controlando-os, acabando por governar esse
país, sempre da sombra, sempre sem que pessoa alguma o
saiba. Esta vez fracassei. Não a Sekreten Polizeiken, mas eu
pessoalmente. Posso desaparecer, mas a ideia da Sekreten
Polizeiken está viva, alguém continuará meu trabalho e, em
todos aqueles países cujos dirigentes tenham algo de que se
envergonhar, ela tornará a nascerão episódio que estive
vivendo foi um ensaio. E saiu mal não por defeito do
sistema, mas por defeito meu, por culpa exclusivamente
minha. Isso não importa nada, “Baby”. Nada tem
importância, pois a Sekreten Polizeiken seguirá sua marcha,
ainda que lentamente... E só há um modo de evitá-lo
— Qual?
— Que não haja corrupção entre personagens
importantes, isso lhe parece possível'
— Não, não parece.
— Portanto, vocês todos estão perdidos, Algum dia a
Sekreten Polizeiken triunfará, colocando esses países
corrompidos em melhores mãos.
— Essa é a terceira pergunta: quem esta por trás de
você? Qual o país rico que o financia? Nem o seu nome
nem o da sua... Polícia Secreta definem com clareza a
língua desse país. Mas eu penso que um plano tão
formidável só poderia ser concebido pela Rússia. Você é
russo?
— Sou o chefe executivo da Sekreten Polizeiken.
— Quem a financia?
— Sou o chefe executivo da...
— Já conheço essa canção — cortou “Baby”. — E lhe
direi que um de seus homens também quis ser duro e
valente. Mas estendido numa mesa de operação, não tardei a
convencê-lo de que se pode ter coragem para morrer, mas
não para ser operado E isso, Oskar, é uma insignificância,
com parado com o que sou capaz de imaginar para
convencer você.
— Tudo está previsto — sorriu Kubiken.
— Tudo?
— Absolutamente tudo. Você nunca saberá quem
financia a Sekreten Polizeiken. Nunca.
— Quando eu o tiver sobre uma mesa de operação...
— Jamais me terá sobre uma mesa de operação... salbo
para fazer-me a autópsia. E isso não creio que lhe seja de
grande utilidade. Bem... Meus cumprimentos. “Baby”: você
ganhou. Mas lembre-se: só por esta vez.
Oskar Kubiken baixou as mãos, arrancou com dois
dedos um dos botões de sua roupa e, sorrindo ironicamente
quando “Baby” lhe ordenou que ficasse quieto, levou o
botão à boca, engolindo-o.
Quando a mais formidável espiã de todos os tempos
chegou precipitadamente junto a ele, o chefe visível da
Sekreten Polizeiken estava morto.
ATÉ QUANDO?
— E depois? — perguntou Cavanagh.
— Depois chegaram os Johnnies e o rancho ficou
totalmente sob o controle da CIA. Todos os homens da
Sekreten Polizeiken que não morreram durante o assalto
foram interrogados até o limite, mas nenhum deles sabia
mais do que nós sabemos: Pode-se dizer que limpamos os
Estados Unidos da presença da Sekreten Polizeiken, mas a
pergunta é: até quando?
— Pensa que voltará? — alarmou-se Pitzer.
Brigitte Montfort olhou-o, depois a Cavanagh, depois a
Johnny-Maxwell, todos a acompanhando em sua visita ao
chefe do Grupo de Ação da CIA, o qual bem cedo poderia
reassumir seu posto, completamente estabelecido.
— Não sei. — murmurou finalmente. — Não sei, mas
deveria voltar.
— Deveria voltar? — estranhou Johnny-Maxwell.
— Sim... Já agradecemos ao senador Wayne T. Madson
por sua colaboração em meu plano, por sua coragem e
decisão prestando-se a representar uma perigosa farsa. Mas
lamentavelmente, nem todos os senadores e personagens
importantes deste ou qualquer outro país têm sua
integridade moral... Penso que, inclusive, nós mesmos
deveríamos criar uma Sekreten Polizeiken.
— Você está brincando — disse Cavanagh.
— Claro que está brincando... — riu Johnny-Maxwell.
— Como brincou ao tocar um cavalo solto para longe da
casa para, enquanto todos saíam como idiotas em sua
perseguição, poder ficar a sós com Oskar Kubiken e
conseguir os microfilmes...
— A propósito — tornou a intervir Pitzer —, gostaria de
saber o que será decidido nas altas esferas com relação a
todos esses cavalheiros corruptos que estavam sob o
controle da Sekreten Polizeiken.
— Por que se preocupa por isso, tio Charlie? Penso que
essa espécie de gente não merece nossa atenção. Talvez
quando lhes façam recriminações, ou os afastem dos cargos
que agora ocupam, considerem- se tratados injustamente...
Por que nos preocupar com esses sujos? Penso que há
melhores coisas em que pensar. Por exemplo, Johnny —
virou-se para Maxwell: — você se lembrou de cuidar
devidamente dos canários de Mr. Cavanagh?
— Claro que sim.
— E a morfina? — disse de súbito Cavanagh. — Você
teve que se injetar morfina para representar o papel de
Margie Jones e...
— Ora essa, querido — riu “Baby”. — Era só um
preparado vitamínico que o bom Ms Gee, do nosso
departamento de truques especiais, me recomendou. O
resto, uma excelente interpretação de garota viciada em
drogas por minha parte. Vocês parecem esquecer que sou
simplesmente genial.
— Sem dúvida... — sorriu Pitzer. — Mas carece de
modéstia.
— Modéstia? E isso para que serve? Vejamos o que fiz,
tio Charlie: tracei um plano excelente, destruí uma
organização poderosíssima e frustrei seu ambicioso projeto,
demonstrando ao mesmo tempo que Mr. Cavanagh jamais
traiu a CIA; permiti a você provar que tem capacidade para
dirigir algo mais que o Setor Nova Iorque; forneci nomes de
pessoas indignas, que serão expulsas de suas importantes
posições; consegui centenas de milhares de dólares para a
CIA; mimei Mr. Cavanagh e, interessando-me por seus
canários, cheguei a compreendê-lo melhor; enviei a Miky
Grogan uma sensacional reportagem em seis capítulos sobre
a Sekreten Polizeiken, que vai aumentar uma enormidade a
venda do Morning News... e disse ao Frankie, pelo telefone,
para fazer a barba que lhe cresceu durante os dias em que
me esperou à saída do jornal, e para vestir smoking, pois
esta noite quero jantar com ele e pedir-lhe desculpas... Puxa,
tio Charlie! Por que tenho que ser hipocritamente modesta
depois de ter feito tudo isto?
Os três homens estavam mudos de pasmo.
Absolutamente incapazes de encontrar uma resposta
adequada, viram Brigitte levantar-se, apanhar sua bolsa, ir a
Johnny-Maxwell e beijá-lo em ambas as faces, repetir a
operação com Pitzer e depois inclinar-se sobre Cavanagh,
lhe acariciando o rosto.
— Cuide-se, Johnny... — murmurou. — Que faríamos
nós e seus canários, sem você?
Beijou-o levemente nos lábios e dirigiu-se à porta. De lá,
virou-se, agitando no ar um dedinho ameaçador.
— E portem-se bem vocês, senão direi à Sekreten
Polizeiken.

Você também pode gostar